Arquivo de Categorias: Olhares

No habitáculo das certezas

A partir dos dezassete, e por cerca de oito anos, partilhei com um grupo de correligionários, pequeno e bastante jovem, embora politicamente hiperativo, de uma visão do mundo que na época considerava ser a única verdadeiramente certa e com um futuro à sua espera. Porém, ao mesmo tempo que abraçávamos as grandes causas e as dores do país e do mundo, todos vivíamos na grande solidão dos sectários, fechados no nosso círculo de centena e meia de pessoas distribuídas por apenas três ou quatro cidades. Parte dos dias era, aliás, ocupada a ampliar o espírito de seita, erguendo os muros da nossa indómita fortaleza, por vezes combatendo mesmo contra quem de nós divergia apenas em alguns detalhes.

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    Democracia, Memória, Olhares, Opinião

    Combater o racismo num país democrático

    O assassinato do ator Bruno Candé Marques, ocorrido pela uma da tarde deste sábado de julho numa avenida de Loures, foi, de acordo com diversos testemunhos, premeditado e de maneira inequívoca determinado por motivos de natureza racista. Deixou em qualquer pessoa digna um enorme sentimento de dor e de revolta, não só pela vida que se perdeu, para mais a de um homem ainda jovem que todos os que o conheciam apontam como talentoso, criativo e solidário, mas também pelos motivos expressos que determinaram este ato horrível.

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      Democracia, Direitos Humanos, Olhares, Opinião

      Consciência crítica e linguagem panfletária

      O que se designa por panfleto, conceito vulgarizado sobretudo a partir da Guerra Civil Inglesa do século XVII, pode ter diferentes formas. Da página solta ao folheto simples ou desdobrável, do artigo de jornal ao livro, de um certo padrão de discurso público a algumas formas de intervenção artística, possuem em comum participarem na divulgação, de uma forma sempre muito acessível e direta, de opiniões ou de informações destinadas a afetar escolhas coletivas. Os grandes processos de transformação política requerem a intervenção deste instrumento, dado serem as ideias claras e precisas que tomam a sua forma a determiná-los, não os tratados políticos ou filosóficos, que quanto muito os podem influenciar lateralmente. É, pois, na simplicidade que evidenciam que reside a força que detêm, embora seja também nela que podemos encontrar a sua fragilidade e a hipótese da sua perversão.

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        Democracia, Leituras, Olhares, Opinião

        Sobre o negacionismo do Gulag

        Episódio recente fez voltar alguma atenção para a história do Gulag soviético, bem como para a de outros «sistemas de campos» erguidos em nome dos projetos progressistas que perverteram. Sobre o tema existem hoje muitos milhares de livros e artigos, bem como milhões de documentos publicados, sobretudo no campo da história e da reflexão política, bem como nos do memorialismo e da literatura. Isto torna quase impossível entender, salvo por ignorância ou cegueira, como é possível haver ainda quem negue, legitime ou defenda o feroz sistema repressivo que, também porque mais duradouro, um maior número de vítimas causou. Com a agravante de o ter feito – e de ainda o continuar a fazer, se olharmos o que se passa hoje na China e na Coreia do Norte –, formalmente em nome do direito à igualdade, à liberdade, à justiça e à dignidade humana, que afinal pôs em causa de forma brutal. Levando ao extermínio e ao sofrimento de largos milhões de seres humanos – entre eles também de um número imenso de comunistas e de antifascistas – e manchando o grande ideal do socialismo e do comunismo. Grande parte dos seus defensores ainda não fez o suficiente para se emancipar dessa vergonha, preferindo muitas vezes menorizá-la ou mesmo negá-la.

        Deixo aqui um extrato do meu livro No Labirinto de Outubro. Cem anos de revolução e dissidência (Edições 70, 2020, aqui a págs. 106-112), onde o tema é abordado em articulação com um quadro de compreensão teórica ausente, todavia, deste fragmento.

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          Democracia, Direitos Humanos, História, Memória, Olhares

          Da relevância de falar ao direito a ser escutado

          Ao contrário do que entende o senso comum, o sentido de responsabilidade não impõe a moderação, a contenção e o silêncio. Seria assim se o isolássemos como uma escolha pessoal fatalmente associada ao calculismo ou ao medo. «Responsável» seria então aquele que não se intromete, que se cala, mesmo perante as maiores iniquidades, ou então que apenas fala pelo seguro, medindo sempre todos os prós e todos os contras, por isso tantas vezes acabando por jamais se pronunciar. Todos conhecemos pessoas assim, pois elas estão em todo o lado. Desta «responsabilidade», ao mesmo tempo egoísta e complacente, vivem afinal as ditaduras e todos os sistemas iníquos, mesmo quando formalmente democráticos, apoiados na certeza de que a sua observância será suficiente para que a injustiça, o mau governo e a agressão ao bem comum fiquem inquestionáveis e impunes.

