Sublinho Santiago López-Petit, em A Mobilização Global, enquanto penso nesta cultura do um contra o outro apresentada como único cenário do futuro sem esperança em nome do qual tudo nos é pedido.
«Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente: ‘a vossa situação depende apenas de vós mesmos’. E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial significa que temos de nos avaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. (…) O [novo] estado de natureza alastra como um mar enfurecido até cobrir-nos por completo.»
E mastigo a certeza de que a esperança apenas pode nascer do desespero.
«Tem mesmo rumos que o destino impõe. Resta pois fazer a mala e precipitar um remate.» [Desmedida. Luanda – São Paulo – São Francisco e volta, ed. Cotovia] Ruy Duarte de Carvalho, 1941-2010
Há três dias parei para beber um café e desentorpecer as pernas numa estação de serviço da A2. No restaurante, um pouco acima de um cartaz que anunciava ao preço de 9,55 Euros um prato de macarrão com pedaços de bacon provavelmente atingidos por uma granada de fragmentação, um enorme monitor de LCD espalhava a imagem e a voz de Raul Castro. De farda completa e boné militar, dirigia-se ao cordato parlamento instalado em Havana para anunciar que o seu governo jamais perdoará aos «inimigos da pátria». Assim designa o regime cubano todos aqueles que perturbem a «ordem revolucionária», sejam eles carteiristas reincidentes ou vendedores ocasionais de doces caseiros, blogueiros autónomos ou gays que digam que o são, intelectuais que defendam a liberdade de expressão ou gusanos com dentes de ouro e simpatizantes dos republicanos. Todos iguais, todos «bandidos» que instigam à desordem. Com a voz mais ameaçadora que consegue emitir, o Castro mais novo mostra como se governa em regimes de partido único: ameaçando as pessoas comuns com a voz mais ameaçadora que se consegue emitir, usando os mecanismos da propaganda sem concorrência, mostrando que não pode haver lugar para as razões de quem pensa de forma diferente da única «justa». Mas ninguém levantou os olhos para o ouvir Castro, ali na estação de serviço. Um grupo de turistas chineses ria de alguma coisa. Uma família portuguesa engolia sandes de mortadela enquanto conversava aos gritos. Duas raparigas passavam de mão dada e com headphones nos ouvidos. No aquário, os peixes continuaram em silêncio. Eu bebi o meu café e segui viagem, a pensar em como em Cuba até a indiferença deve doer.
Os antigos administradores do BCP que vão agora a julgamento, acusados de manipulação de dados e de falsificação de documentos – mas «ilibados da acusação de burla», uma subtileza de recorte jurídico cuja clareza talvez por ignorância me escape –, podem até escapar a uma qualquer pena ou ser absolvidos. Por obra e graça de advogados de primeiro escalão, pelo arrastamento do processo nos tribunais ou mesmo por ausência de provas e evidência de boa-fé. Todavia, o Tribunal de Instrução Criminal deixou claro «que os arguidos não pretenderam obter benefícios pessoais ou causar prejuízos ao banco», o que deixa implícito poderem ser de menor gravidade os danos provocados no património dos pequenos accionistas, dos depositantes e da coisa pública. Como seria de esperar, em declarações ao Público, Filipe Pinhal, um dos ex-administradores, vincou muito bem este aspecto. Uma noção de honra pessoal ou de amor a uma instituição – neste caso a um banco, género de sentimento que escapa à minha sensibilidade poética – que se traduz um completo menosprezo pelo interesse comum. Revelá-la desta forma, às claras e sem qualquer vergonha, serve para que não esqueçamos ser esta, independentemente da caução legal que foi sendo associada muitos dos seus actos mais danosos, a lógica mais essencial do, «com vossa licença», capitalismo.
Os seguidores mais vigilantes e as sectárias mais inflexíveis já repararam numa quebra apreciável no ritmo das actualizações deste blogue. Chegaram até mails sobre o assunto. Estou em condições de assegurar que não se passa nada que não possa relacionar-se com o Verão, este maldito calor e o inalienável direito dos trabalhadores a um pouco de preguiça. Assim seguiremos, devagarmente, até ao miolo de um Agosto previsível.
