Entre o «contra» e o «por»

Fot. Pierre Lagarde

Em entrevista concedida ao Le Monde a propósito das eleições francesas, Jürgen Habermas considerou que a esquerda «deve deixar de ser um espaço para o ressentimento», sendo essa viragem que poderá torná-la «política e humanamente maioritária.» A palavra «ressentimento» toma aqui o seu sentido mais amplo, incorporando pesar, ofensa ou infortúnio. Tal ideia pode ligar-se a uma outra, proposta por Enzo Traverso a propósito daquilo a que chama «melancolia de esquerda». Esta traduziria uma imersão em projeções utópicas vinculadas ao passado, usando-as como alimento da dose de esperança de que precisa para continuar a viver.

Tanto o filósofo alemão como o historiador italiano são homens da esquerda e ambos abordam a dificuldade que esta tantas vezes sente em arquitetar futuros credíveis. Sobretudo futuros imediatos, que mobilizem para a ação e permitam sustentar projetos que não se frustrem logo no primeiro embate com a realidade, como aconteceu recentemente na Grécia com o Syriza. Na paisagem política portuguesa essa dificuldade pode associar-se à atitude geral dos dois partidos parlamentares que, sendo pedra essencial no atual equilíbrio de poder, mas não estando representados no governo, experimentam alguma dificuldade em articular este papel com a sua identidade política, com aquilo que deles espera o seu eleitorado mais fiel e com aquele que é o seu natural desejo de ampliar a influência política. ler mais deste artigo

    Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

    Um livro censurado e «censurado»

    «Durante muitos meses de dia e de noite, nas chamadas da manhã e da noite, leram-se inúmeras ordens de fuzilamento. Com um frio de 50 graus, um conjunto de presos comuns tocava uma fanfarra antes e depois da leitura de cada ordem. Archotes fumegantes a gasolina quebravam a escuridão… O papel fino das ordens cobria-se de geada, e um qualquer chefe, que lia a ordem, sacudia os flocos com a luva, para conseguir decifrar e gritar mais um nome de fuzilado.»

    Redigido entre 1958 a 1967, por motivos óbvios em lugar secreto, O Arquipélago Gulag circulou clandestinamente na União Soviética, em versão muito reduzida, até à publicação oficial em 1989. Fora já publicado em França em Dezembro de 1973 e a primeira tradução portuguesa, saída em dois volumes, data de 1975-1977, numa edição da Bertrand, com tradução a partir do russo (o primeiro volume) e do francês (o segundo).  Escrito por Alexandr Soljenítsin (1918-2008), a partir de 1945 prisioneiro durante onze anos em Kolima, um dos campos do sistema de prisões para presos políticos e «recolocados», e noutros locais, o livro é uma narrativa, construída como uma via sacra de sacrifícios, prepotência e horrores, de factos presenciados pelo autor e pelas duzentas e trinta e sete pessoas que lhe confiaram cartas e relatos. ler mais deste artigo

      Democracia, Direitos Humanos, História, Leituras, Memória

      A extrema-direita e a casa europeia

      Fot. Pierre Lagarde

      Voltam a assolar a Europa os demónios do nacionalismo, que instigaram as principais ditaduras, as carnificinas das duas guerras mundiais e as grandes deportações do século XX. Pareciam condenados a um gradual desaparecimento com a política de colaboração entre os Estados que no território europeu foi gradualmente construída a partir dos meados dos anos cinquenta, mas começaram há algum tempo a sair do estado de hibernação em que se haviam mantido nos anos da Guerra Fria e passeiam-se de novo pela realidade.

