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O (mau) exemplo dos seniores

A utilidade das movimentações de caráter desordenado, por vezes politicamente pueril, sem objetivos precisos ou uma capacidade de mobilização sustentada, é infinitamente superior à inação dos que se limitam ao lamento. Dos que esperam em vão que do céu caia uma dose de bom senso capaz de afetar quem realmente decide. Ou dos que só pensam agir quando «todas as condições» estiverem reunidas. Do editorial de João Garcia no último número da edição portuguesa do Courrier International.

Os «à rasca», os «indignados», os «99%» são movimentos confusos e difíceis de perceber – é verdade. Tanto repudiam os grandes patrões como homenageiam Steve Jobs. Como bem refere Heinz Bude, do Die Zeit, nas críticas ao sistema não vão mais longe do que proclamar que «o sistema é bom, mas perdeu significado: a economia tem de estar ao serviço das pessoas e não da finança». Mas reduzi-los a rebeldes urbanos, desprezar estes movimentos por falta de objetivos e ideologia é, uma vez mais, olhar para a árvore e não querer ver a floresta. Afinal, se os seniores não sabem para onde levam o mundo, o que se pode pedir aos juniores?

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    Viagens perfeitas

    No comboio

    Ainda sobre a beleza dos comboios e da corrente de vida, de ar e de calor que a partir deles é possível desfrutar, recorto um fragmento da crónica de Antonio Muñoz Molina («Apunte de Alemania») publicada no suplemento Babelia deste sábado. Traduzido livremente.

    Há lugares perfeitos. Há via­gens perfeitas. A viagem de comboio numa manhã de domingo entre Hanôver e Munique, por exemplo. Es­tá nublado e ténues grinaldas de nevoeiro flutuam sobre os prados ou sobre as encostas com grandes bosques de coníferas. O único defeito que encontro na maior parte das viagens de comboio nestes tempos é que duram muito pouco. O comboio de Hanôver para Munique é bastante bom, é ótimo, confortável e rápi­do, silencioso também, e mais ainda nesta manhã na qual por ser dia de festa há menos viajantes. Não é um comboio de alta velocidade, sem dúvida, nem faz falta alguma que o seja. É um comboio perfeito. A luz do dia nublado torna ainda mais acolhedor o interior das carruagens. Quase todos os passageiros vão a ler os seus pesados jornais de domingo. Um dos muitos inconvenientes de não saber alemão é não poder desfrutar gulosamente dessas páginas tão amplas mas para as quais, ao mesmo tempo, tanto parece importar a palavra escrita. O rumor das páginas dos jornais vai dando ao silêncio do interior do comboio uma qualidade de atmosfera de biblioteca. O movimento é tão regular que me permite tirar tranquilamente apontamentos num caderno. Demasiadas tentações que é preciso desfrutar de maneira simultânea, para não prescindir de nenhuma: observar os prados e os bosques, os rios de curso opulento e tão calmo que refletem nitidamente na sua superfície as árvores das margens e as nuvens passageiras, as aldeias de telhados angulosos muitas vezes cobertos de painéis solares, as agulhas de ardósia das igrejas, as fábricas que imagino de produtos supertecnologicos mas que não ofendem a paisagem. E ainda a leitura, sem tirar os olhos do livro que me tem acompanhado nestas idas e vindas desde que saí de Madrid.

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      Frases inquietantes (5)

      O cowboy

      «Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante.» (Aníbal Cavaco Silva, em Santa Cruz da Graciosa, Açores, 21 de Outubro de 2011)

      «Fiquei surpreendidíssimo por ver como as vacas avançavam, uma atrás das outras, se encostavam ao robô, e se sentiam deliciadas, enquanto ele, durante cerca de seis, sete, minutos, realizava a ordenha.» (Idem na Agromancelos, Amarante, 3 de Novembro de 2008)

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        Os arrependidos

        fuck off

        Releio dois parágrafos de Claudio Magris, em Danúbio, nos quais o escritor recorda certos frequentadores do clube Strohkoffer, na Viena dos anos 50 e 60, e revejo aquelas pessoas pelas quais todos passamos – ou que pelo nosso bairro físico e imaterial continuam a mostrar-se – cuja radicalidade alardeada, mas invariavelmente falha de inteligência e humanidade, se transvestiu rapidamente no seu reverso. E naquelas outras que em sentido contrário são capazes de escalar as suas circunstâncias e ir alimentando, devagar mas com segurança, sem mais ruído que o necessário, a heróica capacidade de infringir.

