O líder da Juventude Socialista acusou Manuela Ferreira Leite de ter «falta de sentido de Estado» ao afirmar que a aposta nas obras públicas só reduzirá o desemprego de Cabo Verde ou da Ucrânia. Parece mais ou menos evidente, para quem tenha alguma sensibilidade para as perigosas implicações que a frase da chefe do PSD contém – no mínimo, favorecendo a xenofobia e lançando a desconfiança numa das áreas mais dinâmicas da economia de mercado que tanto o seu partido como o PS têm defendido quando se encontram no poder – que a senhora de modo algum deveria ter dito aquilo que disse. Porém, se fosse «jovem socialista», eu preferiria concentrar-me na denúncia do padrão de sensibilidade política implícito na frase de Ferreira Leite a preocupar-me assim tanto com o seu «sentido de Estado». É que frases assim, tão – como hei-de dizer? – de sensato «responsável partidário», envelhecem as pessoas. Embora admita que possam acelerar a progressão na carreira. São tão tristes e enfadonhas as nossas jotas!
Era o mínimo. O activista chinês Hu Jia foi condenado a três anos e meio de prisão depois de ter participado em Novembro de 2007, via teleconferência, numa reunião do Parlamento Europeu sobre Direitos Humanos. A sentença, que considerou essa participação um delito por «tentativa de subversão», foi-lhe atribuída em Abril deste ano, durante uma única sessão de julgamento. O mesmo órgão conferiu-lhe agora o Prémio Sakharov, servindo o gesto, nas palavras do seu presidente, Hans-Gert Pöttering, para «enviar um sinal de claro apoio a todos aqueles que defendem os Direitos Humanos na China».
Uma atitude positiva e mais corajosa que a do Comité Nobel, incapaz de aguentar a pressão das autoridades chinesas. Mais arrojada ainda quando a maioria das agências noticiosas, dos jornais ou das televisões tem atribuído maior importância à reacção negativa de Pequim, e às eventuais dificuldades colocadas à agenda política de Bruxelas na região, do que à questão fundamental. A condenação de Hu Jia foi uma bofetada na cara de quem acreditou nas promessas chinesas quando da candidatura aos Jogos Olímpicos, mas pelo menos neste caso o Parlamento Europeu fez por honrar os seus compromissos. E não se ficou.
O M. mandou-me um link declarando serem estas coisas que o fazem sentir-se de esquerda. Digo mesmo mais, são coisas destas que me fazem recordar uma das melhores frases de Otelo. Não o Mouro de Veneza, o outro. E são coisas assim que às vezes me fazem estalar o verniz democrático. Mas recomponho-me logo.
[Dias depois. Eduardo Pitta teve o cuidado de sublinhar a condição de private jokeda sua referência. Mas alguns dos comentadores exaltados que brindaram o Lutz Brückelmann por se ter referido simpaticamente a este post levaram a coisa mesmo a sério, forçando-o a dar uma explicação. Olhem que a famosa frase do Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho sobre a hipotética deslocação dos «fascistas» para o Campo Pequeno foi logo na época tomada como uma hipérbole. Mesmo pela generalidade da esquerda radical. Claro que ninguém quer colocar aquela gente horrível que Laurinda Alves tanto aprecia no Campo Pequeno. Nem sequer para bater palmas a umas quantas chicuelinas, a umas tantas veronicas, a uma ousadíssima pega de cernelha. Era mesmo preciso dizê-lo?]
Começou pelos treinadores de futebol, depois passou para os bruxos, de seguida para os presidentes das distritais partidárias, e agora parece que se generalizou. Falo daquela expressão utilizada quando a equipa perde, quando o feitiço falha, quando as eleições foram um desastre, ou quando um casamento falha: «assumo a responsabilidade». Frase à qual não corresponde depois qualquer acto de reparação que dê sentido à exibição da culpa. Wen Jiabao, o moderno primeiro-ministro chinês, entra na onda ao assumir a responsabilidade do seu governo no escândalo do leite contaminado (em larga medida possível, parece óbvio, pelo estado de selvajaria no qual prospera o «segundo sistema» chinês). Consequências políticas? Nenhumas, claro. Ou provavelmente a substituição de dois ou três funcionários, mas a intocabilidade do autoproclamado supremo «responsável». No futebol, despede-se um sub-director qualquer. Entre os bruxos muda-se, quanto muito, de filtro ou de criptónimo. Dentro dos partidos espera-se que passe. Nos casamentos pede-se perdão. E la nave va.
