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Polaroid (Printed in China)

Apesar da tradição bem conhecida que foi capaz de construir ao longo dos 25 anos de vida como editora, a Taschen não deixa de surpreender pela crescente qualidade das suas produções, pela capacidade para oferecer a um público não especializado álbuns sempre inesperados, e pelo preço a que consegue colocá-los nas livrarias. Comprei hoje um magnífico The Polaroid Book saído já em 2008. Soube-me bem desembolsar apenas 8 euros por uma edição belíssima e quase luxuosa de 350 páginas, mas, sem exageros ou duplicidade, custou-me encontrar na última página a declaração Printed in China e procurar imaginar as longas horas de trabalho duro e mal pago, as mãos gretadas e as estantes provavelmente vazias, dos operários que a produziram. O prazer, acreditem, diminuiu um pouco. Porém, e como toda a gente, em breve esquecerei o detalhe e continuarei a ampliar a biblioteca com livros a baixo preço.

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    Pacatos e ordeiros

    Pertenço a uma das várias gerações que viveu a infância atormentada por dois demónios. Um era o bicho-papão, essa espécie de monstro barrigudo e de voz cava que se passeava pelos telhados e perseguia os meninos que não comiam a sopa toda. O outro era o polícia-mau, designação que sempre achei redundante antes de saber que coisa é uma redundância, uma vez que no meu universo visível não existiam polícias-bons. Por isso ainda hoje, apesar de todas as operações de cosmética, dos agentes bronzeados e com patilhas recortadas, das agentes perfumadas e com pequenas tatuagens – ou talvez um piercingzinho sabe-se lá onde -, de todo o simpático arsenal de «por-favores» e de «com-licenças» que as forças da ordem utilizam para com a maioria dos cidadãos, há uma sineta que vibra em mim sempre que contacto um polícia. Talvez seja o meu anjo da guarda libertário que não dorme e me sussurra que devo suspeitar de qualquer uniforme engomado ou de um cassetete à cintura. Por isso achei hoje um pouco suspeita a conversa de um polícia suíço que falava à televisão portuguesa do carácter très, très, très «pacato e ordeiro» dos emigrantes que andam pelas ruas de Genève e de Neuchâtel a gritarem vivas à selecção. Conhecendo alguns dos comportamentos de muitos dos nossos emigrados nos países de acolhimento, sobretudo na Europa, parecem-me elogios a mais e fazem-me evocar o medo atávico do polícia no qual, tal como eu, muitos deles foram criados. Que gritem todos os vivas e cantem A Portuguesa as vezes que quiserem, que toquem buzinas e se maquilhem a verde-vermelho, mas que depois, passado o Euro-2008, não regressem à vil obscuridade e à dimensão «pacata e ordeira» de quem não faz valer no quotidiano os seus direitos sociais e políticos. Um desejo que é uma quimera, bem sei. Mas não custa nada lembrar-nos de que podemos concebê-lo.

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      Da vida de Kristine

      Christine Granville, a mulher que mais tempo serviu no SOE – o Special Operations Executive criado por Winston Churchill em 1940 – e que terá sido também agente da espionagem polaca, foi de facto a condessa Kristine Skarbeck e levou uma vida muito pouco vulgar. A sua actividade de infiltração começou logo após a invasão da Polónia. Depois do recrutamento em Londres, saltou por numerosas vezes de pára-quedas sobre território ocupado pelos nazis, atravessou de esqui os montes Tatra para entrar clandestinamente no seu país, organizou grupos de resistência urbana e combateu com comprovada coragem no maquis. Enganou por diversas ocasiões a Gestapo, conseguindo salvar de uma morte certa alguns companheiros detidos pelos alemães e evadindo-se da prisão pelo menos por duas vezes. Ironicamente, viria a ser assassinada em 1954 por motivos passionais. Os seus traços e façanhas terão inspirado Vesper Lynd, personagem de Ian Fleming que surge em Casino Royale (1953), a sua primeira Bond novel, mas uma vez mais a ficção ficou muito aquém da realidade.

