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Casa Grande e Sa(e)nzala

É provável que alguém ainda hoje encontre glamour na história da gata borralheira. Pessoas que vivem de romantizar o passado, leitores da Hola ou da Nova Gente, candidatos a uma promoção social rápida através de concursos televisivos ou figuração em novelas. Olhar o comércio das relações como via possível para uma vida melhor ou alguns minutos de fama. Mas encontro uma infinita tristeza no testemunho transcrito hoje pela revista Pública em artigo sobre o parque termal do Vidago. Corriam os anos 40, recorda uma então jovem frequentadora das pensões «mais em conta» da localidade: «Quando havia bailes no Palace não podíamos entrar, mas nós trazíamos toilettes, vestido comprido, salto alto, e os rapazes vinham todos do Palace para a nossa beira e dançávamos à volta do lago.» Predadores descendo as escadaria do hotel disfarçados de príncipes encantados. A desigualdade como normalidade. Era isto também o salazarismo e a vida na província.

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    A velhice de Sciascia

    A velhice de Sciascia
    Um dos primeiros sinais do envelhecimento mostra-se na relação com os processos de mudança. O inexoravelmente envelhecido – seja uma pessoa ou um sistema de ideias – revela uma dificuldade crescente em incorporar as imagens, os acontecimentos, os gestos que não tiveram lugar na fotografia imutável do seu pacto inicial com o mundo. Mede então os sucessivos presentes pelo grau de proximidade ou de semelhança com o modelo original. A partir de um certo limiar, essa teimosia passa a alimentar um processo incontornável de fuga perante o real, o qual deverá moldar-se forçosamente às suas expectativas. Trata-se de um trajecto que se repete de forma dolorosa, legando ao presente os sinais da decadência e acelerando os passos para a irrelevância.

    Uma recente revelação reafirmou-me este elo. Uma leitura deste verão – Cosa Nostra. História da Máfia Siciliana, de John Dickie (Edições 70) – mostrou-me o especto da velhice de Leonardo Sciascia. Quando do combate dos juízes Falcone e Borsellino contra a relação entre o crime organizado e o poder político em Itália conduziu, pela primeira vez, à possibilidade de desmantelamento efectivo da organização siciliana – facto que determinaria o assassinato dos dois juízes em 1992 – Sciascia, já velho e bastante doente, insurgiu-se contra o trabalho de ambos por este colocar em causa a imagem sobre a qual, ao longo de toda a vida, havia efabulado a sua ilha natal. Escreveu então no Corriere della Sera: «Quando me insurjo contra a máfia isso também me faz sofrer, porque dentro de mim, tal como dentro de qualquer siciliano, ainda está vivo um resíduo de mafioso.» Via assim o desmembramento daquela organização «como uma cisão, uma laceração.» Desta maneira, em nome do mundo que muitos anos antes concebera como seu, e cujos fundamentos estavam a ser abalados por um volume de informação sem precedentes, o autor de O Dia da Vergonha – com muitos outros escritos seus um elemento central de formação da consciência internacional anti-máfia que nos anos 80 transformara a série televisiva O Polvo num êxito de audiências e o comissário Corrado Cattani num herói do imaginário europeu – Sciascia recusou mudar e preferiu sair coerentemente deste mundo, concebendo-o como sempre fizera. Um fim triste e, infelizmente, muito comum.

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      Cuba, hoy

      Fidel
      Directamente dos cuidados intensivos, reclamando capacidades que estão para lá do humano, Fidel «fala» de si próprio e do lado visível da doença aos compatriotas e simpatizantes de todo o planeta. Não se esquece de deixar claro que, apesar das hemorragias e do peso dos anos, permanece «atento a tudo o que se passa». O que pode espantar é a forma como a generalidade dos meios de comunicação aceita este logro sem pestanejar, veiculando-o como notícia e não como o acto de propaganda e de prestidigitação que é. Nas consciências dos que dele não retiram senão o valor simbólico e o impacto mediático, o «mito cubano» guarda ainda uma grande parte da sua força e antigo sortilégio. Se retirarmos os gusanos de Miami, ninguém parece particularmente satisfeito com o triste cenário que envolve agora o velho comandante dos barbudos.

