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Wiesenthal e a Mossad

Wiesenthal em Auschwitz
Simon Wiesenthal em Auschwitz

Uma das mais remotas recordações que tenho da morte como algo bem mais forte, bem mais presente, do que uma mera abstracção, foi-me interposta pelo monitor da televisão. Tratava-se de uma reportagem sobre o julgamento e a execução em Israel de Adolf Eichmann, que então, corria o Maio de 1962, acabavam de acontecer. O SS-Obersturmbannführer fora um dos arquitectos da «solução final» e dos principais administradores do Holocausto, classificado por Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém, como humana expressão da «banalidade do mal». As imagens da câmara onde decorreu a sua execução, filmadas poucos minutos antes e após o enforcamento – a única execução civil da história penal de Israel, onde a pena de morte aplicada por tribunais não existe – impressionaram nessa altura muitas pessoas. E, tanto quanto consigo reconstituir uma experiência de criança, também me impressionaram bastante. Não apenas pela morte da pessoa em si, mas igualmente pelo cortejo de terror e de outras mortes, milhares, ou milhões, que simbolicamente ela transportava consigo. Nunca mais pude imaginar o trajecto final entre um qualquer «corredor da morte» e a execução definitiva do condenado sem rememorar aquelas imagens a preto e branco de um horror justiceiro.

Foi também aquela, creio, a primeira vez que ouvi falar de Simon Wiesenthal, o «caçador de nazis», judeu de origem ucraniana e antigo prisioneiro que sobreviveu a cinco campos de concentração e se tornou responsável, terminada a Guerra, pela localização e pela captura de Eichmann, tal como pela de muitos outros responsáveis pelos crimes gigantescos do nazismo. Deveu-se a ele, em grande parte, a primeira campanha sistemática de salvaguarda da memória da shoah através da identificação dos seus executantes, e um esforço tenaz, por ele também aplicado ao longo de décadas, para não a deixar cair no esquecimento e na irrelevância. Para muitas pessoas, a quem a justiça em relação à memória das vítimas do regime hitleriano e aos crimes dos seus carrascos ainda não tinha sido embotada por um anti-semitismo por vezes cego e acrítico, Wiesenthal tornou-se então uma espécie de super-herói vivo, incansável na sua «luta titânica», aparentemente solitária e mantida até à sua própria morte aos 97 anos, contra a omissão dos crimes dos nazis e pela averiguação do paradeiro dos seus mandatários ainda vivos.

Ora foi agora revelado, na biografia Wiesenthal – The Life and Legends, escrita pelo historiador e colunista israelita Tom Segev, com a aparente surpresa de alguns sectores, que a sua acção foi em larga medida financiada e protegida pela Mossad. Conhecendo-se o lugar histórico desta, na época da sua fundação, como agência de investigação aplicada na defesa do Estado de Israel, não vejo em que medida possa esta revelação aparecer, aos olhos de quem quer que seja, como estranha ou despropositada. A mim a ligação parece inevitável, quase natural, e, a bem dizer, na minha insciência de uma história detalhada da vida de Simon Wiesenthal, foi coisa que pensava já estar até reconhecida. Não percebo pois em que medida a revelação possa afectar o valor do seu importante trabalho justiceiro. Independentemente dos erros e atropelos que, como acontece com todos os trabalhos dessa natureza, possam ter ocorrido. Heróis perfeitos só na ficção, e mesmo aí convém não escavar muito fundo na caracterização dos personagens.

    Atualidade, História, Memória

    Por detrás do ícone

    Trotsky

    Fora do universo do «socialismo de Estado» e do marxismo mais imperativo, o perfil de Lev Davidovitch Bronstein, Trotsky, incluiu sempre os estigmas do herói e do mártir. A luta contra Estaline e o estalinismo concedeu-lhe desde cedo – e não apenas entre os seus seguidores – uma imagem pública de bolchevique «autêntico», que não traiu mas foi traído. Isaac Deutscher descreveu-o como o «rebelde par excellence», justamente para se referir às características que o transformaram, a partir de 1921, num crítico do regime que ajudara a estabelecer. Terá sido essa silhueta de «eterno revolucionário» a determinar o efeito internacional de sedução que projectou junto de sucessivas gerações de comunistas e outras pessoas da esquerda revolucionária desconformes em relação aos rostos do paradigma marxista-leninista. O papel decisivo na Revolução de Outubro e na criação do Exército Vermelho, a grande aptidão como orador, o valor literário dos seus escritos, associados a um estilo pessoal elaborado que o aproximava mais do intelectual do que do duro combatente maximalista, contribuíram também para fixar a representação encantadora do homem de letras dedicado a uma causa pela qual viria a dar a própria vida. Porém, nada disto seria suficiente para lhe assegurar a imortalidade. O passo definitivo foi dado pelo projecto político próprio, fundado na defesa de uma revolução permanente lançada à escala mundial contra a perspectiva do «socialismo num só país», e na percepção de uma «crise da direcção do proletariado» que tornava imprescindível um combate sem tréguas contra a degenerescência burocrática. A repressão brutal destas ideias e dos seus partidários, imposta por Estaline, acabaria por acentuar a noção de exemplaridade, de pureza revolucionária, mais tarde revigorada por biografias de pendor intensamente elogioso e hagiográfico como a de Deutscher, editada entre 1954 e 1963, e a de Pierre Broué, saída em 1988. (mais…)

