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Um pequeno caso de amnésia

Rommel no deserto

Se história e memória não são a mesma coisa, uma não existe sem a outra, uma vez que ambas têm como referente o passado e os ecos que deles nos chegam, influenciando-se reciprocamente no processo de construção e de apagamento. Sabemos, por exemplo, como a revisão da história, levada a cabo muitas vezes por políticos e historiadores, começa antes por uma manipulação da memória colectiva, criando-se as condições para que, de seguida, certos «técnicos do passado» executem o seu trabalho sombrio. Assim ocorre entre nós, por exemplo, com a recente «suavização» do salazarismo, que começou com a tentativa de injecção mediatizada, no imaginário colectivo, de um ditador de Santa Comba com um ar simpático ou até de playboy, e tem prosseguido com a produção de livros, artigos e eventos destinados a activar um certo processo de branqueamento do homem e da sua acção.

Este método é universal, e daí o cuidado que é preciso ter perante a manipulação do conhecimento histórico como cenário que legitima as escolhas do presente. Só o esquecimento desse lado ambíguo da história pode assim permitir, por exemplo, que os responsáveis da selecção argelina de futebol tenham escolhido como designação utilizada, pelos jogadores que em Angola disputam neste momento o CAN 2010, o qualificativo de «raposas do deserto». É verdade que estas são pequenos canídeos que habitam as regiões desérticas, semidesérticas e montanhosas do Norte de África, contendo por isso uma simbologia local própria. Mas para quem tem como referente histórico o conflito brutal que foi a Segunda Grande Guerra – e o CAN é já um acontecimento global, que por isso não pode ignorá-lo – a «Raposa do Deserto» era Erwin Rommel, o arguto e inflexível comandante-em-chefe do Afrika Korps, com qual Hitler procurou obter o controlo estratégico do Magrebe e do Egipto. Conhecido na época, entre muitos árabes, como «o Libertador», por ter combatido frontalmente a presença imperial inglesa na região. Trata-se, provavelmente, de um episódico caso de desconhecimento ou de amnésia. Não é grave e não vale uma tempestade, pois a Guerra é já, para a esmagadora maioria das pessoas, um acontecimento longínquo, quase de ficção. Mas não deixa de ser sintomático.

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    Atualidade, História, Memória

    Haiti

    «Haïti, la malédiction», um excelente artigo que nos ajuda a perceber melhor as circunstâncias em que a enorme catástrofe que se abateu sobre o Haiti se tornam ainda mais dramáticas, pode ser encontrado (em francês, naturalmente) na edição online do Le Monde (obrigado, MJP).

    Entretanto, a Assistência Médica Internacional (AMI) lançou uma campanha para ajudar a sua missão de «reconstruir as vidas que ficaram destruídas». Para contribuir:

    – Pode fazer uma transferência bancária através do NIB: 0007 001 500 400 000 00672

    – No Multibanco basta seleccionar o menu “Pagamento de Serviços” e inserir Entidade 20909 Referência 909 909 909 e a quantia que escolheu doar.

      Atualidade, Democracia

      Tónico Verdi

      Faço parte daquela minoria de extravagantes para os quais os desejos do réveillon não se esgotam na «paz no mundo», «saudinha», «muito amor» e «sorte no euromilhões». Claro que sou contra a guerra e a doença, completamente pró-amor e não me importava mesmo nada de ver a conta bancária reforçada. Mas tenho também a expectativa de uma vida mais digna que passa pela invenção de melhores pessoas. E o que há de melhor para operar a mudança que não seja a disseminação desse sopro, dessa brisa – de alguma forma, de um certo estado aurático da experiência estética – que a grande literatura ou a grande música permitem quando retirados dos seus templos, disseminados, democratizados? Foi do que me lembrei frente a este vídeo comovente e feliz.

