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Esparta vs. Cocanha

Também eu um dia admirei Louis Antoine de Saint-Just (1767-94). Da Grande Revolução, pouco sabia. Mas entendia, das revoluções modernas, o suficiente para me manter convicto de que elas só poderiam vingar enquanto permanecessem nas mãos dos obstinados e dos que não cedem à compaixão. Aqueles para quem os princípios e os objectivos que norteiam a acção se destinam a impedir todo o retrocesso que não favoreça um novo assalto às posições do inimigo. Para quem, quando se combate pelo poder, apenas existe a vitória total ou a mais peremptória derrota: «Esse homem deve reinar ou morrer», proclamou o filho do capitão de cavalaria de Niévre quando votou na Convenção a favor da execução de Luís XVI, pois aquilo que constitui uma República «é a destruição total do que se lhe opõe».

Além do mais, Saint-Just era jovem e eloquente, lendariamente belo e teatral, e um exaltado, o que só poderia reforçar a cintilação que exibiu, apenas em dois anos de vida pública, numa época pouco propícia à segurança, à moderação e à prevalência dos valores do passado. E prometia um mundo novo, no qual o poder pudesse ser exercido pelo povo, os magistrados fossem desprovidos de orgulho, os cidadãos vivessem sem vícios, a fraternidade prevalecesse nos relacionamentos, o culto da virtude fosse um princípio, a simplicidade dos modos e a austeridade de carácter pautassem a vida social. O caminho para tal utopia seria, na sua opinião, aberto pelo Terror. Pelo apagamento violento e sem piedade daqueles que a entravavam.

Combatido pelos sectores moderados e traído por muito dos seus, morreu aos vinte e seis anos, sem direito a julgamento, na guilhotina que ajudara a erguer. Tendo, ao que dizem, ou seguindo a lenda, sido o único do grupo preso na manhã de 10 do Termidor a avançar sereno, a passo firme e em completo silêncio, para o cadafalso que o esperava.

Afirma-se que Danton terá dito certa vez, a seu respeito, não gostar nada «daquele extravagante» que pretendia implantar em França «uma República de Esparta» quando era de «uma República da Cocanha» que os franceses precisavam. O «anjo da Revolução», ou «da morte», ainda sobreviveu praticamente três meses a Danton, mas o combate entre os que se batem, na evidência de um indeclinável pathos, por arquétipos que situam acima do indivíduo e no campo das paixões, e aqueles outros que longe de quaisquer perigos, apelando a um previsível e racional logos, apenas preferem navegar por calmos rios de vinho e de leite, sobreviveu-lhes. Continua a ser ciclicamente renovado, ciclicamente alimentado. Jamais se entenderão, uns e outros. Jamais desaparecerão também.

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    Fim de festa

    Os Jogos de Pequim fecharam e, antes ainda dos balanços, é hora de repousar das emoções. A cerimónia de abertura trouxe um instante de frescura a contrastar com os últimos discursos dos engravatados e hirtos «poupas altas»(*): a entrada no relvado do gigantesco Ninho de Pássaro de Boris Johnson, o mayor conservador de Londres – conservador, repare-se – que se apresentou descontraído, de fato amarrotado e casaco sem os dois primeiros botões apertados(**), para receber com um gesto nada protocolar a bandeira olímpica que a sua cidade sustentará até 2012. Entretanto, na capital britânica, uma multidão preparada mas informal contrastava com as rígidas coreografias que qualquer cidadão atento terá notado terem sido mantidas, mesmo durante as provas, nas bancadas e nas ruas preenchidas com sempre risonhos e embandeirados chineses, que muitas vezes pareciam saber exactamente em que momento iam ser focalizados pelas câmaras. As democracias não são capazes de alardear tal perfeição nas exibições de capacidade de organização e mando, e essa é uma qualidade sua que devemos preservar.

    (*) Como eram conhecidos, por parte significativa da população da antiga República Democrática Alemã – e até por agentes menores da STASI -, os altos dignitários do Partido e do Estado. Existia, em diversos edifícios oficiais, um serviço de cabeleireiro destinado a conservar a «rigidez de Estado» das cabeleiras dos dirigentes, ou, se possível, a disfarçar-lhes calvícies precoces. A petite histoire por vezes é muito útil.
    (**) JCE ter-se-á revolvido no túmulo.

