Arquivos Mensais: Outubro 2008

Golub

Enquanto leio Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor, da jornalista e escritora croata Slavenka Drakulić (publicado em 1991 e agora traduzido pela Pedra da Lua), vou percebendo um pouco melhor o gradual distanciamento de milhões de antigos cidadãos «europeus de leste» em relação a uma ideologia, e sobretudo a regimes, que até se propunham falar em seu nome e agir em benefício dos seus interesses e da elevação (um dia… um dia…) do seu estilo de vida. Voltarei a este livro, que merece uma atenção mais cuidada. Para já, detenho-me na problemática do papel higiénico. Como se pode ver mais abaixo, um tema que não era de relevância menor. Deve todavia dizer-se que ele apenas se colocou a partir da década de 1960. Até aí, fora dos círculos mais ou menos próximos da nomenklatura, na generalidade dos estados do «socialismo real» o problema não se punha: o método utilizado por quase todas as pessoas era o de folhas de papel de jornal espetadas num prego.

Slavenka fala após a queda do anterior regime: «Eu já estava habituada ao papel Golub, que era de facto muito mais barato. Porém, sempre que o comprava, tornava-me vítima de algo a que não podia escapar: a memória, Vejo-me, em criança, sentada na sanita fria, as paredes pintadas de verde. Tenho uma folha de papel grosseiro na mão, da cozinha chega-me o cheiro (uma vez mais!) a chucrute com feijões, e estou a olhar para a ponta dos meus sapatos pretos de borrracha Borovo, enquanto um dos inquilinos do nosso apartamento comunal grita do outro lado da porta: “Despacha-te. Estás aí dentro a ler, que eu bem sei!” Memórias de pobreza e privação, de uma época em que a pobreza só não parecia terrível porque era partilhada por quase toda a gente – e considerada justa. O mais terrível, porém, era que nós nem sequer sabíamos da existência de algo melhor.»

    Memória, Recortes

    O juiz decide

    Assisti ontem, no final do telejornal da SIC, a uma reportagem tristíssima e revoltante. Tratava de execuções judiciais por dívidas – não sei se é esta a designação técnica correcta, nem isso agora importa – e mostrava situações autênticas, nas quais a câmara acompanhava a entrada dos executores e da polícia na casa das pessoas que naquele preciso momento iam ser despejadas, iam ver bem arrestados, ou eram intimadas a pagarem num prazo curtíssimo as dívidas que se percebia jamais poderem resolver. Mulheres abandonadas pelos companheiros que as tinham deixado com os filhos e com os calotes, homens desempregados, deprimidos e envergonhados, pessoas idosas, doentes e marginalizadas que mal sabiam ler as notificações que tinham recebido e se viam confrontadas com a imposição sem recurso possível «das ordens do meritíssimo juiz». Um dos intervenientes descreveu mesmo uma situação na qual não existiam sequer bens para arrestar, pois a casa já não tinha móveis e a família visada dormia no chão. Bem sei, como dizia do alto do seu diploma provavelmente emoldurado um dos advogados dos credores, que aquelas pessoas «usufruíram sem se queixarem de bens que não pagaram na totalidade», mas não deixa de ser impressionante a insensibilidade da lei perante casos nos quais a pena ignora as voltas da vida de cada um e é, por vezes, claramente desproporcionada em relação à consciência que o presumível criminoso tem do dolo cometido. Não poderá existir, para estas pessoas sem saída, para casos humanos tão pungentes, outro acompanhamento que não seja aquele prestado pelos funcionários judiciais e pela polícia armados de folhas de papel timbrado e de cassetete?

      Apontamentos, Olhares

      Problemas de visão

      Fiquei a saber, através de um programa de  televisão, que em Coimbra ainda existem «lindas tricanas» (para quem não sabe, lavadeiras do Mondego que outrora faziam certos e determinados serviços aos impetuosos moços estudantes com os quais socializavam). Como moro na cidade, apenas com algumas intermitências, desde 1969, e as únicas que vi eram de barro pintado ou decoravam latas de atum em azeite puro, presumo que tenha andado bastante distraído durante todos estes anos.