      [youtube width=”400″ height=”324″]http://www.youtube.com/watch?v=Ds8ryWd5aFw[/youtube]

      «Un día cualquiera de mercado, la música empieza a sonar entre los puestos de frutas y verduras.» Fragmentos da Traviata, de Verdi, interpretados em pleno Mercado Central de Valência. [obrigado ao Elísio Estanque pelo link]

        Atualidade, Música, Olhares

        Página virada

        Ao contrário daquilo que aconteceu há dez anos, ninguém parece agora preocupar-se muito com o facto de a segunda década do século XXI se estrear esta noite. Entretanto alguma coisa mudou neste país, mas nem sempre a mudança foi para melhor. Um dado parece certo: a maioria das pessoas compreendeu já que o cômputo dos anos – como os conta-quilómetros, os cronómetros, os taxímetros, os termómetros ou os meses dos bebés – parte realmente do zero e não do um. É um progresso, e nele alguma quota-parte terá, há que reconhecê-lo, o resplendor de modernidade high-tech insuflado pela maioria absoluta dos últimos anos.

        A passagem do ano trará consigo novas conquistas sociais imediatamente perceptíveis, como a entrada em funcionamento em Setúbal de milícias populares compostas por maiores de 65 anos pagos a 2,60 euros à hora e destinadas a perseguir os grafiteiros, ou a espectacular extensão do limite máximo para o uso do Cartão Jovem, que é transferido dos 25 para os 30 anos e «passará inclusive pela mudança do antigo logótipo para um novo». Mas é de temer que os mal-intencionados e os derrotistas atribuam fraca importância a tais medidas, preferindo insistir em temas negativos, como a corrupção, o desemprego ou a redução real dos direitos dos trabalhadores. Para estes e para outros, pessoas positivas, combativas ou cépticas que por aqui passam – aos indiferentes nada desejo, respeitando a sua indiferença –, os votos autênticos de um feliz 2010. E, se possível, sem a fantasia de antecipar desde já um duplo plano quinquenal, a vontade sentida de uma segunda década melhor do que esta. Para todos.

          Atualidade, Devaneios

          O antiexistencialista

          Liberdade, liberdade

          Mal sabia eu, quando falava há poucos dias, durante uma aula, sobre os processos de emancipação diante dos grandes sistemas doutrinários e de afirmação da liberdade individual postos em movimento depois da Segunda Guerra Mundial, e enquanto recordava essa «cultura da antidisciplina» nascida nos anos 50-60 que enforma ainda boa parte do nosso tempo, que antes de adormecer iria ler esta frase: «temos assistido a uma deriva libertária que vai no sentido de que eu desejo pura e simplesmente, eu quero assim e isso é razão e quase que moral suficiente para seguir independentemente do que os outros pensem ou do que as instituições me peçam, sem ter de dar satisfações a ninguém.» Mas felizmente assim passou a ser. E assim vamos basicamente vivendo dentro do universo imperfeito e cada vez mais complexo, mas apesar de tudo mais livre e geralmente mais feliz do que aquele que o precedeu, erguido ao longo dos últimos sessenta anos. Ainda não o disse, mas e importante: quem pronunciou a frase e se lamentou de um tal estado das coisas – em entrevista de tonalidade retrógrada, defensiva e moralista publicada hoje pelo Expresso – foi D. Manuel Clemente, bispo da Igreja católica e Prémio Pessoa 2009.

            Apontamentos, Atualidade, Opinião

            Nada acontece por acaso

            Aminatu

            Para quem acha – inclusive na blogosfera engagé, onde é tão fácil tomar partido, ou calar-se, ou aborrecer-se e passar adiante – que não vale a pena lutar por causas que parecem não nos dizer directamente respeito, o fim feliz do difícil combate de Aminatu Haidar pelo seu regresso a casa será irrelevante. Para ela e para a luta do povo sarahui pela independência será mais um passo em frente.

              Atualidade, Democracia

              Vem aí a República

              Illustração Portugueza
              Imagem da Illustração Portugueza. Clique para alargar e ampliar.

