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As redes sociais como barómetro

Esta crónica ocupa-se de um universo que muitos rejeitam ou consideram irrelevante. Não posso discordar mais desta atitude. Como acontece com o telefone ou a televisão, podemos virar as costas às redes sociais, mas não podemos viver sem elas. Oferecem excelentes possibilidades de aprendizagem, partilha e divulgação, bem como de encontros e reencontros, embora, é verdade, abram também espaço para a mentira, a exposição da ignorância e o ódio, levando a que frequentes vezes nos cruzemos com pessoas que na «vida real» evitaríamos. Só que existem, não irão desaparecer, e de um ou de outro modo influenciam poderosamente as nossas vidas. Por isso, não convém ignorá-las.

O enorme sucesso desta ferramenta de comunicação deve-se à facilidade de acesso, ao baixo custo e também a possibilidade de dar voz pública a quem habitualmente a não tem. Ao mesmo tempo, porém, permite que se escreva e se opine sem se ter o hábito de o fazer, podendo qualquer um afirmar o que deseje sem pensar duas vezes ou com objetivos pouco claros. É esta, aliás, a principal origem do seu perigo, sendo também por isso que muitas pessoas as rejeitam.

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    Redes sociais: de realidade paralela à normalidade

    O tema desta crónica não é novo, mas justifica uma atenção constante. O neurocientista António Damásio considerou recentemente que as redes sociais são «uma das mais espetaculares razões de declínio da qualidade de vida», afirmando que o acesso rápido e maciço a informação mal pensada representa hoje «um risco extraordinário». A esta declaração junto uma outra, mais conhecida, expressa por Umberto Eco numa das últimas entrevistas, observando que esses espaços de comunicação «dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que, antes destas plataformas, apenas discutiam nas tabernas, após um copo de vinho, sem prejudicar a colectividade». Para Eco, «o idiota da aldeia» ganhou assim o direito a ter voz pública, dizendo o que lhe ocorre e passando a «detentor da verdade», misturando os códigos acerca do bem e do mal, do verídico e do falso, do racional e do incoerente.

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      Cibercultura, Democracia, Opinião

      Redes sociais e democracia em risco

      Nos anos noventa, quando a expansão da Internet a fez transitar do mundo restrito dos departamentos de informática das universidades e dos centros de pesquisa para o domínio público, foi grande o entusiasmo entre quem antevia algumas das suas potencialidades fora dos terrenos mais exclusivos da ciência. Comecei a utilizá-la, ainda em terminais Unix, no ano de 1992, e participei em muitas experiências de comunicação por essa via que nessa altura transpiravam otimismo. Este encontrava-se sobretudo associado à perceção de que cada utilizador, em breve cada cidadão, poderia contactar muito mais pessoas, poderia aceder a uma quantidade muito maior de informação, permutando conteúdos de um modo prático, barato e veloz até aí impraticável. (mais…)

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        Redes sociais e democracia

        O caso sucedido com a empresa Cambridge Analytica (CA) vem ampliar a consciência do perigo para os regimes democráticos da manipulação das redes sociais. A CA, fundada em 2013 pelo bilionário conservador Robert Mercer, está sediada em Londres e tem por missão coligir e analisar dados visando intervir em processos eleitorais. Num primeiro olhar, pode parecer que em pouco se distingue de uma vulgar empresa de sondagens, como aquelas que todos conhecemos atribuindo-lhes um papel relativamente inócuo. Porém, a CA vai muito mais longe: acaba de comprovar-se que com a passividade cúmplice da empresa que gere o Facebook recorreu a dados coligidos a partir dos perfis individuais de 50 milhões de utilizadores desta rede social – inquirindo opiniões, interesses, hábitos e consumos – para influenciar o eleitorado norte-americano nas eleições presidenciais de 2017. Suspeita-se que o fez também em dezenas de outros países, como o Brasil, o México ou o Quénia. (mais…)

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          A ignorância na era da comunicação

