Arquivo de Categorias: Jornalismo

Liberdade versus insídia

Fui uma das 42 pessoas que subscreveram a «Carta aberta às televisões generalistas nacionais». Um documento coletivo, onde cidadãos e cidadãs com diferentes sensibilidades, opiniões e escolhas políticas convergiram na denúncia pública de algumas práticas das televisões generalistas. Criticando, em particular, o facto de, no contexto da atual pandemia, estas tudo fazerem para destacar os seus aspetos mais negativos, servindo-se das circunstâncias para lutarem pelas audiências e, de caminho, para atacarem quem procura, contra carências, incompreensões e situações imprevisíveis, atalhar o melhor e o mais rápido que é possível às consequências do flagelo.

Uma crítica completamente legítima, feita, não tanto ao conteúdo dos noticiários – e muito menos à liberdade de informar – mas a um registo que, na conhecida linha do jornalismo sensacionalista, tem ampliado a confusão e o alarmismo, em nada ajudando a responder ao problema e a serenar os cidadãos. Na verdade, a «Carta» era um apelo à consciência crítica de quem ali exerce o dever de informar, no sentido de, no contexto, definir uma posição menos agressiva e mais útil.

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    Democracia, Jornalismo, Opinião

    O alerta da desconfiança

    Não me custa reconhecê-lo: sou viciado em informação. Talvez isso se deva em boa parte a ter aprendido a ler pelo jornal, ao colo do meu avô, nessa época correspondente local do Diário de Notícias e leitor aos fins de semana d’O Primeiro de Janeiro, ou por o meu pai ter o hábito de trazer para casa dois diários, por vezes três. Gosto de pensar que assim é também por escolha pessoal: graças a ter crescido num lugar onde não se passava nada e era preciso levantar o pescoço para espreitar o que acontecia mais além. A generalização da televisão, mesmo a censurada, ajudou bastante a ampliar esse olhar. Depois, o telejornal da noite tornou-se horário sagrado nas casas que fui habitando. A rádio, de início em onda média ou curta, ajudava também. Mais tarde, quando passava férias longe de algum quiosque, todos os dias conduzia vinte ou trinta quilómetros, sem pestanejar, só para poder comprar o jornal. E fui praticamente pioneiro da Internet, que comecei a usar regularmente logo em 1993.

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      Apontamentos, Atualidade, Jornalismo, Olhares

      Vicente (1945-2020)

      Para além de outras atividades e escolhas, quanto mais não fosse por três experiências únicas do jornalismo português Vicente Jorge Silva mereceria para sempre o reconhecimento e a lembrança. Em primeiro lugar, a fundação da nova fase do Comércio do Funchal (1966-1974), o jornal cor-de-rosa que, sem sectarismo e contra a censura, deu voz, principalmente durante o marcelismo, à esquerda da esquerda que não se reconhecia no PCP. Em segundo lugar, a fundação da Revista do Expresso, semanário do qual foi diretor adjunto, durante muito tempo a mais lida, dinâmica e influente publicação de cultura da imprensa portuguesa. E em terceiro, em 1990, a co-fundação e direção inicial do Público, então rapidamente transformado num jornal pluralista respeitado e com um fiel número de leitores. O fragmento de um editorial do Comércio do Funchal que aqui se transcreve mostra um pouco de Vicente (e do mundo que observava) em fevereiro de 1972.

        Apontamentos, Jornalismo, Memória

        Toda a mentira é reacionária

        Escrevia-se há dias em alguns posts do Facebook que as fake news são sempre de direita, assegurando-se como indiscutível que «não existem fake news de esquerda». Quem tenha sentido crítico e de verdade, e visite com atenção e critério certos sites de informação, para além de estar atento também a setores identificáveis das redes sociais, sabe que, infelizmente, isso não é de todo verdadeiro. Alguns, com designações, cores e alguns conteúdos que os associam à esquerda e aos valores de Abril, não olham a meios para afirmar uma dimensão parcial dessa a verdade «a que temos direito» com um foco unilateral.

        Desde afirmações caluniosas sobre pessoas que pretendem isolar ou combater, até à inclusão de «informação criteriosa» chegada através de agências de contra-informação russas (a Sputnik, por exemplo) ou da América Latina, que oferecem informação «única» sistematicamente manipulada e parcial (a Síria, a Rússia e a Venezuela estão, aliás, particularmente no centro desta barragem de «invenções verdadeiras», que consideram sempre manipulador o trabalho de milhares de jornalistas espalhados pelo mundo). A luta pela verdade e pela transparência da informação não pode ser feita com um olho aberto e o outro fechado. E toda a mentira é reacionária.

