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A minha homenagem ao XVIII Congresso

Pravda

Ao que me dizem, nos países do leste europeu a piada tem barbas. Ao ponto de já não se saber muito bem qual a sua origem. Checa? Polaca? Búlgara? Mas continua a funcionar muito bem. Principalmente junto dos e das imberbes. Os outros já só dizem «piada número 2376!», e todos riem.

O professor diz à aluna para escrever um texto intitulado «Porque adoro a União Soviética». A aluna vai para casa e pergunta ao pai: «Paizinho, porque é que adoras a União Soviética?»

«Não adoro, detesto», responde o pai.

A menina vai então ter com a mãe e depois com o irmão mais velho recebendo a mesma resposta de ambos.

Depois, já no seu quarto, começa a fazer os trabalhos de casa e escreve: «Adoro a União Soviética porque mais ninguém gosta dela…»

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    Atualidade, História, Olhares

    ♪ Nocturna

    Marianne Faithfull

    Easy Come, Easy Go é o seu mais recente álbum, acabado mesmo de editar. Há já muitos anos que Marianne Faithfull deixou de ser a miúda em trajecto borderline que em 1965 cantarolava As Tears Go By como se fosse dissolver-se ali mesmo. Sobreviveu a várias tormentas, a maldita, e aos 62 continua a sussurrar-nos coisas a meio da noite.

    Aqui Children of Stone e Black Coffee

    [audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/11/106-marianne_faithfull-children_of_stone.mp3][audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/11/202-marianne_faithfull-black_coffee.mp3]
      Música, Olhares

      Um Z contemporâneo

      Zorro

      Adaptação de um artigo publicado em 2006 na revista Penetrarte

      Em A Máscara de Zorro (1998), o filme de Martin Campbell anterior à sequela A Lenda do Zorro, o herói na pré-reforma (Anthony Hopkins) passava o testemunho ao jovem bandoleiro (António Banderas). Entretanto saiu Zorro – O Começo da Lenda, o romance de Isabel Allende no qual se forja a educação e a sina da velha figura de capa, espada e mascarilha. Na página inicial, uma frase curta – «Existem muito poucos heróis de coração romântico e de sangue leviano. Digamo-lo sem rodeios: não há nenhum como o Zorro» – arrasta o leitor para um universo de mistério e intriga que a chilena reinventa, reconduzindo o personagem às suas origens e avançando um passo mais na sua renovação.

      O nascimento do Zorro conta-se em poucas linhas. Quando o galante Douglas Fairbanks casou com a diva Mary Pickford e os dois seguiram em wedding-trip para a Europa – uma espécie de viagem de núpcias para americanos ricos – durante a travessia do Atlântico, Fairbanks, entediado com a monotonia do horizonte, entreteve-se a ler The Course of Capistrano, uma espécie de folhetim publicado em 1919 na All-Story Weekly pelo autor de novelas e de argumentos Johnston McCulley. Por sua vez, este havia-se inspirado em Life and Adventures of Joaquin Murieta: The Celebrated California Bandit (1854), uma obra de pulp fiction do escritor índio John Rollin Ridge (também lembrado por alguns como Yellow Bird). A trama do livro interessou Fairbanks a tal ponto que, de regresso a Hollywood, produziu e protagonizou de imediato a película A Marca do Zorro (1920). Inspirado na figura recriada por McCulley, deu-lhe no entanto um toque pessoal, compondo alguns dos seus traços físicos e inventando o sinal «Z», desenhado, como toda a gente sabe, com três estocadas rápidas e destras de florete. As legendas iniciais – «Na Califórnia, há cerca de cem anos, apareceu um cavaleiro mascarado, protector do povo e carrasco dos seus sanguinários opressores» – fundaram o mito contemporâneo, construído ao longo dos anos através de variantes conotadas com um sentido justiceiro comum. De facto, mesmo nas versões mais inócuas das andanças do Zorro e dos seus sucedâneos – como os que aparecem na série de televisão produzida entre 1957 e 1959 pela Disney, na banda desenhada do Lone Ranger (com o seu companheiro de nome Tonto), semi-plagiada na década de 1930 por Striker e Arbo (adaptada no Brasil e em Portugal como Zorro), ou ainda no talhe essencial da figura redentora de Batman, de Bob Kane – reconhece-se como central a função reparadora daquilo que carece de ser reparado, mesmo quando esta acção é colocada ao serviço de uma ordem dominante que jamais é posta em causa.

