A Biblioteca e a petição

No dia 8 de Junho a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal anunciou o encerramento, já a partir de Novembro e por quase um ano, dos serviços de Leitura Geral. Os Reservados fecharão por cerca de 5 meses. Anunciada desta forma, sem aviso prévio e por tanto tempo, a decisão traduzir-se-á em prejuízos incalculáveis para os investigadores e os estudantes, para quem aquele espaço é imprescindível uma vez que dele depende o andamento dos trabalhos com prazo-limite que têm em mãos. Uma petição a correr online pede que se reconsidere o plano de transferência, no sentido de se atrasar o encerramento da Biblioteca para depois de Junho de 2011 e de se fasearem os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral. Pode conhecê-la e assiná-la aqui.

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    Cândido

    Soldado norte-coreano

    O comentador inocente parece francamente admirado durante o jogo de futebol Coreia do Norte – Costa do Marfim: «Mas os jogadores norte-coreanos jamais discutem um decisão do árbitro! Seja ela qual for!»

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      Waterloo II

      Napoleão
      Napoleão abdicando em Fontainebleau, óleo de Paul Delaroche (1841)

      A desastrada participação da França no campeonato mundial da África do Sul está a assumir proporções tão grotescas quanto preocupantes. Os jogadores têm dramatizado a situação servindo-se de palavras fortes como «catástrofe», «traição» ou «desespero». Atitude que só lhes fica bem, uma vez que ninguém espera de um soldado derrotado que regresse a casa trauteando o Juanita Banana. Os jornalistas franceses agem em conformidade, dando eco à vergonha que cobre les Bleus, falando em «fim do mundo» e acusando tudo e todos. É normal esta dramatização, pois quando falta o circo a nação treme, e na pátria das barricadas há sempre que temer o pior. Afinal, foi em França que nasceu Nicolas Chauvin, o soldado do exército napoleónico que nunca se conformou com a derrota de Waterloo e, apesar de considerado um tanto aparvoado pelos seus contemporâneos, se tornou o primeiro chauvinista. De acordo com o Dicionário da Academia das Ciências, este passou a ser considerado «um personagem belicoso, dotado de um nacionalismo exacerbado e irracional.»

      O problema é que esta espécie de doença atingiu agora quem tinha a obrigação de reduzir o futebol à sua dimensão de divertimento, mas prefere transformá-lo num problema de todos os franceses. Nicolas Sarkozy exigiu assim, nesta quarta-feira, que se apurem as «responsabilidades» pelo «desastre», anunciando um projecto de renovação do futebol no país que será da iniciativa do Estado. O presidente de todos os gauleses reuniu-se entretanto com o primeiro-ministro, François Fillon, com a ministra dos Desportos, Roselyne Bachelot, e com a secretária de Estado para o Desporto, Rama Yade, para «fazer um balanço da infeliz participação da selecção francesa» no Mundial. E pediu ainda, em comunicado oficial, «garantias aos ministros de que os responsáveis assumam rapidamente as consequências pelo desastre». Um precedente perigoso de transformação do futebol numa prioridade do Estado. Num assunto muito sério que deve ser sempre tratado de forma grave. Não vá o mundo pensar que a França é uma pátria de frouxos e que já não dispõe de um lugar central no concerto das nações.

      Adenda: o outro lado do desastre [em francês; merci, SN e CGS]

