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Serenidade


A chama olímpica passou por Pyongyang, a capital da Coreia do Norte. Sem registo de incidentes, naturalmente. E sem a necessidade da presença de agentes de Pequim com bandeiras impecavelmente engomadas a fazerem de «manifestantes pró-chineses». Por ali o povo permanece sereno.

    Apontamentos, Atualidade

    Heranças trocadas

    Apontamentos do Maio – 4

    Paul Berman (A Tale of Two Utopias) e Luc Ferry/Alain Renaut (La Pensée 68) falaram de uma «má ressaca» das experiências de 1968, no carácter vazio das propostas de mudança então adiantadas, na sua rápida redução a um estado de irrelevância. Uma certa direita, porém, não leva demasiado a sério esta desvalorização, vendo-se forçada, pela boca de Nicolas Sarkozy, a afirmar que «é preciso liquidar Maio de 68». A frase não passa de uma enorme boutade: como poderia Sarkozy ter a vida pessoal que tem, manter o estilo que mantém, e ao mesmo tempo ganhar umas eleições presidenciais, sem a cultura da informalidade e da complacência moral que o Maio legou e simboliza?

    Por outro lado, resulta igualmente equívoca a ideia de que a esquerda actual é a herdeira única e universal de 68. Transcrevo o essencial do argumento do filósofo e ensaísta espanhol José Luis Pardo a este propósito, retirado de um artigo surgido há duas semanas no suplemento Babelia do El País. Ele suscita leituras críticas dessa vinculação exclusivista da esquerda aos acontecimentos do Maio:

    «Primeiro, porque existem coisas provenientes de 68 que ninguém deseja herdar (como os grupos terroristas); segundo, porque a nova direita é muito mais ‘sessenta-e-oitista’ do que confessa: é-o na sua aversão à ordem jurídica e à regulação estatal, no seu culto da identidade ou na substituição da discussão política pelos valores morais; e, finalmente, porque se alguém tivesse então falado do casamento homossexual, das quotas de género ou da conciliação entre o trabalho e a família – justamente quando se previa a abolição concertada do casal, dos géneros, do trabalho e da própria família -, teria sido perseguido sem piedade como um reaccionário dos mais recalcitrantes.»

      Atualidade, História, Memória

      A vida a 26

      Deixei de frequentar «cerimónias comemorativas» de Abril. Sessões de reprise, quase sempre organizadas por pessoas com saudades de si próprias ou por autarcas com escassez de imaginação. Transformadas tantas vezes em dever. Repetindo, ano após ano, as mesmas palavras de ordem, as mesmas canções, as mesmas histórias, o mesmo cravo vermelho ao peito «que a todos fica bem». Sempre o que se me afigura uma idêntica, pesada e opressiva nostalgia. Aborrecem-me, admito. Aborrecem-me quase tanto quanto aborrecem a generalidade dos portugueses normais com menos de quarenta e oito anos. Transferi pois o 25 de Abril para a memória-cache, como parte central da minha vida e como âncora da memória colectiva que partilho. Como uma dobra, separando o que ficou para trás – a desigualdade como princípio, a vida triste, a fealdade no poder, o medo persistente como a caspa – de tudo aquilo que ali mesmo começou. Um campo aberto a sucessivos trilhos, a mil e uma quimeras, a todos os desígnios e precipícios possíveis e impossíveis. Mesmo aos piores. Prefiro por isso falar do 24. E de como a vida a 26 se tornou infinitamente mais trepidante, mais bela, melhor apesar de tudo. Graças a um 25 inesquecível para quem o viveu.

      PS1 (a 25) – Estou a tornar-me repetitivo, eu sei.
      PS2 (a 26) – Cruzo este post com este outro que escreveu Luís Januário.

