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Loucos Anos 20? Quais Loucos Anos 20?

De repente, não sei precisar em que momento, começaram a chegar-me às turmas de história contemporânea na universidade estudantes que traziam na cabeça uma grande léria sobre os «loucos anos 20». Como se a vida de toda uma década do século passado tivesse sido moldada à imagem da fruída pelo grupo diletante de Scott Fitzgerald e Zelda Sayre. Como um reverso elitista, saído da paisagem parisiense e da Riviera, do que aconteceu a milhões de humanos depois do crash bolsista de 1929. Passando para segundo ou terceiro plano aquilo que foi nesses anos a brutal exploração, as duríssimas condições do trabalho, as perseguições de natureza étnica e política e a explosão dos fascismos. Por vezes, para tentar diluir o que trazem na cabeça sobre o brilho ofuscante da vida experimentada apenas por um pequeno setor da população privilegiada de certas capitais, e para abrir espaço a uma mistura de conhecimento com consciência crítica, leio e comento este parágrafo de «A Era dos Extremos», de Eric Hobsbawm:

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    Artes, História, Memória, Olhares

    A polémica equiparação fascismo-comunismo

    O tema foi debatido há semanas com bastante mais paixão que razão, quando da aprovação no Parlamento Europeu de uma moção que equiparava nazismo e comunismo como de natureza igualmente criminosa e condenável. Por iniciativa do CDS, Iniciativa Liberal e Chega, a Assembleia da República prontamente discutiu um voto de aplauso à deliberação saída de Bruxelas. As bancadas da esquerda reprovaram-no por entenderem, com toda a justeza, que o paralelo estabelecido branqueava o nazismo. Todavia, o assunto é complexo e justifica alguma atenção, tanto pelo sentido histórico do paralelo, quanto pelos objetivos que a decisão visou.

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      Democracia, História, Opinião

      O 25 de novembro e o centro-direita

      Já anteriormente partilhei a memória bastante forte que sei comum a muitos dos homens e das mulheres que como eu viveram o nosso biénio de 1974-1975 de maneira ativa e com alguma dose de consciência política. É a da triste e desesperada manhã do dia que se seguiu ao 25 de novembro de 1975, quando o PREC infletiu claramente no sentido do modelo da democracia representativa que hoje vivemos, afastando-se da dimensão revolucionária a apontar para outras possibilidades. Diversas, aliás, não apenas a do «socialismo autoritário» – partilhado apenas por um setor político – que hoje as forças do centro-direita procuram disseminar como o lado único e negro da sua «verdade» do 25 de novembro.

      Naquela manhã, porém, ninguém sabia muito bem o que iria acontecer, nem mesmo que a Constituição aprovada seis meses depois se iria transformar em bandeira da democracia e do próprio socialismo. A sensação partilhada era a de que o sonho do paraíso na Terra tinha ruído de vez e que estávamos de regresso ao país da «apagada e vil tristeza». É essa convicção numa dimensão de liberdade e de justiça efetivos, não apenas formais, que nessa manhã se cria ter sido amordaçada num insuportável ambiente de «fim de festa», que a direita e uma parte do Partido Socialista jamais entenderão. Mas é ela também, queira-se ou não, que integra o grande legado histórico do 25 de Abril.

        Apontamentos, Democracia, História

        Notas sobre a Queda do Muro de Berlim

        1. Trinta anos após a derrocada eufórica do Muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989, boa parte do seu cenário permanece na nossa memória partilhada. Mais que uma incomum fronteira física, ele constituía uma metáfora, e as metáforas não se apagam por mera vontade política ou a golpes de picareta. Do lado ocidental, uma pesada vedação de 155 quilómetros contornava todo o perímetro da parte da cidade que não fora ocupada pelo Exército soviético. Desse lado era possível tocar o betão que lhe dava solidez, desenhar palavras de ordem ou street art, escalando até uma posição confortável conseguia mesmo observar-se de longe o hermético «Leste». Do lado contrário, a chamada «barreira de proteção antifascista» era cinzenta e deprimente, eriçada de arame farpado, guardada por polícias de gatilho pronto, ladeada por uma terra de ninguém minada e perigosa para qualquer cidadão que tentasse a mera aproximação ao carcinoma do capitalismo. Em cada metade de Berlim, viva-se uma existência esquizofrénica que concebia a realidade a partir de duas escalas que simultaneamente se olhavam e ignoravam. Como se uma não pudesse viver sem a outra, aceitando que a proximidade se materializava numa distância que condenava cada modelo à inflexível clausura. O Muro era também a metáfora suprema da simetria da Guerra Fria.

