Arquivo de Categorias: História

Ay, Catalunya

Não sei dizer em que momento, no imaginário de uma parte importante da esquerda ocidental, a ideia de uma Catalunha independente ganhou um lugar próprio e claramente positivo. Talvez a procura dessas raízes possa um dia tornar-se assunto para uma tese académica. Mas é evidente que o papel ocupado pela região catalã na história do movimento operário do século XIX, e depois na memória heroica da Guerra Civil espanhola, representou a dada altura um fator importante para essa entrada, a par de Cuba, do Vietname, da Palestina, da Irlanda do Norte, do País Basco ou das antigas colónias portuguesas, no panteão onde se encontram os casos de um «nacionalismo justo». Totalmente diverso daquele outro, usualmente defendido pela direita política e assente na ideia de Pátria, que não fala em nome dos povos, mas sim das elites dirigentes. (mais…)

    Atualidade, Democracia, História, Memória, Opinião

    O outro negacionismo

    As botas de Estaline.
    Restos da estátua derrubada em 1956 em Budapeste

    Negar ou desculpar, como tem vindo a acontecer nos últimos tempos, os crimes numerosos, continuados e em muitos casos brutais do estalinismo, o original e as suas variantes, pode ser feito com intenções diversas daquelas invocadas pelos que negam os horrores do nazismo e dos vários fascismos, mas tem, no plano político e no campo da ética, rigorosamente o mesmo valor. Ainda que as razões de cada um dos dois modelos centralistas e repressivos do século passado tenham sido diferentes, e, sem dúvida, em alguns casos foram até opostas, ambos assentaram na consideração da vida humana como algo de instrumental e descartável, colocado sempre na dependência dos seus projetos de engenharia social e de manipulação do tempo histórico. (mais…)

      Democracia, Direitos Humanos, Heterodoxias, História, Memória

      Medo e liberdade

      Amigos sinceros, combatentes, por vezes com provas dadas de militância em causas e momentos decisivos, algumas vezes em horas bem difíceis, quando foi preciso correr riscos e suportar as consequências da escolha, apesar de não aceitaram as proclamações daquele lado da esquerda que não se exime de defender «ditaduras justas», calam-se ou recuam demasiadas vezes na afirmação das suas posições. Por medo de consequências pessoais se o não fizerem. Por medo, repito. Não de serem presos ou silenciados, obviamente, pois vivemos em democracia, mas de serem incomodados, isolados ou, pior, confundidos com a direita, pois uma das estratégias dessa gente, com décadas de triste tradição, consiste precisamente em classificar tudo o que divirja dos seus dogmas de ser «objetivamente de direita». O que lhes peço é que persistam, que não temam, que não se verguem ao medo e ao silêncio. Que falem de forma tranquila mas assertiva, substantiva, sólida – mas também emotiva, quando for preciso – em nome da sua consciência, de uma justiça justa e do bem essencial da liberdade. Ser de esquerda também é, ou essencialmente é, isto.

      Publicado originalmente no Facebook

        Apontamentos, Atualidade, História, Olhares, Opinião

        Empirismo e conhecimento

        Quem se dedica profissionalmente a temas de história ou de ciência política que se ocupam do mundo contemporâneo sabe que tem, frequentes vezes, de escutar pessoas que acreditam, pelo facto de terem vivido determinado tempo, ou lido dois ou três livros sobre o tema, saber mais deles que aquelas que os estudam durante anos e conhecem trabalhos atualizados. É a lógica oca da «universidade da vida». Costumo contar este episódio: certa vez, depois de ter terminado a minha intervenção numa conferência sobre o movimento estudantil nos anos 60/70, veio ter comigo uma pessoa do público que me disse mais ou menos isto «gostei muito da sua intervenção, mas olhe, nada do que disse é verdade, porque eu estive lá e sei que não foi assim». A minha reação foi convidá-la para um café e explicar-lhe onde tinha ido buscar a dose de verdade documentada com a qual se confrontava a sua longínqua memória. No final deu-me razão e pediu desculpa. Disse-lhe que não tinha nada de pedir desculpa, pois não tinha a obrigação de saber aquilo que eu sabia por esforço próprio e dever de ofício.