Não sou um sujeito venal. Não penso, como alguns banqueiros ou os jovens turcos, que «todos temos um preço», diferenciando-se os mais honestos apenas por ganharem menos do que os nada escrupulosos. Ainda assim, a alguém que me queira oferecer um utensílio destes, entregarei a alma de imediato sem exigir recibo. Ele sugere-me um salvo-conduto para a felicidade suprema – como se sabe, ela é leve e portátil – e essa não tem preço.
O autor de La Chute escreveu certa vez, em carta ao amigo Guy Dumur, que a suprema infelicidade não está em não sermos amados, mas sim em não amar. Em francês talvez soe melhor, se bem que de forma não menos dramática: «le plus grand malheur n’est pas de ne pas être aimé, mais de ne pas aimer.» Parece um paradoxo, mas percebemos que o não é quando admitimos que só quem construa expectativas pode também esperar. Ninguém incapaz de dar, de procurar, de crer mesmo sem ver, pode acolher o amor dos outros. E todos os dias conhecerá a infelicidade.
O comentador inocente parece francamente admirado durante o jogo de futebol Coreia do Norte – Costa do Marfim: «Mas os jogadores norte-coreanos jamais discutem um decisão do árbitro! Seja ela qual for!»
Napoleão abdicando em Fontainebleau, óleo de Paul Delaroche (1841)
A desastrada participação da França no campeonato mundial da África do Sul está a assumir proporções tão grotescas quanto preocupantes. Os jogadores têm dramatizado a situação servindo-se de palavras fortes como «catástrofe», «traição» ou «desespero». Atitude que só lhes fica bem, uma vez que ninguém espera de um soldado derrotado que regresse a casa trauteando o Juanita Banana. Os jornalistas franceses agem em conformidade, dando eco à vergonha que cobre les Bleus, falando em «fim do mundo» e acusando tudo e todos. É normal esta dramatização, pois quando falta o circo a nação treme, e na pátria das barricadas há sempre que temer o pior. Afinal, foi em França que nasceu Nicolas Chauvin, o soldado do exército napoleónico que nunca se conformou com a derrota de Waterloo e, apesar de considerado um tanto aparvoado pelos seus contemporâneos, se tornou o primeiro chauvinista. De acordo com o Dicionário da Academia das Ciências, este passou a ser considerado «um personagem belicoso, dotado de um nacionalismo exacerbado e irracional.»
O problema é que esta espécie de doença atingiu agora quem tinha a obrigação de reduzir o futebol à sua dimensão de divertimento, mas prefere transformá-lo num problema de todos os franceses. Nicolas Sarkozy exigiu assim, nesta quarta-feira, que se apurem as «responsabilidades» pelo «desastre», anunciando um projecto de renovação do futebol no país que será da iniciativa do Estado. O presidente de todos os gauleses reuniu-se entretanto com o primeiro-ministro, François Fillon, com a ministra dos Desportos, Roselyne Bachelot, e com a secretária de Estado para o Desporto, Rama Yade, para «fazer um balanço da infeliz participação da selecção francesa» no Mundial. E pediu ainda, em comunicado oficial, «garantias aos ministros de que os responsáveis assumam rapidamente as consequências pelo desastre». Um precedente perigoso de transformação do futebol numa prioridade do Estado. Num assunto muito sério que deve ser sempre tratado de forma grave. Não vá o mundo pensar que a França é uma pátria de frouxos e que já não dispõe de um lugar central no concerto das nações.
As vítimas dos disparos dos soldados britânicos – causando 14 mortos e um número elevado de feridos – no incidente que ficou conhecido por Domingo Sangrento (Bloody Sunday), em Londonderry, na Irlanda do Norte, a 30 de Janeiro de 1972, foram agora consideradas inocentes de qualquer provocação por um inquérito oficial aberto há cerca de 12 anos. Este provou que as tropas britânicas de ocupação dispararam deliberadamente e sem qualquer aviso prévio sobre os participantes de uma marcha pelos direitos cívicos da minoria «católica» pobre e segregada. O acontecimento impôs uma escalda da violência no Ulster e transformou o «problema irlandês» numa das grandes preocupações internacionais da época. Um problema apenas parcialmente resolvido. Basta caminhar por certas áreas de Belfast ou de Londonderry para percebê-lo sem ser preciso perguntar a alguém.
