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A caminho do século XXXI

A vila de Ansião – velhas placas indicativas ainda lhe chamam «Ançião» – situa-se numa das regiões mais deprimidas do país. Refiro-me a uma área situada a norte do distrito de Leiria, que começa a leste do concelho de Pombal, onde o mar já fica longe demais para dele se sentir o odor, e se estende depois por essa mancha verde-escura, chamada «do pinhal», que segue até à serra da Lousã e se prolonga a nordeste pelos distritos de Coimbra e Castelo Branco. Apesar da melhoria das estradas e de alguns esforços no sentido de contrariar a desertificação que ali se iniciou com a emigração rural da década de 1960, trata-se de uma região que permanece sem perspectivas de desenvolvimento visíveis, assente ainda numa agricultura de subsistência que tende a desaparecer, no pequeno comércio que não pode concorrer com os hipermercados mais próximos e em serviços quase inteiramente dependentes do Estado ou das autarquias. Existem tentativas para inverter o processo, algumas delas a partir de expectativas criadas por um turismo incipiente, mas o panorama não é animador, persistindo a fuga de muitos habitantes para os centros populacionais maiores, onde a vida é menos monótona e talvez exista mais emprego. Nada de estranho, como é sabido, uma vez que esta é uma tendência que segue a de outros países europeus nos quais a concentração urbana se iniciou mais cedo, transformando áreas outrora prósperas em autênticas no man’s land.

Mas porquê individualizar aqui Ansião? Porque foi ali que Cavaco Silva inaugurou ontem, com a inevitável pompa assegurada pela ordem unida da valorosa corporação de bombeiros e pela vestimenta de ver-a-Deus das autoridades nativas, um «Centro de Negócios» (sic), «com serviços de apoio ao tecido empresarial de todo o concelho», no qual se esturraram dois milhões de euros. O carácter megalómano e absurdo da empresa parecerá óbvio a qualquer pessoa com a cabeça fria e sem interesses no projecto. Ela terá resultado, ainda admito, de um esforço que a autarquia – falha talvez de alternativas, mas com orçamentos razoavelmente generosos associados a fundos comunitários – rápida e facilmente acarinhou. Mas é dramático não parecer existir uma voz audível, e com capacidade de intervenção, que pudesse ter impedido um disparate destes. Que possa impedir desatinos desta grandeza.

Como todos sabemos, o país está, aliás, repleto de situações análogas. «Parques industriais» sem um plano de ocupação, «centros de congressos» ao abandono, «centros culturais» sem uma actividade estruturada, «auditórios» sobredimensionados, «museus» semi-vazios ou organizados sem critério, «bibliotecas» razoavelmente equipadas mas sem dinamismo, «pavilhões gimnodesportivos» excessivos para as necessidades locais, tantas vezes projectados sem norte, sem uma clara política de gestão e sem uma programação que lhes dê sentido, sem quadros até que os saibam orientar. E gastando milhares de milhões, muitos milhares de milhões. Para não falar das praças, rotundas e avenidas tantas vezes desnecessárias (uma queixa estafada dos eternos maledicentes, como é sabido), ou das estátuas e esculturas quase sempre de mau ou deplorável gosto, erguidas muitas das vezes apenas para alimentar a vaidade dos pequenos nabucodonosores locais ou para assombrar o povo com a magnitude do seu poder. Claro que existem algumas obras de mérito e de utilidade, e não serão poucas, mas a regra ainda é o desleixo, a inadequação e o despesismo.

Entendo perfeitamente que, a estas coisas, os governos e os partidos que são alternativa de poder, habitualmente com um discurso público sobre o rigor financeiro, façam ouvidos de mercador. Uma grande parte destas iniciativas parte afinal das suas clientelas, e assegura muitas das vezes – panis et circencis – a manutenção local de um score eleitoral favorável. Digamos que sob uma determinada perspectiva não se trata de desperdício financeiro, mas antes de um bom investimento político. E daqui por mil anos, quando desenterrarem toda esta parafernália de cimento, aço e betão, os arqueólogos do século XXXI pensarão ter encontrado vestígios de uma época de singular prosperidade. Embora dominada por um gosto algo duvidoso.