      Primeiro surgiram, logo após 1989, nos territórios saídos das experiências frustrantes do «socialismo real». Depois emergiram mais a ocidente, alimentando-se da crise económica, do desemprego, do afluxo de imigrantes e refugiados, e depois do terrorismo. Sempre em associação com a expansão de um padrão peculiar de populismo. De facto, a mitificação do ideal de «povo», identificado no caso com o destino histórico da «nação», sempre foi o ovo da serpente do nacionalismo e da direita mais extrema. Aí estão eles, pois, com os seus programas agressivos e o seu cortejo de ameaças e de apelos à exclusão de quem se encontre do lado que consideram errado, o que ainda há uma vintena de anos se supunha já só uma memória. Servem-se da «raça», da cor da pele, da origem, da língua, da religião, como rígida linha de fronteira. ler mais deste artigo

        Atualidade, Democracia, Opinião

        Não foi por acaso

        Fot. Privatedanser

        Muito se escreveu já sobre a frase do holandês que é presidente do Eurogrupo, pronunciada há dias, quando em entrevista concedida ao Frankfurter Allgemeine Zeitung recorreu a uma inaceitável analogia para se referir ao que julga ser a conduta dos países europeus do Sul: «Não posso gastar o meu dinheiro todo em vinho e mulheres e de seguida pedir a sua ajuda.» Faço um esforço para relevar aqui o caráter xenófobo e sexista destas palavras, centrando-me num outro aspeto, que transforma o episódio em algo bastante mais grave do que o seria uma frase infeliz, mas fortuita. Aliás, Jeroen Dijsselbloem, constrangido pelo escândalo a pedir desculpa, justificou-se com aquilo a que chamou a sua «habitual frontalidade», o que confirma ter dito algo que pensa. ler mais deste artigo

          Atualidade, Democracia, Opinião

          Kitsch, democracia e o Dia da Mulher

          Tbilisi, Georgia. Fot. David Mdzinarishvili/ Reuters

          Um dos inimigos da democracia é o kitsch. O conceito designa a categoria de objetos ou práticas vulgares, de mau gosto, sem substância para além da sua forma híbrida, que reproduz sem critério referências de uma cultura mais sólida. Para Umberto Eco, é um «meio de afirmação cultural fácil, adotado por um público que se ilude, julgando consumir uma representação original do mundo quando, na verdade, goza apenas de uma imitação secundária da força primária das imagens». Encontra-se associado ao consumo de massas, pois é neste domínio que a propaganda e a manipulação da informação mais facilmente se impõem, reduzindo as possibilidades de escolha do cidadão comum. ler mais deste artigo

            Atualidade, Coimbra, Democracia, Opinião

            A demagogia na massa do sangue

            Maquiavel na cidade

            Na década de 1980 costumava passar três ou quatro aulas em cada ano a estudar com os alunos o pensamento político de Nicolau Maquiavel. Parte do meu esforço consistia em contradizer o sentido então vulgarmente atribuído ao adjetivo «maquiavélico» – nessa época ele ainda era de uso corrente –, demonstrando que não fazia justiça aos ideais mais sinceros e fundamentados do diplomata florentino. Na verdade, como modelo do regime perfeito, Maquiavel apontava o exemplo «democrático» da República Romana, e não o poder tirânico centrado na figura do Príncipe, sugerido na obra homónima, escrita em 1513 num contexto particular. No entanto, foi a justificação do segundo aquela que prevaleceu como seu principal legado. ler mais deste artigo

              Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

              Tzvetan

              Quase a perfazer 78, morreu em Paris esta terça-feira, dia 6, o filósofo, historiador das ideias e linguista francês de origem búlgara Tzvetan Todorov (1939-2017). Para além de textos dispersos em defesa do estruturalismo lidos na década de 1980, dele retenho três obras arrumadas nas estantes: «Face à l’extrême» (1991, uma dissertação sobre a vida moral nos campos de concentração), «Mémoire du mal, tentation du bien» (2000, testemunho, com vozes identificadas, das experiências totalitárias do século XX; traduzido para português em 2002) e «L’Esprit des Lumières» (2006, uma defesa apaixonada da conservação do legado iluminista). O último livro, «Les ennemis intimes de la démocratie», um título que é um programa, saiu em 2012.

