Arquivos Mensais: Novembro 2025

25 de Novembro: o inventado e o verdadeiro

A história, encarada como trajeto humano ao longo do tempo, ou então como forma de conhecimento analítico do passado, enfrenta sempre um paradoxo: ela parte de factos e de situações em boa parte objetivos, mas é ao mesmo tempo sujeita a interpretações, incluindo as realizadas pelos historiadores, com forte componente de subjetividade. É esta que conduz, lembrou Marc Ferro, à abundância das suas falsificações, levando também a interpretações opostas, assim como ao seu uso como instrumento dos poderes estabelecidos e como ferramenta para a manipulação das consciências. Podemos observar tudo isto perante a forma como, por estes dias, se recordou ou se celebrou, o que aconteceu em Portugal a 25 de novembro de 1975.

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    Atualidade, Democracia, História, Memória, Opinião

    Nuremberga, o julgamento dos julgamentos

    Quando se completam 80 anos sobre o início das suas sessões, decorridas entre 20 de novembro de 1945 e o 1 de outubro seguinte em que foi anunciado o seu veredito, os Julgamentos de Nuremberga permanecem como acontecimento-chave da história do século XX, continuando a ser olhados com interesse e como exemplo. Tiveram, em simultâneo, um papel reparador e um efeito traumático, cujos contornos se mantiveram presentes em diversas vertentes da opinião pública e da memória coletiva, continuando ainda, tanto tempo depois e já sem os seus intervenientes, a suscitar ondas de choque associadas a contextos e a preocupações do nosso tempo.

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      Democracia, Direitos Humanos, História, Leituras, Olhares

      O triunfo (temporário) das pessoas amargas 

      Animal Farm, o romance de George Orwell saído em 1945, foi divulgado em traduções portuguesas como O Triunfo dos Porcos. A trama conta como a revolta dos animais de uma quinta contra os humanos, destinada a emancipá-los da opressão que os escravizava, acabou por transformar a vida de todos em nova e terrífica ditadura. O livro constitui uma paródia do estalinismo e das revoluções em que o anúncio do fim da opressão e do início da igualdade acabou substituído por novas formas de tirania e injustiça. A presente paisagem política global suscita uma analogia com o título da obra em português.

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        Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

        Tim, a WWW e nós

        Durante os anos 90, o físico britânico, cientista de computação e professor do MIT Tim Berners-Lee foi, de certa forma, um dos meus heróis vivos. Tendo sido um dos primeiros utilizadores em Portugal da Internet fora dos espaços próprios da engenharia informática – comecei a usá-la, ainda em inóspitos sistemas Unix, no início dos anos 90, e a minha primeira página Web, já num browser, nasceu em 1995 – não podia deixar de conhecer, e de admirar, o trabalho do homem que, de facto, inventou a World Wide Web. Tornando a «rede das redes», criada vinte anos antes, acessível ao utilizador comum sem que este tivesse necessidade alguma de conhecer técnicas de programação ou de estar ligado a potentes computadores.

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          Cibercultura, Democracia, Olhares

          Tiques de classe e dedo em riste

          O episódio, tornado público por estes dias, que envolve a ministra da Saúde Ana Paula Martins na morte de uma grávida no hospital Amadora-Sintra pode levantar dúvidas sobre as responsabilidades reais no caso. Já o que não levanta qualquer dúvida é o tom extremamente grosseiro e arrogante, com que, de dedo estendido «à patroa», a propósito do caso a ministra falou, em registo genérico, de mulheres pobres, desprotegidas, incapazes de pedir ajuda e, imagine-se, «até sem telemóvel». Fazendo-o como uma óbvia acusação de menoridade em típico registo de classe. Com este governo da direita está a tornar-se norma, pela primeira vez na nossa democracia, a impiedade institucionalizada e a desproteção dos mais fragilizados. Em particular daqueles que chegam de longe para fazer os trabalhos mais duros e que, em vez de serem integrados e apoiados, são apontados de dedo em riste como párias sem direitos e seres incomodativos.

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            Duas ideias erradas sobre combater o Chega

            Isto é, sem dúvida, um pouco como chover no molhado. Já foi dito e redito, parecendo óbvio para muitas pessoas, mas pelo que leio por aí vale a pena relembrar de vez em quando.

            1 – Não falar do Chega ou do seu chefe, onde e sempre que for preciso, para, como algumas pessoas democratas «boazinhas» dizem, «não lhes dar palco», é deixar-lhes o terreno livre para continuarem, nesse caso sem a presença de qualquer contraditório, a sua sanha de mentira e de ódio disseminada entre uma maioria de cidadãos crédulos e desinformados.

            2 – Ser-se contra o Chega, mas considerar-se que a democracia deve aceitar como legítima as suas posições, é mais do que pernicioso, pois as forças políticas desta natureza apenas se servem dela para melhor a combaterem. Além de que o incitamento ao crime de ódio e, implicitamente à violência, deve ser impedido e punido sem hesitações e com o maior rigor.

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              «Essa não é a minha especialidade»

              Incomoda a fuga ao debate sem fronteiras e com ideias próprias, justificando quem o faz a recusa em abordar certos temas com a afirmação de que «essa não é a minha especialidade». Mesmo no meio universitário, por definição agregador e disseminador de saberes plurais, ela é a atitude dominante, fechando-se quem o afirma no seu estrito espaço de estudo e evitando tratar de forma dinâmica tudo o resto. Todavia, sendo impraticável o ideal iluminista de um saber enciclopédico, que tudo alcance, e sabendo-se que jamais alguém, ou máquina alguma, será omnisciente, é sempre possível, sobretudo em democracia, falar do que nos aprouver, aliando conhecimento, capacidade crítica e experiência pessoal. 

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                Atualidade, Democracia, Heterodoxias, Olhares, Opinião