Arquivo de Categorias: Memória

Nadeau vezes cem

Maurice Nadeau

Maurice Nadeau está quase a fazer cem anos. Parisiense de quatro costados, filho de um merceeiro morto na batalha de Verdun, antigo militante do PCF tornado trotskista, foi e continua a ser muitas coisas, quase sempre ao mesmo tempo: professor, escritor, crítico literário, director de colecções e de revistas, militante, e, talvez acima de tudo, editor. Foi próximo de Benjamin Péret e de André Breton – com quem viria a romper em 1945 após publicar uma Histoire du Surrréalisme da qual o poeta não gostou – e depois responsável pela página literária do Combat, o jornal da Resistência dirigido por Albert Camus. Fundou e ainda dirige o bimensário La Quinzaine Littéraire. Descobriu e acompanhou os primeiros movimentos na edição de Céline, Dagerman, Bataille, Barthes, Michaux, Miller, Sciascia, Quenaeau, Gombrowicz, Koestler, Perec, Leiris… Chega? Só lamenta, diz ainda hoje, ter um dia recusado… Samuel Beckett. Quando olhamos trajectos destes corremos sempre o risco de nos tomarmos por pessoas pouco úteis e com uma vida um tanto ou quanto aborrecida.

    Memória

    De la Rovere em Madrid

    De la Rovere

    Adolfo Suárez

    Segundo o seu autor, este livro é o testemunho de um fracasso. Mas será melhor não o tomarmos demasiado a sério. Acontece apenas que Anatomia de um instante foi concebido como um romance e acabou por não o poder ser. Javier Cercas percebeu-o de imediato quando começou a recolher dados sobre o acontecimento que resolvera ficcionar e se viu confrontado com um volume surpreendente de informação. Percebendo que nessas condições seria um enorme desperdício abordar o tema na perspectiva da pura construção romanesca, decidiu reorientá-lo para o campo do ensaio. E assim apareceu esta aliciante história do dia 23 de Fevereiro de 1981, quando, como parte de uma conjura militar contra a «transição democrática», um destacamento da Guardia Civil espanhola, comandado pelo teatral tenente-coronel Tejero Molina, ocupou pelas armas o Congresso dos Deputados. Sequestrando-os a todos, bem como ao executivo, que ali se encontrava presente para a tomada de posse de Leopoldo Calvo Sotelo, o sucessor de Adolfo Suárez na presidência do governo. Gravado pelas câmaras da TVE, propagado de imediato pelos telejornais do mundo inteiro, o drama impôs-se por si mesmo, revelando, na intervenção dos actores principais, as dificuldades e os paradoxos com os quais convivia na altura a jovem democracia espanhola. (mais…)

      História, Memória

      Sobre o anti-semitismo

      anti-semitismo

      Três investigadores noruegueses juntaram-se para organizar este volume sobre o historial duradouro e violento do anti-semitismo. Como ponto de partida, consideraram ser uma definição simplista ligá-lo ao ódio aos judeus só por estes o serem, atribuindo-lhe um sentido bem mais amplo: tomam-no como expressão de rancor em relação aos judeus, sem dúvida, mas mais fundada no imaginário das características que lhes são atribuídas do que no seu lugar social concreto. Dito de outro modo, o anti-semitismo é, para os autores da obra, um processo de transformação dos judeus reais em «judeus» imaginários, conduzindo à sua demonização e à defesa de medidas repressoras ou punitivas contra a sua presença, onde quer que esta se faça sentir. Avançam pois, de certa maneira, com uma argumentação análoga à usada entre nós por António José Saraiva quando qualificou a Inquisição portuguesa como uma «fábrica de judeus», descobrindo-os, inventando-os, onde eles de facto não existiam. Toda esta História, exaustiva na detecção de sucessivos exemplos da afirmação de ideias e de práticas de natureza anti-semita, segue este princípio: à caracterização do «judeu» têm sido demasiadas vezes associadas particularidades inteiramente ficcionadas que mascaram ou moldam a realidade.