        Apontamentos, Atualidade

        Andam aí

        Panopticon

        Está em preparação legislação europeia destinada a vigiar e a combater os cidadãos suspeitos de manterem «opiniões radicais». Nesta intenção se englobam as pessoas organizadas em grupos de «extrema-esquerda ou extrema-direita, nacionalistas, religiosos o antiglobalização», em particular os «apoiados em ideologias fundadas no recurso à violência». A estratégia de prevenção do terrorismo na Europa, inicialmente concebida para fazer frente ao perigo real imposto pelas organizações islamitas mais intransigentes, é assim alargada de um modo discricionário, passando a aplicar-se a cidadãos e a sectores com posições políticas muito diferentes entre si, identificados na documentação preparatória de forma vaga e insuficiente. Ou mesmo a pessoas isoladas, uma vez que se recomenda a vigilância individual e a investigação dos sentimentos de pessoas «culpadas» de militarem em «grupos suspeitos» ou de, muito simplesmente, se darem com pessoas a eles ligadas. Isto significa que está em curso a oranização de processos repressivos destinados a espiar e a punir de uma forma sistemática todos os que defendam uma alternativa política não-reformista. Concebe-se um antídoto contra o radicalismo, justamente quando a crise geral do capitalismo e o crescimento das bolsas de pobreza alargam o número dos descontentes. Tomam-se medidas preventivas destinadas a matar à nascença, sem atender aos seus contornos, o combate por um outro mundo possível. A escola do barão de Haussmann, que depois dos acontecimentos revolucionários de 1848 procurou impedir através da reorganização urbanística da cidade a manutenção de uma Paris favorável à revolta, ao levantamento de barricadas e ao confronto das classes, conserva os seus discípulos.

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          Lembrar Terezín

          Terezín

          Em Terezín, uma localidade checa que cresceu à volta de uma fortaleza mandada construir a 60 quilómetros de Praga, em 1780, pelo imperador José II, Hitler fez erguer «uma cidade para judeus» que pretendia modelar. O seu objectivo continha uma dupla face: por um lado, a cidade servia para mostrar, às autoridades dos países neutrais ou a alguns aliados dos nazis que pudessem mostrar-se mais sensíveis às primeiras informações sobre a natureza da Solução Final, a forma como os judeus viviam bem sob a protecção de um «benevolente» Terceiro Reich; por outro, permitia a concentração de mão-de-obra particularmente qualificada, uma vez que os judeus destinados a habitar a cidade, agora baptizada Theresienstadt, eram em regra pessoas com uma formação superior. Muitos deles eram músicos, actores, artistas, escritores, jornalistas, ou membros destacados de organizações políticas entretanto ilegalizadas. Logo, pessoas perigosas mas «apresentáveis» e temporariamente úteis. ler mais deste artigo

            Democracia, História, Memória

            38 anos depois

            As vítimas dos disparos dos soldados britânicos – causando 14 mortos e um número elevado de feridos – no incidente que ficou conhecido por Domingo Sangrento (Bloody Sunday), em Londonderry, na Irlanda do Norte, a 30 de Janeiro de 1972, foram agora consideradas inocentes de qualquer provocação por um inquérito oficial aberto há cerca de 12 anos. Este provou que as tropas britânicas de ocupação dispararam deliberadamente e sem qualquer aviso prévio sobre os participantes de uma marcha pelos direitos cívicos da minoria «católica» pobre e segregada. O acontecimento impôs uma escalda da violência no Ulster e transformou o «problema irlandês» numa das grandes preocupações internacionais da época. Um problema apenas parcialmente resolvido. Basta caminhar por certas áreas de Belfast ou de Londonderry para percebê-lo sem ser preciso perguntar a alguém.

            [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=JFM7Ty1EEvs[/youtube]
              Apontamentos, Democracia, História

              A vuvuzela e o «preto da corneta»

