Conhecimento do passado e democracia

A produção e a perda da memória são fenómenos inerentes à vida de todos os dias, seja esta individual ou coletiva. Não se considera aqui o processo essencialmente biológico, traduzido na capacidade humana para recordar experiências anteriores inserindo-as numa narrativa, que a passagem do tempo tende a deteriorar, ou por vezes a embelezar, referindo-se antes o eterno fenómeno da evocação memorial do passado. Ao contrário da história, que é um saber analítico associado a rigorosos meios de prova, contendo uma forte componente de objetividade e segurança, a memória, encarada nesta segunda perspetiva, é em larga medida uma construção livre, subjetiva, ancorada em evocações que chegam, se transformam e logo partem, sempre pautadas por uma dose de incerteza.

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    Atualidade, Democracia, História, Memória, Olhares

    O caráter caduco da tradição

    Encontrei hoje em artigo de jornal, uma vez mais, o uso do conceito de tradição a servir como argumento de autoridade para justificar uma dada escolha. De acordo com esta maneira de pensar, isto ou aquilo é bom, ou está certo, ou é adequado, ou deverá acontecer, porque se inscreve numa sequência que se crê repetida. Ao invés, para quem segue esta lógica, uma determinada escolha deverá ser modificada, ou mesmo rejeitada, porque se manifesta «contra a tradição». Como se sabe, o termo tradição vem do latim traditio, que tem o significado de «entrega» ou «passagem de testemunho», e integra a transmissão social, realizada dentro de um mesmo tempo ou passada de geração em geração, de determinados costumes, comportamentos, hábitos, memórias, rumores, crenças ou lendas. 

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      História, Olhares, Opinião

      A vida incomum de Asja Lācis

      A banalidade é a expressão acabada da insignificância, bem como da incapacidade para contrariar a repetição e produzir o novo. É irmã do conformismo, essa tendência para a passividade e a resignação que exclui a coragem de discordar ou resistir. Quem cultiva a banalidade não desenvolve a capacidade humana para pensar de forma autónoma e com audácia, alimentando as formas de autoritarismo e de ordem injusta. Provavelmente pela primeira vez no curso da história, atualmente fama e reconhecimento tendem a tomar como modelo – destacado em capas das revistas ou concursos televisivos – não as figuras singulares, capazes de gestos de rasgo pautados pela inteligência, pelo sentido crítico e pela coragem, mas justamente personalidades banais, destacadas porque o cidadão anónimo, que os populismos têm vindo a empoderar como alicerce do sistema político, nelas se revê. Por isto passarei a ter nestas crónicas, como tema ocasional, a evocação de personalidades cuja vida e exemplo se levantaram contra a banalidade.

      Apesar do papel que teve na atividade artística e intelectual, sobretudo como atriz e encenadora, da Letónia onde nasceu, da Rússia da fase mais fértil e épica da revolução bolchevique e da República alemã de Weimar, Anna Ernestova, conhecida como Asja Lacis (1891-1979), não deixou o nome registado em vultuosas bibliografias e em placas toponímicas. Profissão: revolucionária, uma autobiografia publicada em 1971 na Alemanha Federal (saída na União Soviética apenas em 1984), as memórias da sua filha Dagmāra e um punhado de artigos são tudo o que é possível encontrar da longa e movimentada vida que teve de militante, artista e mulher capaz de acordar grandes paixões. 

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        Biografias, História, Memória, Olhares

        O que fomos e o que somos

        Existem muitas situações e escolhas, vividas no presente, que dificilmente se podem comparar com outras, ocorridas em momentos do passado e só na aparência análogas, que as mesmas pessoas experimentaram. As alterações da realidade social, das práticas culturais e dos direitos políticos, a diferença dos códigos éticos e jurídicos vigentes a cada momento, determinam sentidos muito diversos. É importante entender isto num tempo em que, dada a maior exposição da privacidade, a mais ágil circulação da informação e uma compreensão mais crítica de escolhas e direitos, é fácil responsabilizar-se alguém pelo que defendeu há trinta ou há quarenta anos, sem se ter em conta a transformação pessoal e a do todo. Não me refiro a crimes, cuja prescrição é sempre complexa e muito discutível, mas a valores e a escolhas. Quem tem um curto trajeto de vida, ou reduzido conhecimento da história, pode não entender esse processo, julgando com um olhar de agora o que ocorreu num mundo diferente. Ao contrário, as pessoas mais velhas ou que não se deixam cegar pelo momento, estão em regra mais aptas para atender às circunstâncias. 