      A obra segue ao detalhe quatro momentos na cronologia do anti-semitismo: o anti-judaísmo com motivações religiosas, forjado pelo cristianismo, que pode ser encontrado desde a Idade Média até ao período das Luzes; o anti-semitismo moderno que se desenvolve nos finais do século XIX com base em supostas bases científicas, conduzindo no limite ao Holocausto; o anti-semitismo pós-Auschwitz associado a teorias negacionistas que visam reinterpretar o destino dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial; e, finalmente, um anti-sionismo contemporâneo, supostamente «de esquerda», fundado na condenação sem direito de resposta do «objectivo judeu» do Estado de Israel. Em Jesus da Nazaré, recentemente publicado, Bento XVI ilibou «o povo judeu no seu conjunto» da morte premeditada de Cristo, uma atitude que tem uma óbvia intenção política: a anulação do princípio fundador do anti-semitismo que é a sua abjecção, ao longo de séculos, por parte do cristianismo. A necessidade sentida pelo papa de se pronunciar publicamente sobre o tema realça a subsistência deste ódio orientado na nossa vida colectiva e, consequentemente, o interesse deste livro.

      Uma advertência sobre a tradução: mesmo sem cotejar o texto com o original norueguês, percebe-se a imprecisão de muitas frases e termos, estorvando a clareza das ideias e atenuando um pouco o prazer da leitura.

      [Trond Berg Eriksen, Hakon Harket e Einhart Lorenz, História do Anti-Semitismo. Edições 70. Trad. de João António Correia de Sousa Araújo. 694 págs. Publicado na revista LER de Abril de 2011.]

        História, Memória

        Cavalgada | Os livros que sublinhei, 2

        cavalaria vermelha

        Retomo a série de livros deixados para trás e que num destes finais de semana recuperei do silêncio. Volto aos sublinhados a lápis e dou de frente com um outro eu (ainda assim, lá muito no fundo e limpando bem a poeira, provavelmente o mesmo).

        Alexandre Serafimovitch, A Torrente de Ferro [Edições Maria da Fonte, 1977]

        Acreditava que, dada a data da edição portuguesa, já me teria chegado no refluxo da crença total num modelo finalista de evolução da humanidade e na dimensão redentora da Revolução de Outubro. Mas afinal parece que este romance-panfleto, publicado pela primeira vez em 1924 por A. Serafimovitch (1863-1946), um antigo cossaco reconvertido em jornalista e escritor que o regime soviético elevou aos limites da fama e das honras públicas, ainda tocava uma qualquer corda sensível.

        «Os homens transmitem uns aos outros, palavras, fragmentos de frases tomadas aos oradores, sem saber muito bem o que dizem, mas sentindo que, separados do mundo pelas estepes imensas, pelas montanhas intransponíveis, pelos bosques espessos e obscuros, realizaram, na parte modesta que lhes cabia, o mesmo que se executava na Rússia, aos olhos do mundo inteiro, sem qualquer ajuda. Realizaram-no eles, sozinhos. Não o compreendem bem. Sentem-no e não sabem exprimi-lo.

        Os oradores sucederam-se e falaram até sobrevir o azul do crepúsculo. Gradativamente, crescia em todos um sentimento de felicidade impossível de conter: o sentimento do vínculo novo que os unia com aquela imensidão tão conhecida e tão ignorada de todos, que se chama a Rússia dos Sovietes.»

          Memória, Olhares

          O fotógrafo

          Nadar_autoportrait_tournant

          Se tivesse permanecido entre nós, Félix Nadar (1820-1910) – o valente figurão, o fotógrafo de Baudelaire, de Courbet, de Delacroix, de Verne, de Dumas, de Bernhardt, de Clemenceau, de Doré, de Nerval, de Liszt, de Sand, de Gautier, de Thiers – completaria hoje a bonita idade de 191 anos. Sem ele a memória visual da cultura europeia de Oitocentos teria sido outra. Bem mais pobre e cega, sem dúvida.