      História, Memória

      Palavras que esclarecem

      as palavras

      Fora dos territórios controlados por regimes ou movimentos de inspiração autoritária, o direito de cada um a dizer aquilo que entenda é, em princípio, total. Como total é o direito dos outros a contradizê-lo, mesmo da forma mais frontal. Ou a responsabilizá-lo, se for preciso. Em democracia, o direito à palavra é inalienável, seja ela a do electricista, a da varina ou a do operador de guindastes. Isto aplica-se também, naturalmente, à recente polémica em redor das afirmações de António Lobo Antunes sobre a sua experiência da Guerra Colonial. Nelas o escritor referiu «factos» que declarou ter presenciado e que se traduziram em generalizações abusivas sobre o comportamento dos militares portugueses durante a Guerra Colonial. Nada do que Lobo Antunes contou se encontra provado, e nenhum outro testemunho, entre centenas de milhares de pessoas envolvidas no conflito, aflora sequer situações como aquelas que mencionou. Por isso, é muito natural que quem possua diferente perspectiva presencial da experiência da guerra se sinta incomodado pelos ecos de uma memória inventada e reaja com veemência. Podem fazê-lo outros ex-militares, antigos guerrilheiros, colonos de torna-viagem, jornalistas, historiadores e cidadãos informados. No que me toca, posso dizer que jamais me constou que pudessem ter ocorrido, de forma sistemática, apelos institucionais declarados à prática da chacina ou da tortura pelos soldados portugueses, embora, evidentemente, estas tenham acontecido em alguns momentos. Por isso, não tenho dúvida alguma em afirmar que o que Lobo Antunes referiu como experiência corresponde, no máximo, a situações pontuais a partir das quais fez generalizações desajustadas.

      Mas a reacção de uns quantos militares portugueses, com maiores ou menores responsabilidades na condução da Guerra em África, é completamente desproporcionada e absurda, digna apenas de quem desconhece a essência da diferença de perspectiva e do direito à livre expressão próprios das sociedades democráticas. Ameaçar dar «um par de murros em público» ou «ir ao focinho» do escritor – a quem chamam aliás «bandalho» e… «atrasado mental» –, é, para além da bravata recorrente nos códigos de conduta de muitas dessas pessoas, algo de inaceitável e que configura um apelo à violência e mesmo ao crime. Alguém deveria explicá-lo a estes cidadãos, que no passado se limitaram a acatar ordens e, em muitos casos, a pactuar, activamente ou pelo silêncio, com uma guerra injusta que insistem em conservar «limpa». O coronel Carlos Matos Gomes, que escreve romances sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz e não faz parte deste grupo, lembrou a propósito: «Há sempre uns patrioteiros que surgem assim no final destas coisas e penso que será também um sinónimo de senilidade. Penso que não faz sentido algum, nem da parte do Lobo Antunes, como ex-combatente, nem da parte destes militares». Juntando, com algum sentido crítico, que «na patetice estão bem uns para os outros». Realmente, a resposta de António Lobo Antunes, dizendo não ter «medo do confronto físico», e estar até em estado de prontidão para um eventual encontro cara a cara com os militares ressabiados, não ajuda muito e é desnecessária. A democracia não se funda na força dos punhos mas na energia das palavras que esclarecem. E isto aplica-se também a militares e a escritores.

        Atualidade, História, Memória

        A morte de Peter F.

        Peter F

        Completam-se hoje 48 anos sobre o assassinato de Peter Fechter, o primeiro cidadão de Berlim-Leste que tentou passar o Muro para o lado ocidental e foi impedido de o fazer pelo «argumento» das balas. Lembram-se aqui as circunstâncias e os factos.

        Um estado de «alerta reforçado» foi instituído entre as tropas fronteiriças, em 13 e 14 de Agosto de 1962. No próprio dia 13, houve varias reuniões políticas em Berlim Ocidental, acompanhadas de ruidosos e por vezes violentos protestos de grupos, fundamentalmente constituídos por jovens, de cerca de 1500 «desordeiros» (como os alemães de leste sempre se referiam aos manifestantes ocidentais). A polícia de Berlim Ocidental recebeu ordens para não deixar esses grupos aproximarem-se a mais de uns 20 metros da fronteira. E nenhuma das manifestações se descontrolou verdadeiramente.

        A verdadeira crise viria a surgir quatro dias mais tarde, a 17 de Agosto.