        Apontamentos, Atualidade, História

        Espartanos e hedonistas


        I Festival de Vilar de Mouros (Agosto de 1971)
        um dos fotografados é o autor deste blogue – clique para ampliar

        Apontamentos do Maio – 3

        Só hoje li aquilo que Joana Lopes escreveu sobre os «diferentes Maios». Chamou-me particularmente a atenção – para além da referência que fez à vivência dos então jovens «católicos progressistas» – o passo no qual refere uma opinião recentemente expressa por Fernando Rosas. Segundo este, os jovens portugueses, ou pelo menos os então ligados a partidos ou a grupos radicais de inspiração marxista, estariam de tal modo ideologicamente concentrados na luta contra o regime e contra a guerra colonial que teriam passado relativamente ao lado das influências libertárias do Maio de 68 em França. Nesta direcção, tanto os seus hábitos como os seus valores, expressos no plano colectivo mas também no individual, manteriam essencialmente, segundo Joana Lopes, uma «militância mais ou menos espartana». Sob este aspecto, digo agora eu, em pouco se distinguiriam os jovens militantes comunistas estudantis dos da extrema-esquerda, embora estes últimos, no processo de rejeição da sua própria condição de classe, assumissem quase sempre posições particularmente inflexíveis, próximas do que acreditavam ser uma «moral proletária» suprema e redentora.

        Esta perspectiva afigura-se-me essencialmente correcta, sobretudo quando aplicada ao meio estudantil em si, embora me pareça também um pouco incompleta. É verdade que em Portugal, se exceptuarmos núcleos muito reduzidos de jovens integrados em ambientes artísticos e literários, não era perceptível à época – e falamos já do período marcelista – uma componente social do caldo de cultura sixtie, dotada de uma dimensão hedonista, contracultural e libertária, e da qual Maio de 68 terá constituído talvez o símbolo maior. Todavia, e ainda que tardiamente em relação à matriz original, ela encontrava-se em construção, do que constitui prova o surgimento dos primeiros grandes festivais musicais, uma clara modificação dos consumos, o interesse por determinados tipos de literatura e de cinema, a atracção pela french theory, transformações profundas ao nível do divertimento, da moral e até do look, reconhecíveis principalmente entre os estudantes (universitários e do secundário) e os jovens quadros, mas que se encontravam, pelo menos nas maiores cidades, em pleno processo de alargamento a outros sectores.

        Por outro lado, encontra-se por fazer – a intervenção de testemunhos pessoais poderá vir a documentar melhor este aspecto – o reconhecimento do que se me afigura uma evidência «silenciada»: muitos dos jovens que partilhavam das convicções e das metas de diversos sectores da esquerda, incluindo-se nestes até muitos dos radicais, levavam uma espécie de «vida dupla», de natureza militante mas também escapista, integrando consumos provindos de origens aparentemente contraditórias: de Moscovo ou Pequim, mas também de Paris, Londres ou São Francisco. Lenine e Marcuse, Luis Cília e Janis Joplin, Léo Ferré e Dylan, Eisenstein e Godard, Murais da Revolução Cultural e Andy Warhol. Uma prova desta duplicidade? Basta seguirem-se os conteúdos de jornais então muito lidos entre a juventude estudantil e urbana, como o «cor-de-rosa» Comércio do Funchal e o Diário de Lisboa, verificar-se qual o seu padrão de leitor e ter-se uma ideia das suas tiragens.

          Atualidade, História, Memória

          Tento na língua

          Uma grande delegação da União Europeia, chefiada por Durão Barroso, desloca-se à China para discutir a criação de um «mecanismo económico e comercial de alto nível». Pelo caminho, tentará convencer as autoridades do principal país emissor de gases causadores do efeito de estufa a comprometerem-se com esforços de combate às alterações climáticas. Os responsáveis europeus contam poder tratar ainda em Pequim de temas ligados aos direitos humanos e à situação no Tibete. Esperarão porventura, com toda a legitimidade, que os governantes chineses concedam aos últimos dois temas uns intensos cinco minutos.