        Nos seus «actos poéticos» de exibição, que pretendiam transformar a vida, havia a ingenuidade persistente de quem julga transgredir a lei do Pai despindo as calças, a presunção patética de programar a espontaneidade por encomenda e a arrogância dos que se crêem anunciadores de um novo evangelho clownesco-orgástico-cibernético, com muito pouca novidade.

        Hoje seriíssimos volumes académicos celebram esse «ativismo» poético e ostentam com gravidade ideológica as fotografias de autores que se apresentavam ao público nus, a fazer chichi, mergulhando a pila em jarros espumantes de cerveja e amontoando-se em atitudes que gostariam de ser obscenas, quer dizer, originais e inocentes. A tudo isto falta cruelmente a invenção, o autêntico nonsense, a fantasia imprevisível, a ironia: a nudez e os gestos provocantemente ostentados são previsíveis como as fardas dos cadetes numa academia militar. Hoje, os ex-iconoclastas ganharam juízo, como os goliardos que se transformaram em notários, proferem conferências na universidade e criticam 1968.

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          Euro-eunucos

          Monsieur Barroso
          imagem retirada daqui

          Da crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso deste sábado («O voo dos abutres»):

          «(…) Por sorte deles [os abutres americanos das agências de notação], encontraram em Bruxelas uma cambada de eunucos, uma colecção de políticos sem nenhuma visão política de futuro, aterrorizados pelas opiniões públicas locais e as suas conjunturas eleitorais, um clube de cobardes sem alma nem grandeza, que irão dar cabo da mais fascinante ideia política desde o pós-guerra, que é a da unidade europeia. Aquele triste ajuntamento de cromos fotográficos não percebeu ainda que está sob ataque concertado e ajoelha-se perante a ofensiva de três agências americanas que estiveram directamente envolvidas no eclodir da crise mundial, ao acompanharem o irresponsável senhor Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal americana, e o idiota do ex-Presidente Bush na cobertura do mais inacreditável roubo alguma vez cometido na história da economia — que foi o roubo da economia americana por parte do seu sector financeiro, com consequências que sobraram para o mundo inteiro. Estes tipos que, com o seu aval, permitiram que os Madoffs e os Lehman Brothers roubassem as poupanças e a confiança dos que trabalharam uma vida inteira para terem a sua reforma e a sua casa; que, lá de longe, assinaram a falência de milhares de empresas do mundo inteiro e condenaram dezenas de milhões de trabalhadores ao desemprego, agora exigem que Bruxelas assine por baixo que uma nação com quase nove séculos de história, como Portugal, seja lixo, e uma nação, como a Grécia, que fundou a Europa e que fundou a democracia e a civilização mediterrânica, há dois mil anos, seja tratada ao nível de merceeiro.

          Em 1945, logo depois do final da guerra, Winston Churchill, que mobilizou a Europa e o mundo livre contra o nazismo, foi à Grécia para mostrar que a Europa livre apoiava a Grécia que resistia a ser encerrada na Cortina de Ferro de Estaline. Quando desembarcou, combatia-se uma guerra civil nas ruas de Atenas e ele nem conseguiu sair do aeroporto, porque nem sequer havia um poder estabelecido para o receber. Mas esteve lá, em nome da Europa e em nome da liberdade. Hoje, um qualquer finlandês ou polaco decide em Bruxelas sobre o futuro da Grécia, numa lógica de castigo e humilhação, e Bruxelas assiste, sem reagir, a que umas agências americanas, sem rosto nem qualificação para tal, decidam em seu nome se a Grécia deve ser reduzida a pó e Portugal a lixo. Para que a economia do planeta fique entregue ao combate final entre os especuladores financeiros da América e os piratas do dumping social asiático. Eis o que o capitalismo fez com a sua vitória histórica sobre o socialismo de Estado! (…)»