        Peter Fechter, de 18 anos de idade, pertencia a um círculo de adolescentes rebeldes do Leste que tinham decidido formar um grande grupo de fuga para o Ocidente. Mas, previsivelmente, à medida que o dia combinado se foi aproximando quase todos perderam a coragem e desistiram, ficando apenas Fechter e um amigo.

        Tendo conseguido iludir a vigilância dos guardas que patrulhavam a zona restrita por detrás da fronteira do sector, os dois jovens acabaram por se esconder, ao início da tarde de 17 de Agosto, num edifício abandonado junto ao Muro, o qual era agora uma barreira ou um conjunto de barreiras bastante mais temíveis do que haviam sido um ano antes. Do dito edifício avistavam o Checkpoint Charlie, o famoso posto fronteiriço norte-americano.

        Reunindo toda a sua coragem, lá acabaram por deixar o abrigo e iniciar a muitíssimo arriscada corrida. Quando ultrapassaram a primeira barreira de arame farpado no lado leste, indo o amigo a frente e Fechter uns dois ou três metros mais atrás, os guardas fronteiriços abriram fogo com as suas armas automáticas, a uma distância de cerca de 50 metros. Eles continuaram a correr. O amigo chegou ao muro de dois metros e meio que marcava a fronteira com o sector norte-americano e conseguiu trepar e saltar para o outro lado, com balas a baterem no cimento, a poucos centímetros do seu corpo. Chegou, assim, a Berlim Ocidental, apenas com alguns ferimentos superficiais.

        Mas Peter Fechter não teve tanta sorte.

        Enquanto tentava seguir o amigo, subindo a ultima barreira, foi atingido numa perna e deixou-se cair para a terra de ninguém, onde ficou, a gemer e a pedir ajuda, a princípio em altos gritos e depois numa voz cada vez mais fraca e desesperada.

        A bala tinha-lhe rasgado uma artéria da perna. Uma perturbadora fotografia mostra o jovem caído, meio morto, com os seus jeans apertados e a franja à moda da época ainda intacta, imóvel e com o sangue e a vida a esvaírem-se-lhe para o chão.

        Imediatamente se juntou uma multidão furiosa de berlinenses ocidentais. E, entretanto, ninguém do Leste nem do Ocidente acudia ao fugitivo ferido. Os alemães de leste diriam mais tarde que, com as mortes dos soldados Göring e Huhn ainda frescas na memória receavam ser alvejados por gente mais exaltada do lado ocidental Ao mesmo tempo que a policia ocidental tinha ordens rigorosas para não entrar em solo da Alemanha de Leste.

        Os soldados norteamericanos do Checkpoint Charlie também não fizeram nada. Disse-se até que um deles encolheu os ombros disse: «Não é nada connosco». Esse suposto comentário seria imensamente citado e estaria na origem de um antiamericanismo crescente em Berlim Ocidental e na Alemanha Ocidental.

        Peter Fechter estava inconsciente e talvez até já estivesse morto quando um oficial superior da Alemanha de Leste chegou e incentivou os guardas a entrarem em acção e a levarem o jovem em braços do local. Foi feita uma tentativa gorada para ocultar a operação dos observadores ocidentais, através de uma cortina de fumo. Uma outra fotografia, tirada a partir do lado ocidental, mostra um soldado da Alemanha de Leste que fazia parte do pequeno cortejo furtivo a olhar para a lente da máquina fotográfica ocidental, revelando a sua face uma estranha mistura de medo, vergonha e desafio. Peter Fechter foi declarado morto à chegada ao hospital da polícia, alguns minutos mais tarde. Passara-se cerca de uma hora desde que tinha sido atingido. O comandante da patrulha e dois dos seus homens receberam um bónus pelo feito.

        in Frederick Taylor. O Muro de Berlim. 13 de Agosto de 1961 – 9 de Novembro de 1989. Lisboa: Tinta-da-China (2007). Trad. de Francisco Mano. 582 págs.

          Democracia, História, Memória

          Recordando Tony Judt

          Tony Judt

          Afectado desde 2008 pelo mal de Gehrig, uma doença neurodegenerativa incurável que enfrentou com a maior coragem, Tony Judt morreu hoje aos 62 anos. Foi um dos grandes historiadores da contemporaneidade. É, e permanecerá, um dos meus favoritos, cuja leitura tenho recomendado repetidamente em aulas e intervenções como ferramenta de conhecimento e exemplo do modo como a interpretação do passado nos pode ajudar a armar a cidadania. Se tivesse de o associar forçosamente a um campo do saber, classificá-lo-ia como historiador das ideias e dos intelectuais, habitante desse território da História, hoje relativamente pouco povoado mas essencial, que estuda de forma sistemática a expressão, a preservação e a mudança dos modos de representar o mundo no domínio do pensamento individual e das convicções partilhadas.

