Arquivo de Categorias: Apontamentos

Um céptico foi às compras

Shopping

Parece-me que este ano os telejornais não falaram do solstício, mas é verão, está calor, emagreci por sugestão do médico e precisei comprar camisas leves e adaptadas ao meu novo formato. Disseram-me na primeira loja que faziam um desconto de 30% sobre os preços marcados e por instantes pensei que entrara, sem me aperceber, num posto de venda de outlet. Na loja seguinte o desconto era idêntico. Na terceira, idem. Nos três casos eu era o único cliente e trataram-me como se fosse herdeiro do Warren Buffet. Percebi que subestimara um factor essencial na interpretação dos resultados eleitorais: o consumo desceu mesmo, e isso tornou muitas pessoas infelizes, levando-as a votarem na oposição. Lamento dizê-lo, mas foi em parte um consumismo frustrado – refutando a «dinâmica de sucesso» constantemente alardeada pelo partido do poder – que levou a que Bloco e PCP subissem tanto na consideração dos eleitores. Quando as coisas se recompuserem tudo regressará à normalidade. Não sei se felizmente.

    Apontamentos, Cidades

    Burka e dignidade

    Mulher de burka

    Poderia, por uma vez, concordar com Sarkozy. Também a mim a burka repugna: é feia, é horrível, «um símbolo de subserviência». Mas é-o igualmente de sobrevivência. Para muitas mulheres muçulmanas o único possível, o único razoável no seu espaço de pertença, factor de inclusão no casulo protector fora do qual nada possuem, para nada contam. E não existe um sistema métrico universal e absoluto para o conceito de dignidade. A burka não pode ser imposta e não deve ser proibida. Em Kabul ou Copenhaga.

    [Escrito um ano depois – Quando redigi este pequeno post procurava, sobretudo, reagir a ímpetos claramente xenófobos protagonizados pelo governo de Sarkozy, e ao mesmo tempo tentava compreender o lugar das mulheres muçulmanas que não têm alternativa que não seja a de se conformarem à norma imposta. Não deixam de me preocupar as mesmíssimas razões, mas hoje vejo o problema sob uma perspectiva diferente, talvez mais completa. A imposição da burka condiciona precisamente, em algumas circunstâncias, a sua proibição.]

      Apontamentos, Democracia

      Destinos corsários

      Antonio Muñoz Molina

      Sigo no Babelia outra crónica de Antonio Muñoz Molina – uma digressão semi-onírica sugerida pelos contrastes de luz e sombra registados por Caravaggio na Vocação de Mateus – e pergunto-me sobre quando voltarei a ler, num diário português, uma coluna semanal como «Ida y Vuelta». Uma coluna sobre tudo e sobre nada: quatro línguas de texto em serif tamanho 11, toda uma página sem anúncios de telemóveis ou hambúrgueres, que jamais captará multidões de leitores. Em quase toda a parte, e mais ainda em Portugal pelos índices rasteiros da leitura de jornais, luta-se por uma sobrevivência que só muitos leitores e bons anunciantes poderiam garantir. Não colunistas letrados, hirsutos e pouco aprazíveis, a quem é preciso pagar razoavelmente. Desta maneira, os escritos corsários dos quais falava Pasolini estão cada vez mais confinados às águas das pequenas enseadas, escondidos dos grandes transatlânticos por promontórios enganadores. Espalham-se pelas edições minúsculas de editores um tanto aventureiros, pelos desdobráveis baratos que servem de programa em eventos raros, por revistas que jamais dobram os seis números, pelos posts mais embalados dos blogues menos previsíveis e desqualificados no ranking do Technorati. É esse, afinal, o destino de todos corsários: correrem incontáveis perigos em nome das causas mais improváveis. Por isso permanecem necessários.