Em artigo publicado ontem no caderno P2 do Público, Jorge Almeida Fernandes aborda um problema que tem tanto de actual quanto de complexo. A partir da notícia da abertura do primeiro processo «da História contra o franquismo», tornado possível pela intervenção do juiz Baltasar Garzón, refere um manifesto público lançado por importantes historiadores que se erguem contra a multiplicação das leis de criminalização do passado afirmando que «a História não pode ser escrava da actualidade nem ser escrita sob o ditame de memórias concorrentes». A ideia não é consensual, naturalmente. Nem sequer o é entre os historiadores. É entretanto a partir dela que anoto três perguntas, cuja intenção é apenas ajudar a reflectir sobre algumas das possíveis implicações da manipulação do passado na penalização ou no julgamento público de certas pessoas. As perguntas são: Deve o historiador tomar posição sobre o passado? Deve, em consequência, tomar posição sobre iniciativas de natureza penal que sobre ele incidam? E deve aceitar a manipulação mediática da história e da memória?
Não tenho resposta unívoca para as duas últimas perguntas – que retomarei mais adiante – mas creio que tenho para a primeira: não só deve tomar posição, como é inevitável que o faça. O tipo de «posição» que possa tomar deve, porém, sempre ser informado pelo conhecimento e pela capacidade analítica. Não existindo uma história absolutamente «objectiva», existem fenómenos históricos objectiváveis, e todo o exercício de crítica, de interpretação e de narração, mesmo quando se apresenta como «asséptico», resulta sempre de escolhas subjectivas e datadas. Neste sentido, o historiador exprime obrigatoriamente um ponto de vista, uma «posição», mas esta não é, não pode ser, a mesma do político, do jornalista ou, por maioria de razão, do cidadão comum. Será mais completa, eventualmente mais racional, mas nunca inequívoca e definitiva.
Naturalmente, quando a proximidade em relação à época ou aos problemas observados é maior, essa subjectividade aparece exponenciada. Mas no cumprimento do seu papel social, o historiador, principalmente aquele que aborda um passado mais ou menos recente, sobre o qual os reflexos da memória individual e colectiva incidem de uma forma mais poderosa, deve fazer um esforço suplementar para procurar a objectividade possível, apurando os processos de análise documental e confrontando o máximo volume de informação disponível. Torna-se inevitável, porém, pelo facto simples de se reportar a episódios cujo «calor» ainda se mantém, que se envolva um pouco mais com as suas escolhas do que os colegas seus que abordam tempos mais recuados. Negá-lo será enganar-se a si próprio e induzir os seus leitores num logro. Escolher como tema do trabalho de investigação a Revolução de Outubro, a Guerra Civil de Espanha, o Salazarismo, o Holocausto, o Gulag ou a Primeira Guerra do Iraque, implica remexer em destroços ainda fumegantes. E implica por isso sujar um pouco as mãos. Mas essa é a sua opção e será com ela que terá de conviver.
Detestando tudo aquilo que o candidato John McCain representa – para a América e para o mundo – não posso deixar de ver com alguma pena que os blogues capazes de fazerem ecoar a menor ventosidade que este possa expelir para atacarem a sua campanha – com o meu aplauso, sublinho –, façam agora de contas que não se passou aquilo que se passou e que pode ser visto aqui. A democracia, desculpem lá, passa também por reconhecer a razão e a frontalidade dos nossos adversários. Sem que com eles tenhamos de pactuar. O vale-tudo em política tem uma história muito trágica.
(Ui, já estou a ver o pessoal das teorias da conspiração a dizer que aquelas pessoas foram plantadas ali de propósito, para ajudarem a limpar diante do eleitorado hesitante a imagem do candidato republicano. E que assim fosse?)
Não acontece apenas no palacete do Largo do Rato. Também entre os homens e as mulheres da Fundação Nobel, que não foram capazes de atribuir o Prémio da Paz ao dissidente Hu Jia, escasseia a coragem. Hu é neste momento o mais conhecido e reconhecido activista chinês dos direitos humanos. Encontra-se, desde Abril deste ano, a cumprir uma pena de três anos e meio de prisão por «incitar à subversão contra o poder de Estado».