          Em Portugal foram traduzidos dois livros de Judt, ambos por iniciativa das Edições 70: Pós-Guerra. História da Europa desde 1945 (Postwar. A History of Europe Since 1945, de 2005) e O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias (Reappraisals. Reflections on the Forgotten Twentieth Century, de 2008). Se o primeiro é um relato exaustivo e monumental das transformações operadas no Velho Continente, e na sua relação com o resto do mundo, desde o final da Segunda Guerra Mundial até à actualidade, o segundo integra uma colectânea de escritos – inicialmente editados em publicações como a New York Review of Books – que projecta um esforço pessoal de regresso a formas de pensamento e de activismo social que têm sido esquecidas, desarmando o presente para um debate público substantivo e empurrando para o esquecimento temas tão centrais no trajecto humano como os desafios do mal, as sequelas da Guerra Fria ou a memória do marxismo. Estão por traduzir – e aqui fica a sugestão – outros três livros essenciais para compreender a intervenção do historiador inglês: Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956 (1992), The Burden of Responsability. Blum, Camus, Aron and the French Twentieth Century (1998), e Ill Fares the Land, de 2010, este, já na impossibilidade de escrever, ditado por Judt, e que funciona como uma espécie de testamento político. Construído, como sempre, sob a perspectiva de quem observa o mundo como um continuum em perpétuo movimento, no qual passado, presente e futuro participam de um mesmo corpo.

          Em O Século XX Esquecido, Judt escreveu: «o que o passado pode realmente ajudar-nos a compreender é a complexidade das perguntas». Uma sugestão que nos ajudará a retirar a História dessa teia de pseudo-certezas que apenas tem contribuído para lhe diminuir o interesse público, transformando-a tantas vezes nesse território rançoso no qual repousa um passado que serve apenas para contemplar ou para comemorar. História viva, como Judt nos ajudou a perceber, é obrigatoriamente, e sempre, questionamento a partir do presente. Num movimento de vaivém que é, justamente, aquele que a devolve à vida.

          Ler aqui o obituário do New York Times

            História, Memória, Olhares

            Nós em números

            ai portugal portugal

            Quem pretenda reduzir em menos de cinco minutos à completa insignificância os comentários dos sobreviventes do antigamente, ou das criaturas dos pós-Abril que não sabem do que falam, sobre como era digna e «melhor» a vida no Portugal de Salazar e Caetano, deve ter por perto um pequeno livro que chegou há pouco às livrarias. Refiro-me a Portugal: os Números, de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas, uma edição de capa dura da Fundação Francisco Manuel dos Santos à venda por apenas 5 euros. Começa assim:

            «Se por algum exercício de ficção os portugueses de hoje acordassem no ambiente do início dos anos 60, sobretudo junto ao litoral e nas grandes zonas urbanas, sentir-se-iam bastante desconfortáveis e, por certo, com uma enorme estranheza em relação a tudo o que acontecia em seu redor. Era o seu País – mas irreconhecível.»

            O livro fornece números, mas apenas os essenciais. Existem dados mais completos disponíveis noutros locais e o objectivo dos autores não é repeti-los, mas sim «descortinar tendências globais da sociedade portuguesa». Aquilo que deixam à vista em pouco mais de 100 páginas é, de facto, um país radicalmente outro, incomparavelmente melhor e mais feliz. E um movimento de mudança que em menos de cinquenta anos – ou de quarenta dado o facto da maioria das transformações ter ocorrido já após o 25 de Abril – o transfigurou. Os dados reportam-se à evolução demográfica (incluindo a emigração e a imigração), ao crescimento do Estado social (com destaque para as alterações no campo da educação, do conhecimento, da cultura, da saúde e de protecção social), à evolução do trabalho e dos rendimentos, às alterações no campo da justiça, às novas tendências no domínio da família e dos modos de vida.

            Alguns dados são particularmente esmagadores: entre 1960 e 2008 a permilagem da taxa de mortalidade infantil desceu de 77,5 (a pior entre os 27 países da actual União Europeia) para 3,3 (a sexta mais baixa); a esperança de vida subiu dos 60,7 e 66,4 (homens e mulheres) para 75,5 e 81,7; entre 1972 e 2008 o orçamento do Estado para as funções sociais passou de 1,9% do PIB para 16,4%; a população com 15 ou mais anos sem escolaridade passou de 65,6% em 1960 para 9,2% em 2001; o ensino médio e superior subiu em flecha; entre 1960 e 2003 o número de livros nas bibliotecas públicas passou de 5,4 milhões para 32,2 milhões, tendo estas passado de 89 para 1.018; sensivelmente pelos mesmos anos o número de museus subiu de 96 para 300; os médicos e enfermeiros de 188 para cerca de 900 por cada 100.000 habitantes; os pensionistas da segurança social passaram de 120 mil para quase 3 milhões; o público de espectáculos ao vivo subiu de 161 mil em 1960 para mais de 6 milhões em 2008.

