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Espécie de geek

O iPhone e eu

Ao usar hoje o meu caderno Sapiens, vendido como «uma réplica fiel» dos livros para notas e esboços utilizados por Rafael, Galileu e Leonardo, reparei em como o tenho desprezado nas últimas semanas. A culpa é do iPhone. Há mais de dez anos que me sirvo apenas de agendas electrónicas, e tinha até comprado há pouco tempo um utilíssimo HTC, mas as novidades do novo iPhone 3GS resolveram quase todos os defeitos da versão anterior e converteram-me. Trespassei a máquina com menos de um ano de uso, comprei o novo aparelhómetro e procurei aplicações das quais precisava, entre elas uma versão de bolso do Office que permite modificar documentos, um editor de imagem, outro para os blogues, um dicionário, uma enciclopédia, um leitor de e-books. A seguir actualizei o livro de endereços para poder usar o correio electrónico, atulhei a máquina de música, e fiquei pronto para andar com um completo computador (telefone, máquina fotográfica, câmara de vídeo e agenda também, naturalmente) no bolso das calças.

Só posso dizer que o acessório é mesmo magnífico, de uma utilidade imensa para quem precisa a qualquer hora, para trabalho ou lazer, de um computador eficaz e de uma ligação rápida à Internet. Desde que não se importe de mudar radicalmente determinados hábitos e de transmitir, a quem observe de fora, a impressão de passar tempos infinitos a escrever SMS. É pena o preço bastante elevado (nos EUA custa menos de metade) e as limitações da bateria (o paralelepípedo faz tanta coisa que precisa ser carregado todos os dias). Apresento a prova final de que falo verdade e de que não sou um mero mercenário da Apple: este post foi integralmente escrito, a fotografia editada, e o conjunto publicado neste blogue, sem outra intervenção que não a do iPhone.

    Apontamentos, Cibercultura, Etc.

    O fim de um tempo?

    American Dream

    A Reader’s Digest encaminha-se para um processo de falência. A confirmar-se, esta representará para muitas pessoas, como aconteceria com o fecho da Coca-Cola ou o desaparecimento de Hollywood, o fim de uma era. Parte importante da percepção internacional da América, e até do modo como muitos americanos se vêem ainda hoje a si próprios, foram construídos tendo como suporte os artigos, crónicas, «piadas de caserna» e «episódios da vida real» condensados, a partir de 1922, na revista que tinha com lema «America in your pocket». As Selecções do Reader’s Digest serviram de instrumento da Guerra Fria e, provavelmente por isso, durante décadas circularam em Portugal sem problemas, primeiro na versão brasileira, iniciada em 1942, e a partir de 1971 em edição nacional. Em conjunto com A Bola e a Crónica Feminina, a revista Selecções chegou a ser um dos títulos com maior tiragem, com lugar certo em muitas casas portuguesas. Tem ainda uma tiragem mundial de 100 milhões de exemplares – é publicada em 19 línguas e em 48 diferentes versões –, mas entretanto deixou de interessar às famílias da classe média, que foram o seu público original, e é hoje uma publicação visivelmente anacrónica. Porque o mundo mudou muito, a América também e, apesar de alguns retoques de cosmética, as Selecções não mudaram quase nada.

      Atualidade, Etc., Memória

      Memo achado no bolso do fato-de-banho

      Цивья со свим мужем Шимоном владели большим участком земи в Рамат аШароне. Они завещали его городу и в их честь на части этого участка разбит парк.

      Iuri Bradáček

        Devaneios, Etc.

        A nuvem

        A nuvem

        Acabo de descobrir que a Microsoft deixou de produzir e comercializar a Encarta, a primeira enciclopédia em versão unicamente electrónica. Entre 1993 e 2009, ela determinou um padrão de recolha, arquivamento e disponibilização popular dos saberes, servindo de modelo à transferência para o suporte digital de outras enciclopédias, como as consagradas Britannica e Universalis. Apesar do êxito que manteve por mais de uma década, a Encarta foi incapaz de resistir comercialmente ao efeito demolidor de uma «enciclopédia social», gratuita e colaborativa, como a Wikipedia. Esta conta hoje, e apenas na versão em inglês, com perto de 3 milhões de artigos, um número perfeitamente gigantesco quando comparado com os 42.000 artigos que podem ser encontrados na derradeira versão da Encarta. Não tem comparação com qualquer outra enciclopédia o ritmo de crescimento e o fluxo de consultas processados diariamente, minuto a minuto, pela Wikipedia, mas não deixa de ser preocupante que a fonte principal de conhecimento manipulada pela esmagadora maioria dos utilizadores da Internet seja um repositório sem autoria reconhecida e desprovido de processos de aferição da informação que recolhe e oferece. Sob a forma de nuvem, paira sobre as nossas cabeças um saber flutuante, por vezes equívoco e sujeito a constantes revisões, com a vida determinada pelo vento, cuja sombra pode ser tão estimulante quanto ameaçadora.

