Arquivo de Categorias: Atualidade

Entre a praga do «soundbite» e a arte do aforismo

Vivemos asfixiados pelo ruído do «soundbite». O curto fragmento de uma frase ou ideia maior, pautado pela concisão e pelo registo de fácil e imediato impacto. Prática comum na comunicação social norte-americana dos anos 70, espalhou-se depois globalmente, tornando-se um fator cada vez mais percetível e relevante da publicidade e da propaganda política. Na presente conjuntura de excesso de informação e de redução do peso da argumentação sustentada e complexa, associada a uma crescente passividade do pensamento e à dificuldade de concentração de muitas pessoas, o «soundbite» funciona, com a ajuda de televisão, jornais e redes, como poderoso fator de manipulação.

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    A Artemis II e o negacionismo

    Já começaram a circular, sobretudo no turbilhão das redes sociais, mas não apenas aí, as estúpidas proclamações, em todas as línguas e no português também, «atestando» a dimensão de fraude e de invenção do voo espacial da Artemis II, teste para a alunagem da Artemis IV em 2028. Sabe-se que esta forma de obscurantismo circula desde a primeira viagem à Lua, a da Apolo 11, ocorrida em 20 de julho de 1969. Assisti a ela em direto, pela televisão a preto e branco e noite adentro, com espanto e emoção inesquecíveis. Porém, a atual vaga negacionista não resulta apenas da perplexidade de uma porção de ignorantes, como na época, sendo parte de uma convencida desconsideração global do conhecimento por parte dos setores da direita populista que neste processo de teor conspirativo procuram afirmar o seu poder obscurantista e escravizante.

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      A Hungria, a Europa e os abutres

      Independentemente do facto de Péter Magyar ser um político conotado com o centro-direita, este foi eleito com o apoio expresso da maior parte da esquerda húngara, que optou por não concorrer para não dispersar votos. Muito de complexo, instável e contraditório virá agora, sem dúvida, mas o triunfo esmagador do seu partido, para mais em eleições invulgarmente participadas, foi uma importante vitória da democracia, do projeto europeu e do apoio internacional à Ucrânia invadida e martirizada. Contra Putin, Trump e a generalidade da extrema-direita europeia, incluindo-se nesta a infelizmente nossa. Ver milhares de pessoas a dar vivas à liberdade e a cantar nas ruas de Budapeste o hino resistente Bella Ciao, não deixa de ser um sinal comovedor e bem positivo.

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        A vida coletiva entre o ódio e a moderação 

        De sentido oposto, «ódio» e «moderação» são palavras que têm sobressaído no discurso público em artigos de opinião, rodapés dos telejornais, manifestos partidários ou estudos de teoria política. O ódio emergiu mais cedo neste panorama, como termo rude que associamos a sentimentos extremos de cólera e repulsa, expressos através de propostas irracionais, violentas e antidemocráticas, tendentes a excluir indivíduos ou grupos, combatendo sem tréguas quem não é, não vive e não pensa como quem o exprime. Teve forte expressão nas primeiras décadas do século XX, esses «tempos sombrios», como Hannah Arendt os designou, em que emergiram os totalitarismos assassinos e genocidas, mas foi controlado no pós-Segunda Guerra Mundial, regressando em força há apenas uma vintena de anos, e não parando, entretanto, de crescer.

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          À esquerda: somar e protestar não basta

          A recuperação da esquerda à esquerda do PS – imprescindível para o equilíbrio político e social, bem como para a dinamização da utopia – não pode ser obtida só pela soma de partes, estabelecendo alianças basicamente fundadas em ideias vagas sobre uma memória histórica em parte partilhada e também sobre formas práticas de reivindicação e protesto. Apenas a pode conseguir repensando metas, atitudes, causas, alianças e linguagens, e sobretudo definindo estratégias adequadas para uma futura governação progressista e sustentada num mundo em rápida mudança. De outro modo permanecerá confinada ao seu modesto rincão, enquanto é encarada como irrelevante pela larga maioria dos cidadãos e também pelos possíveis parceiros nesse processo. A extrema-direita, essa agradece.
          [Originalmente no Facebook]