            Apontamentos, Memória, Olhares

            Sete dias como «autor publicado»

            Não acredito na absolutização da ideia mil vezes proclamada como grandiosa de «escrever para a gaveta». Mesmo o escritor não publicado – ou aquele que sabe ter escassas ou nulas hipóteses de vir a sê-lo – escreve sempre para outro alguém. Será, se para mais ninguém for, para a/o amante, para um amigo cúmplice ou para o leitor ideal que um dia cairá do céu. Em contrapartida, não têm conta os escritores condicionados pela censura ou pelo medo do julgamento público impiedoso que escreveram a maior parte da obra, se não toda ela, sem a perspectiva de que esta pudesse vir a ser editada. Em «Amar Dostoievski», um artigo de Susan Sontag integrado na compilação póstuma Ao Mesmo Tempo, evoca-se o caso peculiar de Leonid Tsípkin (1926-1982).

            Este médico russo de origem judaica viu a família ser repetidamente atingida pela repressão estalinista, e a ele próprio debaixo de constante suspeita, tendo por isso resolvido escrever apenas para os mais chegados. Recusando-se até, com medo de problemas insolúveis com o KGB, a deixar que os seus originais circulassem clandestinamente. Da sua perseverança contida diz a dado passo Sontag: «Escrever sem esperança ou perspectiva de ser publicado – que reserva de fé na literatura isso não implica?». Acabaria no entanto por aceder a publicar no estrangeiro Verão em Baden-Baden, romance construído em volta de um episódio da vida de Fiódor Dostoievski. A 13 de Março de 1982, um semanário nova-iorquino começou a publicá-lo sob a forma de folhetim. A 15 de Março, uma segunda-feira, Tsípkin foi despedido do instituto médico moscovita onde trabalhara a maior parte da vida. A 20 de Março sentiu-se mal quando estava em casa a traduzir um artigo; deitou-se, chamou pela mulher e morreu. Mas durante sete dias foi «autor publicado».

              História, Leituras, Memória, Olhares

              Adeus, Lenine | Os livros que sublinhei, 1

              Adeus, Lenine

              Há cerca de uma semana passei uma tarde a arrumar livros que tinham ficado para trás, na casa onde nasci, onde me criaram e onde não voltarei a dormir. A casa está agora desabitada. Está muda, vazia. Imagino que à noite se oiça, ainda mais, a chuva sobre o velho telhado, o vento empurrando os ramos da laranjeira contra a janela do meu quarto, o ruído dos motores acelerando estrada fora até se calarem ao longe. Mas só o posso imaginar, pois já lá não estou. Do que ali vivi sobra apenas a memória. Algumas fotografias também. E sobretudo os livros que li no tempo em que lá dormia, quando ali morava a minha segura retaguarda. Foram eles, os livros, os sinais que fui deixando ficar, como aviso de que não havia partido para sempre. Agora que tudo acabou, trouxe-os comigo. Os últimos, que não couberam na mala do carro, virão na próxima jornada. São um elo, são muito do que fui, são um pouco do que sou, deixei de ser ou jamais serei. Percebo-o agora quando regresso, com ou sem surpresa, aos sublinhados obstinados, seguros, ingénuos ou dementes.

              Lenine, Como iludir o povo com os slogans de igualdade e de liberdade [Centelha, 1974]

              Lido em algum momento durante os meses do PREC, provavelmente ainda em 74. Uma obra de referência na reconhecível escrita martelada de Lenine, que o rasto da Revolução de Outubro transformaria em template universal e intemporal. Na época, como mais de cinquenta anos antes na Rússia soviética – fora originalmente um discurso pronunciado em Maio de 1919, nitidamente decalcado de O Estado e a Revolução – este texto simplificava o complexo para dissipar a dúvida das almas bolcheviques menos firmes na recusa da democracia parlamentar.

              «Quando só houver no mundo trabalhadores e as pessoas se esquecerem de pensar em como era possível ser um membro da sociedade e não um trabalhador – isto não acontecerá tão cedo, e a culpa é dos cavalheiros burgueses, assim como dos cavalheiros intelectuais burgueses – então seremos pela liberdade de reunião para todos, mas hoje a liberdade de reunião para todos, mas hoje a liberdade de reunião significa liberdade de reunião dos capitalistas, dos contra-revolucionários. Lutamos contra eles, e havemos de abolir essa liberdade.