      Atualidade, Opinião

      Marco

      Terei sido dos primeiros a atirar uma pedra a Marco Fortes, o nosso lançador de peso que, após ter sido eliminado da sua prova olímpica com uma marca muito inferior a outras que já havia obtido, nos falou de como de manhã «está bem é na caminha». Ouvi a frase bem cedo – bem mais tarde em Pequim, como é sabido – enquanto seguia de carro, e pouco depois escrevia um post servindo-me dela. Porque me parecia a cereja no topo do estranho bolo cozinhado com todo um conjunto de desculpas esfarrapadas das quais se serviram diversos atletas portugueses. A frase propagou-se por diversas vias e, por causa dela, Marco viu-se expulso da comitiva, forçado a regressar a Portugal e crucificado por meio mundo.

      Só depois disso ouvi entrevistas de Marco Fortes, anteriores e posteriores ao momento da tirada. Li algumas notícias e vi reportagens, percebendo que Marco é uma pessoa de origem humilde, a quem o atletismo tem servido como espaço de valorização social, e que utiliza com frequência o humor e a ironia como forma estar no seu mundo. Aquilo que disse, parece-me agora claro, pode ter sido uma forma de se desculpar, mas foi também uma forma de ironizar consigo próprio. Foi um pouco infeliz? Foi-o, sem dúvida, como o próprio atleta reconheceu pedindo que lhe perdoassem a gaffe. Mas quem nunca pronunciou uma frase infeliz? Peço desculpa a Marco Fortes pela leviandade. Há já três dias que apaguei o referido post e mesmo assim fiquei com alguns remorsos.

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        «Já o tinha afirmado o Génesis…»

        Um artigo de opinião que saiu no Público, assinado por Pedro Vaz Patto, desenvolve mais uns quantos parágrafos em apoio da grande cruzada da direita católica contra a legitimação das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Não vale a pena perder muito tempo com o essencial da argumentação, uma vez que esta apenas retoma os conhecidos clichés a propósito da impossibilidade, em tais uniões, de se consumar uma preconceituosa «função social do casamento» assente na actividade reprodutora do par. Este raciocínio primário já o ouvimos alto e em bom som pelo menos desde os idos de 1982, dando então lugar à memorável altercação de Natália Correia(*) com o deputado centrista João Morgado.

        Mas aquilo que é particularmente grave neste artigo é que o seu autor avança numa direcção menos usual e que é inadmissível na boca de um jurista. Acontece «apenas» que ele deixa implícita, na forma ligeira como se refere ao assunto, a menoridade social e jurídica daquilo a que chama o «casamento de casais estéreis». Na sua cabeça claramente confinado a uns desventurados que devem ser olhados como pessoas incompletas. E deixa obviamente de parte a possibilidade da existência – sabe-se hoje cada vez mais presente na nossa vida colectiva – de uns quantos depravados que não têm filhos por lhes ser impossível educarem de forma estável uma criança ou simplesmente por opção de vida. A desumanidade destas pessoas de credo na boca é apenas brutal.

        (*) Lateralmente mas a propósito: que jeito nos dariam hoje uns quantos deputados menos pusilânimes, assim da têmpera da Dona Natália!

          Atualidade, Opinião

          A grande evasão

          Entre 2000 e 2007 fugiram das cadeias portuguesas 502 reclusos. Nada de grave, parece, uma vez que de acordo com a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais existe uma «taxa de recaptura» (sic) de 90,6 por cento. Calculo que as verbas e as energias despendidas na referida recaptura, e na demanda dos outros 9,4 por cento dos evadidos, devam ser um tanto superiores àquelas que seriam gastas na melhoria das piores prisões e no reforço da sua segurança. Mas perdia-se por certo uma boa oportunidade para efectuar no terreno treino de corrida e exercícios de fogo real.

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            Outro episódio

            De acordo com a edição electrónica do Expresso «um grupo de dança, que devia representar os 56 grupos étnicos da China, era afinal composto apenas por crianças da etnia Han.» Este é já o terceiro «momento» reconhecido como forjado na abertura dos Jogos Olímpicos. «Suponho que eles [as autoridades] pensaram que os miúdos eram mais naturais e simpáticos», notou Yuan Zhifeng, o director delegado do Grupo Artístico Infantil Galaxy, que actuou na cerimónia.