        Coimbra, Devaneios, Memória

        José de seu nome

        Partilho do aborrecimento de António Figueira diante da forma como, alguns anos após terem sido ejectados da vida, meio mundo começou, tu-cá-tu-lá, a falar de José Cardoso Pires com a maior familiaridade, tratando-o por «Zé», e a referir-se a um José Afonso que jamais conheceu como «o Zeca». Sobretudo se tivermos em consideração que o primeiro, no final da estrada, se queixava de um isolamento que tanto o desgostava, e que o segundo viveu os últimos anos marginalizado por muitos daqueles, cravo vermelho ao peito, que exorbitam agora da sua voz nos alto-falantes da propaganda. De vez em quando, para conter a falta de decoro e a manipulação dos pretéritos, é bom que alguém se sirva de um pouco de memória. E além disso, pelo menos nestes casos, o respeitinho até é uma coisa muito bonita.

          Apontamentos, Memória

          Iniciais S.G.

          Ainda sobre Gainsbourg. Ou melhor, sobre a conversa que tem andado a correr em alguns blogues a propósito da forma como certos cronistas da nossa melhor imprensa se têm servido de posts publicados para, através da vil arte do plagiato, pouparem um pouco no génio e no esforço. Um artigo publicado na Rue 89 refere-se ao modo como, pelo lado do pastiche ou mesmo da paródia, Serge se apropriou de alguns fragmentos de peças clássicas para fazer canções sublimes. E únicas. Claro que falamos de conceitos diferentes e de atitudes dificilmente comparáveis. Este apontamento é apenas um pretexto para falar, à tangente, deles e delas.

            Apontamentos, Música

            Banda (desenhada e lusa)


            Da esquerda para a direita: José Carlos Fernandes, Kim Jong-Il e Luís Henriques

            Do lado dos meus autores favoritos de BD – portuguesa ou alienígena – José Carlos Fernandes e Luís Henriques acabam de publicar na Tinta da China A Metrópole Feérica, o volume primeiro de uma série anunciada como Terra Incógnita, autodesignado «atlas ilustrado de criptogeografia, completo e fidedigno inventário cartográfico de cidades desaparecidas, impérios fabulosos, reinos utópicos & outras ocorrências lendárias». A propósito das declarações do director executivo da Lonely Planet, que decepcionado com a revelação de Thomas Kohsstamm sobre o facto deste ter redigido um guia da Colômbia sem sair de São Francisco afirmou publicamente que todos os restantes guias «são credíveis», cita-se na badana um tal Thomas Hook, fundador da Agência de Viagens Estacionárias Couch Potatoe. Uma frase de Hook serve então de mote para a sequência que parece ficar apalavrada: «Pois eu sonho um dia em que todos os guias sejam escritos sem visitar os locais e os viajantes que os seguem se percam e frequentem restaurantes não recomendados, e comam o arranjo floral sobre a mesa julgando tratar-se de um prato típico, e contraiam doenças desconhecidas da medicina, e façam gestos com as mãos que poderão exprimir afecto no Ocidente Civilizado mas que noutras paragens poderão insinuar que o interlocutor mantém relações íntimas e regulares com caprinos (…), e caminhem inadvertidamente de havaianas, boné de baseball e iPod aos berros sobre o túmulo do profeta Al-nasdaq, e sejam perseguidos por uma turba enfurecida que os quer fritar em azeite como punição por tão inimaginável sacrilégio». Como se pode docilmente constatar, um projecto assaz auspicioso que não deixará de cativar o fiel ledor de obras tão supérfluas quanto inquietantes e aprazíveis.

              Olhares

              Sakharov para Hu Jia

              Era o mínimo. O activista chinês Hu Jia foi condenado a três anos e meio de prisão depois de ter participado em Novembro de 2007, via teleconferência, numa reunião do Parlamento Europeu sobre Direitos Humanos. A sentença, que considerou essa participação um delito por «tentativa de subversão», foi-lhe atribuída em Abril deste ano, durante uma única sessão de julgamento. O mesmo órgão conferiu-lhe agora o Prémio Sakharov, servindo o gesto, nas palavras do seu presidente, Hans-Gert Pöttering, para «enviar um sinal de claro apoio a todos aqueles que defendem os Direitos Humanos na China».

