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Carvalho no seu labirinto

MVM

Gostei muito, como quase toda a gente, dos policiais de Manuel Vásquez Montalbán. E ainda gosto, se bem que já não me arrebatem como antes as esconsas ruas barcelonesas do Barrio Chino, a descrição pormenorizada de uma boa ensaimada, as receitas dos complexos petiscos que o detective privado Pepe Carvalho, ex-comunista e ex-agente da CIA («Yo también tuve mis ideas, pero ahora sólo me quedan una cuantas vísceras en muy buen uso»), consubstancia enquanto resolve casos singulares e confabula banalidades únicas com a puta Charo ou o inseparável Biscuter. Li-o principalmente nas sucessivas traduções da Caminho – salvo o Asesinato en el Comité Central, que comprei em trânsito e devorei certa noite de insónia num quarto de hotel – e talvez por isso tenha sentido a tentação de o revisitar ao encontrar a maior parte das suas aventuras em versões electrónicas disponíveis em castelhano. Essa língua de arestas que, apesar de catalão e de esquerda, Montalbán sempre insistiu em usar.

    Olhares

    ABC das Palavras Obsoletas – 2

    Estafermo

    Já não há estafermos. Dos verdadeiros. Bonecos daqueles, feitos de ferro e madeira, que serviam na Idade Média para treino da cavalaria. Com os braços abertos, num deles uma arma – espada ou albarda, maça ou clava -, e no outro um escudo, simulavam, presos a um eixo vertical sobre o qual podiam girar, gestos repentinos de ataque e de defesa. Com os cavaleiros a procurarem acertar-lhes com a lança sem serem atingidos pelo pronto açoite. Mas estafermo foi também designação que servia para nomear a pessoa inútil ou incomodativa, sem mais serventia que não fosse a constrangida atrapalhação dos outros. Ou alguém pasmado, estático, que facilmente se deixava surpreender sem mostrar reacção. Do latim stare, estar, fermo, fime, claro. Pelo século XVII, no português e no castelhano, passou a aplicar-se também a uma pessoa particularmente malparecida e de aspecto desagradável, servindo muitas das vezes, em tempos nos quais mais facilmente se perdoava a insana deformidade dos homens que a ausência de gravidade que pudessem mostrar, para classificar mulheres particularmente feias, descuidadas, ou às quais as marcas da idade tivessem invalidado a já esquecida beleza. O gradual sumiço da palavra do léxico do quotidiano tem-nos tornado, por isso, um pouco menos cruéis.

      Etc., Olhares

      Cúmplices ou não

      O silêncio

      Isaiah Berlin escreveu certa vez que a diferença entre uma «pessoa civilizada» e um «bárbaro» – não vamos agora debater os conceitos de civilização e de barbárie – é que a primeira consegue bater-se por coisas nas quais não acredita inteiramente. É este um dos elementos nucleares da cultura democrática e ocidental (mas também universal), conquistado após séculos de combates e de incontáveis sacrifícios: o direito à opinião partilhada e dividida, a aceitação da dúvida e da diferença, a valorização do bem-estar e do princípio do prazer, a legitimidade de todas as formas de criação e de conhecimento, a naturalidade das quimeras, a vida como deriva. Distinto daqueles que nos querem fazer regredir aos tempos medievais, a certezas impostas pela força das armas, ao silenciamento de uma voz própria, à ameaça da forca ou do paredão, à servidão da ignorância, da mordaça ou da norma. Destes devemos defender-nos. Não apenas com belas palavras, mas com firmeza. Sem tocar os tambores da guerra mas combatendo sem preconceitos, enquanto construímos as pontes possíveis, na defesa do que a nossa velha casa comum tem de melhor. Desviando os olhos do umbigo e apoiando como raras vezes temos feito, de Norte a Sul, os heróis de carne e osso, mulheres e homens em risco, que no próprio coração das trevas contra elas se levantam todos os dias.

        Atualidade, Democracia, Olhares

        Vozes da rua

        Vozes da rua

        Um texto escrito em 2001 para a revista Periférica que talvez venha a propósito de acontecimentos recentes e de alguns dos medos que sentimos por estes dias. Quase tudo permanece.