          Apontamentos, Democracia, Jornalismo, Opinião

          O veneno do tabloidismo

          Parafraseio de forma muito livre a tantas vezes citada frase com a qual abre o Manifesto Comunista, publicado por Marx e Engels em Fevereiro de 1848: um espectro ronda o mundo da informação, esse é o espectro do tabloidismo. Por toda a parte os jornais mimetizam o modelo de publicação, surgido em meados do século passado, que visava conquistar novos públicos privilegiando o espetacular, o fácil, o fútil, o breve, o colorido e ilustrado, fundado no escândalo, no sexo, na violência e na dor dos outros. E quanto mais, melhor, pois supostamente mais vende. Mas se a tendência existe há largas décadas, ela permaneceu durante algum tempo confinada a certas margens, ou a públicos específicos. Isto fazia com que existissem publicações diferentes para diferentes pessoas, cada uma com voz própria e vocacionada para comunidades de leitores que partilhavam distintos interesses, escolhas, linguagens ou expectativas. (mais…)

            Democracia, Jornalismo, Olhares, Opinião

            Erros e invenções

            Intervenho publicamente no campo da opinião desde há muito, com uns quantos textos ainda objeto de cortes sérios ou liminarmente proibidos por uma censura nada compreensiva, e por isso também há muitos anos aprendi que é de todo impossível controlar a forma irregular como, quem saia do seu recanto pessoal e decida escrever para os outros, pode ver lidas e interpretadas as palavras que utiliza. Não me refiro a meras opiniões – essas, sempre legítimas, quanto mais plurais e propagadas, tanto melhor – mas sim, insisto, às leituras e interpretações. Em muitos casos, trata-se de frases retiradas do contexto, ou mesmo deturpadas, que proclamam termos dito aquilo que jamais dissemos. Ainda pior, palavras abusivas que bastantes vezes colocam na nossa boca justamente o contrário do que pretendemos dizer. Ou então que resultam de uma leitura apenas parcial do que foi escrito. É um risco que corre quem escreve, mesmo quando se esforça na clareza, vinculado ao velho princípio segundo o qual quem anda à chuva acaba molhado. Não sendo por isso, todavia, que no inverno se tranca em casa. (mais…)

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              O local, o global e a imprensa regional

              localnews

              Na última quinta-feira o jornal desportivo Super Deporte, publicado na capital da Comunidade Valenciana, proclamava a toda a largura da primeira página, a propósito do jogo do Euro-2016 de Portugal contra o País de Gales, que Nani marcara «o seu primeiro golo como jogador do Valência». Na verdade, à hora a que escrevo o futebolista nascido na cidade da Praia mas com nacionalidade portuguesa ainda não assinou sequer o contrato formal com o clube do morcego. Por isso, para além de tecnicamente errado, o título é descabido. O objetivo do jornal é, obviamente, exaltar um certo orgulho local ou regional, ainda que Valência, com os seus 800.000 habitantes, não seja propriamente uma aldeia da comarca de Las Hurdes a precisar de propaganda. (mais…)

                Apontamentos, Atualidade, Jornalismo, Olhares

                Os nossos caça-fantasmas

                Imagem de Alexandra

                A situação política criada em Portugal com as últimas eleições, ganhas pela coligação PSD-CDS, mas com uma clara maioria de eleitores a votarem à esquerda e com uma representação parlamentar correspondente, tem tanto de novo quanto de inesperado. Sobretudo porque configura a possibilidade, jamais experimentada, de a curto ou médio prazo se constituir um governo do «arco da esquerda», ou neste apoiado, capaz de infletir a política austeritária e de destruição do Estado social levada a cabo, de forma violenta e sistemática, pelo último governo. Neste contexto, muitos comentadores próximos da direita política com lugar mais ou menos cativo na comunicação social – entre os quais incluo uma minoria de pessoas vinculada à ala neoliberal e clientelar do PS – têm reagido através de posições que oscilam entre o pânico e o estado de negação, desenterrando episódios avulsos e mitos catastrofistas vindos do processo revolucionário de 1974-1975. (mais…)

                  Atualidade, Democracia, Jornalismo, Opinião

                  Paris, 7 de Janeiro

                  Admito que só ocasionalmente passava os olhos pelo semanário Charlie Hebdo e que nem sempre apreciei o teor político de alguns dos seus cartoons, mas não é por isso que aceito a indiferença perante o ataque brutal do qual na passada quarta-feira foram alvo alguns dos seus desenhadores, jornalistas e colaboradores. A barbárie expressa na iniciativa homicida dos assassinos vestidos de negro começou, como se sabe, na vontade de punir com a morte aqueles que consideravam responsáveis por alusões de teor satírico à figura do profeta Maomé. Mas não se tratou apenas de um gesto de vingança em nome de uma conceção rígida e intransigente do Islão: revelou também uma firme vontade de coagir pela força a liberdade de imprensa e o direito de opinião, atacando o papel do humor como instrumento de crítica e de humanidade. (mais…)