            Claro que muitas assimetrias e problemas se mantêm, sobretudo no plano dos rendimentos e da igualdade entre homens e mulheres, e nem todos os factores apresentados podem ser considerados necessariamente positivos – por curiosidade e sem qualquer juízo de valor, a percentagem de divórcios aumentou de 1,1 por cada 100 casamentos, em 1960, para os actuais 61%, enquanto os casamentos foram reduzidos a metade –, mas não existe comparação possível e, por isso, possibilidade alguma de pactuar com a mistificação lançada pelos vultos que habitam as sombras ou pelos seus ignaros herdeiros.

              Atualidade, História, Memória, Olhares

              Mrs. Peel

              Mrs. Peel

              Diana Rigg faz hoje 72 anos. Nunca foi uma star, nove em cada dez, das que entravam em banheiras cheias de espuma para anunciarem o sabonete Lux, mas a partir de certa altura foi Emma Peel, a companheira pró-activa e multitarefas do agente John Steed na série de televisão The Avengers, Os Vingadores, rodada entre 1961 e 1969. Steed era um agente do MI6 com aspecto de inglês «típico»: chapéu de coco, fraque sem ruga, um inseparável guarda-chuva muito bem enrolado e a omnipresente dose de fleuma. Já Mrs. Peel destoava da tradicional ajudante, sedutora, um tanto tola e absolutamente secundária na trama das outras séries. Pelo contrário, o trabalho pesado – socos, cabeçadas, fugas impossíveis, activação de engenhos explosivos e uns quantos tiros bem aplicados – ficava sempre por conta da agente em roupa futurista de cabedal negro, dotada de vastos conhecimentos de karaté e praticante de elevado nível de boxe tailandês. Aqui residia, aliás, o ineditismo da série, a sua marca caracteristicamente sixtie e vagamente feminista (Barbarella, a série de BD e o filme de culto, foram contemporâneos dos Vingadores). Talvez por isto a série de televisão se tenha tornado rapidamente popular. Diana Rigg foi também uma fugaz «Bond girl» e a madrasta má numa versão da Branca de Neve, mas será para sempre a intrépida – e  por isso singularmente sexy – Mrs. Peel.

              Duas adendas em vídeo: Mrs. Emma Peel + Emma Peel in tight leather catsuit…

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                Memória de um coxo

                sapatos

                Nas últimas noites tenho encerrado a jornada lendo algumas páginas da colectânea de crónicas de Manuel António Pina que acaba de sair (Por outras palavras, edição da Modo de Ler). A maioria delas já eu tinha lido, no exacto lugar ao qual foram originalmente destinadas. Sou, aliás, leitor contumaz de tudo aquilo que o escritor escreve, sempre na tentativa gorada de encontrar uma palavra, um juízo, uma atitude que me desgoste, que ache deslocada, ou da qual me sinta suficientemente distanciado para poder testar a vontade física, que mantenho desde que me conheço e já me apontaram (provavelmente com razão) como doentia, de descobrir defeitos na perfeição. Será, por isso, escusado dizer que recomendo, e muito, estas trezentas e tal páginas, garantindo que, se sinto os olhos a fecharem ao fim de uma dúzia delas, é só porque geralmente já passa das três da manhã.

                Este post não é, porém, sobre o livro de Manuel António Pina. É sobre uma sua evocação, nele contida, que me tocou de repente a memória. Lembra Pina, numa crónica de 2003, a propósito de um encontro breve mas inesquecível com o poeta Ruy Belo, uma manifestação estudantil na Baixa do Porto «contra a Queima das Fitas». Não sei o que pensará hoje a maioria dos estudantes universitários de tal evocação e da importância que ela teve para um certo padrão de resistência ao velho Estado Novo. Admito que seja algo de estranho. Como alguém contar que um dia vibrou com os golos de Figueiredo ou que a sua primeira erecção oficial foi instigada por um fotograma de Silvana Mangano em Riso Amaro. Mas posso garantir que não se trata de sinal de confusão da memória: participei em Maio de 1972, mais a sul, numa manifestação contra uma tentativa de reposição da Queima das Fitas por parte de uns quantos cidadãos próximos da direita extrema. Como poderia esquecer-me se nessa tarde, ao fugir da polícia que carregava sobre os estudantes, perdi um sapato e tive de regressar a casa por becos ínvios, procurando esconder o melhor que podia aquela propensão súbita para coxear um pouco?