        Um dia chegaram notícias da violência. Ecos dos bandos que percorriam as grandes metrópoles. Dos gangs juvenis de Los Angeles ou Berlim, da forma como se moviam em áreas do Rio, Joanesburgo ou Lima. Mas isso era longe daqui, até onde nos levavam os telejornais, a literatura, uma ou outra viagem, mas nunca as portas das nossas casas. Soubemos depois que circulavam já no metro de Paris ou pelas ruas de Birmingham. Até que os vimos aqui. Percorrendo, de anoraques e calças largas de rapper, ou blusões de cabedal e botifarras, as ruas dos nossos bairros-dormitório. No preciso instante em que, após um dia de trabalho e doses brutais de reality shows, cidadãos aparentemente ordeiros dormiam debaixo dos cobertores, podíamos vê-los como sombras, correndo em fuga para a escuridão diante de polícias nervosos e das câmaras da televisão.

        Hans Magnus Enzensberger observava em 1994, nas Perspectivas da Guerra Civil, a agressividade, aparentemente inexplicável, dos grupos que no coração das principais cidades dos países industrializados se preparavam para banalizar a violência. Os acontecimentos dos últimos anos deram sentido a esse temor, como o comprova o aumento do ruído das sirenes nocturnas, o pavor de circular por certas áreas, as grades de aço em lojas e residências, a proliferação de alarmes nos edifícios e nos carros, o inquietante negócio das empresas de segurança, as «milícias populares» que querem combater os intrusos servindo-se das mesmas armas.

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          Atualidade, Cidades, Democracia, Olhares

          «Foleiros & doutores»

          Já antes falei por aqui – e muitas vezes noutros lugares – do espectáculo lamentável em que se transformou, após a sua gradual «ressureição» na década de 1980, a vivência das praxes e de certos momentos das chamadas festas académicas. Não pelos elementos lúdicos e festivos que podem conter, aceitáveis apesar de tantas vezes discutíveis, mas pelos actos de violência que frequentemente comportam, pelos atentados à liberdade individual que certas vezes configuram, pelo conteúdos aviltantes, sexistas e mesmo boçais que quase sempre integram (embora uma boa parte dos eufóricos participantes, e até alguns dos seus orgulhosos paizinhos, não saibam sequer identificar para o que apontam tais adjectivos). Nas actuais condições, que reajustaram completamente o lugar social do estudante universitário, a tudo isto pode somar-se a ostentação de um «elitismo» anacrónico. Desta vez, para não me repetir, tinha escolhido não falar do assunto, mas uma crónica que Manuel António Pina acaba de publicar no Jornal de Notícias fez-me mudar de ideias. Como infelizmente os textos do JN depressa desaparecem da edição em linha, transcrevo-a numa página interior. Fica aqui.

            Apontamentos, Atualidade, Olhares, Recortes

            ABC das Palavras Obsoletas – 1

            Palavras e frases em vias de extinção que pressagiam problemas de comunicação para quem insista em usá-las. Uma série sob a forma de serviço público para os mais distraídos.

            Chapéus de cowboy

            Brincar aos cowboys

            Tirando os momentos de exasperação de alguns políticos locais e treinadores de futebol quando se esforçam por defender a sisudez avisada do seu trabalho – insistindo em que não andam «a brincar aos cowboys» – a expressão já quase não corre. «Brincar aos cowboys» é uma actividade inusual numa época em que a celebração ficcionada do passado parece limitar-se ao cinema, ao romance e aos jogos de computador. Os heróis americanos são agora menos importantes para a fundação das paisagens quiméricas das gerações mais novas, e, a existirem, habitam apenas cenários de fantasia povoados por monstros ou por seres com poderes especiais. As crianças já não se divertem com «índios e cowboys» porque eles não fazem parte do seu mundo.

