Um excelente texto-síntese sobre a história do maoísmo em Portugal – autodesignado «marxismo-leninismo» num tempo em que a categoria não tinha ainda sido recuperada pelo PCP com a veemência com que o faz agora – é aquele que Miguel Cardina publica nos Caminhos da Memória. Como parte interessada – enquanto actor, testemunha e historiador – só posso mesmo recomendá-lo.
Pelos finais do século XVII, um inglês de nome Richardson tornou-se conhecido em toda a Europa por ser capaz de colocar brasas na língua, mastigá-las, comer vidro derretido, manusear ferro incandescente e dobrá-lo com os próprios dentes.
Easy Come, Easy Go é o seu mais recente álbum, acabado mesmo de editar. Há já muitos anos que Marianne Faithfull deixou de ser a miúda em trajecto borderline que em 1965 cantarolava As Tears Go By como se fosse dissolver-se ali mesmo. Sobreviveu a várias tormentas, a maldita, e aos 62 continua a sussurrar-nos coisas a meio da noite.
Talvez por causa da sua condição de alienígena, o Lutz Brückelmann diz com maior à-vontade aquilo que qualquer português das berças que mantenha um sentimento de amor-próprio e de justiça murmura um pouco encavacado e entre dentes enquanto escuta um fado canalha. A frase de pomada com a qual José Sócrates brindou a figura sinistra de mini-czar que responde pelo nome de Dmitri Medvedev – «a Geórgia é uma página virada» – é mesmo para procurar aparecer, como o fez Durão Barroso na infame Cimeira dos Açores de Março de 2003 com Bush, Blair e Aznar, em bicos de pés «ao lado dos grandes». Um exemplo de ausência de princípios, de desumanidade e de falta de vergonha.
Um post mais do que oportuno do Corta-Fitas evoca o actor Sidney Poitier, o americano «de cor» que abriu atalhos ainda improváveis na década de 1950. Lembra Pedro Correia: «Antes dele, os negros em Hollywood apenas podiam ser mordomos, porteiros de hotel ou pianistas de bar. Depois dele, puderam ser tudo.» A minha memória ainda consegue reproduzir o efeito de sopro que se sentiu em Portugal quando da estreia diferida de Guess Who’s Coming to Dinner / Adivinha quem vem jantar, de Stanley Kramer. O filme é de 1967, mas foi preciso esperar pela balbúrdia marcelista para ele poder correr nas salas de cinema portuguesas. Ver Sidney fazer de Dr. Prentice, o noivo de Joey, uma jovem WASP com uns pais conservadores que rejeitavam o seu amor – e ver um negro e uma branca beijando-se no grande ecrã –, foi na época, para muitos, quase um acto de militância antiracista e anticolonialista. Hoje quase não dá para acreditar, pois não?
Adaptação de um artigo publicado em 2006 na revista Penetrarte
Em A Máscara de Zorro (1998), o filme de Martin Campbell anterior à sequela A Lenda do Zorro, o herói na pré-reforma (Anthony Hopkins) passava o testemunho ao jovem bandoleiro (António Banderas). Entretanto saiu Zorro – O Começo da Lenda, o romance de Isabel Allende no qual se forja a educação e a sina da velha figura de capa, espada e mascarilha. Na página inicial, uma frase curta – «Existem muito poucos heróis de coração romântico e de sangue leviano. Digamo-lo sem rodeios: não há nenhum como o Zorro»– arrasta o leitor para um universo de mistério e intriga que a chilena reinventa, reconduzindo o personagem às suas origens e avançando um passo mais na sua renovação.
