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Nem assassinos, nem carrascos

paz agora

Qualquer pessoa avisada, justa, e com um sentido da História que ultrapasse o que se pode divisar apenas a dois palmos do nariz, sabe que o fim do conflito no Médio-Oriente e do confronto israelo-palestiniano passará sempre por uma solução de compromisso, com responsabilidades repartidas. A única capaz de criar condições para que um dia se possa chegar ao inevitável: uma Palestina e um Israel reencontrados e democráticos, coabitando e cooperando na construção de um futuro melhor para os seus povos e na defesa de uma paz duradoura para a região. Claro que para se chegar a tal situação está ainda quase tudo por fazer – ao fim de todas estas décadas, é verdade –, a começar pela necessidade absoluta de palestinianos e israelitas serem capazes de afastar das suas lideranças e das suas alianças de circunstância aqueles que, em nome de projectos imperiais ou de fidelidade a um deus superior, tudo fazem para impedir uma solução de aproximação que não se traduza na anulação impiedosa do outro. Será esse o primeiro passo para que se torne possível começar a lamber as feridas e iniciar a via dolorosa do tratamento de ódios tão profundos quanto compreensíveis.

O inqualificável e desnecessário acto de guerra levado a cabo pelas forças armadas de Israel contra os navios que se dirigiam a Gaza – repudiado por quase todo o mundo, se exceptuarmos os sectores da direita sionista, mas que está também a ser ampla e radicalmente contestado por uma boa parte da opinião pública israelita – apenas demonstra, uma vez mais, de que modo a porta que abrirá esse caminho permanece ainda inacessível. A situação só pode piorar, todavia, se se diabolizar um dos lados que se deseja destruído e se se considerar que do outro apenas existem legiões de inocentes. Que uns são os bons e ou outros os maus de um filme medíocre, desgastante e previsível. Que a luta não é, como de facto é – as palavras são de Amoz Oz mas poderiam ter sido de Edward Saïd – «entre quem tem razão e quem tem razão». Os assassinos sionistas e os carrascos islamitas, bem como os seus fiéis aliados de todos os quadrantes, estão bem uns para os outros: só são capazes de conceber uma paz construída sobre cinzas, vingança, morte e opressão. Penalizando severamente, afinal, os povos que declaram representar e defender.

[Rui Tavares publicou hoje um texto de opinião em boa parte no mesmo sentido deste. Ei-lo aqui.]

    Atualidade, Democracia, Opinião

    Por uma nova gramática do bem comum

    Ligações

    A sobrevivência da democracia depende da vitalidade do espaço público. A ideia não é nova, mas o filósofo bilbaíno Daniel Innerarity fez dela o eixo deste ensaio. «Fazer política», diz-nos, «é hoje semelhante ao que fazia aquele indivíduo que de súbito bradava num restaurante “Pssst!” […] em voz tão alta que todos olhavam para ele e cessava o ruído das conversas». O alheamento do cidadão comum em relação aos projectos colectivos, o seu silêncio diante dos que falam em seu nome, ficaria a dever-se sobretudo à confusão instalada entre público e privado, à «privatização do público» e à «politização do privado», que tendem a diminuir o alcance da responsabilidade social e a estimular o individualismo. Neste O Novo Espaço Público expõem-se o cenário e os intérpretes do estado de desresponsabilização em que vivemos, insistindo-se no recuo das preocupações com o público, substituídas por uma valorização excessiva das identidades ou então pelo populismo. Ambos determinados pela «irrealidade dos meios de comunicação» e por uma intensa manipulação da História e da memória colectiva. Mas não se deixa esmagar pelo pessimismo. Fala-nos por isso da construção de uma «cultura pública comum», de uma nova ágora em condições de impor a renovação da experiência política e de impedir que esta se reduza à mera gestão «realista» do presente, trocando a acção colectiva e o debate criador, como já advertira Hannah Arendt, pelos automatismos próprios da produção e do consumo. Seguindo Habermas, Innerarity evoca então a necessidade que as sociedades actuais têm de «um centro virtual da sua autocompreensão», de reflectirem sobre si próprias, para que se não fragmentem ou deixem cair na inércia administrativa. E sugere a construção de uma nova «gramática do bem comum», de uma política, redentora do espaço público, que será principalmente transnacional e cosmopolita. Apresentada como um caminho para salvar e dar substância à democracia. [Daniel Innerarity, O Novo Espaço Público. Trad. de Manuel Ruas. Teorema, 324 págs. Previamente publicado na revista LER.]