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            Salazar e a Coca-Cola

            Calendar Girl

            A Coca-Cola fez ontem 125 anos de existência nas bocas do mundo. Até chegar a «água suja do imperialismo» ou ao poderoso diurético um dia recomendado numa entrevista intimista de Lula, o caminho foi longo. Começou cedo, a 8 de Maio de 1886. Com a designação altamente suspeita de «Pemberton’s French Wine Coca», foi inicialmente anunciada como uma bebida para intelectuais, revigorante do cérebro e tónica para os nervos fragilizados. Mas rapidamente arrancou para uma história de sucesso, cujos contornos mais pitorescos podem ser conhecidos no fascinante Made in America, de Bill Bryson (da Bertrand). Por aqui, a efeméride é evocada num colorido relato apresentado por Maria Filomena Mónica em «Trinta anos que mudaram Portugal. 1961-1991», texto incluído na sua colectânea Cenas da Vida Portuguesa, publicada há uma dúzia de anos pela Quetzal. Sabendo que a sua completa fiabilidade histórica requeria uma identificação da fonte que não encontrei, não resisto, ainda assim, a reproduzir o episódio relatado pela popular socióloga. Aqui vai: (mais…)

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              Achtung, camaradas!

              W. Merkel

              Wolfgang Merkel – não, que se saiba não é nada à outra senhora – não se trata de um sujeito qualquer. É cientista político, investigador emérito no Centro de Investigação em Ciências Sociais de Berlim, e noutros tempos foi conselheiro, calculem lá, dos senhores Blair, Schroeder e Zapatero. Um de cada vez, bem entendido. Está de passagem por Lisboa e ontem respondeu assim a duas das perguntas que o Público lhe fez.

              A Terceira Via parecia ser a resposta da social-democracia à globalização. O seu sucesso também acabou. Essa corrente ainda contém elementos para essa resposta do centro-esquerda à globalização?

              Enquanto metáfora, acabou. Quanto aos seus elementos constitutivos, há um legado negativo e outro positivo (…). Deixe-me citar primeiro dois ou três fracassos. Um dos maiores foi aquilo a que eu chamo o «Estado dos impostos». Eles não pensaram realmente que a social-democracia precisa de um Estado forte e que este tem de ser capaz de cobrar impostos a todas as classes da sociedade. E o que fizeram foi reduzir os impostos às empresas, às corporações, aos altos rendimentos, isso abriu as portas àquilo a que o grande economista Douglass North chama o «caminho da dependência». Passou a ser extremamente difícil voltar atrás, porque qualquer força política que o fizesse seria logo acusada pelos adversários de querer aumentar os impostos e isto faz perder eleições em quase todos os países europeus. O enfraquecimento do «Estado dos impostos» foi certamente um dos principais fracassos.

              O segundo foi terem sobrevalorizado os efeitos positivos da globalização, levando-os ao credo na desregulação financeira. Foi um erro. Não viram que o impacto da globalização, que se traduziu num aumento de bem-estar geral, deixou de fora o terço mais pobre das nossas sociedades, que se dividiram entre os ganhadores e os perdedores da globalização.

              O terceiro erro eu diria que foi terem deixado de fora o espaço da UE como espaço de acção política. Estes três erros acabaram por acelerar os problemas da social-democracia.

              As coisas boas?

              Não são tão fáceis de enunciar. Uma delas foi a importância que deu à sociedade civil, dizendo que o Estado não pode fazer tudo pelas pessoas. E, pelo menos em teoria, a ênfase que colocaram na educação, educação, educação.

