Arquivos Mensais: Dezembro 2008

Direito ao tumulto

À volta da «questão dos professores» todos os argumentos possíveis têm sido adiantados, tornando-se difícil dizer qualquer coisa que não tenha já sido dita e redita. Aliás [bocejo], isto mesmo já foi por mim aqui publicado e republicado. Associadas a essa repetição, a maioria das posições que encontramos na blogosfera têm tomado partido, de forma quase sempre unívoca e até um tanto agressiva, por uma das partes. Reforma boa contra imobilismo mau, professores malandros versus ministra boazinha, bruxa má contra santos inocentes, e por aí afora. Por isso, talvez valha a pena insistir que nada do que se prende com o assunto é simples e redutível a uma caricatura da intifada.

Todos sabemos que existem professores, provavelmente muitos e geralmente com a complacência dos sindicatos, que sendo «em princípio a favor de uma avaliação» se recusam a admitir uma que os distinga de facto de acordo com o trabalho executado, a preparação científica e os resultados obtidos. Daí a caricata contraproposta da Fenprof pretendendo colocar no primeiro e decisivo patamar do processo de qualificação dos docentes a auto-avaliação. Mas todos sabemos também que o Ministério, e principalmente alguns dos organismos que o representam no terreno – das direcções regionais a certos conselhos executivos mais fiéis -, têm modelado a sua actuação crispada pela imposição de normas burocráticas que mais têm a ver com a redução de despesas e a apresentação artificial de resultados que saiam bem na fotografia das estatísticas do que com a eficácia e a justiça do sistema de ensino que tutelam.

O pior serviço que se pode fazer na tentativa de solucionar o impasse em que estamos, promovendo uma verdadeira mudança nos padrões de funcionamento do ensino em Portugal, é pois generalizar discursos sobre a maldade ou a bondade dos professores ou do governo. Como se não existissem professores que pensam pela sua cabeça e têm sentido de justiça. Como se o governo fosse completamente insensível à opinião e à experiência daqueles que governa. Mas mau também, já agora, é divulgar, como acontece num artigo de Fernanda Câncio, a ideia de que só porque eleito e apoiado numa maioria parlamentar, absoluta ou não, este governo, ou qualquer governo, possa avançar toda a sorte de medidas insensatas, apresentadas como «reforma», sem o protesto, tumultuoso se necessário, sonoro sempre, dos cidadãos directamente afectados. A democracia não se esgota nas eleições – embora não as possa ignorar, evidentemente – e eu pensava que esse era um dado adquirido por todos os democratas. Mas, claro, no fogo da luta todos nós fazemos e dizemos coisas insensatas.

    Atualidade, Opinião

    Limonada

    Limonada

    Confiando naquilo que, em The Blithdale Romance, Nathaniel Hawthorne conta de Charles Fourier, este acreditava que o inevitável progresso da humanidade rumo à perfeição faria com que um dia o mar passasse a saber a limão. O fascínio da imaginação utópica assenta em operações e em convicções desta natureza, que auguram um futuro de absolutos, programados e construídos à imagem dos desejos e da determinação de quem os projecta. O problema começa quando os fabricantes de utopias começam a pretender fixar as percentagens do açúcar, do ácido cítrico e do sódio, dando todo o poder ao laboratório que passará a gerir o fabrico, a manutenção e a partilha da água marítima. E, claro, condenando ao degredo o sabor a laranja.

      Apontamentos, Opinião

      Laika

      Laika

      O partido-da-língua-de-pau não muda. Enquanto os outros apoiam ou aplaudem, ele «saúda» sempre. E se os cumprimentados o merecerem, «saúda calorosamente». Quando os restantes definem metas, ele possui «objectivos claros». Se os mais falam da experiência que vão ganhando, ele diz «a vida ensina». Quando os outros apresentam ideias ele «reafirma a sua base ideológica». Se falam de discussão, ele prefere «um amplo e profundo debate». Se organizam encontros, ele prepara as coisas em «1600 reuniões ou plenários, nos quais participaram mais de 26000 militantes». Enquanto se esgrimem posições, ele dá logo «uma resposta inequívoca». Quando os outros reestruturam, ele promove um «reforço da organização». Chama os fascistas de «fâchistas». Creio mesmo que prefere ainda designar o espaço de «cosmos». E os mais indefectíveis militantes continuarão por certo a relembrar como Лайка a saudosa cadela Laika.