      Atualidade, Olhares

      Subitamente em Reiquejavique

      De regresso à Islândia, mas desta vez deixando em paz o vulcão de nome impronunciável. Em Reiquejavique, para além dos partidos tradicionais, o novo Besti Flokkurinn («O Melhor Partido») participou nas recentes eleições autárquicas. Foi criado em 2009 por Jón Gnarr, um dos humoristas mais populares do país, para brincar com a ausência de novidade nas propostas dos outros partidos. Muitas das suas promessas eram propositadamente ridículas: abrir uma filial da Disneylândia na cidade, banir o consumo de drogas no parlamento nacional até 2020, dar toalhas de graça nas piscinas, trazer um urso polar para o zoológico local, erguer portagens para aceder aos bairros dos ricos, colocar sapos no lago do centro da cidade e povoar os parques com esquilos. Só que a votação decorreu neste domingo e… O Melhor Partido ganhou em Reiquejavique. Quase 35%, contra os 33% do velho Partido da Independência, a segunda força mais votada. Jón Gnarr será agora o presidente da câmara da capital do país, chefiando uma coligação com os social-democratas. As expectativas, claro, são altíssimas. E a Europa treme com o exemplo.

      [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=xxBW4mPzv6E[/youtube]

      Serão consideradas abusivas quaisquer conexões que possam ser estabelecidas entre este post e o imediatamente anterior.

        Apontamentos, Atualidade

        Brincando com fósforos

        O partido do carago

        Se acontecesse, digamos, há uma dúzia de anos, não passaria de um episódio curioso, que nos faria encolher os ombros, sorrir um pouco e passar adiante. Mas está a acontecer agora, quando as eleições em Itália ou na Áustria têm mostrado de que forma pode o regionalismo exacerbado servir a fácil promoção de ódios internos e de soluções autoritaristas. Pedro Baptista – um combatente de fôlego das esquerdas por quem tenho uma simpatia antiga, mas que é por vezes pródigo em assomos populistas – fala-nos do Partido do Norte, do qual será um dos fundadores, como «uma força pragmática, sem limitações ideológicas, para a defesa dos interesses da região», capaz por isso de unir numa causa comum pessoas de quadrantes políticos muito diversos. Só que de santo e «inóquo» pragmatismo, de beata descaracterização ideológica, de algum bem-aventurado espírito regionalista, e de uma sagrada união sobre tais fundamentos estabelecida, está cheio o departamento do inferno para onde vai a direita mais primitiva e mais perigosa. Aquela que está sempre a tentar reerguer a cabeça. Eu tomaria todas as precauções para não me aproximar de tais valores e de tal gente.

        [ler também aqui e aqui]

          Atualidade, Opinião

          Será pedir demais?

          Café

          Todos sabemos, ou vamos sabendo à medida que o tempo roda, que a possibilidade de nos deixarmos  surpreender vai sempre diminuindo. A acumulação de experiência faz-nos perder alguma capacidade de maravilhamento – eis o lado triste do processo –, mas prepara-nos também para os momentos difíceis que precisaremos enfrentar. Quando tudo decorre de forma natural, o último deles, o da nossa própria morte, é recebido com serenidade, sem grande espanto ou gestos tempestuosos. Dizem-me que é assim e não estou em condições de duvidar de que assim seja.

          Em algumas situações, porém, a nossa crescente capacidade de encaixe pode vacilar. Eu, por exemplo, não consigo compreender o motivo pelo qual, nos jornais e nos blogues, um certo número da intelligentsia que apoia activamente actual governo – pessoas informadas, com comprovada capacidade crítica, sensibilidade manifesta e inteligência acima da média – se concentram diariamente, e apenas, na defesa de qualquer medida gestionária do executivo, de qualquer gemido ou murmúrio de um seu responsável, e na tentativa de destruição sistemática de qualquer argumento que se lhes oponha minimamente, em vez de aplicarem os seus esforços na construção de uma solução para actual crise que não seja simplesmente ao nível do reflexo condicionado. De outra política, ousada, mobilizadora, que se aplique a combater a doença e não apenas a abordar os sintomas com um paliativo.