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        Memória, Olhares

        Traumas

        Mary Poppins

        Um pesado momento traumático ocorreu quando deparei com uma fotografia de Julie Andrews – responsável por continuadas tentativas de imbecilização das quais fui alvo durante a pré-adolescência, e que imaginara um ser angélico e assexuado – apresentando-se à sociedade, creio que no filme S.O.B., com uma desafiadora caixa torácica devidamente ao léu. Um outro, que terá perturbado uma geração mais recente, relaciona-se com as transformações plásticas de Ana Malhoa, a saudosa animadora das tardes de domingo do Buéréré. Outro ainda, que poderá afectar negativamente milhares de crianças, acaba entretanto de ocorrer: numa capa da Caras, reproduzida no blogue melancómico, deparei com a cidadã portuguesa Luciana Abreu, que deu corpo na televisão à assombrosa Floribella, a princesa das meninas-totós, revelando-se a quem a queira ouvir «uma mulher ousada e sensual». Não há direito. O Ministério da Educação, a Conferência Episcopal e o Doutor César das Neves deveriam tomar uma posição pública contra isto.

        Adenda – Encontrei entretanto uma evocação de Andrews na qual um leitor documenta o supra-citado efeito. Transcrevo: «(…) Quero agradecer a Deus o privilégio de ter conhecido Julie Andrews através de seu filme mais famoso “The Sound of Music” ou a “A Noviça Rebelde” em português [“Música no Coração” em Portugal]. Sua atuação é maravilhosa e terminou por marcar minha vida para sempre pela sua meiguice e talento invejável. O primeiro filme que assisti com Julie Andrews foi Mary Poppins que marcou minha infância.» Assim está bem, não há problema.

          Devaneios, Olhares

          Chove em Havana

          Havana

          Porque há já alguns dias não passava pelo Generación Y, também não tinha lido o artigo de Yoani Sánchez sobre a curiosidade e as expectativas cubanas – dos cubanos comuns, pessoas da rua que vivem apenas vivem a sua vida – a propósito das eleições americanas. Um excesso de tédio produzido por dois presidentes em cinquenta anos e uma América física e culturalmente muito próxima, aguçaram o interesse e levaram até a tomadas de posição por um ou por outro dos candidatos. Com expectativas que se prendem com o futuro de Cuba, naturalmente. No ar, a sombra de uma democracia em diferido e uma vontade de que tudo mude para melhor, pois para pior já basta assim. Com a esperança de que, também aqui, a América se possa comportar agora de uma forma menos obtusa e brutal, deixando de fornecer argumentos a quem, ali mesmo, continua a defender-se com garras e dentes de uma mudança sempre adiada mas cada vez mais inevitável.

            Atualidade, Olhares

            Crise de personalidade

            Bond, James Bond

            Estou chocado. Continuo a ser um bondiano convicto e a reconhecer que Daniel Craig, natural do condado de Cheshire, é o segundo melhor e mais convincente Agente 007, logo depois do escocês Sean Connery e imediatamente antes do irlandês Pierce Brosnan. Mas, como escreveu Pedro Correia, em Quantum of Solace um James Bond improvável, nada cínico, politicamente correcto, de roupa suja e enxovalhada, quase desligado do sexo e do álcool, é, apesar da orgia de tiros, explosões, socos e pontapés, e de mais duas harmoniosas bond girls a juntar à colecção, um ser um pouco entediante e sem o charme discreto da sacanice que o acompanhou no passado. Sinto-me enganado. Quero de volta o meu herói-vilão da Guerra Fria.

              Cinema, Olhares

              Um herói demasiado humano

              B.O.