              Uma atitude positiva e mais corajosa que a do Comité Nobel, incapaz de aguentar a pressão das autoridades chinesas. Mais arrojada ainda quando a maioria das agências noticiosas, dos jornais ou das televisões tem atribuído maior importância à reacção negativa de Pequim, e às eventuais dificuldades colocadas à agenda política de Bruxelas na região, do que à questão fundamental. A condenação de Hu Jia foi uma bofetada na cara de quem acreditou nas promessas chinesas quando da candidatura aos Jogos Olímpicos, mas pelo menos neste caso o Parlamento Europeu fez por honrar os seus compromissos. E não se ficou.

                Atualidade, Democracia

                ♪ À luz do dia

                A descrição é quase hermética: «from techno to nujazz, tech house to triphop, minimal tech to downtempo, deephouse to electrohouse-jazz, house-jazz to dance-jazz, breakbeat-jazz to electro-dance». Refere-se à  edição japonesa de um álbum, Daylight, do austríaco Marcus Füreder aka Parov Stelar. Aqui, em «Tango Muerte».

                  Música

                  Sem legendas

                  Algumas das declarações do jornalista-astro e respeitável plumitivo José Rodrigues dos Santos na entrevista publicada hoje no Diário de Notícias a propósito da saída do seu novo romance A Vida Num Sopro.

                  «Temos supostamente grandes autores, mas ninguém os consegue ler, são intragáveis.»

                  «Se calhar temos aqui um pouco de Somerset Maugham, um pouco de Isabel Allende, um pouco de Jeffrey Archer, um pouco de Eça.»

                  «Sinto-me à vontade em qualquer género, o que importa é que eu e o leitor tenhamos prazer.»

                  «No outro dia disseram-me que o Comité Nobel não galardoou Miguel Torga porque ele não tinha muitas obras traduzidas. Não sei se isso é verdade, mas é sintomático.»

                  «Tivemos de baixar o nível de exigência do texto de modo a que ele fosse mais bem compreendido pelos leitores americanos.»

                  «Existe uma elite cultural que não gosta de sexo à portuguesa nos livros (…). Ou seja, amor só em língua estrangeira é que é bom.»

                  Adenda: Mais dados – estes com legendas – no Bibliotecário de Babel.

                    Recortes

                    Adeus, LM

                    «Jogo Duplo», o concurso «do Malato» que passa na RTP1, teve hoje um momento de especial comoção para quem se interessa pelos inesperados movimentos de vaivém da memória colectiva. Trata-se, para quem não saiba do que estou a falar, de uma prova «de cultura geral», com formato de teste à americana, que requer dos concorrentes uma preparação mínima. Pelo menos algo mais, digamos, do que saber nomear a capital da Finlândia, designar qual o presidente norte-americano que foi assassinado em Dallas ou conhecer o símbolo químico da prata. E quem aparece por lá são pessoas com cursos médios ou superiores, uma vida profissional aparentemente estável, e de aspecto urbano e bem-tratado. Pois nesta sessão, se exceptuarmos o mais velho dos cinco concorrentes, nenhum dos outros quatro – com idades que oscilavam entre os 25 e os 37 anos – foi capaz de acertar no nome actual da cidade de Lourenço Marques. Sim, aquela que foi, entre 1898 e 1975, a bela capital colonial de Moçambique. As hipóteses colocadas foram Luanda, Pretória e, naturalmente, Maputo.

                      História, Memória

                      Para o Campo Pequeno, e já!

                      O M. mandou-me um link declarando serem estas coisas que o fazem sentir-se de esquerda. Digo mesmo mais, são coisas destas que me fazem recordar uma das melhores frases de Otelo. Não o Mouro de Veneza, o outro. E são coisas assim que às vezes me fazem estalar o verniz democrático. Mas recomponho-me logo.