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        A meretriz e os alquimistas

        Singular preocupação tem retirado o sono aos naturais da minha cidade. A razão parecerá fútil, mas é séria: sabendo-se que o equipamento tradicional da sua principal equipa de futebol é negro com os números dos atletas gravados a branco, uma imposição comercial acaba de impor o dislate de transmutar o branco em ouro. E se, do ponto de vista cromático, o branco implica tanto a soma como a ausência de todas as cores, balanceando simbolicamente entre a força do dia, a pureza e a pulsão da morte, já o dourado evoca a autoridade e o fogo purificador. O que não é obviamente a mesma coisa. A ordem natural do mundo – à escala local, naturalmente – está assim posta em causa, tendo por isso um antigo vice-presidente do clube escrito em artigo publicado, dando voz à aflição dos conimbricenses, que ao permitir-se a inserção dos números dourados nas camisolas da Académica estará esta «a prostituir-se». A força do argumento irrompe então, esmagadora: «com esta medida, fica claro que a Briosa está à venda e que no deliberado conspurcar da sua centenária e prestigiadíssima camisola está a leilão também a sua ‘alma’ de instituição sui generis, ora metamorfoseada em banal meretriz, que sobe o desce a saia, sem pudor ou vergonha, ao sabor das suas conveniências e necessidades financeiras». Argumento que, sem dúvida alguma, se revelará incontroverso.

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          Lobos e cordeiros

          Sugeri aqui, há alguns posts atrás, a leitura de As Identidades Assassinas, do cristão-laico libanês Amin Maalouf. Livro que deveria iluminar, se é que ainda permanece iluminável, a consciência crítica de alguns militantes da esquerda ocidental, capazes de continuarem a considerar o Outro islâmico – provindo de um Islão peculiar, maioritariamente violento e intolerante nas actuais circunstâncias históricas – como integrando uma espécie de comunidade angélica à qual todos os «pecadilhos» devem ser perdoados. Do lado oposto, apenas seres dotados de chifres e patas de bode – os israelitas, claro, todos eles – comandados à distância por um senhor sinistro de barbicha, chapéu alto e sobrecasaca azul. Regresso ao livro para sublinhar, a propósito, uma frase de Maalouf: «Quando atribuímos o papel de cordeiro a uma determinada comunidade e o de lobo a outra, o que fazemos, da nossa parte, é conceder adiantadamente a impunidade aos crimes de uma delas». Visão simplista, unilateral, que será sempre sinal de uma perigosa cegueira. Sobretudo quando, confundidos o rebanho e a alcateia, se torna difícil distinguir as espécies.

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            «Desculpe lá, usted!»

            Parece-me boa a ideia de reexaminar os restos do rei fundador em condições científicas completamente diferentes daquelas que existiam no tempo de D. Miguel, senhor absoluto, quando pela última vez, num gesto de patriotismo mórbido, se procedeu à sua exumação. Para além dos possíveis resultados poderem satisfazer alguma curiosidade – o que me parece motivo mais do que suficiente para avançar com a pesquisa – eles podem vir também a constituir um factor de revisão da história pátria. Este segundo aspecto é, porém, justamente aquele que levanta mais objecções a quem possua do nosso passado comum uma concepção essencialmente sacral e povoada de mitos a preservar. Foi por isso que o médico legista Pinto da Costa, que passou parte da sua vida a remexer em cadáveres, fez conhecer a impressão que esta iniciativa lhe faz, uma vez que, para ele, «a verdade histórica está na estátua frente ao castelo de Guimarães». Já o arqueólogo Claúdio Torres sublinha a importância do mito afonsino como forma de «fundamentar o amor à pátria», defendendo um cuidado extremo nesta matéria. Um responsável do IPPAR, citado pelo Público, refere ainda o pudor necessário perante «os restos mortais de um chefe de Estado» (já agora, como se, ao tempo do rei Afonso, Portugal existisse enquanto Estado, e não como o singelo aglomerado de fidelidades vassálicas que era!).

            Por mim, acharia muito interessante que o conhecimento científico comprovasse o mito, o que quase seria como se de repente me confirmassem que Robin Hood existiu de facto. Mas consideraria ainda mais estimulante que me viessem agora dizer que D. Afonso Henriques tinha 1 metro e 60 de altura, as mãos pequeninas, uma completa ausência de sequelas físicas da guerra e, quiçá, traços não-caucasianos. Teríamos então de reconstruir a nossa memória colectiva, o que não deixaria de ser um bom exercício para a imaginação. E, muito provavelmente, o presidente Silva ver-se-ia forçado, por uma questão de honestidade, a enviar a Don Juan Carlos de Borbón y Borbón uma carta pedindo desculpa pelo enorme equívoco no qual andámos a marinar durante estes últimos 860 anos.