              Estamos numa batalha – é este o significado da ditadura do proletariado. Passaram os dias do socialismo ingénuo, utópico, fantasista, mecânico e intelectual, quando se pensava que bastava convencer a maioria das pessoas e pintar um belo quadro da sociedade socialista (…).

              A Humanidade só pode atingir o Socialismo através da Ditadura do Proletariado. Ditadura é uma palavra crua, séria, sangrenta e terrível, e tais palavras não devem ser atiradas levianamente. Se os Socialistas lançaram um tal slogan é porque sabem que a classe dos exploradores só cederá em resultado duma luta desesperada e sem piedade e tentará disfarçar o seu domínio por meio das mais variadas palavras agradáveis.»

                Memória, Olhares

                Do passado que passou

                praxe

                Há uns meses fui desafiado pela Plataforma Anti Praxe Académica, de Coimbra, a escrever um texto para editar no seu P.A.P.A.zine. Saiu aquilo que abaixo se transcreve. Sei que não é fruta da época – já passou a Latada e ainda não chegou a Queima, datas-magnas da vida estudantil para grande número de universitários – mas talvez por isso mesmo, porque seja tempo de menos adrenalina movida a superbock, seja também a altura de o divulgar aqui. Didactismo e panfletarismo qb, que há gostos para tudo.

                Para a maioria dos estudantes que nas décadas de 1960-1970 frequentaram a Universidade de Coimbra – nas outras o problema nem se punha –, a praxe académica não tinha grande peso. Simplesmente porque estava a desaparecer. Antes do «luto académico», decretado em 1969 para responder à repressão dos estudantes, já a maioria destes pouco se preocupava com esse tipo de prática simbólica. O desenvolvimento do associativismo estudantil e o alastrar de uma concepção tendencialmente democrática e igualitária da sociedade, a recusa de um certo «espírito de rebanho» que as autoridades apreciavam, iam transformando a praxe, como rotina de base corporativa e elitista, em algo de suficientemente anacrónico para ser ignorado por um número crescente de alunos. Até mesmo o uso do traje académico vivia uma fase de claro recuo, embora alguns ainda dele se servissem casualmente. Ao fechamento da batina, imposto pela decisão colectiva do «luto», seguiu-se por isso, em poucos meses, o seu quase completo desaparecimento.

                O que aconteceu nessa altura foi assim a confirmação de uma transformação de facto: não se fez desaparecer a praxe do dia-a-dia estudantil, pois aí ela já quase não existia, mas acabou-se com a festa académica tradicional e com a ostentação pública da imagem elitista do aluno universitário. Esta mudança serviu para unir os estudantes contra o governo da altura, aproximando-os do cidadão comum e mostrando que consideravam existirem situações muito mais importantes do que a ocasional exibição do destaque social e da capacidade para consumir álcool. A presença de um número cada vez maior de mulheres na academia acentuaria aliás a metamorfose, limitando o «prestígio» da boémia masculina e da «autoridade da moca» na qual se fundava parte da velha ordem estudantil. Os estudantes não se viram assim «privados da praxe», como li há meses num artigo de jornal: a larga maioria deles descartou-a porque já não a sentia como sua, servindo-se do que dela restava apenas para a sua luta anti-regime e anti-sistema. Por isso durante mais de dez anos, e com a Revolução de Abril pelo meio, ninguém mais pensou no assunto. Ele simplesmente parecia morto e enterrado. (mais…)

                  Apontamentos, Coimbra, Memória, Olhares

                  Indignar-se

                  Stéphane Hessel

                  Custa pouco mais do que um maço de cigarros o livro de Stéphane Hessel, best-seller em França, que chegou agora às nossas livrarias. Indignai-vos! é a declaração de um imperativo, escrita por alguém que tem suficiente autoridade moral para o fazer: aos 93, herói da Resistência francesa, sobrevivente dos campos de concentração nazis e um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o autor continua lúcido e tão atento aos motivos para a indignação do nosso tempo quanto aos dos anos durante os quais, em vez de se calar, de pactuar, de desistir, arriscou a vida por causas imprescindíveis.