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                Que viva Brega

                Voluntários

                A magnífica reportagem de Paulo Moura saída hoje no Público revela-nos a nova paisagem humana de Brega. Quase a de uma cidade mexicana recém-ocupada pelas companhias desordenadas mas generosas dos exércitos de Villa ou de Zapata. No Libération, de hoje também, um artigo do enviado Jean-Pierre Perrin desvenda um cenário idêntico de confusão, improviso e coragem. Vale a pena ler um pedaço para tentarmos tocar a bravura irracional mas admirável destas pessoas.

                Parece que a revolução líbia se disfarçou de western spaghetti. Um ambiente saturado de poeira de cidade de fronteira, tal como a imaginaram Sergio Leone e Sam Peckinpah: uma única estrada aberta sobre o deserto, pequenas lojas com as portas fechadas, sem excepção, e, espalhados pelo caminho, circulando por entre pilhas de detritos, cachos de combatentes disfarçados de soldados.

                Os uniformes são os mais bizarros: a roupa civil mistura-se com adereços supostamente militares, bonés de esqui, particularmente apreciados, alternam com capacetes de explorador, os dólmanes seguem modelos de todos os tipos. Sabemos que na terça-feira aconteceu um combate – a oposição fala de batalha – porque o chão se encontra pejado de invólucros. Nos quatro cantos da localidade, as pic-ups vigiam levando sobre a caixa aberta metralhadoras antiaéreas ou canhões anticarro. Em frente ao cibercafé Novo Mundo, uma dezena de soldados, armados de kalachnikov e de lança-foguetes, descansam deitados sobre caixotes de munições abertos a golpes de chave de fendas. Visivelmente, para a maioria deles a guerra é uma profissão nova. Um combatente vestiu o seu colete antibalas ao contrário. Um ou outro olha pelo lado errado a mira do seu lança-mísseis SAM 7. (…) A maior parte das fardas foram pilhadas nas casernas de Benghazi ou de Ajdabiya. Alguns trazem até distintivos. Asas de pára-quedista decoram peitos de homens que nunca entraram num avião.

                (…) Este exército de umas dezenas de homens, reforçados por habitantes das redondezas, é essencialmente composto de voluntários. Como Siraj Ben Ahmad, de 27 anos, gerente de uma sociedade comercial, que veio de Benghazi. «Eu nem sequer sei pegar numa arma. Por isso ajudo como posso, passo as munições ou vou buscar comida», afirma ele. Um pouco mais velho, também ele originário daquela cidade, Yahyia Morit controla uma bateria antiaérea. «Tive um dia de formação em Benghazi. Ontem ainda, eu era farmacêutico. Hoje, porque acredito na liberdade, tornei-me um atirador», diz sem se rir.

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                  Revolução Revolution (parte 2)

                  Momentos irrepetíveis. Em «On the Square», de Wendell Steavenson, no Cairo. The New Yorker de hoje.

                  Inside was the Republic of Tahrir, where the protesters had established a kind of revolutionary utopia. As you came through the barricades by the Qasr al Nil Bridge, a funnel of protesters cheered and dapped and chanted, «Welcome! Welcome to the free, who have joined the revolutionaries!» The scene was indescribably moving. There was no hierarchy or formal organization on the square, and yet lines of protesters guarded the barricades while others swept the garbage into neat piles and manned the checkpoints to search people for weapons. People brought food and water and medicine into the square and gave it out for free. «We are queuing up!» one activist who had named his tent the Freedom Motel told me, incredulous at the number of people flowing into the square. «When was the last time you saw an Egyptian queuing up?» I asked one young female volunteer in a floral head scarf if she was with any particular organization. «I am with no one», she replied simply. «I am with the people.»

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                    Medidas da felicidade

                    Ando a ler/reler trabalhos publicados nas décadas de 1970 e 1980 por João Martins Pereira. Este é o segundo fragmento seguido de um texto (muito) de circunstância que tenho vontade de partilhar.

