Arquivo de Categorias: Opinião

O intolerável regresso da eugenia

Tenho fortes dúvidas sobre se a larga maioria dos cidadãos que têm tomado posições públicas sobre «o direito à vida», em temas tão diversos como a interrupção voluntária da gravidez, a fecundação ‘in vitro’ e o direito à morte assistida em casos de extremo sofrimento físico e psíquico, saberá o que é a eugenia e conhecerá ao menos um pouco da sua terrível história. Define-a, vale a pena lembrar, o esforço de «melhorar a raça humana» – o hoje caduco conceito de raça é aqui invocado propositadamente – através de um conjunto de práticas que passam pela seleção artificial, protegendo e salvaguardando aqueles que em determinado contexto são considerados melhores, mais fortes ou mais puros, e descartando os que são tomados como mais frágeis ou considerados impuros.

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    Atualidade, Direitos Humanos, Opinião

    Pandemia e trauma

    Apenas passaram dez dias sobre a declaração do estado de emergência e a passagem da nossa vida quotidiana para um novo patamar de reserva e de cuidado. A maior e a mais generalizada preocupação é com a saúde física dos cidadãos e a capacidade coletiva para conter o mais possível a expansão da pandemia e os seus resultados nefastos. Com ela em mente, temos vindo a adaptar as nossas vidas à situação de confinamento doméstico, a novos processos de trabalho e a cuidados particulares no convívio diário com os outros.

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      Apontamentos, Atualidade, Olhares, Opinião

      Os «outros»

      É muito fácil ser-se egoísta por estes dias de medo e flagelo. Pensar apenas em nós, depois nos nossos, talvez um pouco e só bem depois nos outros. E quanto mais «outros» estes forem, menos nos importarão, mais invisíveis se tornam para nós e para as câmaras que trazem a realidade às nossas casas. Em contexto de catástrofe para a qual ninguém estava preparado, é fácil fazer exigências. Como faz quem de microfone nas mãos ocupa o seu tempo a queixar-se da incapacidade para fazer testes de despiste a quem o deseje, quando deveria saber que não existe um único Estado que o tenha podido fazer. E só um declarou até agora contar consegui-lo a curto prazo: a Islândia, que é uma ilha e tem apenas 370.000 habitantes.

      Mas tão necessário e ainda mais urgente é pensar nesses «outros», nos distantes: os mais pobres, os sem-abrigo, os sem informação e que não entendem o que está a acontecer, os que vivem apinhados em bairros miseráveis, os trabalhadores despedidos ou que continuam a trabalhar para que a vida prossiga, os prisioneiros esquecidos dos familiares. Pior, muito pior: a larga maioria da população da África, da Índia ou do Paquistão, da América Latina fora dos espaços mais protegidos, onde a pandemia está a chegar e que, sem sistema de saúde, com débeis condições de higiene e um Estado eficaz, provavelmente irá morrer aos milhões. Não esquecendo os refugiados, ainda mais abandonados. Ao pé desses «outros», o nosso sofrimento será quase uma benção.

      [Originalmente no Facebook]

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        Quatro anos que abalaram o mundo

        Quando recuo na memória da parte da história contemporânea que pude testemunhar, encontro quatro anos nos quais aconteceram situações excecionais, que em muito abalaram a perceção da realidade e o mundo daqueles que as viveram. Corresponderam a quatro momentos de viragem, onde novos factos, equilíbrios e até valores se impuseram, dando corpo a viragens que se confirmaram irreversíveis. Foram anos-catástrofe – decisivos, no sentido da palavra katastrophḗ no antigo grego – que fecharam uma etapa no trajeto da história recente, inaugurando outra, radicalmente nova. Suscitando de imediato, naqueles que os viveram, a impressão de haverem atravessado uma fronteira, entrando num mundo novo, estranho e inesperado.

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          Atualidade, Memória, Olhares, Opinião

          Ser Radical (muito barulho para nada)

          Rejeito de todo a conversa dos setores que, principalmente à esquerda do espectro político, desde sempre desvalorizam, ou contestam mesmo de forma bastante violenta, o que se chama de «luta radical». Falo do campo do combate social, protagonizado geralmente por minorias, que aponta para metas de natureza utópica e desenvolve práticas mais extremas, situadas muito acima do estado médio de consciência do cidadão comum. Não o faço por ter passado uma parte importante da minha vida profundamente imerso nesse território social, pois, apesar de hoje ter dele uma perspetiva crítica, de modo algum enjeito o género de experiência, em regra intenso e indelével, que representa.