                    Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Jornalismo, Opinião

                    Do jornalismo como missão

                    Podemos sempre encontrar, num momento recuado das nossas vidas, a projeção de uma profissão a exercer naquele futuro distante ao qual chegaríamos invencíveis e adultos. Dessa fase dos destinos improváveis lembro-me apenas de querer imitar David Crockett, o explorador do Tennessee, insuperável no manejamento do rifle e na caça ao urso. Mas recordo também o desejo de um dia me tornar jornalista. Em parte por causa dos meus heróis da banda desenhada que o eram também, como Luís Euripo ou Tintim. Mas sobretudo devido à influência dos jornais com os quais apreendi a ler: o Diário de Notícias, do qual o meu avô era «agente e correspondente», e O Primeiro de Janeiro, que ele comprava aos domingos e lia de uma ponta à outra totalmente alheado das rotinas da casa. Imerso nas suas páginas sempre renovadas, na aparência infinitas, passei a associar o trabalho daqueles que os faziam a um imaginário de viagem que me atraía e a uma vida que julgava isenta de rotinas. (mais…)

                      Atualidade, Jornalismo, Olhares, Opinião

                      Carpe diem

                      Boa parte do que muitas pessoas de diferentes gerações, a minha incluída, aprenderam ao longo da vida, ficou a dever-se, pelo menos na génese, à leitura de revistas e jornais. Não apenas por causa dos acontecimentos noticiados ou de artigos sobre este ou aquele assunto, mas pela própria riqueza dos textos recolhidos. Muitos jornalistas, ou pessoas que colaboravam com as publicações, sabiam fazê-lo com mestria, suscitando sempre o conhecimento ou a curiosidade. Mesmo num pequeno apontamento, numa entrevista, num comentário, sabiam juntar sempre uma nota de saber que assim era transmitida e recolhida de uma forma natural, sem esforço e sem prejudicar a clareza, ajudando a alargar o universo de conhecimento e de interesses do leitor. Faz-nos muita falta agora – porque agora rara, muito rara – essa forma, simples mas eficaz, de passar o saber acumulado.

                      Lembro isto ao ler num jornal, a propósito da morte de Robin Williams, uma referência ao facto deste ter «celebrizado a expressão ‘carpe diem’». Referia-se a jornalista ao papel de Williams no filme O Clube dos Poetas Mortos, dirigido por Peter Weir e estreado em 1989. Só que o personagem John Keating, o inesquecível professor de literatura que tão bem sabia motivar os seus alunos, citava ali um verso retirado de uma ode de Horácio, o poeta romano do século I a.C., profusamente utilizado no trajeto intelectual do ocidente. Afinal, a ideia de aproveitar o dia, de fruir o momento que passa, não foi «celebrizada» por uma «celebridade», mas retirada de uma tradição com já mais de dois mil anos. Lá escrevia Horácio, «dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero». Como quem diz, traduzindo muito, muito livremente, «enquanto falamos, já terá fugido o invejoso tempo: colhe o dia que passa, confiando menos no de amanhã». As pobres «celebridades» voam depressa e desaparecem no horizonte; o conhecimento, esse fica.

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                        Porque é que a cultura não é notícia?

                        ipsilon

                        Participei esta semana num debate organizado em Coimbra pela Escola da Noite e subordinado ao mote «Porque é que a cultura não é notícia?». Nele foi apresentado por Carla Baptista e Maria João Centeno, do Centro de Investigação Media e Jornalismo, um recente estudo no qual se procurou, a partir da observação das primeiras páginas de jornais portugueses publicados entre 2000 e 2010, fazer o diagnóstico da cobertura jornalística dos temas culturais. Este trabalho, «A Cultura na Primeira Página» (culturaprimeirapagina.fcsh.unl.pt) não responde diretamente à pergunta que motivou a sessão, mas ajuda bastante a perceber de uma forma sustentada algumas das razões que nos obrigam a colocá-la. E também a verificar que o modo como determinadas abordagens continuam a ser destacadas, como outras são remetidas para páginas secundárias e outras ainda pura e simplesmente desaparecem dos jornais, obriga a questionar a forma como neles o próprio conceito de cultura é entendido. (mais…)

                          Democracia, Jornalismo, Opinião