                  Memória

                  Problemática albanesa

                  Hoxha

                  Depois do post anterior sobre Ismail Kadaré e (um pouco) sobre o seu último livro, retorno à problemática albanesa, uma vez que esta não me sai da cabeça. Não por ser problemática, mas por ser albanesa. Acontece que sempre me pareceu profundamente injusta a menorização – por comparação com o impacto do exemplo chinês – da influência do «país das águias» na projecção, à gauche do PCP, de uma alternativa ao regime caduco do «Salazar que ri», como alcunhava o povo a Marcello Caetano. Mas a verdade é que para muitos marxistas-leninistas-maoístas, esvaziada por uma vez a Grande Revolução Cultural chinesa, Enver Hoxha é que estava a dar. E se ninguém se proclamava hoxhista era só porque a palavra soava mal e podia prestar-se a confusões pouco conciliáveis (ou talvez não) com a moral proletária. Muitas horas de nocturno descanso foram consumidas a ouvir a onda curta, vociferada em português do Brasil, que começava assim: «Aqui Rádio Tirana, voz do Partido do Trabalho da Albânia e do marxismo-leninismo, a sua doutrina sempre jovem e científica». Ao que se seguia invariavelmente uma versão bastante singular da Internacional, umas frases do camarada Hoxha «sobre a situação política mundial», as últimas novidades da guerrilha do Araguaia e 15 minutos de música folclórica do distrito de Gramsh, província de Elbasan.

                  No que me toca, a problemática albanesa teve ainda um outro impacto, associado a um certo virar de página. Em Abril de 1977 veio a Portugal uma delegação do Partido do Trabalho da Albânia – episódio já mencionado pela Ana Cristina Leonardo na sua Pastelaria –, destinada a ornamentar o primeiro comício público do PCP(R). Num último assomo de convicção pessoal na força da tal «doutrina sempre jovem e científica», ainda fui de camioneta até ao comício no Campo Pequeno para saudar os camaradas albaneses. O momento parecia festivo: muitas bandeiras vermelhas, faixas com palavras de ordem como «os ricos que paguem a crise» e «abaixo a democracia burguesa», música do GAC, julgo que também alguns retratos de Estaline, de Mao e do camarada Hoxha. Mas a festa esmoreceu rapidamente com a entrada em cena da delegação albanesa: um pequeno grupo de idosos de rosto impassível, com chapéus à Al Capone, lenços de Cachemira impecavelmente dobrados no pescoço à maneira dos galãs dos anos 40, e enormes sobretudos cinzentos a contrastarem com o sol de Abril, que conservavam abotoados enquanto batiam palmas daquela forma compassada e aborrecida que podemos observar agora no You Tube. Uma viagem no tempo em forma de pesadelo. E nós que tanto desejáramos encontrar antigos guerrilheiros de porte enérgico e uniforme de partisan, se possível de cartucheira a tiracolo, prontos a esmagar «o imperialismo e o social-imperialismo», empenhados em dar-nos a força da qual tanto precisávamos para resistir à longa ressaca do 25 de Novembro! Creio que o meu entusiasmo esmoreceu logo ali um bom pedaço. E meses depois tinha-me convertido num «independente de esquerda» um tanto problemático. Graças, em parte, à falta de graça dos camaradas albaneses. A juventude não perdoa. Na época dir-me-iam que a «ideologia de classe» também não.

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                    O viajante albanês

                    Ismail Kadaré

                    Ler romancistas russos, ainda que estes tivessem escrito e publicado na era pré-soviética, já foi neste canto da Europa um acto de resistência. Não parece ter sido possível, mas a verdade é que aos catorze anos devorava Turgueniev, Gogol, Dostoievski ou Tolstoi no convencimento de ler autores proibidos. Ou pelo menos perigosos. Apesar do mais novo de todos eles, precisamente o autor de Guerra e Paz, ter morrido em 1910, quando Lenine ainda passava temporadas a transportar a bagagem e os apontamentos entre Paris e Praga. Algum tempo depois vivi algo parecido com Ismail Kadaré, o mais conhecido escritor albanês.

                    Na minha ignorância, pelos meados dos anos setenta li o seu primeiro romance, O General do Exército Morto (de 1963; traduzido para o francês em 1970), convicto de estar a fazer um merecido favor aos interesses do país do camarada Enver Hoxha, que à época tomava por uma águia. Justamente, soube-o só bastantes anos depois, quando Kadaré tentava conciliar a sua obra, nada subversiva mas também nada conformada aos cânones do realismo socialista, com a capacidade que o regime tinha de a tolerar. O escritor recordava-o há meses ao Nouvel Observateur: «Se você fosse reconhecido, tornava-se uma figura hostil. Porque era senhor num reino, o da literatura, que não era aceitável por um regime autoritário. Você era como um contrapoder que era preciso destruir. Ou então perdia a sua autoridade tornando-se um escritor ridículo, servil, e nesse caso o poder aceitava-o». Aquilo que Kadaré a dado momento fez, como ele próprio reconhece, foi de certo modo degradar-se, tentando demonstrar ao Estado que dele nada tinha a temer. Em retribuição, o governo deixava-o levar uma vida dúplice, passeando pelo mundo a sua reputação de escritor de talento, mas regressando regularmente à sua «vida estalinista» decorrida entre Tirana e a Gjirokastër natal.