                Apontamentos, Biografias, Memória

                God bless America

                Depois de durante o século XIX ter olhado a América como lugar de exílio, espaço de oportunidades ou pátria de uma liberdade plena e não adjetivada, a partir do século passado a tradição europeia, em particular a da esquerda política e cultural, começou a ver nos Estados Unidos a sede de todos os males da humanidade. O impacto da Revolução de 1917 e depois da Guerra Fria determinaram e condicionaram em muito essa violenta animosidade, presente até em alguns dos que ali encontraram refúgio perante as ditaduras ou habitáculo para a existência pessoal. E o ódio foi gerando cada vez mais ódio. Do lado do establishment e do lado dos que se lhe opunham. Dentro e fora da América. ler mais deste artigo

                  Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                  (Nôtre, leur) France

                  Merece uma observação um pouco mais longa, mais densa e, tanto quanto possível, arrefecida, mas para já fica o essencial. Diria que, com o desaparecimento físico de Mário Soares, desapareceu também um dos últimos políticos portugueses de primeiro plano que tinham na França, na dimensão mais cosmopolita, laica e progressista de uma parte da sua cultura, no imaginário poético, político e vivencial de Paris, na relação com um universo espacial e geracional essencialmente francófono e francófilo, um padrão de reconhecimento e de intervenção no mundo. Também por isso, as palavras de Baudelaire, retiradas de «Le voyage» e ditas pela filha Isabel na cerimónia mais formal das suas exéquias, soou como uma despedida e um epitáfio. «Ô Mort, vieux capitaine, il est temps! levons l’ancre! / Ce pays nous ennuie, ô Mort! Appareillons! / Si le ciel et la mer sont noirs comme de l’encre, / Nos coeurs que tu connais sont remplis de rayons!» Não se trata de um drama – embora para os mais nostálgicos possa sê-lo -, pois a vida prossegue e o mundo não cessa por isso de rolar, mas não deixa de ter algo de trágico. Ou, pelo menos, de sinalizar um render da guarda.
                  [Originalmente publicado no Facebook]

                    Apontamentos, Biografias, Olhares

                    Um Mário contra o único

                    Não se trata de concordar ou não com as escolhas politicas de Mário Soares. Pessoalmente, discordei de grande número delas e só por uma vez lhe dei o meu voto. Também não se trata de gostar ou não da sua maneira de ser. No que me diz respeito, sempre tive simpatia pela bonomia e pelo patente hedonismo, tão raros na política profissional e tão necessários, mas essa é uma escolha subjetiva. Trata-se de reconhecer o seu papel, ainda que numa outra barricada, na construção da democracia portuguesa. E de respeitar uma vida de entrega ao bem comum. Ou, mais simplesmente, trata-se de respeitar uma vida. O ódio de dentes cerrados que vai por aí – à direita e à «esquerda», diga-se – só pode vir de quem, para além de ignorante, desmemoriado ou mal-formado, conviveria bem com um regime de partido único, no qual toda a gente fosse forçada a pensar do mesmo modo ou a calar a divergência. Ou aceita um pensamento capaz de justificá-lo. Foi contra isso que Mário Soares se bateu a vida inteira. E é por isso que também lhe deixo aqui um obrigado e um imenso adeus.
                    [Originalmente publicado no Facebook]

                      Apontamentos, Biografias, Democracia, História

                      Ensino superior: treino ou educação?

                      Fotografia de Holli

                      Completei ontem, 6 de Janeiro, 35 anos como professor da Universidade de Coimbra. Como é natural, quando comecei sabia menos que hoje, era mais rígido na abordagem dos programas e inexperiente no relacionamento com os alunos. No entanto, considero que a maioria das aulas desses anos iniciais foram mais «aulas universitárias» que algumas das atuais. Pelo menos como sempre entendi que as aulas universitárias devem ser: espaços de abertura ao conhecimento avançado, à troca de ideias e à cultura crítica, e lugares de preparação para a vida pessoal e profissional. Os motivos dessa involuntária degradação, manifesta ao longo da última década, são vários e complexos. Limito-me a seis.