                    «31 de Janeiro [de 1985] Sempre que a minha filha chega a casa e diz «Hoje foi um dia tão bom!» – correram-lhe bem as aulas, ganhou o jogo de basquete, trocou olhares cúmplices com um colega, sei lá que mais — não consigo evitar lembrar-me, abusivamente, das últimas palavras de Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Soljenitsine (de que então apenas conhecia esse livro e nada mais: se fosse hoje, voltando ao tema de há dias, tê-lo-ia lido da mesma maneira?): «No campo de prisioneiros Sukhov adormeceu completamente satisfeito, feliz. Fora bafejado por vários golpes de sorte durante aquele dia: não o haviam posto no xadrez; não tinham enviado a brigada para o Centro; surripiara uma tigela de kasha ao almoço; o chefe de briga­da fixara bem as rações; […] comprara tabaco. E não caíra doente. Um dia sem uma nuvem carregada, sombria. Quase um dia feliz»

                    E um desempregado, que calcorreia por trabalho, ou se arrasta pelas ruas? E um empregado, que diariamente repete, a horas cer­tas, os mesmos gestos maquinais e desinteressantes? E um velho, que frequenta, dias sem fim, os mesmos cantos da casa ou os mesmos bancos de jardim? Que pequenos nadas lhes conseguirão fazer «um dia feliz»? Que sociedade é esta, de tão baixas expectativas, que a simples pausa de uma máquina, o tempo de uma beata, ou um banco livre batido pelo sol cheguem talvez para tornar «feliz» um dia igual a todos os outros?» [João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos – 1984-1987]

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                      Incomunicar

                      incomunicar
                      ©2007-2011 melezartworks

                      «22 de Fevereiro [de 1985] – Por vezes cruzamo-nos com rostos que nos reconciliam com o mundo. Na maior parte dos casos são rostos de crianças, ou de adolescentes. Algumas vezes, de velhos. Quase nunca de adultos, esses crispados, tensos, ruminando frustrações, pressas, responsabilidades, preocupações – rostos sem desejo, sem alegria. Incomunicáveis.» [João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos – 1984-1987]

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                        Papéis Roubados #9

                        Juan Goytisolo

                        A propósito de Sussurros, o grande livro de Orlando Figes recentemente lançado em Portugal (ver aqui e sobretudo aqui), tem sido comentado o papel da denúncia como factor indispensável no lançamento e na conservação dos regimes pesadamente autoritários. Neste artigo tão extenso quanto notável,  Juan Goytisolo ensaia uma aproximação entre a rede de denunciantes estabelecida pela Inquisição espanhola e aquela que se tornou factor essencial de funcionamento da máquina repressiva estalinista, ambas transformadas em factores de uma espécie de «concurso nacional»: «Todos participam nele, por decreto e estímulo do poder: vizinhos, colegas, parentes, delatando-se uns aos outros, desmascarando, assentindo, votando ou fechando os olhos e tapando as orelhas para não ver nem ouvir, para não saber que o mal triunfa e, dessa maneira, abrindo-lhe o caminho». Goytisolo associa também esta prática insidiosa à difícil condição do escritor em sociedades povoadas por legiões de denunciantes.

                        Literatura y poder
                        Juan Goytisolo

                        El País, 18/12/2010

                        En el periodo de turbulencias que sacudían el califato omeya, el soberano envió a la mezquita de Kufa – semillero de disputas teológicas e interpretaciones distintas del libro de la revelación coránica – la siguiente advertencia: «Esta noche un tirano / sembrará el terror. / No será camellero / ni pastor / sino un carnicero / presto al tajo».

                        Los asfixiantes poderes autocráticos que se suceden a lo largo de la historia de las diversas civilizaciones del planeta, fundados siempre en el miedo y la humillación de los seres humanos, inspiraron al gran escritor egipcio Gamal El Guitani las figuras contrapuestas, pero complementarias, de Zayni Barakat, el personaje que da el título a la novela (1), y de Zacarías Ibn Radi, servidores ambos del sultán El Guri. Mientras la «filosofía» de Ibn Radi, regidor de un averno de suplicios y ejecuciones de los sospechosos de desafección al déspota, se resume en su reflexión de cancerbero