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              Nomadismo de bolso

              Escrevia Kipling, citado por Bruce Chatwin, que «se virmos bem as coisas, não existem senão duas espécies de homens, aqueles que ficam em casa e os outros.» A invenção do turismo de massas e das férias pagas, seguida da revolução dos transportes e das comunicações, atenuou essa separação entre os que partem e os que preferem a imobilidade ou não conseguem afastá-la do seu horizonte. A partir da década de 1960, com o progresso das condições de vida de parte expressiva da população dos países industrializados, e com o aparecimento de um mercado de destinos turísticos, grupos cada vez mais numerosos de pessoas passaram a deslocar-se periodicamente para longe do seu lugar de residência, procurando outros cenários para uma vida que desejavam inabitual.

              Já não se tratava apenas de soldados, de pregadores, de homens de negócios, ou de estudantes, saltimbancos e trabalhadores sazonais, que circulavam por força da sua ocupação. De repente, hotéis de preço médio e pensões de província deixaram de ser maioritariamente procurados por caixeiros-viajantes, professores deslocados ou pares ilícitos. Os parques de campismo e os albergues de juventude multiplicaram-se, proliferaram motéis e aparthotéis, as estações de caminho de ferro e as bombas de gasolina ganharam uma nova animação. Por toda a parte um novo viandante em busca de emoções ou em luta contra o tédio, que segue os guias e os desdobráveis e parece encontrar no seu trajecto uma forma de repouso ou de esquecimento das rotinas.

              Gradualmente, a viagem como estado de permanente partida e como afirmação de uma recusa, da qual falava Rimbaud, foi-se perdendo, substituída por circuitos nos quais todos sabem já aquilo que os espera e que irão fazer, sempre em condições de conforto e de segurança. E até a escalada dos Himalaias ou o mergulho de profundidade no Índico se tornaram programáveis e susceptíveis de serem executados sem grande esforço, quase ao colo dos guias, até ao local no qual a melhor fotogenia e o efeito de maravilhamento se juntam na perfeição de um cenário previsível de turismo de «aventura».

              Os próprios povos nómadas estão em vias de perder o seu lugar, uma vez que lhes estão a ser retiradas as rotas e os lugares tradicionais de repouso e de subsistência, ocupados pelas novas vias de partida e de chegada que rodeiam as cidades, por serviços de apoio aos habitantes sedentários que se deslocam de um lado para o outro, por empreendimentos turísticos que nunca bastam para as hordas de entediados cidadãos em busca de alguma coisa que não aquela que conhecem da vida de todos os dias. Mesmo a escrita daqueles que nos foram revelando a viagem como experiência estética e sensorial, capaz ao mesmo tempo de lhes permitir tresmalharem-se das suas circunstâncias, como a de V.S. Naipaul, de Paul Theroux ou do próprio Chatwin – ou ainda, recuando no tempo, a de Nerval, Flaubert, Isabelle Eberhardt e Blaise Cendrars, entre tantos outros -, foi gradualmente transformada num exercício de arqueologia, ou no mapear de mundos inconcebíveis para os novos viajantes providos de iPhone3G, sapatilhas Nike Air e jipes topo de gama, imunes a répteis, a insectos e a temperaturas extremas.

              Por aqui, poucos se interessam já pela rudeza dos cenários que eles nos desenharam, bem diferentes daqueles que mostram os folhetos das agências, os roteiros que acompanham as revistas, os livros e os documentários dessa nova espécie de jornalistas «radicais», bem vestidos e de pele tratada, pagos para construírem sucessivos cenários de desejo. Ideais para aqueles que, contrariando Kipling, vão de viagem com a casa às costas ou integram no seu quotidiano uma evocação branda e domesticada, sem fulgor ou estranheza, dos lugares e dos rostos que chegam de outras latitudes. Cada vez existe menos espaço para um nomadismo que não seja de bolso e é provável que nada possamos fazer para o evitar. E também nada nos garante que o fim desse mundo seja um mal: provavelmente será mais aborrecido, mas talvez seja também menos desigual.