    Apontamentos, Olhares

    Gama e o tape recorder

    Por via das dúvidas, e não fossem as dioptrias enganarem-me, mudei de óculos por duas vezes. Mas li sempre o mesmo, a mesma afirmação. Para Jaime Gama, o nosso enfadonho presidente da Assembleia da República, que falava durante a apresentação do livro Carlucci vs. Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa, é absolutamente fascinante aquela tradição política americana que «regista tudo, que intercepta até as próprias conversas telefónicas para as registar, que grava mesmo as conversas de gabinete», de modo a tornar possível a publicação ulterior de toda essa informação. Será que passam pela mente da segunda figura do Estado as perigosas consequências políticas, e até o carácter desumanizador da vida dentro dos espaços do poder, que podem resultar de processos desta natureza? Ou isso agora já não lhe importa grande coisa? Ou terá falado apenas na óptica do voyeur?

      Apontamentos, Atualidade

      A natureza das coisas

      Pois é, um dos problemas do marxismo-leninismo consiste em mostrar-se simultaneamente «contrário à dogmatização e à revisão oportunista dos seus princípios e conceitos fundamentais». Situação que poderá transformar-se numa pesada contradictio in terminis e em factor de bloqueio. Mas graças a Deus e à sua infinita Misericórdia que existe sempre um grupo de pessoas, vanguarda da «vanguarda da classe operária e de todos os trabalhadores», que apetrechado desse «instrumento científico de análise da realidade», desse miraculoso e quintaessencial «guia para a acção», combate a «ideologia social-democrata» e determina a todo o instante, «em ligação com a vida», qual a exactíssima curva da estrada na qual é possível moldar o dogma e qual essoutra onde começa a infame e criminosa revisão oportunista. (Ainda a propósito das Teses moicanas do PCP, naturalmente, que agora já li todinhas da silva. Nem tudo são rosas nesta vida de leitor.)

        Apontamentos, História, Recortes

        Paul

        Chegou a vez de Paul Newman (1925-2008). Mais um pedaço da vida vivida através do cinema que parte para sempre, deixando um buraco fundo e escuro. Paul Blue Eyes vai fazer-nos falta, muita falta. Vai ficar-nos na memória e na imaginação, mas até elas se diluem e se vão perdendo.

          Apontamentos, Cinema, Memória

          Quarta-feira em Macau

          Se existe coisa que escapa facilmente ao autor é o destino dos textos públicos que este escreve. Cada leitor recorta o que lhe apetece recortar e tanto o pode afixar num placard de escola como passá-lo a um amigo ou transcrevê-lo num blogue. Refiro-me principalmente a fragmentos, que facilmente se emancipam dos textos originais.

          Já me parece menos transparente o que acaba de fazer o diário Hoje Macau a alguns posts dispersos d’A Terceira Noite (e não só, ao que sei). Preenchendo com eles uma página inteira do jornal, e conferindo-lhes uma unidade que não tinham, deu a entender ao leitor comum que se trataria de uma colaboração formal do seu autor, o que não é verdade. Não é prática que ofenda por aí além e compreendo as aflições de quem com relativamente poucos colaboradores tenha de produzir diariamente um jornal, mas parece-me que teria sido correcto enviar por e-mail um pedido de autorização. Como teria sido igualmente avisado não abusar da obra alheia dando-lhe um formato que na origem esta não tinha. Divulgo o episódio por razões profilácticas, para prevenir eventuais recaídas. Ao Hoje Macau vou enviar, cordialmente, o link para este post.

            Apontamentos

            É o capitalismo, seus distraídos

            O Estado é bom quando protege as empresas e pérfido quando ampara as pessoas que precisam de amparo. Essa é a velha lógica do capitalismo e tem séculos de existência. A retórica neoliberal sobre a autonomia do mercado é apenas isso, retórica: só vale quando se teoriza em abstracto sobre a maldade do proteccionismo económico e a interferência nefasta dos movimentos sociais na construção de uma «prosperidade» selectiva. Não percebo em que é que a ajuda do governo federal ao até hoje quase falido American Internacional Group pode agora causar tanto espanto a certos analistas.