        Publicado originalmente no Facebook

          Apontamentos, História, Olhares

          Nos 50 anos da Guerra dos Seis Dias

          Foto Associated Press

          Sei dizer com toda a precisão onde me encontrava há exatamente 50 anos. Estava em casa dos meus pais, seguindo através de um velho rádio, em ondas curtas, uma espécie de relato em direto, transmitido por diversas estações internacionais, dos primeiros momentos da Guerra dos Seis Dias. Estou a falar, é claro, do conflito armado que entre 5 e 10 de Junho de 1967 opôs Israel a uma frente de países árabes – Egito, Jordânia e Síria –, apoiados pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, concluído com a derrota humilhante da coligação e com a ocupação israelita de novos e imensos territórios. (mais…)

            Direitos Humanos, História, Memória, Olhares

            Um centenário em livros (1)

            Vale a pena ler Estaline e os Cientistas. Uma história de triunfo e tragédia (1905-1953), de Simon Ings (ed. Temas & Debates – Círculo de Leitores, 2017; com alguns detalhes de tradução discutíveis). Trata-se de um livro extremamente útil para se começar a entender de uma forma mais completa, não marcada pela parcialidade, a história da Revolução de 1917 e da sua posteridade. A grande e mais impressionante lição que se retira desta leitura advém da demonstração de como o grande impulso dado pelo novo regime revolucionário à pesquisa em diversas áreas da ciência – em particular nos campos da mecânica e da biologia – deu lugar, a partir dos inícios da década de 1930, e sob a influência do conceito de «ciência proletária», bem como da qualificação da genética como «ciência burguesa», a uma inflexão total. (mais…)

              História, Leituras, Séries

              Um livro censurado e «censurado»

              «Durante muitos meses de dia e de noite, nas chamadas da manhã e da noite, leram-se inúmeras ordens de fuzilamento. Com um frio de 50 graus, um conjunto de presos comuns tocava uma fanfarra antes e depois da leitura de cada ordem. Archotes fumegantes a gasolina quebravam a escuridão… O papel fino das ordens cobria-se de geada, e um qualquer chefe, que lia a ordem, sacudia os flocos com a luva, para conseguir decifrar e gritar mais um nome de fuzilado.»

              Redigido entre 1958 a 1967, por motivos óbvios em lugar secreto, O Arquipélago Gulag circulou clandestinamente na União Soviética, em versão muito reduzida, até à publicação oficial em 1989. Fora já publicado em França em Dezembro de 1973 e a primeira tradução portuguesa, saída em dois volumes, data de 1975-1977, numa edição da Bertrand, com tradução a partir do russo (o primeiro volume) e do francês (o segundo).  Escrito por Alexandr Soljenítsin (1918-2008), a partir de 1945 prisioneiro durante onze anos em Kolima, um dos campos do sistema de prisões para presos políticos e «recolocados», e noutros locais, o livro é uma narrativa, construída como uma via sacra de sacrifícios, prepotência e horrores, de factos presenciados pelo autor e pelas duzentas e trinta e sete pessoas que lhe confiaram cartas e relatos. (mais…)

                Democracia, Direitos Humanos, História, Leituras, Memória

                Um Mário contra o único

                Não se trata de concordar ou não com as escolhas politicas de Mário Soares. Pessoalmente, discordei de grande número delas e só por uma vez lhe dei o meu voto. Também não se trata de gostar ou não da sua maneira de ser. No que me diz respeito, sempre tive simpatia pela bonomia e pelo patente hedonismo, tão raros na política profissional e tão necessários, mas essa é uma escolha subjetiva. Trata-se de reconhecer o seu papel, ainda que numa outra barricada, na construção da democracia portuguesa. E de respeitar uma vida de entrega ao bem comum. Ou, mais simplesmente, trata-se de respeitar uma vida. O ódio de dentes cerrados que vai por aí – à direita e à «esquerda», diga-se – só pode vir de quem, para além de ignorante, desmemoriado ou mal-formado, conviveria bem com um regime de partido único, no qual toda a gente fosse forçada a pensar do mesmo modo ou a calar a divergência. Ou aceita um pensamento capaz de justificá-lo. Foi contra isso que Mário Soares se bateu a vida inteira. E é por isso que também lhe deixo aqui um obrigado e um imenso adeus.
                [Originalmente publicado no Facebook]