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            Apontamentos, Atualidade, Democracia, Memória, Opinião

            As grandes causas e as causas parciais

            A dimensão interventiva do intelectual – olhado como o homem ou a mulher que pensa e fala individualmente, de forma pública e notável, sobre assuntos que a todos importam – afirmou-se historicamente a partir do episódio que envolveu Alfred Dreyfus, o capitão do exército francês, de origem judaica, acusado de alta traição e espionagem no final do século XIX e logo preso, despromovido e condenado a prisão perpétua e isolamento na aterradora colónia penal da Caiena. Quando foi descoberto que se tratara de um erro judicial, abafado pelas chefias militares e pelo governo para evitar o escândalo, e a sua defesa foi publicamente assumida pelo escritor Émile Zola a partir da publicação no diário Aurore, a 13 de Janeiro de 1898, do artigo-libelo «J’Accuse», o episódio transformou-se no conhecido «caso», que mobilizou a opinião pública e teve grande impacto internacional. Serviu agora de mote a O Oficial e o Espião, o filme de Roman Polanski.

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              Atualidade, Cinema, Democracia, História, Opinião

              A praga dos «achistas»

              Contra os «achismos» não existem argumentos que valham. Eles não podem ser colocados à discussão, pois não se servem de dados objetivos ou de raciocínios lógicos. Resultam apenas de «teorias» criadas por alguém, unicamente com base nas suas próprias opiniões e intenções, sem qualquer tipo de fundamentação concreta ou de justificativa. São praticados por pessoas que desconhecem a natureza de determinados assuntos, mas que fazem questão de sobre eles produzirem supostas explicações, tendo em consideração apenas o que mais ou menos empiricamente «acham» a seu propósito. Têm a certeza absoluta do que não fazem a menor ideia. Recusando-se a obter informações fidedignas sobre o tema em causa – ou sequer a tomar como meras hipóteses aquilo que encaram como absolutas certezas – contribuem pesadamente para espalhar rumores, incertezas ou conteúdos falsos. Ou para bloquearem de todo qualquer debate a sério, uma vez que ninguém consegue conversar de forma decente com «achistas». Todavia, existem por todo o lado, alimentam-se em pastos comuns e as redes sociais têm feito com que se reproduzam como uma praga.

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                O adepto (com Eduardo Galeano)

                Nada que não fosse de esperar: a atitude estrábica de usar aquilo que de horrível está a acontecer em alguns estádios e ocorre em clubes de futebol num amargo ramerrão (este sim, «pseudo-intelectual») contra o futebol. Desporto do qual, como do ténis ou do hóquei no gelo, como de um quadro pós-impressionista ou de uma ópera de Wagner, como de uma pessoa ou de uma experiência, se pode gostar ou não, dele ter boas ou más recordações – Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, dizia ter sido o futebol a ensinar-lhe a verdadeira dimensão da ética do dever – mas onde a maldade chega apenas por interposição de outros e bem perigosos interesses. Não por intervenção das regras do jogo ou da paixão desmesurada do adepto comum. Sobre este, aqui fica um texto de Eduardo Galeano, incluído no belo ‘Futebol ao Sol e à Sombra’.

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                  Cidades, Democracia, Olhares, Opinião

                  Portugal é ou não um «país racista»?

                  Regresso ao tema do racismo, recolocado agora na primeira linha do debate público e das notícias do dia. Dado o mediatismo que o rodeou, o episódio ocorrido em Guimarães com o futebolista franco-maliano Moussa Marega, não só reforçou a pertinência de um olhar atento sobre o assunto, como voltou para ele muitas pessoas distraídas ou que o tomavam como de importância menor. Na realidade, deparamos há décadas, em Portugal, com uma atitude persistente perante o racismo fundada em dois mitos que importa escrutinar: o primeiro, aponta para a sua «existência residual»; o segundo, tende a considerar que, apesar de existirem casos, ele se exprime de um modo «benévolo», diluído em relações sociais de uma natureza «branda» ou «cordial».