            Todavia, como herói favorito da literatura do Oeste americano construída na segunda metade do século XIX a partir do modelo do James Fenimore Cooper, o cowboy viveu uma época de ouro no imaginário da primeira metade do século passado. O sorriso de Gary Cooper, o olhar cortante de Clint Eastwood e a insolência de John Wayne, como as constantes peripécias da família Cartwright na série televisiva Bonanza, deram várias voltas ao mundo. A realidade histórica que fundara o personagem – marcada quase sempre pela dureza de uma vida de solidão, miséria e incerteza – foi dando lugar a uma imagem artificial, embelezada, desenhada sobre um horizonte atraente, que durante décadas se tornou sedutora para gerações de crianças e de jovens necessitados de uma utopia de aventura, individualismo e amizade. Uma incarnação do sonho americano que parecia integrar, na sua definição formal, essa dimensão, lúdica porque incerta, que as fazia «brincar aos cowboys» com pistola de fulminantes ou um arco artesanal. Projectando, sobre um árido mas exaltante panorama, a vida que não tinham e, isso elas não sabiam, que jamais teriam.

            O mito permanece agora associado à tradição cultural promovida nos folhetos turísticos de algumas cidades da América, mas a sombra do chapéu desapareceu definitivamente das nossas ruas. Já ninguém quer «brincar aos cowboys» ou tem sequer saudades deles. Resta o frágil vestígio no falar desatento de uns quantos. Ou as velhas revistas que foram inventando os passos do incansável Texas Jack. Ou a voz country de Linda Ronstadt. Ou a imagem fugidia de Heath Ledger em Brokeback Mountain.

              Etc., Olhares

              A coragem

              coragem

              Não vivemos em guerra, pelo menos por enquanto, nesta parte do mundo que nos cabe habitar. E todavia precisamos de coragem para enfrentar um dia, depois o outro, num tempo em que o nosso futuro material se tornou imprevisível, quando os laços pessoais são cada vez mais instáveis, quando o horizonte ecológico se mostra mais sombrio, quando a História acelera e desafia a todo o instante as nossas capacidades de adaptação. Mas onde encontrar hoje modelos de coragem? Diferentemente do tempo no qual se destacavam as figuras modelares do herói ou do santo, agora não existe um, ou dois, mas sim inúmeros exemplos de coragem, medidos por diferentes bitolas. No limite, cada um de nós pode servir-se do que lhe parecer conveniente: Aquiles, o guerreiro homérico, ou o  ser «condenado a ser livre» de Sartre, o grande homem ou o homem comum, o sábio eminente ou o herói por um dia que vemos no telejornal. Aqui não há lugar para o relativismo: todos eles põem em campo, cada um à sua maneira, paciência e perseverança, acção e reflexão, conhecimento e ousadia. É da essência da coragem, dos seus novos padrões, e de algumas pessoas corajosas, que trata o último número, o 29, da revista francesa Philosophie Magazine. Para perceber um pouco melhor como eles mudaram e não mudaram ao mesmo tempo. [Este texto apropria-se parcialmente, reescrevendo-o, de um parágrafo da PM.]

                Etc., Memória, Olhares

                A Ponte

                A ponte

                Já faz parte da sabedoria popular: o melhor e o pior do regime democrático encontram-se associados à administração localizada dos recursos. Daí a «pulsão da regionalização» ser qualquer coisa que merece as maiores reservas, mesmo quando se reconhece a justeza de algumas das razões invocadas pelos seus mosqueteiros. A teia de cobrimentos e de encobrimentos é necessariamente maior à escala da freguesia, do concelho, da região, e as coisas pioram quando o assunto é dinheiro, influência ou responsabilização. Um bom exemplo disto é o que se passou em Coimbra com a construção da Ponte Europa. Rebaptizada Rainha Santa talvez para que alguém possa inocentar junto do Criador os pecados que lhe ficaram associados.