              No dia 5 de Outubro de 2010 completar-se-ão cem anos sobre o fim da monarquia e a proclamação da República Portuguesa, que chamamos hoje de «Primeira». Pelas notícias que chegam e os indícios que vão sendo espalhados, todo o ano que vem será marcado por iniciativas destinadas a evocar o centenário. Temo, no entanto, que a generalidade das sessões solenes, dos congressos, dos colóquios, dos debates, das exposições, dos desfiles, dos descerramentos de lápides, das romagens de saudade a cemitérios, dos artigos de jornal, dos suplementos, dos livros, dos álbuns, dos programas de televisão, dos posts de blogues, venha a assumir um carácter mais solene e ritual, ou então acintoso e depreciativo, do que evocativo de um tempo de viragem, de escolhas, de atitudes que merecem ser não apenas lembradas mas revistas com sentido crítico aos olhos de hoje. Tudo dependerá, naturalmente, de quem organize as iniciativas e pretenda capitalizar a efeméride em seu favor. E das opções de quem assegure a sua mediatização.

              Seria, no entanto, um favor à memória da República e dos republicanos, e também uma dádiva à experiência actual da cidadania, que, mais do que endeusar ou diabolizar nomes, destacar ou amaldiçoar decretos, distinguir ou esconjurar determinados momentos, se procurasse compreender o essencial – e não apenas o acessório e o inócuo – desse mundo que aquela manhã de Outubro empurrou para o passado. Se pudesse revisitar a experiência multiforme à qual deu lugar, descobrir as esperanças que ficaram por cumprir. Só desta forma os ideais republicanos poderão retroceder por instantes à vida, e deixarão de inscrever-se apenas num tempo remoto, fantasmagórico, que apenas interessará verdadeiramente os historiadores e o seu público. Porque não aproveitar para re-discutir o regime, o laicismo, a religião, a família, a escola, o ensino, as tradições, a opinião pública, a intervenção das mulheres, e outros temas que, cem anos depois, permanecem ainda nas nossas expectativas e preocupações? Teremos tempo de falar de tudo isto com maior vagar durante os próximos meses, assim uma ressaca má da overdose de República não sobrevenha demasiado cedo.

                Atualidade, História

                Guia do manifestante

                Manif

                O mercado e a comunicação de tudo se apropriam, tudo usurpam com o seu apetite. Mesmo o protesto de rua se vê envolvido pela lógica mercantil e mediática, com linhas de vestuário casual, sedutor e confortável, próprio para utilizar em manifestações e fugir com agilidade diante da polícia. Em algumas cidades, empresas especializadas contratam desempregados para servirem de figurantes no espectáculo televisivo sempre que a causa não seja suficientemente mobilizadora. Mas este é apenas um dos lados, já que o activismo de rua é sempre capaz de reinventar estratégias, recorrendo até às tecnologias que o próprio sistema disponibiliza, como se pôde ver ainda há poucos meses nas ruas de Teerão ou agora em Copenhaga.

                Entretanto o recrudescimento da arte da manifestação passa também pela adaptação de quem a pratica às circunstâncias do poder que, em democracia, se vê forçado a combinar o uso do cassetete, do gás-pimenta e da cela incomunicável com a vigilância da opinião pública e os mecanismos jurídicos disponibilizados pelo Estado. É esta realidade que faz com que o sindicato francês da magistratura tenha sentido o dever de publicar uma edição actualizada, de 36 páginas, do seu Guide du Manifestant Arrêté, um catálogo up-to-date dos direitos do manifestante detido, que esta semana a revista Inrockuptibles – à venda no nosso país nas boas tabacarias* – oferece como encarte. Um conselho retirado ao acaso: antes de se manifestar diga a um amigo ou familiar para onde vai e leve consigo papel e lápis para poder espalhar recados por onde puder, pois nada garante que os vigilantes do estado democrático o deixem fazer valer os seus direitos antes de levar uns valentes apertões e ficar sem dois ou três dentes. E olhe que mesmo em Portugal não convém fiar-se no mito urbano dos brandos costumes.