          Entretanto, as referências concertadas de manifestantes locais – como é sabido, no Império do Meio as manifestações são por via da regra livres e espontâneas – a Joana d’Arc, à independência da Córsega e ao carácter consabidamente «nazi» do estado francês, são no mínimo comoventes. Que se cuide o governo português e não se deixe enredar em questões menores, como os tais direitos humanos, para não ver nas ruas de Cantão ou Nanquim uma manifestação com cartazes declarando «Brites de Almeida=Meretriz» ou «Free Porto Santo Now!».

            Atualidade, Devaneios

            Deserção (adenda)

            Na sequência do post anterior sobre a deserção, Vítor Dias interpela-me no seu blogue. Mescla aí, porém, a legítima vontade de ver publicamente esclarecidas algumas das minhas afirmações que considera erróneas com pedidos de esclarecimento acerca do que penso de antigas decisões do PCP. Como no texto em causa procurei não revelar simpatias mas apenas proceder a uma abordagem o mais imparcial que me foi possível, a estes não irei responder aqui. Quanto ao que poderei clarificar a propósito das tais afirmações, creio que será suficiente a leitura de um texto que escrevi em 2001 e que aqui parcialmente disponibilizo (a versão final, da qual não disponho neste momento, inclui pequenas revisões formais e meia dúzia de considerações complementares que hoje me parecem menos relevantes).

            Admito que a palavra ziguezagueante que utilizei num parágrafo possa não ser inteiramente correcta. Coisas dos blogues, onde se edita quase sem revisão. Sugiro a sua troca por hesitante.

            Quanto às expectativas, não agradeço, mas obviamente retribuo.

            Uma nota complementar por causa de referências feitas ao métier que exerço durante a maior parte do tempo: o historiador inquire a História, não a oficia.

            PS – Em resposta a esta adenda Vítor Dias tece mais algumas considerações, de novo pautadas pela vontade de justificar uma posição unívoca do PCP que este, de facto, nesta matéria nem sempre teve. Apenas faço uma correcção, destinada a quem tenha lido com pouca atenção o artigo para o qual remeti e se fie apenas no que diz Vítor Dias: a posição «hesitante» da abordagem da Guerra nos 2º e 3º Congressos da Oposição Democrática refere-os no seu conjunto. Mas logo adiante se afirma que «no Congresso de 73, todavia, notamos alguma preocupação com o assunto por parte de diversos participantes, sobretudo no que se refere aos sectores mais próximos dos comunistas.» A deturpação é uma arma, como todos sabemos. Já agora: não me limitei a ler sobre o 3º Congresso, estive em sessões de preparação e estive lá, em Aveiro.

              Atualidade, História, Memória

              Deserção

              Três textos disponíveis nos respectivos blogues – um de José Pacheco Pereira e dois outros de Vítor Dias (este e mais este) – reconduzem-nos até um dos aspectos da Guerra Colonial dos quais ainda se não falou o suficiente. O relativo silêncio à volta da deserção política como acto de resistência reconhece-a, de facto, como algo que se mantém incómodo. Os conservadores, mesmo aqueles que já tiveram tempo de se converterem à democracia, continuam a evitar um problema que afronta a sua noção de patriotismo e a ética militar. Os socialistas defendem-se de falar de um assunto sobre o qual nunca tomaram uma posição clara e que a maioria dos portugueses hoje com direito de voto jamais compreendeu. Os comunistas contornam a posição ziguezagueante, crescentemente moderada, que foram mantendo sobre o assunto. E muitos dos «arrependidos» da extrema-esquerda preferem não falar de um dos lados do seu antigo combate no qual a radicalidade das atitudes foi mais longe.