                  Alguns destes motivos são colocados pela necessidade de resistência à barragem de informação que se tem esforçado por fazer-nos acreditar não existirem alternativas ao mundo no qual vivemos: «Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos das medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada?» Tal é possível, conclui, «apenas porque o poder do capital nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do Estado.» E continua: «Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande, a competição nunca foi tão incentivada.»

                  A fantasia segundo a qual não é possível actuar contra esta situação de desigualdade tem no entanto os seus agentes, responsáveis directos pelo disseminar de uma convicção de que as coisas «são como são» e de que o que há a fazer é cada um tentar arranjar maneira de passar à frente dos outros. O antigo resistente propõe então «uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas que só apresentam como horizonte à nossa juventude uma sociedade de consumo, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição renhida de todos contra todos.» Por isso, mesmo no coração das democracias – onde não é preciso atirar pedras ou pegar em armas para fruir do direito à palavra – indignar-se é preciso. Desde logo contra esta ditadura da inevitabilidade, responsável pela disseminação sedativa do princípio da desigualdade «natural». Foi isto que, ao aproximar-se do final da vida, Hessel sentiu que ainda era importante dizer. «A todos aqueles e aquelas que irão fazer o século XXI.»

                  Stéphane Hessel, Indignai-vos! Objectiva. Prefácio de Mário Soares. Trad. Paula Centeno. 52 págs.

                    Atualidade, Democracia, Memória, Olhares

                    As musas também morrem

                    Freewheelin'

                    Aos 67, Suze Rotolo morreu ontem em Nova Iorque. Copio e colo a partir do Irish Times: «A long-haired 19-year-old strolling down a snow-covered Greenwich Village street on the arm of a 21-year-old folk singer whose words and music would shortly be affecting the world view of a generation.» A namoradinha de Dylan que o acompanha na capa do segundo álbum The Freewheelin’Bob Dylan, de 1963. O de Blowin’ in the Wind e de A Hard Rain’s a-Gonna Fall. Era Suze uma simples figurante, uma groupie ou coisa assim? Longe disso: «During their time together, Rotolo became much more than a passive muse. Thoroughly familiar with the left-wing Greenwich Village scene and already active in the civil rights movement, she acted as a cultural guide to Dylan. He had arrived in New York a few months earlier from rural Minnesota with a head full of Jack Kerouac, Woody Guthrie and Robert Johnson. She introduced him to the work of Paul Cezanne and Wassily Kandinsky, Bertolt Brecht and Antonin Artaud, Paul Verlaine and Arthur Rimbaud. Together they went to see Picasso’s Guernica and François Truffaut’s Shoot the Pianist. After she told him the story of a 14-year-old African American boy who had been brutally murdered in Mississippi in 1955, he wrote The Ballad of Emmett Till, one of his early broadsides against injustice.» As musas afinal também morrem.

                      Apontamentos, Memória, Música

                      Camus fotográfico

                      Camus_avant

                      Tanto quanto a obra escrita, a projecção visual da presença física de Albert Camus incorporou sempre o contraste entre o lado diurno, solar, e um outro, mais reservado e taciturno. As muitas fotografias que dele ficaram, o rastro que sobrou das suas aparições públicas, constantes apesar de um desejo reiterado de privacidade, mostram também essa dupla face, que transparece ainda no modo como os outros – os que o admiraram, muitos, e os que o odiaram, muitos também – se foram relacionando com os dois rostos.