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              Operários-leitores

              No inverno passado acordava sobressaltado, de segunda a sexta-feira, impreterivelmente às seis menos um quarto da manhã. Por essa hora de bárbaros, despertava-me a buzina de uma carrinha que passava para transportar os vizinhos ucranianos do 2º andar (ou russos, jamais saberei) até uma qualquer obra da periferia. Já desperto, levantava-me às vezes, e, por detrás da cortina, espreitava-lhes as sombras: apenas homens, os gorros até às orelhas, os pés batendo no chão para afastar o frio, vozes incompreensíveis numa algazarra imprópria para os suburbanos que, como eu, procuravam ainda dormir mais um pouco. Devido à incompatibilidade dos horários nunca nos cruzámos. E fui-me acostumando à invisibilidade da sua presença. Até ontem, quando vi que estavam de partida. Reparei então, empilhadas no elevador e à entrada do prédio, em caixas e caixas cheias de livros amorosamente embalados, grossos volumes de capa dura com títulos em cirílico, revistas com um grafismo estranho mas cuidado, dossiês com recortes de jornais – abri um rapidamente, sem que me vissem, apenas para confirmar se eram mesmo recortes de jornais – que os haviam acompanhado até aquele lugar para eles distante. Mais livros e papéis, muitos mais e mais bem tratados, posso garantir, do que aqueles com os quais tenho deparado nas casas de muitos portugueses com título académico e horários suaves.

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                O diletante

                Escreveu Eça, na Correspondência de Fradique Mendes, que o diletante «corre entre as ideias e os factos como as borboletas correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo». No mundo em busca de explicações plausíveis, atribui-se-lhe sempre uma etiqueta de má-nota. O Houaiss diz mesmo que ele exprime uma «atitude imatura, de amador, em relação a normas de ordem intelectual ou espiritual». Mas se o diletante, como a borboleta, pousa aqui e acolá de forma aparentemente gratuita, é porque procura alguma coisa. E achando-a, nunca a rejeita. Conhece por isso mais coisas, e escolhe melhor aquelas que deseja.

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                  Ópio do povo

                  Em entrevista ao suplemento Mil-Folhas, Ali Ahmad Said Esber, o poeta sírio de pseudónimo pagão (Adónis), declarou não existir futuro sem laicidade: «O que complica o progresso, em relação à religião, é que enquanto fé real, revelação, terminou há muito tempo, está acabada. O que chamamos religião é hoje uma ideologia política». Acrescentando uma evidência: «É possível discutir com um homem de fé, mas com um homem que transformou a sua fé religiosa em ideologia não se pode discutir». Uma boa mensagem para entregar aos nossos cegos ensandecidos, que confundem as tiranias sinalizadas pela bandeira do crescente com os destinos de um mundo islâmico imenso, diverso e afinal tangível.

                    Apontamentos, Democracia, Recortes

                    Dormires

                    soneca
                    Não me espanta a ausência de resposta visível às iniciativas da Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta. Sei que, há meses atrás, esta ainda conseguiu reunir em Estremoz uma «Conferência Nacional», na qual um dos presentes elogiou a sua prática como «postura natural e salutar, restauradora de energias», renegando o seu entendimento como «vício de preguiçosos e de fuga ao trabalho». Não espanta, por isso, que a maioria dos portugueses se alheie da causa. «Legalizar a sesta?», pensamos logo, indignados. «Mas perdia toda a piada!» É muito mais estimulante roubá-la ao chefe, dormi-la num intervalo do trabalho, deslocá-la no horário para quando der jeito, transformá-la numa informal soneca consumada por aqui ou por ali. É-nos, por isso, profundamente estranha uma atitude como a tomada pela selecção espanhola de futebol, que no Mundial da Alemanha decidiu acordar mais cedo para poder fruir todos os dias da indispensável siesta. Por algum motivo, de facto, a história nos separou.

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                      Mater Dolorosa

                      peregrinos
                      Perto de 400 mil peregrinos em Fátima, que a RTP arredonda sem problemas para meio milhão (o que serão afinal, perante Ele, a Eternidade e a Salvação, 100 mil e tal almas a mais ou a menos?). É tempo de crise e de instabilidade, a gasolina sobe que nem uma perdida, o poder de compra diminui todos os dias, as reformas apertam, há desemprego a mais, cartas registadas com multas de trânsito para pagar, fumos de um terrorismo global, doenças esquisitas, a crise da agricultura, o escândalo dos selos, guerras em directo, e, entre tanta desgraça, Nossa Senhora de Fátima prefigura-se sempre como um investimento seguro, recurso dos aflitos, padroeira do destino pátrio e, ao mesmo tempo, amável protectora de cada um.