Bem sei que pode parecer um pouco cruel escrever isto, mas dói ver a forma como muitos dos emigrantes portugueses na África do Sul – a maioria originária do norte empobrecido da ilha da Madeira, onde pais, avós e bisavós penaram sob o regime de colonia – se comportam quando saem dos bairros onde moram e trabalham e são colocados à frente de uma câmara de televisão para falarem da «nossa selecção» e de «nós, portugueses». Um país antigo e desigual ressurge então das sombras, mesmo quando são jovens a darem a cara. Na maior parte dos outros destinos da nossa diáspora já não é vulgar depararmos com um número tão elevado de pessoas assim, parecendo arrancadas a uma canção de Max ou de Marante. Adivinham-se então as sucessivas gerações de exclusão e de trabalho, em fábricas ou pequenos bisenesses, que estão por detrás daquela felicidade efémera. Os bem-sucedidos, claro, não se vêem nas imagens dos engarrafamentos, da poeira nos sapatos e das vuvuzelas verde-rubras. Quanto aos repórteres no terreno, esses continuam mais preocupados em saber do interlocutor o que sente ele «ao ver Cristiano Ronaldo», se está ali para «apoiar os nossos jogadores», se acha que Portugal «vai ganhar». Tudo normal na aparência, embora um tanto tristonho. Mas nada que um final de tarde em glória no estádio de Soccer City, Joanesburgo, a 11 de Julho, não possa tornar irrelevante.
Acaba de sair uma compilação de textos de Yoani Sánchez, a jornalista dissidente cubana que edita o blogue Generación Y – no seu país este circula apenas em cd-rom ou pen drive – e ganhou em 2008 o prémio Ortega y Gasset concedido pelo diário El País. Cuba Livre é um testemunho expressivo do quotidiano da ilha, particularmente mordaz e convincente por mencionar detalhes que apenas pode narrar quem nela viva e nela participe dos mais elementares actos de sobrevivência, muitos deles obrigatoriamente ilegais mas imprescindíveis. Ou então quem sinta na pele a privação da liberdade, particularmente experimentada pelos que, como Yoani, se esforçam todos os dias por contorná-la e combatê-la. A páginas tantas: «Entre as melhores definições de “liberdade de expressão” conheço uma herdada de um amigo que dizia: “Um país onde uma pessoa pode parar num cruzamento e gritar ‘aqui não existe liberdade de expressão’ é exactamente um lugar onde ela existe.” Por isso tive vontade de me pôr no meio da rua e começar a dizer qualquer coisa, para demonstrar que entre nós não é possível sequer pronunciar o começo da frase.» Ou mais adiante: «Não tomaste o comprimido vermelho nem o outro azul… mas hoje levantaste-te e a realidade parece pura ficção. Reexaminas o jornal para retirares aquele sabor a falso e verificas, lendo o Granma, que o fictício foi oficialmente instituído.» Escrever e publicar textos desta natureza, que em grande parte do mundo não passariam de inocentes desabafos, representa na vida de Yoani, como na de qualquer cubano insulado com a sua atitude, um indício grave de crime ou de traição. [Yoani Sánchez, Cuba Livre. A arte de sobreviver a Fidel Castro. Trad. de Maria Irene Bigotte de Carvalho. Casa das Letras, 236 págs.]
De regresso à Islândia, mas desta vez deixando em paz o vulcão de nome impronunciável. Em Reiquejavique, para além dos partidos tradicionais, o novo Besti Flokkurinn («O Melhor Partido») participou nas recentes eleições autárquicas. Foi criado em 2009 por Jón Gnarr, um dos humoristas mais populares do país, para brincar com a ausência de novidade nas propostas dos outros partidos. Muitas das suas promessas eram propositadamente ridículas: abrir uma filial da Disneylândia na cidade, banir o consumo de drogas no parlamento nacional até 2020, dar toalhas de graça nas piscinas, trazer um urso polar para o zoológico local, erguer portagens para aceder aos bairros dos ricos, colocar sapos no lago do centro da cidade e povoar os parques com esquilos. Só que a votação decorreu neste domingo e… O Melhor Partido ganhou em Reiquejavique. Quase 35%, contra os 33% do velho Partido da Independência, a segunda força mais votada. Jón Gnarr será agora o presidente da câmara da capital do país, chefiando uma coligação com os social-democratas. As expectativas, claro, são altíssimas. E a Europa treme com o exemplo.