                O escândalo é público, vem desde há muito e acabam de ser revelados mais dados altamente comprometedores para quem incentivou, geriu ou conviveu com a fraude e o despesismo faraónicos. De acordo com o Público, o Tribunal de Contas classifica agora a gestão do projecto – que calcula ter tido uma derrapagem de 137 por cento, o que significa mais 41 milhões de euros a somar aos quase 30 milhões estimados inicialmente – como «muito má». O Tribunal pormenoriza o desastre: «A obra apresentou um índice de desperdício elevado, resultante de erros e falhas graves na gestão e no controlo de que se destacam: o erro de lançar a obra em fase de anteprojecto, a falta de liderança e de capacidade técnica do dono da obra, a subversão dos princípios da contratação pública (concorrência, transparência e equidade, a nomeação tardia de um gestor de empreendimento, a fragilidade de actuação do dono da obra face ao empreiteiro e a ineficácia das acções da equipa de fiscalização por inércia do dono da obra». Conclui-se que «todas estas graves deficiências contribuíram para uma gestão e coordenação do empreendimento ineficazes que resultaram encargos adicionais avultadíssimos para o erário público».

                Bem sei que a gestão do projecto foi de empresas cuja dimensão ultrapassava quase sempre os limites da cidade, e que o enorme caldeirão alimentou bocas de diferentes procedências, mas é impossível justificar aquilo que se passou sem a ocorrência de fortes cumplicidades, pelo menos por omissão, ao nível local. E sem o desencadear de pesados reflexos, passados e presentes, na vida dos cidadãos e até no prestígio da cidade. Ora, diante desta enormidade agora relembrada e publicamente redimensionada, o que informa a imprensa local, a quem também competiria manter viva e necessidade de apurar responsabilidades? Calcule-se que nada. As capas dos diários locais, tradicionalmente ocupadas apenas com «notícias positivas», efe-érre-ás, assaltos à mão armada ou desastres de viação, ignoram o documento do Tribunal de Contas. Existe gente de peso envolvida nisto, presumir-se-á com naturalidade, e o melhor é não levantar problemas. Afinal, se já tudo passou, os carros rodam sobre os tabuleiros e, contra as expectativas dos habituais maledicentes, a água do Mondego até continua a correr por debaixo da ponte, o que é que isso importa agora?

                  Atualidade, Cidades, Olhares

                  O jogo da mala

                  A mala

                  A forma quase unânime como os deputados aprovaram ontem as alterações à lei do financiamento dos partidos, permitindo um volume muito maior de dinheiro vivo a circular sem controlo, é qualquer coisa de inevitavelmente repulsivo aos olhos dos cidadãos sem telhados de vidro. Ou daqueles que se vêm coagidos, por vezes justificadamente, a severas medidas de fiscalização das transacções que envolvem o seu próprio dinheiro. Ou ainda daqueles que gerem instituições públicas com a corda na garganta. Mas até o Bloco de Esquerda – com a identidade política e a imagem pública vinculadas a um papel de «força de denúncia» – alinhou neste acordo. Um passo mais na descredibilização pública dos organismos partidários, crescentemente voltados para o seu próprio umbigo e olhados pelo cidadão comum como associações de interesses. O fiscalista J. L. Saldanha Sanches asseverou que voltamos assim «às malas cheias de notas, das quais uma parte chega aos partidos e outra fica com as pessoas que as recebem». Poderá não acontecer, mas da suspeita já ninguém se livra, o que será sempre um mau presságio para a qualidade da vida democrática. E também uma maneira de ampliar a desconfiança e a desmobilização.

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                    Atualidade, Olhares

                    Dois apontamentos sobre cartazes

                    Propaganda

                    1. Um passeio neste feriado fez-me passar diversas vezes pelos enormes cartazes de Vital Moreira e de Manuela Ferreira Leite com os quais os maiores partidos nacionais têm vindo a desfear as rotundas de vilas e cidades, não perdendo uma oportunidade para acabrunharem ainda mais os portugueses. Sem impacto político real ou aptidão para evocarem propostas. A frase «Nós, Europeus» colada ao candidato Moreira, por exemplo, é em 2009, no mínimo, um sinal patético de falta de imaginação e indigência política, reminiscência de um «A Europa Connosco» com mais de trinta anos. Os cartazes do PS e do PSD são péssimos, horríveis, representando de forma caricata ou soturna as figuras que nos pretendem propor, incapazes de transmitirem ao cidadão comum uma impressão de calor ou de proximidade. Chego depois a casa e observo imagens dos cartazes da Esquerda Verde, segunda classificada nas eleições que decorreram na Islândia. Percebo ali uma outra cultura política, um outro cuidado com uma abordagem visual, assumidamente estetizada e menos poluente, com capacidade simpática, das pessoas que andam pelas ruas e as observam.