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            O político histriónico, veneno da democracia 

            Na antiga Roma, histrionis começou por ser todo o ator que representava farsas, mas cedo passou a designar um tipo próprio, caraterizado por exibir em cena um excesso de palavras, de timbres e de gestos que diferenciava a sua personagem das demais. Aplicada a este tipo de comediante, o sentido da palavra «histrião» manteve-se até hoje, embora com cambiantes segundo o momento histórico e o lugar. No período medieval, por exemplo, referia o artista itinerante, ou o jogral, que se apresentava, geralmente com estrépito, em cortes, praças e adros. Divertindo, cativando ou atemorizando, não raras vezes ao expressar pela sátira desgostos e dúvidas partilhados com a assistência.

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              Quatro anos de guerra e a democracia na Europa

              Há quatro anos, na noite em que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, um conhecido major-general português, que se intitula especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais, mas é essencialmente um descarado propagandista de Putin, declarou perentoriamente na televisão, onde continua a perorar com regularidade, que o conflito estaria concluído, com a vitória russa, «no máximo numa semana». Neste momento, a perspetiva é que ele continue ainda por um tempo largo e indefinido, com o seu terrível rol de destruição maciça de cidades, vilas e aldeias, e a morte de centenas de milhares de civis, sobretudo de militares, sejam estes ucranianos ou russos. 

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                O drama de Cuba, o protesto e o silêncio

                Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.

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                  Dificuldades de perspetiva à esquerda

                  De forma bem mais clara do que a adotada pelos setores do centro-direita que, por genuína defesa da democracia, ou por temerem o caos político e social que a vitória de Ventura traria, em Portugal escolheram apoiar abertamente o socialista moderado António José Seguro, alguns setores situados à esquerda do PS já estão a vincar que nele votaram forçados e, como insistem em declarar a todo o instante, «sem ilusões». Algumas pessoas desse espaço foram mesmo mais longe, tendo preferido abster-se ou votar em branco, escolha que verbalizaram antes ainda de domingo passado, embora se tenha tratado de uma ínfima minoria, dado a generalidade dos partidos de esquerda ter declarado apoio ao que a partir de 9 de março será o novo Presidente da República.

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                    Viver com «pegada digital» ou não existir

                    Chama-se «pegada digital», ou «eletrónica», ao rasto de dados que deixamos para trás ao usar a Internet. Ela pode ser passiva, composta sobretudo por páginas que visitamos, mails que enviamos e alusões que por ali nos são feitas, ou então ativa, incluindo textos e imagens que produzimos e deixamos em «sites», caixas de comentários e redes sociais. Esta «pegada» pode ser usada com objetivos muito diversos, seja para rastrear a atividade de alguém ou para assinalar a sua presença física e virtual. E por muito que isso possa ser lastimável, quem hoje a não possua pode ver bastante reduzida, ou até apagada, a perceção da sua atividade e até a sua existência pessoal, ainda que estas sejam notáveis.

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                      De social-democracia pouco, quase nada, nada

                      Quando nas aulas de história contemporânea lhes procurava explicar o sistema partidário português, uma das dificuldades que tinha com os meus alunos estrangeiros, principalmente europeus, que se mostravam interessados no tema, passava por anular junto deles um compreensível e recorrente equívoco. Consistia ele em associarem o Partido Social-Democrata à social-democracia, julgando-o à medida do que conheciam dos partidos análogos dos seus países.

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                        Ponto da situação

                        Chegámos a um ponto, aqui no retângulo e ilhas, em que a oposição entre entre tranquilidade e fúria, consenso e polarização, ponderação e imprudência, decência e desonestidade, tolerância e ódio, diálogo e gritaria, civilidade e crime, se sobrepõe a todas as outras, determinando as nossas escolhas bem mais do que as diferenças complexas e naturais com as quais nos habituámos a conviver ao longo de décadas.