              Apesar do esforço para centrarem os seus discursos em experiências e estados de espírito de natureza essencialmente pessoal, ambos os autores são reconduzidos às posições políticas que mantiveram durante o conflito e que, independentemente das revisões que foram assumindo ao longo da vida, se reconhecem em aspectos da matriz ética que hoje adoptam. José Pacheco Pereira destaca a coragem daqueles a quem «nunca passou pela cabeça fazer a guerra», e que, por esse motivo, optaram por desertar, escolhendo a via do exílio ou da emigração. Vítor Dias fala dos homens para quem desertar significava inevitavelmente um «afastamento do combate em Portugal», optando em consequência por se manterem nas fileiras e por seguirem até aos teatros da Guerra. Sem tirar nem pôr as posições dominantemente mantidas, à época, pela esquerda radical e pelo PCP. A primeira, assentando o seu combate numa atitude de grande radicalidade e de ruptura, de natureza simultaneamente individual e geracional, tanto em relação ao regime quanto em relação aos códigos e valores que o sustentavam. O segundo, mantendo nesta matéria uma posição cautelosa, evitando fracturas que considerava desnecessárias e procurando justificar uma política que visava gerir riscos, não contrariar a política de aproximação interclassista «de todos os portugueses honrados» e tentar subverter o aparelho militar do regime a partir de dentro.

              Como Pacheco Pereira reconhece, em adenda ao texto escrita após ter sido interpelado por Vítor Dias, não é possível estabelecer aqui um grau de «medição de coragens». É a pura verdade, claro: como comparar os graus de bravura dos soldados dispostos em diferentes trincheiras e distintas frentes, ainda que de uma mesma batalha? Mas é possível entrever nesta troca de posições, e de recordações, duas atitudes, dois modelos, duas formas de entender a mudança em Portugal e no mundo, a dos esquerdistas e a dos comunistas, que então não só divergiam profundamente como se confrontavam no terreno.

              Resta dizer, para evitar sugestões de ligeireza e já que tanto José Pacheco Pereira como Vítor Dias invocaram o seu percurso pessoal para esclarecerem a sua posição sobre o assunto, que o autor destas linhas tem uma parte da sua vida ligada a esse universo agora distante. Detido durante uma manifestação contra a Guerra Colonial, viria por tal motivo a ser compulsivamente incorporado no exército onde fez trabalho político e foi alvo de uma segunda detenção, tendo desertado quando foi confirmada a sua mobilização para África. Após viver algum tempo na clandestinidade, seria reintegrado depois do 25 de Abril nas forças armadas, acabando por cumprir ainda, já na fase de transição para a independência, uma comissão de serviço em Angola. Muitos anos depois viria a escrever um pequeno trabalho académico sobre o lugar ocupado pelas diversas esquerdas na resistência interna à Guerra.

              Ver: Rui Bebiano, «As Esquerdas e a Oposição à Guerra Colonial» (2002), em A Guerra do Ultramar: Realidade e Ficção. Actas do II Congresso sobre a Guerra Colonial. Lisboa: Editorial Notícias – Universidade Aberta, pp. 293-313.

              Ler a Adenda »»

                Atualidade, História, Memória

                Reescritas

                Apontamentos do Maio – 2

                Tomo conhecimento, através do blogue de Vítor Dias, da saída de um número especial do L’Humanité dedicado à celebração dos quarenta anos passados sobre o Maio de 68. Vou tentar adquiri-lo, até porque fico bastante curioso a respeito da inevitável reescrita, por parte dos sectores intelectuais ligados ao PCF, da posição reaccionária e depois seguidista que os comunistas franceses (e não só) mantiveram na altura sobre os acontecimentos do Maio que ainda não era «o Maio». E que hoje, muito naturalmente, farão por rever. Reescrevendo a história para fazerem o elogio do movimento que na altura rejeitaram. Mas não há como ler para crer.

                  Atualidade, História, Memória

                  Dupla personalidade

                  Não há muito mais para dizer sobre a posição frouxa do Sr. Silva durante a visita à Madeira. Onde, de sorriso nos lábios, contemporizou com o colérico soba local na desqualificação agressiva desse «bando de loucos» que tem a suprema ousadia de se opor à sua administração populista e prepotente. O Presidente Cavaco, aquele cavalheiro discreto, de atitude aparentemente equidistante, carnes secas e pose indulgente, que nos habituámos a ver à distância nos últimos tempos, voltou a recordar-nos o homem sisudo, inflexível, sem dúvidas ou enganos, que foi o primeiro chefe de governo da III República totalmente liberto da «mácula» de ter resistido ao regime que Abril fechou. O conformismo cultivado durante a juventude deixa sempre marcas para o resto da vida.