              Cada época, cada desígnio colectivo, espera sempre pelos seus heróis, que dão um rosto a identidades, a ideias, a projectos. Ou então procura no passado heróis cuja representação os legitime. Eles são os pioneiros, os combatentes, os guias, devotados a causas que parecem transcender a sua própria humanidade. São seres extraordinários, sim, mas são também necessariamente humanos, e por isso deuses e monstros não podem ser heróis. Têm apenas algumas coisas a mais que os seus semelhantes: mais coragem, maior resistência, uma tenacidade fora do comum, talvez um sangue-frio acima da média. Mesmo quando essas qualidades não são consensualmente reconhecidas. Afinal, mesmo o anti-herói é apenas um herói deslocado no tempo, fora do lugar adequado, que age a contracorrente. Têm também qualquer coisa de sábios e de santos. E apesar de se afirmarem por vezes com alguma exuberância, são essencialmente solitários, uma vez que a sua missão singular exige um lugar à parte. Herói algum leva uma vida análoga à do comum dos mortais, misturando-se com eles, pois é o isolamento que enfatiza a sua dimensão exemplar.

              Bem sei que Demóstenes já se queixava de algo de parecido a propósito dos «homens honrados» – apesar de ter acabado por se deixar corromper por um ministro de Alexandre –, mas na época em que vivemos é raro encontrar heróis vivos. Existe até uma tendência, em parte estimulada pelo enorme poder dos média, para a banalização do heroísmo, transformando-se seres por vezes medíocres, ou com uma vida banal, em modelos a copiar. Por isso, e também porque está na nossa matriz a tendência para esperar alguém que fale por nós mas melhor que nós, que melhore o mundo como jamais o conseguiríamos fazer, que pareça infalível como nós nunca seremos, se torna tão fácil vislumbrar no primeiro vulto heróico que apareça o sinal de uma nova redenção. É aquilo que parece ocorrer com o ser aparentemente perfeito que responde pelo nome de Barack Obama. O problema é que é suposto, no combate que trava por um supremo bem, o herói jamais defraudar expectativas, e isso o próximo presidente dos Estados Unidos da América não conseguirá deixar de fazer. A primeira prova de fogo para a preservação do seu estatuto heróico acontecerá, pois, quando desfeito o sortilégio ele se tornar demasiado humano e revelar as imperfeições. O que acontecerá em breve.

                Atualidade, Olhares, Opinião

                Obamamania

                Obama

                Ainda na ressaca da eleição de Obama, preparemo-nos agora para uma obamamania. O mote foi dado em Julho de 2008, quando do discurso de Berlim, com toda aquela enorme multidão de alemães reunida para ver, tocar, fotografar, ovacionar o candidato democrata. Com a projecção mediática que vai agora passar a ter, crescerá rapidamente o número de europeus seduzido pela sua mensagem poética que mais nenhum político utiliza, pelo discurso quase sem os clichés habituais, ritmado e no timbre certo, pela elegância nos antípodas da postura do trangalhadanças texano, pela cultura cosmopolita revelada na dose adequada, pelo sorriso franco no momento certo. A maioria das mulheres de todas as idades com quem tenho falado do tema já se encontram rendidas e referem-se a Barack como «aquele homem lindo». «Te quiero mucho», gritava-lhe em castelhano, durante o discurso de aceitação proferido em Chicago, uma descaradona hispânica. A Europa não tem um líder assim e se calhar faz-lhe falta. Um líder que não fale apenas no politiquês habitual e que seja capaz de atrair paixões. Que saiba seduzir pois toda a gente gosta de ser seduzida. Claro que isso não chega para afirmar uma mensagem e marcar um rumo, mas ajuda bastante.

                  Atualidade, Olhares

                  Um rosto menos pálido

                  B. H. Obama

                  Aconteceu. É preciso olhar para os últimos cinquenta anos da história da América para se compreender o alcance e o impacto desta eleição excepcional, realmente histórica, de alguém que se chama Barack Hussein Obama. Regressar à luta destemida e de início quase isolada de Rose Parks, à força da esperança que Martin Luther King soube levantar, à raiva inevitável e irredutível de Malcom X, e depois seguir os caminhos do longo combate dos negros americanos, culpados no seu país por serem negros e no mundo por serem americanos. Nem que fosse apenas pelo fim vitorioso desse trajecto que esta eleição agora consagra, já teria valido a pena que ela tivesse terminado como terminou. Politicamente emancipado no seu próprio país, o negro americano vira-se agora para o mundo. A América mostra-nos finalmente um rosto menos pálido e um sorriso mais franco, brilhante, de outra cor. Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos.

