Apesar das naturais incompatibilidades da atitude surrealista original perante a moral e a estética do leninismo e do comunismo soviético – as quais levaram Aragon, Pierre Unik, Éluard e Tzara, a abandonarem as suas convicções originais para deixarem de ser simples compagnons de route e se tornarem militantes – é conhecida a fugacidade da aproximação de André Breton ao PCF . Mas nunca entendi o motivo directo que o terá feito entrar por uma porta e logo sair pela outra. Ora acabo de sabê-lo por leituras travessas: em 1932, na primeira e única reunião da Associação de Escritores e Artistas Revolucionários em que participou, destinaram-lhe nada mais nada menos que a tarefa de redigir um relatório minucioso sobre a indústria italiana do carvão.
O programa de rádio Antena Aberta, de Eduarda Maia (Antena 1), resolveu esta manhã colocar em debate as recentes declarações públicas de Saramago propósito da utopia, ciclicamente retomada por uns quantos quixotes, de uma Ibéria una e plural. Para que não existam dúvidas, declaro que, nas suas linhas mais gerais, a ideia do escritor colhe a minha simpatia. E a de um ou outro ouvinte também. Todavia, a larga maioria dos participantes interveio, de uma forma excessiva e exaltada, em sentido contrário. A culpa do tom, claro, é deste tipo de programas, que dá voz a qualquer huno e nem sempre introduz na conversa alguma pedagogia da tolerância. Por isso, não estranhei ouvir um cozinheiro do Porto bradar que «não podemos ofender a gesta dos nossos maiores», nem «afrontar os mártires que permitiram dignificar o solo pátrio» (não estou a inventar!). Imagino o senhor – pela conversa, um homem dado aos clássicos – de panela inox na cabeça e com o garfo dos fritos em riste, «dando a vida, se preciso for», rua a rua, copa a copa, sob a inspiração da padeira Brites, na guerra de guerrilhas contra os malditos castelhanos.
Mas estou convencido, ao conviver habitualmente com gerações mais recentes e razoavelmente cosmopolitas, que são cada vez menos os portugueses que olham o país do lado como aquele território inóspito, selvagem, Arizona fronteiriço a cruzar a galope até se começar a ouvir distintamente alguém que se expresse em francês. Quando conto aos meus alunos espanhóis sobre o ditado «vindo de Espanha, nem bom vento nem bom casamento», ficam espantados, uma vez que se habituaram – eles, os pais e os avós deles – a ignorar Portugal, ou, como lembra Buñuel na autobiografia, a considerá-lo país «mais distante de nós que a Índia». Por sua vez, muitos jovens portugueses desconhecem já a simples existência da referida sentença, o que não deixa de ser bastante saudável.
Para os mais velhos, no entanto, não era assim. Desde 1640 que os espanhóis – não diferenciando galegos de aragoneses, ou andaluzes de naturais de Castilla-La Mancha – são inimigos potenciais, seres diferentes, excessivos e um tanto conspícuos. E o Estado Novo apenas acirrou os ânimos. Em 1960, Francisco da Cunha Leão, na obra O Enigma Português, trata-os mesmo, depreciativamente, como gente «indiferente à natureza cósmica», e «extremada nas práticas do amor e da sexualidade». Talvez por isso, sei de várias raparigas a quem foi recusado alojamento depois das honestas senhorias dos quartos que elas pretendiam arrendar as terem ouvido comunicar naquela língua cantada e sobrecarregada de guturais.
A Ibéria será pois uma nova ilha inalcançável nos tempos mais próximos. Jamais a península que habitamos. Da minha parte, confesso aqui que faço sempre por me livrar primeiro das moedas de um e de dois Euros com a efígie do rei Juan Carlos no verso. Mas isto nada tem de antiespanholismo atávico. Bem pelo contrário! Simplesmente o Bourbon tem aquela cara de toureiro, o que, falando numa dimensão meramente ética e artística, me repugna um pouco, pois tendo a simpatizar muito mais com o toiro. E além disso sou republicano.
O mais bem-humorado título relacionado com a apresentação dos novos equipamentos cor-de-rosa do «clube da águia» – e que brinca também com os comentários, de tonalidade explícita ou veladamente homofóbica, que sobre o tema têm circulado sobretudo na blogosfera – saiu no Inimigo Público desta semana. Sugere apenas o lamento desesperado e triste – «Ai mulher, que o Benfica saiu do armário!» – do «bom chefe de família» lusitano.