                      Compreende-se, pois, que um grupo de Lamego tenha declarado encontrar-se no «altar do mundo» para que o governo «não acabe com a Maternidade» lá na sua terra. Ou que jovens a tresandar a feromonas declarem, entre risadas, estarem ali para cantarem «a alegria da fé». Como se entende a quantidade de pessoas saídas de um país profundo, homens de colete, mulheres de lenço à cabeça, desempregados, vultos sem glamour que não aparecem nas novelas, nem se vêem nos centros comerciais ou nas praias da moda, que não viajam em comboios de alta velocidade e se não encontram sequer nas auto-estradas, que não desfilam em manifestações, mas que falam baixinho nas salas de espera dos hospitais, que conduzem carroças aos sábados à tarde por estradas secundárias, que andam de camioneta e a pé, que fazem férias fechadas em casa e não podem prever o que lhes irá acontecer amanhã. É justo, sim, que, solidárias num Ave Maria em uníssono erguido aos céus, se reúnam em Fátima, pés doridos, joelhos em ferida, lágrimas à vista, lenços brancos a acenar. E a certeza na protecção infinita de um sorriso maternal. Pouco importa que ele lhe apareça moldado em porcelana, pairando sobre uma nuvem de pétalas de flores, notas de 10 euros e garrafinhas de água-benta. Tem sido mais ou menos assim desde 1917.

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                        I de emancipação


                        A passagem doo 150º aniversário sobre o nascimento de Sigmund Freud tem servido a publicação de estudos, sínteses, polémicas ou entrevistas sobre a origem e os sentidos da psicanálise. Pelo menos nas partes do mundo nas quais a sua obra não é já objecto de um tabu científico. Nada de particularmente novo, numa área do conhecimento que, desde o seu nascimento, se transformou em terreno de intrincados debates e duras controvérsias. Não deixa, no entanto, de parecer algo estranho que, tantos anos após a saída de A Interpretação dos Sonhos (1899), os preconceitos, mal-entendidos e simplificações acerca do sentido das hipóteses e das descobertas freudianas permaneçam tão vivos. É assim, por exemplo, que num dossiê recém-publicado pela revista Visão, diversas personalidades lusas revelem esse lado não fundamentado, marcado até por toques de uma agressividade contida, de uma abordagem preconceituosa da «ciência do divã». Por outro lado, muitos dos seus defensores assumem repetidamente posições de um apaixonado parti pris, como tal quase sempre com um envolvimento pouco crítico.

                        Aquilo que se pode dizer é que a obra de Freud trouxe consigo um dos três grandes «Is» por intermédio dos quais, na viragem do século XIX para o XX, o edifício racionalista e cientificista, que a Europa reconhecera como dominador nos duzentos anos anteriores, começou a ser abalado. Ao instinto de Nietzsche e à intuição de Bergson, Freud juntou a integração de um novo continente humano – sediado no inconsciente – que contribuiu em larga escala para a reavaliação da subjectividade e para a abertura de novas possibilidades no domínio da criação. «Is» que integram hoje o património cultural da humanidade e são elementos centrais da emancipação do sujeito e da afirmação da liberdade individual.

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                          Louvor da aceitação

                          António Vieira, lisboeta e baiano, jesuíta por via do «estalo» (palavra sua) que sofreu aos 15 anos de idade, colocava a rigorosa e imutável planificação dos destinos, determinada pela Providência que d’Ele emanava, muito acima de qualquer possibilidade de refutação. Nada de particularmente notável para o seu mundo de fés temidas e inquebrantáveis, como para um homem com as funções que foi exercendo ao longo da vida. Fazia-o porém, como é público, com uma peculiar desenvoltura. Ei-lo no ano de 1654, em plena forma, durante o Sermão de Santo António que pregou no convento nordestino das Mercês, sito em S. Luís do Maranhão: «Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes.»

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                            Fulgor e sombra

                            playing
                            Dois dias e meio no CCB, preenchidos por 115 concertos onde é possível escutar A Harmonia das Nações. Bach, Couperin, Handel, Purcell, Rameau, Scarlatti, Telleman, Vivaldi, Soler, ou Francisco António de Almeida e Carlos Seixas, numa embriaguez permanente de notas e de timbres. Um fulgor barroco – associado, por Luigi Russo, a «crise de valores, tensão so­cio-politica, instabilidade, evasão onírica, mag­nificência, crueldade, sentido do efémero, osten­tação, hipocrisia, voyeurismo, preciosismo, angús­tia, extravagância, gosto do horrível, hipérbole, utopia, artifício, luxúria, thanatos» – em tempos sombrios que se diriam mais de cantochão.