          Fotografia de Ender Suenni

          «A ascensão da nova ignorância», a crónica de José Pacheco Pereira saída hoje no Público é – como nem sempre, mas quase sempre acontece – uma crónica que merece a pena ler. É sobre a ignorância que nos cerca, oprime e condiciona. Sobre uma nova forma de saber e de dar a saber que privilegia o simples (quando não o simplicíssimo ou o simplório), o efémero, o imediato, o saber condensado e assumidamente soft. É sobre ela que se instala a mentira e a manipulação: para o ignorante, tudo é novo e possível. E, como não possui referências para deter e aplicar um aparato crítico, tudo é verdadeiro, aceitável. Se não é verdade, bem poderá sê-lo, diz o novo ignorante, que nem mesmo sabe que o é. De facto, é este o princípio motor da «era da pós-verdade». (mais…)

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            Política da amizade

            Fotografia de Constantine Volo
            Fotografia de Constantine Volo

            Ao refletir no posfácio que ocupa quase metade da recém-saída edição nacional de O Amigo, de Giorgio Agamben (n. 1942), o seu autor, António Caselas, sublinha um aspecto que resulta fulcral no texto do filósofo italiano: «A amizade é essencial ao relacionamento político e não um artifício privativo que disfarça uma falta.» E, no entanto, é justamente a confusão entre estas duas leituras, e principalmente o destaque dado à segunda aceção, que denuncia o modo como o conceito tem vindo ser progressivamente vulgarizado, ou mesmo depreciado, no domínio do público. No limite, os conceitos de «amigo» e de «amizade» presentes hoje nas redes sociais são contaminados por aquela presunção segundo a qual eles representam um relacionamento privado e entre indivíduos. Ao mesmo tempo, porém, o próprio conceito de rede questiona esta perspetiva, uma vez que a ligação pessoal é publicamente exposta, a uma escala nunca vista, passando a assumir uma dimensão social que lhe confere um significado inevitavelmente político. (mais…)

              Cibercultura, Democracia

              Admirável mundo velho

              Num comentário a esta imagem:«Saudades de uma linha reta!»
              Num comentário a esta imagem:
              «Que saudades de uma linha reta!»

              A palavra Ostalgie emergiu há alguns anos, na Alemanha, como expressão de uma tendência para reavaliação benévola do passado da antiga República Democrática Alemã. Esta «nostalgia do leste» surgiu, de início, como expressão da dificuldade de alguns setores sociais, particularmente os ligados às gerações mais velhas de «alemães de Leste», para lidarem com as transformações da sua vida pessoal e da sua História coletiva. Mas rapidamente expandiu a sua influência, absorvendo grupos descontentes com a realidade e as desigualdades do capitalismo, chegado de rompante e deixado à solta depois de 1989, ou então incapazes de se adaptarem a novos estilos de vida e a diferentes processos de trabalho. Enquanto os mais velhos passaram a exprimir nostalgia por um passado, o da sua idealizada juventude, no qual, apesar da ausência de liberdade e da penúria generalizada, tinham vivido uma certa experiência de segurança no emprego e de igualdade formal no quotidiano, muitos dos mais jovens começaram antes a idealizar um passado que não viveram, olhando-o como expressão do paraíso perdido ao qual seria bom poder alguma vez regressar. (mais…)

                Atualidade, Cibercultura, História

                Vargas Llosa e os livros

                Em novembro de 1972 li pela primeira vez Mario Vargas Llosa. Sei precisá-lo porque na altura tinha o hábito infalível de escrever a lápis o lugar e a data de compra de cada livro e é essa a data que se conserva no meu exemplar d’A Conversa na Catedral. O romance, contendo um jogo de vozes e de sombras no Peru do tempo da ditadura do general Manuel Odría, fora lançado em Lima apenas três anos antes. E digo apenas porque a distância temporal entre os livros publicados no estrangeiro e as edições portuguesas, quando as havia, era então, por via de regra, muito maior. Para mim, a data é importante também porque daí para a frente, com oscilações de gosto, li uma grande parte do que o escritor peruano foi produzindo: todos os seus dezoito romances, vários dos seus livros de ensaio, as crónicas semanais no El País sobre temas da atualidade, e até o discurso de aceitação do Nobel da Literatura, ganho em 2010. Nem sempre concordei (ou concordo) com as suas posições políticas, mas sempre o olhei como uma referência moral, um grande contador de histórias e um homem corajoso, capaz de enfrentar tanto alguns tiranos quanto a lógica redutora do politicamente correto. E não tenho problema algum em declarar que foi por causa dele, e do debate que levou ao fim da velha amizade com Gabriel Garcia Márquez, que me tornei menos benevolente para com algumas das posições públicas do autor de Cem Anos de Solidão. (mais…)