Existe um livro de João Martins Pereira – No Reino dos Falsos Avestruzes, editado em 1983 pel’A Regra do Jogo – que, apesar de visivelmente datado sempre que refere determinados aspectos da vida política portuguesa da época, merece ser revisitado com alguma atenção, suscitando o reencontro com um padrão de reflexão política hoje praticamente inexistente. Quase ao acaso, dou de caras com uma frase sublinhada naquela altura: «A banalização do adjectivo «utópico» num sentido pejorativo não deveria impressionar nem complexar a Esquerda; foi a Direita que, ao pretender-se realista e pragmática, lhe lançou essa armadilha». Nesse mesmo ano, Tony Blair entrava pela primeira vez para o Parlamento britânico: o resto da história é conhecido.
Nascida em Subiaco, uma aldeia perdida do Lázio interior, e filha de um pacato carpinteiro local, Gina Lollobrigida teve uma vida mais luminosa e movimentada que a das suas amigas de infância. Em 1947, com 19 anos, foi dama de honor, ao mesmo tempo que Gianna Maria Canale, num extraordinário concurso de Miss Itália ganho por Lucia Bosé. Um busto «generoso», como era modelar na época, uma voz aveludada, associados a algum talento para representar, iriam guardar-lhe um lugar, cativo e universal, nos devaneios nocturnos de muitos machos de diferentes gerações. A Lollo apoderou-se rapidamente da imagem de Gina, ao ponto de a maioria dos cerca de 70 filmes que interpretou terem sido realizados à sua medida. Foi também rainha dos calendários para motoristas de longo curso, a pin-up possível das páginas do Século Ilustrado, modelo subliminar dos desenhos do humorista José Vilhena, madrinha putativa de uma conhecida revista erótica «para homens». E inspirou até, por aquela «ser um navio muito bonito designadamente na convergência das linhas de proa e do convés», a alcunha da antiga fragata Pero Escobar, com direito a fotografia autografada na Câmara de Oficiais, pendurada ao lado do retrato do Presidente da República. Gina, a Lollo, faz hoje 80 anos, e convém agradecer-lhe.
A praga das televendas e afins acaba de ultrapassar a última barreira do inacreditável. Recebi há minutos, em casa, provinda de um número telefónico não identificado, uma insistente proposta – «mas se o senhor não pode agora, qual a melhor hora para podermos conversar?» – para me tornar sócio… da DECO!!! Sim, estou a falar do «Instituto Português para a Defesa do Consumidor». E agora a quem me poderei queixar?
Aproveito para relembrar este post, escrito há cerca de um ano, e que na altura passou quase despercebido.
Faço parte de uma minoria. Aquela que hoje é composta, pelo menos na metade ocidental do hemisfério de cima, pelas pessoas que têm o hábito de fumar. Mas dentro dessa minoria, pertenço ainda a uma outra. Uma subminoria, chamemos-lhe assim. Ela integra os que fumam sem ser por vício – queimo cinco ou seis cigarros por dia, mas sou perfeitamente capaz de passar dias sem fumar – e apenas o fazem por prazer ou por um hábito cultural. Sei que somos cada vez menos e não vejo mal algum nisso: ainda bem também há cada vez menos pessoas a fumar. Mas não posso deixar de lamentar a legislação pesada e autoritária (e um tanto fascistóide) que hoje mesmo a Assembleia da República vai aprovar. Porque ela implica com a minha identidade cultural e uma dimensão de liberdade individual que agora vejo coactada. Ainda que, naturalmente, aceite restrições razoáveis que favoreçam os não-fumadores (há uns bons dez anos, por exemplo, que deixei completamente de fumar em aulas e reuniões).
