O regresso da caridade

A caridade é, para os católicos, uma das sete «virtudes teologais», estando associada ao amor pelo próximo e sendo encarada como marca da presença e da intervenção do Espírito Santo. Outras leituras dos Evangelhos dão-lhe um sentido um pouco diferente, relacionado uma vez mais com uma determinação divina condicionada pela fé, mas cujo cumprimento confere a quem a pratica uma espécie de segurança e de salvaguarda para a obtenção de um lugar eterno no definitivo «reino dos justos». Durante muito tempo, a sua prática foi, em sociedades fundadas na desigualdade dos direitos e em hierarquias bastante rígidas, transformada numa forma de pacificação social, dando a alguns dos mais pobres a possibilidade de obterem temporariamente o pão e o teto que lhes permitisse sobreviverem, e aos mais ricos a certeza de que, por essa forma, permaneceria contida a vontade deles se insurgirem contra a ordem que determinava a sua condição. No século XVII, Descartes viu-o bem quando declarou que essa suposta virtude «cobre com um véu os defeitos dos homens», e menos de cem anos depois Marivaux reforçou a ideia, sublinhando que ela «não tem pudor face a um miserável», uma vez que, «antes de o ajudar, começa por lhe espezinhar o amor-próprio» ao reconhecer como natural, como inevitável, a sua miséria. (mais…)