                      [Dias depois. Eduardo Pitta teve o cuidado de sublinhar a condição de private joke da sua referência. Mas alguns dos comentadores exaltados que brindaram o Lutz Brückelmann por se ter referido simpaticamente a este post levaram a coisa mesmo a sério, forçando-o a dar uma explicação. Olhem que a famosa frase do Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho sobre a hipotética deslocação dos «fascistas» para o Campo Pequeno foi logo na época tomada como uma hipérbole. Mesmo pela generalidade da esquerda radical. Claro que ninguém quer colocar aquela gente horrível que Laurinda Alves tanto aprecia no Campo Pequeno. Nem sequer para bater palmas a umas quantas chicuelinas, a umas tantas veronicas, a uma ousadíssima pega de cernelha. Era mesmo preciso dizê-lo?]

                        Atualidade, Devaneios

                        O Prémio Dardos

                        Que não se assanhem nem se abespinhem os amigos que têm concedido a este blogue a honra dos dardos. Aos primeiros que o fizeram, ainda remeti uma missiva declarando que há cerca de um ano decidi e fiz constar por entre tôdolos povos somente entrar em cadeias se o meu senhor rei Ricardo, o do Coração-de-Leão, tal me ordenar. Mas por ora, bem medida já uma boa dúzia de probos cavaleiros e de ínclitas damas que me concederam semelhante benesse, muito agradeço que contenham os seus nobres gestos. Sei ser insigne o seu intento e que nenhum deles será sequaz do execrado Xerife de Nottingham, mas rogo encarecidamente que cuidem de entender a minha vontade. Mui penhorado de vosoutros me quedo, cuidando eu também das minhas orações que vos incluem, em assaz risonho quão pacífico ermo. Thank you!

                          Oficina

                          Dois belos feios

                          Cheguei tarde à música do Lucien Ginzburg, de Serge Gainsbourg. Claro que trauteei entre dentes «Je t’aime, moi non plus» e «La décadanse», mas este, descobri-o depois, foi um Gainsbourg menor, apoiado no inevitável poder de atracção de um erotismo exibicionista que não invadira ainda a esfera do público. Depois disso o judeu-francês ficou esquecido durante algum tempo porque não mostrava uma mensagem política intuitiva e a sua auréola de alcoólico, tarado sexual e fumador inveterado parecia constituir a antítese do militante sóbrio, vigoroso e moralmente impoluto que muitos erguiam como modelo a emular. Ainda agora, sempre que tento converter à música de Gainsbourg algumas pessoas que chegam mais ou menos da minha geração e do meu quadrante vivencial, dou de caras, quase sempre, com a incompreensão ou a indiferença.

                          E, no entanto, ela encontrava-se – na percepção da novidade, como na polissemia das letras e na capacidade para combinar influências e registos – muito à frente da música popular francófona do seu tempo. Dizia-me um amigo mais recente que, actualmente, a visão dos pequenos filmes de Serge «envelheceu a de Brel». E eu, que continuo a gostar muito dos discos do filho desobediente da burguesia flamenga, mas que fui corrompido pela intensiva audição periódica do artista de variedades que acendia Gitanes uns nos outros, concordo inteiramente com ele. Olhamos a presença terrena destes dois homens, ambos tão feios e tão singulares, e compreendemos como, sendo eles praticamente contemporâneos – Jacques Brel era até um ano mais novo, embora não pareça -, os separavam universos que pareciam incompatíveis. Um, o do belga, um tanto melancólico, invocava principalmente passados, tempos perdidos e reencontrados, amores errantes, cidades que se cerravam sob uma ordem social odiada que só o sarcasmo fendia. O outro, o do judeu, celebrava cadências em crescendo, instantes que permaneciam em suspenso, uma sensualidade plasticamente alardeada que arriscava cuspir na cara da moral reinante. Eram apenas canções, nada mais que canções? Duvido.

