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Uma perigosa interrupção da democracia

Ao observar o que está a acontecer em países como os Estados Unidos ou o Brasil, com a gestão governativa da pandemia a assumir proporções catastróficas e de grande desumanidade – e com um conjunto de seguidores fanáticos dos seus presidentes a manifestar-se na rua contra quem pugna por cuidados e reservas para evitar o contágio – é natural que nos questionemos sobre a inexistência de um movimento popular generalizado de repúdio dessas políticas e de responsabilização política daqueles que as impõem. Mais ainda quando nesses países a generalidade da imprensa crítica abertamente as suas escolhas.

Infelizmente é simples, embora dramática, a explicação para que se perceba como pode isto estar a acontecer: quem está em condições de assumir a responsabilidade política de organizar esse movimento ou de nele participar sabe que neste momento colocar pessoas na rua de uma forma massiva será, por razões de segurança própria, tão impossível quanto criminoso. Estranho tempo este em que a indignação pública fica, ainda que em sistemas que permanecem formalmente democráticos, retida em casa. Sob este aspeto verifica-se, de facto, uma perigosa interrupção da democracia.

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    Sinais negativos nestes dias de clausura

    Há dias, ao passar no suplemento literário Babelia, do diário El País, pelos resultados de um inquérito de pergunta única sobre a fase de confinamento, «O que descobriu durante este tempo?», dei com uma resposta da poeta e tradutora andaluza Aurora Luque: «Que é necessário simplificar e procurar a lentidão, o silêncio e o respeito. Que as redes sociais nos dominam e controlam e que nos roubaram o tempo verdadeiramente livre.» Colocadas no plano do senso comum, estas palavras podem parecer um tanto exageradas ou despropositadas. Afinal, o fechamento domiciliar e a redução da vida social e profissional deveriam ter provocado um abrandamento das solicitações do quotidiano, dando lugar, apesar da calamidade, a um tempo mais lento e mais tranquilo. Todavia, este cenário benévolo deve ser relativizado, dado o isolamento obrigatório ter adicionado pesados fatores de tensão e de cansaço, e também porque para muitas pessoas com atividade ligada ao teletrabalho as novas condições e os exigentes deveres profissionais acabaram por impor uma dose adicional de esforço, angústia e fadiga.

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      «Não Há Festa Como Esta!»

      A Festa do Avante!, organizada pelo PCP a cada setembro, nasceu em 1976, já no refluxo do processo revolucionário, como forma de agregação da militância comunista e como espaço de resistência. Inspirou-se em boa parte na do jornal L’Humanité, criada em 1930, com a qual o PCF visou objetivos de certa forma análogos. Teve desde o início uma componente lúdica – aquela que ocupou sempre mais tempo do programa e que atraiu pessoas de diferentes quadrantes sociais e políticos – e outra assumidamente política, traduzida em algumas escolhas artísticas, em uma ou outra sessão cultural, nas brochuras e bibelôs dos pavilhões dos «partidos irmãos» e sobretudo no grande comício final de domingo à tarde.

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        O caminho do apóstata

        Árduo é o caminho do apóstata, aquele que primeiro duvidou, e depois abandonou, uma fé, uma ortodoxia, uma ideologia cega, certos partidos ou igrejas. Não só jamais será perdoado, como passará irrevogavelmente para a lista dos seus piores inimigos: aqueles que tiveram acesso à verdade, à salvação, à segurança da certeza, à causa que se presume infalível, e resolveram abandoná-la, preferindo a dúvida ou mudando de opinião, ainda que o tenham feito apenas em estreita latitude. Quando se escrever uma história universal da apostasia, ela estará cheia de traições, calúnias, cobardias, ostracismos, amarguras, solidões. Também de coragem, de heroísmo, de redenção, de combates pelo direito à liberdade de pensar pela própria cabeça.

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          Comunicação tóxica

          Jornais e televisões impuseram «notícias», divulgaram artigos de opinião ou fizeram debates sobre duas medidas dadas como certas a partir de «fontes bem informadas». Uma seria o afastamento compulsivo das ruas e de outros lugares públicos das pessoas com mais de setenta anos, e a outra a imposição da medição da temperatura dos corpos em locais de trabalho, restaurantes, cafés ou salas de espetáculo. Qualquer pessoa com sentido da realidade e sem interesse em espalhar o medo e a indignação podia perceber que medidas dessa natureza, monstruosas e próprias de um cenário distópico, jamais seriam impostas por um Governo democrático, já que punham em causa o direito à liberdade e à privacidade. Mas isso não impediu esses órgãos da comunicação social de durante semanas intoxicarem a opinião pública, dando como certa e segura a sua aplicação.