                  Apontamentos, Cibercultura, Olhares

                  Um leitor no futuro «impossível»

                  Posso ser acusado de muita coisa pouco abonatória, mas jamais de não gostar de livros. Desde a escola primária, eles acompanham a maior parte do meu tempo – livre ou ocupado – e desde essa altura que mantenho o hábito de carregar sempre um ou dois, às vezes mais, mesmo que anteveja não poder retirar algum tempo para o(s) ler. Além disso, como professor, investigador e crítico, eles são o meu ganha-pão. Como se tal não bastasse, ainda escrevo alguns e, na condição de impenitente viciado, ao longo dos anos tenho vindo a preencher com eles, cada vez em maior quantidade, a maior parte das divisões das casas que vou habitando. Tendo-me desfeito há pouco, justamente por falta de espaço, de cerca de meia centena, guardo ainda assim umas doze ou treze vezes essa quantidade. Continuando sempre a gostar deles, regressando sempre a eles. Não posso, por isso, ser acusado pelos puristas do papel de não amar os livros, de ir como um tolo atrás das modernices eletrónicas, de ter traído a minha própria biografia, perdendo a fidelidade «ao cheiro, ao toque, à beleza» do livro físico e trocando-o pela tentação do digital.

                  No entanto, nada disso me impede de conviver com a inevitabilidade de, para as gerações agora a chegarem à universidade, o livro físico ser já, ou tornar-se em breve, um objeto de arquivo, respeitável mas destinado aos especialistas, aos investigadores, aos curiosos, aos colecionadores, mas não ao comum dos cidadãos. Para estes, o conhecimento legado servir-se-á dos suportes que a tecnologia tem vindo a aperfeiçoar ou está a inventar, transformando a forma de ler, de comunicar ou de criar. E isto não é futurologia, como o era ainda quando há cinquenta anos Marshall McLuhan falava do fim da «galáxia de Gutenberg» e há trinta Nicholas Negroponte se entretinha a propor-nos o «paradigma digital». Esta realidade é-me confirmada pelo inventário, que acabo de fazer, dos livros dos quais me tornei feliz proprietário durante os últimos dois anos: sem contar com jornais e revistas, comprei 34 livros tradicionais, em átomos, foram-me ainda oferecidos (a larga maioria por autores ou editores) 57, e comprei… 67 e-books, contando-se entre estes aqueles mais atualizados e diretamente relacionados com o trabalho profissional e os meus interesses diários. Afinal já cheguei ao «futuro previsível», esse que para alguns será «impossível», «jamais acontecerá». E ainda não tinha dado completamente conta disso.

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                    Média

                    Outra das entradas escritas para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda em alguns quiosques.

                    Até à década de 1960, média designava um campo integrador dos «meios de comunicação de massas» enquanto instrumentos de propaganda destinados a impor uma mensagem de natureza política ou publicitária. Nos anos 70 essa perspetiva foi alargada, percebendo-se que a dimensão instrumental não indicava apenas aos públicos o modo como estes deveriam pensar, mas incorporava também a aptidão para impor aquilo em que eles deveriam ou não pensar. Neste sentido, os média têm funcionado como aparelhos de subordinação dos cidadãos a formas de perceção do real social e do curso da História que escapam à intervenção da crítica, não sendo acidental que as piores formas de opressão, instaladas nos regimes de pendor totalitário mas também nas fissuras das democracias, recorram a eles para impor o seu domínio e eliminar a divergência. A ideia de «indústria cultural», proposta por Adorno e por Horkheimer, referia já o modo como a instauração de um dado fluxo de informação servia de instrumento de propagação da ideologia dominante, dando lugar a uma uniformização dos quadros de pensamento e dos comportamentos, no sentido da aceitação ordeira do capitalismo. Para Baudrillard, o peso do signo na «sociedade de consumo» irá, por sua vez, suscitar uma vertigem de natureza opressiva. A vulgarização da televisão, e depois a disseminação da Internet, crescentemente dependentes da intervenção dos grupos financeiros e também dos governos, irão reforçar este papel de manipulação e controlo, impondo, perante o recuo do jornalismo de combate, um ruído que ao mesmo tempo silencia. No presente contexto de crise, este tende a difundir a convicção de que não existe escolha perante os desmandos do sistema, o qual poderá quanto muito ser reabilitado. A capacidade da rede mundial de computadores integra, porém, uma forte dimensão democrática e libertária que tem servido a circulação de informação (veja-se o caso Wikileaks), o debate político, a mobilização do protesto e a perceção da possibilidade de uma mudança mais profunda, contornando os média tradicionais, eles próprios forçados a repensar-se.

