Arquivo de Categorias: Atualidade

Cabo Verde e a beleza das mulheres

A grande visibilidade que o Mundial de futebol está a dar a Cabo Verde tem trazido consigo, sobretudo nas redes sociais, apreciações simpáticas, aliás merecidas, sobre aspetos vários da sua realidade. Muitos deles, recorrentes, têm enfatizado «a beleza das mulheres caboverdianas», que é agora possível encontrar em abundância nas reportagens da televisão e na Internet. Não só concordo subjetivamente com a apreciação, como a estendo aos homens, pois grande número de naturais de Cabo Verde ou da sua diáspora, têm realmente, sob o meu olhar, uma beleza invulgar. Talvez advinda do processo de mestiçagem do qual resultam desde o povoamento inicial das ilhas, a partir de 1462, por portugueses e depois por pessoas escravizadas vindas de África.

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    O grande equívoco «social-democrata»

    A história ajuda-nos a entender o presente de uma forma mais completa. Pode, por isso, servir para dissipar o equívoco que entre nós persiste há décadas a propósito da designação do Partido Social-Democrata. Sem diluir o logro histórico em que ele assenta, é difícil compreender a essência política do partido, bem como as escolhas que adota e as expetativas que projeta no eleitorado. Vamos então viajar no tempo, até à origem e à gradual identificação da social-democracia como a ideologia que orienta a atividade de muitos partidos e movimentos que integram uma influente corrente do panorama político contemporâneo. 

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      Atualidade, Democracia, História, Opinião

      Usar a historicidade para não falsificar o passado

      A «historicidade» inscreve factos, pessoas ou ideias do passado no tempo, no lugar e no contexto aos quais pertenceram. O seu uso é essencial para compreender a história de forma ajustada e mais completa, já que, quando pensamos qualquer passado fora das suas circunstâncias e apenas com o olhar do presente, a perspetiva resulta sempre distorcida ou falsificada. Surge então o anacronismo (do grego ἀνά χρόνος, aná chrónos, «contra o tempo»), essa falha cronológica que atribui a dada época factos e sentidos que pertenceram a outra, ou que são explicados a partir de prismas desajustados, deturpando tanto o passado que se pretende ler quanto o lado do presente que o interpela.

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        Fanáticos do futebol & lunáticos antifutebol

        Sempre que chega uma grande competição do futebol ao nível de seleções, lá emerge nas redes sociais a obsessão de quem papa tudo e, a par dela, a lengalenga de quem precisa odiar alguma coisa. Aviso à navegação: eu gosto muito de futebol, já joguei futebol e sei, como o meu mestre Camus, que o futebol é um dos melhores lugares públicos da confraternização humana, dando até sentido à vida de milhões de pessoas.

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          Escrever pouco, entender menos

          Neste tempo de recuo dos saberes estruturantes, substituídos por «competências» tantas vezes sem substância, um dos sinais que denuncia essa tendência negativa consiste em escrever-se de forma cada vez mais simplificada. Não falo das mudanças da língua, que não representam um mal em si, mas da simplificação dos processos de escrita. Cada vez mais, sobretudo nas redes sociais, mas já também em jornais, existe quem escreva textos de tamanho razoável usando apenas parágrafos de três ou quatro linhas, por vezes nem isso, não por incapacidade para o fazer de forma completa, mas apenas, como crê, para ser entendido.

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            Quatro polémicas que evito e o seu porquê

            Em largas décadas a escrever de forma pública, perdi a conta aos temas que abordei e às polémicas em que participei. Existem, porém, entre estas, quatro que desde há algum tempo me esforço por evitar. A primeira, associada às mais antigas preocupações humanas, é sobre afirmar ou contrariar a existência de Deus. A segunda, incontornável para quem trabalha com a língua, gira em torno do uso do Acordo Ortográfico, que aliás sigo. A terceira, supostamente trivial, mas que envolve paixões desgovernadas, respeita à desrazão do clubismo futebolístico. Por fim, a quarta polémica envolve a afirmação ou a rejeição, categórica e imposta aos outros, de rígidos princípios de moral. 

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              Totalitarismo: incerteza e atualidade de uma ideia 

              Com quase 80 anos de uso no vocabulário político, a palavra «totalitarismo» contém várias interpretações, nem sempre pacíficas. Mas as tendências antidemocráticas de hoje podem ser lidas através dela.