                    2. Desde o episódio do «porreiro, pá» entre Sócrates e Barroso que me incomoda o uso da frase casual, de alguma forma íntima e apenas revelada por um microfone inadvertidamente ligado, como instrumento de arremesso contra ambos. Independentemente das considerações que se podem fazer sobre as atitudes políticas de um e do outro, esse momento cristalizou, aos meus olhos – e provavelmente aos olhos de muitas pessoas – um grau de humanização e de informalização do relacionamento interpessoal que é uma conquista de Abril e que, na sua dimensão democrática, realmente me agrada. Sem exagero. Não posso, por isso, deixar de lamentar a utilização daquela frase pelo Bloco de Esquerda, em outdoors de pré-campanha, como arma de arremesso. E tenho a certeza de que a «mensagem» resulta absolutamente ineficaz, se não mesmo contraproducente em termos de comunicação pública. A construção de uma cidadania mais perfeita não passa, ou não deve passar, pelo achincalhamento pessoal de quem quer que seja. É feio e não vale.

                      Apontamentos, Atualidade, Olhares

                      Palavras públicas (sobre o Twitter)

                      Notificador

                      Ando há dias a congeminar este post. A medir o que nele poderia dizer sem passar por inimigo das redes sociais na Internet, ou fazer figura de antipático aos olhos de pessoas que irão pensar que me estou a referir a elas. Acabei por ser impelido a escrevê-lo por um pequeno apontamento, para a qual me chamaram a atenção, e no qual se equipara ao Twitter uma geringonça, instalada no ano de 1935 em ruas, lojas, estações de comboio e outros locais públicos da cidade de Londres. O Notificador – assim se chamava o aparelhómetro – permitia que o utilizador deixasse pequenas mensagens, escritas em papelinhos, as quais funcionavam como recados destinados a determinadas pessoas. A ideia, aparentemente simples, parecia boa e útil, sendo estranho que não tivesse pegado.

                      Ela dependia, porém, de uma certa capacidade de permanência dos referidos papelinhos, pois estes deveriam manter-se visíveis durante pelo menos 2 horas. Ora é justamente aqui que falha a comparação com o Twitter. O defeito poderá ser meu, mas desde que por ali comecei a ter bastantes friends que escrevem 100, 150, 200 mensagens diárias, a interactividade tornou-se quase impossível, uma vez que essa cortina de recados impede uma leitura adequada – por vezes, ao fim de 5 ou 6 minutos as nossas mensagens foram já afogadas por largas dezenas de outras – e quase inviabiliza uma verdadeira conversa. A não ser que as pessoas envolvidas estejam durante horas com boa parte da sua atenção virada para esta actividade.

                      Vejo o Twitter como uma coisa divertida e certas vezes bastante útil, mas que se pode tornar maçadora para quem está absorvido noutras tarefas e, logo que se liga, vê a mesma pessoa, a mesma cara, a surgir no ecrã em cascata. Durante tanto tempo diário que, certas vezes, nos questionamos sobre a forma como essas pessoas encontrarão lugar para lerem os artigos e os livros que recomendam, para verem os filmes e programas de televisão que sugerem, para viverem a vida «lá fora» da qual falam. Julgo, sinceramente, que deveria existir uma espécie de twittiquette. Uma boa regra, provavelmente a única, consistiria então em que ninguém pudesse enviar mais do que 10 mensagens por hora. Mesmo assim os viciados ainda poderiam enviar mais de 200 por dia, mas dariam tempo aos outros para respirarem e deixarem os seus próprios recados, informações ou fugazes tonterias. Admito, no entanto, que não tenha percebido muito bem a lógica da coisa e possa andar a marinar num erro qualquer.