                      Atualidade, Cibercultura, Olhares

                      O mundo compósito de M. M.

                      Marshall McLuhan

                      Na crónica saída ontem no suplemento Atual, Pedro Mexia adianta um conjunto de reflexões e de dados sobre a personalidade de Marshall McLuhan (1911-80) que eu desconhecia. Sobre como alguém reconhecido mundialmente, ao longo de décadas, ou pelo menos desde a publicação em 1962 da Galáxia de Gutenberg, como o profeta primevo e maior da tecnologia aplicada à comunicação eletrónica, era na verdade um homem «antigo, conservador, católico devoto, puritano, distante». Conheço de alguma forma este tipo de mal-entendido, determinado por quem tem dificuldade em aceitar a complexidade do humano, das escolhas e das formas de vida combinadas de um modo não linear ou imprevisível. Cedo comecei a interessar-me por computadores e pela sua interação em rede. Fui pedindo emprestados ou comprando revistas e manuais, fiz alguns cursos (no mais recuado, em 1976, ainda aprendi linguagem Cobol), depois comecei a interagir com outras pessoas, na era pré-Internet, através das chamadas BBS. Por essa altura comprei o primeiro PC, mais tarde um modem lento e ruidoso, uma primeira conta de acesso à Internet (salvo erro, em 1994, com tráfego pago ao bit), depois um portátil, a seguir um primeiro PDA, um scanner manual, e por aí afora, quase sempre penetrando em tecnologia usada apenas por algumas orlas e à qual, por interesse e opção que impunha sacrifícios económicos, lá fui aderindo.

                      Curiosamente, esta foi, durante perto de duas décadas, uma atitude bastante incompreendida, vista por muitas das pessoas com as quais me ia cruzando, algumas delas até, por estranho que pareça, com conhecimentos desenvolvidos em áreas do saber informático, como uma excentricidade, uma esquisitice praticada com laivos de exibicionismo, uma modernice perigosa, incomodativa ou condenada ao insucesso para a qual nem valeria a pena olhar mais do que três segundos. E no entanto sempre o fiz por curiosidade e interesse, genuíno julgo, pela mudança das coisas. Jamais como forma de rejeição do mundo tátil no qual nascera e crescera. O mundo dos livros em papel, dos recortes de jornais, dos cadernos de Almaço, dos dossiês em cartão pardo, das canetas de aparo, dos lápis de cores, da cola Peligon e da tinta Pelikan, das máquinas de escrever, das caixas de sapatos servindo de ficheiros, do gosto pelos prazeres antigos, associados à escrita, à leitura e a uma aproximação ao conhecimento intemporal que ainda conservo. Contra a imposição do «ou/ou» ou a rejeição do «nem/nem», acredito pois que vale a pena preferir o cumulativo «e/e». Parece-me mais completo e próximo das realidades compósitas e emaranhadas, de transição veloz e sempre problemática, que vamos atravessando na nossa nave tripulada e que McLuhan, do silêncio do seu gabinete escuro e de austera mobília, foi capaz de intuir e de projetar.