                            Memória, Música

                            A responsabilidade morreu solteira

                            Começou pelos treinadores de futebol, depois passou para os bruxos, de seguida para os presidentes das distritais partidárias, e agora parece que se generalizou. Falo daquela expressão utilizada quando a equipa perde, quando o feitiço falha, quando as eleições foram um desastre, ou quando um casamento falha: «assumo a responsabilidade». Frase à qual não corresponde depois qualquer acto de reparação que dê sentido à exibição da culpa. Wen Jiabao, o moderno primeiro-ministro chinês, entra na onda ao assumir a responsabilidade do seu governo no escândalo do leite contaminado (em larga medida possível, parece óbvio, pelo estado de selvajaria no qual prospera o «segundo sistema» chinês). Consequências políticas? Nenhumas, claro. Ou provavelmente a substituição de dois ou três funcionários, mas a intocabilidade do autoproclamado supremo «responsável». No futebol, despede-se um sub-director qualquer. Entre os bruxos muda-se, quanto muito, de filtro ou de criptónimo. Dentro dos partidos espera-se que passe. Nos casamentos pede-se perdão. E la nave va.

                              Apontamentos, Atualidade

                              O historiador e o justiceiro

                              Originalmente em Caminhos da Memória. O post continua em página interior.

                              Em artigo publicado ontem no caderno P2 do Público, Jorge Almeida Fernandes aborda um problema que tem tanto de actual quanto de complexo. A partir da notícia da abertura do primeiro processo «da História contra o franquismo», tornado possível pela intervenção do juiz Baltasar Garzón, refere um manifesto público lançado por importantes historiadores que se erguem contra a multiplicação das leis de criminalização do passado afirmando que «a História não pode ser escrava da actualidade nem ser escrita sob o ditame de memórias concorrentes». A ideia não é consensual, naturalmente. Nem sequer o é entre os historiadores. É entretanto a partir dela que anoto três perguntas, cuja intenção é apenas ajudar a reflectir sobre algumas das possíveis implicações da manipulação do passado na penalização ou no julgamento público de certas pessoas. As perguntas são: Deve o historiador tomar posição sobre o passado? Deve, em consequência, tomar posição sobre iniciativas de natureza penal que sobre ele incidam? E deve aceitar a manipulação mediática da história e da memória?

                              Não tenho resposta unívoca para as duas últimas perguntas – que retomarei mais adiante – mas creio que tenho para a primeira: não só deve tomar posição, como é inevitável que o faça. O tipo de «posição» que possa tomar deve, porém, sempre ser informado pelo conhecimento e pela capacidade analítica. Não existindo uma história absolutamente «objectiva», existem fenómenos históricos objectiváveis, e todo o exercício de crítica, de interpretação e de narração, mesmo quando se apresenta como «asséptico», resulta sempre de escolhas subjectivas e datadas. Neste sentido, o historiador exprime obrigatoriamente um ponto de vista, uma «posição», mas esta não é, não pode ser, a mesma do político, do jornalista ou, por maioria de razão, do cidadão comum. Será mais completa, eventualmente mais racional, mas nunca inequívoca e definitiva.

                              Naturalmente, quando a proximidade em relação à época ou aos problemas observados é maior, essa subjectividade aparece exponenciada. Mas no cumprimento do seu papel social, o historiador, principalmente aquele que aborda um passado mais ou menos recente, sobre o qual os reflexos da memória individual e colectiva incidem de uma forma mais poderosa, deve fazer um esforço suplementar para procurar a objectividade possível, apurando os processos de análise documental e confrontando o máximo volume de informação disponível. Torna-se inevitável, porém, pelo facto simples de se reportar a episódios cujo «calor» ainda se mantém, que se envolva um pouco mais com as suas escolhas do que os colegas seus que abordam tempos mais recuados. Negá-lo será enganar-se a si próprio e induzir os seus leitores num logro. Escolher como tema do trabalho de investigação a Revolução de Outubro, a Guerra Civil de Espanha, o Salazarismo, o Holocausto, o Gulag ou a Primeira Guerra do Iraque, implica remexer em destroços ainda fumegantes. E implica por isso sujar um pouco as mãos. Mas essa é a sua opção e será com ela que terá de conviver.

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                                Atualidade, História