Sublinho Santiago López-Petit, em A Mobilização Global, enquanto penso nesta cultura do um contra o outro apresentada como único cenário do futuro sem esperança em nome do qual tudo nos é pedido.
«Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente: ‘a vossa situação depende apenas de vós mesmos’. E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial significa que temos de nos avaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. (…) O [novo] estado de natureza alastra como um mar enfurecido até cobrir-nos por completo.»
E mastigo a certeza de que a esperança apenas pode nascer do desespero.
Como a larga maioria dos portugueses, pouco andei de barco ou em meios de locomoção afins. Mesmo os trajectos africanos foram percorridos de avião. Recordo-me de umas quantas remadelas em lagos artificiais ou modestos riachos, de duas viagens de cacilheiro e de uma travessia do estreito de Gibraltar. Também andei algumas vezes de «gaivota». Ou melhor, pedalei com força para deslocar o veículo. Muito mais do que isso só a bordo do Kon-Tiki de Thor Heyerdahl, do Calypso de Jacques Cousteau, do Relâmpago do Corsário Negro e no paquete onde se desenrolou aquele enredo «anarquista» – que valeu uma proibição em diversos países – de Monkey Business, o filme dos Irmãos Marx. Para além, claro, de ter ido por diversas vezes ao fundo com o Titanic. Isto é, apenas andei embarcado em imaginação. Mas sei o suficiente de História e de caminhos marítimos para perceber que o navio-escola Sagres tem funcionado como definitivo avatar da nossa autorepresentação enquanto «navegantes». Por isso a proibição de atracar em Macau dada ao veleiro pelo governo chinês é particularmente humilhante. E por isso não é aceitável que as autoridades portuguesas se limitem a achar o facto mais ou menos normal. Sem um lamento, um protesto, um epitáfio. Restam-nos assim os ferry-boats fretados. E, a mim, realizar a adiada travessia do Atlântico entre Portimão e o Funchal. A bordo do indomável Volcán de Tijarafe.
No Verão os sonhos acontecem. No mundo do futebol em particular. Djelmar transferiu-se para o Deportivo de Villanueva del Fresno e afirmou «viver um sonho». Britinho assinou por dois anos pelo F.C. de Mogofores e declarou à Trombeta das Beiras ser esse o seu «sonho de menino». Kadu passou do Libertadores do Ceará para o Recreativo de Mocoró e afirmou à torcida mocoroense ser a mudança um sonho feito verdade. Mas nada de comparável ao que aconteceu com Tiago Manuel Dias Correia, Bebé, o rapaz nascido no Cacém que ainda há um ano jogava futebol de rua e agora, praticamente sem experiência de futebol profissional, foi vendido pelo Guimarães ao Manchester United por 10 milhões de euros. Sem formação que não a obtida em ruelas empedradas, pracetas de subúrbio e campos carecas. Sem longos anos a dar cabo dos olhos com livros ilustrados e monitores magalhânicos para «adquirir competências». Presumivelmente sem saber inglês técnico. Claro que Bebé nos diz, deslumbrado, ser «um sonho» poder jogar de vermelho no relvado de Old Trafford. Quem somos nós para o fazer cair na realidade?
Não sou um sujeito venal. Não penso, como alguns banqueiros ou os jovens turcos, que «todos temos um preço», diferenciando-se os mais honestos apenas por ganharem menos do que os nada escrupulosos. Ainda assim, a alguém que me queira oferecer um utensílio destes, entregarei a alma de imediato sem exigir recibo. Ele sugere-me um salvo-conduto para a felicidade suprema – como se sabe, ela é leve e portátil – e essa não tem preço.
Diana Rigg faz hoje 72 anos. Nunca foi uma star, nove em cada dez, das que entravam em banheiras cheias de espuma para anunciarem o sabonete Lux, mas a partir de certa altura foi Emma Peel, a companheira pró-activa e multitarefas do agente John Steed na série de televisão The Avengers, Os Vingadores, rodada entre 1961 e 1969. Steed era um agente do MI6 com aspecto de inglês «típico»: chapéu de coco, fraque sem ruga, um inseparável guarda-chuva muito bem enrolado e a omnipresente dose de fleuma. Já Mrs. Peel destoava da tradicional ajudante, sedutora, um tanto tola e absolutamente secundária na trama das outras séries. Pelo contrário, o trabalho pesado – socos, cabeçadas, fugas impossíveis, activação de engenhos explosivos e uns quantos tiros bem aplicados – ficava sempre por conta da agente em roupa futurista de cabedal negro, dotada de vastos conhecimentos de karaté e praticante de elevado nível de boxe tailandês. Aqui residia, aliás, o ineditismo da série, a sua marca caracteristicamente sixtie e vagamente feminista (Barbarella, a série de BD e o filme de culto, foram contemporâneos dos Vingadores). Talvez por isto a série de televisão se tenha tornado rapidamente popular. Diana Rigg foi também uma fugaz «Bond girl» e a madrasta má numa versão da Branca de Neve, mas será para sempre a intrépida – e por isso singularmente sexy – Mrs. Peel.