                        Apontamentos, Cibercultura, Memória, Olhares, Opinião

                        O senhor da previdência

                        Eric Hobsbawm

                        Quase a perfazer 92 anos, Eric Hobsbawm mantem-se mais desperto e capaz de pensar de forma crítica e controversa do que muita gente avisada e previsível que circula por aí cheia de vigor e em condições de percorrer três quilómetros matinais em passo de corrida. Só agora li «Socialism has failed. Now capitalism is bankrupt. So what comes next?», o seu artigo publicado há alguns dias no Guardian. Não oferece uma resposta para a pergunta que coloca? Pois não oferece, não senhor. Só que o primeiro passo para escolher um percurso a seguir consiste sempre, antes ainda de se meterem as solas à estrada, em perceber que ela pode existir. E em procurar o seu norte magnético. Chama-se a isso previdência.

                          Atualidade, Olhares, Opinião

                          Toda a revolução

                          Revolution

                          Outubro é uma edição da Angelus Novus que resulta de uma série de posts – publicados originalmente neste blogue, mas entretanto revistos – sobre o impacto mundial da Revolução de 1917 e do seu mito. O livro estará à venda muito em breve. Adianta-se aqui, em pré-publicação, uma parte substancial do último capítulo.

                          A revolução, toda a revolução, é enunciada como ruptura mas propõe um regresso. A mudança que encena aponta desde a fundação para um restabelecimento, para um retorno, a uma ordem essencialmente antiga, primordial e benigna, que se crê ter sido corrompida algures e em algum momento. Mudar, mudar profundamente, mas para reverter. A «revolução» humana que permitiria aceder à cidade ideal, tal como a concebeu Platão, requeria um esforço de recuperação de uma ordenação primordial perdida: era uma métabolê, uma alteração radical, mas também um ponto de viragem que antecedia uma regressão. Nesta direcção, François Châtelet entende que «por paradoxal que pareça a afirmação, Santo Agostinho, Bossuet, Rousseau ou Engels são platónicos», uma vez que neles a superação radical da ordem do mundo visa sempre – entre a descoberta da Cidade de Deus e o triunfo final do comunismo – a recuperação de um passado perdido, a restituição de uma ordem utópica e edénica aniquilada por um declínio que remonta a tempos ancestrais, pontuadas ambas pela intervenção do pecado, pela ruptura do estado de natureza ou pela divisão social do trabalho.

                          Mas a «verdadeira revolução», aquela que sobrevive ao efémero, ao fluir simples dos acontecimentos, não envolve apenas a destruição de uma ordem política injusta e caduca. Ela implica também a desconstrução da organização social imperante e dos princípios que a governaram. Mesmo quando existe uma agenda política que admite medidas graduais, esta toma sempre por horizonte a mudança decisiva, não aparecendo como um desvio, uma cedência diante dos princípios, mas antes como um diferimento, um instante de preparação para a batalha definitiva apontada ao que importa, que é a demolição definitiva da ordem pré-revolucionária.

                          Marx e Lenine anunciaram a necessidade objectiva desta operação de devastação do real ao excluírem a capacidade regeneradora de qualquer «revolução parcial»: era necessário tudo mudar, inclusive de etapa histórica, ainda que em alguns dos momentos do aguardado «assalto aos céus» pudesse lançar-se o ataque apenas sobre um dos flancos do inimigo. Toda a atitude reformista se tornava inútil e abominável, salvo quando servisse como instrumento da mudança integral. Daí o desdém de Lenine pelo gradualismo reformador do marxista veterano Karl Kautsky ou do menchevique Julius Martov. Porém, aquilo que acontecerá após o instante crucial da viragem revolucionária, permanece sempre como algo de impreciso: por mais inevitável que se revele, toda a revolução é pobre, lacunar, uma vez que funciona mais como instrumento de demolição, operando sobre a realidade objectiva, do que como via para um horizonte tangível a alcançar. De Platão a Mao, passando por Rousseau, Robespierre, Marx ou Trotsky, a teoria da revolução aponta para um futuro mais afortunado e harmónico, mas jamais lhe define os contornos. Apenas declara que este chegará algum dia, como resultado de um processo que deposita nas mãos dos seus executantes as decisões sobre o caminho a percorrer. Num tempo longínquo e incorpóreo, apenas uma ideia de felicidade por cumprir.

