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Os artistas, nós todos

Talking. Fotografia de Sébastien Tabuteaud

O cerco imposto pela «política do real», aquela que apenas atende aos dados objetivos, ao deve e ao haver, às necessidades materiais mais elementares, a metas quantitativas, é, entre os partidos da democracia, protagonizado agora pela quase totalidade do espetro político. À direita porque essa é a atitude natural, esquecidos que foram, levados pelo tempo, os impulsos do velho personalismo a propósito da «comunidade de pessoas», depois adotados pela defunta democracia cristã. À esquerda porque se desistiu de pensar uma política do impossível – indispensável para projetar a mudança – em favor do pragmatismo que apenas olha para o ritmo das refeições. Passo pelas palavras do Padre Manuel Antunes, publicadas em 1979 no seu notável Repensar Portugal, e revejo a premente necessidade de voltarmos a procurar naqueles que pensam de forma imprevisível – em confronto com as necessidades humanas, mesmo as mais íntimas e imateriais – o caminho da esperança e do futuro.

Que espécie de sociedade desejamos? Que espécie de sociedade deseja o povo português? Ouso interpretar. De resto é essa uma das funções, se não a principal função do intelectual na cidade. Para além, claro, da missão de defender o seu próprio ideal e as suas pró­prias opiniões, mesmo quando esse ideal e essas opi­niões não vão ao sabor dos senhores da hora. O intelectual não deve ter medo de ser ou parecer diferente dos outros, de querer escapar ao nivelamento univer­sal em que, por via de regra, esses mesmos senhores pretendem rasoirar os que, de uma certa forma, lhes estão sujeitos. Por isso, como avança Oskar Morgenstern, os governos fazem mal em só prestarem atenção aos dados sociais, económicos e técnicos dos mundos que administram. Deviam também consultar os artistas pela sua «extraordinária presciência» do que se passa ou vai passar na profundidade desses mesmos mundos.

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    Bibliocrime

    Existe quem defenda que roubar livros não é crime, uma vez que os bens culturais devem dispor de trânsito livre, universal e gratuito. Ressalvando os casos em que o ladrão tem em vista a raridade bibliográfica que pode seguramente valer uma boa maquia, trata-se de um produto do qual realmente só se apropria sem passar pela caixa registadora quem é um real connaisseur ou dele precisa mesmo. Rouba-se então pelo gosto, para alguns pela necessidade, de ler. Ou então pela compulsão bibliófaga. Rimbaud roubava livros, e Genet, como não podia deixar de ser, também o fazia. Sei de cidadãos, alguns de perfil público, que em dado momento das suas vidas, por aperto financeiro ou gosto do risco, se dedicaram com tenacidade e bom proveito a essa pequena mas nobre arte. Que fiquem descansados em relação aos efeitos casualmente perniciosos da minha memória, pois não sou delator. Além disso, e para ser sincero, não estou em condições de poder garantir não ter eu próprio sucumbido no passado à cobiça, deixando-me envolver – devido provavelmente às más companhias – no emocionante submundo da transgressão associada ao consumo de produtos brochados ou encadernados. (mais…)

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      Futebol e desencontros

      Como no amor, aconteceram, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. E nos anos quarenta Orwell marcou um encontro com Camus em Saint-Germain-des-Prés, mas como este se atrasou um pouco, aborreceu-se e foi-se embora. Conhecendo o percurso de ambos, as causas que partilharam, as marcas que deixaram, aquele poderia ter sido o princípio de um belo entendimento. (mais…)

        Apontamentos, Olhares

        Plano de fuga

        Não define a ausência
        o conhecimento da terra,
        a proximidade dos lírios, das
        estradas sem destino.
        Não conhecem roteiros a
        sabedoria do sol e o silvo
        dos insectos sem asas e cegos
        que procuram água.
        Não existe poesia sem
        conhecimento, saber sem sal,
        na vida diária feita de passos e
        de réstias e de perdas.
        Não sabem os trilhos dos mapas
        perdidos inventados
        ou da existência de um norte
        frio, férreo, inamovível.
        Não produzem os passos linhas
        e nós de navegação
        para que possamos desenhar
        um ótimo plano de fuga.

          Olhares, Poesia

          Girassol

          Nem bancos de lama,
          nem água negra e lodosa
          cheia de pinhas de amieiro e folhas corroídas.

          Nem salsa-brava no inverno
          canelas e pulsos velhos e esbranquiçados,
          com a sua sibilância, o seu tremor.

          Nem mesmo o verde vivo de uma sombra veranil
          densa com borboletas
          e cogumelos bojudos como uma sela de couro.

          Não. Mas antes, na quietude de um canto,
          agarrado ao seu muro ponteado a seixos,
          pesado, pendendo para a terra, todo boca e olhos,

          O girassol, num sonho cor de umbra.