                  Apontamentos, Biografias, Democracia, História

                  Sobre uma biografia de Estaline

                  Três notas prévias:
                  1. Esta nota de leitura foi escrita e publicada em Dezembro de 2006. Republico-a no momento em que a biografia de Estaline a que se refere, escrita por Simon Sebag Montefiore, vai ser distribuída, a partir de sábado, com o semanário Expresso. Aconselho a sua leitura – crítica, como todas as leituras o devem ser – e julgo ter explicado aqui porquê.
                  2. O livro é divulgado em tempo do que parece ser uma nova Guerra Fria, quando a direita se serve dos crimes cometidos em nome da esquerda e, infelizmente, parte desta insiste em recusar a História como meio de aprendizagem. Seria bom que quem luta por uma causa essencialmente justa, como a do socialismo e do comunismo o é, aprendesse, de mente aberta e sem tabus, com os erros e crimes que em seu nome foram cometidos. Redimindo a memória daqueles que eles atingiram, em grande parte adeptos convictos da sua causa.
                  3. Neste intervalo foram numerosos os estudos históricos publicados sobre Estaline, o estalinismo e o Gulag, vários deles traduzidos, que são merecedores de consideração profissional e não podem ser considerados «propaganda do inimigo» ou «aldrabice», como por estes dias tenho lido. Um deles é outro de Montefiore, sobre O Jovem Estaline, traduzido entre nós em 2008. Voltarei ao assunto logo que possível.

                  Da casa dos mortos
                  17/12/2006

                  O subtítulo, bastante infeliz, recorda uma certa literatura antisoviética do tempo da Guerra Fria. Mas Estaline – A Corte do Czar Vermelho, do jornalista e historiador britânico Simon Sebag Montefiore (ed. Alêtheia, 2006), não é, de forma alguma, um livro de propaganda ou de um sensacionalismo oportunista fora do tempo. (mais…)

                    Biografias, Democracia, História, Memória

                    Em Setembro, de novo

                    Sunlight In The Classroom. Fot. Christian Hawley
                    Sunlight In The Classroom. Fot. Christian Hawley

                    É tão certo quanto a queda das folhas dos plátanos: a meio de Setembro as praxes universitárias regressam à rua e ao debate público. Assanhando ânimos em proclamações de completa recusa ou, mais raramente, de acanhado aplauso. Desta vez, porém, isto acontece com um impacto acrescido. Em parte, devido à posição assumida pelo ministro da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior, que a transformou em prescrição remetida aos responsáveis dos estabelecimentos do ensino público. Mas também porque a observação da realidade impõe um novo olhar. O tema já cansa um tanto, mas o ruído é tal que, como proclamava o refrão da velha canção, «não podemos ignorá-lo».

                    E porque não? As razões mais aduzidas para justificar o interesse insistem nos abusos que não podem ser ignorados ou permitidos, seja em nome de que «tradição» for. Aliás, embora mais em algumas escolas ou cidades que noutras, as praxes surgem sem alicerce histórico real, são muitas vezes inventadas e reguladas por «comissões» que vivem na sombra, e têm-se afirmado demasiadas vezes como práticas perigosas, conduzidas quase sempre por alguns dos piores alunos das academias e na margem da intimidação ou do crime. (mais…)

                      Cidades, Coimbra, História, Olhares

                      Os poderes da história (e dos historiadores)

                      Escultura de Gyula Pauer em Budapeste
                      Obra de Gyula Pauer. Danúbio, Budapeste

                      Nota de leitura de Julián Casanova, publicada na Babelia de 17 /9/2016, da recém-saída edição em castelhano de The History Manifesto, de Jo Guldi e David Armitage, publicado em 2014. A edição original, em inglês, revista em 2015, está disponível aqui: http://historymanifesto.cambridge.org/files/6114/1227/7857/historymanifesto.pdf

                      «Um espectro ronda a nossa época: o espectro do curto prazo». Assim começa o manifesto pela história de Jo Guidi e David Armitage. Neste momento de crise acelerada, quando enfrentamos problemas gigantescos, verifica-se, segundo estes historiadores, uma escassez de «pensamento a longo prazo». Os políticos não olham para além das próximas eleições e a mesma estreiteza de visão afeta as administrações das grandes empresas e os líderes das instituições internacionais. (mais…)

                        História, Leituras, Olhares

                        Corpo de Deus – apontamento histórico

                        corpodedeuspenafiel

                        Texto sobre o papel da procissão do Corpo de Deus para a definição do cerimonial político do absolutismo que escrevi em 1983 para o meu livro D. João V. Poder e Espectáculo (aqui adaptado).