Por tudo isto me incomoda particularmente uma posição como aquela expressa por um articulista que o Público coloca hoje ao mesmo nível de Vasco Pulido Valente (partindo embora de um ponto de vista radicalmente oposto). Declara ele a dado passo que nada custará a um fumador prescindir do seu cigarro nos escassos 15 minutos em que possa parar algures para tomar um café. Para mim, porém, é mesmo aí que bate o ponto: acontece que existem pessoas que não «passam» apenas uns minutos por um café, entre duas tarefas de um quotidiano de permanente stress, mas que «vivem» horas em cafés. Para conviver, trabalhar ou, simplesmente, para olhar para anteontem, opção que me parece democraticamente aceitável e que os desempregados conhecem muito bem. Trata-se de uma marca cultural que o ocidente foi construindo pelos menos desde os inícios do século XVIII e que, em outras partes do planeta, mantém ainda alguma pujança civilizacional. Mas isto, certa gente, perdida nos seus intermináveis projectos e balancetes entremeados por «um cafezinho», simplesmente não entende.
Os quatro cidadãos acusados de ter agredido Francisco Assis, o ex-presidente da distrital do Porto do PS, em Maio de 2003, declararam hoje no Tribunal de Felgueiras a sua inocência. De acordo com a Lusa, os arguidos Casimiro Sousa, alfaiate, Joaquim José Rodrigues, sapateiro, Agostinho Gonçalves Sousa, empregado de balcão, e Manuel Pereira de Sousa, vigilante, disseram ter sido mal compreendidos, uma vez que as suas poses de braço no ar ou punho cerrado junto ao agredido ficaram a dever-se «ao facto de terem sido empurrados e de se terem levantado com o braço estendido ou de estarem a tentar agarrar pessoas que se encontravam à sua volta». Afinal, coitados, eles «apenas queriam ver Francisco Assis» – como se sabe, praticamente todos os portugueses ainda hoje o desejam – e «queriam mesmo ajudá-lo a sair do meio da multidão».
Lamento Tiago (Barbosa Ribeiro), mas nunca percebi, e continuo sem perceber, o que de especial, ou de particularmente democrático, tem a «folia» sanjoanina do Porto. Apesar de já a ter experimentado algumas vezes, chegando a madrugar sujo, suado e namorado em Matosinhos. Sempre a achei uma festa desenxabida e popularucha, com toda a gente a noite inteira a caminho de lado algum, a fazer de contas que está muito feliz e assaz contente. Por isso mesmo o Estado Novo a tolerava sem problemas. E agora, como dizia uma festeira raçuda entrevistada pela televisão, «divertimo-nos muito, senhor: damos umas marteladas e comemos sardinhas». A comparação com o Santo António lisboeta é inevitável: este é também um vestígio de um passado pouco edificante, ainda muito marcado pela intervenção folclorista do SPN/SNI, que de positivo tem apenas o facto de não ser apresentado, como acontece com o S. João no Porto, como «a festa de toda uma cidade». Quando vejo os assomos de «pimbalhismo» e de afirmação provinciana e palonça de uma dada identidade em que se transformaram estas paródias – aproveitadas, além do mais, pela pior demagogia eleiçoeira –, recordo sempre uma frase que ouvi há alguns anos numa estação regional de rádio: «Dizem que em Avintes só há broa, mas há mais, há muito mais do que isso: também há broa com chouriço».
Os mesmo responsáveis polacos que querem fazer com que os outros países europeus paguem pelo facto da Segunda Grande Guerra os ter impedido de terem hoje o dobro da população e de serem uma potência de primeira grandeza na União Europeia (mais habitantes igual a maior força negocial), querem agora colocar 20.000 prisioneiros a trabalharem – presumo que não em regime de voluntariado – na construção de novos estádios, hotéis e acessos rodoviários para o Europeu de futebol que em 2012 a Polónia organizará em conjunto com a Ucrânia. E parece que não percebem a incoerência e a monstruosidade da proposta.
Não tenho na certeza de ser dos carecas «que elas gostam mais», como afirmava uma popular marchinha do Carnaval carioca. Ou, pelo contrário, de acordo com o velho anúncio de um restaurador capilar, se afinal já não é deles «que elas gostam mais». Ou mesmo se «elas» serão «eles», ou se «eles» serão «elas». Sabe-se hoje que a calvície de padrão masculino afecta cerca da metade da população dos homens maduros, e, para além disso, que determinadas máquinas eléctricas muito fáceis de utilizar e de manter podem agora transformar qualquer cabeça numa versão hermafrodita de Yul Brynner, o actor conhecido por, entre as décadas de 1950 e 1970, encarnar personagens cujo exotismo requeria uma cabeça inteiramente calva. Assim aparece Brynner numa fotografia, por sua vez retirada do filme homónimo, reproduzida na capa da edição que tenho de Tarass Bulba, a história ficcionada do herói dos cossacos do Don, que Nokolai Gogol escreveu, Mário Braga traduziu e a Portugália editou no distante ano de 1964.