        Apontamentos

        As causas da causa

        A rua

        Um dos bloggers que visito diariamente, com o qual numerosas vezes concordo (e quando discordo é geralmente no pormenor), é João Tunes. Referiu-se ele ontem, num post do seu imperdível Água Lisa, a uma frase que eu deixara aqui a propósito dos círculos internos a quem o antiamericanismo primário conduz frequentes vezes a posições bastante criticáveis ou a claros erros políticos. No que respeita à situação no Irão, aprecio a viragem de 180 graus na posição dos comunistas portugueses – que não eram, aliás, os únicos aos quais me referia –, bem como o facto de, após uma semana de enormes protestos de rua e do constante alargamento da sua visibilidade mundial, e provavelmente depois de uma criteriosa pesquisa científica, terem decidido falar sobre o assunto criticando as autoridades iranianas.

          Apontamentos, Atualidade

          O decreto do armário

          Tempos difíceis

          O Parlamento lituano aprovou ontem uma lei que proíbe qualquer referência pública a experiências ou ligações de natureza homossexual, bissexual e poligâmica. O objectivo invocado é promover «a saúde psicológica» e cuidar do «desenvolvimento físico, intelectual e moral dos menores». A Lituânia é, obviamente, o único país da região do Báltico no qual o catolicismo é a prática religiosa maioritária.

            Apontamentos, Etc.

            Ponham os olhos nele

            Sucesso

            As televisões exultam com os 94 milhões pagos por um português que joga à bola. Sobem ao céu com o facto assombroso desse português que joga à bola ter sido observado em atitudes mais ou menos íntimas com a socialite Paris. Em Madrid, prestes a rebentarem de patriótico orgulho, os repórteres vagueiam pelas ruas procurando entrever nos olhares dos castelhanos uma chispa de inveja desse país que viu nascer um jogador de futebol capaz de valer 94 milhões e de se passear madrugada adentro com a delgada menina Hilton. Nas entrelinhas, nem um murmúrio de reprovação pela conjugação de obscenidades. Só o deslumbramento pacóvio pela cultura do dinheiro e pela vida doce e fútil de um homem de sucesso.

              Apontamentos, Olhares

              No coração da raça

              Mcgyver

              Neste post limitei-me a pegar num texto sem autoria declarada que me chegou às mãos e a dar-lhe pequenos retoques cosméticos. Aliás, alguns blogues mencionaram o assunto há meses atrás. Mas vale a pena retomá-lo em pleno «Dia da Raça».

              Um site norte-americano fez uma lista das 10 palavras estrangeiras que mais falta fazem à língua inglesa. The 10 Coolest Foreign Words The English Language Needs são lideradas pela palavra portuguesa «desenrascanço», aquela que, de acordo com os autores do site, mais falta faz no vocabulário inglês. Depois de percorrermos duas páginas com explicações sobre nove palavras de um valor muito prático correntes noutras línguas, chegamos aquela colocada em primeiro lugar. A falta da cedilha não importa para se perceber que estamos a falar do «desenrascanço», conceito supostamente emblemático da nossa cultura. Um uso, experiência ou qualidade da qual, aliás, adoramos vangloriar-nos. Entre nós ou diante dos outros.

              «Desenrascanço» é  pois «a arte de encontrar a solução para um problema no último minuto, sem um plano prévio e sem meios», revelando ao mesmo tempo muito sobre a cultura local. E continua o site: «enquanto a maioria de nós [norte-americanos] cresceu sob o lema dos escuteiros “sempre preparados”, os portugueses fazem exactamente o contrário». Desta forma, «conseguir um improviso de última hora que, não se sabe bem como, até funciona, é o que eles [portugueses] consideram como uma das suas mais valiosas aptidões». Adianta-se ainda ser a palavra tão importante que «até a ensinam na universidade e nas forças armadas», acreditando-se que tal capacidade tem sido a chave «da sua sobrevivência durante séculos»,  tendo igualmente representado um dos fundamentos da aventura colonial. «Que se lixe a preparação, eles têm o desenrascanço», conclui o artigo, que sugere uma expressão em inglês capaz de se aproximar minimamente do sentido tomado pela palavra portuguesa: «To pull a MacGyver».