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          Atualidade, Democracia, História, Música

          Berlim 89, trinta anos depois

          9 de novembro de 1989. Anoitecia e eu começava a jantar quando tive a invulgar sensação de estar a viver em direto a História. O televisor estava ligado e pude então assistir à «primeira revolução televisionada». Diretamente das ruas de Berlim para os lares do planeta, o Muro de betão erguido em 1961 e a ordem mundial que ele simbolizava desfaziam-se às mãos de uma multidão eufórica que não sabia aquilo que se seguiria, mas parecia possuída de uma consciência clara do que não desejava. Projetado a partir daquele momento, as convulsões do biénio seguinte levariam ao fim dos regimes europeus do «socialismo realmente existente», terminando em 26 de dezembro de 1991 com a dissolução formal e definitiva da União Soviética. Era o desabar do mundo vivido e observado por várias gerações.

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            Atualidade, História, Memória, Opinião

            O perigo e o erro da História «certa»

            O regresso da extrema-direita ao primeiro plano do debate político nas sociedades democráticas tem dado um papel de relevo aos chamados «usos da História». Por isso, é um erro atribuir a esta disciplina um lugar neutro, limpo, silencioso, supostamente acima dos interesses e dos conflitos. Se vivemos a era da globalização, permanecemos ainda herdeiros das estruturas políticas nascidas no século XVIII, o que, como notou Marc Ferro, se reflete em muitos dos problemas e dos confrontos que enfrentamos. Estes continuam a passar por batalhas em redor da democracia e da liberdade, do papel do Estado e dos nacionalismos, do lugar da solidariedade e do individualismo, dos direitos humanos e da igualdade, bem como pelos processos de transformação que seguem modelos e ideais contraditórios, associados a diferentes interesses.

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              Ensaio, História, Memória, Opinião

              Social-democracia: equívoco ou solução

              Quem se interesse de modo crítico pela história das ideias políticas conhece a ambiguidade que há mais de cem anos acompanha o conceito de social-democracia. Declarações de Catarina Martins ao Observador, nas quais considerou existir uma dimensão social-democrata no programa do Bloco de Esquerda, trouxeram de novo alguma atenção a esse equívoco, tantas vezes alimentado por circunstâncias históricas, mas também pelo desconhecimento e pelo dogmatismo. Nada tem isto a ver com o PSD, partido liberal cuja inadequada designação resultou das circunstâncias de Abril, mas antes com os setores que à esquerda olham o conceito com aprovação ou descrédito.

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                Democracia, História, Opinião

                Um revolucionário e a sua consciência

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                Na fotografia: Victor Serge, o poeta dadaísta Benjamin Péret, a pintora surrealista Remedios Varo e André Breton, que Serge considerava o típico diletante (França, 1941)
                A partir da recente edição crítica de «Notebooks: 1936-1947», de Victor Serge, e de uma nota de leitura de Alex Press
                  Apontamentos, Democracia, Etc., História

                  Rasura da memória e democracia

                  Vivemos uma inquietante vaga de rasura da memória projetada a partir do apagamento, da reescrita e da trivialização de episódios da história. Uma parte produzida de forma consciente, com objetivos políticos precisos, resultando a outra apenas da leviandade, da indiferença ou da ignorância. Por isso o vínculo entre história e memória está na ordem do dia, seja para quem aproxima estas duas categorias de representação do passado, seja para os que pretendem a sua separação. Olhar com sentido crítico e pragmatismo a relação entre ambas requer um banho de realidade.

                  Em 2015 duas fundações francesas de investigação divulgaram os resultados de um inquérito subordinado ao tema Mémoires à venir. Envolveu cerca de 32 mil jovens de 31 países – Austrália, Canadá, Estados Unidos, Japão, Índia, Israel, Rússia, Turquia e quase toda a Europa – com idades compreendidas entre os 16 e os 19, e visava conhecer aquilo que os cidadãos educados já neste milénio retêm dos grandes acontecimentos do século XX, com a particularidade de terem sido colocadas as mesmas questões a pessoas de regiões e culturas muito diversas. Os acontecimentos mais referenciados foram aqueles que incorporaram uma dimensão traumática: o Holocausto, as bombas atómicas sobre o Japão e as duas guerras mundiais. Dos episódios mais recentes, destacaram-se os que em 1989-1991 envolveram a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética.