Confira-se entretanto o cinismo das autoridades chinesas ao manterem um site, em inglês, em louvor da actual situação dos Direitos Humanos num país que controlam com pulso de ferro.
A atitude indigna e pusilânime dos deputados do Partido Socialista que hoje votaram na Assembleia da República contra a sua consciência – somados àqueles, parceiros de bancada, que habitualmente apenas se limitam a votar no que as direcções do grupo e do partido desejam que seja votado, e que têm a consciência apontada noutras direcções – acabará por voltar-se contra o partido e contra eles próprios. Contra o partido, porque ela pacifica a parte homofóbica e mais despolitizada do eleitorado ao rejeitar a lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas implica uma perda de respeito da parte de alguns dos sectores mais democráticos, empenhados e modernos da sociedade que governa. Contra eles próprios, porque assim, com atitudes deste jaez, vão perdendo de vez a já limitada estima que ainda poderiam colher junto dos cidadãos que prezam, nas pessoas públicas, o rasgo, a coragem e a rectidão de princípios. Quem os avisa…
A um turista que tenha passado acidentalmente por Melbourne ninguém fará perguntas sobre a saúde financeira da Austrália, mas a mim, porque estive durante alguns dias do último Agosto na Islândia, tem sido insistentemente perguntado se já então notara indícios da crise que pode agora levar a ilha à bancarrota. Confesso que tenho feito um esforço para recordar alguma coisa: um sinal, um sintoma, uma indicação, uma ameaça. Será que Briet, a bonita recepcionista do hotel, sobrevivia já, sem que eu me apercebesse, com uma única refeição diária? Correria à boca pequena que os edifícios da Biblioteca Universitária estavam hipotecados ao banco Kaupthing e eu fiz orelhas moucas? Teriam os músicos daquele memorável concerto no Kjarvalsstöðum revelado ao público que os seus instrumentos eram propriedade da máfia russa e eu simplesmente achei que se tratava de uma piada? Mas nada, nenhum prenúncio, sinal algum. Ao contrário, a vida parecia correr normal, tranquila, com marcas bem visíveis de prosperidade e optimismo. É verdade que pairava sempre sobre o país a ameaça de arrastamento até a um mundo inferior como aquele que o professor Otto Lidenbrock e o seu sobrinho Axel descobriram, no conhecido romance de Júlio Verne, ser capaz de unir o vulcão de Sneffels ao centro da Terra, mas não se notava que os habitantes de Reiquiavique se preocupassem de maneira especial com tal eventualidade. Tudo, de facto, parecia correr bem. É essa aparente ausência de presságios que torna a situação actual ainda mais assustadora.
Num post aparecido no novo O País Relativo, o Tiago Barbosa Ribeiro considera que é «o tempo da ofensiva ideológica» dos socialistas europeus em prol de um modelo social de gestão do capitalismo. Obrigatório, uma vez que o anticapitalismo «é um anacronismo sem regresso» e a direita liberal «inviabiliza o alargamento da regulação económica no seio de uma economia de mercado». Propõe assim, como ponto de partida para um rejuvenescimento da capacidade de afirmação do «socialismo democrático», como que um regresso ortodoxo a Eduard Bernstein (1850-1932). Isto como ponto de partida para se perceber de uma vez por todas em que capitalismo «devem os agentes desenvolver a sua actividade económica e qual a sua relação de forças com o Estado numa sociedade liberal». Partindo de premissas sobre a irreversibilidade do capitalismo como sistema dominante e etapa definitiva da História que foram fixadas pelo teórico social-democrata alemão há mais de cem anos atrás. Com toda a sinceridade, esperava um pouco mais de imaginação e de capacidade de antecipação – até de um ponto de vista semântico – a propósito dos futuros possíveis que nos devem preocupar. Principalmente quando se sugere a necessidade, real sem dúvida, de pensar com ousadia o socialismo de hoje. O socialismo, repito.
Isto (incluindo o detalhe desprezível da «excepção» para consumo jota interno). Esta gente dúctil anda por aí a dar tiros nos próprios pés, a sujar tudo de sangue, a atrair as moscas (quando ainda se não metamorfoseou como Gregor Samsa), e não parece aperceber-se disso.