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            Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

            Para que servem os livros difíceis

            Nunca se leu tanto como hoje. A afirmação poderá parecer estranha a quem da leitura valorize sobretudo a qualidade e a profundidade, mas lê-se de facto muito mais em quantidade e em regularidade. A prática da leitura sistemática aumenta continuamente, se nela incluirmos as necessidades da vida quotidiana, das organizações e do mundo do trabalho, a intervenção da publicidade ou da imprensa light e desportiva, e sobretudo a articulação com a televisão, a comunicação móvel e a Internet, com os seus largos milhões de sites e a omnipresença do email e das redes sociais. Já a leitura mais densa, crítica e reflexiva, apoiada na literatura de ficção e de não-ficção, para além da escrita académica e da produção ensaística, parecem, de facto, enfrentar um bloqueio. O império do zapping, associado à estridência do sensacionalismo e ao destaque dado à informação superficial, por vezes nada fidedigna, determinam um desvio que afeta até espaços onde há poucos anos seriam impensáveis, com ecos no próprio sistema de ensino, inclusive no universitário, onde os hábitos de leitura, se excetuarmos os níveis de formação mais elevados, são cada vez mais escassos e simplistas.

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              Leituras, Olhares, Opinião

              A informação na selva da opinião

              Pela mão do meu avô paterno, aprendi a ler antes ainda da primária e com recurso a um jornal diário nacional, podendo ser esta uma das razões – gosto, pelo menos, de acreditar que assim foi – para logo me ter transformado num quase dependente da informação. Na verdade, muito poucos terão sido os dias de vida em que a partir de certa altura me mantive inteiramente longe dela, e na era pré-Internet chegava em algumas alturas a fazer largos quilómetros diários só para comprar alguns jornais. Não sei ao certo quando comecei a fazê-lo já de uma forma crítica, mas educado ainda durante o salazarismo, cedo também tive de desenvolver algumas estratégias, tanto como leitor quanto como autor, aliás rapidamente censurado. Ainda assim, habituei-me a encarar a comunicação social sobretudo como um grande espaço para o conhecimento do mundo, para a educação da sensibilidade e de mobilização para a cidadania; mesmo, como acontece de uma forma imprescindível nas democracias, quando nela se exprimem ou defendem ideias e escolhas que de modo algum são as nossas.

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                Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                EUA: revolta e violência

                Quem conhece a longa história das rebeliões populares, pelo menos daquelas que se conhecem desde os movimentos milenaristas do período medieval europeu, sabe que sempre nelas confluíram fatores contraditórios. De um lado o protesto puro, ou a resistência imperativa, postos em prática de uma forma em regra espontânea e quase invariavelmente assertiva e crua. É, aliás, nessa crueza – em regra coincidente com um baixo grau de politização – que se se situa o essencial desses levantamentos coletivos, sendo ela também aquilo que lhes pode conferir alguma capacidade para perturbar o sistema dominante e para alterar situações estabelecidas. As revoltas medievais não pretendiam instaurar regimes justos, mas antes punir reis iníquos e senhores abusivos. Do outro lado, a formulação violenta de estados de descontentamento, de situações de opressão, ou mesmo de desenraizamentos, que podem transformar esses momentos em situações algo caóticas, nas quais, da parte de alguns dos que nelas participam, a sua iniciativa poder ser desviada para atitudes desorganizadas e voltadas contra alvos que não são os principais. O puro banditismo entra, por vezes, na equação.

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                  Acontecimentos, Democracia, Direitos Humanos, História, Olhares

                  O proselitismo e o prosélito

                  A defesa das convicções próprias é um dos fatores mais essenciais do processo de humanização, permitindo que o sujeito se afaste do espírito de rebanho, pense por si mesmo e assuma as suas convicções, batendo-se por elas de uma ou de outra forma. Em democracia essa defesa é absolutamente essencial, pois permite dar coerência e conferir dinâmica ao que de outro modo seriam apenas atitudes e reações casuísticas. E ainda que por vezes se apoie no domínio da fé e da certeza – sejam estas de teor político, filosófico ou religioso – continua a ter um valor importante na organização da diversidade humana e da vida coletiva. Quem não tem posições, ou tem-nas fechadas e jamais as exprime, acaba por colaborar com todas as injustiças ou por ser cúmplice das situações mais condenáveis. Porque quem cala, consente, como diz o ditado.