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          Democracia, Direitos Humanos, Olhares, Opinião

          O analfabeto que escreve e sabe ler

          Em crónica escrita em 2014 para o Público, António Guerreiro identificou o portador de um género de analfabetismo que considerou particularmente daninho e enganador. Qualificou-o de «secundário» e distinguiu-o do outro, o «primário», mais diretamente associado à experiência da iliteracia, elogiada por Hans Magnus Enzensberger como algo que pode até conter uma dimensão positiva, uma vez que gera uma inocência primordial. Justamente por ser fundado na insciência, no poder da página em branco, na potencialidade do olhar ingénuo, ele pode ser terreno para as fundações de todo o conhecimento, em particular o mais essencial, de certo modo mais verdadeiro, que é o obtido de forma desinteressada, fruto natural da curiosidade, da atenção e do labor desenvolvido por cada indivíduo. Já o «analfabetismo secundário», afasta-se de tudo isto.

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            Democracia, Ensaio, Leituras, Olhares

            Guerra e paz na Palestina

            Se existe conflito para o qual não parece existir fim à vista é aquele que no Médio-Oriente envolve Israel e a Palestina. Esta situação arrasta-se há tanto tempo, e com tão escassos e temporários resultados positivos, que a tendência dominante é para se olharem todas as tentativas de solução com profunda descrença. Considera-se por hábito que ali a violência, a opressão e a instabilidade, hoje protagonizadas sobretudo pelo governo militarista israelita, tenderão a eternizar-se, sendo uma hipotética solução de paz empurrada para um futuro tão distante quanto imprevisível. Como algo que poderá ocorrer apenas quando um confronto de proporções verdadeiramente bíblicas, ou então uma viragem mundial que altere a relação de forças na região, reduzirem o papel dos que de um lado e do outro adotam posições absolutamente inflexíveis e que excluem qualquer negociação honesta.

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              Atualidade, Direitos Humanos, História, Opinião

              Inaceitável delação na Câmara de Lisboa

              O escândalo estalou ontem a propósito de um caso, tendo os desastrados esclarecimentos da Câmara de Lisboa que lhe sucederam conduzido rapidamente a outros. É um facto: responsáveis dos serviços camarários têm fornecido informações a embaixadas, onde identificam cidadãos responsáveis pela organização de protestos que questionam os regimes dos seus países. Sabe-se, para já, que isso aconteceu com a Rússia, com Israel, com a China e com a Venezuela. Não me admiraria se tivesse acontecido também, por exemplo, com o Brasil de Bolsonaro. De facto, pessoas com cargos numa importante instituição do nosso regime democrático têm violado a constituição e feito orelhas moucas à proteção dos dados dos cidadãos, contribuindo assim para a perseguição de opositores a Estados que, consabidamente, praticam formas avançadas, algumas delas pautadas por uma grande violência, de repressão interna da divergência. 

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                Apontamentos, Democracia, Direitos Humanos, Opinião

                O peso do anacronismo

                Quem tenha alguma formação histórica, ou pelo menos uma sensibilidade ou uma dose de saber que a possam incorporar, sente sempre um profundo incómodo quando se confronta com formas de anacronismo. Esclarece o Houaiss ser este um «erro de cronologia que geralmente consiste em atribuir a uma época ou a uma personagem ideias ou sentimentos que são de outra época». Pode também corresponder, seguindo a mesma fonte, «a uma atitude ou facto que não está de acordo com a época» de quem o exibe. Detém, pois, um âmbito bastante alargado, e se o primeiro sentido é mais fácil de detetar e de corrigir, uma vez que contém uma dimensão de índole essencialmente factual, já o segundo, porque se situa no domínio dos comportamentos individuais, é bem mais difícil de perceber ou de procurar mostrar a quem o pratica que na verdade está errado ou deslocado.