              Armstrong

              Num painel de comentadores que debatia ontem na Sport-TV o efeito da esmagadora presença da vuvuzela no Campeonato do Mundo de 2010, a posição partilhada por todos lembrava, por entre lamentos sinceros e declarações de desespero, que «temos de acatar a tradição», pois «os africanos são assim e há que respeitá-los como são». «Pedimos ao mundo inteiro que respeite a nossa cultura», dizia poucas horas antes, em conferência de imprensa, Rich Mkhondo, o porta-voz do comité organizador sul-africano. Não sei onde foi esta gente buscar tais razões, uma vez que o instrumento entrou nos estádios sul-africanos apenas pelos meados da década de 1990 e a empresa Masincedane Sport só começou a comercializá-lo em 2001. Além de que não é habitualmente utilizado nos outros países dessa África que os talibãs das identidades pretendem passar de múltipla a una. A não ser que remontemos ao preconceito muito divulgado no hemisfério norte de acordo com o qual os africanos – leia-se, os negros – são naturalmente barulhentos e, tal como as crianças, um pouco descontrolados. Era nesse sentido que, pelos anos trinta, um jornal português se referia ao trompetista Louis Armstrong como «o preto da corneta»: tocava daquela maneira, coitado, porque a sua natureza de «grunho» exigia isso dele. A ninguém parece ocorrer, para não ir mais longe, que uma pletora de instrumentos de percussão é utilizada em toda a África desde tempos imemoriais e que, convenientemente tocados, estes permitem timbres e ritmos únicos e muito diversos. Perturbantes sem serem ensurdecedores, estimulantes sem enlouquecerem. Por mim, admito que sinto já um efeito directo da zoada ensurdecedora das vuvuzelas: desejo do fundo do coração que os bafana bafana, os jogadores da selecção da África do Sul, sejam rapidamente eliminados. Para ver se, pelo menos, esmorece o fôlego e o efeito de sopro entre aquela multidão de alucinados. Podem chamar-me eurocêntrico.

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                Fé e partilha

                A tolerância, escreveu João Maria André em Pensamento e Afectividade, «é, evidentemente, o contrário da atitude fundamentalista e do seu projecto societal, mas pode ser, ao mesmo tempo, o espaço em que o fundamentalismo desabroche para aniquilar todas as formas de tolerância». Daqui se pode inferir que a aceitação, em nome de uma ideia de tolerância, de tudo, de todos os dogmas, de todas as fés, de todas as formas de legitimação da guerra ou da paz, apenas faz sentido se assentar em valores e experiências partilhados pelos partidários de todos esses dogmas, de todas essas fés, de todas essas formas de legitimação da guerra ou da paz. Isto é, só devemos aceitar a dissemelhança naquilo em que ela não colida com a própria noção de tolerância. Esta exprime uma firme disposição para admitir uma maneira de ser e de agir distinta da nossa, mas exclui a aceitação como única dessa maneira de ser e de agir que é distinta da nossa. É esta, em boa medida, a filosofia que preside à magnífica e corajosa intervenção de Barack Obama sobre religião e secularismo, pronunciada há perto de dois anos, que aqui se reproduz.

                [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=_IHQr4Cdx88[/youtube]
                  Atualidade, Democracia, Olhares

                  Maalouf e o conflito dos mundos

                  Amin Maalouf

                  Foi um acto de justiça, e de uma justiça justa, a atribuição do prestigiado Prémio Príncipe das Astúrias em Letras – concedido nos últimos anos a Claudio Magris, Nélida Piñon, Paul Auster, Amos Oz, Margaret Atwood e Ismail Kadaré – ao romancista, ensaísta e antigo repórter Amin Maalouf. Todo o seu trabalho se confrontou sempre com a convergência e a complexidade dos mundos que pôde partilhar: libanês de família cristã, nascido em Beirute e criado no Egipto, viveu grande parte da vida entre muçulmanos, mas reside actualmente em Paris, tendo o árabe como língua nativa e escrevendo agora em francês. O reconhecimento internacional foi rapidamente obtido a partir de 1986 com a publicação dos seus primeiros romances históricos, de um género então considerado um tanto fora de moda. Leão, o Africano, Samarcanda, Os Jardins de Luz ou O Rochedo de Tanios, foram nessa altura, todos eles, muito elogiados e rapidamente traduzidos num grande número de línguas. Menos consensuais têm sido, porém, os ensaios de Maalouf. As Cruzadas Vistas pelos Árabes foi publicado muito cedo, em 1983, e propunha ao leitor ocidental uma representação «anti-épica» da iniciativa dos cruzados cristãos, descritos pelos muçulmanos que haviam recebido o seu agressivo impacto como invasores, cruéis e ignorantes. Como bárbaros, de facto. Uma perspectiva que agradou rapidamente a muitos leitores, críticos das leituras que permaneciam hegemónicas no Ocidente a propósito da relação entre este e um mundo islâmico observado como ninho de desprezáveis infiéis. Todavia, o consenso começou a ser rompido com a publicação de Identidades Assassinas (1998) e agora de Um Mundo Sem Regras (2009). Porquê? Os dois passos destes livros que se transcrevam definem com alguma clareza o sentido de uma possível resposta. Ao mesmo tempo que reforçam a justeza e o elevado valor simbólico do prémio agora conferido.