Comprei o tal número da Playboy portuguesa com o objectivo de um dia o doar, em conjunto com uma colecção completa da Gaiola Aberta e números avulsos do Mundo Ri, a uma qualquer biblioteca pública ainda não subjugada ao império do digital. Coloquei também a hipótese de fazer passar pelo scanner, para ilustrar este post, uma daquelas fotografias, pespegadas na revista, de um Cristo com aspecto de baixista dos Delfins acompanhado de uma menina «estrepitosa» (como se dizia na era da Gaiola Aberta e do Mundo Ri). Puro equívoco: a arte ostentada é medíocre e, Jesus Christ!, não vale a pena desfear um blogue que tanto me custa a polir.
O teutónico polvo Paul, bem como um crocodilo e um panda ligeiramente menos mediáticos, escolheram a Espanha. Um periquito indonésio decidiu-se pela Holanda. Como sempre, tomarei o partido dos mais fracos.
Depois do post anterior sobre Ismail Kadaré e (um pouco) sobre o seu último livro, retorno à problemática albanesa, uma vez que esta não me sai da cabeça. Não por ser problemática, mas por ser albanesa. Acontece que sempre me pareceu profundamente injusta a menorização – por comparação com o impacto do exemplo chinês – da influência do «país das águias» na projecção, à gauche do PCP, de uma alternativa ao regime caduco do «Salazar que ri», como alcunhava o povo a Marcello Caetano. Mas a verdade é que para muitos marxistas-leninistas-maoístas, esvaziada por uma vez a Grande Revolução Cultural chinesa, Enver Hoxha é que estava a dar. E se ninguém se proclamava hoxhista era só porque a palavra soava mal e podia prestar-se a confusões pouco conciliáveis (ou talvez não) com a moral proletária. Muitas horas de nocturno descanso foram consumidas a ouvir a onda curta, vociferada em português do Brasil, que começava assim: «Aqui Rádio Tirana, voz do Partido do Trabalho da Albânia e do marxismo-leninismo, a sua doutrina sempre jovem e científica». Ao que se seguia invariavelmente uma versão bastante singular da Internacional, umas frases do camarada Hoxha «sobre a situação política mundial», as últimas novidades da guerrilha do Araguaia e 15 minutos de música folclórica do distrito de Gramsh, província de Elbasan.
No que me toca, a problemática albanesa teve ainda um outro impacto, associado a um certo virar de página. Em Abril de 1977 veio a Portugal uma delegação do Partido do Trabalho da Albânia – episódio já mencionado pela Ana Cristina Leonardo na sua Pastelaria –, destinada a ornamentar o primeiro comício público do PCP(R). Num último assomo de convicção pessoal na força da tal «doutrina sempre jovem e científica», ainda fui de camioneta até ao comício no Campo Pequeno para saudar os camaradas albaneses. O momento parecia festivo: muitas bandeiras vermelhas, faixas com palavras de ordem como «os ricos que paguem a crise» e «abaixo a democracia burguesa», música do GAC, julgo que também alguns retratos de Estaline, de Mao e do camarada Hoxha. Mas a festa esmoreceu rapidamente com a entrada em cena da delegação albanesa: um pequeno grupo de idosos de rosto impassível, com chapéus à Al Capone, lenços de Cachemira impecavelmente dobrados no pescoço à maneira dos galãs dos anos 40, e enormes sobretudos cinzentos a contrastarem com o sol de Abril, que conservavam abotoados enquanto batiam palmas daquela forma compassada e aborrecida que podemos observar agora no You Tube. Uma viagem no tempo em forma de pesadelo. E nós que tanto desejáramos encontrar antigos guerrilheiros de porte enérgico e uniforme de partisan, se possível de cartucheira a tiracolo, prontos a esmagar «o imperialismo e o social-imperialismo», empenhados em dar-nos a força da qual tanto precisávamos para resistir à longa ressaca do 25 de Novembro! Creio que o meu entusiasmo esmoreceu logo ali um bom pedaço. E meses depois tinha-me convertido num «independente de esquerda» um tanto problemático. Graças, em parte, à falta de graça dos camaradas albaneses. A juventude não perdoa. Na época dir-me-iam que a «ideologia de classe» também não.