                * Enquanto estas puderem continuar a chamar-se tabacarias.

                  Atualidade, Democracia

                  Latinamérica

                  latinamerica

                  Desconfio sempre do cunho supostamente científico dos inquéritos e das sondagens que procuram intuir tendências ou fotografar expectativas lá onde, na maioria das vezes, são circunstâncias volúveis que motivam as escolhas de quem lhes responde. Muitas dessas observações pressupõem uma objectividade que repele o subjectivo, quando afinal é quase sempre este, ou é mesmo sempre este, por agir mais em profundidade na construção das convicções, que impele à acção e sobrevive para além do transitório. No entanto, a suspeição não repele o reconhecimento do óbvio: os resultados desses questionários funcionam quase sempre, sobretudo se o universo inquirido for suficientemente amplo e diversificado, como indicadores que não podem ser ignorados.

                  É precisamente isso que se passa como o recém-divulgado «Informe Latinobarómetro 2009», cujo universo de respondentes englobou um grande número de cidadãos de todos os países latino-americanos (à excepção de Cuba, onde até um trabalho desta natureza é considerado pelo regime como potencialmente subversivo e perigoso). Conclusões detalhadas foram publicadas no El País, sendo uma das mais interessantes aquela que permite comparar o prestígio de um conjunto de líderes com o apoio declarado à democracia como sistema «preferível». Numa escala de 1 a 10, as figuras mais votadas foram Barack Obama (7,0), Lula (6,4), Juan Carlos I (5,9), Zapatero (5,8) e a chilena Michelle Bachelet (5,8). As piores foram Daniel Ortega (4,3), Fidel Castro (4) e Hugo Chávez (3,9). Não deixa de ser curioso o facto de, entre os quatro mais votados, três deles serem o presidente dos Estados Unidos e os actuais dirigentes da antiga potência colonizadora. Já os apoios à democracia foram de 85% dos inquiridos na Venezuela, 81% no Uruguai e 74% na Costa Rica, ficando no extremo oposto o México com 42% e a Guatemala com 41%. Assim, enquanto Chávez é o menos querido dos dirigentes, os venezuelanos mostram ser o povo que mais se identifica com os valores essenciais da democracia. O que quererá isto dizer? Existirá por aqui uma conversa de surdos?

                  Factor igualmente curioso tem a ver com a relação da população das Américas Central e do Sul com as antigas potências colonizadoras. Enquanto 57 por cento dos cidadãos brasileiros inquiridos declarou não saber sequer por quem foi colonizado o território no qual habitam, e para além disso uma grande parte se mostra indiferente a um estreitamento efectivo das relações com Portugal, já uma maioria de latino-americanos de língua castelhana considera como «muito positiva» a crescente influência política e económica de Espanha na região. Os inquéritos não explicam nada, é verdade, e podem até ser muito enganadores, mas talvez se revele interessante reflectir um pedaço sobre resultados desta natureza. Só para considerar algumas hipóteses e especular sobre elas.

                    Atualidade, Olhares

                    Tempos difíceis, pessoas extraordinárias

                    Xinran

                    Testemunhos da China é um livro intenso que projecta sucessivos olhares sobre o passado chinês anterior a 1949, sobre os caminhos sinuosos da revolução comunista, e sobre o presente de acelerada mudança de um país que nos habituámos a povoar de exotismo mas também a temer. Comporta 20 entrevistas calorosas e comoventes, feitas a pessoas com mais de setenta anos que tiveram percursos únicos mas relativamente anónimos, revelando a energia de escolhas cujo vigor e humanidade foram sempre capazes de transcender o sofrimento e a injustiça. Mostrando de que forma, sob sucessivas formas de opressão, a atitude optimista e o heroísmo de seres fora do comum jamais deixa que se perca o sentido da esperança. A riqueza da obra está nas pessoas extraordinárias que por ele desfilam – como a ervanária descoberta num mercado, professores aposentados, condutores de táxi, a lendária «Mulher das Duas Armas», antigos Guardas Vermelhos, alguns operários, uma acrobata, um oficial da marinha, um mestre-sapateiro ou um fabricante de lanternas – mas também no método adoptado pela autora. Xinran, jornalista de profissão, não quis «fazer história» através destas vozes singulares, nem procurar «a verdade» por detrás da propaganda, mas antes entrever e registar as reacções emocionais assumidas por cada uma delas face às mudanças rápidas e profundas que a China tem vivido nos últimos sessenta anos. [Xinran, Testemunhos da China. Vozes de uma Geração Silenciosa. Trad. de Maria Filomena Duarte. Bertrand Editora, 496 págs.]

