Arquivo de Categorias: Atualidade

À esquerda: somar e protestar não basta

A recuperação da esquerda à esquerda do PS – imprescindível para o equilíbrio político e social, bem como para a dinamização da utopia – não pode ser obtida só pela soma de partes, estabelecendo alianças basicamente fundadas em ideias vagas sobre uma memória histórica em parte partilhada e também sobre formas práticas de reivindicação e protesto. Apenas a pode conseguir repensando metas, atitudes, causas, alianças e linguagens, e sobretudo definindo estratégias adequadas para uma futura governação progressista e sustentada num mundo em rápida mudança. De outro modo permanecerá confinada ao seu modesto rincão, enquanto é encarada como irrelevante pela larga maioria dos cidadãos e também pelos possíveis parceiros nesse processo. A extrema-direita, essa agradece.
[Originalmente no Facebook]

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    O político histriónico, veneno da democracia 

    Na antiga Roma, histrionis começou por ser todo o ator que representava farsas, mas cedo passou a designar um tipo próprio, caraterizado por exibir em cena um excesso de palavras, de timbres e de gestos que diferenciava a sua personagem das demais. Aplicada a este tipo de comediante, o sentido da palavra «histrião» manteve-se até hoje, embora com cambiantes segundo o momento histórico e o lugar. No período medieval, por exemplo, referia o artista itinerante, ou o jogral, que se apresentava, geralmente com estrépito, em cortes, praças e adros. Divertindo, cativando ou atemorizando, não raras vezes ao expressar pela sátira desgostos e dúvidas partilhados com a assistência.

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      Quatro anos de guerra e a democracia na Europa

      Há quatro anos, na noite em que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, um conhecido major-general português, que se intitula especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais, mas é essencialmente um descarado propagandista de Putin, declarou perentoriamente na televisão, onde continua a perorar com regularidade, que o conflito estaria concluído, com a vitória russa, «no máximo numa semana». Neste momento, a perspetiva é que ele continue ainda por um tempo largo e indefinido, com o seu terrível rol de destruição maciça de cidades, vilas e aldeias, e a morte de centenas de milhares de civis, sobretudo de militares, sejam estes ucranianos ou russos. 

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        O drama de Cuba, o protesto e o silêncio

        Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.

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          Dificuldades de perspetiva à esquerda

          De forma bem mais clara do que a adotada pelos setores do centro-direita que, por genuína defesa da democracia, ou por temerem o caos político e social que a vitória de Ventura traria, em Portugal escolheram apoiar abertamente o socialista moderado António José Seguro, alguns setores situados à esquerda do PS já estão a vincar que nele votaram forçados e, como insistem em declarar a todo o instante, «sem ilusões». Algumas pessoas desse espaço foram mesmo mais longe, tendo preferido abster-se ou votar em branco, escolha que verbalizaram antes ainda de domingo passado, embora se tenha tratado de uma ínfima minoria, dado a generalidade dos partidos de esquerda ter declarado apoio ao que a partir de 9 de março será o novo Presidente da República.

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            Viver com «pegada digital» ou não existir

            Chama-se «pegada digital», ou «eletrónica», ao rasto de dados que deixamos para trás ao usar a Internet. Ela pode ser passiva, composta sobretudo por páginas que visitamos, mails que enviamos e alusões que por ali nos são feitas, ou então ativa, incluindo textos e imagens que produzimos e deixamos em «sites», caixas de comentários e redes sociais. Esta «pegada» pode ser usada com objetivos muito diversos, seja para rastrear a atividade de alguém ou para assinalar a sua presença física e virtual. E por muito que isso possa ser lastimável, quem hoje a não possua pode ver bastante reduzida, ou até apagada, a perceção da sua atividade e até a sua existência pessoal, ainda que estas sejam notáveis.