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                    A Irlanda e os «hábitos»

                    Uma pequena nota pessoal: como muita gente, tenho princípios, gostos, devaneios, projetos que me têm acompanhado ao longo da vida. E ela vai já suficientemente longa para lhes detetar alguma constância. Mas neles se incluí também a tentativa de ir acompanhando sempre a mudança, de a entender e de dialogar com ela. Por isso, me custa um pouco o convívio com gente – de diferentes gerações, alguma com um terço da minha idade – que se fixa num modelo, num vocabulário, numa ideologia, num gosto musical, num género de literatura, num tipo de arte, numa forma de vestir ou de se comportar, que repete ‘ad aeternum’ os que fixou por volta dos vinte anos, fugindo a sete pés de tudo aquilo que os possa perturbar. E se o mundo muda, o problema é do mundo.

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                      Agora mesmo, em Predappio

                      Práticas e rituais de devoção popular erguidos sobre túmulos ou lugares associados à vida de personagens famosas, tenham elas sido chefes de Estado ou dirigentes partidários, santos ou mártires, atores de cinema ou escritores, músicos ou desportistas, são práticas universais e muito antigas que se mantêm em uso. Funcionam em boa parte, usando o conceito proposto em 1984 pelo historiador Pierre Nora, como «lugares da memória»; através dos quais, no plano simbólico, numerosas pessoas, ou mesmo grupos inteiros, procuram estabelecer uma relação forte com sinais, exemplos e vestígios do passado, destinada a celebrá-lo, mas também a «revivê-lo», potenciando ao mesmo tempo o seu eco e a sua influência no presente.

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                        Racismo, antirracismo, «guetização»

                        Nos primeiros tempos de vida da nossa democracia, o racismo permaneceu quase invisível na comunicação social e no debate público, bem como nas iniciativas partidárias e cívicas. Até à Revolução ele estivera em boa parte encoberto pela retórica multirracial do regime e pela dinâmica internacionalista e antirracista da oposição; além disso, por estranho que possa parecer para um país que produziu um império, fora das equipas de futebol e de pequenos núcleos na periferia de Lisboa, a população negra era muito diminuta. A dimensão mais visível e brutal do racismo ocorrera, de facto, nos territórios africanos, tendo sido ela um dos fundamentos da dominação colonial e também da construção dos movimentos emancipalistas.

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                          Toda a mentira é reacionária

                          Escrevia-se há dias em alguns posts do Facebook que as fake news são sempre de direita, assegurando-se como indiscutível que «não existem fake news de esquerda». Quem tenha sentido crítico e de verdade, e visite com atenção e critério certos sites de informação, para além de estar atento também a setores identificáveis das redes sociais, sabe que, infelizmente, isso não é de todo verdadeiro. Alguns, com designações, cores e alguns conteúdos que os associam à esquerda e aos valores de Abril, não olham a meios para afirmar uma dimensão parcial dessa a verdade «a que temos direito» com um foco unilateral.

                          Desde afirmações caluniosas sobre pessoas que pretendem isolar ou combater, até à inclusão de «informação criteriosa» chegada através de agências de contra-informação russas (a Sputnik, por exemplo) ou da América Latina, que oferecem informação «única» sistematicamente manipulada e parcial (a Síria, a Rússia e a Venezuela estão, aliás, particularmente no centro desta barragem de «invenções verdadeiras», que consideram sempre manipulador o trabalho de milhares de jornalistas espalhados pelo mundo). A luta pela verdade e pela transparência da informação não pode ser feita com um olho aberto e o outro fechado. E toda a mentira é reacionária.

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                            Partidos, tendências, liberdade

                            Garanto que não tenho apenas um caso em mente enquanto escrevo estas linhas, e a verdade é que desde há muito tempo penso desta forma. Sem possuir neste momento militância partidária, sou dos que consideram os partidos instrumentos fundamentais, embora necessariamente não únicos, na vida concreta dos regimes democráticos. Por isso rejeito de todo a azeda «conversa da treta» que se proclama antipartidos, pegando em casos pontuais, alguns bem verdadeiros, ou então em situações ampliadas, para declarar que partidos e militantes «são todos iguais». Mas não, não são, eles são tecidos e seres complexos onde se encontra de tudo, incluindo-se neste um grande número de pessoas justas e dedicadas às causas nas quais acredita. Sendo também lugares onde se arrumam modos diversos de representar o mundo e de estar na vida.