                      Atualidade, Memória

                      E o vencedor foi…

                      A selecção de Manuel Clemente para Prémio Pessoa 2009 apenas confirma uma evidência: a iniciativa do Expresso tem vindo a escolher cada vez menos vultos incontornáveis, figuras fortes de intelectuais, cientistas ou cidadãos de mérito tranversalmente reconhecido, para eleger representantes de corporações circunstancialmente colocados debaixo dos holofotes. Trata-se, sem dúvida, de uma escolha que assiste à entidade privada responsável pelo galardão e que desta vez entendeu ser o bispo do Porto «uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo». Uma escolha tão legítima quanto o é a inevitável tendência pública, que tem vindo a ganhar força, para se deixar de atribuir grande importância ao Prémio e de tirar o chapéu ao laureado.

                      P.S. – Pensei relacionar a escolha do bispo do Porto com o ano-republicano que se aproxima, mas acabei por achar que a ligação poderia resultar de um devaneio meu. Só que, entretanto, encontrei o seguinte fragmento de uma entrevista de Manuel Clemente concedida há dois anos atrás:

                      «Por que é que a Igreja está a reclamar intervenção activa nas comemorações do centenário da República?»
                      «É para entrar neste debate. Para esclarecer questões que muitas vezes nem sequer estão enunciadas correctamente. Para mostrar que, relativamente à I República, da parte da Igreja a questão nunca foi o regime mas algumas práticas dos sectores mais radicais do republicanismo e, a partir daí, fazer o tal debate acerca do que é o lugar das confissões religiosas e do que haja de ser a expressão religiosa em termos individuais e colectivos numa sociedade democrática.»

                        Apontamentos, Atualidade

                        Getting older, but not losing their hair

                        Bruce Tom

                        Eu deveria falar só sobre o Tom Waits, que fez ontem sessenta anos. Mas meto também na jogada o Bruce Springsteen, que os ultrapassou há perto de dois meses. Está escrito no cartão do cidadão que a minha data de nascimento se encontra perigosamente mais próxima da deles do que daquela da qual se pode gabar o Devendra Banhart ou mesmo o Pedro Passos Coelho, e talvez seja por isso que os aniversários de Tom e de Bruce não me façam uma impressão por aí além. Mas já justificam a evocação de dois trajectos inacabados e ainda debaixo da luz dos projectores.

                        Sempre olhei Springsteen como vestígio de uma América ideal que já se via de partida quando ele saiu lá de New Jersey, mas que foi depois desaparecendo lentamente, como pegada de dinossauro em trilho paralelo a uma qualquer highway. Um hobo fora do tempo, talvez mesmo um beatnik retardado, se não desnaturado, do qual o que sobra na América de uma cultura protestativa e de tradição sixtie se tem apropriado como se fosse um balão de oxigénio. Como de uma bandeira rasgada, volúvel, mas ainda visível e a drapejar sobre um horizonte que se não pode prever. Dele gosto, verdadeiramente, apenas de dois álbuns publicados um a seguir ao outro: o fremente e corsário The River (um duplo de 1980) e o quase intimista e acústico Nebraska (1982). Os outros pertencem, basicamente, ao processo de fixação do Bruce naquela imagem de cool guy que «representa o povo» em tribunas do Partido Democrata ou em anúncios da Pepsi Cola. Mas que certas vezes ainda comove, porque insiste em falar-nos da vida «como ela é». Como boss mais camarada afinal do que patrão.