              Apontamentos, Atualidade

              Sem guia

              O escândalo partiu de onde menos se esperava. Thomas Kohnstamm, autor de diversos volumes da Lonely Planet, a colecção de guias de viagem utilizada durante muito tempo por quem pretendesse libertar-se da ditadura francófila e dispendiosa dos Guias Michelin, resolveu contar – e fazer dinheiro com isso, publicando e vendendo às centenas de milhar Do Travel Writers Go To Hell? – de que forma redigiu os seus textos sem ir a muitos dos lugares dos quais falava. Ou passando por lá mas viajando, comendo e dormindo de uma forma bem diferente daquela que depois relatava aos seus leitores. Algumas vezes aceitando luvas para recomendar determinados hotéis, sugerir certos restaurantes, ou para fazer passar baiucas por bares imperdíveis. Fazendo-o, pois era bom nisso, de uma forma inteiramente convincente. Uma ou outra discrepância entre a realidade e o vertido no papel que alguns dos seus leitores iam notando passava sempre por excepcional, ou por azar do viajante. Foi preciso Kohnstamm escrever este livro para o embuste ser revelado.

              A verdade, para que não me acusem de algo parecido, é que não li Do Travel Writers Go To Hell? – até uma excelente narrativa de viagem, dizem-me, e por isso vou ver se o arranjo – mas apenas as quatro páginas, escritas por Luís Maio, que sobre ele saíram ontem no suplemento «Fugas» do Público. O suficiente, porém, para ficar na dúvida sobre até que ponto muitos outros autores de guias disponíveis fizeram ou fazem a mesma coisa. E para perceber melhor de que forma muitos deles deixaram, ao contrário do que ocorreu num passado ainda recente com viajantes por sua conta e risco como Bruce Chatwin, Bill Bryson, Tony Horwitz ou Jeffrey Tayler, de seguir as suas próprias escolhas e de construir uma leitura crítica dos locais e regiões visitados, para vender ao leitor uma imagem apenas divertida, excitante ou serena de sítios nos quais este pode afinal ser explorado, passar um mau bocado ou conviver com todos os perigos. Se já olhava um tanto de lado os guias demasiado ilustrados que costumam inundar as livrarias a partir de Março e os textos xaroposos e superficiais com fotografias do autor-viajante enquanto poseur que passam por literatura de viagens (ou são-no a uma escala menor), agora mais desconfiado fiquei.

                Apontamentos, Olhares

                Pinhal

                Fui ver Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes. Mas custa-me falar de um filme rodado naquela região indistinta que separa o litoral português da Beira interior. Porque nasci lá e, no fundo, também eu já fui um «rapaz do pinhal». O meu povo não são os operários das periferias e os trabalhadores do mar, as mulheres-a-dias e os imigrantes, os proletários dos campos, os vendedores de gelados e as rapariguinhas de shopping. Nem são os insubmissos urbanos ou as pessoas com vidas extremas, fodidas. Estes não cabem naquele universo ou neste filme. O meu povo é aquela massa híbrida de pobres remediados que picam o ponto mas possuem uns hectares de floresta, de jovens que jamais entrarão na universidade e vivem de ganchos, copos e engates pendurados pelos cafés, de pequenos funcionários que economizarão a vida inteira, de mulheres subjugadas pelo preconceito e pela maledicência, de emigrantes que estão e não estão mas voltam sempre no mês do calor, de idosas que fazem pela sombra o trajecto casa-igreja e volta. Pessoas que têm todo o tempo para se odiarem e para se aborrecerem. Elas são um outro «bom povo português», do qual quase ninguém fala mas fala Miguel Gomes. «Bom povo» para quem os carros dos bombeiros e uma noite de minis representam a epítome da aventura. E uma canção de amor pode ser a coisa mais séria do mundo. Pessoas como as deste filme, «entre a ficção e o documentário» ou lá o que for, que couberam na fantasia que lhes foi proposta sem saírem da vida delas. Se isto não é o povo, onde é que está o povo? Por isso vejo este filme digno e divertido apenas como um álbum de família com banda sonora. Por isso preciso ver de novo Aquele Querido Mês de Agosto, tão nacional quanto um Português Suave, para sair dele e voltar a entrar pelo lado da narrativa. E por isso sugiro que corram a vê-lo.

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                  Apontamentos, Cinema, Olhares

                  Skógafoss

                  Último dia antes da volta, e mais um dia a comer coisas que nem sei o que são mas geralmente sabem a peixe. Como a caminhada prevista e a excitação da novidade exigem alimento, é preciso fazer um esforço. Pão, sopa e frutos silvestres servem sempre de conchego.