          Cibercultura, Etc.

          Finalmente, Oscar

          Oscar Wilde

          O L’Osservatore Romano coloca Oscar Wilde nos pináculos da lua, considerando-o «uma das personalidades do século XIX que com mais lucidez analisou o mundo moderno nos seus aspectos perturbadores mas também nos seus aspectos mais positivos». Aproximar-se-á o fim dos tempos? Tratar-se-á de um primeiro passo no caminho da beatificação? Ambas as coisas?
          [Ideia roubada ao Pedro Vieira]

            Etc., Olhares

            Começo de uma era

            De walkman pela estrada fora

            A música verdadeiramente portátil começou nos inícios da década de 1960, com a vulgarização do rádio transistorizado, do gira-discos e do gravador de pilhas. Eles foram instrumentais no lançamento de uma nova cultura popular centrada na música urbana e nos seus ambientes. Mas essa era uma experiência ainda partilhada, vivida em grupo ou exibida diante dos outros, na praia, em piqueniques, em bailes de garagem. Só o aparecimento do walkman rompeu com tal dinâmica, transformando a portabilidade da música em mantimento do individualismo galopante que emergiu nos eighties. Forneceu também a possibilidade de um novo tipo de apropriação cinematográfica do quotidiano, hoje reforçada com a banda sonora infinitamente renovável, transportada por cada um no seu leitor de mp3. No entanto, quando o processo começou, há mais ou menos três décadas atrás, toda essa mudança parecia ainda mais do que improvável. «Diziam que eu devia estar maluco para andar por aí de auscultadores», conta o alemão-brasileiro Andreas Pavel, inventor do stereobelt, estreado em 1972, sete anos antes da Sony lançar no mercado o seu primeiro walkman comercial, mas ignorado na altura pelos grandes fabricantes. O começo deste pedaço da história recente, início provável de uma nova era na utilização banal ou celebratória da música e na construção sensorial do mundo, é contado aqui.

              Etc., Memória, Música

              ABC das Palavras Obsoletas – 5

              Vinicius e a garota de Ipanema

              Garoto / Garota

              Fora de alguns universos peculiares, «garoto» já não é nome que se aponha a alguém. Impõe uma depreciação da infância e da condição juvenil, totalmente deslocada nos tempos que correm. Por sua vez, «garotada» é um termo desdenhoso, invariavelmente associado a uma imaturidade que se presume condenável, socialmente desclassificada, tendo caído igualmente em desuso. O oposto do «garoto», ou, bem pior, do «garotão», era o homem «grave», sério, circunspecto, o cidadão inequivocamente adulto, probo e hirto, que jamais condescendia com a brincadeira, usava sandálias sem meias ou enrolava as mangas da camisa acima do cotovelo. «Garotice» era assim, sempre, o gesto inconsequente e irreflectido de quem jamais crescera. Já a designação «garota» não depreciava. Pelo contrário, impunha, por uma ordem lógica antiga e patriarcal, que toda a mulher jovem fosse considerada como uma desprotegida criança, ragazza, petite fille, fräulein, baby aguardando pacientemente, e um tanto irreflectidamente, pelo seu amo. «Garota» era assim a «miúda», a «pequena», a namorada bela e perfeita, vislumbrada a requebrar ao sol de uma qualquer Ipanema. Ninfa que jamais perdia o seu tempo com garotos.

                Etc., Olhares

                Bye Bye Portugal

                Brasil

                Depois de Maria João Pires, é a vez de Miguel Sousa Tavares nos ameaçar de fazer-se brasileiro. Se bem que de forma diferente, ambos incompatibilizados com um tratamento público abaixo daquele que acreditam merecer. Mas se a grande pianista não muda de estatuto com a decisão, vendo-se basicamente aliviada de certas maçadas com a contabilidade, no caso do cronista e ex-jornalista o salto será grande, pois do outro lado do Atlântico parece ser também reconhecido como escritor emérito. Só podemos desejar a ambos as maiores felicidades. Voltem sempre para as sardinhadas.