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                    Apontamentos, Democracia, Olhares

                    Feios, porcos e maus

                    Vi fragmentos da gravação em vídeo da reunião do governo brasileiro presidida por Jair Bolsonaro que está a espantar meio planeta. Há a dimensão do conteúdo, a mais grave e impressionante: momentos de defesa explícita de interesses pessoais, uso constante do palavrão para falar de terceiros, verbalização das maiores vulgaridades, agressividade latente em discursos lançados contra tudo e todos, sob a caótica direção de um sujeito na aparência indiferente ao que se passa, salvo às suas próprias palavras. Parece a sequência de um filme de terceira categoria sobre a máfia italo-americana, onde cada personagem é um patético cliché.

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                      Atualidade, Democracia, Olhares

                      Uma perigosa interrupção da democracia

                      Ao observar o que está a acontecer em países como os Estados Unidos ou o Brasil, com a gestão governativa da pandemia a assumir proporções catastróficas e de grande desumanidade – e com um conjunto de seguidores fanáticos dos seus presidentes a manifestar-se na rua contra quem pugna por cuidados e reservas para evitar o contágio – é natural que nos questionemos sobre a inexistência de um movimento popular generalizado de repúdio dessas políticas e de responsabilização política daqueles que as impõem. Mais ainda quando nesses países a generalidade da imprensa crítica abertamente as suas escolhas.

                      Infelizmente é simples, embora dramática, a explicação para que se perceba como pode isto estar a acontecer: quem está em condições de assumir a responsabilidade política de organizar esse movimento ou de nele participar sabe que neste momento colocar pessoas na rua de uma forma massiva será, por razões de segurança própria, tão impossível quanto criminoso. Estranho tempo este em que a indignação pública fica, ainda que em sistemas que permanecem formalmente democráticos, retida em casa. Sob este aspeto verifica-se, de facto, uma perigosa interrupção da democracia.

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                        Sinais negativos nestes dias de clausura

                        Há dias, ao passar no suplemento literário Babelia, do diário El País, pelos resultados de um inquérito de pergunta única sobre a fase de confinamento, «O que descobriu durante este tempo?», dei com uma resposta da poeta e tradutora andaluza Aurora Luque: «Que é necessário simplificar e procurar a lentidão, o silêncio e o respeito. Que as redes sociais nos dominam e controlam e que nos roubaram o tempo verdadeiramente livre.» Colocadas no plano do senso comum, estas palavras podem parecer um tanto exageradas ou despropositadas. Afinal, o fechamento domiciliar e a redução da vida social e profissional deveriam ter provocado um abrandamento das solicitações do quotidiano, dando lugar, apesar da calamidade, a um tempo mais lento e mais tranquilo. Todavia, este cenário benévolo deve ser relativizado, dado o isolamento obrigatório ter adicionado pesados fatores de tensão e de cansaço, e também porque para muitas pessoas com atividade ligada ao teletrabalho as novas condições e os exigentes deveres profissionais acabaram por impor uma dose adicional de esforço, angústia e fadiga.

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                          Atualidade, Cibercultura, Democracia, Olhares, Opinião

                          «Não Há Festa Como Esta!»

                          A Festa do Avante!, organizada pelo PCP a cada setembro, nasceu em 1976, já no refluxo do processo revolucionário, como forma de agregação da militância comunista e como espaço de resistência. Inspirou-se em boa parte na do jornal L’Humanité, criada em 1930, com a qual o PCF visou objetivos de certa forma análogos. Teve desde o início uma componente lúdica – aquela que ocupou sempre mais tempo do programa e que atraiu pessoas de diferentes quadrantes sociais e políticos – e outra assumidamente política, traduzida em algumas escolhas artísticas, em uma ou outra sessão cultural, nas brochuras e bibelôs dos pavilhões dos «partidos irmãos» e sobretudo no grande comício final de domingo à tarde.

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                            O caminho do apóstata

                            Árduo é o caminho do apóstata, aquele que primeiro duvidou, e depois abandonou, uma fé, uma ortodoxia, uma ideologia cega, certos partidos ou igrejas. Não só jamais será perdoado, como passará irrevogavelmente para a lista dos seus piores inimigos: aqueles que tiveram acesso à verdade, à salvação, à segurança da certeza, à causa que se presume infalível, e resolveram abandoná-la, preferindo a dúvida ou mudando de opinião, ainda que o tenham feito apenas em estreita latitude. Quando se escrever uma história universal da apostasia, ela estará cheia de traições, calúnias, cobardias, ostracismos, amarguras, solidões. Também de coragem, de heroísmo, de redenção, de combates pelo direito à liberdade de pensar pela própria cabeça.