                Apontamentos, Olhares, Recortes

                Às tantas, aos poucos

                Provos
                Amsterdão-1967: provos no Vondel Park

                Redigida por volta de 1685-1686, a Carta sobre a Tolerância foi publicada pela primeira vez em 1689, nessa mesma Holanda onde o seu autor, John Locke, procurara protecção. Nela se rejeitava terminantemente a ideia segundo a qual se poderia constranger alguém a crer, visando mostrar-lhe o verdadeiro caminho da salvação, e se defendia que as opções no campo do pensamento devem ser completamente indiferentes para as autoridades. Muito antes, durante as guerras de religião do século XVI, os Países Baixos tinham sido já uma ínsula de liberdade e de relativa paz numa Europa intransigente e a ferro e fogo. Aí encontraram refúgio milhares de judeus hispânicos e de protestantes de diferentes tendências, muitos deles a contas com os patíbulos do Santo Ofício se ali não tivessem buscado refúgio. Na década de 1960, Amesterdão transformou-se numa cidade plural e ali nasceram as primeiras comunidades contraculturais de jovens provos, aceites pelas autoridades apesar das suas posições radicalmente não-violentas e anti-sistema.

                Pois é nesta mesma Holanda que uma força da extrema-direita nacionalista e xenófoba – o Partido para a Liberdade do Povo Holandês, de Geert de Wilders – acaba de ficar em segundo lugar no decurso das eleições para o Parlamento Europeu, admitindo-se já a possibilidade de vir a ganhar as próximas legislativas. No ponto em que estamos, a situação dá bastante que pensar e recoloca um velho problema que os políticos europeus têm feito por varrer para debaixo do tapete: será legítimo integrar no jogo democrático e na arquitectura do bem comum os grupos e organizações que se destinam precisamente a contestá-los? Precisaremos de vê-los no poder para acordarmos e fazermos algo mais do que piedosas reprimendas?

                Adenda – Recebi entretanto um mail de um amigo português que conhece muitíssimo bem a Holanda e me diz que classificar o partido de Geert Wilders como «da extrema-direita e xenófobo» lhe parece «simplificar em demasia a realidade política e social holandesa». Junta ao que me diz um link para um texto de outrem que lhe parece ir ao encontro daquilo que ele próprio pensa. Esse texto pode ler-se aqui. Da minha parte, registo esta opinião, embora muita da informação que me chega às mãos pareça corroborar a leitura que fiz. Incompleta? É muito provável que sim. Por isso esta adenda.

                  Apontamentos, Atualidade, Democracia, História, Memória

                  Foucault lido às avessas

                  Classroom

                  Os professores reduzidos à condição de robôs palermas ou indigentes mentais: «Não devem decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhes são apresentadas.» Os alunos tratados como soldados instruendos em sádicas sessões de ordem unida: «Agora vou distribuir as provas. Deixem as provas com as capas para baixo, até que eu diga que as voltem.» Ou então: «A primeira parte da prova termina quando encontrarem uma página onde está escrito PÁRA AQUI!» Fiz todos os meus exames do secundário na década de 1960 – incluindo neles as temidas provas de «admissão ao liceu» e de «aptidão à universidade», vigiadas por professores de porte austero e fato completo – e jamais observei tal obsessão com a rigorosa sequência dos rituais e o controlo dos corpos. Michel Foucault lido às avessas pelos seres andróides do Ministério da Educação. «Podem sair. Obrigado(a) pela vossa colaboração!» Ler para crer.

                    Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

                    Voo rasante

                    Mathias no tribunal

                    Passam hoje exactamente 22 anos – ainda o Muro não tinha sido derrubado – sobre o dia no qual todos percebemos que a URSS já não metia medo a ninguém. E que qualquer rapazola com algum espírito de aventura e conhecimentos rudimentares de aviação era capaz de iludir o sistema de defesa soviético e aterrar incólume, ao comando de um Cessna 172B, em plena Praça Vermelha. Mathias Rust contará mais tarde, em entrevista ao Washington Post, os sentimentos que foi experimentando durante a sua viagem inabitual: «Durante todo o voo, estava em transe; era como uma experiência extracorporal. (…) Lembro-me de sobrevoar uma praia na Estónia. E disse para mim mesmo: ‘Agora estou na União Soviética’.» Uma mistura de brincadeira e de audácia que mostrou como o mundo estava a mudar e a Guerra Fria a gastar os últimos cartuchos.