                        Tom Waits é outra coisa e a mesma. Resíduo da contracultura dos anos sessenta, signo de uma ressaca difícil que encontra, na figuração narcísica da marginalidade e do individualismo, um lugar de exílio das utopias que pareciam ter sido abandonadas de uma vez por todas. Música de cave, com cheiro acentuado a bourbon e a fumo, como em Nighthawks at the Diner (gravado ao vivo e editado em 1975), ou Small Change, ou Blue Valentine, saídos nos anos seguintes, que a música de Mr. Waits, embora progressivamente mais intelectualizada, hoje mais elaborada, estranhamente controlada no seu descontrolo, na verdade jamais deixou de ser. Sempre um registo «fora de género» que encontra os seus inflexíveis cultores – aqueles que preferem caminhar do lado oposto à «sunny side of the street» – mas não deixa de conter uma amargura que escapa sempre ao lado exultante desse modelo americano de vida que os europeus jamais desejarão. Por isso, talvez, tantos deles, tantos de nós, gostam ainda de um tipo assim, sem voz para adormecer bebés e uma presença física um bocado pungente.

                        Afinal os sessenta anos de Tom e de Bruce não contam assim tanto, pois não?

                          Atualidade, Memória, Música

                          Fenómeno do Entroncamento

                          Jornalismo

                          A notícia será rapidamente esquecida, mas não merece. Nesta 2ª Feira, um grupo de 30 militares do Centro da Serra da Carregueira encontrava-se a recolher informação para desenhar a carta militar geográfica do rio Olo, na serra do Alvão (Vila Real), quando dois deles – por sinal um tenente-coronel e um primeiro-sargento – se perderam por volta das dez da noite sem que nenhum dos companheiros conseguisse encontrá-los. Foi então que os outros militares resolveram recorrer aos meios humanos mais tradicionais, herdados da experiência logística das guerras napoleónicas, e pedir a ajuda de um pastor de 41 anos, com 35 de exercício da arte, que prontamente deu com os dois desaparecidos tolhidos de frio no fundo de uma ravina. A história é já de si curiosa, justamente pelo tipo de pesquisa que a brigada levava a cabo e que requereria aparelhos de localização e de comunicação – no mínimo telemóvel e GPS –, bem como pelo facto de os dois desaparecidos serem militares profissionais e não dois escuteiros fugidos de um jamboree. Mas mais interessante ainda é o discurso do pastor, que o repórter do Diário de Notícias transcreve: «Cerca da meia-noite fui acordado por dois elementos da GNR, solicitando a minha ajuda para encontrar dois militares que estariam perdidos junto da queda das Fisgas», contou Sérgio Alves. «Munido de uma pequena lanterna, acompanhado de dois bombeiros, fui de imediato para a ravina seguinte à queda de água e cerca das 02.30 consegui ir até meio do declive. Tinha a certeza de que só poderiam estar ali. Fiz sinais, chamei e ouvi uma voz.» Ou os pastores já não são o que eram, ou o convívio com o português-padrão usado pelos jornalistas deste país está nos píncaros lá pelas margens do Olo, ou então estamos perante um fenómeno do Entroncamento deslocado do seu lugar onde.

                            Atualidade, Olhares

                            É mesmo disto que o povo precisa

                            Cuba libre

                            «Raúl Castro lança o maior exercício militar dos últimos cinco anos, envolvendo cem mil soldados e quatro milhões de milícias populares, como treino para uma resposta a uma hipotética agressão norte-americana.

                            O Presidente cubano, Raúl Castro, mobilizou cem mil soldados e reservistas no maior exercício militar dos últimos cinco anos em Cuba. Às manobras, iniciadas há três dias, juntar-se-ão amanhã cerca de quatro milhões de cubanos, organizados em milícias populares desde a implantação do actual regime comunista, em 1959. (…)

                            As manobras, sob o título genérico ‘Bastião 2009’, visam responder a uma hipotética invasão norte-americana apesar de o actual inquilino da Casa Branca, Barack Obama, ter assegurado mais de uma vez que não tem qualquer intenção de usar a poderosa força militar de Washington contra a ilha.»