                        «El cruce del umbral de nuestras puertas debe ser para el prisionero un límite entre dos periodos. Su vida se ha de dividir en dos partes, de tal manera que cuando un individuo salga de aquí, no habrá cambiado de nombre sino de alma»

                        su colega Zayni preconiza métodos más sutiles que el tormento, como el de la utopía del mundo virtual en el que hoy habitamos

                        «Yo ya veo el día en el que el gran jefe de los espías podrá examinar la vida entera de una persona (…) Y, no sólo lo que es visible, sino también sus deseos, sus sueños, sus inclinaciones (…) De manera que podríamos predecir lo que va a hacer un individuo al llegar a la edad adulta (…) ¡Obremos juntos para alcanzar la conversión de la humanidad al espionaje!»

                        Los archivos del Santo Oficio y de la policía soviética que examinamos a continuación responden a la vez a la brutalidad sin límites de Ibn Radi y al sistema de delación y escrutinio de Zayni. “Si alguien suspiraba de diferente manera que el resto de los vecinos”, dice este último, él “se enteraba inmediatamente”. En resumen, un ojo omnividente y un oído que todo registra y capta.

                        En la época de los arrestos masivos de 1937-1939, un miembro de las juventudes comunistas, Pávlik Morózov, denunció a su padre en razón de sus ideas contrarrevolucionarias. Éste fue inmediatamente fusilado y el muchacho, erigido al rango de héroe de la patria, se convirtió en paradigma del hombre nuevo, del modelo digno de imitación.
                        (mais…)

                          História, Olhares, Recortes

                          Papéis Roubados #8

                          Rafael Sánchez-Ferlosio

                          Clap, clap, clap! Aplausos por todo o lado e por tudo e por nada: das bancadas do Parlamento («muito bem!», clap, clap, clap!) aos «minutos de silêncio» e funerais (clap, clap, clap!), passando por um momento qualquer de um qualquer programa televisivo gravado «ao vivo» (mais clap, clap, clap!). O escritor, ensaísta, gramático e linguista espanhol Rafael Sánchez-Ferlosio escreve sobre o tema. Com uma grande dose de lucidez e um musculado sentido crítico.

                          Aplausos
                          Rafael Sánchez-Ferlosio

                          El País, 29/11/2010

                          Si hay alguna cosa de la que parezca apropiado decir que está fuera de lugar es de los aplausos en el Congreso. Ni siquiera se aplaude a lo que se dice, a su significado -que ya estaría mal-, sino a la pertenencia del que lo dice, siempre que sea de los propios. Hoy parece que los diputados no se dan cuenta, ni imaginan siquiera, el efecto de ridículo, de vergüenza ajena, que suscitan en el televidente especialmente cuando no son más que 30 o 50 centímetros los que separan las manos que aplauden del rostro del aplaudido. Ninguna sonrisa más falsa que la de este cuando ha de expresar gratitud en tan obligado trance. Ahora tengo en los ojos de la mente a don Mariano Rajoy y a doña María Dolores de Cospedal, pero eso no quiere decir que otros dos nombres de idéntico parentesco político, al otro extremo del hemiciclo, no podrían remplazarlos en una situación perfectamente análoga.

                          La idea de que esos aplausos tan fuera de lugar se suprimiesen -ya sea por votación de los propios diputados, ya por reforma normativa del Tribunal Constitucional, si es que ello es verosímil- sería, a mi entender, muy saludable, y además estético, pero virtualmente imposible de poner en práctica. No ya por resistencia de una minoría que hubiese votado en contra, pues no tengo noticia de que los discordes con la normativa establecida suelan dejar de cumplir, aun a su pesar, lo ratificado por la mayoría.

                          El fundamento de mi desazón es bien distinto y bastante más grave. Es la naturaleza de automatismo, de reflejo mecánico, que ha llegado a adquirir en nuestros días el aplauso. En las televisiones se está aplaudiendo constantemente a todo, en todo el día no se hace otra cosa que aplaudir, no se hace cosa de provecho en todo el día. En los entierros el aplauso se ha hecho tan convencional que se mira como una descortesía el no aplaudir. Todavía disuena en los oídos de los mayores, acostumbrados al silencio entre los muertos, pero tal vez no sea ya más que otra convención para los jóvenes, aunque para nosotros tiene la estridente inoportunidad de ser una forma de expresión que comparte con ceremonias y ocasiones alegres y festivas.