A ausência de cabelo já não pode agora ser associada à perda de poder e à submissão, ocorridas com os idosos, os prisioneiros e os soldados. Pode até ser instrumento de afirmação de um erotismo raro e energético. O novo Sansão deve temer a sua Dalila por outro motivo que não o inesperado corte cerce da sua indispensável guedelha. Mais do que nunca, o uso notório de cabeleira postiça passa por factor anti-higiénico de incómodo e de mau-gosto, que ridiculariza e marginaliza quem dele se serve. Inexplicavelmente, porém, um grande número de humanos continua a utilizá-las como recurso para esconder uma calvície que imagina incompatível com a imagem de eterna juventude ou de suposta virilidade que deseja preservar. Hoje, no ecrã de LED que preenchia quase por inteiro uma das paredes do restaurante onde almoçava sozinho, fez-me pena ver o aspecto patético de Burt Reynolds – já sem o vigor dos tempos em que era Caine no filme Shark!, de Sam Fuller – exibindo em público um capachinho feiíssimo e, como todos eles, completamente fora do tempo.
Maria Konstantinovna Bashkirtseva (1858-84), filha de uma família da nobreza russa, nasceu na Ucrânia mas passou grande parte da sua breve vida a viajar pela Europa. Estudou pintura em Paris, onde produziu uma obra notável, quase inteiramente destruída pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Sob o pseudónimo Pauline Orrel, também escreveu para o jornal feminista La Citoyenne. Mas foram as suas cartas, e principalmente o diário que manteve desde os 13 anos, que a tornaram uma figura única no seu tempo, levando Jon Savage, em Teenage, a considerá-la pioneira da emergência de uma nova consciência do lugar e do papel da jovem. Escreve ela no Diário: «Incendiar todas as coisas, exasperar-me, chorar, sofrer todos os dias, mas viver, e viver!». E mais adiante: «Estou cansada da minha própria obscuridade. (…) Definho na escuridão. O sol, o sol, o sol!» Maria insurgiu-se de forma consciente e solitária contra a vitoriosa ordem burguesa e a poderosa definição arquetípica de uma feminilidade assente na auto-repressão, na resignação e na vida confinada ao espaço doméstico. Hoje quase esquecida, terá sido uma das primeiras a fazê-lo.
Sem ela não seríamos bem aquilo que somos. Nem os nossos dentes brilhariam da mesma forma. A fórmula da Pasta Medicinal Couto foi elaborada pelo gerente da sociedade Flôres e Couto, sediada no Porto, com a ajuda de um dentista amigo, visando evitar «nomeadamente as infecções das gengivas», e foi registada em 13 de Junho de 1932. 75 imperturbáveis anos de vida, se exceptuarmos, em 2001, o episódio da retirada da designação «medicinal», imposta por normas comunitárias. Também ajudou a defender o império servindo-se de «um artista português» que passou a integrar a nossa memória colectiva.
Com catorze anos de idade eu não podia ter uma posição política que se esforçasse por parecer coerente. Talvez por isso, ou graças às «leituras para rapazes» que ocupavam a maior parte do meu tempo, em Junho de 1967 ainda sentia um grande entusiasmo pela guerra e pelos guerreiros que imaginava a povoá-la. Não aquela guerra que sabia travar-se no «nosso Ultramar» e que já então me parecia soturna, sem vislumbre de finalidade ou de grandeza, mas as guerras que se assemelhavam às dos livros. Partilhei pois – na altura, com muitos outros portugueses comuns – uma certa atracção pela dimensão heróica da Guerra dos Seis Dias. Passei aquela semana agarrado à rádio, combinando a escassa informação que chegava através da Emissora Nacional e do Diário de Notícias com as proclamações indecifráveis e contínuas, acompanhadas de música marcial, que, através da onda curta, provinham, presumo, do Cairo ou de Tel-Aviv. Entrevi dias depois, em escassas imagens da televisão, o júbilo dos soldados israelitas. Mais ao longe, uma nuvem de poeira que o locutor de serviço dizia ser a infantaria egípcia em retirada. Lamentei que tudo tivesse acabado tão depressa. E rejubilei com a vitória militar daquele que era então – alguns dos que conservam alguma memória da época já o terão esquecido – um pequeno povo perseguido de «judeus imundos», confinado a uma língua de terra árida e demasiado ensolarada.