                            O que pretendo sublinhar é antes a necessidade absoluta, para democratizar os partidos, ampliar a militância e alargar os processos de identificação de quem a eles adere, da existência formal de tendências. Isto significa, naturalmente, a definição de escolhas e propostas centrais nas quais todos os militantes terão de concordar, pois de outra forma um partido seria apenas uma associação de pessoas sem programa ou identidade. E não são, devendo existir unidade na ação. Mas significa também a possibilidade de pensar de forma livre e diversa em muitas matérias, de exprimir em público essas divergências e até de o discutir e exprimir em coletivo. Creio que desse forma muito mais pessoas empenhadas na cidadania se sentiriam mobilizadas para a vida partidária, olhando-a como espaço de liberdade e não como o lugar de coação que por vezes também é.

                            Rui Bebiano

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                              Pensar a política por antecipação

                              Circulou na passada semana uma notícia sobre Sanna Marin, a jovem chefe da coligação de esquerda que neste momento governa a Finlândia, e a sua suposta proposta de redução da semana de trabalho para 24 horas, em quatro dias de seis horas diárias. As reações não tardaram, na maioria dos casos distribuídas pelo apoio entusiástico ou por uma rejeição muito hostil. Na verdade, tratou-se de um equívoco, pois aquilo que Marin de facto fez não foi uma proposta, mas apenas a projeção de uma possibilidade futura. Adiantada não agora, mas em Agosto de 2019, quando ainda nem era sequer primeira-ministra. Relembro o caso, não para repor a verdade, o que não valerá o esforço, mas como pretexto para a defesa da projeção de futuros enquanto forma essencial de fazer política.

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                                A polémica equiparação fascismo-comunismo

                                O tema foi debatido há semanas com bastante mais paixão que razão, quando da aprovação no Parlamento Europeu de uma moção que equiparava nazismo e comunismo como de natureza igualmente criminosa e condenável. Por iniciativa do CDS, Iniciativa Liberal e Chega, a Assembleia da República prontamente discutiu um voto de aplauso à deliberação saída de Bruxelas. As bancadas da esquerda reprovaram-no por entenderem, com toda a justeza, que o paralelo estabelecido branqueava o nazismo. Todavia, o assunto é complexo e justifica alguma atenção, tanto pelo sentido histórico do paralelo, quanto pelos objetivos que a decisão visou.

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                                  O peso negativo do conformismo

                                  Não existem causas fáceis porque não existem verdadeiras causas que não exibam bandeiras. Quer isto dizer que quando tomamos uma posição pública afirmativa que não seja de âmbito meramente individual e antes diga respeito ao coletivo, estamos a interferir com situações estabelecidas e a dar a conhecer uma proposta ou uma ideia, perturbando sempre quem delas discorda. O conceito de causa, aplicado, não a um efeito, mas a um conjunto de interesses partilhados pelos quais alguém se bate, impõe sempre esse envolvimento de natureza conflitual, sendo por seu intermédio que as sociedades passam de um estádio a outro e se afirmam na conquista de direitos mais amplos e de uma vida melhor, ainda que episodicamente possam também, como se sabe, viver alguns recuos.

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                                    Algumas notas sobre o Livre

                                    Começo por me colocar totalmente de fora do ambiente de recriminação, ressentimento e preconceito que tem envolvido esta nova fase da vida do Livre e o problema com a prestação política da Joacine Katar Moreira. Não é atitude que me interesse, até pelo tom de desproporcionada violência, alguma dela muito personalizada, que o tem envolvido. Quero também, antes de ir ao problema que pretendo tratar, deixar dois lembretes que julgo necessários.

                                    O primeiro liga-se ao momento em que, no início desta infeliz situação, tomei a defesa pública da JKM. Fiz aquilo que pensei dever fazer, que foi defendê-la publicamente da vaga de preconceito centrado no problema com a fala, no facto de ser mulher e na cor da pele. Voltaria a fazê-lo nessa mesma direção, se tal fosse necessário. Mas tinha-me apercebido já de alguns problemas com uma parte das suas escolhas e prioridades, voltadas para a sobrevalorização sectária de certas causas em detrimento de outras, subvalorizadas ou mesmo ausentes do seu discurso, apesar de não menos importantes no programa do Livre.

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