                      Apontamentos, História

                      Hoje apetece-me ser espanhol

                      Telefono

                      Um número cada vez maior de portugueses, gente pacífica e de bem que apenas quer viver a sua vida, tem sido perseguido nos últimos tempos, no recato dos lares como nas profundezas dos bolsos das calças, por telefonemas e mensagens de SMS destinadas a vender toda a espécie de produtos. Com a cumplicidade dos fornecedores de serviços de telecomunicações, muitas das vezes eles próprios vendedores de «planos» maravilhosos, capazes de hipnotizarem os clientes e de deixarem a anos-luz as ofertas da concorrência.

                      Faço parte, no entanto, daqueles cidadãos, teimosos como Judas e nada colaborantes, que quanto mais apelos desta natureza recebem, menos vontade têm de aderir ao que lhes é pedido. Já desisti até de produtos que tinha decidido adquirir só porque, entretanto, o respectivo fornecedor passou a telefonar-me todos os dias, pelas seis da tarde, a tentar saber se eu já me tinha decidido a subscrevê-los. E se o não tinha feito, para me lembrar que existia ainda um outro serviço, de facto muito melhor, que por certo me traria a felicidade terrena. Para não falar de uma poupança significativa no final do mês. Pode ser que sim, mas como me incomodam, não levam nada, não quero o que me oferecem, não compro nem morto. Embora, admito, as manobras às quais me obrigam, vendo, ouvindo e lendo sucessivas mensagens que sou obrigado a receber, deixem na boca uma aguda vontade, perdoe-se-me a franqueza assassina, de meter no correio uma carta armadilhada destinada aos respectivos presidentes do conselho de administração.

                      Mas uma luz parece acender-se do outro lado do túnel: o governo de Madrid acaba de proibir o spam telefónico, anunciando pesadas penas para as empresas que recorram a ele. Ao mesmo tempo, obrigam essas mesmas empresas a pagar indemnizações nos casos em que os clientes vejam interrompidos, por quaisquer motivos, os serviços que de boa-fé contrataram. Outra situação que muitos portugueses conhecem muitíssimo bem. É em alturas como estas – São Nun’Álvares me perdoe – que me apetece ser espanhol.

                        Apontamentos, Atualidade

                        Let’s twit again

                        Conversa

                        Sabendo das andanças no Twitter de pessoas tão notáveis, diversas e hiperocupadas quanto o são Hu Jintao, Britney Spears, Barack Obama, Bento XVI, Bruno Aleixo e Vital Moreira, aguardo a primeira obra de ficção que tenha no centro da respectiva trama a vida laboriosa e trepidante, quiçá mal paga e a recibo verde, de um ghost-twitter.

                          Apontamentos, Devaneios

                          Estatuária

                          Cristo-Rei

                          Soube que a imagem de Nossa Senhora de Fátima foi ontem até aos arredores da Aldeia Galega visitar a do Cristo-Rei. Há que reconhecer: a estatuária portuguesa vive um momento de dinamismo fora do comum.

                            Apontamentos, Devaneios

                            «Portugal, one point»

                            Madalena Iglésias

                            Pela década de 1960, ambém eu fazia parte daquela maioria de portugueses para os quais o Festival da Eurovisão representava um momento relevante das suas vidas. Uma diversão rara, num quotidiano onde elas escasseavam, e, em parte por influência do canal único da televisão, uma espécie de fórum internacional de transcendente importância. Dos poucos nos quais Portugal era ouvido, ainda que apenas sob forma canora. As expectativas eram sempre grandes e alguns jornais traziam até umas tabelas para os seus leitores irem anotando, ao longo do serão, a votação dos diversos júris nacionais. No que me dizia respeito, todos os anos agarrava num lápis, numa régua e numa folha de papel quadriculado, e desenhava uma outra tabela, para a qual convocava a atenção dos adultos que se juntavam à frente do televisor na esperança de vibrarem com uma cançoneta como vibravam com os golos europeus do Eusébio. E todos colaboravam, não sei se por condescendência se com verdadeiro empenho.