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                              Comunicação tóxica

                              Jornais e televisões impuseram «notícias», divulgaram artigos de opinião ou fizeram debates sobre duas medidas dadas como certas a partir de «fontes bem informadas». Uma seria o afastamento compulsivo das ruas e de outros lugares públicos das pessoas com mais de setenta anos, e a outra a imposição da medição da temperatura dos corpos em locais de trabalho, restaurantes, cafés ou salas de espetáculo. Qualquer pessoa com sentido da realidade e sem interesse em espalhar o medo e a indignação podia perceber que medidas dessa natureza, monstruosas e próprias de um cenário distópico, jamais seriam impostas por um Governo democrático, já que punham em causa o direito à liberdade e à privacidade. Mas isso não impediu esses órgãos da comunicação social de durante semanas intoxicarem a opinião pública, dando como certa e segura a sua aplicação.

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                                Lenine, 150 anos

                                No último 22 de Abril perfizeram-se 150 anos sobre o nascimento de Vladimir Ilyich Ulianov, Lenine (1870-1924). O seu papel na história do marxismo, dos ideais socialistas e da experiência vitoriosa da Revolução soviética de 1917 é crucial. A sua capacidade, independentemente das críticas que possam ser feitas aos métodos utilizados, para tornar real uma utopia revolucionária e um modelo de transformação da história que vinha sendo derrotado década após década, foi sem dúvida extraordinária. Todavia, para fazermos verdadeiramente justiça à sua capacidade e ao seu importante papel, devemos olhá-lo em primeiro lugar na sua dimensão humana e no contexto histórico em que afirmou a sua liderança revolucionária, não como a figura mitificada e marmórea na qual a dada altura foi transformado. Relembre-se apenas que o conceito de «leninismo» foi uma invenção de Estaline, principal responsável pela simplificação do seu pensamento e pela sua transformação em dogma. Lenine foi um revolucionário, sem dúvida, mas não um santo ou um mágico.

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                                  Biografias, Democracia, História, Olhares

                                  25 de Abril, democracia e resistência

                                  A polémica só é polémica em boa parte devido a alguns preconceitos e mal-entendidos. Não acuso todos os que se manifestam contra a cerimónia de celebração do 25 de Abril na Assembleia da República de serem estúpidos ou fascistas, como já vi fazer, até porque conheço muitas pessoas que o defendem e são democratas acima de qualquer suspeita, algumas delas até antigos e antigas resistentes. Penso que muitas estão mal informadas sobre o facto de a data ir ser comemorada na Assembleia num quadro de presenças e com uma coreografia necessariamente contidos, que serão idênticos aos que têm sido usados durante todas as sessões que tiveram lugar, como parte imprescindível do funcionamento da democracia, durante estas semanas de estado de emergência.

                                  O que não deixo de notar é o aproveitamento do suposto «mau exemplo» estar a servir aos antidemocratas para insultarem os deputados, como se estes fossem uma corja de delinquentes ou um grupo de suicidas, e a cerimónia da celebração da democracia fosse data descartável, menos importante que uma sessão regular, como aquelas que têm acontecido, também em formato reduzido, ao longo destes dias. Basta uma visita rápida a muitos comentários escritos em sites e nas redes sociais para se ver onde alguns querem verdadeiramente chegar: ao combate irracional contra os setores do parlamento que mais firme e legitimamente têm defendido a cerimónia. Nem que seja apenas por isto, e assim como um gesto de resistência, mas também porque a democracia não se suspende, ele terá de ser cumprido.

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                                    Hipóteses para um futuro próximo

                                    Acabo de ser ouvido por um jornal francês independente, o Médiapart, que está a tentar perceber as condições de sobrevivência em Portugal, no pós-crise do Covid-19, de um governo que continue a ser apoiado pela esquerda parlamentar. O jornal decidiu escutar o que pessoas diferentes situadas na grande área da esquerda têm a dizer sobre o assunto. Numa altura destas, tudo aquilo que possa adiantar-se sobre o tema será sempre em larga medida especulativo – e desabará completamente se a crise durar muitos meses – mas ensaiei algumas semi-certezas sobre as hipóteses de continuidade de uma governação à esquerda.

                                    Esta incluirá forçosamente acordos sobre a manutenção das políticas de rendimentos em contexto de recessão, o caráter intocável dos direitos adquiridos, um foco no investimento público como instrumento de dinamização da economia, apoios sociais aos setores mais afetados pela crise (sobretudo desempregados e precários), atenção positiva às políticas de imigração, apoio ativo ao mercado interno. E uma política externa maleável e afirmativa no contexto europeu, sem a qual nenhum dos anteriores fatores terá grande sustentabilidade. Nada de novo e que não tenha sido já dito, mas que por vezes dá algum jeito sistematizar.

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