              O conceito de «totalitarismo» é usado com regularidade em artigos de opinião, notícias e reportagens, bem como em domínios como a história, a ciência política, os estudos culturais e artísticos ou a filosofia. O seu emprego amplo e persistente liga-o a interpretações úteis em análises, mas pode tornar-se discutível ou abusivo quando valida logros, deturpações e escolhas antidemocráticas. Acontece desde que o termo emergiu como categoria explicativa, mas ganhou novo destaque nos últimos anos, quando a recomposição da ordem global, o retrocesso do multilateralismo e a voga do populismo tornaram ambíguas ou insuficientes escolhas políticas antes inequívocas. 

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                Olga Tokarczuk e a IA

                No início deste mês, Olga Tokarczuk fez umas afirmações a meu ver inteiramente legítimas e de interesse. Ela descreveu a um jornal de que modo, na preparação de um romance, usou recursos de inteligência artificial para a informarem sobre que tipo de música os seus personagens poderiam, num dado contexto temporal e social, servir-se para dançar. Além disso, declarou ter ficado muito impressionada com os resultados e questionou-se sobre a forma como a ferramenta pode ser usada como auxiliar do processo de criação literária. Foi o que bastou para que uns quantos fanáticos anti-IA – que dela só conhecem os óbvios aspetos negativos, não sabendo, nem querendo saber, dos positivos – começassem a propagar que a grande escritora polaca e prémio Nobel usava aquele processo para escrever os seus romances. A afirmação é, obviamente, absurda, bastando conhecer a sua escrita única para o compreender, mas encarar o tema é muitíssimo pertinente.

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                  A democracia em nossa casa

                  É uma tristeza, e também uma prova de sectarismo ou mesmo de medo, andar pelas redes sociais – que, a par dos muitos perigos e desvarios que comportam, podem também ser lugar de criativo debate democrático – e apenas divulgar convicções e propostas que replicam exatamente as posições formais de grupos políticos aos quais pertence quem o faz. Sem qualquer abertura a ideias e a sugestões que destas divergem um pouco, embora com elas procurem ou possam dialogar. A democracia deve começar em nossa casa, e, além disso, tende a enfraquecer, ou mesmo a morrer, quando se fecham os olhos à menor diferença. Para mim, a abertura e o diálogo são essenciais para combater com firmeza e convicção, seja de forma organizada ou individual, por uma vida melhor, mais plena e mais livre.

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                    Futebolices bem lamentáveis

                    Aviso prévio: gosto muito de futebol, joguei futebol de forma amadora e sou dos que, quando o meu clube, o Sporting CP, ganha na modalidade um jogo ou uma prova importante, dorme muito melhor e acorda mais bem disposto, acontecendo o oposto nas derrotas. Apesar de reconhecer tudo o que de muito mau envolve este desporto: demasiadas vezes negócios obscuros, informação deturpada, claques perigosas e adeptos fanáticos e de maus-fígados. Mas não considero o futebol, parafraseando a conhecida frase de Marx sobre a religião, «o ópio do povo». Sei até, bem diversamente, que para muitos ele acaba por integrar um dos poucos alimentos espirituais da sua vida, proporcionando conforto, paixão e companheirismo. Aliás, Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, considerava-o uma escola de vontade e de fraternidade. Lembro muito que as últimas palavras, horas antes de morrer, a mim dirigidas por pessoa muito próxima, foram para pedir um cigarro e saber o resultado do jogo do seu clube, por acaso rival do meu.

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                      Entre a praga do «soundbite» e a arte do aforismo

                      Vivemos asfixiados pelo ruído do «soundbite». O curto fragmento de uma frase ou ideia maior, pautado pela concisão e pelo registo de fácil e imediato impacto. Prática comum na comunicação social norte-americana dos anos 70, espalhou-se depois globalmente, tornando-se um fator cada vez mais percetível e relevante da publicidade e da propaganda política. Na presente conjuntura de excesso de informação e de redução do peso da argumentação sustentada e complexa, associada a uma crescente passividade do pensamento e à dificuldade de concentração de muitas pessoas, o «soundbite» funciona, com a ajuda de televisão, jornais e redes, como poderoso fator de manipulação.