                            O fim da noite, como se sabe, era sempre tristonho e desconsolado, com a cantoria nativa invariavelmente entre os piores classificados. E se o último lugar jamais aconteceu, foi porque o júri madrileno acamaradava connosco e, por obra e graça da solidariedade franquista, nos dava os pontos suficientes para escaparmos à tangente da humilhação das humilhações. A mágoa era enorme e recordo-me muito bem de uma vez ter até chorado de raiva e impotência. O que servia de consolo era que no dia seguinte os jornais faziam coro com a cólera dos portugueses e davam a entender que a pátria tinha sido enxovalhada por uma qualquer intriga da responsabilidade conjunta do comunismo internacional e das ingratas social-democracias europeias. A verdade é que ainda hoje, sempre que se aproxima mais uma das monumentais exibições de kitsch nas quais se transformou o Festival – nesta precisa noite apresentado aos berros, em inglês, a partir da outrora funesta Moscovo – experimento uma secreta esperança revanchista, indelével cicatriz deixada na alma pelo oxigénio salazarista: «Será desta? Será desta?»

                              Apontamentos, Memória, Música

                              A flor na lapela

                              Manuel Alegre

                              Assistimos na noite passada, à hora de jantar e praticamente em directo, ao fim da carreira de Manuel Alegre. À morte política, em vida, de uma dos últimos protagonistas da fase construção do nosso Estado democrático. A anunciada automarginalização dentro do Partido Socialista é, naturalmente, uma escolha dele. É lícita e será até compreensível. Se fosse alguns anos mais novo talvez tentasse ainda uma outra saída, mostrasse um outro arrojo, mas é provável que agora não se sinta já com força e ânimo para recomeçar do zero com base num projecto cheio de intenções tão boas quanto vagas. Para mais, um projecto politicamente inócuo que deveria obrigatoriamente transportar às costas. Mas já me parece de uma inocência inaceitável, revelada por diversos comentadores políticos – e, eventualmente, partilhada pelos próprio Alegre e por muitos dos seus apoiantes -, que se pense sequer na possibilidade real de o vermos transformado numa espécie de «reserva moral» para nas próximas eleições presidenciais derrotar o candidato da direita.

                              Quem está atento a tudo aquilo que dentro do PS se tem escrito, dito e feito para isolar e contrariar Alegre e os seus próximos, sabe que a esmagadora maioria do aparelho partidário, aquela que já se formou numa intervenção política meramente pragmática e pós-ideológica, é visceralmente «alegrofóbica» e tudo fará para frustrar essa possibilidade. Alegre não deverá ser candidato presidencial pelo PS, mas, se por um conjunto de circunstâncias muito especiais o vier a ser, estará derrotado à partida pela aversão e pelo demissionismo das estruturas formais dos próprios socialistas. Quanto à ideia de meter três ou quatro simpáticos alegristas no Parlamento, a concretizar-se ela constitui, evidentemente, um bombom oferecido por Sócrates para acalmar as hostes do MIC e conter a deslocação de uma parte do seu eleitorado natural para o score do Bloco de Esquerda ou para a abstenção. Uma flor na lapela do cinzento casaco socialista, nada mais.

                                Apontamentos, Opinião

                                «Foleiros & doutores»

                                Já antes falei por aqui – e muitas vezes noutros lugares – do espectáculo lamentável em que se transformou, após a sua gradual «ressureição» na década de 1980, a vivência das praxes e de certos momentos das chamadas festas académicas. Não pelos elementos lúdicos e festivos que podem conter, aceitáveis apesar de tantas vezes discutíveis, mas pelos actos de violência que frequentemente comportam, pelos atentados à liberdade individual que certas vezes configuram, pelo conteúdos aviltantes, sexistas e mesmo boçais que quase sempre integram (embora uma boa parte dos eufóricos participantes, e até alguns dos seus orgulhosos paizinhos, não saibam sequer identificar para o que apontam tais adjectivos). Nas actuais condições, que reajustaram completamente o lugar social do estudante universitário, a tudo isto pode somar-se a ostentação de um «elitismo» anacrónico. Desta vez, para não me repetir, tinha escolhido não falar do assunto, mas uma crónica que Manuel António Pina acaba de publicar no Jornal de Notícias fez-me mudar de ideias. Como infelizmente os textos do JN depressa desaparecem da edição em linha, transcrevo-a numa página interior. Fica aqui.