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                    Atualidade, Democracia, História, Memória, Opinião

                    O peso da responsabilidade e o anonimato

                    O título desta crónica parafraseia o de um livro do historiador Tony Judt sobre três intelectuais franceses – Léon Blum, Albert Camus e Raymond Aron – com personalidades singulares e percursos muito diversos, mas que coincidiram no sentido exigente da sua responsabilidade perante o mundo. Encararam-na num duplo sentido. Por um lado, sob a perspetiva de quem o observa de maneira informada, razoavelmente liberta dos filtros impostos pelas ideologias, dos modismos e dos lugares-comuns. Por outro, agindo, escrevendo e falando em função das suas próprias conclusões, obtidas através da reflexão e da crítica, e assumindo-as de uma forma pública, ainda que tal os tenha colocado por vezes contra a maioria dos que pertenciam ao seu campo político.

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                      Atualidade, Democracia, História, Opinião

                      «Crise de 69»: celebrar e compreender

                      Evocam-se neste Abril cinquenta anos sobre a «Crise Académica de 1969» em Coimbra. Os seus acontecimentos podem ser hoje encarados de três formas diferentes: duas mais voltadas para a celebração, uma terceira ocupada com a compreensão histórica. A primeira contém o testemunho dos que a viveram, retomando com orgulho e nostalgia uma parte memorável das suas vidas e o contributo maior dado à luta pela democracia. A segunda, a ser vista com alguns cuidados, é ocupada com perspetivas parciais ou equívocas, por vezes associadas à manipulação utilitária e institucional da memória. A terceira forma é preenchida por olhares retrospetivos e compreensivos sobre o acontecimento e a sua época.

                      Perceber a «Crise» requer, em primeiro lugar, conhecer o seu contexto, e não apenas os factos que em Abril de 1969 a projetaram. Desde logo, observando a mudança sociológica do ambiente universitário, onde crescia a presença da classe média e das mulheres. Depois a expansão da cidade, com um timbre cada vez mais cosmopolita e urbano. Crucial foi também a influência política da «abertura marcelista», notória entre 1969 e 1971 (e logo de seguida infletida), com maior flexibilidade da censura e uma moderação provisória nos processos da repressão. Importante também foi a presença de uma cultura política de oposição ao regime, em crescimento desde as eleições de 1958, e de uma diversificação das suas correntes, com uma grande influência política e vivencial do marxismo e do existencialismo. Indispensável a entrada no meio universitário da atitude hedonista, libertária e inconformista dos anos 60, associada em boa parte à nova cultura juvenil de matriz anglo-saxónica. Para além da importância da vida estudantil pautada por uma cultura de debate, informada e crítica, que em Coimbra incorporava a atividade dos organismos da AAC e envolvia a sociabilidade dos cafés e das repúblicas, enquanto a cultura da «sociedade académica tradicional» tendia a desaparecer.

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                        Coimbra, Democracia, História, Memória

                        Do amor romântico

                        Durante cerca de três décadas dei aulas sobre a dimensão cultural, política e vivencial do romantismo oitocentista. Começavam invariavelmente por procurar diluir a conceção do romantismo tardio, ou ultrarromantismo, que transformava o conceito numa expressão doentia – sob a forma de sentimento aparentemente dócil e contemplativo, mas traduzida em gestos por vezes bárbaros – da posse de alguém por outro alguém. Em regra, de uma mulher por um homem, embora pudesse ocorrer o contrário, ou pudesse também acontecer algo de menos convencional.

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                          Ensaio, História, Leituras, Olhares

                          História do presente, a «crise de 69» e alguns mitos

                          Começo por contar um episódio ocorrido comigo que já referi em público algumas vezes. Tendo há algum tempo sido convidado para participar num ciclo de conferências-debate sobre o movimento estudantil, fiz aquela que me competiu sobre a «crise de 69», o importante momento do combate da juventude universitária contra o autoritarismo do regime e das autoridades universitárias que aconteceu em Coimbra e do qual se evoca agora o cinquentenário. No final da sessão, num daqueles momentos em que os conferencistas contactam o público, fui abordado por um senhor que me disse o seguinte: «olhe, gostei imenso de o ouvir, mas tenho a dizer-lhe uma coisa: tudo o que disse é mentira, pois eu estive lá e sei que não foi assim.» É claro que tivemos de esclarecer o imbróglio. Fomos beber um café e antes de nos separarmos já essa pessoa me dera razão: «afinal estive lá, mas não vi certas coisas e não fiz algumas ligações».