                  De manhã um salto até Borgartún com passagem pela casa Höfði, onde, em 1986, Reagan e Gorbatchov, apesar das divergências, puseram termo à Guerra Fria. O mais interessante não pude ver, pois foi guardado noutro local: talvez calculando erradamente que de futuro pouco serventia tais objectos iriam ter, os agentes do KGB deixaram no terreno cabos, microfones, câmaras, munições e alguns papéis.

                  À tarde, tempo para ir mais longe, numa jornada pelas colinas em volta das quedas de água de Skógafoss, a 5 quilómetros da antiquíssima aldeia de Skógar. Terá sido este o lugar no qual os primeros vikings se sedentarizaram na ilha, e, claro, aqui as lendas multiplicam-se sem necessidade de prova. Prefiro caminhar um bom pedaço ao longo de toda esta solidão verde-negra, ouvindo apenas os meus passos e o rumor da água que se despenha. No ar uma humidade salgada que se sente na língua. Um odor intenso.

                    Apontamentos, Olhares

                    Marco

                    Terei sido dos primeiros a atirar uma pedra a Marco Fortes, o nosso lançador de peso que, após ter sido eliminado da sua prova olímpica com uma marca muito inferior a outras que já havia obtido, nos falou de como de manhã «está bem é na caminha». Ouvi a frase bem cedo – bem mais tarde em Pequim, como é sabido – enquanto seguia de carro, e pouco depois escrevia um post servindo-me dela. Porque me parecia a cereja no topo do estranho bolo cozinhado com todo um conjunto de desculpas esfarrapadas das quais se serviram diversos atletas portugueses. A frase propagou-se por diversas vias e, por causa dela, Marco viu-se expulso da comitiva, forçado a regressar a Portugal e crucificado por meio mundo.

                    Só depois disso ouvi entrevistas de Marco Fortes, anteriores e posteriores ao momento da tirada. Li algumas notícias e vi reportagens, percebendo que Marco é uma pessoa de origem humilde, a quem o atletismo tem servido como espaço de valorização social, e que utiliza com frequência o humor e a ironia como forma estar no seu mundo. Aquilo que disse, parece-me agora claro, pode ter sido uma forma de se desculpar, mas foi também uma forma de ironizar consigo próprio. Foi um pouco infeliz? Foi-o, sem dúvida, como o próprio atleta reconheceu pedindo que lhe perdoassem a gaffe. Mas quem nunca pronunciou uma frase infeliz? Peço desculpa a Marco Fortes pela leviandade. Há já três dias que apaguei o referido post e mesmo assim fiquei com alguns remorsos.

                      Apontamentos, Atualidade

                      O bom homem, a beldade búlgara e o cavalheiro

                      Posso? A direcção do Expresso que não leve a mal a intrusão mas penso – sinceramente e sem ponta de sarcasmo – ser um grande equívoco a inclusão da coluna perpétua de João Carlos Espada na secção Editorial & Opinião, devendo esta transitar para uma página par do suplemento Única. O seu «tema de Verão» de hoje ilustra na perfeição a pertinência do alvitre. Apenas para quem esteja menos treinado no pensamento social do referido autor aqui vai um aviso: esta é só mais uma pequena peça do seu assombroso cubo mágico. Resisti a sublinhar algumas frases extraordinárias.

                      Um dos mais difíceis temas de Verão é o da influência da temperatura no código de vestuário. O assunto terá perdido alguma premência com a nova moda masculina de prescindir da gravata – uma tendência entusiasticamente promovida pelo actual Presidente do Irão, cujo nome me escapa. Mas a gravidade do tema está ainda presente nalguns sectores.

                      É o caso do Oxford & Cambridge Club, em Londres. Todos os anos a «newsletter» de Julho inclui uma nota sobre o calor e o traje. Recorda ela, basicamente, que as altas temperaturas não anulam o «dress code» do Clube, embora algumas atenuantes sejam concedidas. Estas incluem a não obrigatoriedade de gravata até às 11 da manhã, aos dias de semana, e ate as 18h, nos fins-de-semana. Mas o casaco continua a ser obrigatório a todas as horas, a menos que um dístico à entrada, nos dias mais quentes, assim o anuncie.