                  «Tudo o que diz respeito aos direitos fundamentais – o direito de viver como cidadão de pleno direito na terra dos seus antepassados sem sofrer perseguições ou discriminações; o direito de viver com dignidade, onde quer que alguém se encontre; o direito de escolher livremente a sua vida, os seus amores, as suas crenças, no respeito da liberdade dos outros; o direito de aceder sem entraves ao saber, à saúde, a uma vida decente e honrada – nada disto, e a lista não é restritiva, pode ser negado aos nossos semelhantes sob o pretexto de preservar uma crença, uma prática ancestral ou uma tradição. Neste domínio, será necessário inclinar-nos em direcção à universalidade, e mesmo, se necessário, em direcção à uniformidade, porque a humanidade, mesmo sendo múltipla, é, em última análise, uma só.» (As Identidades Assassinas)

                  «O que eu censuro hoje ao mundo árabe é a indigência da sua consciência moral; o que eu censuro ao Ocidente é a sua propensão para transformar a sua consciência moral num instrumento de dominação. Duas acusações pesadas e para mim duplamente dolorosas, mas que não posso deixar de fazer (…). No discurso de uns procurar-se-ia em vão os vestígios de uma preocupação ética ou a referência a valores universais; no discurso dos outros estas preocupações e estas referências estão omnipresentes, mas são utilizadas selectivamente e constantemente desviadas a favor de uma política. O resultado é que o Ocidente não cessa de perder a sua credibilidade moral, e os seus detractores não têm nenhuma.» (Um Mundo Sem Regras)

                    Atualidade, Democracia

                    Os pequenos lusitos e os seus netinhos

                    viarco

                    Ia falar a propósito disto. Eis senão quando isto me tirou as palavras da boca. Convém pois não confundir representação com apologia. E não podem existir passados-tabú. Devemos sempre, sem dúvida, permanecer atentos aos processos de branqueamento de Oliveira Salazar e do salazarismo, mas o Estado Novo aconteceu e a sua evocação não pode nem deve permanecer circunscrita aos estudos históricos, aos congressos académicos e à memória selectiva daqueles que perseguiu. Isso sim, pode fazer crer às gerações mais recentes que «o fascismo nunca existiu», que não passa de uma fábula às voltas nas cabeças de uns quantos. Digo-o eu, que já cantei diariamente o Hino dos Lusitos – «Somos pequenos lusitos / mas já firmes e leais / amamos e respeitamos / nossos chefes, nossos pais» – e desenhei casinhas modestas e lindos campos de flores com lápis Viarco. Sem grandes danos colaterais, julgo.

                      Atualidade, História, Memória

                      O nosso Kim Philby

                      Miguel de Vasconcelos

                      Falo um pouco de futebol, que é de momento aquilo que nos vale para não entrarmos todos em depressão profunda. O senhor António José Conceição Oliveira, mais conhecido por Toni, antigo jogador e treinador de futebol e figura pela qual até mantinha uma certa simpatia, foi contratado pela selecção da Costa do Marfim para informar o seu Mister – Sven-Goran Eriksson, o conhecido cidadão sueco que foi em tempos anunciante da aguardente Macieira – dos prós e dos contras da equipa portuguesa. Não se trata de uma ligação profissional prévia, que imporia naturalmente deveres de lealdade, mas sim de um contrato recente, feito de propósito para quem o assinou vender informações ao inimigo e trair a sua pátria. Temos pois, finalmente, o nosso Kim Philby. Ou um novo Miguel de Vasconcelos. A escolha é vossa.