                  Etc., Olhares

                  Nos 30 anos da Antígona

                  Não é vulgar uma editora celebrar a «concorrência». Mas é isso que a Angelus Novus acaba de fazer, associando-se à celebração dos 30 anos dos «editores refractários» da Antígona («personagem mítica, Antígona simboliza, antes de mais, a desobediência»). Uma casa editorial única, pelo perfil muito marcado do seu catálogo e pelo seu valor de exemplo. No seu blogue, a Angelus Novus explica as razões da sua homenagem, propõe um excelente texto de Manuel Portela sobre o assunto, e publica uma entrevista dupla com o editor Luís Oliveira, na qual participo. Tudo a partir daqui.

                    Etc.

                    Prazeres de Pyongyang

                    Mesmo sem a companhia de tremoços, amendoins ou berbigão, a levemente espumosa Taedonggang faz as delícias de Pyongyang. O povo – aparentemente apenas homens, as mulheres apenas servem ou registam – nem se importa de se sentar simetricamente e de fato completo, numa espécie de enfermaria de centro de saúde onde é proibido afixar cartazes, para fruir a diurética cervejola. Kim Jong-Il aprova.

                    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=2v2HjeYJa3g[/youtube]
                      Devaneios, Etc.

                      ABC das Palavras Obsoletas – 4

                      A malta

                      Malta

                      A «malta» era a maralha. «Eh, malta, éfe-érre-á!», brada ainda por vezes, em dias de guarda, a equipagem estudantil. Amorável e cúmplice, era a maltinha, a maltosa. Na antiga gíria coimbrã aplicava-se à hoste, igualitária à força do companheirismo, dos machos trajados de negro com nódoas de vinho nos fundilhos das calças. Representava também a súcia de indivíduos de má fama, de índole não recomendada às pessoas de bem, vadiando e malandrando como modo de vida. Com maior nobreza, identificava trabalhadores que se deslocavam juntos de um lugar para outro, em demanda de trabalho. Na Casa de Malta, recordava Namora «um casebre meio derruído, sem dono», habitado por «gente erradia», que se podia ver da sua casa do Penedo. Quem a ocupava, escrevia o jovem médico, eram «vagabundos, quase sempre, malteses a cumprir um fado de nómadas que a desconfiança dos outros atiçava, que a miséria deles e dos outros parecia legitimar, ambulantes que mercadejavam adornos ingénuos, campónios de passagem para gloriosos eldorados.» Queria dizer, era «a malta», aquela malta. Em tempos sombrios a malta foi ainda a massa dos «nossos», que nada tinham a ver com «eles», os pousados vampiros: «o que faz falta é animar a malta», cantava o cantor apelando ao despertar dos excluídos. Mas essa malta, a maralha, parece estar desaparecida em combate. Ou anda um tanto desalentada.

                        Etc., Olhares

                        O decreto do armário

                        Tempos difíceis

                        O Parlamento lituano aprovou ontem uma lei que proíbe qualquer referência pública a experiências ou ligações de natureza homossexual, bissexual e poligâmica. O objectivo invocado é promover «a saúde psicológica» e cuidar do «desenvolvimento físico, intelectual e moral dos menores». A Lituânia é, obviamente, o único país da região do Báltico no qual o catolicismo é a prática religiosa maioritária.

                          Apontamentos, Etc.

                          Muito campeonato pela frente

                          PSD ganhou as eleições europeias em Portugal. O Bloco de Esquerda ganhou mais espaço e atingiu o seu Evereste. O PCP «subiu 20 por cento» e diz que ficar atrás do BE «não é uma derrota». O CDS esmagou completamente as empresas de sondagens. O Movimento Esperança Portugal afirma ser já «um estádio da Luz cheio de gente». O MRPP conseguiu o seu «objectivo primordial» que era «subir em percentagem». Mesmo a votação do Partido Socialista foi apenas e só «decepcionante». Pelo que percebi, o único vencido por estes dias foi o Paulo Pereira Cristóvão. Nas eleições do Sporting.

                            Devaneios, Etc.