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                        A Artemis II e o negacionismo

                        Já começaram a circular, sobretudo no turbilhão das redes sociais, mas não apenas aí, as estúpidas proclamações, em todas as línguas e no português também, «atestando» a dimensão de fraude e de invenção do voo espacial da Artemis II, teste para a alunagem da Artemis IV em 2028. Sabe-se que esta forma de obscurantismo circula desde a primeira viagem à Lua, a da Apolo 11, ocorrida em 20 de julho de 1969. Assisti a ela em direto, pela televisão a preto e branco e noite adentro, com espanto e emoção inesquecíveis. Porém, a atual vaga negacionista não resulta apenas da perplexidade de uma porção de ignorantes, como na época, sendo parte de uma convencida desconsideração global do conhecimento por parte dos setores da direita populista que neste processo de teor conspirativo procuram afirmar o seu poder obscurantista e escravizante.

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                          A Hungria, a Europa e os abutres

                          Independentemente do facto de Péter Magyar ser um político conotado com o centro-direita, este foi eleito com o apoio expresso da maior parte da esquerda húngara, que optou por não concorrer para não dispersar votos. Muito de complexo, instável e contraditório virá agora, sem dúvida, mas o triunfo esmagador do seu partido, para mais em eleições invulgarmente participadas, foi uma importante vitória da democracia, do projeto europeu e do apoio internacional à Ucrânia invadida e martirizada. Contra Putin, Trump e a generalidade da extrema-direita europeia, incluindo-se nesta a infelizmente nossa. Ver milhares de pessoas a dar vivas à liberdade e a cantar nas ruas de Budapeste o hino resistente Bella Ciao, não deixa de ser um sinal comovedor e bem positivo.

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                            A vida coletiva entre o ódio e a moderação 

                            De sentido oposto, «ódio» e «moderação» são palavras que têm sobressaído no discurso público em artigos de opinião, rodapés dos telejornais, manifestos partidários ou estudos de teoria política. O ódio emergiu mais cedo neste panorama, como termo rude que associamos a sentimentos extremos de cólera e repulsa, expressos através de propostas irracionais, violentas e antidemocráticas, tendentes a excluir indivíduos ou grupos, combatendo sem tréguas quem não é, não vive e não pensa como quem o exprime. Teve forte expressão nas primeiras décadas do século XX, esses «tempos sombrios», como Hannah Arendt os designou, em que emergiram os totalitarismos assassinos e genocidas, mas foi controlado no pós-Segunda Guerra Mundial, regressando em força há apenas uma vintena de anos, e não parando, entretanto, de crescer.

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                              À esquerda: somar e protestar não basta

                              A recuperação da esquerda à esquerda do PS – imprescindível para o equilíbrio político e social, bem como para a dinamização da utopia – não pode ser obtida só pela soma de partes, estabelecendo alianças basicamente fundadas em ideias vagas sobre uma memória histórica em parte partilhada e também sobre formas práticas de reivindicação e protesto. Apenas a pode conseguir repensando metas, atitudes, causas, alianças e linguagens, e sobretudo definindo estratégias adequadas para uma futura governação progressista e sustentada num mundo em rápida mudança. De outro modo permanecerá confinada ao seu modesto rincão, enquanto é encarada como irrelevante pela larga maioria dos cidadãos e também pelos possíveis parceiros nesse processo. A extrema-direita, essa agradece.
                              [Originalmente no Facebook]

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                                O político histriónico, veneno da democracia 

                                Na antiga Roma, histrionis começou por ser todo o ator que representava farsas, mas cedo passou a designar um tipo próprio, caraterizado por exibir em cena um excesso de palavras, de timbres e de gestos que diferenciava a sua personagem das demais. Aplicada a este tipo de comediante, o sentido da palavra «histrião» manteve-se até hoje, embora com cambiantes segundo o momento histórico e o lugar. No período medieval, por exemplo, referia o artista itinerante, ou o jogral, que se apresentava, geralmente com estrépito, em cortes, praças e adros. Divertindo, cativando ou atemorizando, não raras vezes ao expressar pela sátira desgostos e dúvidas partilhados com a assistência.

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                                  Quatro anos de guerra e a democracia na Europa

                                  Há quatro anos, na noite em que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, um conhecido major-general português, que se intitula especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais, mas é essencialmente um descarado propagandista de Putin, declarou perentoriamente na televisão, onde continua a perorar com regularidade, que o conflito estaria concluído, com a vitória russa, «no máximo numa semana». Neste momento, a perspetiva é que ele continue ainda por um tempo largo e indefinido, com o seu terrível rol de destruição maciça de cidades, vilas e aldeias, e a morte de centenas de milhares de civis, sobretudo de militares, sejam estes ucranianos ou russos. 

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                                    O drama de Cuba, o protesto e o silêncio

                                    Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.

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