          Porque não acordam estas pessoas – de quem se espera sempre algo mais – e deixam a defesa cega da quinta para os quadros partidários ou do governo, em ascensão ou instalados, em geral sem capacidade para pensarem melhor ou irem mais longe, que não concebem outro caminho, e não se concentram na busca, necessariamente positiva e dialogante, de alternativas políticas ousadas e construídas em profundidade? Em vez de se limitarem a silêncios comprometidos ou a reacções indignadas e de casta diante do comentário negativo, da contestação legítima, da desconfiança e do desânimo que se propagam, elas deveriam exercer a sua condição de massa crítica do Partido Socialista para requererem soluções que não sejam apenas, uma vez mais, as centradas no balancete enfadonho da mercearia, na pequenez da legislação estritamente casuística, na resposta pavloviana aos ditames de burocracia bruxelense ou no apelo ao apertar do cinto por parte de quem já o mantém estreitado no derradeiro furo. Não será pedir demais.

            Atualidade, Olhares, Opinião

            Voyeurismo

            O voyeur

            Sobre o caso que empurrou Torre de Dona Chama para as bocas do lado mais ocidental da Península nem tudo foi dito. Não se falou, por exemplo, do mau gosto dos blogues, geridos por pessoas jovens, citadinas, modernas, viajadas, de leituras, tolerantes e até «feministas», que recorreram sem pestanejar ao expediente fácil, de um voyeurismo camuflado, confrangedor e um bocado bimbo, traduzido na ilustração galhofeira dos seus posts sobre o tema com fotografias da professora Bruna em pose erótica retro-kitsch à anos 70. Era mesmo preciso?

              Apontamentos, Atualidade, Fotografia

              Tiananmen em versão não-oficial

              Zhao

              Na China de hoje, Zhao Ziyang é uma pessoa que não existe. Foi primeiro-ministro desde 1980 até 1987, quando o secretário-geral do Partido Comunista era Hu Yaobang, tendo-o substituído no cargo entre 1987 e 1989. Hu e Zhao partilharam, sob a tutela de Deng  Xiaoping, a direcção do processo de liberalização económica, de reforma do Estado e de abertura ao exterior vivida nos anos de transição da era pós-Mao. Mas ambos foram abandonados pelo seu protector quando começaram a considerar a possibilidade de separar o Partido do Estado e de permitir uma maior liberdade de opinião. No caso de Zhao, a queda foi precipitada pela forma como, em Abril e Maio de 1989, lidou com os protestos estudantis da Praça Tiananmen, que a ala mais conservadora, chefiada por Li Peng, entendeu dever ser tratada com punho de ferro. Zhao recusou assumir essa responsabilidade, tendo então sido afastado do poder e colocado sob prisão domiciliária até à morte, ocorrida em 2005. Prisioneiro de Estado apresenta parte substancial de um registo, gravado sob cativeiro em 30 cassetes de baixa qualidade preservadas por terem sido escondidas entre os brinquedos dos netos, no qual aborda a sua versão dos acontecimentos e faz um balanço dos anos na gestão do Estado.

              A sequência escolhida pelos editores – um deles, Bao Pu, é filho do secretário pessoal de Zhao – não é a das gravações, procurando antes atribuir uma ordem temática a declarações que muitas vezes misturavam assuntos. A parte mais intensa é a primeira, na qual se relatam os acontecimentos de Tiananmen e o combate então travado dentro dos órgãos directivos do Partido. Trata-se de um relato diferente do oficial, que penaliza a intervenção do sector conservador mas nem por isso é completo, uma vez que não considera as reivindicações daqueles que realmente fizeram no movimento de rua. Segue-se uma descrição, detalhada, por vezes um pouco enfadonha mas historicamente interessante por constituir também uma versão alternativa da consagrada oficialmente, da luta de Zhao Ziyang para aplicar as reformas políticas e económicas que propunha. Ao longo de todas estas páginas, porém, surge clara a forma como a sua posição jamais beliscou os fundamentos do regime, apenas tendo sido tornada inconveniente devido à inflexibilidade da ala que se opunha ao enfraquecimento da centralidade do Partido e do controlo estatal do sistema produtivo, apenas deixando uma maior margem de manobra para as modificações do mercado.