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              De social-democracia pouco, quase nada, nada

              Quando nas aulas de história contemporânea lhes procurava explicar o sistema partidário português, uma das dificuldades que tinha com os meus alunos estrangeiros, principalmente europeus, que se mostravam interessados no tema, passava por anular junto deles um compreensível e recorrente equívoco. Consistia ele em associarem o Partido Social-Democrata à social-democracia, julgando-o à medida do que conheciam dos partidos análogos dos seus países.

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                Ponto da situação

                Chegámos a um ponto, aqui no retângulo e ilhas, em que a oposição entre entre tranquilidade e fúria, consenso e polarização, ponderação e imprudência, decência e desonestidade, tolerância e ódio, diálogo e gritaria, civilidade e crime, se sobrepõe a todas as outras, determinando as nossas escolhas bem mais do que as diferenças complexas e naturais com as quais nos habituámos a conviver ao longo de décadas.

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                  O perigo da irredutibilidade

                  Continuo a ver, sobretudo nas redes sociais, uma posição de recusa de um apoio à vitória na segunda volta de António José Seguro chegado de pessoas que formalmente se consideram de esquerda. Ela advém, por um lado, do facto de sobrevalorizarem o que de menos positivo para as suas opções contém a candidatura de Seguro, desvalorizando até a sua dimensão inquestionavelmente democrática e a favor da Constituição de Abril. Mas vem também, e até principalmente, de ela ter agora, à última hora, o apoio de muitas personalidades da direita, algumas efetivamente detestáveis, mas que se demarcam do caos e da violência associados à extrema-direita.

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                    Contra a desmobilização e a teimosia

                    Na segunda volta das presidenciais a democracia enfrenta, para além do candidato da extrema-direita, duas posições igualmente perigosas. A primeira é a de quem, perante as sondagens favoráveis a Seguro, considera que não vale a pena votar, pois a eleição «está ganha». Não só pode não estar, como será de grande importância que Ventura não ultrapasse os 30%, se possível menos. De outra forma terá no resultado um balão de oxigénio e, como hoje lembra David Pontes, diretor do Público, passará a liderar de facto a direita, preparando o assalto final ao poder. A segunda posição perigosa, que já começa a escutar-se, é a de setores da esquerda teimosa para quem o apoio a Seguro de pessoas conservadoras e/ou de direita faz com que elas decidam não votar na democracia. Uma cegueira ciclicamente retomada por quem não aprende com a história e até com os próprios erros.

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                      Corredores, Antecâmaras e WhatsApp

                      Quem realmente tem um conhecimento razoável e alargado da história – não apenas aquele que se cinge aos momentos mais sonantes, às batalhas, aos tratados, às decisões de conselhos e assembleias – sabe que a maior parte dos avanços, sejam os do trajeto da humanidade ou os da vida das instituições, mesmo das mais democráticas, são preparados ou condicionados em encontros de corredor, em reuniões de antecâmara, em telefonemas noturnos, quiçá em bilhetinhos ou, de hoje em dia, mensagens de mail e WhatsApp. Sem estes momentos e vias informais, que não são a céu aberto e o cidadão comum jamais conhecerá, o conflito seria a norma e provavelmente viveríamos no caos.

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                        Um combate urgente pela decência e pela democracia

                        Vivemos um confronto de amplitude e intensidade sem precedentes nas cinco décadas da nossa Terceira República. Ele não se limita à expressão verbal e nas urnas das diferenças políticas, natural e necessária em democracia, mas liga-se sobretudo a uma tentativa de subversão do regime e das formas mais essenciais do convívio social. Esta traduz-se na atividade antidemocrática de um setor que visa alcançar o poder e instalar uma ordem autoritária, servindo-se para o efeito de mecanismos e processos oferecidos pela própria democracia. Tem um rosto visível, o do Chega e do seu líder, mas integra também grupos, alguns de natureza criminosa, que aceitam ou levam ainda mais longe os seus objetivos e a sua retórica incendiária.