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                            Atualidade, Coimbra, Democracia, História, Memória

                            Anónimos, pseudónimos e «noms de guerre»

                            Uma das maiores conquistas da era da comunicação poderá alimentar a sua destruição. Quando, a partir dos meados do século XIX, livros e jornais passaram a ter como alvo um público alargado, alimentado pelo progresso da alfabetização e pelo desenvolvimento do ensino médio, nasceu a «opinião pública», associada à expansão e à partilha da informação e do conhecimento. Com todo o potencial democrático possibilitado pelo facto de mais pessoas poderem conhecer, opinar, debater e agir no plano político a partir de uma ideia mais completa do mundo que pisavam. Por isso, no processo de centralização administrativa dos Estados iniciado no mesmo período histórico, o controlo e a manipulação da informação foram ganhando importância. Em alguns casos através do controlo do sistema educativo e da propaganda do Estado, noutros, mais graves e aplicados nas ditaduras do século seguinte, mediante fortes mecanismos de censura e de repressão das vozes mais livres. Em qualquer caso, livros e jornais continuaram a ser um espaço privilegiado para a construção do saber, da liberdade e da cidadania.

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                              Democracia, Direitos Humanos, História, Opinião

                              Os perigos do presentismo

                              O presentismo é uma categoria de análise do tempo, criada pelo historiador francês François Hartog, segundo a qual passado e presente desaparecem como referentes da experiência humana, seja esta pessoal ou coletiva, dado passarem a valer apenas pela forma como são compreendidos no momento. Nestas condições, o próprio futuro desvincula-se de toda a construção utópica, sendo visto como mais do mesmo e deixando de suscitar esperança nos indivíduos e nas comunidades. Resta única e exclusivamente o presente como instância de orientação no tempo: tudo é apresentado como se passado e futuro fossem realidades incertas, que não têm lições a dar-nos, nem projetam a nossa vida para horizontes de progresso. Para os presentistas, vivemos um eterno presente e só este é real.

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                                Atualidade, Democracia, História, Opinião

                                Coimbra, 1969 e depois

                                A história dos últimos anos da oposição ao Estado Novo não pode ser feita sem ter em conta o movimento estudantil e, dentro deste, sem mencionar os acontecimentos que tiveram lugar em Coimbra durante a «crise académica» vivida entre Abril e Julho de 1969. A perfazer agora meio século, esta configurou um momento crítico da vida portuguesa daquela época, marcando para sempre o país, a cidade, a sua universidade e quem a viveu. Tendo sucedido numa fase de relativa abertura do regime – em plena «primavera marcelista», um tempo de esperanças rapidamente goradas –, representou, para toda uma geração de universitários, uma parte inesquecível das suas biografias pessoais e uma escola de política e de democracia. Ao mesmo tempo, ajudou a sacudir um sistema político decrépito que cinco anos depois iria ruir com estrondo.

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                                  Coimbra, Democracia, História, Memória, Música, Olhares

                                  Tempo dos Filipes, tempo do PREC

                                  Durante o Estado Novo, o passado de Portugal ensinado na primária – nas antigas terceira e quarta classes – era muitíssimo simplificado, embora contivesse uma pesada carga de ideologia. Os conteúdos eram apenas de natureza heróica, épica ou sagrada, e na forma tudo era limitado aos factos mais básicos, dispostos numa cronologia linear que seguia ano após ano a mera ordem das dinastias e dos reis. Terminava em 1910, naturalmente, e depois dava um salto até 1926 e à emergência de Salazar. A Primeira República desaparecia assim, apresentada, tal como os anos que se haviam seguido à Revolução de 1820, como a era «do gato e do rato». Uma permanente e insana balbúrdia que era preciso apagar.

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                                    Democracia, História, Olhares

                                    Os tempos mudaram

                                    Bastian Kienitz

                                    O recente episódio mediático ocorrido com a viagem de António Costa a Angola, quando uma evidente falha dos serviços de protocolo fez com que a indumentária mais informal do primeiro-ministro usada à chegada a Luanda se transformasse, na imprensa e nas redes sociais, em arma de arremesso contra si e o seu governo, conduziu-me até ao passado. Ao encontro de uma das vertentes dos preconceitos atávicos contra esquerda expressos por setores conservadores. Ao mesmo tempo, revisitei fantasmas a habitar ainda velhos armários.

                                    Entre 1971 e 1977, ano em que dela me afastei por razões de ordem moral – as divergências políticas chegariam mais tarde –, mantive uma militância ativa na esquerda à esquerda do PCP. Na época, os setores conservadores gostavam de associar uma atitude social própria de parte dos que se afastavam da velha ordem a determinadas formas do estar e do parecer. Estas traduzir-se-iam em escolhas relacionadas com o estilo de vida, a etiqueta, o vestuário ou a higiene, que tais setores apontavam na tentativa de denegrir os que delas participavam e os ideais que partilhavam. Ao mesmo tempo, um certo senso comum, apoiado numa ética elitista que chegava à classe média e tinha em boa medida uma raiz geracional, exibida principalmente pelos mais velhos, desqualificava muitos deles como pessoas sem maneiras, que vestiam de forma descuidada e não gostavam especialmente de tomar banho. (mais…)

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