                    Atualidade, História, Olhares

                    This is America

                    America

                    Preparo-me para uma noite prolongada em frente do televisor. A atracção cultural por uma América que apenas conheço dos livros, das reportagens, dos filmes e das séries de televisão não impõe uma atitude acrítica em relação ao sistema político desequilibrado que a governa. Mas também não me obriga a fazer de cego e de surdo: sim, espero ansiosamente uma vitória de Barack Obama, em nome de um mundo pelo menos um pouco menos mau e menos feio, o que já não será pouco. E emociona-me a esperança sem medida que encontro nas longas filas de pessoas comuns, de milhões de pessoas de todas as cores, que ao frio e à chuva esperam três ou quatro horas sem protestar pela sua vez de votarem. Sei que muitas delas rapidamente se desiludirão – as que votaram McCain primeiro, e depois aquelas que esperam por um Obama impossível – mas prefiro mil vezes essa expectativa, e o acto de democracia e de liberdade imperfeito que lhe dá forma, à vergonha das eleições-referendo, sem paixão e com vencedor antecipado, que sobrevivem noutros lugares bastante mais tristes e sombrios subjugados pela tirania. Esta espécie de América pode ser, e será, um exemplo.

                      Atualidade, Olhares

                      Bué de sentido de Estado

                      O líder da Juventude Socialista acusou Manuela Ferreira Leite de ter «falta de sentido de Estado» ao afirmar que a aposta nas obras públicas só reduzirá o desemprego de Cabo Verde ou da Ucrânia. Parece mais ou menos evidente, para quem tenha alguma sensibilidade para as perigosas implicações que a frase da chefe do PSD contém – no mínimo, favorecendo a xenofobia e lançando a desconfiança numa das áreas mais dinâmicas da economia de mercado que tanto o seu partido como o PS têm defendido quando se encontram no poder – que a senhora de modo algum deveria ter dito aquilo que disse. Porém, se fosse «jovem socialista», eu preferiria concentrar-me na denúncia do padrão de sensibilidade política implícito na frase de Ferreira Leite a preocupar-me assim tanto com o seu «sentido de Estado». É que frases assim, tão – como hei-de dizer? – de sensato «responsável partidário», envelhecem as pessoas. Embora admita que possam acelerar a progressão na carreira. São tão tristes e enfadonhas as nossas jotas!

                        Atualidade, Olhares

                        O juiz decide

                        Assisti ontem, no final do telejornal da SIC, a uma reportagem tristíssima e revoltante. Tratava de execuções judiciais por dívidas – não sei se é esta a designação técnica correcta, nem isso agora importa – e mostrava situações autênticas, nas quais a câmara acompanhava a entrada dos executores e da polícia na casa das pessoas que naquele preciso momento iam ser despejadas, iam ver bem arrestados, ou eram intimadas a pagarem num prazo curtíssimo as dívidas que se percebia jamais poderem resolver. Mulheres abandonadas pelos companheiros que as tinham deixado com os filhos e com os calotes, homens desempregados, deprimidos e envergonhados, pessoas idosas, doentes e marginalizadas que mal sabiam ler as notificações que tinham recebido e se viam confrontadas com a imposição sem recurso possível «das ordens do meritíssimo juiz». Um dos intervenientes descreveu mesmo uma situação na qual não existiam sequer bens para arrestar, pois a casa já não tinha móveis e a família visada dormia no chão. Bem sei, como dizia do alto do seu diploma provavelmente emoldurado um dos advogados dos credores, que aquelas pessoas «usufruíram sem se queixarem de bens que não pagaram na totalidade», mas não deixa de ser impressionante a insensibilidade da lei perante casos nos quais a pena ignora as voltas da vida de cada um e é, por vezes, claramente desproporcionada em relação à consciência que o presumível criminoso tem do dolo cometido. Não poderá existir, para estas pessoas sem saída, para casos humanos tão pungentes, outro acompanhamento que não seja aquele prestado pelos funcionários judiciais e pela polícia armados de folhas de papel timbrado e de cassetete?

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