                        A procissão do Corpo de Deus foi instituída em 1264 para todo o mundo cristão pelo papa Urbano VI. A festividade começou a ser celebrada em Portugal – sempre na primeira quinta-feira depois da oitava do Pentecostes – no reinado de D. Afonso III. Viria a ganhar um brilho invulgar a partir do governo de Manuel I, sendo sempre a sua procissão aquela que de maior luxo e aparato Lisboa conheceu. O rico espetáculo que habitualmente continha, as possibilidades que oferecia como momento de dramática manifestação de fé, tornavam a sua realização num momento intensamente vivido pelo povo da capital. (mais…)

                          Cidades, Etc., História

                          Queima 72 em Coimbra e no Porto

                          O desaparecimento da Queima das Fitas, tal como o das praxes, materializados em Coimbra com o «luto académico» decretado em 1969, foi um gesto coletivo de coragem e de grande impacto político, até porque se ergueu contra as expectativas de algumas famílias ciosas dos seus meninos doutores e as conveniências de parte do comércio da cidade. No entanto, não caiu do céu e, visto sob a perspetiva do tempo, não pôde deixar de ficar ligado a uma gradual democratização política dos valores em curso dentro das comunidades estudantis universitárias da cidade e do país. A escolha dos estudantes foi o resultado de uma evolução natural e daí o facto de, nos anos que se seguiram, a suspensão de tais práticas não ter sido levantada. (mais…)

                            Coimbra, Democracia, Etc., História, Memória

                            O 17 de Abril e a «crise de 69»

                            Coimbra69 – Fot. Fernando Marques «Formidável»

                            Foi numa quinta-feira, 17 de Abril, que em Coimbra, quando da inauguração do Edifício das Matemáticas pelo almirante Thomaz, teve lugar o episódio que deu início à «crise de 69». Falo dessa etapa da luta estudantil que marcou a vida da cidade e da sua Universidade, ajudando a ampliar a base social de rejeição do regime e, de certa forma, integrando as circunstâncias que conduziriam ao seu derrube. Os factos, bem conhecidos, não ocorreram por acaso. Resultaram de uma importante mudança que começara a ocorrer no meio estudantil universitário português a partir da viragem para a década de 1960 e tivera já um primeiro momento crítico em Lisboa no ano de 1962.

                            Ao contrário do que acontecera nas décadas anteriores, o associativismo estudantil, em consonância com uma tendência gradual de parte importante da sociedade portuguesa para se afastar do regime, começava a deter uma componente crescentemente autonomista e reivindicativa. A esta não era alheio o rápido crescimento da própria população estudantil, agora com um número cada vez maior de alunos provenientes da classe média, uma presença também cada vez mais importante de mulheres (na altura da «crise» rondavam já os 50%) e uma crescente imersão na nova e pujante cultura juvenil internacional dos anos sessenta. (mais…)

                              Democracia, História, Memória, Olhares

                              Uma memória dolorosa a revisitar

                              Museu da História do Gulag, Moscovo

                              Há alguns dias, a propósito do lançamento em Espanha dos diários da poeta russa Marina Tsvietáieva, Antonio Muñoz Molina escreveu o seguinte no suplemento literário do El País: «Dizia George Orwell que a grande cegueira da esquerda europeia nos anos trinta tinha sido querer ser antifascista sem ser antitotalitária: em termos mais claros, denunciava a Hitler, Mussolini e Franco [em Portugal, acrescento, também a Salazar], fechando os olhos aos crimes de (…) Estaline. Essa antiga cegueira continua sem se dissipar de todo: a diferença é que agora a ninguém falta a informação contrastada necessária para curar-se dela.»

                              Não sendo este um tema premente nas preocupações políticas da esquerda internacional, ou sequer da portuguesa, com toda a justeza e sentido mais preocupada com as prioridades do presente, estamos agora em bom tempo para olhá-lo sem temores e interditos. Como é sabido, varrer fantasmas para debaixo do tapete só os esconde temporariamente, e quando saímos das declarações diplomáticas das direções partidárias e viajamos até aos mitos e às crenças profundas de uma parte dos militantes – por vezes, até dos mais jovens, com escasso ou deturpado conhecimento da história – verificamos que eles continuam lá. (mais…)

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                                O impostor no seu labirinto

                                Todos, mesmo aqueles que se julgam à prova de sonho, gostamos de palavras e de ideias que de alguma forma nos ajudem a tornar a realidade mais suportável. Mascarando-a com ambientes de fantasia, colando-a aos nossos desejos ou interessando-nos apenas por aquilo que ela pode oferecer de positivo. Minimizando ao mesmo tempo, ou fazendo por esquecer, as partes mais desagradáveis e monótonas das nossas vidas. Esta é a principal razão para mergulharmos em romances e filmes, para seguirmos determinadas séries de televisão, para gostarmos particularmente de certas músicas, pinturas ou fotografias. Ou, mais simplesmente, para sentir prazer perante uma história bem contada.