Falo um pouco de futebol, que é de momento aquilo que nos vale para não entrarmos todos em depressão profunda. O senhor António José Conceição Oliveira, mais conhecido por Toni, antigo jogador e treinador de futebol e figura pela qual até mantinha uma certa simpatia, foi contratado pela selecção da Costa do Marfim para informar o seu Mister – Sven-Goran Eriksson, o conhecido cidadão sueco que foi em tempos anunciante da aguardente Macieira – dos prós e dos contras da equipa portuguesa. Não se trata de uma ligação profissional prévia, que imporia naturalmente deveres de lealdade, mas sim de um contrato recente, feito de propósito para quem o assinou vender informações ao inimigo e trair a sua pátria. Temos pois, finalmente, o nosso Kim Philby. Ou um novo Miguel de Vasconcelos. A escolha é vossa.
«Já há reais motivos de conflito suficientes e não precisamos de lhes juntar mais um, incentivando alguns jovens a darem caneladas uns aos outros, por entre os urros dos espectadores em fúria.» [Tribune, 14/12/1945]
Os invernos poderiam ter sido menos rigorosos, menos tristes as viagens de comboio, menos previsíveis os desfiles do Maio. Teríamos crescido a cruzar pacificamente as cidades dos irmãos Vesnine, a viver com os quadros de Altman, os poemas de Tsvetaeva e de Akhmatova, os compassos menos previsíveis de Chostakovitch. Aragon não teria cantado o cavalo metálico sob as chaminés poluentes de Magnetogorsk. Barbusse teria permanecido um desconhecido para os nossos avós. Eisenstein teria filmado grandes planos de gargalhadas e de mãos a acariciarem-se. Ter-se-ia fundido menos bronze para robustecer as estátuas. Não teriam ressoado gritos nocturnos pelos corredores da Lubianka. Teria corrido menos gelo pelas almas e ter-se-ia notado mais ruído pelas ruas. E provavelmente o socialismo seria hoje uma expressão de humanidade tão calorosa e natural quanto o amor, a felicidade ou a compaixão.
Uma agência de rating como a Standard & Poor’s, «com escritórios em 23 países e uma história de quase 150 anos», bem pode andar a tentar tramar-nos, procurando mostrar ao mundo inteiro que estamos no ponto para seguir o desgraçado exemplo grego. A verdade, porém, é que estamos em 3º lugar no ranking da FIFA – logo a seguir ao Brasil e à Espanha, bem acima da vil Alemanha, a muitas milhas dos checos – e por isso as coisas não estarão assim tão mal quanto essa gente maldosa pretende fazer crer. Apertaremos o cinto até ao último furo, mas com um sorriso nos lábios e a bandeira nacional pendurada na varanda.
Como não evocar por estes dias de lava, fumo e cinza o vulcão Sneffels, instalado na península de Snæfellsnes, a 120 quilómetros de Reiquejavique, cuja cratera, majestosa e temível, nos foi revelada por Júlio Verne como «boca do mundo», a única passagem possível para as profundezas abissais do planeta? Por ela desceram, na Viagem ao Centro da Terra, o jovem e ingénuo Axel, o geólogo Dr. Otto Lidenbrock, seu mentor, e Hans, o atlético caçador islandês, iniciando um périplo de cinco mil quilómetros de espantos, perigos e maravilhas, pela terra oca e o oceano interior, até retornaram à luz do Sol. Expelidos do outro lado do mundo, na companhia de gazes sulfurosos e magma, pela abertura incandescente do Stromboli.
Nota – O bloguista é um fingidor. Não, este post não me foi ditado só por uma brusca evocação das leituras dos onze ou doze anos. Foi ainda Vila-Matas quem me fez voltar ao Sneffels e a duas grandes tardes de inverno passadas na companhia de Verne.
Hoje, enquanto passava imagens de um espectáculo de Nuno da Câmara Pereira em Dili – para uma plateia visivelmente pouco motivada e com ar de frete – a RTP1 fazia correr em rodapé, com insistência, uma frase que continha um lamento: «ouvir o fado em Timor-Leste ainda é coisa rara». Presume-se pois que um dia, quando forem «desenvolvidos», os timorenses verdadeiramente castiços terão em sua casa, ao lado do aspirador eléctrico e de uma televisão com 183 canais, um pucarinho com tintol do bom, um miniatura da «águia» Vitória e uma guitarra portuguesa. E Câmara Pereira ofuscará Cristiano Ronaldo no entusiasmo do povo.