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                  A perigosa retórica dos ilusionistas

                  Teve lugar há poucos dias em Lisboa a convenção do Movimento Europa e Liberdade, um agregado de personalidades, partidos e setores do centro-direita e da extrema-direita que se propôs debater ali o que designou «uma alternativa aos 25 anos de socialismo em Portugal», considerados pelos promotores da iniciativa como «um sinónimo de empobrecimento do país». Poderia pedir, a quem teve a ideia, algo tão primário como uma definição de socialismo, ou uma comparação documentada entre esse suposto «empobrecimento» e aquele, bem real, que Portugal conheceu durante o último governo PSD/CDS, mas este não é espaço para o fazer.

                  Em «A Era do Vazio», de 1983, Gilles Lipovetsky abordou a vaga de individualismo que então tomava conta da Europa e das Américas. Mostrou ali de que modo, numa época caracterizada pelo excesso de informação e o culto da exuberância – e ainda por um acentuado recuo das narrativas da modernidade que tinham atribuído um sentido ao percurso da história – a substância das ideias e dos projetos tinha cedido o lugar a um triste vazio, concebido como um território organizado de forma desconexa e desprovida de metas mobilizadoras. Alguns intérpretes da pós-modernidade, como Bell ou Fukuyama, chegaram a sugerir que esse estado de coisas corresponderia ao «fim das ideologias», que por sua vez determinaria um «fim da história». O progresso dissipar-se-ia e a gestão do presente seria a única experiência possível.

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                    A experiência de escutar

                    Talvez tenha alguma sorte, mas, sem falsa modéstia, creio que também a procurei. Ao longo da vida, a possibilidade, determinada pela profissão, que mantive de um contacto com sucessivas e bem distintas gerações de jovens adultos, acompanhada de um esforço de atenção a todas as experiências, a todo o conhecimento, a todas as linguagens, foi-me permitindo manter uma relativa proximidade, ou pelo menos alguma capacidade de diálogo, com pessoas diferentes e mais novas que eu. Jamais deixando de ser quem sou.

                    Naturalmente, as diferenças existem, em alguns momentos vão até sendo ampliadas – só alguém cujo cérebro num dado momento petrificou pensa e age aos sessenta como o fazia aos vinte -, mas aquilo que verdadeiramente importa para uma relação não estagnada com o mundo, é saber escutar e saber falar sem impor essa absoluta «verdade» absoluta que jamais existe. É aceitar a diversidade de tudo e manter a consciência de que todas as experiências são diferentes, numa escala que nem sempre é qualitativa. 

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                      Os cafés e a nostalgia positiva

                      Para o franco-norte-americano George Steiner, um dos marcadores centrais de uma certa «ideia de Europa» foi desenhado pelo roteiro dos cafés, desde meados do século XVIII lugares ímpares «de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos», como escreveu o filósofo num curto ensaio sobre o tema. Abertos a todos desde manhã cedo até quando as ruas ficavam quase silenciosas e desertas, funcionaram até há relativamente pouco tempo, desde Odessa até Lisboa, passando por Viena, Paris ou Barcelona, sempre à sombra da antiga influência turca, como espaços-fortaleza de sociabilização e de reconhecimento identitário, por vezes decisivos na evolução política e cultural das cidades e dos Estados.

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                        Ninguém «é o que é» (Do direito à complexidade)

                        Salvo se formos bastante distraídos, todos algumas vez lemos ou escutámos a conhecida afirmação do filósofo espanhol José Ortega Y Gasset onde este declara «eu sou eu e as minhas circunstâncias». Ela traduz, de um modo ao mesmo tempo simples e complexo, uma atitude de profunda compreensão perante a complexidade, e ao mesmo tempo a falibilidade, do comportamento de cada homem ou mulher. Exprime de igual modo uma perceção – apenas possível após séculos de reflexão e de resistência, projetados como alicerces de uma democracia plena contra o poder da intolerância – da conquista humana do direito à identidade pessoal, à capacidade individual de transformação e à faculdade de redenção de cada sujeito. Enfrentando esta sempre quem julga dominar a definitiva certeza.