O rosto visível daquele delírio juvenil, que só depois soube tratar-se do prelúdio de um outro drama que nada teria de romanesco, era o do misterioso general Moshe Dayan. Com a sua inconfundível pala de pirata (substituindo o olho vazado no Líbano durante a luta contra os francesas colaboracionistas), um permanente mono-olhar de gozo e sobranceria, a mesma postura descontraída e operacional que vislumbrei depois nos muitos oficiais-generais do exército israelita que ganharam as suas estrelas dividindo o tempo entre o ar condicionado dos comandos e um quotidiano vivido em ininterrupto estado de guerra. Dois anos depois, já via a Guerra dos Seis Dias de uma forma crítica, percebendo como ela tinha incubado o ovo da serpente – e como o «espírito de aventura» preludiara afinal uma proeza extremamente perigosa – mas ficou-me, para sempre, sob o retrato daquele herói que não saía dos livros e do passado mas de uma realidade imediata que os imitava, a percepção vivida, da dimensão estética, inebriante e tremendamente perigosa da guerra. Da forma como ela pode catalisar tomadas de posição bruscas, irracionais e irreversíveis. Tal como, actualmente, o reconhece aquela parte da oposição política israelita que ainda é capaz de conceber uma paz que mais ninguém parece desejar.
Aceito parcialmente a crítica de José Pacheco Pereira a certos malefícios do metabloguismo, particularmente aos vícios do «amiguismo». Não significa isto, porém, que seja contra a partilha de ideias e de cumplicidades entre escrevedores de blogues. Elas constroem solidariedades e ampliam a visibilidade daquilo que se publica, possibilitando uma interacção muitas vezes enriquecedora. Reconheço que também não gosto de ver livros referidos apenas porque a ou b sugere que o façamos. E depois ver o favor a ser pago à luz do dia. Como não aprecio banalidades de notáveis transformadas em memoráveis citações, enquanto textos bem escritos e de gente inteligente permanecem ignorados. Mas considerar que este tipo de situações traduz nesta altura um «significativo empobrecimento da blogosfera» – na qual ocorreram fases bem piores de maledicência e boataria que levaram até à desistência de excelentes bloggers – parece-me injusto e exagerado.
Tendo-lhe sido perguntado, em entrevista da revista Sábado, se se identificava com o Zorro ou com D. Quixote, José Sá Fernandes, o protagonista da «candidatura alface» do Bloco de Esquerda à Câmara de Lisboa, afirmou, como era de prever num candidato partidário a alguma coisa, «com o Zorro porque tinha os pés na terra». Sendo grande a minha simpatia pelo herói mascarado – mais ousado até do que Sá Fernandes o pinta (sobretudo na versão de Isabel Allende) – sinto principalmente a falta de Quixotes. Um dos problemas de algumas das forças que a dada altura pretenderam renovar a política activa e a participação dos cidadãos talvez advenha mesmo destas não lhes darem grande atenção. O espectro gélido de Lenine paira ainda em muitos horizontes.
Conta John Banville, no seu livro sobre Praga, que quando Kafka começou a ler excertos de O Processo a um grupo de amigos, foi acometido de um tal ataque de riso, logo à primeira página, que acabou por desistir da leitura. Algo me terá escapado na história soturna de Joseph K.
Segundo o Correio da Manhã, João Botelho está a preparar, em conjunto com a jornalista Leonor Pinhão, um filme que será uma adaptação livre do best-seller Eu, Carolina. De acordo com o realizador, o título provisório é Corrupção, «uma homenagem a Fritz Lang, que dirigiu Big Heat», e pode definir-se desde já como «um filme negro, ao estilo dos policiais americanos dos anos 40». Pinto da Costa e Carolina Salgado estarão, como será de calcular, no epicentro da trama. Conhecendo-se o «ultra-benfiquismo» do realizador e da sua mulher, é de esperar uma obra de cinema noir-engagé.