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                              De espaldas

                              Lola
                              Espanholada‘, dizem os melhores dicionários da língua mátria, é ‘fanfarronice‘, ‘jactância‘. É o ‘exagero‘, a ‘hipérbole‘, aquilo que perturba, pelo ruído ou pelo excesso, a sensibilidade de um povo de costumes pouco ruidosos. Como por ‘espanholar‘ se entende esse pícaro «gabar-se de façanhas pouco verosímeis». Gente como nós, portugueses suaves, treinados desde o ovo «a controlar as emoções, a cuidar das maneiras» (assim se nos pudicamente refere Federico J. González, autor de umas Reflexões de um Espanhol em Portugal), não poderia ter produzido um Cervantes, um Goya, uma Dolores Ibarruri, um Cordobés, uma Lola Flores, um Almodóvar. Mesmo uma Isabel Pantoja. Ou, valha-nos Deus, um Zapatero. E jamais deixa de estranhar as suas inquietantes espanholadas.

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                                África deles

                                Serpa Pinto
                                Jamais saberemos aquilo que resultará menos humilhante para a relação entre uns e os outros: se a antiga definição como exemplar do olhar ingénuo e predador dos exploradores da primeira vaga, se a exibição de frio calculismo do corpo de cavalaria empresarial por intermédio da qual a gerência da república procura agora promover o retorno das lusas gentes à África dos africanos.

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                                  Cliché Itália

                                  A história da Itália – seja ela a da península conquistada pelos romanos, a da grande nação pulverizada durante séculos ou a do Estado ressurgido ao longo de Oitocentos – encontra-se, tal como a história de todos os povos, manchada tanto pelo excesso e pelo crime quanto pelo heroísmo e pela crença. Apesar deste grau de normalidade, a imagem estereotipada que transmite e com a qual envolve os seus naturais, é em regra simpática e positiva. A beleza panorâmica e a da maioria dos seus habitantes – apenas comparável, para um certo padrão de gosto, à da Croácia e à dos croatas – é associada a um património artístico e monumental esmagador, a uma literatura ágil e envolvente, a um cinema eternamente dinâmico, a prodígios de design, ao bom-gosto das roupas e do calçado, à comida e aos vinhos inesquecíveis. Bem como a uma certa bonomia das atitudes que foi até capaz de amaciar a dureza fascista (se a compararmos com a rigidez nazi-alemã), de integrar como parte do folclore os crimes mafiosos, de combinar o catolicismo dominante com a licenciosidade da moral e dos costumes. Os próprios comunistas italianos sempre foram, aliás, comunistas suaves. O sistema político, tradicionalmente moralista, incorporou sem se desmoronar figuras como a pornstar Cicciolina ou o travesti Vladimir. O futebol ganha títulos jogando à defesa, na combinação de uma irritante falta de coragem com souplesse e incríveis golpes de sorte. O «italiano» que imaginamos tem sempre qualquer coisa de capitão Bertorelli, da série Allô! Allô!, falando alto, sorrindo cúmplice, não se levando muito a sério. A «italiana» que concebemos é sempre uma Lollobrigida, morena, esbelta, sensual. Não será pois estranho que, entre tanto estereótipo, seja fácil encaixar o diálogo do anúncio no pobre debate político em curso, com Berlusconi dizendo «mas é a pasta!» e Prodi retorquindo «mas não, é o molho!». Pode ser que de tudo isto irrompa uma manhã qualquer coisa de menos previsível.

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                                    Uma noite em Xangai

                                    As autoridades da República Popular da China, que a maioria dos governos ocidentais constantemente bajula apesar dos graves e constantes ataques às liberdades fundamentais e aos direitos dos trabalhadores – tal como lhes admite a prática ininterrupta de crimes económicos e ambientais em escala planetária – acabam de proibir os Rolling Stones de incluirem algumas das suas canções no concerto que vão dar em Xangai. Brown Sugar, por exemplo. Ou Honky Tonk Woman. Ou Let’s Spend the Night Together. Os nossos relativistas baterão palmas, claro, venerando as respeitáveis condições da especificidade cultural chinesa. Sir Mick Jagger, sabendo muito bem que na China os Stones não são propriamente um fenómeno de massas, foi apenas irónico: «”I’m pleased that the Ministry of Culture is protecting the morals of the bankers and their girlfriends that are going to be coming.»

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