          Seamus Heaney – fragmento de Trabalho de Campo
          (Trad. de Rui Carvalho Homem)

            Olhares, Poesia

            Ecos

            T. S. Eliot

            O tempo presente e o tempo passado
            Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
            E o tempo futuro contido no tempo passado.
            Se todo o tempo é eternamente presente
            Todo o tempo é irredimível.
            O que podia ter sido é uma abstracção
            Permanecendo possibilidade perpétua
            Apenas num mundo de especulação.
            O que podia ter sido e o que foi
            Tendem para um só fim, que é sempre presente.
            Ecoam passos na memória
            Ao longo do corredor que não seguimos
            Em direção à porta que nunca abrimos
            Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
            Assim, no teu espírito.
                                            Mas para quê
            Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
            Não sei.
                                     Outros ecos
            Habitam o jardim. Vamos segui-los?

            T. S. Eliot – Fragmento de Burnt Norton (Trad. Maria Amélia Neto)

              Olhares, Poesia

              Passado sem futuro

              Os invernos poderiam ter sido menos rigorosos, menos tristes as viagens de comboio, menos previsíveis os desfiles do Maio. Teríamos crescido a cruzar pacificamente as cidades dos irmãos Vesnine, a viver com os quadros de Altman, os poemas de Tsvetaeva e de Akhmatova, os compassos menos previsíveis de Chostakovitch. Aragon não teria cantado o cavalo metálico sob as chaminés poluentes de Magnetogorsk. Barbusse teria permanecido um desconhecido para os nossos avós. Eisenstein teria filmado grandes planos de gargalhadas e de mãos usadas em carícias. Ter-se-ia fundido menos bronze para robustecer as estátuas. Não teriam ressoado gritos nocturnos pelos corredores da Lubianka. Teria corrido menos gelo pelas almas e ter-se-ia notado mais ruído pelas ruas. E provavelmente o socialismo seria hoje uma expressão de humanidade tão calorosa e natural quanto o amor, a felicidade ou a compaixão. A desigualdade e a opressão, essas seriam palavras raras, apenas reconhecíveis em velhos romances e compêndios de História antiga. De facto, o futuro atrasou-se um pouco. Mas prometeu que virá.

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                Paraíso sobre os telhados

                Cesare Pavese
                Cesare Pavese

                Será um dia tranquilo, de luz fria
                como o sol que nasce ou que morre, e o vidro
                fechará por fora o ar sórdido.

                Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,
                na tepidez do último sono:
                a sombra será como a tepidez. Encherá o quarto
                pela grande janela um céu mais vasto.
                Da escada subida um dia para sempre
                não virão mais vozes nem rostos mortos.

                Não será preciso deixar a cama.
                Só a aurora entrará no quarto vazio.
                Bastará a janela para vestir cada coisa
                de uma claridade tranquila, quase uma luz.
                Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.
                As recordações serão coágulos de sombra
                calcados quais velhas brasas
                na chaminé. A recordação será a chama
                que ainda ontem picava nos olhos apagados.

                Cesare Pavese – De Paternidade
                (Trad. de Carlos Leite)

                  Olhares, Poesia

                  Laranja limão

                   

                  Confiando naquilo que Nathaniel Hawthorne contava de Charles Fourier em The Blithdale Romance, este acreditava que o fulgurante e inevitável progresso da humanidade rumo à perfeição faria com que um dia o mar passasse a saber a limão. O fascínio da imaginação utópica assenta em operações e convicções desta natureza, que auguram um futuro de absolutos, programados e construídos à imagem dos desejos e da indeterminada determinação de quem os projecta. Os obstáculos apenas surgem quando os fabricantes de utopias por medida fixam a exata percentagem do açúcar, do ácido cítrico e do sódio da água marítima. Condenando a um degredo sem regresso, os infames, todo o sabor a laranja.

                    Apontamentos, Olhares

                    Nómada

                     

                    Kenneth  White salienta, em O Espírito Nómada, a grandeza possível, infinita e insaciável, da viagem que resulta mais da atitude de quem a busca que do movimento de quem a cumpre.

                    Os nómadas não têm história, têm uma geografia e essa geografia, que tem lugar no «espaço plano» das estepes, escreve-se por meio de uma «linha criativa de fuga» caracterizada pela rapidez, uma rapidez «fora da lei», mas no fluxo, fora do âmbito da «máquina racional administrativa», seguindo as correntes de energia. (…) Não que seja em absoluto necessário passarmos todo o nosso tempo a viajar, como Frobenius, pelas estepes e pelos desertos. Deleuze, refina a sua ideia de nómada até ao paradoxo: «O nómada não é necessariamente alguém que se agita: há viagens no lugar, viagens em intensidade, e mesmo historicamente os nómadas não são aqueles que se movem à maneira de migrantes, pelo contrário, são aqueles que não se movem e que se põem a nomadizar para permanecerem no mesmo lugar escapando aos códigos.»