      Adenda: A Gestapo encorajava alguns prisioneiros que suspeitava de serem comunistas a escreverem pequenos artigos. O objectivo era confirmarem a sua filiação pela análise da linguagem. Uma tarefa fácil, diziam os agentes.

        Devaneios, Etc.

        ♪ Para sempre

        Love

        O objectivo de uma cadeia voluntária que circula por aí é achar aquilo que não existe: «a melhor canção de amor de sempre». Porque todas as canções de amor são como todas as cartas de amor: um pouco estúpidas, sim, como dizia o menino Fernandinho, e fugazes, mas «para sempre». Por isso são quase todas boas. Avanço com uma fiftie, febril e imortal. Podiam ser outras mil.

        Paul Anka – Put Your Head on My Shoulder [aumentar bastante o som]

          Música, Olhares

          Palavras perigosas

          Palavras

          O secretário-geral falou de «dimensão totalitária» ao pronunciar-se contra a lei dos partidos que impõe o voto secreto. Um conhecido militante, bloguista e comentador profissional de blogues, acusa-me algures de defender o totalitarismo ao depreciar não sei onde o significado do congresso comunista. As políticas autoritárias e autistas de Sócrates, essas todos os dias são chamadas de «fascizantes». Parece que no número 3 da Soeiro Pereira Gomes e na sua rede de sucursais ocorre neste momento um problema com as palavras. Ou não?

          No livro sobre Eichman, Hannah Arendt falou de uma «banalização do mal» para se referir à entrada do anti-semitismo no discurso do Estado e na esfera do público, produzindo as condições para uma normalização do Holocausto. O uso inapropriado de palavras que se referem a circunstâncias históricas e a tempos nos quais o humano e o monstruoso conviveram, desvirtuando a clareza do seu significado e atribuindo-lhes sentidos indeterminados e brumosos, pode sempre produzir um efeito análogo, trivializando o sinal de perigo que transportam nas entranhas. Podem ser ditas por ignorância ou má-fé, mas o efeito será o mesmo.

            Atualidade, História, Opinião

            Nem sempre uma carta em papel perfumado

            Love

            Enquanto metia na ranhura o cartão de plástico, corria no monitor da máquina Multibanco uma frase a vermelho-escuro: «Violência no namoro não é amor!» Assim mesmo, a bold e com o ponto de exclamação. Afinal é preciso dizê-lo em voz alta, gritá-lo, pois uma boa parte da violência no casamento começa de facto muito antes dele: acontece com uma em cada quatro pessoas, diz um estudo recente da Universidade do Minho. Ao mesmo tempo, as mulheres-guerrilheiras que jamais aceitarão um insulto, um murro, uma chapada, sem os restituírem e seguirem o seu caminho na direcção contrária, são ainda uma minoria. Mesmo aqui, a ocidente do ocidente. E o futuro é já a seguir.

              Atualidade, Democracia, Olhares

              Uma história interminável

              Comunismo

              Versão de um texto publicado originalmente na revista LER

              Como experiência, destino e utopia, o ideal comunista possui uma história poucas vezes apoiada por narrativas abrangentes e razoavelmente isentas. Esta obra de Robert Service, escrita sensivelmente ao mesmo tempo que a trilogia biográfica de Lenine, Estaline e Trotsky, esforça-se por preencher essa ausência. Da sua tentativa de traçar um panorama da mais importante, dinâmica e persistente corrente política dos últimos cem anos resultou um trajecto enumerativo que começa no comunismo pré-marxista e vai até ao embrionário «socialismo do século XXI», mantendo como eixo a Revolução de Outubro e a transformação da União Soviética em exemplo e estímulo de um alcance planetário. Capítulos que basicamente resumem informação conhecida convivem, no entanto, com outros nos quais se notam um maior investimento do autor e também algumas novidades. É o que acontece quando mostra como os bolcheviques se lançaram ao assalto do poder sem uma matriz para a nova ordem a criar, como foram enunciadas as primeiras divergências teóricas em relação ao template estalinista do «marxismo-leninismo», como se organizou a propaganda pró e anticomunista durante a Guerra Fria, ou como foi o modelo soviético reproduzido no pós-guerra, durante a rápida mas complexa fase de construção das «democracias populares».