              «Um olhar íntimo sobre um dos regimes mais compactos do mundo», escreve-se na badana. O principal interesse deste livro é realmente permitir-nos observar, a partir de dentro, a permanente luta de facções, de interesses e de vaidades que se esconde por detrás do aparente monolitismo do Partido e do regime. Nele não está, aliás, incluído o desenvolvimento protagonizado por Zhao nos últimos anos de vida, quando chegou à conclusão de que, para progredir, a China viveria melhor sob um sistema parlamentar capaz de impedir a concentração excessiva do poder e o consequente imobilismo. Afinal, quem fala aqui é ainda o comunista tranquilo e sorridente, o «Gorbatchev chinês» que a História derrotou.

              Publicado na revista LER de Abril

              Prisioneiro de Estado. O Diário Secreto de Zhao Ziyang. Ed. por Bao Pu, Renee Chiang e Adi Ignatius. Trad. de Ana Glória Lucas. Casa das Letras, 364 págs.

                Atualidade, História

                Dança das Cadeiras

                Musical Chairs

                É bastante expressivo o encolher de ombros da opinião pública – perceptível nos blogues, nos jornais ou nas declarações públicas de alguns políticos, para não falar das conversas de café, mais ocupadas com a visita papal ou as escolhas de Carlos Queirós – a propósito da ocupação do nº 10 de Downing Street pela família de David Cameron e da chegada ao poder da coligação entre tories e liberais. Mesmo entre a esquerda que supostamente lhe estaria próxima, não se vislumbra o mais pequeno esgar de contrariedade pela retirada de cena de Brown e do Labour. Um bom indicador de como, neste momento, poucos acreditam em políticas determinadas por projectos claros e distintos, com carácter, nos quais se vota por convicção e mediante expectativas. Tudo se assemelha, cada vez mais, à estrita gestão dos espaços numa infinita dança das cadeiras. Isto é mau, muito mau.

                  Atualidade, Olhares, Opinião

                  O desertor

                  O desertor

                  A divulgação, por parte do cidadão Manuel Alegre de Melo Duarte, dos dados constantes do seu registo militar, tem contornos deploráveis que não podem ser ocultos do exame público. Essa publicitação, feita no site www.manualalegre.com, destina-se a demonstrar que o candidato presidencial «não tem nada a esconder, ao contrário dos cobardes que espalham calúnias a coberto do anonimato e contra os quais não deixará de agir judicialmente» e a provar que «cumpriu o serviço militar, nomeadamente em África e em situações de combate». Mas contém implícito um julgamento da maior gravidade em termos históricos e democráticos: a «acusação» que corre é a de que Alegre terá sido desertor do exército português, variando os boatos apenas ao colocarem o momento da deserção antes da mobilização para África ou já no teatro de guerra angolano. Trata-se de uma questão tornada agora sensível mas que não deveria sê-lo, e é estranho ser um candidato da esquerda, e um resistente ao regime derrotado no 25 de Abril de 1974, a abordá-la desta forma.

                  O número de desertores e de refractários foi sempre muito grande durante a Guerra Colonial, crescendo de forma constante ao longo dos treze anos do conflito, como o revelam os dados divulgados em 1988 pelo próprio Estado-Maior Exército: em 1961 a percentagem de faltosos foi de 11,6%, em 62 subira já para 12,8%, em 1963 atingia os 15,6%, em 1964 subia para 16,5%, entre 1965 e 1968 rondaria os 19%, e entre 70 e 72 andou sempre muito perto dos 21%. Naturalmente, a motivação para «fugir à guerra» ou para abandoná-la a determinado momento, foi sempre diversa. Mas tenha sido ela concretizada por motivos abertamente políticos, por condicionantes de natureza económica ou por actos do domínio da objecção de consciência, tratou-se sempre de uma escolha determinada por uma guerra injusta, como tal legitimadora das mais diversas formas de resistência. De entre elas, a deserção.