(Bom, quem ignorar o primeiro link não perceberá rigorosamente nada deste post. Quem o seguir, perceberá só aquilo que quiser perceber. De vez em quando é melhor assim.)
Por via das dúvidas, e não fossem as dioptrias enganarem-me, mudei de óculos por duas vezes. Mas li sempre o mesmo, a mesma afirmação. Para Jaime Gama, o nosso enfadonho presidente da Assembleia da República, que falava durante a apresentação do livro Carlucci vs. Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa, é absolutamente fascinante aquela tradição política americana que «regista tudo, que intercepta até as próprias conversas telefónicas para as registar, que grava mesmo as conversas de gabinete», de modo a tornar possível a publicação ulterior de toda essa informação. Será que passam pela mente da segunda figura do Estado as perigosas consequências políticas, e até o carácter desumanizador da vida dentro dos espaços do poder, que podem resultar de processos desta natureza? Ou isso agora já não lhe importa grande coisa? Ou terá falado apenas na óptica do voyeur?
Só não é completamente inacreditável porque já todos estamos habituados à comercialização de tudo. Inclusive da vida privada, seja ela passada, presente ou futura. Mas o projecto que visa transformar o Forte-Prisão de Peniche em mais uma Pousada de Portugal, servindo-se do sofrimento de décadas de tantos antifascistas como factor de charme e de valorização comercial, ofende profundamente a nossa memória colectiva. Como ofensiva é a «naturalidade» com que o projecto se apresenta aos olhos dos responsáveis pelos organismos estatais e autárquicos que apadrinham ou facilitam esta iniciativa abjecta do Grupo Pestana. Ela será sempre, independentemente do formato que possa tomar, uma «suavização» do salazarismo e uma forma de apagamento da vida vivida e do combate daqueles que lhe resistiram.
Leia a propósito o texto que Irene Pimentel publicou nos Caminhos da Memória. E depois passe a palavra.
Versão de um texto publicado na revista LER de Setembro
A linguagem deste livro parecerá um tanto árida a quem não estiver familiarizado com a literatura sobre arte da guerra. O seu autor, Robert Smith, não é um historiador mas um militar de carreira, que remexe no passado da guerra principalmente para melhor a compreender e para preparar a sua condução no seu presente. No activo durante 40 anos, o General Smith ocupou elevados lugares de chefia nos conflitos do Iraque, da Bósnia e da Irlanda do Norte, entre muitos outros postos de responsabilidade. O ponto de partida, fundado no conhecimento da história e na experiência pessoal, é convicção de que a natureza da guerra mudou muito nas últimas décadas. Mas é também a certeza de que a nova realidade não é ainda devidamente apreendida, o que tem determinado decisões erradas e obsoletas. Sugere então a oposição entre dois paradigmas que cosnidera terem-se sucedido no tempo.
A Europa viveu séculos de campanhas militares pouco flexíveis. Através delas, governos e governantes limitavam-se a reorganizavar os mapas dos territórios, resguardando sempre o centro de um poder que deveria permanecer inatacável. Napoleão mudou profundamente esta realidade ao servir-se dos recursos humanos e morais da nação para destruir o opositor e instalar uma nova ordem, enquanto Clausewitz deu consistência teórica a esta nova forma de combater, e as reformas aplicadas pelo Estado prussiano lograram estabelecer um poder estável assente na «guerra industrial». Para Smith, esta ter-se-á fundado na procura de uma vitória absoluta, no conflito aberto e total entre Estados, na manobra flexível dos grandes exércitos e num apoio humano e material à actividade guerreira colocado pelos governos acima de quaisquer outros interesses.
Ao invés, o novo paradigma da «guerra entre o povo», emergente durante o período da Guerra Fria, funda-se, para o autor, na alternância entre o confronto aberto e o conflito localizado, independentemente do Estado enfrentar outro Estado ou um oponente de diferente natureza. Aqui não existe uma sequência pré-definida e a paz não é necessariamente o ponto de partida ou de chegada. Nenhum acto de força é agora decisivo, e a violência permanece disseminada no território, não distinguindo civis e militares, como ocorre hoje no Iraque, no Afeganistão ou no Kosovo. Pelo meio, Smith ocupa-se de situações no decorrer das quais o conflito entre os dois paradigmas, aquele que começava a revelar-se caduco e o que se anunciava emergente, redundou em operações que terminaram frequentes vezes – como ocorreu na China ou no Vietname, em Cuba ou em África, nos Balcãs ou no Médio-Oriente – com a vitória das forças tecnicamente pior preparadas.