                                  Apontamentos, Atualidade, Olhares, Recortes

                                  Poética dos escaparates

                                  Escaparate

                                  É este o título da crónica de Antonio Muñoz Molina transportada no Babelia desta semana. Nela se aborda o panorama devastador, para quem ama os livros e gosta de flanar pelas livrarias, observado em cada aproximação a um desses coloridos e iluminados, frios e inóspitos, espaços-depósito que as grandes cadeias distribuem hoje pelas cidades. O texto de Molina pode ser lido aqui na íntegra, e dele se copia um fragmento.

                                  No hay amor a los libros, no hay una inteligencia detrás de su disposición: tan sólo un amontonamiento desganado de los dos o tres éxitos masivos de la temporada, apilados como mercancías al por mayor, si acaso en compañía de algún cartel promocional. Nadie va a descubrir nada ni a llevarse ninguna sorpresa mirando ese escaparate: parece que se aspira a ofrecer un producto de venta tan garantizada como la hamburguesa de un McDonald’s. Claro que un libro, entre otras cosas, también es una mercancía, y que un librero es un comerciante honorable que aspira, como todo el mundo, a ganarse la vida con su trabajo, y a que éste sea, a ser posible, como quería Juan Ramón Jiménez, un trabajo gustoso. Pero en esos escaparates se ve que no ha existido ni trabajo gustoso ni amor por los libros, ni siquiera la sensibilidad plástica que hace tan atractivas las caminatas por la ciudad.

                                    Apontamentos, Recortes

                                    Dois apontamentos sobre cartazes

                                    Propaganda

                                    1. Um passeio neste feriado fez-me passar diversas vezes pelos enormes cartazes de Vital Moreira e de Manuela Ferreira Leite com os quais os maiores partidos nacionais têm vindo a desfear as rotundas de vilas e cidades, não perdendo uma oportunidade para acabrunharem ainda mais os portugueses. Sem impacto político real ou aptidão para evocarem propostas. A frase «Nós, Europeus» colada ao candidato Moreira, por exemplo, é em 2009, no mínimo, um sinal patético de falta de imaginação e indigência política, reminiscência de um «A Europa Connosco» com mais de trinta anos. Os cartazes do PS e do PSD são péssimos, horríveis, representando de forma caricata ou soturna as figuras que nos pretendem propor, incapazes de transmitirem ao cidadão comum uma impressão de calor ou de proximidade. Chego depois a casa e observo imagens dos cartazes da Esquerda Verde, segunda classificada nas eleições que decorreram na Islândia. Percebo ali uma outra cultura política, um outro cuidado com uma abordagem visual, assumidamente estetizada e menos poluente, com capacidade simpática, das pessoas que andam pelas ruas e as observam.

                                    2. Desde o episódio do «porreiro, pá» entre Sócrates e Barroso que me incomoda o uso da frase casual, de alguma forma íntima e apenas revelada por um microfone inadvertidamente ligado, como instrumento de arremesso contra ambos. Independentemente das considerações que se podem fazer sobre as atitudes políticas de um e do outro, esse momento cristalizou, aos meus olhos – e provavelmente aos olhos de muitas pessoas – um grau de humanização e de informalização do relacionamento interpessoal que é uma conquista de Abril e que, na sua dimensão democrática, realmente me agrada. Sem exagero. Não posso, por isso, deixar de lamentar a utilização daquela frase pelo Bloco de Esquerda, em outdoors de pré-campanha, como arma de arremesso. E tenho a certeza de que a «mensagem» resulta absolutamente ineficaz, se não mesmo contraproducente em termos de comunicação pública. A construção de uma cidadania mais perfeita não passa, ou não deve passar, pelo achincalhamento pessoal de quem quer que seja. É feio e não vale.

                                      Apontamentos, Atualidade, Olhares