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                Odobenus rosmarus

                Eu cá não tenho inveja alguma de Michael «billion dollar baby» Phelps. O que pode parecer uma atitude um pouco estúpida, pois deveria cobiçar-lhe a juventude, a ausência de dores nas cruzes, o número de flexões que consegue fazer, a destreza na água, as medalhas, a fama e o dinheiro. Mas aquela cabeça marcada pelo prognatismo, as pernas assim curtas e sapudas, a propulsão de animal aquático, os músculos de Exterminador, o grito vitorioso à odobenídeo (odobenus rosmarus) de morsa satisfeita, remetem-no para uma espécie diferente, vinda do Waterworld e apenas semi-humana, à qual não desejo pertencer. Talvez seja essa, aliás, a causa profunda da admiração por Phelps manifestada por George W. Bush. Deve ser isso.

                P.S. – Este post partiu da leitura de um artigo sobre o carácter anómalo de algumas das características físicas de Phelps e a sua relação com a capacidade atlética fora do comum do nadador (mais dados aqui). E pretendeu ironizar um pouco em volta do processo mediático de construção do novo mito. Mas admito que a referência a uma determinada patologia possa ser interpretada de forma diferente. Peço desculpa aos leitores que eventualmente se sintam incomodados. Mas mantenho o texto por este incluir já alguns comentários, por entretanto ter sido citado e sobretudo por saber que muitos outros o não entenderam dessa forma.

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                  A troca do «patinho feio»

                  Ainda em relação à manipulação política dos Jogos pelo governo chinês, são um tanto chocantes as sucessivas revelações sobre o embuste tecnológico praticado na cerimónia de abertura. A cosmética visual seria legítima no campo da encenação do espectáculo televisivo, naturalmente, mas já o não foi procurar enganar o mundo inteiro, omitindo a informação e fornecendo depois desculpas esfarrapadas. Verdadeiramente indesculpável foi, porém, a ocultação de Yang Peiyi, a menina cantora «patinho feio», e a sua troca pelo «anjo sorridente» Lin Miaoke, apenas porque a primeira não tinha um aspecto conveniente e a organização sentiu que deveria «projectar a imagem certa e pensar no que era melhor para a nação». Da forma como tudo foi feito não se tratou apenas de dobragem – que se pratica em toda a parte –, mas de fraude e de rejeição de alguém, «por acaso» uma criança. A verdade é que pouco adiantará o sentimento de repugnância que este gesto tem merecido, pois, como bem explicou à BBC o dissidente Xiao Qiang, as autoridades chinesas «nem sequer têm noção da falta de ética que isto demonstra». A manipulação e a duplicidade estão-lhes na massa do sangue.

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                    O «barulho das luzes»

                    De férias e por isso com um horário menos pendular, não vi a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Mas chegam-me de todo o lado notícias e impressões sobre a dimensão magnífica e aparatosa do acontecimento. Acredito que sim, que assim foi. O governo chinês investiu muito neste momento e detém, como todos sabemos, condições e instrumentos para fazer um trabalho bem feito, varrendo as queixas sobre vozes silenciadas, populações deslocadas, trabalho semi-escravo e direitos humanos espezinhados. Obviamente questões menores diante da «grandeza» do momento, da «capacidade de afirmação» da maquinaria chinesa, da concentração imposta dos meios existentes e da conjugação de interesses de dimensão planetária que suporta o evento.

                    Salvaguardando a diferença imposta pelas tecnologias hoje disponíveis, recordo-me bem, apesar da sombra deixada pelo boicote de 65 países, do espanto do mundo diante da gigantesca coreografia que em 1980 abriu os Jogos de Moscovo. E, via YouTube, já assisti também a cerimónias de enorme «grandeza» e «capacidade de afirmação» em estádios da Coreia do Norte. Em todas essas «grandiosas» manifestações, e apesar da diferença formal que as separa, sempre a mão de uma organização sem falhas, orientada para a consumação da vontade una e a exibição interna e externa dos Estados «dos trabalhadores». Uma capacidade que os Estados democráticos jamais conseguiram igualar, uma vez que não dispõem, felizmente, das mesmas condições para treinarem e para imporem o unânime e o irrefutável.