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                        A caminho de Soccer City

                        matraquilhos

                        Bem sei que pode parecer um pouco cruel escrever isto, mas dói ver a forma como muitos dos emigrantes portugueses na África do Sul – a maioria originária do norte empobrecido da ilha da Madeira, onde pais, avós e bisavós penaram sob o regime de colonia – se comportam quando saem dos bairros onde moram e trabalham e são colocados à frente de uma câmara de televisão para falarem da «nossa selecção» e de «nós, portugueses». Um país antigo e desigual ressurge então das sombras, mesmo quando são jovens a darem a cara. Na maior parte dos outros destinos da nossa diáspora já não é vulgar depararmos com um número tão elevado de pessoas assim, parecendo arrancadas a uma canção de Max ou de Marante. Adivinham-se então as sucessivas gerações de exclusão e de trabalho, em fábricas ou pequenos bisenesses, que estão por detrás daquela felicidade efémera. Os bem-sucedidos, claro, não se vêem nas imagens dos engarrafamentos, da poeira nos sapatos e das vuvuzelas verde-rubras. Quanto aos repórteres no terreno, esses continuam mais preocupados em saber do interlocutor o que sente ele «ao ver Cristiano Ronaldo», se está ali para «apoiar os nossos jogadores», se acha que Portugal «vai ganhar». Tudo normal na aparência, embora um tanto tristonho. Mas nada que um final de tarde em glória no estádio de Soccer City, Joanesburgo, a 11 de Julho, não possa tornar irrelevante.

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                          Teorias da conspiração

                          I spy

                          As teorias da conspiração interferem nos processos de mudança histórica com uma força muitas vezes idêntica à dos acontecimentos. Imputam uma intenção deliberada a algo que, no fundo, é mais provável que tenha sido acidental ou involuntário, nascendo e multiplicando-se a um ritmo e com uma profundidade que não param de aumentar e que são hoje particularmente estimulados pelo cinema, pela televisão e pela Internet. São múltiplos os factores que explicam o seu poder: o facto de serem teorias que se não apresentam como meras conjecturas, mostrando-se antes como enunciados de factos aparentemente indesmentíveis; inscreverem-se recorrentemente numa genealogia de casos semelhantes, numa linha de continuidade que parece dotá-los de um sentido meta-histórico; «fundarem-se» em testemunhos de figuras notáveis ou de «peritos», encontrando sempre alguém capaz de lhes conferir uma suposta autoridade académica; e denunciarem sempre conjuras de uma minoria ou «verdades inconvenientes», o que é meio caminho andado para se obter reconhecimento popular. Como produtos da imaginação colectiva, elas não são nocivas em si mesmo, mas podem conduzir a escolhas funestas ou servir de perigosa ilusão.

                          No recente Mentiras da História identificam-se algumas das mais influentes e recordam-se outras também bastante populares, embora mais inofensivas. De entre as primeiras destacam-se as que advêm da divulgação dos apócrifos Protocolos dos Sábios do Sião, cruciais no alastramento do anti-semitismo, da trama de documentação forjada que sob Estaline alimentou os criminosos Processos de Moscovo, do complexo de boatos e de suspeitas que na América do pós-Segunda Grande Guerra produziu o pânico anticomunista e serviu de munição ao mccarthismo, e das interpretações delirantes construídas a propósito do 11 de Setembro de 2001. Das mais populares emergem as especulações construídas e largamente divulgadas em redor de episódios tão distintos como a morte de John Kennedy, de Marilyn Monroe e da princesa Diana, o ataque a Pearl Harbour ou as actividades da Opus Dei grotescamente «identificadas» na trama do Código Da Vinci. Temas que alimentam indústrias inteiras e nutrem milhões de mentes prontas a deixar-se envolver pelo primeiro conto do vigário que lhes surja pela frente. [David Aaronovitch, Mentiras da História. Trad. de Artur Lopes Cardoso. Temas & Debates – Círculo de Leitores, 456 págs.]