              O esforço de síntese é notável, e de um ponto de vista informativo parece conseguido, transformando este livro numa útil introdução à história geral do comunismo. Ele deve, todavia, ser mediado por uma atitude crítica atenta e contínua, uma vez que a nítida aversão do autor aos valores do comunismo interfere na objectividade e até na clareza de diversos passos. Pior, ela tê-lo-á afastado de uma compreensão aprofundada da génese social, filosófica e ética do ideal comunista e da eventual perpetuidade da sua capacidade de atracção. É verdade que Service admite, de início, que um dos seus intentos é responder à dúvida de décadas sobre a natureza «inerentemente despótica» ou «potencialmente libertadora» do comunismo, mas concentra-se sobretudo no primeiro dos aspectos, dando pouca atenção ao segundo, justamente aquele que potencia a capacidade de atracção e de mobilização daquele ideal. Em consequência, sugere que o carácter perverso de algumas das práticas dos comunistas – no poder ou fora dele – os afasta de todo de um papel positivo nos processos de edificação democrática e lhes retira até legitimidade na sua participação no combate social, apontando-os como vírus maligno que «provou ter características metastizantes» e continuará a viver mesmo após o desaparecimento do último Estado socialista. O que contraria a prometida isenção desta obra, ainda assim, dada a falta de alternativas acessíveis, de utilidade. Uma nota negativa adicional para a perceptível imperfeição da tradução e da fixação do texto, infelizmente muito comum, como é sabido, nas obras editadas pela Europa-América.

              Robert Service, Camaradas. Uma História Mundial do Comunismo. Tradução de Fernanda Oliveira. Publicações Europa-América, 568 págs. ISBN: 978-972-1-05928-3

                Etc.

                Cosmopolitismo

                Kwame Anthony Appiah

                A palavra cosmopolitismo é uma palavra manchada. Suscita os ataques de alguma esquerda, diz Appiah, devido ao seu padrão aparentemente diletante e elitista. A direita, por sua vez, abomina-o pois acredita que o cosmopolita é sempre alguém que questiona o nacionalismo e a ideia de pátria. O autor anglo-ganês não procura contestar estes preconceitos, buscando antes expor os fundamentos de um novo cosmopolitismo, superador do velho paradigma iluminista, e avaliar da sua viabilidade como instrumento de uma política de aproximação entre culturas. O grande desafio na actualidade, segundo declara, é «pegar nas mentes e corações formados ao longo de milénios em tribos locais e equipá-las com ideias e instituições que nos permitem viver em conjunto». Como filósofo, procura também persuadir o leitor de que existem algumas questões conceptuais interessantes que podem contribuir para a construção de um diálogo em torno da globalização capaz de substituir as posições de desvalorização de uma moral comum que integram as teses relativistas mais radicais. De um ponto de vista político, sugere a combinação entre o respeito pela diversidade das vidas humanas – não apenas da vida humana – e a ideia de que existem obrigações para com os outros dentro de um contexto de «universalismo» e de cidadania partilhada. A ler e a debater, apesar da versão portuguesa por vezes tornar a leitura um pouco dolorosa.

                Kwame Anthony Appiah, Cosmopolitismo. Ética num Mundo de Estranhos. Trad. de Ana Catarina Fonseca. Europa-América, 180 págs. ISBN: 978-972-1-05929-0

                  Três notas sobre o Primeiro de Dezembro

                  Luanda - Restauradores

                  1. A maioria dos portugueses desconhece hoje a origem do feriado que, entre o passeio pelo maior centro comercial das imediações e uma multicultural caipirinha bebida à lareira, passa em família ou com os amigos, fazendo de contas que abre um pequeno parêntesis na crise. No entanto, a restauração do reino de Portugal em relação à «Coroa de Espanha», na qual se encontrava integrado desde o final trágico da aventura marroquina de D. Sebastião, e a Guerra da Aclamação que se lhe seguiu, representaram um ponto de viragem fulcral na definição da identidade política e cultural dessa pátria da qual se ouve ainda, nos estádios de futebol e nos desfiles militares, «a voz dos seus egrégios avós».