                            ABC das Palavras Obsoletas – 3

                            Porreiro, pá

                            Porreiro

                            O «porreiro, pá!», acompanhado de um rijo aperto de mão, dirigido por um conhecido governante português a um dirigente europeu seu compatriota no final da conferência de imprensa na qual ambos anunciaram o acordo obtido na Cimeira Europeia de Lisboa de 2007, deu a volta ao país pela mão de comentadores, bloggers e políticos. Entre ambos, a expressão traduzia um código geracional destinado a sinalizar um pacto, contentamento, familiaridade. Para muitas pessoas, no entanto, representou uma maneira superficial, quase ofensiva, de abordar um assunto e uma decisão que não admitiam ligeireza de modos. O Bloco de Esquerda transformou mesmo a palavra em ferramenta da sua propaganda eleitoral, exaltando a nota negativa mas deslembrando que a palavra já quase se não usa fora dos espaços sociais provindos dos antigos circuitos estudantis e urbanos.

                            De facto, «porreiro» já era. E era apenas para alguns, mais privilegiados. Era «bom, excelente», como era «simples, prestativo». «Gajo porreiro» era, «entre a malta», o sujeito camarada, boa rês, «cara legal» capaz de reagir com simpatia até quando alguém lhe assentava nas costas, à socapa, uma palmada das fortes. «Porreiro» era o tipo que não se importava que lhe cravassem cigarros atrás de cigarros – no tempo em que as pessoas normais fumavam – e jamais pedia de volta os cem paus que emprestara no mês passado. Era o sujeito sem manias, simples, pouco dado ao espectáculo, capaz de ouvir sem se impor aos outros. Uma espécie de Doutor Moreira ao contrário. Um José Mourinho às avessas. Já «miúda porreira» era aquela fixe, camarada mesmo, que se não esquecia dos nossos anos e nos dava metafísicos chocolates ou parzinhos de peúgas. Gente assim, «porreira» mesmo, ou efectivamente «porreta», capaz de dar uma mão na hora H, ainda existe, mas já poucos a identificam dessa forma. Só mesmo aqueles que ainda se servem do vocábulo «pá». Mas esse, pá, dará outra entrada deste ABC.

                            PS – Dizem-me por mail que «porreiro» é também uma palavra usada no Brasil «para definir o cara que só vive de porre», podendo igualmente significar «pinguço, cachaceiro, pé de cana, garganta de alambique, etc.» O que não me parece contradizer aquilo que atrás ficou escrito.

                              Etc., Olhares

                              Andam aí, os espanhóis

                              Spain

                              Um momento de distracção, um baixar da guarda, e caímos em mais  um nó de publicidade intrusiva via SMS. Visitante ocasional das bombas da CEPSA, preenchi um «cartão de cliente» e comecei de imediato a receber propostas e lembretes. Não esperava é que estes me chegassem num espanholês críptico e futebolino.

                              «Sou um “partidaço”! Sou desconto en combustível. Tire o maximo partido de mim. Va hoje ao seu Posto de Abastecimento. Sou seu Cartao Porque Eu Volto.»

                                Devaneios, Etc.

                                ABC das Palavras Obsoletas – 2

                                Estafermo

                                Já não há estafermos. Dos verdadeiros. Bonecos daqueles, feitos de ferro e madeira, que serviam na Idade Média para treino da cavalaria. Com os braços abertos, num deles uma arma – espada ou albarda, maça ou clava -, e no outro um escudo, simulavam, presos a um eixo vertical sobre o qual podiam girar, gestos repentinos de ataque e de defesa. Com os cavaleiros a procurarem acertar-lhes com a lança sem serem atingidos pelo pronto açoite. Mas estafermo foi também designação que servia para nomear a pessoa inútil ou incomodativa, sem mais serventia que não fosse a constrangida atrapalhação dos outros. Ou alguém pasmado, estático, que facilmente se deixava surpreender sem mostrar reacção. Do latim stare, estar, fermo, fime, claro. Pelo século XVII, no português e no castelhano, passou a aplicar-se também a uma pessoa particularmente malparecida e de aspecto desagradável, servindo muitas das vezes, em tempos nos quais mais facilmente se perdoava a insana deformidade dos homens que a ausência de gravidade que pudessem mostrar, para classificar mulheres particularmente feias, descuidadas, ou às quais as marcas da idade tivessem invalidado a já esquecida beleza. O gradual sumiço da palavra do léxico do quotidiano tem-nos tornado, por isso, um pouco menos cruéis.

                                  Etc., Olhares