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        Gasolina (um post banal)

        Pelo sim pelo não, e após ouvir alguns rumores na sala de espera do dentista sobre as consequências da paralisação dos camionistas, desta vez não deixei a gasolina chegar à reserva e fui encher o depósito do carro. Na estação de serviço habitual, onde ao final da manhã costumo entrar directamente, esperei agora cerca de vinte minutos numa das várias filas. Notei algum nervosismo no ar: indignação pela subida imparável dos preços dos combustíveis, comentários entre dentes que falavam do petróleo de Cabinda, de árabes e de impostos, um temor visível diante da simples possibilidade de se ficar com o automóvel parado. Reparei que era este e não o Europeu de futebol o tema de todas as conversas, o que me pareceu particularmente preocupante e muito pouco patriótico.

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          A rua

          Por muitas conjecturas que se possam fazer a propósito dos processos de mobilização ou acerca da polémica em torno das palavras de ordem (calcule-se lá por causa de quem eclodiu ela…), uma manifestação com esta que hoje juntou em Lisboa bem mais de 200.000 pessoas, na rua contra a proposta de revisão do Código do Trabalho, é um poderoso sinal de protesto e deveria representar um alerta para o governo. Por muito menos que isto se estatelou o primeiro-minstro Cavaco no seu segundo mandato. Estão à espera de quê os nossos socialistas de gabinete para saírem dos casulos climatizados e experimentarem um pouco de realidade?

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            Stasiland ao ritmo do calipso

            Hugo Chávez aprovou uma lei que obriga os cidadãos venezuelanos a cooperarem com os serviços de informação, incorrendo em pena de prisão se o não fizerem. Ao mesmo tempo, passam a poder ser feitas escutas telefónicas sem qualquer autorização judicial. Claro que neste exemplo vivo do «socialismo do século XXI» tal se destina «apenas» a evitar «ataques imperialistas» e «rebeliões militares». Foi com idênticos objectivos que, logo a partir de Outubro de 1917, a construção do socialismo passou a estar ligada à imposição sem concessões de diversos Estados policiais. O resto do filme é conhecido e tem sido exibido em sessões de reprise.

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              O tal canal

              Um bom exemplo do regionalismo no seu pior é-nos dado todos os dias por uma estação de televisão por cabo chamada Porto Canal. Ao acaso do zapping pós-prandial, tenho deparado ali com programas que, com raríssimas excepções, são de uma qualidade realmente deplorável (um bom exemplo é «Por um Canudo», provavelmente o pior programa de apanhados do hemisfério norte). Quase todos eles se esforçam por alimentar o penoso sentimento de inferioridade que muitos cidadãos do Porto experimentam em relação a Lisboa. Há dias, por exemplo, um debate entre quatro comentadores residentes com acentuado sotaque da Cedofeita tentava descodificar, com aparência de seriedade, a razão pela qual «as pessoas de Lisboa chamam habitualmente galegos» aos naturais da cidade (tratamento do qual, devo confessar, jamais tinha ouvido falar até esse momento). Num outro procurava provar-se que sendo «a percentagem» (sic) do rendimento per capita do Porto «metade da de Lisboa» (sic), deveria ser o Estado a restabelecer o equilíbrio. Ora tive hoje outro extraordinário exemplo daquele padrão de provincianismo: apesar de considerar diversas capitais europeias, o boletim meteorológico do Porto Canal apenas fornece previsões de temperatura e de pluviosidade relativos às cidades portuguesas que vão de Viana do Castelo a Aveiro.

              Antes que alguém se impaciente desnecessariamente com este post, declaro desde já que gosto muito do Porto, onde aliás já morei por dois períodos. E que vivo numa cidade – que eu considerava do centro do país mas que afinal parece ser do sul – na qual a relação entre media e provincianismo é igualmente forte.

                Apontamentos, Olhares

                Perder a razão

                Sempre insinuada nestas alturas, parece-me obtusa e petulante a fantasia de que quanto pior correrem as coisas à selecção portuguesa de futebol tanto melhor a nossa vida colectiva progredirá. Menos distraídos, passaremos então a interessar-nos pelos temas que realmente importam, como a leitura, a política, a produção de couve-lombarda e a ginástica rítmica. Mas não é por não colaborar nesse pranto inútil que diluo, em centenas horas de sofá a ver a Sport-TV, o sentido crítico que me esforço por manter.