                  Para além disso, a chamada «deserção política», aquela da qual Alegre tem sido acusado e da qual se serve periodicamente a direita para tecer insinuações de «cobardia», representou para muitos milhares de jovens um acto de bravura, uma vez que os condenou ao duro exílio, à prisão, ou, por vezes, à clandestinidade. Em qualquer dos casos a uma existência muito difícil, que sabiam ser inevitável em função do seu gesto arriscado e definitivo. Desertar era resistir, tal como, de forma diferenciada mas constante, defendia publicamente a larga maioria da oposição ao Estado Novo, da qual Alegre fez parte e foi importante símbolo. Declarações desta natureza, no mínimo ambíguas, deixam no ar uma desconsideração da coragem de desertar da Guerra Colonial que pode trazer uns quantos votos do eleitorado «viril» mas é pouco digna de um resistente. São inaceitáveis e ofensivas para muitos portugueses vivos ou mortos. E nada têm a ver com o respeito devido à larga maioria daqueles que fizeram a difícil guerra por escolha ou incapacidade para a recusarem.

                  Uma declaração de interesses necessária: fui desertor do exército colonial por razões políticas – forçado a algum tempo de clandestinidade, mas reintegrado nas fileiras em Dezembro de 1974 – e, se não se multiplicarem circunstâncias que me levem a mudar de azimute, conto votar em Manuel Alegre na próxima eleição presidencial.

                  Adenda: um post lateral

                  Publicado também no Vias de Facto

                    Atualidade, História, Opinião

                    Papa Tours

                    Papal Power

                    Considero a visita do papa Ratzinger como a do Dalai Lama: ambos têm todo o direito a fazer turismo religioso, a encontrarem-se com os seus à sombra de uma azinheira, a pregarem a  fé que move as suas vidas e lhes faculta o ganha-pão. O servilismo do Estado é que me dá cabo da paciência, sobretudo quando vejo os responsáveis por uma republica laica, muitos deles declaradamente não-católicos, a persignarem-se e a fazerem a genuflexão com a maior desfaçatez. Fica-lhes bem mostrarem-se corteses para com as visitas, beberem com elas um cálice de Porto, oferecerem-lhes até um CD da Kátia Guerreiro ou do padre Borga. Já lhes fica muito mal mostrarem-se tão servis, exibindo sem pudor essa ausência florentina de convicções que é própria da realpolitik à maneira do século XXI.

                      Apontamentos, Atualidade

                      Esta noite sonhei com Fidel

                      Juventud Rebelde

                      Esta noite sonhei com Fidel. Com um Fidel jovem que me interpelava num passeio e me perguntava simpaticamente se queria tomar com ele o café da manhã. Durante o sonho, a minha reacção foi de surpresa, mas quando acordei achei natural a aparição nocturna, uma vez que a figura do terceiro filho do Senhor Ángel Castro y Argiz, o imigrante galego, permanece, como um espinho, cravada nesse ethos da minha consciência de esquerda que é absolutamente incapaz de separar a ideia de justiça social de uma liberdade sem adjectivos. Por causa desta extravagância pessoal e da sombra deixada pelo sonho nocturno, decidi-me a ler um artigo da revista Books que tinha na pilha das leituras programadas para aquele futuro que jamais se sabe quando chegará. O autor de «La splendide illusion cubaine» é José Manuel Prieto, romancista, ensaísta e professor nascido em La Habana, que publicou em alemão um livro cujo título traduzido enche logo a boca de água: A Revolução Cubana Explicada aos Motoristas de Táxi (atenção, caros editores, a edição original é da Suhrkamp). Prieto é um emigrado – viveu muitos anos no México e ensina actualmente em Nova Iorque – mas não é um gusano cego pela raiva anticastrista. Procura compreender a revolução cubana e o estado a que esta chegou, sem por isso prever um futuro para o regime que não seja o da sua preservação – para além do inevitável desaparecimento físico dos Castros – por ainda uns quantos anos.