O nascimento do Zorro conta-se em poucas linhas. Quando o galante Douglas Fairbanks casou com a diva Mary Pickford e os dois seguiram em wedding-trip para a Europa – uma espécie de viagem de núpcias para americanos ricos – durante a travessia do Atlântico, Fairbanks, entediado com a monotonia do horizonte, entreteve-se a ler The Course of Capistrano, uma espécie de folhetim publicado em 1919 na All-Story Weekly pelo autor de novelas e de argumentos Johnston McCulley. Por sua vez, este havia-se inspirado em Life and Adventures of Joaquin Murieta: The Celebrated California Bandit (1854), uma obra de pulp fiction do escritor índio John Rollin Ridge (também lembrado por alguns como Yellow Bird). A trama do livro interessou Fairbanks a tal ponto que, de regresso a Hollywood, produziu e protagonizou de imediato a película A Marca do Zorro (1920). Inspirado na figura recriada por McCulley, deu-lhe no entanto um toque pessoal, compondo alguns dos seus traços físicos e inventando o sinal «Z», desenhado, como toda a gente sabe, com três estocadas rápidas e destras de florete. As legendas iniciais – «Na Califórnia, há cerca de cem anos, apareceu um cavaleiro mascarado, protector do povo e carrasco dos seus sanguinários opressores»– fundaram o mito contemporâneo, construído ao longo dos anos através de variantes conotadas com um sentido justiceiro comum. De facto, mesmo nas versões mais inócuas das andanças do Zorro e dos seus sucedâneos – como os que aparecem na série de televisão produzida entre 1957 e 1959 pela Disney, na banda desenhada do Lone Ranger (com o seu companheiro de nome Tonto), semi-plagiada na década de 1930 por Striker e Arbo (adaptada no Brasil e em Portugal como Zorro), ou ainda no talhe essencial da figura redentora de Batman, de Bob Kane – reconhece-se como central a função reparadora daquilo que carece de ser reparado, mesmo quando esta acção é colocada ao serviço de uma ordem dominante que jamais é posta em causa.
Segundo notícia do Público online, a PSP reviu para 20 mil a 25 mil o número de funcionários públicos que se manifestaram hoje em Lisboa por aumentos salariais acima dos previstos pelo governo para 2009. Inicialmente a polícia avançara com uma participação de três mil a quatro mil. A organização do protesto continua a afirmar que foram perto de 50 mil as pessoas que desfilaram entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República. Suspeita-se com fundamento que o agente incumbido de efectuar as medições anda a ler o Ensaio sobre a cegueira nos intervalos dos giros. A verdade porém – Miguel Esteves Cardoso scribit – é que «não há neste abençoado território um único sujeito, seja eu ou ele cego, surdo e mudo, que não reclame a sua inobjectivável subjectividade». Essa é que é essa.
Enquanto instalo a nova versão do Nero, aquele software americano indispensável para manipular, guardar e distribuir som e imagem a partir do computador, deparo com uma inovação surpreendente. Durante a instalação vão-se sucedendo no ecrã informações e dicas sobre a melhor forma de utilizar o programa, o que não é novidade alguma. Mas agora todas elas surgem claramente diferenciadas, de acordo com o papel que cada um dos membros da família supostamente irá desempenhar na sua manipulação. A voz é sempre a de Kate, mulher, mãe e dona de casa, que tranquiliza o proprietário do computador e se interessa particularmente por filmes para ver em família. Jack, o pai, é hiper-responsável e apenas lhe importam as imagens que irá utilizar no trabalho, nada de tempo perdido (depois das duas da manhã já será outra coisa, presumo). O filho de ambos, Ethan, toca numa banda e, gandamaluco, só pensa em manipular ficheiros de mp3. Já o avô George está claramente gagá e apenas se servirá do programa para digitalizar e organizar fotografias dos bons velhos tempos. Papéis bem separados e tudo nos eixos, sem confusões. Uma apresentação que funciona como um sintoma de retrocesso social ou serei eu que estou a ver indícios onde eles não existem?
PS – Um leitor corrigiu-me: o Nero é alemão, e não americano. Mas quase não se nota…
O pessoal não perdoa as declarações despropositadas e um pouco estrambólicas de Manuela Ferreira Leite sobre a necessidade de uma licença sabática semestral da democracia. E toca de zurzir a senhora como putativa candidata a ditadora. Mal disfarçada com aquele anacrónico colar de pérolas, ainda por cima. Um exagero, um erro de análise, como reconhecerá qualquer cidadão sensato sem vontade de citar Brecht e de disparar dois tiros para o ar ao menor pretexto. Uma amiga menos intransigente, e provavelmente mais sábia, fala-me da possibilidade da irmã do advogado e comentador futebolístico Dias Ferreira ter bebido um copito a mais durante aquele almoço na Câmara de Comércio Luso-Americana. Quero acreditar que sim. Não sei porquê, é uma ideia que me agrada. E uma ideia que também me alivia um pouco.