                    No Público, Inês de Medeiros esqueceu por momentos estes problemas e concentrou-se na disposição cinematográfica concebida em Pequim por Zhang Yimou, o talentoso realizador que trocou as incertezas da ex-condição de rebelde por um cartão de militante do PCC e pela confiança das autoridades. Já Ruben de Carvalho exultou com a forma como, através do espectáculo de projecção global posto em marcha, a China «procurou transmitir valores de inteligência, do valor do saber, da comunicação e do entendimento entre os homens». Fazendo questão de frisar, com indisfarçável satisfação, que «falharam completamente as “previsões” que, por um lado, anunciavam uma liturgia totalitária e, por outro, uma expressão de agressivo nacionalismo». Chama-se a isto ampliar o «barulho das luzes».

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                      Sem blogues

                      Não sei quantas pessoas lerão por dia os blogues portugueses de opinião e ideias, mas aceitando que uma boa parte delas segue diariamente sete ou oito, o seu número ascenderá, sem dúvida, a muitos milhares. Dez mil? Vinte mil? Mais ainda? Julgo que ainda ninguém conseguiu fazer tal contabilidade, nem sequer no âmbito daquele padrão de inquérito sociológico que depois permitirá diversas extrapolações. Mas serão muitas pessoas, muitas mesmo, sempre bem mais do que aquelas que lêem alguns jornais de âmbito nacional. Na comparação com estes é ainda necessário ter em conta que aqueles que acompanham certos blogues os lêem na quase totalidade, enquanto os leitores de jornais se centram neste ou naquele texto.

                      Parece-me pois deslocada uma frase de Miguel Sousa Tavares, usada na crónica que saiu hoje no Expresso, segundo a qual «sinal dos tempos e do país em que nos estamos a tornar, a morte de Alexander Soljenitsine não ocupou mais do que um curto obituário, preenchido com banalidades, mesmo nos jornais ditos “de referência”». Se passasse uma vista de olhos pela blogosfera, o conhecido colunista e escritor de sucesso teria percebido como a vida e a obra de Soljenitsine nela foram destacados e até debatidos. A vaga de alusões, de leituras e de informações que emerge dos blogues, independentemente da sua dimensão e valia, é, aliás, indicador de uma atenção por temas de interesse mais ou menos público que passa por um universo de comunicação que Sousa Tavares, com toda a legitimidade e talvez algumas boas razões, insiste deliberadamente em ignorar. Problema seu, naturalmente.

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                        Na morte de Soljenitsine

                        Bem sei que cada um de nós se olha a si próprio de uma forma diferente daquela que os outros usam para vê-lo, mas «tenho para mim», como se diz na Beira profunda, que foram obras como os romances Um Dia na Vida de Ivan Denisovich (1962) e O Pavilhão dos Cancerosos (1968), ou ainda os grossos volumes-libelo do Arquipélago Gulag (1973-78), que independentemente do seu valor literário me fizeram evoluir politicamente e me transformaram numa pessoa talvez um pouco melhor. Por isso as tenho conservado na biblioteca à distância de um olhar. E também por isso sou incapaz de receber a notícia da morte de Alexander Soljenitsine sem a sentir de alguma forma como uma perda. Pessoal e colectiva.

                        P.S.: Uma adenda ao excelente post do Luís Januário sobre Soljenitsine: o Arquipélago de Gulag (com este título) foi publicado em Portugal, em dois grossos volumes editados pela Bertrand. No ano, pouco propício para o efeito, de 1975 (o 2º tomo em 1977). Na altura foram apontados, obviamente, como mais uma «manobra da CIA». Tenho-os aqui, mas foram adquiridos mais tarde, quando já tinha percebido que afinal não fora a CIA a inventar todo o mal do mundo. E muito menos a criar a «Administração Geral dos Campos».

                        P.S. (2): Veja-se também a posição de Carlos Brito, que levanta aspectos para mim até agora desconhecidos e que não podem ser omitidos. Embora me pareça que devam ser avaliados considerando as circunstâncias da vida de Soljenitsine e a intensa manipulação das suas palavras e acções que ocorreram em meados da década de 1970.