                      Apontamentos, Olhares, Recortes

                      A voz dos futuros

                      utopia

                      Em entrevista publicada no número de Julho-Agosto do Magazine Littéraire, o professor e filósofo francês Miguel Abensour chama a atenção para dois entendimentos negativos, tão enganadores quanto limitativos, que a propósito da ideia de utopia a partir dos anos oitenta se tornaram voz corrente tanto no campo da teoria política quanto junto da opinião pública. Abensour afirma ali que «é preciso colocar a utopia do lado do despertar, e não da ilusão». Neste sentido, tornado óbvio para quem conheça a história da ideia, não poderemos continuar a identificá-la com o logro e com a derrota, mas antes com a possibilidade de futuros plausíveis, que só a falta de imaginação e de coragem pode avaliar como irrealizáveis. Ao mesmo tempo, Abensour sublinha que «não foi a utopia a lançar as bases do totalitarismo, mas a dominação totalitária que fez o funeral da utopia», contrariando o juízo, também ele corrente, segundo o qual foi o excesso de esperança, a imaginação infinita e ingénua de paraísos construídos na Terra, a legitimar regimes que durante o século passado governaram através do terror e da ordem do silêncio. Duas afirmações, aparentemente elementares, que ao serem relembradas ajudam a reavaliar o papel criativo e libertador do exercício utópico enquanto método da reflexão política, instrumento programático e voz de todos os futuros.

                        Heterodoxias, Olhares

                        A aventura

                        Para a estética romântica, poesia e aventura não eram experiências puras, desinteressadas. Além do pormenor e da peripécia, ambas detinham um móbil, ambas visavam preencher um destino partilhado de uma forma passional mas razoável. Escrever ou pensar, escolher ou agir de outro modo, insinuava uma vontade de fuga, uma tentativa de escape, vista como algo de socialmente perigoso e por isso condenável. Só a partir das décadas finais do século XIX o desejo de tomar sem barreiras a indefinida direção da aventura deixou de ser tão insistentemente olhado com essa carga negativa. E só depois de Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, o desejo de ação sem outro objetivo que não o cumprimento de uma vontade indómita e de um imperativo inexplicável passou a guiar sem necessidade de justificação aqueles que escolheram o caminho da jornada insurrecta, da via errante. Sem norte seguro, sem clara intenção, sem absolutas certezas.

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                          O microdiploma

                          O diploma

                          Correndo o risco de insistir num assunto repisado, chamo a atenção para o parágrafo do Miguel Cardina que, no Arrastão, sublinhou três fatores importantes relacionados com a microlicenciatura do ministro Relvas: a desgraçada dimensão ética da mentirola aprontada pelo próprio sobre a sua formação académica; as ligações perigosas entre setores dos partidos do poder, certos negócios e determinadas instituições do ensino superior privado; o provincianismo traduzido na vontade de deter o título de «doutor» para se fazer respeitar entre as massas informes de fatos cinzentos. Junto-lhe um curto comentário sobre dois aspetos que têm sido tratados de maneira mais lateral mas merecem alguma atenção, transcendendo até o timing preciso deste episódio de vaudeville. (mais…)

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                            O louco da aldeia

                            Solidão

                            Discriminado pelo comportamento ou pela fala, em cada pequena comunidade é o «louco» quem anuncia as verdades que muitos reconhecem mas ninguém verbaliza fora do domínio do privado. Na aldeia, na pequena vila, na cidade provinciana, é fácil identificá-lo pela presença diária, pela estranheza do comportamento, pelo estatuto de marginalidade. Ele pode ser o doido, o beberrão, o velho que perdeu o tino, o pobre de pedir, o vagabundo, o sem-abrigo, a prostituta entrada na idade. No limite, pode também ser o poeta, o artista, ou aquele que aspira a sê-lo, principalmente se não detiver algum reconhecimento público. Se o tiver, caso raro, ganha então o estatuto de excêntrico, sinalizando uma promoção social.

                            Esses «loucos» eram particularmente visíveis em sociedades nas quais o Estado-Providência faltava ou falhava: em Portugal, antes da Revolução de Abril, quando os mecanismos de apoio social eram escassos ou nulos, era vê-los de manhã, esperando em grupo que as tascas abrissem, pedindo esmola nos adros das igrejas, deambulando pelas ruas para servirem de divertimento dos que se julgavam integrados e sãos de espírito. O jornal da terra erguia-os como figura local «típica», supostamente única, como vulto curioso, um pouco cómico e extravagante, a quem se deveriam dar uns trocos para que pudessem continuar a viver e deixassem os outros em paz. E quando enfim morriam, tinham reservado um parágrafo de obituário, que assinalava para memória futura, num último assomo de indignidade, o trilho de uma vida de desterro, desconsolo e abandono.

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                              Ai Angola!

                              Reprodução de um documento, disseminado através do Facebook, que justifica o maior eco possível. Testemunho tristemente exemplar do comportamento arbitrário do regime de Luanda. E afronta às longas décadas de luta de tantos angolanos pela democracia e pela independência do seu grande país.

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