                    Apontamentos, Atualidade

                    Trotsky plays banjo

                    De vez em quando tento compreender a tendência, cada vez mais acentuada no Bloco de Esquerda, para desvirtuar as suas origens, a identidade sociológica da sua matriz, a dose de esperança que devolveu nos finais da década passada a muitas pessoas que a haviam perdido algures nos baços anos 80 ou que estavam a despertar para a prática política. Lembro-me então das razões que inventariei para depois me afastar: a redução do essencial da iniciativa à actividade eleitoral ou parlamentar, a passagem para segundo plano de causas e áreas de intervenção que não estimulam consensos, a absurda auto-imagem de «partido de confiança» (e a consequente moderação da «rua» como território de combate), a reduzida carga política de um discurso que se pretende mostrar «aceitável» (por quem, jamais percebi), a intolerância latente de um proto-marxismo de museu que mantém a sua força, o estrabismo de certas posições no domínio da política internacional. Lembro-me também das razões que em 1999 me levaram a aderir ao projecto. E releio um texto que escrevi em Janeiro de 2000, ao qual chamei «Todas as cores de uma esperança». Está ali tudo o que na altura me empolgava, como empolgava muitas outras pessoas, e que hoje se esvaeceu quase por completo.

                    Foi nessa esperança extraviada, e nesse imaginado partido de convicções, de denúncia, de pressão, de resistência e de justiça, no qual uma vez acreditei, que voltei a pensar quando li a afirmação, produzida por Rui Tavares (que retomou, faça-se a justiça a Daniel Oliveira, a posição por este defendida há já largos meses), de que «um partido da resistência não chega», e que «para o BE ter mais votos, tem de começar por querer ser mais». O que deixa no ar duas evidências. A primeira, se tal for assumido como orientação estratégica do Bloco, é que ocorrerá uma ruptura definitiva com as causas que não somem votos, implicando uma autêntica refundação do partido. A segunda é que está algures a ser construída a fantasia impossível de um «Bloco de poder». Como presumo que uma estratégia bolchevique de assalto ao Palácio de S. Bento esteja fora de questão, e tal «ser mais» só pode significar o negociar de um ou dois artigos neste ou naquele diploma ou o suplicar de duas subsecretarias de Estado num eventual governo de coligação, ocorre-me perguntar: com quem e em que bases programáticas será possível, neste momento, desenhar tal coligação? Ou será que…

                      Atualidade, Opinião

                      Gota de água

                      Generación Y, o blogue havanês já aqui referenciado há meses atrás, é uma das publicações que acaba de receber o Prémio de Jornalismo Ortega y Gasset, atribuído por um júri nomeado pelo diário El País. O extraordinário, para além da capacidade de sobrevivência de um espaço de liberdade onde ela é geralmente cerceada – não sem que Yoani Sánchez, a sua autora, tenha deixado de ser submetida a intimidações -, é a sua forma luminosa e plena de esperança de lidar com um quotidiano desgastante e sem horizonte visível. E tão notável quanto o tom e a regularidade do trabalho desta valente blogger cubana é o calor combativo, e quase sempre sereno apesar de plural, partilhado pela maior parte das muitas pessoas que escrevem nas suas caixas de comentários. Um ponto a favor da causa da liberdade e da democracia em Cuba.

                      Notável, no contexto, esta forma de Yoani se identificar publicamente.

                        Apontamentos, Atualidade

                        Hu Jia

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                        Após ser acusado de incitar à «subversão do poder de Estado e do regime socialista», três anos e meio de prisão para Hu Jia, o activista chinês de causas relacionadas com a defesa do ambiente, a liberdade religiosa e os direitos das pessoas com HIV ou SIDA. Tudo matérias de somenos importância no país dos dois sistemas, da exploração dos trabalhadores, da censura, da pena de morte e dos Jogos Olímpicos «apolíticos».