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                          Adeus, Príncipe Valente

                          O meu á-bê-cê foi o Diário de Notícias, mas lá em casa lia-se também A Bola, o Mundo Desportivo, a Vida Rural, e o portuense O Primeiro de Janeiro, que era o jornal favorito do meu avô e ao domingo incluía um divertido suplemento pelo qual eu esperava sempre com alguma impaciência. A memória que dele guardo é a de um caderno que trazia consigo preciosidades para um rapaz de província, como histórias policiais, charadas, quebra-cabeças, anedotas, curiosidades, e a imprescindível banda desenhada, onde sobressaíam Os Filhos do Capitão Grant, série concebida a partir da obra de Júlio Verne, e, mais para as raparigas que procuravam um universo de teenagers que Portugal ainda não conhecia, O Coração de Julieta. Mas o melhor de tudo eram os quadradinhos a cores de O Príncipe Valente, de Harold R. Foster, surgidos no jornal em 1959 (embora lançados em 1948 nas páginas d’O Mosquito), e que foram, provavelmente, os responsáveis primordiais pelo meu gosto pela história, ali revelada sedutora na dimensão mítica e romanesca de uma Idade Média de papel.

                          Publicado desde 1868 como jornal da burguesia liberal que se opunha ao lançamento do imposto sobre o consumo e havia participado no movimento da Janeirinha, quando o conheci o PJ era já um tanto conservador nos conteúdos e no grafismo, mas permanecia ainda muito popular. «O Janeiro» evidenciou porém, nos últimos anos, uma decadência visível, com alterações gráficas e de conteúdo que visaram provavelmente assegurar-lhe a sobrevivência mas que o foram descaracterizando e o afastaram do seu público original. A actual administração acaba de suspender a sua publicação, despedindo 32 jornalistas e prometendo «uma nova imagem» que não se sabe com quem vai ser construída (embora se saiba que os método utilizados não pressagiam nada de bom). Apenas podemos ficar certos de que jamais regressará o diário de referência que manteve durante gerações um público atento e fiel. Como aquele que vibrou semanalmente com as aventuras únicas do Príncipe Valente.

                          Adenda a 04.Ago.2008: De acordo com o Expresso online, o novo O Primeiro de Janeiro está a ser redigido pelos jornalistas de O Norte Desportivo, caderno desportivo que integrava o centenário jornal portuense.» Rui Alas, o novo director do Janeiro e antigo director do Norte Desportivo, esclareceu que «apenas soube que iria ser responsável pelo novo projecto no passado sábado e que a equipa tomou domingo conhecimento disso».

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                            O «nosso Magalhães»

                            Já aqui ficou demonstrado, com o apoio de instrutivos links, como a originalidade da ideia do governo Sócrates de co-financiar a produção do Magalhães, um «computador português» de baixo custo destinado aos alunos do ensino básico, é em certa medida uma fraude. Trata-se de colocar uma vez mais o carro à frente dos bois, pois o governo não tem investido o suficiente no apoio prioritário à introdução dos conteúdos na rede e no desenvolvimento das capacidades informáticas dos professores – a maioria pouco mais continua a saber fazer que servir-se primariamente do Word ou do Powerpoint e utilizar de forma quase sempre passiva o browser –, fornecendo assim o martelo sem dar os pregos. Mas constitui também um gesto de mau gosto, espera-se que não de mau agouro, organizar uma homenagem em vida ao secretário de Estado (e ex-«deputado informata») José Magalhães.

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                              Incoincidências

                              Não se trata de uma juíza qualquer. Ana Gabriela Freitas, do 2º Juízo do Tribunal Judicial de Felgueiras, que acaba de tecer considerações onde utiliza qualificativos de carácter abertamente racista aplicados aos ciganos – os quais alega serem inapelavelmente «marginais e traiçoeiros» – é a mesmíssima magistrada que em 2005 mandou Fátima Felgueiras, recém-fugida a prisão e julgamento, aguardar o curso da justiça em liberdade. Por apenas «alegadamente» haver estado refugiada no Brasil, sendo a sua conhecida fuga coisa «aparente». Sorte a da Dona Fátima por não pertencer a essa mesma etnia que a dra. Gabriela considera levar uma vida sistematicamente «pouco edificante».

                              [sobre o problema cigano, ver Errantes e extravagantes]

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                                Vergonha global

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                                O governo chinês prometeu aquilo que todos sabíamos que jamais iria cumprir. Os honoráveis Comités Olímpicos fingiram que acreditaram. Os governos democráticos fizeram de conta que não era com eles. Os partidos políticos não consideraram o assunto uma prioridade. A Amnistia Internacional e outras organizações não-governamentais têm sublinhado a constante violação dos direitos humanos na China, mas a sua voz raramente passa das páginas interiores, dos suplementos de faits-divers, das entrelinhas do teletexto.

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