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                        Com o fiel Kindle a caminho de Babadag

                        Babadag

                        Não serei suspeito de não gostar de livros. Afinal vivo deles. Procuro-os sempre, a todas as horas, e faço deles um elo vital na relação com os outros ou na procura de um sentido para morar no planeta. Tenho muitos milhares, tantos que lhes perdi a conta, que me tolhem o espaço doméstico sem que, no entanto, disso me queixe para além do razoável. E como cresci com o seu toque, os seus diferentes odores, o seu rumor, preciso deles para sentir que apesar de todo o mal nem tudo por cá é passageiro, bárbaro e triste. Mas sei que este é um ritual arcaico, de partida, e que em breve – uma brevidade relativa, embora fatal – os livros corpóreos serão memória, objeto de culto e sinal de anciania. Sei, sem a sombra da dúvida, que as bibliotecas serão transformadas em arquivos ao dispor dos eruditos e a generalidade dos leitores servir-se-á de suportes mais leves e móveis, mais fáceis de conservar, de arrumar, de armazenar, de consultar. É verdade que alguns dos aparelhos alternativos de leitura estão ainda na incubadora, mas a tendência é segura, irreversível e independente do desejo de quem o não deseja.

                        Comprei hoje mesmo na Amazon o meu centésimo livro para ler quase exclusivamente no Kindle – leio também em formato electrónico no computador de secretária, no netbook e no iPad, mas sei que estes são mais pesados, cansativos e dispersivos – e, estranhamente, muito estranhamente, pela primeira vez senti o forte desejo de terminar um certo volume em papel que tenho em mãos para rapidamente poder voltar ao prazer do pequeno ecrã de carateres em indelével e-ink. Espera-me ali, paciente, o número cem da minha biblioteca 2.0: On The Road to Babadag, um belo livro de Andrzej Stasiuk, o polaco escritor, jornalista, crítico e viajante, sobre trajetos por vias secundárias entre cidades pequenas, obscuras e moribundas da Europa do Leste ao longo das últimas duas décadas do século passado. E o prazer de, clique a clique, com uma chávena de café, um lápis e um papel (por enquanto) ao lado, lhe ir medindo os passos e revirando as páginas.

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                          Tecnologia e conflito

                          Em viagem

                          Num artigo da Wired de Junho que saiu ontem, o autor, Brendan Koerner, dialoga com um leitor, real ou forjado, que lhe conta ter sido repreendido por um estranho pelo facto de usar o seu iPad num autocarro nova-iorquino, o que o transformaria, de acordo com as palavras um tanto irritadas desse estranho, em alvo potencial, e provavelmente justificado, de um assalto ou mesmo de uma tentativa de homicídio. Nem tanto pelo valor monetário do aparelho, que ainda assim seria fácil vender numa rua menos iluminada por quaisquer 500 dólares, mas antes pelo que representava para o potencial agressor a exibição de uma tecnologia que significa conhecimento, mobilidade e acesso a universos de comunicação infinitos e desejáveis. A repreensão parece fazer sentido, tal como o perigo invocado se afigura verdadeiro, remetendo-nos para um território de violência, urbana e selvagem, no qual pode tornar-se difícil gerir a própria integridade física.

                          Utilizador regular e intensivo dos aparelhos de comunicação e lazer da tríade i da Apple, percebo o perigo e o mal-estar que esse uso pode causar aos outros. Apesar deles me servirem como instrumentos de trabalho, já me tenho inibido de usar em público o iPad ou o iPhone – o iTunes, o único exclusivamente voltado para o lazer, é o mais humilde de todos e passa facilmente por tecnologia barata – justamente por perceber o seu uso como uma potencial agressão aos cidadãos com quem partilho a sala de espera do centro de saúde ou a gare da estação de comboios. Aquilo que me preocupa, porém, não é ocorrência ocasional da situação, na expectativa desta poder ser alterada pela melhoria das condições de vida e de acesso à tecnologia por parte da maioria das pessoas. É antes a consciência de que, no tempo que agora passa, o fosso entre os que têm muito ou o suficiente (em dinheiro, informação, capacidade para comunicar, direito aos sonhos) e os que nada disso podem ter ou sequer desejar, tende a aumentar, produzindo situações de conflito. Criar-se-á então, numa situação extrema, a necessidade de, para usarmos um aparelho que serve para nos ligarmos aos outros, precisarmos de isolamento em ambientes reservados. Já é assim em Calcutá, no Rio ou em Lima. Provavelmente, em breve assim será aqui também.