Dizer-se, como acaba de dizer José Sócrates, que se apoia «o Manuel Alegre» – repare-se que aqui não houve «camarada», «companheiro» ou sequer «dr.», como aconteceu noutras ocasiões – porque com ele se partilha um valor comum, «o do progressismo», é bizarro e é curto. Bizarro pois esse é um conceito varrido desde há muito do vocabulário político contemporâneo. Herdado da velha filosofia das Luzes, que pretendia dotar a História de um trajecto «progressivo», linear e cumulativo em termos de conhecimento e de felicidade terrena, ele foi de tal forma usado e abusado ao longo de mais de dois séculos – particularmente pelos positivistas republicanos de Oitocentos – que se tornou, nos programas políticos de várias esquerdas, ou nas metanarrativas a elas associadas, em claro indício da mais completa vacuidade. Os últimos a utilizá-lo com frequência, os partidos comunistas, têm continuado a servir-se do termo para se referirem àqueles partidos, diferentes movimentos ou proeminentes cidadãos que com eles possam colaborar, como «progressistas» companheiros de jornada, numa dada etapa do combate político que lhes importa. Mas o qualificativo do qual se serviu Sócrates é também curto, pois não servirá para convencer quem quer que seja – a começar pelos militantes socialistas impressionados por longos anos de minimização interna das atitudes cívicas de Alegre – a sair da apatia e a votar neste para presidente da República. É preciso bem mais para convencer e para mobilizar o povo. Se for essa realmente a intenção, evidentemente.
Morreu hoje o Dennis Hopper (1936-2010). O Goon de Rebel Without a Cause (meninos jornalistas, em Portugal chamou-se Fúria de Viver, no Brasil Juventude Transviada). O fotojornalista do Apocalypse Now. O pai de Mickey Rourke em Rumble Fish. O Frank Booth de Blue Velvet. Mas para mim, principalmente, o Billy de Easy Rider. Em cima daquela mota, por interposta pessoa, vislumbrei um dia outra vida. Quanto à vida dele parece que Dennis passou por ela muito bem, obrigado. Intensamente, como é preciso.
«Já há reais motivos de conflito suficientes e não precisamos de lhes juntar mais um, incentivando alguns jovens a darem caneladas uns aos outros, por entre os urros dos espectadores em fúria.» [Tribune, 14/12/1945]
A possibilidade de terem sido os serviços secretos soviéticos a fazer gorar dois atentados contra Adolf Hitler, que deveriam ter ocorrido em 1943 e depois em 1944 e se destinavam a mudar a liderança alemã, criando condições para se pôr termo à Segunda Guerra Mundial – e tendo provavelmente evitado a fase mais letal do Holocausto e da própria guerra – foi colocada há já algum tempo. Desta vez parece que as provas foram mesmo reunidas e serão publicadas em breve na Rússia. O objectivo era relativamente simples e «fez escola»: tornava-se necessário evitar a todo o custo que os eventuais sucessores do ditador nazi pudessem firmar uma paz separada com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Como sempre, quanto pior melhor. Distribuídos «do Atlântico aos Urais», não faltarão com toda a certeza contemporâneos nossos capazes de compreender, se não mesmo de aplaudir, a decisão do «heróico» carniceiro georgiano.
Depois do anterior post sobre o desaparecimento dos cigarros Gitanes do mercado, recebi uma dezena de mails sobre o assunto. Chegaram todos de pessoas que não conheço do mundo material, nem elas a mim, com as quais jamais me cruzei, mas que se aproximaram na tristeza solidária e na revolta por verem desaparecer esse momento especial que era ao mesmo tempo um hábito e um ritual. Agora eclipsado por troca com sensaboria normalizada de um tabaco claro e sem alma. Num dos mails recebidos evocava-se um aspecto crucial que me escapara no post: «aquela sensação de ter um Gitanes no meio dos dedos, dada a sua espessura única». É realmente verdade que essa ausência pesa também: aquele milímetro a mais de circunferência, suficiente para conferir ao momento uma robustez que se impunha na experiência do fumador e na forma como este concebia o seu lugar social, vincando a margem de diferença em relação aos vulgares consumidores de tabaco light. E como são importantes para nós, certas vezes, estes pequenos pequenos nadas.
Jacques Brel, fumeur de Gitanes – J’en appelle PLAY