                      Nos anos 40, o escritor surgia refulgente, a good looking guy com êxito entre as mulheres, uma versão melhorada de Humphrey Bogart como se lhe refere o biógrafo David Sherman, cuja silhueta sóbria funcionava como protótipo do intelectual combatente. Não muda: sobretudo impecável, fato de bom corte, camisa clara, gravata, os cabelos puxados para trás, por vezes um cigarro Gauloise. Em A Queda, Clamance, o protagonista, declara o charme como «a forma de obter uma resposta sem ter colocado nenhuma questão clara», insistindo no modo como a exibição da harmonia, do «autodomínio sem esforço», fazia com que as pessoas que o olhavam «confessassem, por vezes, que tal as ajudava a viver». É este lado, solar mas tranquilo, que Camus evoca em O Verão: «Quando morava em Argel, suportava o inverno pois sabia que numa noite, numa certa noite pura e fria de Fevereiro, as amendoeiras do vale dos Cônsules se cobririam de flores». A tranquilidade manifesta nas fotografias não é porém esforço de poseur, como ocorreria com muitos dos da geração que nele decalcou atitudes, mas antes traço de uma personalidade capaz de fazer coincidir a disposição reflexiva com a energia activa e militante, vista pelo escritor como resultado da sua origem mediterrânica.

                      Já a reverberação de um semblante sombrio, muitas vezes desolado, começará a acentuar-se após a publicação, em 1951, de O Homem Revoltado, determinante para a ruptura com Sartre e com intelectuais de uma esquerda que jamais deixou de ver como sua. Muitos, especialmente os próximos do PCF, cortaram relações com ele e passaram a hostilizá-lo sem rodeios por não lhe perdoarem a concepção ética do acto de rebelião, contrária à subordinação do indivíduo ao colectivo. O isolamento – apesar do êxito público de algumas peças, apesar do reconhecimento trazido em 1957 pela atribuição do Nobel – surge acentuado, visível, nas fotografias de uma época que não mais lhe devolveu a energia e a esperança dos anos que haviam ficado para trás. Em Albert Camus – Solitaire et Solidaire, uma belíssima fotobiografia preparada com comovente carinho pela filha Catherine e editada em 2009, esta conta um episódio ocorrido nos últimos anos. Um dia, adolescente, encontrou o pai sentado num sofá de casa com o rosto fechado, aparentando desalento, e perguntou-lhe: «Papá, estás triste?». Camus respondeu: «Não estou triste, Catherine, estou apenas só.» As fotografias dos anos finais mostram-nos repetidamente este lado marcado pelo desconsolo. E todavia, olhado em perspectiva, o álbum da sua vida não revela um escritor recolhido, fechado na sua biblioteca, mas antes um homem em movimento que caminha e avança, razoavelmente seguro do percurso que escolheu.

                      Publicado na revista LER de Fevereiro de 2011.

                        Heterodoxias, Memória

                        Nadia

                        Annie Girardot

                        Depois de 1960, com a Nadia de Rocco e os seus irmãos, Annie Girardot interpretou sempre um só papel: o seu. Filme após filme, aqueles que a seguiram mudos e atenciosos pelas salas escuras habituaram-se a vê-la em qualquer género da arte, do drama à comédia, sempre com aquele rosto de pessoa comum que dispensava o glamour, aquela voz de fumadora inveterada em registo de metralhadora, electrizante, que a tornavam única. Por isso – e não é pouco – vão sentir tanto a sua falta.

                        A partir de uma evocação aparecida no Libération.

                          Apontamentos, Cinema, Memória

                          E não se deitaram no chão

                          Anatomia de um instante, de Javier Cercas, é uma narrativa pormenorizada das circunstâncias que envolveram o 23 de Fevereiro de 1981, quando as Cortes espanholas foram assaltadas por duzentos membros da Guardia Civil comandados pelo tenente-coronel Tejero Molina. A operação foi parte de uma tentativa de golpe lançada pelos militares franquistas contra um regime democrático que dava ainda os primeiros passos. A momentânea vitória dos sublevados acabaria por ser contrariada em boa parte pela intervenção do rei, mas durante longas horas, uma noite inteira e ainda parte da manhã seguinte, governo, deputados e jornalistas presentes à hora do assalto foram conservados como reféns pelos assaltantes. A parte mais dramática e imprevisível foi a inicial, quando os militares irromperam pela sala e foi dada uma ordem no sentido de todos se deitarem de imediato no chão. A ordem foi acompanhada por um tiroteio desgovernado que não feriu ninguém mas bastou para atemorizar os presentes e dar ao país e ao mundo – a televisão transmitiu as imagens em directo – a ideia de que não se tratava propriamente de uma brincadeira.