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                            Tudo ao monte

                            RSS

                            Como muitos sabem, a tecnologia RSS serve para agregar conteúdos originários de diversas fontes, permitindo aos utilizadores da Internet, através de programas ou de sites vocacionados para a função, reunir num único lugar informações provenientes de serviços que mudam ou se actualizam regularmente. O sistema tem já alguns anos e é extremamente útil para quem deseje estar a par das novidades associadas a sites de notícias, a blogues, etc., sem precisar de visitá-los a toda a hora e um a um. Sirvo-me dele há bastante tempo e tenho a certeza de que se não fosse dessa forma muita da informação à qual consigo aceder passar-me-ia completamente ao lado. Já nem sei, por exemplo, ler blogues de outro modo, uma vez que é impossível visitar, semanalmente sequer, muitos daqueles que me agradam ou que me podem ser úteis. Leio então os cabeçalhos e as primeiras linhas no agregador e depois, se o assunto e o tom me interessarem, viajo até à fonte.

                            O processo não me trazia problemas até há pouco tempo, mas agora as coisas mudaram. Explico-me: os computadores tablet permitem instalar agregadores – como o Early Edition ou o Flipboard, para falar dos que tenho no iPad – que se comportam como verdadeiros jornais em papel ou portais de notícias, com uma disposição gráfica e processos de leitura e de apreensão da informação idênticos aos tradicionais. Até aí tudo bem, não fora toda a informação, apesar de condicionada pelas nossas escolhas, surgir ali de uma forma algo aleatória. Significa isto que aparecem referências e notícias chegadas da BBC, da Reuters ou do El País, lado a lado, e sem hierarquia visível, com aquela que é fornecida por um blogueiro da Marmeleira ou um enragé de Almofarizes de Cima (sem ofensa para os enragés de Coimbra). Isto é, novidades provenientes de agências ou publicações credenciadas visualmente misturadas com aquilo que possa escrever, num repente e sem intermediação, um cidadão alfabetizado e infoincluído. Desconfio que isto ainda vai provocar transtornos em muitas cabeças.

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                              Armadilhas do PowerPoint

                              PowerPoint

                              Fui e sou um utilizador prudente do PowerPoint. Pareceu-me desde o início um expediente útil mas potencialmente negativo, por simplificar aquilo que é complexo, por transformar com dois cliques o que é trama, o que é novelo, numa fórmula perfeita ou em rede de linhas demasiado regulares. O estilo de operação ao qual o seu utilizador recorre tem passado muitas vezes por «pedagógico» e é justamente aqui que se situa a fonte da minha desconfiança. Debati este tema há algumas semanas durante uma aula de mestrado e por um acaso – ou talvez não – dias depois encontrei na Visão uma entrevista com o jornalista francês Franck Frommer na qual este vem ao encontro das minhas dúvidas. A entrevista saiu a propósito do lançamento, pela La Découverte, de um livro de Frommer cujo título é todo um projecto: La pensée PowerPoint – Enquête sur ce logiciel qui rend stupide (O pensamento PowerPoint – Inquérito sobre este programa que estupidifica). O autor considera-o de facto um dispositivo perverso: «Dá a ilusão de criatividade, mas, ao mesmo tempo, é constrangedor. Pouco permite sair de um fio condutor linear e não favorece a interactividade. Parece muito ‘científico’ embora seja simplista. Como transforma toda a argumentação em listas de pontos, impede o debate. Inventa laços de causalidade artificiais.»

                              Algumas pessoas poderão dizer que isto é verdadeiro, mas que, em contrapartida, nas actividades da sala de aula ou durante uma conferência o recurso ao programa responde também às dificuldades de percepção dos alunos ou do público, podendo ainda, como um teleponto, ajudar o orador a ser mais claro, metódico e convincente. Existirá um grau de verdade nisto, sem dúvida. Mas podemos e devemos também colocar o problema ao contrário: não convidará a simplificação induzida pelo recurso sistemático a este dispositivo à preguiça de quem comunica e à passividade de quem ouve? não fará ela com que se vá perdendo o treino na percepção de formas complexas de pensamento e no desenvolvimento de uma capacidade retórica rica e sofisticada, integrando quem assiste num plácido e silencioso rebanho de carneiros? Sei que uma resposta cabal as estas perguntas não pode inferir-se de uma mera opinião individual, mas eu penso que sim. É quase sempre assim que acontece. E por isso vou continuar a usar o PowerPoint muito moderadamente, desligando o projector logo (ou sempre) que possível.