                          El automatismo del aplauso en el Congreso lo pone aún más fuera de lugar, lo hace aún más gratuito y más indigno. Lo malo está en que cuanto mayor sea el automatismo, la índole refleja de una cosa, tanto más fuerte se hará frente a cualquier voluntad de suprimirla. En fin, que lo que hace más impropio y despreciable el aplauso en el Congreso viene a ser precisamente lo mismo que lo hace más imposible de erradicar. ¡Todo un paradigma de la cultura actual!

                            Olhares, Opinião, Recortes

                            Asia Bibi e a blasfémia

                            As filhas de Asia Bibi

                            Do El País de hoje:

                            «La Organización de la Conferencia Islámica (OCI) intenta que Naciones Unidas se pronuncie a favor de legislar contra la blasfemia con ocasión de la reunión del Tercer Comité de la Asamblea General especializado en las cuestiones sociales, humanitarias y religiosas. Aunque se trata de una solicitud rutinaria de la OCI desde 1999, en esta ocasión resulta particularmente inoportuna: sobre una cristiana paquistaní, Asia Bibi, pesa una condena a muerte por haber presuntamente criticado al profeta Mahoma.

                            El debate en Naciones Unidas puede transmitir el equívoco mensaje de que la aplicación de la pena capital es una cuestión controvertida internacionalmente cuando la creencia religiosa está por medio. Ni existe ni debería existir controversia alguna: la pena de muerte es execrable en toda circunstancia, también cuando se dicta por lo que no es, en el fondo, más que el ejercicio de la libertad de opinión. Mejor harían la OCI y la Asamblea General solicitando la conmutación de la pena dictada contra Asia Bibi.» [continua aqui]

                            Mais informação sobre o caso de Asia Bibi

                              Atualidade, Democracia, Recortes

                              Papéis Roubados #7

                              Slavoj Žižek

                              Não sou propriamente um admirador absoluto dessa força da natureza que é o filósofo esloveno Slavoj Žižek e nem sempre acompanho um certo «equilibrismo retórico», por vezes sob a forma de patchwork, que escolta algumas das suas iluminações. Mas talvez por isso mesmo me pareça particularmente lúcido e útil o seu artigo «Para sair da armadilha», recentemente editado pela New Left Review e agora publicado na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique. Dele transcrevo alguns fragmentos esclarecedores. Talvez dêem para percebermos o esforço de Žižek para conceber «outro mundo possível» associando-o a um combate anticapitalista que não segue a linha maximalista do «quanto pior, melhor». Que não prefere o caos que conduz ao desastre à ordem injusta e imoral imposta pelo domínio integral do dinheiro. Uma reflexão simultaneamente realista e radical que pode ajudar a encontrar um caminho sem ficarmos à espera que alguém suficientemente sábio, bondoso ou divino no-lo indique.

                              Para sair da armadilha
                              Slavoj Žižek

                              Le Monde Diplomatique, edição portuguesa – Novembro de 2010

                              Uma coisa é certa: após décadas de Estado-providência, durante as quais os cortes orçamentais continuavam a ser limitados e sempre acompanhados da promessa de que as coisas voltariam um dia ao normal, entramos hoje num estado de emergência económica permanente. Uma nova era que traz con­sigo a promessa de planos de austeridade cada vez mais severos, de cortes cada vez mais drásticos na saúde, nas pensões de reforma e na educação, bem como uma maior precarização do emprego. Encos­tada à parede, a esquerda deve assumir o desafio enorme de explicar que a crise económica é, antes de mais, uma crise política que não tem nada de natural, que o sistema existente resulta de uma série de decisões intrinsecamente políticas —, continu­ando consciente de que este sistema, enquanto nos mantivermos no seu quadro, obedece a uma lógica pseudonatural cujas regras não é possível mudar sem provocar um desastre económico. (mais…)