                      A sua convicção acerca da possibilidade de manutenção da Cuba «socialista» (as aspas são minhas) depende de dois factores que condicionam uma certa aceitação interna do governo e o ainda razoável prestígio internacional do regime. Um é a conservação da relação conflituosa com a América como a principal razão de ser da independência cubana ao longo de todos estes anos: sem a emanação de uma ideia de enfrentamento corajoso das iniquidades, reais ou fictícias, made in USA, há já muito tempo que Cuba se teria afundado na banalidade da pobreza generalizada (que no contexto actual é apresentada como honrada) e do bloqueio das liberdades (justificado todos os dias por uma necessidade de autodefesa). O outro factor, associado naturalmente ao primeiro, prende-se com a manutenção, devidamente apoiada numa cuidada rede de propaganda mediática de dimensões internacionais, da projecção heróica da saga cubana como um movimento de características insurrectas sem precedentes: «uma ode rebelde contra os adultos» nos anos sessenta, hoje «um país cercado» cuja dignidade não tem preço e legitima as medidas mais extremas. É isto que faz com que um abaixo-assinado há algum tempo promovido por dissidentes e que reuniu dez mil assinaturas tenha, num país com onze milhões de habitantes, sido considerado pelos círculos de oposição como uma «grande vitória». Segundo Prieto, a maioria da população permanece muito sensível à propaganda antiamericana e à retórica da valentia diante do cerco, o que se traduz na aceitação tácita de uma tirania que muitos cubanos ainda olham como uma infeliz necessidade. Mais próxima do pesadelo do que do sonho, mas por enquanto incontornável.

                        Atualidade, Democracia, Opinião

                        Do estado a que isto chegou

                        GAC

                        Fui dos que trautearam, cantarolaram, tamborilaram, os álbuns do GAC (Grupo de Acção Cultural). Em 1975-1976, na época da primitiva edição dos dois primeiros álbuns, com José Mário Branco a adestrar os arranjos – e já como GAC-Vozes na Luta –, a sua música manteve-se como uma excepção de elevada qualidade no que respeitava às harmonias, à escolha das vozes e dos músicos, ao trabalho de estúdio, sobretudo se comparada com uma «canção de intervenção» que quase sempre privilegiava a «mensagem» e a redução jdanovista do gosto do público destinatário ao menor denominador comum. Foi popular, sim, mas sem se tornar populista ou armar-se em popularucha. Os dois últimos álbuns perderam alguma da frescura inicial, mas guardaram ainda boa parte do cuidado com o feitio e com a intenção militante. A reedição em CD da discografia do grupo, que acaba de acontecer, vem comprovar essa originalidade e essa pujança. Significativo também é que as letras – laboriosamente panfletárias e inequivocamente anticapitalistas – pouco envelheceram. O que é um bom indicador do estado a que isto chegou. E de que a cantiga ainda pode ser uma arma.

                          Atualidade, Memória, Música

                          Um olhar participativo

                          Cultura-mundo

                          Ultrapassado o tempo no qual a cultura era observada como um sistema completo e coerente de elucidação do mundo, expirada a época da separação rigorosa entre cultura popular e cultura erudita, entre uma «civilização» das elites e a «barbárie» popular, eis que mergulhámos todos numa terceira fase histórica. A cultura transformou-se agora em mundo, na cultura «do tecnocapitalismo planetário, das indústrias culturais, do consumismo total, dos media e das redes digitais». Em A Cultura-Mundo. Resposta a uma Sociedade Desorientada, Lipovetsky e Serroy observam o fim da busca do sentido último das coisas, das classificações hierarquizadas, substituídas agora pelas redes, pelos fluxos, pelo mercado sem limite ou centro de referência. Todavia, «os novos tempos hipermodernos» não são aqui enfrentados com pessimismo, sendo antes observados como um território de acção e descoberta, num mundo cuja circunferência está em toda a parte e cujo centro não se encontra em lado algum. A infindável abundância de escolhas, de possibilidades de consumo cultural, permitirá assim, a cada sujeito, a produção de um universo de opções, fazendo com que o comércio de influências convenientemente programadas possa, em determinadas circunstâncias, funcionar como um instrumento libertador. A cultura-mundo desenvolve-se agora em campo aberto, podendo «mobilizar a inteligência e a imaginação dos seres humanos» e não congregar apenas o pessimismo e o ódio dos que a observam a partir de pontos de vista que já prescreveram. É preciso participar nela desenvolvendo as suas virtualidades democráticas e emancipatórias, e não ensaiar a tarefa de a destruir na tentativa vã de ficcionar uma regressão no tempo. [Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a uma Sociedade Desorientada. Trad. de Victor Silva. Edições 70, 248 págs.]