                            História, Olhares

                            Isto é crime

                            Havana

                            Acaba de sair uma compilação de textos de Yoani Sánchez, a jornalista dissidente cubana que edita o blogue Generación Y – no seu país este circula apenas em cd-rom ou pen drive – e ganhou em 2008 o prémio Ortega y Gasset concedido pelo diário El País. Cuba Livre é um testemunho expressivo do quotidiano da ilha, particularmente mordaz e convincente por mencionar detalhes que apenas pode narrar quem nela viva e nela participe dos mais elementares actos de sobrevivência, muitos deles obrigatoriamente ilegais mas imprescindíveis. Ou então quem sinta na pele a privação da liberdade, particularmente experimentada pelos que, como Yoani, se esforçam todos os dias por contorná-la e combatê-la. A páginas tantas: «Entre as melhores definições de “liberdade de expressão” conheço uma herdada de um amigo que dizia: “Um país onde uma pessoa pode parar num cruzamento e gritar ‘aqui não existe liberdade de expressão’ é exactamente um lugar onde ela existe.” Por isso tive vontade de me pôr no meio da rua e começar a dizer qualquer coisa, para demonstrar que entre nós não é possível sequer pronunciar o começo da frase.» Ou mais adiante: «Não tomaste o comprimido vermelho nem o outro azul… mas hoje levantaste-te e a realidade parece pura ficção. Reexaminas o jornal para retirares aquele sabor a falso e verificas, lendo o Granma, que o fictício foi oficialmente instituído.» Escrever e publicar textos desta natureza, que em grande parte do mundo não passariam de inocentes desabafos, representa na vida de Yoani, como na de qualquer cubano insulado com a sua atitude, um indício grave de crime ou de traição. [Yoani Sánchez, Cuba Livre. A arte de sobreviver a Fidel Castro. Trad. de Maria Irene Bigotte de Carvalho. Casa das Letras, 236 págs.]

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                              Uma perspectiva optimista

                              América

                              O antiamericanismo de diferentes matizes e intensidades nasce de uma observação da América fundada em juízos muitas vezes simplistas ou extremados, mais próximos do dogma e dependentes de ódios acidentais do que de uma apreciação completa e fundamentada da múltipla realidade americana, da história dos Estados Unidos ou do papel e do lugar simbólico que estes ocupam no mundo. Tendo como ponto de partida uma série documental gravada em 2008 para a BBC-2, O Futuro da América, de Simon Schama parte de um objectivo ambicioso e declarado – produzir um antídoto capaz de combater essa rejeição – que só em parte é alcançado. Não há dúvida, porém, de que o leitor honesto menos conhecedor da realidade americana ficará, ao fim destas centenas de páginas, com uma percepção clara de que o núcleo de tanta rejeição é complexo, não possuindo obrigatoriamente um sentido unívoco. O volume organiza-se a partir de quatro vectores que Schama identifica: a guerra, o fervor, a etnicidade e a abundância. O primeiro define a beligerância como factor constitutivo da existência da América, mas nota que a busca de uma «paz perpétua» também o é: nos anos 1790, o debate entre Hamilton e Jefferson a propósito do federalismo teria lançado as bases de um combate, ainda inacabado, opondo uma política intervencionista a uma outra, voltada para a cooperação. O segundo assenta no papel das convicções, incluindo-se nestas as de natureza religiosa, na construção de um «sentido de missão» inerente a todos os grandes projectos políticos americanos. O terceiro sublinha a complexidade étnica na qual, desde os tempos da independência americana, se fundam muitos dos seus conflitos internos, dela emergindo também a afirmação actual de uma nação multiétnica. O último vector refere a fábula construída à volta do carácter inesgotável dos recursos naturais, considerando que nela residem tanto a origem de políticas desastrosas quanto a fonte de um optimismo de efeitos criadores. A «era de Obama» corresponderá, na narrativa proposta pelo autor, a uma fase regeneradora, capaz de esvaziar o ódio global contra a América. A ver vamos. [Simon Schama, O Futuro da América. A História dos EUA dos Fundadores a Barack Obama. Trad. de Michelle Hapetian. Civilização Editora, 448 págs.]

                                Atualidade, História