                    Em 1990 fartou-se, refugiando-se em França antes ainda do socialismo albanês colapsar. Regressou apenas em 1999. Acusado algumas vezes de ter colaborado com as manobras dos seus compatriotas estalinistas, defendeu-se afirmando, noutra entrevista, que «a dissidência era uma atitude que ninguém podia tomar, ainda que por apenas alguns dias, sem correr o risco de enfrentar um pelotão de fuzilamento», mas considerando, apesar disso, que os seus livros tinham constituído «uma forma muito óbvia de resistência». Sem conhecer o suficiente da vida, da obra e sobretudo das atitudes cívicas de Kadaré para poder ter uma qualquer certeza a este respeito, uma coisa posso, todavia, garantir: que o seu último romance, Um Jantar a Mais, agora editado pela Quetzal, tem a forma de um claríssimo e tragicómico libelo contra o lado perverso do regime de «democracia popular» sob o qual teve de viver a maior parte da vida. Evocando o seu rosto intolerante, violento, persecutório, contra o qual, agora em liberdade, se afirma agora sem margem para dúvidas. Um belo pequeno romance, já agora. Como seria de esperar – embora estas coisas precisem sempre de confirmação – de alguém com o longo e reconhecido trajecto literário do autor. [Ismail Kadaré, Um Jantar a Mais. Quetzal. Trad. de Ana Cristina Leonardo. 176 págs.]

                    «A entrada em cena de dois juízes incumbidos do inqué­rito cortou rente a vaga de especulações. Chamavam-se Shaqo Mezini e Arian Ciu, ambos naturais da cidade e regressados de fresco de Moscovo, onde tinham acabado de se diplomar pela Escola de Administração Interna Dzerjinski. Os seus ros­tos eram pálidos, o nó da gravata bem apertado, os sobretudos estranhamente compridos (dizia-se que o chefe da polícia secreta de quem a escola moscovita herdara o nome usava um capote do género, atribuindo-se-lhe também estas proverbiais palavras: o comprimento do vosso capote será inversamente proporcional à vossa piedade…).»

                      História, Memória, Olhares

                      Lembrar Terezín

                      Terezín

                      Em Terezín, uma localidade checa que cresceu à volta de uma fortaleza mandada construir a 60 quilómetros de Praga, em 1780, pelo imperador José II, Hitler fez erguer «uma cidade para judeus» que pretendia modelar. O seu objectivo continha uma dupla face: por um lado, a cidade servia para mostrar, às autoridades dos países neutrais ou a alguns aliados dos nazis que pudessem mostrar-se mais sensíveis às primeiras informações sobre a natureza da Solução Final, a forma como os judeus viviam bem sob a protecção de um «benevolente» Terceiro Reich; por outro, permitia a concentração de mão-de-obra particularmente qualificada, uma vez que os judeus destinados a habitar a cidade, agora baptizada Theresienstadt, eram em regra pessoas com uma formação superior. Muitos deles eram músicos, actores, artistas, escritores, jornalistas, ou membros destacados de organizações políticas entretanto ilegalizadas. Logo, pessoas perigosas mas «apresentáveis» e temporariamente úteis. (mais…)

                        Democracia, História, Memória

                        Os pequenos lusitos e os seus netinhos

                        viarco

                        Ia falar a propósito disto. Eis senão quando isto me tirou as palavras da boca. Convém pois não confundir representação com apologia. E não podem existir passados-tabú. Devemos sempre, sem dúvida, permanecer atentos aos processos de branqueamento de Oliveira Salazar e do salazarismo, mas o Estado Novo aconteceu e a sua evocação não pode nem deve permanecer circunscrita aos estudos históricos, aos congressos académicos e à memória selectiva daqueles que perseguiu. Isso sim, pode fazer crer às gerações mais recentes que «o fascismo nunca existiu», que não passa de uma fábula às voltas nas cabeças de uns quantos. Digo-o eu, que já cantei diariamente o Hino dos Lusitos – «Somos pequenos lusitos / mas já firmes e leais / amamos e respeitamos / nossos chefes, nossos pais» – e desenhei casinhas modestas e lindos campos de flores com lápis Viarco. Sem grandes danos colaterais, julgo.