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            Lenine, 150 anos

            No último 22 de Abril perfizeram-se 150 anos sobre o nascimento de Vladimir Ilyich Ulianov, Lenine (1870-1924). O seu papel na história do marxismo, dos ideais socialistas e da experiência vitoriosa da Revolução soviética de 1917 é crucial. A sua capacidade, independentemente das críticas que possam ser feitas aos métodos utilizados, para tornar real uma utopia revolucionária e um modelo de transformação da história que vinha sendo derrotado década após década, foi sem dúvida extraordinária. Todavia, para fazermos verdadeiramente justiça à sua capacidade e ao seu importante papel, devemos olhá-lo em primeiro lugar na sua dimensão humana e no contexto histórico em que afirmou a sua liderança revolucionária, não como a figura mitificada e marmórea na qual a dada altura foi transformado. Relembre-se apenas que o conceito de «leninismo» foi uma invenção de Estaline, principal responsável pela simplificação do seu pensamento e pela sua transformação em dogma. Lenine foi um revolucionário, sem dúvida, mas não um santo ou um mágico.

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              25 de Abril, democracia e resistência

              A polémica só é polémica em boa parte devido a alguns preconceitos e mal-entendidos. Não acuso todos os que se manifestam contra a cerimónia de celebração do 25 de Abril na Assembleia da República de serem estúpidos ou fascistas, como já vi fazer, até porque conheço muitas pessoas que o defendem e são democratas acima de qualquer suspeita, algumas delas até antigos e antigas resistentes. Penso que muitas estão mal informadas sobre o facto de a data ir ser comemorada na Assembleia num quadro de presenças e com uma coreografia necessariamente contidos, que serão idênticos aos que têm sido usados durante todas as sessões que tiveram lugar, como parte imprescindível do funcionamento da democracia, durante estas semanas de estado de emergência.

              O que não deixo de notar é o aproveitamento do suposto «mau exemplo» estar a servir aos antidemocratas para insultarem os deputados, como se estes fossem uma corja de delinquentes ou um grupo de suicidas, e a cerimónia da celebração da democracia fosse data descartável, menos importante que uma sessão regular, como aquelas que têm acontecido, também em formato reduzido, ao longo destes dias. Basta uma visita rápida a muitos comentários escritos em sites e nas redes sociais para se ver onde alguns querem verdadeiramente chegar: ao combate irracional contra os setores do parlamento que mais firme e legitimamente têm defendido a cerimónia. Nem que seja apenas por isto, e assim como um gesto de resistência, mas também porque a democracia não se suspende, ele terá de ser cumprido.

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                Hipóteses para um futuro próximo

                Acabo de ser ouvido por um jornal francês independente, o Médiapart, que está a tentar perceber as condições de sobrevivência em Portugal, no pós-crise do Covid-19, de um governo que continue a ser apoiado pela esquerda parlamentar. O jornal decidiu escutar o que pessoas diferentes situadas na grande área da esquerda têm a dizer sobre o assunto. Numa altura destas, tudo aquilo que possa adiantar-se sobre o tema será sempre em larga medida especulativo – e desabará completamente se a crise durar muitos meses – mas ensaiei algumas semi-certezas sobre as hipóteses de continuidade de uma governação à esquerda.

                Esta incluirá forçosamente acordos sobre a manutenção das políticas de rendimentos em contexto de recessão, o caráter intocável dos direitos adquiridos, um foco no investimento público como instrumento de dinamização da economia, apoios sociais aos setores mais afetados pela crise (sobretudo desempregados e precários), atenção positiva às políticas de imigração, apoio ativo ao mercado interno. E uma política externa maleável e afirmativa no contexto europeu, sem a qual nenhum dos anteriores fatores terá grande sustentabilidade. Nada de novo e que não tenha sido já dito, mas que por vezes dá algum jeito sistematizar.

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                  Narcisos à força

                  Ao fim de três semanas a olhar o próprio rosto nos vídeos das aulas que tenho andado a gravar, comecei a detetar algumas alterações. Primeiro um preenchimento excessivo do espaço visível, resultante do quase inevitável acréscimo de peso, mas pouco depois algo pior. Passei a notar uma tensão, um congestionamento, mesmo um olhar que não conhecia em mim. Sabemos como em momentos de tensão isto pode acontecer. Falando da sua memória do limite dos limites, em ‘Se isto é um homem’ Primo Levi contou como ao fim de apenas dois dias em Auschwitz, vendo por acaso o seu rosto refletido numa vidraça, foi incapaz de se reconhecer.

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                    Males que vêm por bem

                    É bem conhecida a forma como a atividade nas redes sociais tem tanto de positivo e de construtivo quanto de incómodo ou de prejudicial. Tende a reproduzir em meio virtual as relações sociais tradicionais, desenvolvidas em meio físico, adicionando-lhes uma forte capacidade para dar voz a quem habitualmente a não tem, permitindo que todos possam transmitir rapidamente o que pensam. Isto conduz a frequentes imprudências, dizendo-se o que talvez não devesse ser dito ou que poderia ter sido melhor ponderado. Este apontamento não toma esse sentido negativo, mas poderá tornar-se pouco simpático.