                          Atualidade

                          Inquietante, (vírgula)

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                          Afinal, os novos colegas da blogosfera ainda estão só a ocupar os seus lugares e irão por certo melhorar as suas prestações. Mas o nível do «português comercial» da generalidade dos posts já publicados pelos mais ou menos jovens vinte e seis deputados e duas deputadas que abriram o blogue Câmara de Comuns é um tanto inquietante. Será uma boa ajuda o uso dos correctores da ortografia e da sintaxe, pois estes costumam apanhar os erros, acertar vírgulas, moderar a dimensão dos parágrafos, captar a ausência de sujeito, ensinar os tempos verbais, conformar as concordâncias, rematar problemas avulsos. O dicionário de sinónimos também permitirá alargar um pouco a riqueza vocabular. As malformações do estilo, essas já serão mais difíceis de resolver. É preciso não esquecer que parte do melhor português escrito produzido no rectângulo passa pelos blogues, e por isso não convém baixar o nível dando um mau exemplo. Sobretudo vindo de quem vem.

                            Apontamentos, Atualidade

                            Grita Liberdade

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                            Os Repórteres Sem Fronteiras estão a organizar uma campanha destinada a mobilizar atletas, jornalistas, membros dos Comités Olímpicos e membros do público presentes nos Jogos no sentido destes usarem, durante a estadia em Pequim, um autocolante com a palavra «Liberdade» escrita em caracteres chineses.

                            Entretanto a televisão local transmitiu em directo a chegada da chama olímpica, mas atrasou as imagens em alguns minutos para prevenir eventuais distúrbios. Ao mesmo tempo, todos os voluntários e jornalistas foram submetidos a revistas por parte das autoridades. Pela amostra, os agentes dos serviços de segurança chineses vão chegar ao final de Agosto completamente stressados.

                              Apontamentos, Atualidade

                              Desamparados do Maio

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                              Sai na próxima semana, nas suíças Éditions de l’Aube, Forget 68, o mais recente livro de Daniel Cohn-Bendit (ou antes, contendo uma entrevista a DC-B). Levantou-se de imediato um clamor sobre a «traição» do homem ao qual terá faltado «apenas a fibra moral e social para viver a sua vida, coerente com as suas ideias». Para os desamparados do Maio de 68, que do movimento não vislumbram os efeitos culturais no longo prazo que o «judeu alemão» actualmente enfatiza, mas sim a sua dimensão simbólica de momento maior da fase terminal das ortodoxias marxistas, é insuportável imaginá-lo sob outro retrato que não seja aquele que preenche o seu próprio imaginário, construído sobre um episódio exaltante agora com quarenta anos de idade.

                              Mas Cohn-Bendit é o primeiro a avisar, num dos passos do livro que o Nouvel Observateur acaba de divulgar, que o título Forget 68 «não quer dizer que esse passado esteja morto, mas que ele foi soterrado sobre quarenta toneladas de calçadas [pavés, disse Daniel] que, depois dele, transformaram e mudaram o mundo». Porém, «culturalmente ganhámos», pois considera, a meu ver justamente, muitas das práticas que as democracias naturalizaram – como sejam aquelas associadas à democracia participativa, aos progressos no papel social das mulheres, à valorização dos direitos das minorias, à dissolução do rigor das antigas hierarquias, ou à liberdade de ensino e à sua democratização -, como tendo resultado, em larga medida, da vitória de um «espírito de 68» que ultrapassou as datadas circunstâncias do seu nascimento. Elas estão inscritas nos hábitos das sociedades democráticas e delas participam hoje praticamente todas as correntes de opinião, retirando-se apenas deste panorama os ultraminoritários grupos da extrema-direita.