                          Atualidade, História, Memória

                          Sete fôlegos e uma memória

                          Álvaro Cunhal

                          O livro de Carlos Brito sobre os mais de trinta anos ao longo dos quais manteve um convívio muito próximo com Álvaro Cunhal encontra numa frase costumeira do antigo secretário-geral do Partido Comunista Português – «no Partido não há amigos, somos todos camaradas» – um sinal do seu valor mas também dos seus inevitáveis limites. O essencial da obra comporta um relato histórico bastante pormenorizado da evolução táctica e estratégica do PCP sensivelmente entre 1966 e 1999, tendo Cunhal como principal intérprete e o autor como participante e testemunha em lugar privilegiado. É aqui que Carlos Brito vai detectando os «sete fôlegos revolucionários», os sete momentos de decisiva e construtora intervenção teórica do seu camarada de tantos anos, fornecendo alguns dados preciosos para uma percepção complexa da actividade dos comunistas durante os últimos tempos do Estado Novo, ao longo do biénio revolucionário de 1974-1975 e na fase de fixação da democracia parlamentar. Trata-se, naturalmente, de uma observação obrigatoriamente parcial, mais centrada numa leitura subjectiva dos acontecimentos do que numa análise comparativa de posições, que diferentes testemunhos poderão contestar ou corroborar. Mas trata-se também de um olhar em primeira mão, e por isso excepcionalmente rico, embora em alguns momentos, como seria natural após tantos anos de militância em cargos de responsabilidade partidária, o autor não saiba furtar-se à consabida «língua de pau» da ortodoxia, factor sempre impeditivo de uma perspectiva analítica mais ousada e, neste caso, também de uma leitura ainda mais agradável. É esta, essencialmente, a abordagem do «camarada», aquela que mais interessante se pode tornar do ponto de vista histórico. Já a perspectiva intimista revela-se demasiado contida e marcada por uma exposição continuada ao magnetismo único de Cunhal que não parece ter sido esbatida pelas crescentes divergências vividas nos últimos anos de mútua relação. Naturalmente, do conjunto destacam-se os contornos extraordinários desse «camarada Álvaro» – na sua personalidade rara, nas suas convicções e na sua combatividade, tal como nos recorrentes tiques e inevitáveis fraquezas – que conquistou a pulso um lugar ímpar na história do século vinte português. Voltarei mais adiante a este livro. [Carlos Brito, Álvaro Cunhal – Sete fôlegos do combatente. Nelson de Matos, 384 págs.]

                            História, Memória

                            Dennis

                            Morreu hoje o Dennis Hopper (1936-2010). O Goon de Rebel Without a Cause (meninos jornalistas, em Portugal chamou-se Fúria de Viver, no Brasil Juventude Transviada). O fotojornalista do Apocalypse Now. O pai de Mickey Rourke em Rumble Fish. O Frank Booth de Blue Velvet. Mas para mim, principalmente, o Billy de Easy Rider. Em cima daquela mota, por interposta pessoa, vislumbrei um dia outra vida. Quanto à vida dele parece que Dennis passou por ela muito bem, obrigado. Intensamente, como é preciso.

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                              Apontamentos, Cinema, Memória

                              Pequenos pequenos nadas

                              Brel e Gitanes

                              Depois do anterior post sobre o desaparecimento dos cigarros Gitanes do mercado, recebi uma dezena de mails sobre o assunto. Chegaram todos de pessoas que não conheço do mundo material, nem elas a mim, com as quais jamais me cruzei, mas que se aproximaram na tristeza solidária e na revolta por verem desaparecer esse momento especial que era ao mesmo tempo um hábito e um ritual. Agora eclipsado por troca com sensaboria normalizada de um tabaco claro e sem alma. Num dos mails recebidos evocava-se um aspecto crucial que me escapara no post: «aquela sensação de ter um Gitanes no meio dos dedos, dada a sua espessura única». É realmente verdade que essa ausência pesa também: aquele milímetro a mais de circunferência, suficiente para conferir ao momento uma robustez que se impunha na experiência do fumador e na forma como este concebia o seu lugar social, vincando a margem de diferença em relação aos vulgares consumidores de tabaco light. E como são importantes para nós, certas vezes, estes pequenos pequenos nadas.

                              Jacques Brel, fumeur de Gitanes – J’en appelle
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                                O PCP e a deserção

                                Guerra Colonial

                                Por causa da escusada tirada de Manuel Alegre sobre a sua honradez militar, voltou a discutir-se o papel da deserção e dos desertores na resistência ao regime salazar-marcelista e à Guerra Colonial. A posição da chamada esquerda radical é conhecida e, com ténues variantes, traduziu-se na recusa completa ao embarque para África. Já a do Partido Comunista Português foi menos linear. Politicamente coerente com a linha unitária do partido, em última instância ela remetia – e há notícias de que tal realmente aconteceu – para situações pessoais muito complexas. Compreender-se-á o que quero dizer pela leitura deste post. Fica aqui um fragmento da minha intervenção sobre o tema («As esquerdas e a oposição à Guerra Colonial») no II Congresso sobre a Guerra Colonial que decorreu em 2001 no Seixal, com organização da Universidade Aberta. Tem pois cerca de dez anos e já foi completado por investigação posterior, mas no essencial mantém-se actual. Retirei as notas e cortei partes que aqui são menos relevantes. O post é longo e num registo algo académico inabitual neste meio, mas vale a pena evocar estes episódios para diluir mal-entendidos.

                                (mais…)

                                  História, Memória