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                          Presidenciais: agora é centro-esquerda

                          Algumas notas muitíssimo breves e rápidas sobre a primeira volta das presidenciais, originalmente deixadas no meu mural do Facebook.

                          •⁠ ⁠Os resultados finais só podem surpreender quem andasse bastante distraído (incluindo, talvez, as próprias empresas de sondagens). Nenhum dos resultados, nem mesmo o paupérrimo do Marques Mendes ou o do bufão Vieira, determinou o inesperado;

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                            De novo o papel do voto útil

                            Em democracia, a valorização positiva ou negativa do «voto útil» depende sempre, passe a forçada redundância, da utilidade política que ele serve e materializa. Este modo de votar no que se pode considerar um mal menor não é intrinsecamente «bom» ou «mau», mas é vantajoso ou não, de acordo com as circunstâncias. Em eleições legislativas ele quase sempre possui mais de negativo, uma vez que tende a esvaziar a pluralidade das propostas, acentuando a distância entre os grandes partidos, os do poder, e aqueles que fundamentalmente atuam como contrapoder, contribuindo para silenciar as perspetivas que se assumem como alternativas às que são momentaneamente dominantes. 

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                              Inacreditável ou talvez não

                              A revolta popular, em especial aquela que está a acontecer nas grandes cidades, e a repressão do regime dos aiatolás, estão a acentuar-se no Irão, com a ditadura religiosa a usar a força bruta para sobreviver, usando balas reais e fazendo prisões em massa. Ontem deixei no meu mural do Facebook um pequeno apontamento chamando a atenção para o que de poderoso e dramático neste capítulo ali está a ocorrer. Como se tratou de um post aberto a comentários, recebi um de uma pessoa que não consigo perceber como era minha «amiga» – já o não é, felizmente -, pois sempre pondero com o cuidado possível os pedidos feitos nesse sentido.

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                                O perigoso desaparecimento do «assunto menor»

                                No meio da avalanche imensa que é hoje a sucessão de informação noticiosa e a abundância da opinião, vemo-nos cada vez mais empurrados, queiramos ou não, para temas considerados urgentes ou prioritários. Estes são logo substituídos – por vezes, bastam dois dias para que aconteça – por outros de igual forma julgados urgentes e prioritários, fazendo os mais recentes destaques com que os anteriores sejam logo abandonados. E fazendo também, num processo contínuo, com que determinados assuntos se tornem irrelevantes, salvo para nichos de audiência, acabando por ser confinados à irrelevância da memória ou ao silêncio.

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                                  Completa-se o 65º aniversário da morte trágica de Albert Camus. O escritor, filósofo e jornalista morreu numa estrada secundária perto de Villeblevin, na Borgonha, ao início da tarde de 4 de janeiro de 1960. Regressava de umas curtas férias no Facel Vega do seu editor, Michel Gallimard, de quem aceitara a boleia, apesar de detestar andar de automóvel e de ter já no bolso um bilhete de comboio para Paris. Apenas com 46 anos, possuía uma obra de projeção internacional, que continuou, e assim permanece, a suscitar atenção e aplauso, mas também polémica e incompreensão. Sobretudo porque tudo o que escreveu – romances, contos e peças de teatro, ensaios e crónicas, diários, cartas e discursos – conserva uma carga política de elevada intensidade.

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                                    As estratégias da demagogia

                                    As estratégias da demagogia têm por objetivo instigar, provocar e mobilizar a emoção do público, evitando estimular o seu raciocínio. O uso de apelos à paixão, em detrimento da razão, pode ser identificado em dois processos: a hipérbole e a simplificação. A hipérbole sobrevaloriza uma dada situação, atribuindo-lhe características de uma gravidade extrema (ou então euforicamente positiva). Já a simplificação reduz uma situação complexa a um único fator causal, apresentado como a única explicação que se afirma fazer sentido e como a única solução apresentada como possível. Ambas são instrumentos de logro e de servidão.

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