                      A nota prossegue recordando que, nestas excepcionais ocasiões, os cavalheiros sem casaco devem usar camisas de manga comprida abotoadas no punho. E adverte, em tom decidido, que «T-shirts e outras camisas sem colarinho, mesmo quando usadas com casaco, nunca são permitidas no Clube».

                      Tendo lido esta nota numa manhã de lazer, decidi promover um inquérito sobre o tema. No balcão do bar, interroguei o velho empregado, um imigrante grego há décadas instalado nesta área do Clube. O bom homem pareceu surpreendido com a minha pergunta sobre a razão de ser do «dress code». O assunto parecia-lhe óbvio: «Este é um ‘gentlemen’s club’, sir».

                      Resolvi insistir com a dúvida cartesiana: «por que razão devem os ‘gentlemen’s clubs’ dar tanta importância ao código de vestuário?». A resposta foi pronta, após ligeira hesitação: «Porque, caso contrário deixariam de ser ‘gentlemen’s clubs’».

                      Interroguei em seguida a jovem beldade que se encontrava na recepção do clube, logo à entrada do 71 Pall Mall. Chegara há uns meses da Bulgária, e gostava imenso de Londres, assim como de trabalhar no clube. Código de vestuário? É claro, disse-me ela, trata-se de um ‘gentlemen’s club’. E eu concluí, já instruído pelo grego do bar: se não tivesse código de vestuário, deixaria de ser um ‘gentlemen’s club’? Ela envolveu-me num amplo sorriso: «Esse é exactamente o ponto, sir. É como dar gorjeta: não pode dar gorjeta aos empregados, nem estes podem aceitá-la, num ‘gentlemen’s club’». Finalmente, com um novo sorriso envolvente, rematou: «Eu realmente adoro este vosso clube. Devíamos ter clubes destes, na Bulgária. Mesmo assim, eu preferiria Londres».

                        Apontamentos, Devaneios

                        Outro episódio

                        De acordo com a edição electrónica do Expresso «um grupo de dança, que devia representar os 56 grupos étnicos da China, era afinal composto apenas por crianças da etnia Han.» Este é já o terceiro «momento» reconhecido como forjado na abertura dos Jogos Olímpicos. «Suponho que eles [as autoridades] pensaram que os miúdos eram mais naturais e simpáticos», notou Yuan Zhifeng, o director delegado do Grupo Artístico Infantil Galaxy, que actuou na cerimónia.

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                          A troca do «patinho feio»

                          Ainda em relação à manipulação política dos Jogos pelo governo chinês, são um tanto chocantes as sucessivas revelações sobre o embuste tecnológico praticado na cerimónia de abertura. A cosmética visual seria legítima no campo da encenação do espectáculo televisivo, naturalmente, mas já o não foi procurar enganar o mundo inteiro, omitindo a informação e fornecendo depois desculpas esfarrapadas. Verdadeiramente indesculpável foi, porém, a ocultação de Yang Peiyi, a menina cantora «patinho feio», e a sua troca pelo «anjo sorridente» Lin Miaoke, apenas porque a primeira não tinha um aspecto conveniente e a organização sentiu que deveria «projectar a imagem certa e pensar no que era melhor para a nação». Da forma como tudo foi feito não se tratou apenas de dobragem – que se pratica em toda a parte –, mas de fraude e de rejeição de alguém, «por acaso» uma criança. A verdade é que pouco adiantará o sentimento de repugnância que este gesto tem merecido, pois, como bem explicou à BBC o dissidente Xiao Qiang, as autoridades chinesas «nem sequer têm noção da falta de ética que isto demonstra». A manipulação e a duplicidade estão-lhes na massa do sangue.

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                            Sem blogues

                            Não sei quantas pessoas lerão por dia os blogues portugueses de opinião e ideias, mas aceitando que uma boa parte delas segue diariamente sete ou oito, o seu número ascenderá, sem dúvida, a muitos milhares. Dez mil? Vinte mil? Mais ainda? Julgo que ainda ninguém conseguiu fazer tal contabilidade, nem sequer no âmbito daquele padrão de inquérito sociológico que depois permitirá diversas extrapolações. Mas serão muitas pessoas, muitas mesmo, sempre bem mais do que aquelas que lêem alguns jornais de âmbito nacional. Na comparação com estes é ainda necessário ter em conta que aqueles que acompanham certos blogues os lêem na quase totalidade, enquanto os leitores de jornais se centram neste ou naquele texto.