                A verdade é que, como muitos outros compatriotas, gosto tanto de futebol quanto sinto uma profunda aversão pelo meio em si. E também me aflige a obsessão mediática pela unha encravada do Cristiano, pela flatulência do Deco, pela Playsation do filho do Simão ou pela simpática e trabalhadeira prometida do jovem Rui Patrício. Incomodam-me, realmente, os «egrégios avós» berrados por pessoas que não sabem o que possa ser tal coisa. Mas não é por isso que deixo de saborear a arte em si, e que me recusarei a vibrar, espero, com as vitórias alpinas da nossa selecção. Ou deixarei de ficar bastante deprimido com uma eliminação precoce. Como o amor e o ódio, o gosto pelo futebol exige de nós a melhor dose possível de irracionalidade. E é aí que está o gozo todo.

                  Apontamentos, Atualidade

                  Sayed

                  Sayed Perwiz Kambakhsh, jornalista, 23 anos, vai ser executado por «blasfémia» no Afeganistão. E que podemos nós fazer senão esperar sentados? Pela morte de todos esses «muçulmanos moderados» dos quais tanto falamos e que não reconhecemos senão quando os ouvimos a partir do exílio, os vemos em fuga de rosto tapado, ou lhe reconhecemos o olhar pouco antes de morrerem enforcados, degolados ou esmigalhados pelo sopro e os estilhaços de uma bomba. Um drama do nosso tempo diante do qual não basta encolher os ombros e esperar que as coisas mudem. Assim mudarão, de facto. Mas para pior.

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                    O epílogo de Paris


                    «Afinal, o que querem eles realmente…?»

                    Apontamentos do Maio – 13

                    O escritor barcelonês Eduardo Mendoza publicou no último Babelia um artigo de página inteira («El mayo de nuestra juventud») que insiste a maior parte do tempo em muito daquilo que tem sido dito e redito sobre o Maio de 68. Reconhece sobretudo que não se tratou de um movimento revolucionário, mas sim «de um colocar em cena de diversas tendências». E sublinha a sua condição de primeira ocorrência retransmitida pelas televisões de quase todo o mundo, inaugurando de certa maneira uma era renovada da informação. A parte mais interessante ficou para o final, resumindo numa curta frase a dimensão de epílogo de um tempo, mais do que de madrugada de um mundo novo, que o terramoto de Paris lhe parece conter. Considera assim que ele «marcou sem sabê-lo o fim das grandes ideologias, especialmente do marxismo, que já não voltou a levantar a cabeça, e marcou também o fim de Paris como capital intelectual do mundo, título que havia adquirido na época do Iluminismo mas que agora cedia, sem reagir, a Londres e a Nova Iorque.» Dois aspectos que têm passado algo ao lado da actual vaga comemorativista.

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                      Sexo, mentiras e futebol

                      Gostaria de conhecer os critérios (por exemplo: se se refere a homens e a mulheres ou apenas a um dos grupos, qual a dimensão do universo que foi objecto do inquérito, qual a sua localização geográfica, qual o nível escolar dos inquiridos, qual a sua idade, o nível dos rendimentos, etc.) que nortearam este estudo. Sem esses dados, comentário algum pode passar do nível da simples impressão. Mas como também tenho direito a uma, aqui vai ela:

                      Se bem conheço o meu povo, o referido estudo não revela que a larga maioria dos portugueses gosta mais de sexo que de futebol, e que, neste particular, se encontra acima da média europeia. Mostra apenas que entre nós existe um grande número de mentirosos e que os espanhóis são bastante mais sinceros e desinibidos.

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                        Caretice

                        O CDS-PP indigna-se porque um Dicionário de Calão integrado no «site infantil-juvenil» do Instituto da Droga e da Toxicodependência associa a palavra careta , no vocabulário próprio do meio, a qualquer indivíduo «conservador, desprezível e desinteressante» que não consuma drogas. Um tanto atemorizados, os responsáveis pelo site já retiraram essa e outras palavras. O Houaiss, porém, continua a associar careta a um sujeito «conservador, preso a convenções; quadrado, tradicional», ou «que não usa drogas». Já o Dicionário Editora da Língua Portuguesa considera careta toda a «pessoa muito presa aos padrões tradicionais; bota-de-elástico». A deputada Teresa Caeiro poderá explicar então se também pretende que se lancem para o shredder as páginas dos referidos dicionários, que muitas escolas possuem na sua biblioteca e numerosos alunos têm em suas casas. Ou se deseja antes que por decreto-lei se suprima a palavra.