Smith insiste em que, sob a nova forma de pensar e de fazer a guerra, o objectivo central passou a ser ganhar «a batalha das vontades». Não procurar o extermínio do inimigo mas uma mudança favorável na opinião pública. O que determina a alteração da conhecida tese clausewitziana sobre a guerra como a continuação da política: agora guerra e política confundem-se no tempo e nos modos.
Rupert Smith, A Utilidade da Força. A Arte da Guerra no Mundo Moderno. Tradução de Miguel Mata. Edições 70, 480 págs.
[Antelóquio] Não, não vou escrever este post com prazer. Tudo isto me parecem pedaços de paisagem depois do incêndio. As últimas brasas, fumo no ar, o restolho que cheira ainda a queimada. O crepitar de uma distopia que se esforça por resistir. Marcos quilométricos de um caminho arriscado, à beira da ravina.
As pessoas e as organizações que se preocupam com a construção de um Portugal democrático e melhor – isto é, mais livre, mais transparente, mais justo e mais moderno -, devem agir com a maior prudência em relação à actividade do PCP, não se limitando a afastarem-se da sua esfera de acção ou a encolherem os ombros. Os fundamentos desta minha cautela, que não é de agora, dependem essencialmente de sete factores (para seguir a estrutura argumentativa linear tão do agrado dos militantes do partido, em regra adversos aos raciocínios elípticos): 1) da forma de actuação do partido, que tem perfilhado uma «política de trincheira» traduzida na tentativa de conquista de pequenas áreas de poder e da sua manutenção a todo o custo, sobrepondo inúmeras vezes os interesses partidários aos das pessoas; 2) do modelo de Estado e de sociedade que defende, assente na defesa da ditadura «da classe revolucionária» sobre o conjunto da sociedade, o qual em pouco ou nada difere daquele, historicamente funesto, que foi o do «socialismo real»; 3) da defesa como princípio orgânico da vida interna do próprio partido do chamado «centralismo democrático», que não é senão uma forma de legitimação da vontade de uma minoria dirigente que julga deter a «verdade científica»; 4) da sua cultura de dissolução do indivíduo no colectivo, contrária à promoção de um equilíbrio harmónico entre os dois factores; 5) da ausência de um modelo de sociedade que identifique claramente aquilo que propõe, para além dos combates pontuais, como horizonte de acção; 6) da manutenção de uma prática de «partido de vanguarda» sistematicamente apostado em dirigir os movimentos nos quais se envolve; e 7) da continuada justificação, como modelares, de experiências internacionais que se converteram em sociedades fortemente repressivas, bloqueadas e até atentatórias desses mesmos direitos que, na sua linha de combate dentro de portas, os comunistas declaram defender.
A conjugação destes factores tem servido de fonte de conflito e de desconfiança com forças que poderiam confluir em batalhas comuns. E tem servido para manter o PCP num lugar de crescente ambiguidade em relação à sua efectiva integração no jogo democrático.
A situação agravou-se nos últimos tempos e a instalação, na direcção do partido, de sectores obreiristas, representados desde logo pela figura do actual secretário-geral, com o seu discurso simplista e meramente proto-sindical, é um sinal importante da sua presença. Em paralelo, o retorno a uma mentalidade de seita, que parecia há alguns anos ter começado a perder-se, vê-se traduzido sobretudo nas palavras e nos actos de alguns sindicalistas e de muitos membros da JCP, atestando a presença de sectores maximalistas que, há décadas atrás, seriam facilmente qualificados como «oportunistas de esquerda». O conjunto poderá até, num curto prazo, obter alguns pequenos êxitos eleitorais, advindos do crescente descontentamento popular face ao governo do PS, mas jamais será capaz de congregar um projecto de poder realmente alternativo àquele protagonizado pelos dois partidos rotativistas gestores do regime.