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                      Pandemia e trauma

                      Apenas passaram dez dias sobre a declaração do estado de emergência e a passagem da nossa vida quotidiana para um novo patamar de reserva e de cuidado. A maior e a mais generalizada preocupação é com a saúde física dos cidadãos e a capacidade coletiva para conter o mais possível a expansão da pandemia e os seus resultados nefastos. Com ela em mente, temos vindo a adaptar as nossas vidas à situação de confinamento doméstico, a novos processos de trabalho e a cuidados particulares no convívio diário com os outros.

                      De vez em quando, comentamos a forma como tudo isto – em particular no que respeita à vivência do medo, da solidão ou da perturbação das rotinas – nos está a incomodar também no plano psicológico. Mas quase todos parecemos confiantes a este respeito, permitindo-nos até fazer algumas piadas sobre o assunto. «Vamos todos pirar» dizemos uns aos outros, nos raros encontros de rua ou de hipermercado, à distância do interlocutor de dois ou três seguros metros .

                      Todavia, todo este regime está para durar bastante, eventualmente com agravamentos, e quando pensamos nesta hipótese diminui rapidamente a nossa vontade de rir. Poderemos estar mais um, dois, três, quatro meses nesta situação e ninguém pode prever para já como sobreviveremos e dela sairemos no plano da saúde mental. Será por isso importante que as autoridades e as pessoas do conhecimento psi possam começar desde já a refletir sobre o problema, concebendo estratégias para suavizar o inevitável trauma e o prolongado efeito pós-traumático.

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                        Quatro anos que abalaram o mundo

                        Quando recuo na memória da parte da história contemporânea que pude testemunhar, encontro quatro anos nos quais aconteceram situações excecionais, que em muito abalaram a perceção da realidade e o mundo daqueles que as viveram. Corresponderam a quatro momentos de viragem, onde novos factos, equilíbrios e até valores se impuseram, dando corpo a viragens que se confirmaram irreversíveis. Foram anos-catástrofe – decisivos, no sentido da palavra katastrophḗ no antigo grego – que fecharam uma etapa no trajeto da história recente, inaugurando outra, radicalmente nova. Suscitando de imediato, naqueles que os viveram, a impressão de haverem atravessado uma fronteira, entrando num mundo novo, estranho e inesperado.

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                          O vírus e nós

                          Já em 1947 se falava em A Peste sobre o modo como a vivência coletiva de uma calamidade cujo controlo escapa, em boa medida, à capacidade de previsão e à autonomia da intervenção humana, acaba sempre por transformar todos aqueles que a experimentam. «Aprendemos sempre no meio dos flagelos», escreve Camus a dado passo do romance. Confirmando estas palavras, estes dias têm sido ilustrativos, mostrando como, perante o medo ou o perigo, o instinto de sobrevivência em muito facilita uma alteração dos hábitos que em circunstâncias normais seria recusada. Revela também a diferença entre quem assume sentimentos de humanidade e de solidariedade, aceitando a partilha do risco e da salvação, e quem se refugia num egoísmo ou numa ausência de cuidado para com os demais que nestas ocasiões ainda se torna mais chocante e deplorável. Há também quem facilmente caia em pânico e se entregue a iniciativas irracionais ou a teorias da conspiração, que em nada ajudam a vida comum. Para estes mais dificilmente haverá remédio, apesar, como Camus igualmente lembrou no romance, de dificilmente «a peste chegar e partir sem que o coração dos homens se altere».

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                            A praga dos «achistas»

                            Contra os «achismos» não existem argumentos que valham. Eles não podem ser colocados à discussão, pois não se servem de dados objetivos ou de raciocínios lógicos. Resultam apenas de «teorias» criadas por alguém, unicamente com base nas suas próprias opiniões e intenções, sem qualquer tipo de fundamentação concreta ou de justificativa. São praticados por pessoas que desconhecem a natureza de determinados assuntos, mas que fazem questão de sobre eles produzirem supostas explicações, tendo em consideração apenas o que mais ou menos empiricamente «acham» a seu propósito. Têm a certeza absoluta do que não fazem a menor ideia. Recusando-se a obter informações fidedignas sobre o tema em causa – ou sequer a tomar como meras hipóteses aquilo que encaram como absolutas certezas – contribuem pesadamente para espalhar rumores, incertezas ou conteúdos falsos. Ou para bloquearem de todo qualquer debate a sério, uma vez que ninguém consegue conversar de forma decente com «achistas». Todavia, existem por todo o lado, alimentam-se em pastos comuns e as redes sociais têm feito com que se reproduzam como uma praga.