                              Só que essa vitória partilhada conduziu inevitavelmente a uma outra realidade, a um outro tempo, no qual as contradições e as causas já não são aquelas que, há quarenta anos atrás, mobilizaram pessoas como Daniel Cohn-Bendit e muitos milhares de jovens «socialistas libertários» como ele foi. Da mudança das causas e da real dimensão da «traição» do «infame» Dany – como gosta que o continuem a tratar – fala entretanto o discurso que este acaba de proferir na sessão do Parlamento Europeu sobre a atitude da UE em relação aos Jogos Olímpicos de Pequim e à questão do Tibete. O discurso pode ser visto e ouvido aqui, sob o título «Il faut foutre le bordel pendant les Jeux Olympiques à Pékin».

                              Como os 40 anos sobre o Maio de 68 estão aí, regressarei inevitavelmente ao tema. Entretanto já encomendei Forget 68.

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                                O caso do holandês rastejante

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                                Que fique claro que considero detestável – e particularmente perigoso – Fitna, o filme anti-islâmico de Geert Wilders, aquele deputado da extrema-direita holandesa que saiu agora da semi-obscuridade para os títulos dos media. Detestável pelo seu conteúdo racista e intolerante, que não se contradiz quando estigmatiza o racismo e a intolerância dos outros, uma vez que toma partido por um dos lados do conflito de culturas e de explicações do mundo para o qual existem apenas os inequivocamente bons (nós, sem dúvida) e os inexoravelmente maus (os outros, pois quem mais haveria de ser?). Mas o filme é perigoso também, pois serve essencialmente para excitar os ânimos dos extremistas – situados de um lado e do outro do combate sem tréguas que eles desejam – podendo servir de rastilho para uma vaga de violência e xenofobia difícil de conter e capaz de trazer ainda mais ódio, sofrimento e desejo de vingança.

                                Todavia, algumas das reacções de repúdio que tenho lido por aí parecem-me algo filisteias e inapropriadas, pois tendem, uma vez mais, a desvalorizar objectivamente um elemento presente no documentário – e nele alarvemente generalizado – que é o poder crescente dos grupos islamitas sobre sectores cada vez mais amplos do mundo islâmico. Mergulhados há séculos na insciência, na miséria e na submissão – que Enzensberger considera ter sido agravada quando da recusa da revolução cultural determinada, na Europa, pela invenção da tipografia -, afastados de um debate aberto sobre o mundo contemporâneo, a sua diversidade e as suas oportunidades, dependentes de tecnologias que são forçados a comprar ao ocidente, eles têm sido presa fácil dos tiranos e dos exaltados, para os quais a missão apenas estará concluída quando a sua concepção paranóica e medieval do mundo vingar sobre o planeta.

                                É certo que o radicalismo islâmico não pode ser identificado com o Islão no seu todo, e que é dirigido por minorias que apenas se representam a si mesmas. Mas é já um fenómeno de massas, e em crescimento – basta olhar para a dimensão das manifestações de rua que assumem as suas palavras de ordem – em relação ao qual é preciso definir uma intervenção que não deve apoiar-se na errada noção de que os seus responsáveis são uma ínfima minoria e que existe uma opinião moderada que acabará por isolá-los. Uma intervenção que passa pela defesa intransigente dos valores de tolerância, liberdade e laicidade que o mundo de matriz iluminista – hoje crescentemente miscigenada com diferentes influências, é certo e é bom – deve preservar e partilhar, no diálogo com o outro, enquanto conquistas que lhe permitiram um dia começar a superar o estado de barbárie. E que as populações brutalizadas pelos regimes tirânicos que vigoram na generalidade dos países islâmicos têm o direito de reconhecer como opção. Diminuir a importância desta tarefa por causa duma guerra estúpida como aquela que Bush levou ao Iraque, devido a algumas iniciativas criminosas dos falcões israelitas, ou em função de acções deploráveis e arriscadas como esta do deputado holandês, é que pode tornar-se perigoso. Ao contrário do que parece pensar gente como Wilders ou os desculpabilizadores passivos do Outro, o mundo não é, nem pode ser, a preto e branco. E menos ainda com o preto de um lado e o branco do outro.

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