Arquivo de Categorias: Apontamentos

Gaza e o outro Israel

A inqualificável e inaceitável política genocida praticada sobre a população civil de Gaza pelo governo de Netanyahu e dos seus aliados da extrema-direita fundamentalista, é nefasta mesmo para uma boa parte da população de Israel. Tem como resultado prático, para além do sofrimento sem fim do povo palestiniano, o bloqueio absoluto de uma imprescindível solução de dois estados independentes e pacíficos, aquela que se funda verdadeiramente na história da região e dos seus povos – não é isto o que dizem as pessoas parciais ou desconhecedoras posicionadas de ambos os lados – e a única que pode pôr fim à instabilidade e ao contínuo tormento. Ela tem também como consequência uma generalização do combate contra todos os cidadãos israelitas, parte deles muito erradamente identificados como «judeus», bastantes até muçulmanos, que se opõem ao atual governo e às suas políticas. Infelizmente, estes constituem em Israel ainda uma minoria, embora ela seja uma grande minoria, ilustrada até pelos resultados eleitorais, que não pode ser olhada como mera cúmplice dos crimes em curso.

    Apontamentos, Atualidade, Direitos Humanos, Olhares

    Conversa ou monólogo?

    As redes sociais são sempre, para o bem e para o mal, um espaço de interação com os demais humanos. Seja qual for o sentido ou a forma do que escrevemos ou mostramos, o resultado será sempre olhado e apreciado por pessoas que não apenas nós próprios ou escassos outros. É claro que podemos sempre criar e comunicar num registo de monólogo, mas ainda assim serão pessoas distintas a ler-nos, a ver-nos, eventualmente a julgar-nos, concordando ou discordado do que dizemos, ou seguindo em frente sem mostrar interesse.

    (mais…)
      Apontamentos, Devaneios, Olhares

      Reconhecimento da Palestina por Portugal

      É um caso ao qual se aplica a expressão popular «mais vale tarde do que nunca». O governo português, apesar de visivelmente contrariado, cedeu à pressão e reconheceu o Estado palestiniano, sendo o 13º país da União Europeia a fazê-lo. Como aconteceu com outros países, este reconhecimento está vinculado à iniciativa da Autoridade Palestiniana e não do Hamas, o que me parece justo, em primeiro lugar para o próprio povo palestiniano. Todavia, e sendo absolutamente favorável à solução de dois Estados pacíficos para a região, e completamente avesso à ideia absurda e antissemita do apagamento de Israel do mapa, não me parece nada bom que, na declaração formal agora assinada, a condenação da política agressiva e genocida do atual governo israelita para Gaza não seja mais claramente vincada.
      [Originalmente no Facebook]

        Apontamentos, Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Olhares

        Tudo ao contrário na educação

        Começo com parte de um importante post de alerta publicado no seu mural do Facebook por Paulo Marques:

        «Recentemente, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, de visita a uma escola, numa aula, disse a alunos do 12.º ano que “quem anda em manifestações perde a aura”. Não se trata de uma frase inocente, nem de um simples deslize retórico. É uma mensagem política e, diria, perigosa.

        “Aura” é uma palavra carregada de simbolismo. Sugere prestígio, distinção, brilho pessoal. O que o ministro transmitiu àqueles jovens foi claro: quem protesta, quem se envolve, quem ocupa o espaço público para reclamar justiça, perde reputação, mancha a sua imagem, arrisca o futuro.

        Mas não é exatamente o contrário? Se hoje temos direitos fundamentais, do voto universal à liberdade sindical, da escola pública ao Serviço Nacional de Saúde, foi porque milhares de pessoas saíram à rua, arriscaram empregos, enfrentaram repressão, desafiaram a ordem estabelecida.»

        (mais…)
          Apontamentos, Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

          Um erro da PIDE (com um pouco de riso)

          Deparei hoje com um relatório da PIDE datado do ano de 1972 no qual um panfleto contra o regresso da Queima das Fitas que circulou em Coimbra em maio desse ano vinha com a sua autoria completamente trocada. Sei-o melhor que ninguém, pois foi o último que escrevi para os chamados «Núcleos Sindicais de Base», antes de ser internamente impedido de continuar a fazê-lo por a minha escrita ser acusada de «demasiado literária». Tratava-se de um grupo de estudantes filo-maoistas, na altura ainda muito poucos, dos quais fazia parte e fora um dos fundadores em Coimbra.