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                          O perigo da irredutibilidade

                          Continuo a ver, sobretudo nas redes sociais, uma posição de recusa de um apoio à vitória na segunda volta de António José Seguro chegado de pessoas que formalmente se consideram de esquerda. Ela advém, por um lado, do facto de sobrevalorizarem o que de menos positivo para as suas opções contém a candidatura de Seguro, desvalorizando até a sua dimensão inquestionavelmente democrática e a favor da Constituição de Abril. Mas vem também, e até principalmente, de ela ter agora, à última hora, o apoio de muitas personalidades da direita, algumas efetivamente detestáveis, mas que se demarcam do caos e da violência associados à extrema-direita.

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                            Contra a desmobilização e a teimosia

                            Na segunda volta das presidenciais a democracia enfrenta, para além do candidato da extrema-direita, duas posições igualmente perigosas. A primeira é a de quem, perante as sondagens favoráveis a Seguro, considera que não vale a pena votar, pois a eleição «está ganha». Não só pode não estar, como será de grande importância que Ventura não ultrapasse os 30%, se possível menos. De outra forma terá no resultado um balão de oxigénio e, como hoje lembra David Pontes, diretor do Público, passará a liderar de facto a direita, preparando o assalto final ao poder. A segunda posição perigosa, que já começa a escutar-se, é a de setores da esquerda teimosa para quem o apoio a Seguro de pessoas conservadoras e/ou de direita faz com que elas decidam não votar na democracia. Uma cegueira ciclicamente retomada por quem não aprende com a história e até com os próprios erros.

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                              Corredores, Antecâmaras e WhatsApp

                              Quem realmente tem um conhecimento razoável e alargado da história – não apenas aquele que se cinge aos momentos mais sonantes, às batalhas, aos tratados, às decisões de conselhos e assembleias – sabe que a maior parte dos avanços, sejam os do trajeto da humanidade ou os da vida das instituições, mesmo das mais democráticas, são preparados ou condicionados em encontros de corredor, em reuniões de antecâmara, em telefonemas noturnos, quiçá em bilhetinhos ou, de hoje em dia, mensagens de mail e WhatsApp. Sem estes momentos e vias informais, que não são a céu aberto e o cidadão comum jamais conhecerá, o conflito seria a norma e provavelmente viveríamos no caos.

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                                Um combate urgente pela decência e pela democracia

                                Vivemos um confronto de amplitude e intensidade sem precedentes nas cinco décadas da nossa Terceira República. Ele não se limita à expressão verbal e nas urnas das diferenças políticas, natural e necessária em democracia, mas liga-se sobretudo a uma tentativa de subversão do regime e das formas mais essenciais do convívio social. Esta traduz-se na atividade antidemocrática de um setor que visa alcançar o poder e instalar uma ordem autoritária, servindo-se para o efeito de mecanismos e processos oferecidos pela própria democracia. Tem um rosto visível, o do Chega e do seu líder, mas integra também grupos, alguns de natureza criminosa, que aceitam ou levam ainda mais longe os seus objetivos e a sua retórica incendiária.

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                                  Presidenciais: agora é centro-esquerda

                                  Algumas notas muitíssimo breves e rápidas sobre a primeira volta das presidenciais, originalmente deixadas no meu mural do Facebook.

                                  •⁠ ⁠Os resultados finais só podem surpreender quem andasse bastante distraído (incluindo, talvez, as próprias empresas de sondagens). Nenhum dos resultados, nem mesmo o paupérrimo do Marques Mendes ou o do bufão Vieira, determinou o inesperado;

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                                    De novo o papel do voto útil

                                    Em democracia, a valorização positiva ou negativa do «voto útil» depende sempre, passe a forçada redundância, da utilidade política que ele serve e materializa. Este modo de votar no que se pode considerar um mal menor não é intrinsecamente «bom» ou «mau», mas é vantajoso ou não, de acordo com as circunstâncias. Em eleições legislativas ele quase sempre possui mais de negativo, uma vez que tende a esvaziar a pluralidade das propostas, acentuando a distância entre os grandes partidos, os do poder, e aqueles que fundamentalmente atuam como contrapoder, contribuindo para silenciar as perspetivas que se assumem como alternativas às que são momentaneamente dominantes. 

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