                  No dia 1 de Dezembro de 1640, porém, não ocorreu revolução alguma, como falseou durante décadas a historiografia salazarista. O que aconteceu não passou, de início, de um rápido putsch militar local contra a política centralista do Conde-Duque de Olivares: prendeu-se a vice-rainha Margarida de Sabóia, passou-se pelas armas o odiado Miguel de Vasconcelos e aclamou-se rei o duque de Bragança, enquanto a maior parte da nobreza e do alto clero se mantinha fiel a Madrid. Já decisivas foram depois as campanhas militares, prolongadas em diferentes fases, em território ibérico, entre 1640 e 1668, e alargadas ao combate pela manutenção do Império, principalmente no Brasil, em Angola e na Índia. Vinte e oito anos de guerra dura e custosa, no correr dos quais se foram autonomizando e desvinculando da influência espanhola – definindo-se, como nunca antes ocorrera, uma forte identidade antimadrilena -, a prática política, a actividade diplomática, a língua portuguesa, a literatura nacional, a organização militar, o discurso historiográfico e até a oratória sagrada.

                  2. Foi no cinema Restauração, em Luanda, que vi O Último Tango em Paris. A democracia tinha meses, e brancos, pretos e mulatos, homens e mulheres, velhos e crianças, acotovelavam-se em filas enormes por um bilhete para a «cena da manteiga» do primeiro «filme pornográfico» legalmente exibido. Corria o ano de 1975 e, ao que me disseram, era então novidade o encontro no foyer de pessoas cujo tom de pele, um ano antes, lhes teria interditado aquele espaço. O cinema Restauração hoje já não é cinema e mudou de nome. Chama-se Casa das Leis e tem servido de sede à Assembleia Nacional angolana. Mas todos os angolanos europeus que por lá passaram continuam a usar a denominação colonial. Eu próprio, anticolonialista que por sê-lo passei por duas «custódias», é assim que o recordo.

                  É difícil mudar os mapas que nos mostraram durante anos, por isso, para muitos, é difícil designar as cidades angolanas pelo nome legítimo actual. Luanda e Benguela continuam a ser Luanda e Benguela, e quase todas as pessoas sabem que o Huambo foi em tempos Nova Lisboa. Mas que dizer do Soyo, de Luena, de Saurimo, de Lubango, de Tombwa? Para muitos, não necessariamente obstinados colonialistas ou seus ressabiados descendentes, são ainda Santo António do Zaire, Luso, Henrique de Carvalho, Sá da Bandeira e Porto Alexandre. E, voltando ao início, como se chamará hoje a antiga Avenida dos Restauradores de Angola? Tenho a resposta: chama-se Rua do Congresso do MPLA, apesar de na rua toda a gente lhe chamar… Avenida dos Restauradores. Podem, todavia, encontrar-se sinais contraditórios: dizem-me que a Rua Karl Marx passou há algum tempo a Avenida de Portugal, o que sempre será indício de uma reconciliadora esperança de sabor pós-colonial.

                  3. O momento de mais um aniversário da Restauração da Independência serviu também para que pudesse começar a compreender um pouco melhor a política de alianças do PCP. Tendo em vista aquele que, presumo, possa ainda ser o seu interesse pela partilha de responsabilidades de poder. Após os ataques, durante este XVIII Congresso, à dimensão «social-democratizante» (sic) do Bloco de Esquerda e aos propósitos dos chamados «alegristas», marcados como uma espécie de quinta coluna destinada a desviar da linha justa o eleitorado que considerem ser naturalmente «seu», fiquei a ruminar sobre que espécie de forças imaginará o PCP poder ter como aliadas no combate – julgo que não meramente protestativo ou limitado à repetida «táctica da trincheira» -, por uma alternativa de governo. Para além, claro, da anuência instintiva dos organismos-criatura, um tanto ridículos e sem qualquer representatividade, como os chamados «Verdes» ou a Intervenção não-sei-o-quê (peço desculpa mas não consigo recordar agora o nome). Julgo ter resolvido a dúvida lendo hoje, no caderno P2, as palavras de simpatia do «senhor dom» Duarte de Bragança, descendente reconhecido do monarca restaurador e o nosso actual «reizinho», pelo carácter eminentemente patriótico do Partido Comunista Português.

                    Atualidade, História, Memória

                    Frases que ficam 3

                    A dada altura do jogo de futebol Sporting-Guimarães, incomodado pela bátega de água que de repente atingiu o estádio de Alvalade («num ápice», teria dito o clássico Gabriel Alves), o desabafo técnico-táctico do comentador e ex-jogador António Simões: «A chuva vem esquinada e entra-me aqui por uma diagonal aberta.»

                      Etc.