                            aqui

                              Atualidade, Recortes

                              Código de conduta

                              Crime e castigo

                              Já tinha reparado na notícia do 24 horas sobre o código de conduta preparado pelo director da informação da RTP para regulamentar a utilização individual dos blogues e das redes sociais da Internet pelos jornalistas da estação. Sinceramente, pensei que se trataria apenas de mais uma daquelas invenções, especulações ou não-notícias que habitualmente preenchem a primeira página do diário sensacionalista. Mas um post de Pedro Correia mostrou que eu estava enganado: José Alberto Carvalho pretende mesmo que, na vida privada de cada um, os jornalistas que dirige em regime de ordem unida deixem de ter opinião pessoal audível e zelem por uma imagem pública que deve adequar-se, sem mácula ou divergência, sem humor ou poesia, à da empresa na qual trabalham. Copio directamente do Delito de Opinião:

                              – «Nada do que fazemos no Twitter, Facebook ou Blogues (seja em posts originais ou em comentários a post de outrem) deve colocar em causa a imparcialidade que nos é devida e reconhecida enquanto jornalistas.»

                              – «(…) Deverão deixar em branco a secção de perfil de Facebook ou outros equivalentes, sobre as preferências políticas dos utilizadores.»

                              – «Ter particular atenção aos ‘amigos’ friends do Facebook e ponderar que também através deste dado, se pode inferir sobre a imparcialidade ou não de um jornalista sobre determinadas áreas.»

                              – «Meditar sobre o facto de 140 caracteres de um twit poderem ser entendidos de forma mais deficiente (e geralmente é isso que acontece!) do que um texto de várias páginas, o que dificulta a exacta explicação daquilo que cada um pretende verdadeiramente dizer.»

                              Se isto for tomado à letra e aplicado abrirá um perigoso precedente, e em breve outros diligentes funcionários superiores convertidos em manajeiros decidirão aquilo que um funcionário público, um polícia, um bancário, um professor, um padre, um médico, um juiz, um militar, um fiscal da ASAE, um futebolista da selecção ou qualquer outro profissional com «dever de imparcialidade», convertido à força em cidadão irresponsável e sem direito a pensar pela sua cabeça, deve ou não dizer de cada vez que, a cada manhã, abandone os lençóis, saia à rua – ou ligue o computador – e abra a boca para falar com alguém que não seja da família.

                                Atualidade, Democracia

                                Desde Cuba

                                Reinaldo Escobar

                                O último crime da democrata cubana Yoani Sánchez – que à boa maneira da Revolução Cultural chinesa justificou uma «demonstração de repúdio» e o espancamento e prisão de Reinaldo Escobar, seu marido – foi ter colocado no blogue Generación Y as respostas de Barack Obama a sete perguntas que lhe dirigiu. Raúl Castro, que também recebeu um questionário enviado por Yoani, não respondeu. Encontra no El País um bom resumo dos últimos desenvolvimentos de mais este caso de agressão à liberdade de expressão em Cuba. A fotografia utilizada foi copiada daqui.

                                Adenda – Nem de propósito, acaba de me entrar em casa Tumbas sin sosiego. Revolución, disidencia y exilio del intelectual cubano, um livro de Rafael Rojas, historiador e ensaísta cubano exilado no México, editado em 2006 pela barcelonesa Anagrama. Hei-de trazê-lo para aqui noutro dia. Até lá recordo «A imensa tristeza».