                                Mas esta é também a razão pela qual, em certos momentos, nos tornamos presa fácil dos vendedores de quimeras, sejam eles políticos oportunistas, pregadores cheios de prosápia ou simples burlões. Na verdade, para o sucesso da sua missão enganadora, quem vende ficção em proveito próprio apenas precisa ter alguma desfaçatez e a capacidade de dizer de forma ajustada aquilo que precisamos ouvir para nos sentirmos confortáveis. Nestas circunstâncias facilmente aderimos à sua capacidade hipnótica. (mais…)

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                                  A Ponte dos Espiões

                                  Antes de ir ver o recente A Ponte dos Espiões (Bridge of Spies), realizada por Steven Spielberg com um roteiro, notabilíssimo como seria de supor, redigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen, procurei ler algumas críticas publicadas na imprensa. A generalidade era exigente e classificava o filme, vamos usar a antiga tabela escolar, entre o sofrível e o bom menos. O argumento conta a história verdadeira de dois homens, um piloto norte-americano e um espião soviético, que em 1960, no auge da Guerra Fria, foram presos pelos serviços secretos de Washington e de Moscovo. Após complicadas negociações envolvendo o advogado James B. Donovan (Tom Hanks) e um terceiro prisioneiro norte-americano, ambos foram trocados numa operação que funcionou, de parte a parte, como breve ensaio para algum apaziguamento do conflito então em curso. Sabe-se hoje que os falcões norte-americanos e soviéticos pretendiam que o episódio corresse mal, o que, felizmente para os dois homens e talvez para o mundo, não aconteceu.

                                  A narrativa está muito bem urdida (sim, os Coen de novo), a produção é luxuosa e podemos ver excelentes atores, destacando-se, para além de Hanks, Mark Rylance, no papel do espião soviético Rodolf Abel, ou Vilyam Génrikhovich Fisher. Mas a película nada tem de particularmente inovador, nada acrescentando por isso à longa filmografia de Spielberg. Sob esta perspetiva, aceitam-se inteiramente as reservas colocadas pela maioria dos críticos. O que não tenho visto escrito, e me faz ter uma posição diferente e bem mais positiva, é uma outra leitura do filme. Para além do ritmo envolvente, ele comporta uma excelente lição de história, sempre acompanhada de reconstituições de grande rigor e realismo. A Guerra Fria e a paranoia que de parte a parte a alimentou, a construção do Muro de Berlim, a crise provocada pelos aviões de espionagem U2, os conflitos internos, ainda mal conhecidos, entre as novas autoridades da RDA e tutela soviética, são magnificamente expostos e constituem um excelente suporte para uma lição de história contemporânea. Particularmente útil quando sabemos que tudo isto desapareceu dos jornais e muito pouco é ensinado.

                                    Artes, Cinema, História

                                    O lastro e o futuro

                                    Durante a campanha eleitoral, num debate sobre a necessidade e a urgência de uma confluência das esquerdas, um dos intervenientes, antigo militante da Acção Socialista Portuguesa e fundador do PS, falou de um tempo, anterior ao 25 de Abril, no qual toda a esquerda «se dava bem», dado possuir «um objetivo comum que era o de derrubar o fascismo». Esse retrato é sem dúvida bastante bonito, mas infelizmente é fantasioso; tal unidade jamais existiu.

                                    Se é verdade que nessa época muito unia as forças que se opunham ao regime salazar-marcelista – que mais podia uni-las, afinal, que a censura e a PIDE ou que a guerra? –, muito era também aquilo que as dividia, chegando essa separação, por vezes, ao extremo do ódio fratricida. Arquivos e testemunhos podem confirmá-lo. Como poderiam «dar-se todos bem» se, afinal, até na vida quotidiana da prisão política se antagonizavam? Por isso, o que aconteceu após a revolução não se traduziu no levantamento inaugural de um muro, como se tem andado agora a dizer, mas apenas num aprofundamento das diferenças. Só que agora não eram tanto, como acontecera antes de 25 de Abril, os grandes princípios políticos e as fidelidades históricas a separar as esquerdas; eram-no sobretudo as suas escolhas no que dizia respeito à relação com o poder político emergente e com o modelo de sociedade a construir. (mais…)

                                      Atualidade, Democracia, História, Opinião