                      Em primeiro lugar, as consequências do «processo de Bolonha», que às vantagens juntou escolhas a meu ver negativas, como a redução do tempo letivo e a transferência do foco pedagógico dos conteúdos para as competências. Ou, como disse há dias Richard Zimler, a passagem da educação para o treino. Em segundo lugar, o alargamento exponencial das tarefas administrativas atribuídas aos professores, reduzindo em muito o seu tempo e a energia para se dedicarem às suas aulas, aos alunos e à investigação. Em terceiro, a afirmação de um ambiente cultural e de um pensamento dominante favorecedores de «saberes práticos», associados ao mercado e ao lucro, e menos ao conhecimento como fator de enriquecimento pessoal. Em quarto, a substituição do paradigma da cultura vinculada à leitura imersiva, pausada e refletida, por um outro, essencialmente visual, efémero e processado em zapping. ler mais deste artigo

                        Ensino, Olhares, Opinião

                        Sobre uma biografia de Estaline

                        Três notas prévias:
                        1. Esta nota de leitura foi escrita e publicada em Dezembro de 2006. Republico-a no momento em que a biografia de Estaline a que se refere, escrita por Simon Sebag Montefiore, vai ser distribuída, a partir de sábado, com o semanário Expresso. Aconselho a sua leitura – crítica, como todas as leituras o devem ser – e julgo ter explicado aqui porquê.
                        2. O livro é divulgado em tempo do que parece ser uma nova Guerra Fria, quando a direita se serve dos crimes cometidos em nome da esquerda e, infelizmente, parte desta insiste em recusar a História como meio de aprendizagem. Seria bom que quem luta por uma causa essencialmente justa, como a do socialismo e do comunismo o é, aprendesse, de mente aberta e sem tabus, com os erros e crimes que em seu nome foram cometidos. Redimindo a memória daqueles que eles atingiram, em grande parte adeptos convictos da sua causa.
                        3. Neste intervalo foram numerosos os estudos históricos publicados sobre Estaline, o estalinismo e o Gulag, vários deles traduzidos, que são merecedores de consideração profissional e não podem ser considerados «propaganda do inimigo» ou «aldrabice», como por estes dias tenho lido. Um deles é outro de Montefiore, sobre O Jovem Estaline, traduzido entre nós em 2008. Voltarei ao assunto logo que possível.

                        Da casa dos mortos
                        17/12/2006

                        O subtítulo, bastante infeliz, recorda uma certa literatura antisoviética do tempo da Guerra Fria. Mas Estaline – A Corte do Czar Vermelho, do jornalista e historiador britânico Simon Sebag Montefiore (ed. Alêtheia, 2006), não é, de forma alguma, um livro de propaganda ou de um sensacionalismo oportunista fora do tempo. ler mais deste artigo

                          Biografias, Democracia, História, Memória

                          A ignorância na era da comunicação

                          Fotografia de Ender Suenni

                          «A ascensão da nova ignorância», a crónica de José Pacheco Pereira saída hoje no Público é – como nem sempre, mas quase sempre acontece – uma crónica que merece a pena ler. É sobre a ignorância que nos cerca, oprime e condiciona. Sobre uma nova forma de saber e de dar a saber que privilegia o simples (quando não o simplicíssimo ou o simplório), o efémero, o imediato, o saber condensado e assumidamente soft. É sobre ela que se instala a mentira e a manipulação: para o ignorante, tudo é novo e possível. E, como não possui referências para deter e aplicar um aparato crítico, tudo é verdadeiro, aceitável. Se não é verdade, bem poderá sê-lo, diz o novo ignorante, que nem mesmo sabe que o é. De facto, é este o princípio motor da «era da pós-verdade». ler mais deste artigo