                          No livro de Cercas, como no momento do golpe, destacam-se três homens cuja bravura se explica em poucas palavras. Foram os únicos dos presentes que não se atiraram para o chão e encararam os golpistas, sabendo qualquer deles, naquele preciso momento, que se apenas três dos que se encontravam dentro da sala fossem fuzilados seriam precisamente eles. Relembro os nomes: Adolfo Suárez, primeiro-ministro demissionário, um antigo franquista bon-vivant que atraiçoara os seus tornando-se figura-chave da transição para a democracia; o general Manuel Gutiérrez Mellado, que durante a Guerra Civil se batera contra os republicanos mas agora apoiava Suárez na qualidade de ministro da Defesa, transformando-se para a extrema-direita no exemplo máximo de traição; e Santiago Carrillo, o então secretário-geral dos comunistas, que pelo simples facto de personificar a principal e «demoníaca»  força de oposição a Franco era o deputado mais odiado pelos amotinados de arma engatilhada. Suárez deixou-se ficar sentado, como que impassível e, sugere Cercas, a «posar para a História»; Gutierrez Mellado, de setenta anos e o mais velho dos três, resistiu fisicamente e de pé à ordem dos assaltantes, só se sentando quando lhe apeteceu; Santiago Carrillo, o velho e experimentado combatente antifranquista, manteve-se sentado a saborear calmamente o seu cigarro.

                          Claro que este post é só um engodo para a leitura deste livro intenso, encaixado num género híbrido, entre a história, o jornalismo e o romance.

                          Rui Bebiano

                          Javier Cercas, Anatomia de um instante. Trad. de João Pedro George. Dom Quixote. 458 págs.
                            História, Leituras, Memória

                            Adeus Maria

                            Maria

                            As filas, «bichas» num português de outras eras, nunca foram o meu forte. De cada vez que me meto numa um pouco mais comprida e visivelmente demorada, rapidamente avalio se se justifica a espera e não será preferível trocá-la por uma actividade mais autónoma. Nessas alturas desisto sem ponta de remorso e vou-me embora. Mas não foi isso que aconteceu naquele final de tarde de um Verão dos idos de 75, ali nas imediações das bilheteiras do Cine-Atlântico (ou teria sido no Cine-Miramar?) de Luanda. Munido de toda a paciência deste mundo e do outro, deixei-me ficar bem mais de duas horas na bicha, ou «fila» em português do século vinte e um, que dava a volta ao quarteirão. O objectivo assumido: comprar um bilhete para ver O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci. Mais do que muitas famílias, libertas da censura pelas liberdades de Abril, seguiam pacientes em formatura, visivelmente interessadas em conhecer a dimensão estética da lubrificação na fantasia sodomita protagonizada por Paul (Marlon Brando) e Jeanne (Maria Schneider). A Maria morreu hoje de cancro e só consigo recordar-me de como estava esplêndida, na pele de uma mulher jovem e desconhecida, naquela noite luandina.

                              Apontamentos, Cinema, Memória

                              Entre sombras e silêncios

                              Em crónica saída na revista New Statesman, o escritor ucraniano Andrei Kurkov descreveu Sussurros, de Orlando Figes, como «uma fascinante enciclopédia das relações humanas», considerando-o, a par do Arquipélago Gulag, de Soljenitsine, e dos Contos de Kolima, de Varlam Chalamov, como «um dos maiores monumentos literários do povo soviético». Não se trata de uma desnecessária hipérbole, pois esta é, de facto, uma obra soberba e claramente inovadora. Convém à partida desvanecer um eventual equívoco: este não é mais um dos muitos estudos históricos descritivos e estatísticos sobre Estaline, o estalinismo e as suas vítimas proporcionado pela abertura dos arquivos que se seguiu à Glasnost. Mergulhando nas sombras, surge antes como uma abordagem da vida diária das pessoas comuns e da forma como esta foi condicionada pela engenharia social do «homem novo». (mais…)