          (mais…)
            Apontamentos, Democracia, História, Memória

            Xi, Kim, Vova e o Sonasol

            Constato, por um rápido périplo online, que o encontro em Pequim dos ditadores da China, da Coreia do Norte e da Rússia, respetivamente Xi Jinping, Kim Jong-un e Vladimir Putin, em conjunto com alguns dos seus melhores apoiantes, como Aleksandr Lukashenko, da Bielorrússia, Miguel Díaz-Canel, de Cuba, Ukhnaa Khurelsukh, da Mongólia, Luong Chuong, do Vietname, ou Masoud Pezeshkian, do Irão, a pretexto da celebração com parada militar do 80º aniversário da rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, está a deixar entusiasmadas por cá algumas pessoas que se imaginam e autoproclamam anti-imperialistas e «de esquerda». Como se afirmava num antigo anúncio do detergente Sonasol, «o algodão não engana». Ou engana apenas quem gosta de ser enganado e o assume.
            [Originalmente no Facebook]

              Apontamentos, Atualidade, Democracia

              A mentira não tem cor

              Um dos fatores de destruição da democracia é hoje, como se sabe, a manipulação ou a invenção de notícias por parte da extrema-direita, ou mesmo do centro-direita, no sentido de gerar condições para a instalação do medo entre setores mais frágeis e menos informados do eleitorado. Ainda que a generalidade assente na pura mentira, isso em nada importa a quem as produz, pois o que para ela conta é o efeito produzido. Infelizmente, sobretudo nas redes sociais, estou a encontrar também, e cada vez mais, apontamentos e falsas informações, ou mesmo pura desinformação e imagens manipuladas, introduzidas por pessoas de esquerda em busca, no seu entendimento, de produzir o efeito contrário e de justificar os seus pontos de vista. O resultado é sempre igualmente péssimo, como o é combater a mentira com a mentira. Apenas se expandem os mal-entendidos e a dimensão da informação tóxica, ajudando a normalizar e a disseminar uma absurda «ética da falsidade».

                Apontamentos, Democracia, Olhares

                O prazer dos arquivos

                Tendo muitas vezes a lembrar as centenas, provavelmente os milhares, de tardes de verão que passei dentro de arquivos históricos. É um prazer antigo, que me acompanhou desde cedo, muito antes ainda de ser parte ativa de um deles. Lidar horas ou dias a fio com «papéis velhos», vindos de outras vidas, de diferentes esperanças, de modos singulares e muito desiguais de estar no mundo e de o representar. Neles, jamais me senti sozinho, ou parte de uma exposição de velharias, mas como um explorador inquieto em viagem pelo tempo. Por estes dias de muito calor, e neste tempo de constante e crescente ruído, recordo mais ainda a sua temperatura amena e o seu silêncio reconfortante. Como os de um caravançarai ou de um oásis para quem atravessa o deserto. 

                  Apontamentos, Devaneios, Olhares

                  Atacar o SNS é estupidez, ignorância e ingratidão

                  À exceção dos que tenho no meu mural do Facebook – e mesmo a estes só consigo seguir em parte – desde há muito que quase deixei de ler comentários em redes sociais e blogues. Tendo sido praticamente pioneiro da Internet em Portugal, mantive páginas que os permitiam entre 1995 e 2003, acabando com eles precisamente porque eram, em boa medida, cada vez mais tóxicos e ofensivos, para nada servindo. Nos jornais online faço a mesma coisa, até porque essa toxidade, como se sabe, tem vindo nos anos mais recentes a piorar exponencialmente.

                  (mais…)
                    Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

                    Psicopatas há muitos

                    Ignorante de tanta coisa que sou, tinha até há pouco uma perceção muitíssimo parcial da psicopatia e do psicopata. Julgava este, como creio que ocorre com a maioria das pessoas, apenas aquela figura antissocial, com formas muito graves de transtorno de personalidade, habitualmente associada à prática compulsiva e prolongada de crimes de sangue, em regra praticados de uma forma sistemática e tantas vezes particularmente horrível. Como o fizeram o londrino Jack, o Estripador, Harold Shipman, o «Dr. Morte», médico britânico que matava os pacientes, ou John Wayne Gacy, que se vestia de palhaço para assassinar ritualmente crianças e jovens.

                    (mais…)
                      Apontamentos, Atualidade, Democracia, Olhares

                      Verão Quente: não foi isto que vivemos

                      O Público começa um artigo sobre o Verão Quente de 1975 da seguinte forma: «Foram meses de instabilidade política, de anúncios de golpes e contragolpes de Estado, e também marcados por uma onda de violência ímpar. A História descreve uma realidade de trincheiras e os protagonistas reconhecem que Portugal esteve à beira de uma guerra civil. O país vivia, literalmente, a ferro e fogo. Foi o Verão quente.» Na verdade, a História (com o H maiúsculo que os autores do texto preferem usar) não descreve nada disto, ou apenas isto. O chamado Verão Quente foi um tempo de grande instabilidade política e social, sem dúvida alguma – aliás, revoluções tranquilas, sem instabilidade e hesitações, não existem -, mas também um período de conquistas, de experiências e de construção de utopias que durante décadas pautaram a vida dos portugueses e da democracia. Reduzir o Portugal da época a «um país a ferro e fogo» é um logro análogo àquele imposto pelo Estado Novo, ao longo da sua existência e a sucessivas gerações, para caraterizar a nossa Primeira República.