                                  Atualidade, Democracia

                                  De mal a pior

                                  Cuba assim, não

                                  A Human Rights Watch acaba de afirmar – e prova-o através de um relatório de 123 páginas – que o regime cubano agravou a repressão sobre os dissidentes e apertou a vigilância policial desde que Fidel se retirou da gestão diária do poder e foi substituído pelo irmão Raúl. Um panorama que contraria claramente as expectativas iniciais e que é tanto mais inexplicável quanto a justificação fundamental para a repressão e a «censura revolucionária» – o embargo económico americano associado ao perigo de sabotagem – parecia há poucos meses aproximar-se de uma solução, ou pelo menos de uma viragem, com a nova política da administração Obama. O relatório «Um novo Castro, a mesma Cuba» denuncia ainda uma nova vaga de detenção de opositores ao regime, alguns deles em condições horríveis e alvo de tortura. Claro que os responsáveis cubanos e os indefectíveis amigos da ditadura castrista voltarão a acusar a Human Rights Watch – como o têm feito também, por exemplo, com a Amnistia Internacional – de constituir um «grupo mercenário pró-americano». Mas não provam que as alegações da HRW são falsas. Tudo na mesma, portanto. Isto é, pior.

                                    Atualidade, Opinião

                                    Olhemos para eles

                                    walking

                                    Nem sempre concordei com algumas das metas, e sobretudo com muitos dos processos, que dominaram a luta estudantil desde os meados dos anos noventa, após o arranque aparatoso do movimento antipropinas em 1992-1994. Por essa altura, uma parte significativa dos dirigentes associativos empenhou-se numa fuga para a frente, subordinando os seus cadernos reivindicativos à exposição mediática, como se por si só esta legitimasse o seu esforço. Concentrados nos três minutos de fama dos telejornais, eles foram-se progressivamente concentrando numa lógica corporativa, esquecendo a grande maioria de estudantes que não se reviam no «aparelhismo» associativo, e outros sectores universitários, como os professores, geralmente encarados mais como «inimigos de classe» do que como possíveis aliados.

                                    Observámos então actividades e «jornadas de luta» verdadeiramente patéticas, com escassas dezenas de estudantes encabeçados pelos seus «dirigentes» – sistematicamente rodeados dos microfones das rádios e das câmaras das televisões – a fecharem faculdades a cadeado, contra a completa indiferença, e até a animosidade, da larga maioria dos seus colegas, dos professores, dos funcionários e da opinião pública. Estive na época em reuniões horríveis, nas quais,  com muitos outros professores abertos ao diálogo e sensíveis a grande parte das preocupações estudantis, fui tratado como um perigoso adversário, jamais como eventual aliado. Vi ao mesmo tempo como a grande maioria dos alunos, incluindo muitos dos mais participativos, observava com o maior desdém a atitude dos que diziam falar em seu nome. O resultado era já previsível e em breve seria confirmado: o recuo e a desmobilização da prática reivindicativa, a reacção defensiva das instituições universitárias, o desinteresse gradual dos cidadãos comuns e dos próprios média, condenando a luta estudantil ao apagamento.

                                    Vejo pois com interesse e expectativa a vaga de luta estudantil que parece reemergir do silêncio. Preocupada agora, pelo menos aparentemente, com causas que transcendem a dimensão estritamente casuística e corporativa e comportam um impacto social mais geral, como sejam a crítica do sub-financiamento das universidades e a progressiva exclusão dos alunos com menos recursos materiais. De facto, apenas as preocupações e as palavras de ordem que têm em conta os problemas colectivos podem retirar a luta estudantil do gueto para o qual se deixou empurrar, devolvendo-lhe o estatuto de movimento social forte e respeitado. Os estudantes em luta, nas escolas ou na rua, sempre foram um sinal de futuro, de ousadia, de esperança. Mesmo quando as suas razões e modus operandi pareceram, ou foram, discutíveis. Em momentos como o actual, quando a maioria das nossas instituições universitárias se preocupa sobretudo com a sua própria sobrevivência e os governos se habituaram a impor políticas economicistas sem grande resistência das autoridades académicas, a sua iniciativa é crucial. Olhemos então, de novo, para eles.

                                    [Dois posts  de leitura recomendada: um de Hugo Dias e outro de Sandra Monteiro]

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