                            Atualidade, Cibercultura, Democracia, Opinião

                            Princesa Leia

                            Em Novos Ritos, Novos Mitos, saído em 1965, o crítico e filósofo Gillo Dorfles declara a ficção científica, entre as diversas formas de arte para as massas, como aquela que soube englobar um maior número de «constantes de época» e torná-las evidentes. Não sei se, meio século depois, podemos continuar a dizer isto de uma forma tão absoluta, mas parece hoje ainda mais claro, com a voga das grandes sagas para o cinema ou para a televisão, que existe uma dimensão em histórias e personagens de ficção científica, como parte de uma fantasia épica, que entraram nas nossas vidas e dão sentido a um certo lado do nosso imaginário partilhado. Tão saturado de realidade, tão esvaziado de propostas mobilizadoras, e por isso tão carente de um universo paralelo no qual possamos projetar a eterna luta entre o bem e o mal. É isso que faz com que, por exemplo, tantas pessoas estejam a tomar quase como uma perda pessoal a morte inesperada de Carrie Fisher, desde 1977 a Princesa Leia Organa da saga A Guerra das Estrelas. Por cuja libertação das mãos das forças imperiais comandadas por Darth Vader, Luke Skywalker e o capitão Han Solo tanto tiveram de lutar logo no primeiro episódio. Afinal, tratava-se de alguém indispensável para ajudar a restaurar a liberdade e a justiça na galáxia e esta é uma missão que muitos de nós considera essencial no mundo de verdade.

                              Artes, Cinema, Democracia, Ficção

                              A Síria e as «realidades imaginadas»

                              Rua de Aleppo em 2010. Fot. Majd

                              Passada a fase de relativa acalmia que se seguiu à queda do Muro de Berlim e à derrocada das experiências do «socialismo realmente existente», quando o equilíbrio internacional assente num mundo bipolar pareceu dar lugar a uma ordem de sentido único, é hoje percetível que estamos de regresso a um clima de Guerra Fria. Este não repete o anterior, mas replica alguns dos seus mecanismos caraterísticos. Destaco três: a divisão entre duas áreas de influência política, polarizadas nas potências com maior capacidade político-militar; o papel da propaganda e da contrapropaganda neste processo de separação, em particular nos conflitos que envolve; e a presença de séquitos de sectários que propagam os pontos de vista de cada um dos lados, servindo os seus interesses estratégicos.

                              É bem visível nova divisão do mundo em áreas de influência. A presença global dos Estados Unidos e da Rússia, da sua ativa diplomacia e da sua elevada capacidade de intervenção, é claramente percetível, não sendo modulada por forças de natureza democrática com capacidade para erguer áreas libertas da sua interferência. A União Europeia tem sido, aliás, um catavento em posição de subalternidade face a Washington. A China tenta interferir em algumas políticas regionais e funciona, no atual mapa, como um fiel da balança que tenta conquistar o máximo neste papel. Já os setores irredentistas do Islão intervêm como fator desregulador, funcionando, nas áreas nucleares, como justificação para o reforço do Estado, a corrida ao armamento e o crescimento dos sistemas securitários. Entretanto a democracia definha, presa numa tenaz cujos braços são o medo e a desinformação. ler mais deste artigo

                                Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Opinião

                                Mentira, nostalgia e melancolia

                                Fidel, Jean-Paul e Simone em 1960
                                Fotografia de A. Korda (cor de M. Athanasiadis)

                                Passados os dias que se seguiram ao desaparecimento mais ou menos esperado de Fidel Castro, em que foram propostas interpretações do seu papel histórico muitas vezes opostas e quase sempre pouco racionais, regresso ao assunto para olhar justamente alguns dos rostos que tomou esta irracionalidade. Para o fazer, recorro a três conceitos que, na sua relação com diferentes modos de observar a vida e a intervenção pública do líder cubano, refiro aqui de uma forma inevitavelmente concisa e parcial. A cada um associo uma diferente proposta de leitura, que vivamente recomendo a quem se interesse por estes temas.