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                              O adepto (com Eduardo Galeano)

                              Nada que não fosse de esperar: a atitude estrábica de usar aquilo que de horrível está a acontecer em alguns estádios e ocorre em clubes de futebol num amargo ramerrão (este sim, «pseudo-intelectual») contra o futebol. Desporto do qual, como do ténis ou do hóquei no gelo, como de um quadro pós-impressionista ou de uma ópera de Wagner, como de uma pessoa ou de uma experiência, se pode gostar ou não, dele ter boas ou más recordações – Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, dizia ter sido o futebol a ensinar-lhe a verdadeira dimensão da ética do dever – mas onde a maldade chega apenas por interposição de outros e bem perigosos interesses. Não por intervenção das regras do jogo ou da paixão desmesurada do adepto comum. Sobre este, aqui fica um texto de Eduardo Galeano, incluído no belo ‘Futebol ao Sol e à Sombra’.

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                                A Irlanda e os «hábitos»

                                Uma pequena nota pessoal: como muita gente, tenho princípios, gostos, devaneios, projetos que me têm acompanhado ao longo da vida. E ela vai já suficientemente longa para lhes detetar alguma constância. Mas neles se incluí também a tentativa de ir acompanhando sempre a mudança, de a entender e de dialogar com ela. Por isso, me custa um pouco o convívio com gente – de diferentes gerações, alguma com um terço da minha idade – que se fixa num modelo, num vocabulário, numa ideologia, num gosto musical, num género de literatura, num tipo de arte, numa forma de vestir ou de se comportar, que repete ‘ad aeternum’ os que fixou por volta dos vinte anos, fugindo a sete pés de tudo aquilo que os possa perturbar. E se o mundo muda, o problema é do mundo.

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                                  Um divertido texto de Tony Judt publicado em O Chalet da Memória, de 2010. Onde se aprende muito sobre alguma das transformações sociais e culturais ocorridas na Europa durante o período que imediatamente antecede e sucede à Segunda Guerra Mundial. Tradução parcialmente apoiada na publicada pelas Edições 70.

                                  Para a minha mãe, o meu pai era «obcecado» por carros. Para ela, a eterna fragilidade da nossa economia doméstica devia-se à tendência do marido para gastar com eles as nossas poupanças. Não posso avaliar se ela tinha ou não razão em relação a isso – é evidente que, deixada por conta própria, teria limitado a família a um carro pequeno por década, se tanto – mas mesmo aos olhos compreensivos de um filho que o admirava, o meu pai parecia de facto viver absorto com os seus carros; especialmente com os Citroën, a marca francesa cujos produtos idiossincráticos enfeitaram o pátio da frente da nossa casa durante a minha infância e adolescência. Tivemos uma ou outra ocasional aquisição inglesa, feita por impulso, da qual rapidamente nos arrependemos – um Austin A40 descapotável, um AC Ace desportivo -, além de um capricho que durou algum tempo com um DB Panhard, do qual falarei mais à frente; mas durante anos Joe Judt conduziu, consertou e falou sobre Citroëns.

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                                    Uso com regularidade redes de computadores desde 1992, e a Internet desde 1995, e por isso vi surgir com curiosidade e até algum divertimento o fenómeno dos hackers e o seu mundo muito peculiar. Conheci mesmo alguns, embora todos de pequena dimensão e parcas ambições. Estes, como outros que entretanto se tornaram mundialmente conhecidos – foi o caso de Kevin Mitnick, que em 1979, com 16 anos, andava já a passear-se a partir de sua casa por redes de computadores do sistema de segurança norte-americano – faziam o que faziam sempre pelo puro prazer do jogo e do risco. O surgimento de hackers abertamente criminosos ou ao serviço de Estados autoritários e de grupos terroristas foi um pouco mais tardio, tornando-se muito visível e ganhando impacto global sobretudo a partir da viragem do milénio.

                                    A sua forma de agir, dinamizada pela curiosidade, pelo conhecimento e pela compulsão, tende cada vez mais a ser colocada ao serviço do crime e de formas de poder e de contra-poder que os utilizam em proveito dos seus interesses, causando com frequência prejuízos enormes a governos, a instituições e mesmo a simples cidadãos. Todavia, aqui como na lenda do bom ladrão, que «rouba aos ricos para dar aos pobres», existem também hackers que se servem do seu saber e a sua curiosidade de um modo que pode ser usado nos combates pela justiça e pela verdade. Assim aconteceu, por exemplo, com os casos de Julian Assange, Edward Snowden ou agora talvez Rui Pinto. Não os vejo como grandes e maravilhosos heróis mascarados ou de chapéu emplumado, como o Zorro ou Robin dos Bosques, mas as suas iniciativas podem e devem ser usadas na agilização da luta contra o crime organizado e os regimes autoritários.

                                    Fotografia: Maria Feck / Expresso
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