Esta tendência superou agora a fronteira do inimaginável com a divulgação do «Projecto de Teses do XVIII Congresso», aprovado por unanimidade por 180 membros do Comité Central. Cinjo-me apenas, para já, a aspectos que vieram referidos nos jornais, como a desculpabilização do processo de degenerescência do aparelho de Estado e do modelo de sociedade vigentes na ex-URSS, cuja «destruição» se vê, nestas «teses», apenas como resultado da «traição» de alguns dirigentes, sem ser feito sequer um esforço de compreensão e de questionamento da herança estalinista, dos erros cometidos pelo sistema e dos dogmas e incapacidades que estiveram na origem de muitos dos desastres. Fala pois, o documento comunista, de uma panóplia de valores e de ideias-feitas, perfeitamente datados, que ali surgem isolados de toda a reflexão teórica produzida nos últimos cinquenta anos, de um «abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores», da «claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo», da «penetração em profundidade da ideologia social-democrata», da «rejeição do heróico património histórico dos comunistas», da «traição de altos responsáveis do Partido e do Estado», que «desorientaram e desarmaram os comunistas e as massas para a defesa do socialismo, possibilitando o rápido desenvolvimento e triunfo da contra-revolução com a reconstituição do capitalismo». Simples e sem mais, como requer uma compreensão pouco treinada no debate aberto e nas subtilezas da análise complexa de situações complexas. Com menor fôlego crítico que as conclusões do XX Congresso do PCUS, ocorrido no longínquo mês de Fevereiro do ano de 1956.
Depois, no topo do bolo, uma indicação, como expectativa, do que até hoje de manhã, ingenuamente, eu julgava inconcebível como posição colectiva dos comunistas portugueses, e imaginava confinada a sectores partidários activos mas não suficientemente representativos. Uma indicação, tenho a certeza disso, que exclui até uma espécie de consenso social construído, mesmo entre muitas das pessoas que têm votado no PCP, a propósito da matéria. Reproduzo sem comentários, que no caso em apreço se tornam completamente supérfluos: «Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à ‘nova ordem’ imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia.»
Estas pobres «teses» representam uma declaração de guerra do PCP à normal vida democrática, confirmando a sua afiliação a modelos ditatoriais e criminosos que as sociedades livres não só devem repudiar como precisam combater. Uma pergunta, apenas retórica pois não existe resposta possível para ela: o PCP qualifica o congresso que vai agora aprovar este terrífico monturo político como sendo projectado «Por Abril, pelo Socialismo, por um Partido Mais Forte»: Abril? Qual Abril?
PS – Estava a fechar este texto quando reparei num post sobre o mesmo assunto, e que aponta quase na mesma direcção, editado há poucas horas pelo Daniel Oliveira. Talvez eu me mostre só um tudo-nada menos defensivo, admito.
O PS tem um problema para resolver. Por um lado, os seus deputados vão votar contra os projectos do Bloco de Esquerda e dos Verdes sobre os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, ao que dizem alguns por tal matéria «não constar do programa eleitoral do partido». Sem que se permita sequer a opção pelo voto de consciência, precisamente num dos temas no qual este mais sentido faria. Por outro, sabendo-se que a oposição mais conservadora se servirá sempre do assunto para, com o acordo tácito das maiorias silenciosas e homofóbicas, retirar muitos votos ao PS, os seus responsáveis jamais inserirão tal matéria no próximo programa, ou fá-lo-ão sempre de forma ambígua e semi-invisível. Como resolver então o imbróglio? Surpreendendo com uma atitude de arrojo político, um forte sentido de equidade e empenho na mobilização cívica. Precisamente aquilo que não se espera da actual maioria no poder e da generalidade dos membros do seu cordato grupo parlamentar.
O Estado é bom quando protege as empresas e pérfido quando ampara as pessoas que precisam de amparo. Essa é a velha lógica do capitalismo e tem séculos de existência. A retórica neoliberal sobre a autonomia do mercado é apenas isso, retórica: só vale quando se teoriza em abstracto sobre a maldade do proteccionismo económico e a interferência nefasta dos movimentos sociais na construção de uma «prosperidade» selectiva. Não percebo em que é que a ajuda do governo federal ao até hoje quase falido American Internacional Group pode agora causar tanto espanto a certos analistas.