«Attraverso la loro musica quei quattro ragazzi di Liverpool, splendidi e imperfetti, sono stati capaci di leggere e di esprimere i segni di un’epoca che a tratti hanno persino indirizzato, imprimendovi un marchio indelebile.»
Lembro-me bastante bem. Há quarenta e quatro anos, as minhas pré-borbulhas regurgitavam de emoção porque John Lennon proclamara serem os Beatles mais famosos do que Jesus Cristo. Não sabia para que servia uma afirmação daquelas, mas soava-me bem: queria dizer que «nós, os jovens» estávamos a caminho de tomar o mundo, e que o Nazareno escanzelado e barbudo, já na altura com uns provectos 1966 anos, estava decididamente «velho» e deveria aposentar-se. Claro que a Igreja Católica Apostólica Romana não reagiu de forma tão entusiástica e resolveu tratar mal as Quatro Cabeleiras do Após-Calipso. A partir dessa altura, quem assobiasse «Strawberry Fields Forever» candidatava-se a viver até à eternidade ao lado de Lúcifer, com os pés nus bem assentes num tapete de brasas.
Pois agora, tanto tempo depois, e com dois dos Beatles já arrumados e os outros de mala aviada, L’Osservatore Romanodecide prestar tributo às suas «belas melodias», concedendo o seu perdão aos antigos guedelhudos. Procura mostrar-se convincente: «sim, eles drogavam-se […] e tiveram vidas dissolutas», mas agora «ao ouvir as suas músicas, tudo isso parece distante e sem importância». A Igreja católica passou assim a amar os Fab Four e as «jóias preciosas» que são as suas músicas. E já quase podemos imaginar o Papa, de iPod e earphones nas Santas Orelhas, a bater o pé com o seu sapatinho vermelho Prada enquanto cantarola «Yesterday». Não sei porquê, este aggiornamento 2.0 soa-me a farisaísmo. Sim, porque a melhor forma de Roma se penitenciar por mais esse «erro de percepção» não é, de novo, batendo no peito em acto de contrição. É, ou deveria ser, evitando repetir a falta de capacidade para perceber na devida altura, de forma aberta e tolerante, os anseios, as expectativas e os problemas do mundo actual. E desses continua a Igreja católica, frequentes vezes, a procurar esquivar-se. Como o Diabo da cruz.
Além de se servir de uma fotografia minha com menos dez anos e mais dez quilos (não é gralha), a editora Angelus Novus deturpou completamente as minhas respostas a um inquérito sobre a Coca-Cola. Padeço de Doença do Refluxo Gastro-esofágico – Bill Clinton também – e não devo por isso consumir bebidas gaseificadas. Solicito pois que não tomem demasiado à letra o que aqui se pode ler. Principalmente as supostas graçolas, pouco condizentes com o meu perfil severo e comedido. Assaz, diga-se de passagem.
Ainda mal que pergunte, mas por que razão apoiar Manuel Alegre para PR – até instruções em contrário da minha consciência, será isso que farei – requer transformar o mesmo em Vate da Pátria? Do ponto de vista literário, Alegre é um conservador e escreve, muito classicamente, sobretudo coisas «bonitas» (para determinados gostos, not mine) e «com mensagem» (algumas delas foram importantes para muitas pessoas, inclusive para mim). Ficará, sem dúvida, num parágrafo da História da Literatura Portuguesa. E terá sempre quem goste de o ler. Mas daí a ser cantado e decantado como um Juan Manuel Fangio da pena vão umas quantas voltas ao Circuito de Monza…
Pensei ter entrado na quinta dimensão. Li o título da nota noticiosa sobre o perdão concedido a Jesse James e por momentos julguei tratar-se da revisão do rico registo criminal do bem sucedido (com o gatilho) bandido do Missouri, abatido à má-fila por um traidor em Abril de 1882. Afinal tratava-se apenas do perdão de Sandra Bullock ao trastalhão do marido, homónimo do fora-da-lei, que se tem andado a divertir à grande, benza-o Deus, com uma tal de Michelle «Bombshell» McGee. Os mergulhos no passado têm-me distraído um pedaço das coisas importantes.