Da bula de um medicamento que o médico me prescreveu:
Utilização em doentes negros com pressão arterial elevada e dilatação do ventrículo esquerdo
Num estudo em doentes com pressão arterial elevada e uma dilatação da cavidade esquerda do coração, COZAAR demonstrou diminuir o risco de acidente vascular cerebral e ataque cardíaco, e ajudar os doentes a viver durante mais tempo. No entanto, neste estudo, estes efeitos benéficos não se aplicaram a doentes negros.
A crise no consumo instala-se e o comércio a retalho precisa quase desesperadamente de clientes. Já tinha notado um exagerado aumento da simpatia em algumas lojas nas quais era até agora tratado com uma cortesia que se aproximava da indiferença. Hoje tive a confirmação com uma mensagem de SMS – desatento, devo ter dado o número de telemóvel para uma qualquer «ficha de cliente» – na qual me prometiam quatro camisas e uma gravata na compra de um fato completo. Ainda por cima com bastante tempo para me decidir. Vou fazer-me de caro a ver se a proposta melhora um pouco, e daqui por umas semanas vou estar com um look bestial sem ter de recorrer ao cartão de crédito. Depois irei inscrever-me numa escola de tango.
O texto que escrevi ontem sobre o desaparecimento de João Martins Pereira não era uma evocação nem pretendia servir de obituário. Correspondeu apenas a uma reacção a quente perante a notícia da morte de uma pessoa que não conheci pessoalmente mas me habituei a acompanhar. Na minha biblioteca, em lugar acessível, os seus livros estão encostados aos de António José Saraiva e de Eduardo Lourenço, e julgo que tal poderá dizer alguma coisa a alguém. Ou di-lo a mim, pelo menos. Não falei portanto de algumas das suas intervenções e das ausências me falaram mails que recebi entre ontem e hoje. Não lembrei, por exemplo, a sua proximidade dos processos de fundação do MES e, muitos anos mais tarde, do Bloco de Esquerda. Ou a sua actividade como professor, engenheiro e cronista.
Mas uma ausência me parece de facto injusta. Num testemunho conciso e comovente saído hoje no Público, Eduarda Dionísio anota o esquecimento de um jornal absolutamente único, publicado a partir de 1975, do qual João Martins Pereira foi director, colaborador e acima de tudo grande entusiasta. Tratava-se da Gazeta da Semana, anos depois reduzida por dificuldades várias a Gazeta do Mês, e do qual até tinha a colecção completa, desaparecida algures junto com um caixote que levou descaminho numa qualquer mudança. Sobraram-me apenas alguns exemplares dispersos, e é de um deles que me sirvo para ajudar a preencher a falha.
Junho de 1980, artigo «Resistir ou Re-existir» na Gazeta do Mês número 2: «A condição feminina é-me exterior, como o é, num outro plano, a condição operária, a mim, intelectual de extracção burguesa. Libertar-me do complexo de “não ser operário” não é distanciar-me do problema da exploração. É justamente escolher colocar-me, em relação a ele, na única posição que, de boa-fé, me é possível assumir: a da apreensão intelectual, a da “teoria”, a de uma prática solidária, que não a de uma prática vivida (impossível) ou a de uma prática imitada (falsa). Levantemos de uma vez certas ambiguidades persistentes: não posso fazer minha a luta pela emancipação feminina, como não posso fazer minha a luta proletária. Estou com elas. E ao estar com elas, isso determina-me nas lutas que me pertence, a mim, travar.» Parágrafos destes, num tempo dominado agora pelos exageros do politicamente correcto e pelo receio da exposição pública, não existem muitos.
Jorge Palma escreve canções inesquecíveis. E é um belo poeta em qualquer parte do mundo. Agora que alguém diga, a propósito do lançamento de Voo Nocturno, o seu novo álbum de originais, que o músico «possui uma voz maravilhosa» – como ouvi hoje uma jornalista afirmar – é pior que mencionar Tom Waits qualificando o seu timbre vocal como aveludado. E será, creio, uma ofensa feita ao trovador JP da voz nenhuma. Pior mesmo só proclamar à urbe e à orbe que o maldito bufão «canta e encanta». O que também já tive a oportunidade de ler.