                            Atualidade, Cibercultura, Olhares

                            A vida não faz pausa

                            O cravo

                            Relembro os «velhos republicanos» da época em que ainda havia «velhos republicanos». Apareciam frágeis mas aprumados, com os seus dignos cabelos brancos, as medalhas limpas a Solarine e as coroas de flores, e lá rumavam a cada 5 de Outubro até ao lugar onde descansavam os antigos companheiros. Sabíamos todos que eram os sobreviventes de um tempo que se esfumara no tempo. Evocavam um dia distante, perdido algures nas névoas de uma memória em declive, ao qual apenas nos ligavam os laços simbólicos oferecidos pelos manuais escolares ou as colunas de efemérides. Mas nada mais. O «herói da Rotunda» era já uma fotografia desbotada, José Relvas e os seus apenas um grupo de cavalheiros ligeiramente descompostos habitando um filme de cinema mudo.

                            Os portugueses com menos de 50 anos olham agora da mesma forma quase sempre desatenta as imagens a preto e branco da multidão no Largo do Carmo, a tensão no rosto do capitão Maia, a tropa na rua com cravo vermelho na boca da G3. Não pode deixar de ser assim pois aquele foi um tempo, outro tempo, ao qual muitos dos portugueses de agora chegaram apenas pelas evocações televisivas, pelos insípidos livros escolares, os discursos hirtos num Parlamento florido, a narrativa nostálgica de aulas repetitivas. Algumas vezes pela inteligência, mas jamais pela experiência. É assim porque as Revoluções com maiúscula só são Revoluções com maiúscula por não poderem viver-se todos os dias. Para os filhos e os netos de Abril tudo começou a 26 com o conta-quilómetros a zeros, e por isso para poucos deles há um «Sempre!». É assim e não há que ter pena. Há que olhar para o que está para vir e o resto é memória a guardar. Quente para alguns – sou um deles, resistente e militar em Abril se querem saber –, mas para cada vez menos porque a vida não faz pausa.

                            Publicado também no Vias de Facto

                              Atualidade, História, Memória

                              Da vida da luta de classes

                              lutadeclasses

                              Num inquérito sobre cunhas publicado hoje na revista Única do Expresso («Qual a cunha mais descarada que já lhe pediram?»), a socióloga Maria Filomena Mónica revela-nos que foi uma metida «por uma empregada doméstica» que lhe pediu ajuda para conseguir obter um alvará de taxista para o marido («pelos vistos uma preciosidade», desabafa un peu ennuyée). É nestas alturas, e perante impropérios desta magnitude, que torno a duvidar da morte anunciada da luta de classes.

                                Apontamentos, Atualidade, Democracia

                                A rezar, a cantar e a dançar

                                Monsanto

                                Entrei casualmente numa página do Observatório do Algarve, já com alguns meses, que contém uma notícia intitulada «Alte revê-se na “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”». Não sei de que forma a pessoa que falou sobre o documentário ali anunciado abordou o concurso organizado em 1938 pelo Secretariado da Propaganda Nacional do Estado Novo. Admito que o possa ter feito de uma forma correcta e contextualizada. Mas sabendo como grande parte das autarquias trata o seu passado, desconfio sempre de certas evocações locais. Demasiadas vezes, a demanda identitária, a «procura das raízes» que os seus responsáveis tentam levar a cabo, traduz-se na recuperação acrítica e anacrónica de eventos, figuras ou práticas desse passado. Apresentados como fragmentos puros da tradição, ou vectores patrimoniais, mais não são muitas das vezes, embora sob nova roupagem, do que uma forma de revivalismo ou de recuperação de valores que seria suposto a mudança histórica ter deixado para trás.

                                Não se trata aqui de negar uma parte da História – todo o passado merece ser olhado e compreendido – mas, no caso da «Aldeia Mais Portuguesa de Portugal», tem-se de facto assistido, tantos anos depois, ao branqueamento de um episódio marcante na reprodução dos ideais cívicos do Estado Novo. Foi António Ferro, o director do SPN, quem, referindo-se já em 1940 a Monsanto, a aldeia vencedora do concurso – e que por isso arrebatou um simbólico Galo de Prata –, falará da sua «imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa, que não inveja nem quer a riqueza de ninguém, selo da pátria espiritual que fomos e queremos ser». Povoada por um conjunto de almas que «vive contente a rezar, a dançar e a cantar, dando lições de optimismo às cidades fatigadas». Melhor retrato da configuração salazarista do «verdadeiro Portugal» não há.

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