                                Atualidade, Opinião, Recortes

                                Papéis Roubados #6

                                Manuel Rivas

                                O escritor, poeta, ensaísta e jornalista galego Manuel Rivas, que costumo ler com a atenção que merecem sempre todos os alertas, deixou no caderno principal do El País de sábado uma crónica rápida mas penetrante sobre aquilo que chamou de «melancolia democrática». Uma sensação generalizada de desprendimento diante do compromisso que nos está a empurrar a todos sabe-se lá para onde. Podemos ter a absoluta certeza de que não será para o Paraíso.

                                Los Ex
                                Manuel Rivas

                                El País -13/11/2010

                                En el mundo vivimos una situación extraordinaria. En unas partes más extraordinaria que en otras, es verdad, pero todos compartimos un extraordinario desasosiego. La sensación de lo ex. La melancolía democrática. Sabemos quien gobierna, pero no quien manda. No es el fin de la historia, pero vivimos en una atmósfera de ex historia. Unos cuantos ejemplos frescos. En Europa, para salvar la caja de Pandora de los especuladores del capitalismo mágico, se saquean las conquistas sociales. Es el ex Estado de bienestar. Los universitarios británicos esperaban la gratuidad de matrículas y les han devuelto dos tazas de tasas. Era una promesa en firme de los ex liberaldemócratas, caídos en la red de los ex conservadores, a su vez atrapados en la telaraña de los conservaduros. En el Sáhara Occidental, nuestros conciudadanos ex españoles sufren la expulsión exterior y el expolio interior. En vez de autodeterminación, una lenta exterminación. En México se habla de la desaparición de un Estado desorganizado ante el poder del crimen organizado. Mientras, el gran supermercado gringo abastece la libre balacera. En este contexto, las voces que más se escuchan son las de los ex. Los ex discursos. En España, el ex González con un ex dilema que confunde el estadista con un Zeus que podría decidir sobre la vida y la muerte, al margen de un Estado de derecho que él ayudó a crear. El ex Bush exculpándose de una cruzada bélica que él encabezó, al tiempo que justifica la tortura con una literatura del género horroroso. Una posición que recuerda aquel eufemismo del ex policía de la dictadura portuguesa que definió el tormento como “ausencia de confort”. Lo que también provoca una ausencia de confort mental es descubrir por Bush que el espiritista de las Azores fue nuestro ex Aznar, a quien llama El Visionario. Otra profecía de José María Nostradamus y acabamos todos cazando leones en Escocia. Menos mal que nos queda la experanza.

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                                  Papéis Roubados #5

                                  A refeição

                                  Enquanto não leio a tradução da última obra de Tony Judt – Ill Fares The Land: A Treatise On Our Present Discontents (Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos, das Edições 70 e já nas livrarias), aqui ficam dois extractos, retirados da nota de leitura de Manuel Carvalho saída hoje no suplemento Ípsilon do Público. Chamando à reflexão e a algum tento na língua na crítica fácil ao papel moderador do Estado e à atitude dominantemente solidária e optimista, por vezes desdenhosa em relação ao lugar central do dinheiro, que percorreu o mundo ao longo das décadas de 1950-1960.

                                  «Muito do que hoje nos parece ser ‘natural’ data dos anos 80: a obsessão com a criação de riqueza, o culto da privatização e do sector privado, as crescentes disparidades entre ricos e pobres. E acima de tudo a retórica que as acompanha: a admiração acrítica dos mercados livres, o desdém pelo sector público, a ilusão do crescimento eterno.»

                                  «Libertámo-nos em meados do século XX da assunção – nunca universal, mas muito espalhada – de que o Estado é provavelmente a melhor solução para um determinado problema. Temos agora de nos libertar da noção oposta: a de que o Estado – por definição e em todos os casos – é a pior opção disponível.»

                                    Atualidade, Recortes