                                História, Memória, Olhares

                                Alívio

                                Billy the Kid

                                Prevaleceu o bom senso. Ao contrário do que chegou a ser anunciado, o Estado do Novo México não vai perdoar a Henry McCarty, ou melhor, a William H. Bonney, ou melhor ainda, a William Antrim, Jr., aliás Billy the Kid, 118 anos depois da sua morte às mãos do xerife Pat Garrett, os crimes cometidos, segundo palavras do governador Bill Richardson, «a saquear, a devastar e a matar os merecedores e os inocentes de igual forma». Salvaguarda-se assim uma parte do património americano que muitos milhões de pessoas foram partilhando. Pois faria lá sentido algum que agora, à revelia de tantos rapazes que vibraram com os seus assaltos, que se entusiasmaram com os duelos de carabina e revólver ganhos pelo herói-bandido com cara de bebé, se passasse um atestado de ignóbil inocência ao famigerado Kid?

                                  Devaneios, História, Memória, Olhares

                                  Limpeza de pele

                                  Mark Twain underwater

                                  – We blowed out a cylinder-head.
                                  – Good gracious! anybody hurt?
                                  – No’m. Killed a nigger.
                                  – Well, it’s lucky; because sometimes people do get hurt.

                                  O Público noticiava há dias que a New South Books, uma editora do Alabama, vai reeditar As Aventuras de Huckelberry Finn, de 1884, expurgadas das 219 referências à palavra nigger que aparecem no romance. Também a palavra injun será substituída. A primeira, que se refere pejorativamente ao preto, ao negro, à «pessoa de cor», como insistem em dizer os racistas brancos mais embaraçados, será substituída por slave. Já injun, epíteto ofensivo aplicado aos native americans, será trocada por indian. Uma vez mais, justifica-se o gesto rasurador – que não é novo, pois até a Bíblia foi submetida já a alguns liftings recentes –, com a consideração dos termos originais como sendo ofensivos ou politicamente impróprios. Na ignorância, completa ou propositada, de Mark Twain se ter servido daquelas palavras para reforçar o lugar social injusto de algumas das personagens. O escritor foi, aliás, um apoiante empenhado da abolição da escravatura e do alargamento dos direitos civis dos negros americanos (tal como foi também, já agora, um partidário da extensão às mulheres do direito de voto). Foi ainda grande amigo ao longo da vida de John Lewis, um negro que serviu de inspiração para o personagem Jim, central no romance em causa.

                                  Muitos anos antes de Martin Luther King ou Malcom X terem sequer nascido, já Twain se empenhava num combate, na sua época particularmente difícil e solitário, que muitos anos mais tarde faria com que alguns sectores racistas afiançassem ter ele uma quantidade importante de «sangue negro». Ou «afro-americano», como em sentido inverso, e de forma completamente anacrónica em relação aos conceitos e às palavras usados no tempo do escritor, existe quem prefira dizer. Vale sempre a pena, diante de tais afirmações de reiterada ignorância, imprecisão ou mera estupidez, insistir no perigo que comporta este tipo de escolha supostamente purificadora. Em nome da omissão de palavras ou de conceitos julgados depreciativos, ou na tentativa de contrariar uma absurda «censura preventiva» – que tem levado, por exemplo, à retirada de algumas bibliotecas públicas americanas de livros, clássicos muitos deles, contendo termos julgados «impróprios» –, alteram-se obras literárias e apagam-se pedaços de uma realidade historicamente vivida ou imaginada em contextos muito diversos e que só podem ser compreendidos nas suas circunstâncias. Com tais gestos dilui-se também o rastro de etapas dos processos de emancipação das sociedades e das próprias palavras. Voltando-se o feitiço contra o feiticeiro, se é que não convirá referir este profissional como «técnico de práticas mágicas», «agente de subculturas locais» ou coisa que o valha.

                                    Democracia, Memória, Olhares