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                            Atualidade, História, Olhares

                            Spartakus em Berlim

                            spartakus

                            Publicado no Manuel de Leitura de Tambores na Noite, de Bertolt Brecht. Encenação de Nuno Carinhas. No Teatro Nacional São João do Porto até 26 de Abril.

                            Brecht escreveu Tambores na Noite muito cedo. Em 1919, B.B. acabava de dobrar os vinte anos e não passava ainda de um rapaz bávaro com uma actividade não muito bem definida. Interessava-se pelas artes de palco, isso era certo, e havia já começado a redigir Baal – peça com uma forte componente autobiográfica sobre o velho tema do artista enquanto marginal, em boa parte inspirada pela frequência regular das aulas de Arthur Kutscher -, mas a guerra tinha-o apanhado sem projectos imediatos e no Outono do ano anterior fora mesmo incorporado no exército. A experiência militar seria breve – por ser estudante de medicina trabalhou algumas semanas como enfermeiro num hospital militar de Augsburgo, sendo desmobilizado com o fim do conflito – mas nem por isso deixou ela de perturbar o retorno à condição civil e a maneira de Brecht observar o mundo à volta. Em Munique, onde vivia, como em Berlim e nas outras grandes cidades alemãs, para a maioria das pessoas o ambiente era agora pesado, muito marcado pela realidade da derrota, pelo regresso em massa dos soldados, por conflitos sociais cada vez mais acentuados e também por uma activa luta pelo poder. «Os tempos que correm são inseguros. (…) a desmobilização está a fazer jorrar desordem, cobiça e desumanização animalesca para dentro dos oásis dos que trabalham em paz», proclama Frau Balicke logo no primeiro acto.

                            Tambores na Noite, obra de juventude ainda sem as marcas do teatro épico que o autor desenvolverá na maturidade, foi primitivamente redigida nesse período de adaptação a uma paz podre, aparecendo muito marcada pela sublevação espartaquista ao dramatizar o ambiente que conduzira à revolta, as suas diversas ocorrências, a repressão e depois o refluxo do movimento. A personagem de Friedrich Murk, o anti-herói que não combatera, fizera fortuna com os lucros de guerra e ainda por cima se preparava para roubar a noiva do proletário que fora mobilizado, expõe de certa maneira o sentimento de traição e de frustração que os trabalhadores fardados, constrangidos durante anos a combaterem, sentiam naquele tempo de regresso a casa na condição de vencidos. A peça anuncia também a definição vitoriosa de uma nova ordem contra-revolucionária, manifesta quando Andreas Kragler, o soldado que fora dado como morto e tornara à pátria para a ver acabrunhada, e a casa para ver quase destruído o seu futuro, decide no final optar pelo confortável refúgio da vida privada.

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                              Artes, História, Olhares

                              A Praga de Sudek

                              Sudek

                              A propósito de uma exposição sobre a obra do fotógrafo checo Josef Sudek (1896-1976), aberta ao público até 17 de Maio no Círculo de Bellas Artes de Madrid, Antonio Muñoz Molina deixou no Babelia de ontem uma prosa bela e comovente, «El caminante de Praga», que – como acontecera já com a evocação de John Banville no seu livro precioso sobre a cidade das duas margens do Vltava – faz justiça ao trabalho único de um homem que viu o seu destino como artista determinado, aos vinte anos, pela amputação do braço direito. Josef, que estivera destinado a encadernador, passaria então a percorrer Praga em todas as direcções, dia após dia, muitas vezes pela noite fora, carregando pelo resto da vida, apenas com um braço, a pesada máquina Kodak de 1894 e o seu enorme tripé. Fotografando, sempre num tempo lento, praticamente imóvel, quase inabitado, os espaços e as coisas que não poderiam ser mostrados abertamente, «mas apenas dando pistas, revelando apenas o justo, para que o olhar completo pudesse permanecer na imaginação do espectador». Existe uma Praga, desolada como um eremitério, infinitamente poética, que habita apenas a fotografia do tímido e solitário Sudek.