                                O primeiro conceito é o de «mentira». Falei em crónica recente da «pós-verdade», sobre a qual Ralph Keyes publicou em 2004 o livro The Post-Truth Era. Para Keyes, vivemos um tempo de manipulação da verdade, no qual aquilo que se diz tem mais valor do que a realidade à qual supostamente se refere. Isto leva a uma constante deturpação ou mesmo à invenção de factos, fazendo passar a mentira por verdade. Foi em parte o que aconteceu com a identificação liminar, por estes dias repetida como um mantra, de Fidel como ditador. Se observarmos a forma autocrática como por mais de quatro décadas exerceu o poder, o regime de partido único sem eleições realmente livres, a censura e a informação controlada, a polícia política, as prisões e execuções por oposição ou dissidência, o qualificativo será adequado. Mas a direita serve-se indevidamente dele, usando-o para demonizar uma experiência histórica que, em anos de constante apoio da política externa norte-americana a ditaduras sanguinárias espalhadas por toda a América Latina, funcionou para milhões como fator de esperança e um importante exemplo emancipatório. Por isso essa «verdade», vinda, ademais, de uma área política na qual a luta pela liberdade sempre esteve longe de ser uma prioridade, se funda na ocultação, produzindo, de facto, uma mentira. ler mais deste artigo

                                  Atualidade, Biografias, Democracia, Memória, Opinião

                                  Um silêncio inconveniente

                                  Fotografia de Sagi Kortier
                                  Fotografia de Sagi Kortier

                                  A esquerda, e em particular aquela que não separa os princípios da solidariedade e da igualdade dos direitos, centrais na definição da sua matriz política, da defesa da liberdade individual e das diferenças de opinião como expressão indiscutível de uma democracia sem adjetivos, vive hoje tempos bem difíceis. Por todo o lado, encontramos um regresso à naturalização da desigualdade, uma revisitação dos nacionalismos mais ferozes, um retorno da xenofobia e do racismo, bem como o recuo das conquistas sociais obtidas em dois séculos de luta operária e popular e de combate por uma cidadania plena.

                                  A direita alimenta estas tendências negativas de uma forma eficaz, servindo-se da crise económica, da instabilidade que esta traz, do desemprego, do terrorismo, do medo, da ignorância, do controlo da informação, para se apropriar do poder por via democrática e instaurar políticas autoritárias, sob a promessa de tudo resolver a partir de uma posição de força. Diante deste cenário, a esquerda, envolvida nas suas contradições e inapta para projetos capazes e mobilizadores, tem-se remetido a uma posição defensiva, de resistência, que só aqui e acolá vai passando pelos caminhos de aproximação que durante largas décadas quase sempre rejeitou. As lições sobre as consequências do divisionismo, oferecidas nos anos 30 pela ascensão do nacional-socialismo na Alemanha e pelo triunfo do golpismo franquista em Espanha, vão sendo invocadas pelos que pretendem evitar que a história se repita. ler mais deste artigo

                                    Atualidade, Democracia, Memória, Olhares, Opinião

                                    Essa verdade a que temos direito

                                    Fotografia de Gerkitda

                                    «Pós-verdade». O termo terá sido cunhado em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich e em 2004 Ralph Keyes usava-o já para identificar uma certa «era da desonestidade e do engano», mas foi ao longo deste ano que surgiu por todo o lado, em artigos de jornal, programas de televisão, posts das redes sociais e até debates académicos. «Vivemos um tempo de pós-verdade», diz-se a propósito da dinâmica que tem feito com que os factos objetivos – aquilo a que geralmente se chama «verdade» – tenham menor influência na formação da opinião pública e nos resultados das eleições que os apelos emotivos, as opiniões subjetivas, os boatos ou mesmo as mais despudoradas mentiras. Refere-se também a um sistema de comunicação no qual a «notícia» vale por si, pelo impacto que gera, pelo número de leitores que atrai, pelo volume de publicidade que gera, e não pelo caráter isento, completo e autêntico da informação que oferece. ler mais deste artigo

                                      Atualidade, Democracia, Opinião