                        PS – Este episódio lembra-me um outro que aconteceu quando andava na primária. Uma colega – bom, as escolas eram separadas «por sexo» (como se dizia na época), mas durante um maravilhoso mês tivemos aulas em conjunto porque a professora das meninas adoeceu – «acusou-me» à directora de ter pronunciado a palavra autoclismo. Na casa dela não havia.

                        PS2 – Já agora: o que procurámos todos nós nos nossos primeiros dicionários, meu deus, por palavras proibidas! Algumas das que não encontrávamos eram prontamente adicionadas a lápis, com aquela caligrafia redondinha que os professores nos ensinavam.

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                          Os nossos birmaneses

                          Ao procurar aplicar os regulamentos comunitários sobre higiene alimentar às instituições de solidariedade social, precisamente numa altura na qual o número de famílias carenciadas está a aumentar e os bens de consumo essenciais a encarecerem bastante, a ASAE segue o modelo birmanês do total menosprezo pelas pessoas comuns. Exigir neste momento, em Portugal, que as cozinhas dessas instituições possuam rigorosamente os mesmos requisitos que as de um restaurante, proibindo-as de aceitarem alimentos oferecidos pelas populações e obrigando-as a deitar fora toda a comida congelada em arcas normais, constitui uma grave prova de impiedade. E, uma vez mais, de cega submissão a exigências de um higienismo irrealista e inumano que nos chega do exterior e os nossos tecnocratas importam sem ponta de vergonha.

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                            Folclore-68

                            Apontamentos do Maio – 12

                            Garanto que se tivesse metade da idade que tenho, não tivesse lido os livros que li e apenas passasse os olhos pelo inenarrável programa revisteiro sobre o «Maio de 68» que Júlio Isidro (com um casaco à Bob Geldorf) está a apresentar na RTP-1, ficava com uma tal aversão ao dito «Maio» que nem pintado o poderia ver. Grandes canções destruídas, frases desconexas e descontextualizdas, situações dramáticas transformadas em palhaçadas, invenções, remixes, tudo envolvido num pronto-a-servir para encher chouriços e entreter labregos. Mais a referência, sacramental e oca, a «uma juventude idealista, mas muito ingénua» (Isidro dixit). Pelo meio, algumas pessoas prezáveis são convidadas a dizer uma ou outra frase que se perde completamente no meio de todo aquele chiqueiro kitsch. Divertimento pelo divertimento, antes um congresso do PSD.

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                              E o lenço a dizer adeus

                              Um grupo de naturais almoça neste 13 de Maio com um colega que fala um português correctíssimo, mais fluente que o deles embora com o acentuado sotaque gutural de alguém que veio de Leste. A pergunta deste, quando surgem no ecrã da televisão os lenços brancos agitados pelo povo crente durante a cerimónia do «adeus à Virgem»: «Mas eles estão a despedir que treinador de futebol?» A aculturação é sempre um processo rico e fecundo, de resultados imprevisíveis.

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                                As jotas e a política

                                A propósito da conversa dos responsáveis das jotas com Cavaco sobre a relação distante e bastante difícil entre os jovens e a política, João Tunes coloca aqui o dedo na ferida e faz força sobre esta. Já agora uma pergunta: será que «no seu tempo» o jovem Aníbal António se interessava pela política? Se sim, folgo muito, pois não fazia a menor ideia de que tal pudesse ter ocorrido.

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                                  Pedir o impossível

                                  Apontamentos do Maio – 9

                                  O TBR chamou-me a atenção para um artigo de Slavoj Zizek aparecido no El País de ontem («Mayo del 68 visto con ojos de hoy»). Sublinho o parágrafo final: «Lo que mejor condensa el auténtico legado del 68 es la fórmula Soyons realistes, demandons l’impossible! (“Seamos realistas, pidamos lo imposible”). La verdadera utopía es la creencia de que el sistema mundial actual puede reproducirse de forma indefinida; la única forma de ser verdaderamente realistas es prever lo que, en las coordenadas de este sistema, no tiene más remedio que parecer imposible.»

                                    Apontamentos, Atualidade, Memória