                                Cidades, Memória, Olhares

                                De fato

                                De fato

                                Na Loja do Cidadão, proclamada «de segunda geração», inaugurada em Faro no passado dia 3 com a presença do primeiro-ministro, as funcionárias estão proibidas de usarem em serviço blusas com decote, saias curtíssimas, vestuário de ganga, perfumes com uma fragrância agressiva, roupa interior preta, saltos altos e, claro, sapatilhas. Calculo que aos funcionários sejam prescritas também algumas normas, relacionadas com o tom da gravata, a sobriedade das peúgas, o risco ao lado no penteado e o uso obrigatório de pochette. E se o não são, deveriam sê-lo. Por motivos de «postura pessoal», seguindo o raciocínio avícola de uma tal D. Maria Pulquéria. O provincianismo corresponde sempre, por definição, a uma forma excessivamente mesquinha e tristonha de estar no mundo. Piora bastante quando se encontra associado a um bocadinho pequenino e bem guardadinho de autoridadezinha.

                                Adenda – Uma coisa vale a pena dizer ao ouvido de quem considere este episódio irrelevante ao ponto de não se justificar sequer que seja notícia: são gestos destes que nos lembram o que foi o «salazarismo real» e o que ele fez – e continua a fazer – às cabeças das pessoas. Muito mais grave e profundo do que os lances fugazes do caso Freeport.

                                A leitura de alguns blogues que abordaram o assunto trouxe também mais duas nuances. Uma refere-se ao sexismo boçal das considerações supostamente engraçadas sobre «os direitos dos utentes». A outra é o fétiche dos parvenus a respeito daquilo que insistem em chamar de «dress code». Que nada tem a ver com normas básicas de asseio e civismo, obviamente admissíveis e até desejáveis.

                                (Dizem-me que entretanto o pormenor da roupa interior preta foi desmentido. Muito bem, mas essa era a parte cómica. O resto fica tudo na mesma. Isto é, mal.)

                                  Apontamentos, Cidades, Olhares

                                  Falsos berberes

                                  Piratas

                                  Conhecia já, de leituras antigas, a relativa autonomia política, face aos regimes islâmicos, daqueles a quem a tradição histórica europeia chama desde há séculos de piratas berberes. Sensivelmente desde os finais do século XVI até por volta de 1830, a sua presença temível e destruidora fez-se sentir muito para além das costas do Norte de África, de onde partiam e onde se abrigavam. Portugal e os portugueses sentiram com regularidade os ataques e razias que sistematicamente praticavam, existindo notícias de incursões suas até na Irlanda, na Islândia e mesmo na Groenlândia. Tanto nas suas actividades marítimas quanto nas maneiras de viver quando em terra, estes piratas conservavam uma independência que se mostrou particularmente notável e duradoura na chamada república de Salé, situada já na região costeira atlântica, frente a Rabat. Em larga medida povoada por repatriados muçulmanos de Espanha, o que me surpreende é que, durante séculos, foi local eleito de refúgio para inúmeros europeus rebeldes convertidos ao Islão, os quais, de acordo com Peter Lamborn Wilson em Utopias Piratas, forneceram em larga medida o saber técnico e a iniciativa que permitiram aos «berberes» ir tão longe e com tanto êxito nas suas acções de pilhagem e devastação. A ser provada, eis uma revelação surpreendente: o tão temido «berbere» era afinal, numerosas vezes, muito mais vezes do que o suposto, um europeu converso ou em dissídio, que conhecia bem as águas que cruzava e os territórios aos quais se dirigia.

                                    História, Memória, Olhares

                                    Ó Pátria amada!

                                    Patriotismo

                                    Como resultado da uma incompreensível falta de concertação com o absolutamente vital candidato Moreira, o primeiro-ministro afirmou hoje que apoiará a recandidatura de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia mesmo que o Partido Socialista Europeu vença as próximas eleições. O patriotismo, declara en passant e cem citar autoria a página da Academia Militar, é isso mesmo, «o amor à pátria, reconhecer que somos mais solidários a uma parcela da humanidade, os nossos compatriotas». Este padrão de «socialismo democrático» com sete palmos de terra acima da cabeça, que se passeia, «realista» até ao tutano, pelas passadeiras lusas do poder continental, exprime a consagração desse nobre princípio.

                                      Atualidade, Olhares