                            Parece-me pois deslocada uma frase de Miguel Sousa Tavares, usada na crónica que saiu hoje no Expresso, segundo a qual «sinal dos tempos e do país em que nos estamos a tornar, a morte de Alexander Soljenitsine não ocupou mais do que um curto obituário, preenchido com banalidades, mesmo nos jornais ditos “de referência”». Se passasse uma vista de olhos pela blogosfera, o conhecido colunista e escritor de sucesso teria percebido como a vida e a obra de Soljenitsine nela foram destacados e até debatidos. A vaga de alusões, de leituras e de informações que emerge dos blogues, independentemente da sua dimensão e valia, é, aliás, indicador de uma atenção por temas de interesse mais ou menos público que passa por um universo de comunicação que Sousa Tavares, com toda a legitimidade e talvez algumas boas razões, insiste deliberadamente em ignorar. Problema seu, naturalmente.

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                              Quarto de hotel

                              Tenho um problema com os quartos de hotel. Aliás, creio que muitas pessoas que conheço têm o mesmo problema com os quartos de hotel. Quase todos eles contêm um aparelho de televisão, toalhões confortáveis e armários generosos. Muitos possuem cortinas automáticas, ar condicionado e, por vezes, um minibar com desenxabidas garrafinhas de ginger ale e de vermute. As camas são impessoais mas agradam-me quase sempre pela sensação de teleportação que oferecem. O problema apenas se revela quando queremos ler e escrever: para além de luzes insuficientes e mal orientadas, geralmente não têm secretárias ou mesas que permitam uma relação decorosa entre o corpo e o computador, ou entre os nossos olhos e as páginas de um livro. Alguns ainda possuem, numa daquelas peças longilíneas de mobiliário de madeira escura que se encostam a uma parede, papel e envelopes timbrados para escrevermos cartas, e até, como me aconteceu há dias numa cidade do norte, folhas de papel mata-borrão. Embora hoje já ninguém escreva em quartos de hotel cartas em papel timbrado – excluindo talvez alguns suicidas – e, à excepção de certos dirigentes do CDS, ninguém se sirva já em viagem de canetas de tinta permanente. Agora mesas e candeeiros decentes, para ler e escrever, disso quase não se vê. É quando estou dentro de um desses quartos, como acontece neste preciso momento, que me apercebo do quanto anda a intervenção da ASAE desviada daquelas que deveriam ser as verdadeiras prioridades.

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                                Troca de passados

                                Na sanha um tanto doentia, que persegue repetidamente, de procurar reescrever o seu passado e o passado do universo que habitou – do qual parece possuir, aliás, uma visão truncada e muito parcial -, Zita Seabra afirmou ao Público, a propósito de Soljenitsine, que «a esquerda não o lia». Não é verdade. Existia uma parte da esquerda que o via apenas como mais um contra-revolucionário, e outra que o fez participar da revisão dos seus modelos e da reescrita das suas utopias. Esta é a verdade.

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                                  Incoincidências

                                  Não se trata de uma juíza qualquer. Ana Gabriela Freitas, do 2º Juízo do Tribunal Judicial de Felgueiras, que acaba de tecer considerações onde utiliza qualificativos de carácter abertamente racista aplicados aos ciganos – os quais alega serem inapelavelmente «marginais e traiçoeiros» – é a mesmíssima magistrada que em 2005 mandou Fátima Felgueiras, recém-fugida a prisão e julgamento, aguardar o curso da justiça em liberdade. Por apenas «alegadamente» haver estado refugiada no Brasil, sendo a sua conhecida fuga coisa «aparente». Sorte a da Dona Fátima por não pertencer a essa mesma etnia que a dra. Gabriela considera levar uma vida sistematicamente «pouco edificante».

                                  [sobre o problema cigano, ver Errantes e extravagantes]

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                                    Disfarce quase perfeito

                                    Existe um website do Dr. Dragan Dabic. E também uma biografia. Um disfarce fora do comum, sem dúvida, que permitiu a Karadzic – para quem, na pele de Dabic, «por trás de cada homem capaz existe sempre outro homem capaz» – construir uma nova vida pública e quase fazer esquecer a primeira. Quase.

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