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                          Justiça e problemas do #metoo

                          O movimento #metoo teve início nos Estados Unidos durante o ano de 2017, adquirindo uma dimensão internacional que agora chega abertamente a Portugal. Surgiu como uma iniciativa de denúncia individual lançada contra o assédio e o abuso sexual sobre mulheres em regra exercidos por homens colocados numa posição de poder que facilitou a coerção e a chantagem. Sob estas condições, teve à partida um objetivo mais do que legítimo: o de resgatar muitas mulheres assediadas ou abusadas, condenadas também a longos anos de silêncio, de trauma e de um sofrimento visível ou invisível. O que poderia ser mais justo? Todavia, o movimento apenas tem um verdadeiro impacto em sociedades onde a subalternização das mulheres já não se encontra condicionada pela lei civil ou religiosa, ou onde uma efetiva liberdade da palavra pode ampliar o impacto da denúncia e da voz que denuncia. É justamente este o motivo pelo qual, sob o tópico #metoo, as redes sociais têm cumprido um papel decisivo para fazer chegar junto da opinião pública, e também junto de outras mulheres em idêntica situação, os fortes testemunhos que lhe dão forma.

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                            Triste cliché

                            O uso do cliché, também conhecido como chavão, lugar-comum ou estereótipo, corresponde ao uso de fórmulas constantemente repetidas, normalmente retiradas de modelos popularizados pelo que foi um modismo, agora constantemente retomado. Traduz geralmente falta de imaginação ou de capacidade para produzir um discurso próprio e com capacidade de sedução do interlocutor mais exigente. Na criação literária, é um dos piores defeitos, inimigo da originalidade e da atração pelo ritmo e pela dimensão ágil do discurso. Usa-se muito, sob a forma de jargão, no discurso académico mais conservador, levando à produção de textos que podem deter valor como resultado de investigação, mas que como narrativa estão mortos à nascença, assumindo uma forma expectável, quando não litúrgica. São feios e aborrecidos. Já na linguagem política, sob a forma de opinião ou de frase programática, são um sinal de efetivo conservadorismo formal, de ausência de horizontes fora do dogma e de enfraquecimento do «nervo» dinâmico, ainda que envolvam ideias formalmente progressistas. São de uma insipidez imensa, e por isso se tornam irrelevantes à nascença.

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                              O sufixo «-ite» e a vida social

                              Na linguagem utilizada pela ciência médica, o sufixo «-ite» aplica-se em regra a uma doença, à inflamação de um determinado órgão ou à falha de uma estrutura anatómica. Por analogia, ele costuma ser usado também para referir uma certa deterioração do funcionamento associada a atitudes de natureza social ou política que, sob determinadas circunstâncias, assume em alguns indivíduos uma dimensão que pode ser tomada como patológica. Vou referir-me aqui a duas delas, numerosas vezes associadas a uma apreciação pública muito negativa de dadas formas do comportamento pessoal: a «clubite» e a «partidarite».

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                                A Fronda dos adeptos

                                Quem não dá a menor importância ao futebol provavelmente não terá percebido o que aconteceu nos últimos dias no mundo peculiar que ele agrega. Goste-se ou não deste desporto – sou dos que gostam, e muito, apesar de lhe reconhecer bastantes aspetos condenáveis e de detestar a «clubite» – ele moveu e move largas centenas de milhões de pessoas, homens e mulheres de todo o mundo, de todas as crenças, de diferentes convicções, em grande parte motivadas por uma componente de prazer e de paixão que sempre o associa ao que de melhor essas pessoas vivenciam e esperam. Já uma vez dei este exemplo, para mim inesquecível: alguém que acompanhei até ao fim da vida e que, no último dia, me pediu um cigarro e que lhe dissesse qual o resultado do jogo de domingo do seu clube do coração.

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                                  Palavras da indiferença

                                  Um certa frase anda a ouvir-se muito por aí, em regra para marcar um fim de conversa. É uma daquelas que não passa de modismo, mas que quando emerge, como acontece com todos os modismos, ecoa uma tensão existente. «É o que é!» constitui a expressão acabada do conformismo, da predisposição, hoje dominante, para considerar, ou aceitar, que existem – na vida pessoal, como em todas as sociedades – forças às quais não é possível resistir, não valendo a pena sequer tentá-lo. Como o «there is no alternative», o conhecido TINA, divulgado nos idos de 80 por Margaret Thatcher, que dessa forma conclamava os cidadãos a conformar-se, aceitando como inevitáveis e impossíveis de alterar as dinâmicas de servidão impostas pelo neoliberalismo. «É o que é!», ainda que pronunciada sem pensar, é, de facto, uma aberração, que pretende banalizar a mansidão e a indiferença. Porque, eis outra frase de sentido análogo, «o que tem de ser, tem muita força».

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