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                                Meio milhão

                                500.000

                                Há dois dias este blogue ultrapassou o meio milhão de visitantes. Em números mais ou menos rotundos isto significa uma média de quase 300 visitas únicas diárias ao longo de um pouco menos de cinco anos. Já a visualização total de páginas por dia, essa ronda as mil. Para um blogue a solo que quase não fala de política local, das chicanas da blogosfera, de sexo explícito ou das transferências do futebol, que mantém um registo relativamente intimista e um padrão de escrita pouco popular, não parece nada mau. Aliás, quando o número de visitantes quotidianos ultrapassa os quinhentos pigarreio um pouco e penso logo que alguma coisa não está bem. Dá portanto para as despesas. Isto é, para manter noite adentro, extorquindo horas ao sono, entre cigarros e bebidas quentes, o prazer de escrever para pessoas que se aqui entram uma vez e depois regressam é porque se sentem bem. É sobretudo para elas – algumas transformadas entretanto em amizades das verdadeiras – que segue um imenso abraço. Acompanhado de um obrigado pela companhia e pela persistência.

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                                  É só fazer as contas

                                  ipadnews

                                  Se mais razões não existissem para a compra de um iPad – e existem, como já escrevi noutro post – descobri uma há cerca de oito dias. Esta definitiva para um viciado em jornais como eu. Admito que não serei um leitor vulgar: aprendi a ler pelo velho Diário de Notícias e talvez por isso não mais fui capaz de passar um único dia sem diários, semanários, quinzenários, mensários ou similares. Raramente apenas um, em muitas alturas dois, três ou bem mais. Bastantes vezes, fiz quilómetros a pé ou de bicicleta para descobrir quiosque, livraria, café, mercearia ou barbearia que fizesse o favor de me vender um exemplar. Não se tratando de uma mania universal, não é no entanto uma extravagância, pois muitas outras pessoas partilham este género de dependência. A leitura de jornais através do computador pessoal não veio alterar substancialmente este estado de coisas, uma vez que a leitura é ali algo incómoda e parcial. Além disso, para termos acesso às edições completas precisamos quase sempre de pagar sucessivas assinaturas, que muitas vezes nem temos sequer a possibilidade de aproveitar pois não é a toda a hora ou em qualquer espaço que podemos ler o jornal naquele formato.

                                  O iPad veio alterar esta situação, colocando-nos em cima dos joelhos, quando e onde quisermos, o jornal ou a revista que pretendemos. Mas por-se-ia ainda assim o problema dos custos, não é verdade? Pois não é não senhora. Para além de assinaturas de publicações autónomas a um preço módico – por exemplo, pago 7 euros mensais por 4 números da edição francesa do Courrier International e acesso total ao arquivo da revista – existe um programa e um serviço para iPad (também existe para smartphones, mas aqui não se lê tão bem) que descobri há pouco e me deixou rendido. O programa chama-se PressReader e permite-nos aceder, por uma assinatura que custa 25 euros mensais, à edição completa, igual à edição em papel e com a possibilidade de copiar, guardar, imprimir ou partilhar qualquer artigo, de cerca de 1.700 publicações de todo o mundo. Como dizia alguém, é só fazer as contas: subscrevo neste momento o Público, o DN, o JN, o Expresso, a Folha de S. Paulo, o Guardian, o Irish Times, o Le Monde (o El País e o NYT ainda não aderiram, mas têm aplicações grátis próprias) por um total de 25 euros. Ora só o Público em papel, comprado no quiosque, ficava-me antes por cerca de 35. Chega para testemunhar a alegria de um viciado, a quem, além do mais, acabam de cortar 10% do ordenado? Resta ter tempo e disposição para esta orgia de informação, mas esse é um outro assunto.

                                  [demonstração aqui]

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