                        Apontamentos, Democracia, História, Olhares

                        Ruído na praia

                        Gosto de mar e da proximidade do mar, mas não de passar horas na praia, entre grãos de areia, golpes de sol e banhistas ruidosos. Da infância até aos quinze era forçado a viver cada agosto do ano na Figueira (da Foz), suportado por não ter direito de escolha. Salvaram-me os filmes bíblicos e os western spaghetti, os carrinhos de choques e os gelados de cone, as músicas da jukebox e a primeira namorada, mas a praia, a praia em si, esse era um lugar de tédio. Continuei depois a frequentá-la periodicamente, uma vez que o sol me ajuda a diluir alguns problemas de pele, mas o enfado permanece.

                        (mais…)
                          Apontamentos, Cidades, Olhares

                          Um país seguro, tenham paciência

                          Em 2025 Portugal subiu uma posição (7º lugar global, 5º da Europa, em 163) e ultrapassou a Dinamarca na lista dos países mais seguros. Esta é a verdade, reconhecida pelo Institute for Economics and Peace, que contraria a mentira generalizada, construída sobre pequenos episódios, propagada pela extrema-direita e que agora o nosso centro-direita também adotou. Documento completo: https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2025/06/Global-Peace-Index-2025-web.pdf

                            Apontamentos, Atualidade, Democracia, Etc., Olhares

                            Algumas linhas sobre o ativismo

                            Um útil apontamento publicado no Facebook por António Pais remete para uma declaração de Manuela Carmena, deixada em entrevista ao El País, que me levou até um padrão de leitura do papel do ativismo e dos ativistas na qual tenho pensado bastante e que me parece valer a pena debater. Carmena, nascida em 1944, é uma jurista e juíza espanhola, que foi militante dom PCE entre 1965 e 1981, vindo mais tarde, entre 2015 e 2019, a tornar-se alcaide de Madrid por uma coligação de esquerda. Este ano lançou Imaginar la vida: Cuatro décadas transformando lo público, que é um livro de memórias. 

                            (mais…)
                              Apontamentos, Atualidade, Democracia, Olhares

                              Cuidado com o Academia.edu

                              Comecei em janeiro de 2021 a usar a versão Premium do Academia.edu. Tem inúmeras vantagens, desde servir de repositório público para as nossas publicações, até oferecer as de muitas outras pessoas, pesquisando por temas e mesmo por conteúdo dentro das dezenas de milhões de textos que armazena. E avisando também sobre a entrada de novos artigos que nos possam interessar. Só vantagens, parece. Ao ponto de se ter transformado num lugar fulcral para a divulgação do meu trabalho, para a investigação e para contactos.

                              (mais…)
                                Apontamentos, Etc., Oficina

                                O candidato e o canto da velha sereia

                                Como vivemos em democracia, pela qual o PCP tanto e tão custosamente se bateu, obviamente este tem todo o direito a escolher o seu próprio candidato presidencial. Como o fez, aliás, em outras eleições análogas. O que me parece inaceitável é apresentá-lo como.«o único candidato progressista», ou «agregador de todos os que defendem a Constituição», proclamando ao mesmo tempo que o partido jamais desistirá da candidatura de António Filipe em favor de outra que interesse mais, no cenário presente de avanço da direita, ao conjunto da esquerda.

                                (mais…)
                                  Apontamentos, Atualidade, Democracia

                                  «No prelo»

                                  Ao passar por um dos meus artigos académicos iniciais, publicado em 1982, deparei com a referência a um segundo volume de um título cujo primeiro tomo citei, indicando-o como estando «no prelo». Isto é, em fase de impressão tipográfica. Era ainda uma prática muito usual, a de fazer sair obras em dois volumes indicando que o segundo se encontrava nessas condições. Num grande número de vezes, porém, nem isso era verdadeiro: tratava-se apenas de uma intenção jamais cumprida. Costume também era alguém indicar um título seu, fosse de livro ou de artigo, que considerara a hipótese de publicar, como estando no tal inexistente «prelo». Tratava-se de uma forma artificial – talvez melhor: fraudulenta – de ampliar currículos pequenos ou inexistentes.

                                  (mais…)
                                    Apontamentos, Etc., Memória, Olhares

                                    Memória, ignorância e inocência do mal

                                    Deparei no Facebook, num grupo sobre o passado da cidade de Coimbra, com esta fotografia, tirada em 25 de junho de 1939 no Campo das Salésias, quando ali a Académica venceu o Benfica por 3-1, conquistando pela primeira vez a Taça de Portugal. Todavia, o texto, razoavelmente longo, que acompanhava a imagem, conseguia a proeza de evocar o momento sem referir a bem visível saudação fascista que, no início do jogo, ambas as equipas fizeram de um modo unânime. Pior: quando uma pessoa atenta deixou nos comentários uma referência ao facto, foi sucedida por uma série de contra-comentários agressivos e ignaros, às dezenas, onde se diziam coisas como «era apenas uma saudação habitual na época» ou «naquele tempo as pessoas não se metiam em políticas» (sic).

                                    (mais…)
                                      Apontamentos, Democracia, História, Memória, Olhares