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Mitos do senso comum

Um dos resultados da crise financeira iniciada em 2008 foi a propagação de um conjunto de fábulas que, sob a forma de inquestionáveis «verdades», aparentemente tendem a determinar a inevitabilidade do «modelo neoliberal», apesar do seu estado comatoso. Dito de outra forma: a gravidade dos problemas surgidos em catadupa provocou em boa parte da opinião pública, não a rejeição mais ou menos radical deste modelo, mas antes a afirmação, aparentemente consensual, do princípio segundo o qual tudo o que aconteceu de mau se ficou a dever a décadas de políticas que ampliaram o papel do Estado social, restringiram a liberdade dos mercados e impediram a hegemonia da iniciativa privada. É com este pano de fundo, e com uma intenção assumidamente militante determinada pela necessidade de dissolver tais fábulas e de desconstruir falsos consensos, que um sociólogo, um historiador e um geógrafo compilaram testemunhos de especialistas capazes de os contestarem de forma documentada, consistente e ao mesmo tempo pedagógica. Na introdução, declaram a necessidade de se oporem a essa «fabricação do consentimento» que tem nas ideias do senso comum uma das mais poderosas forças motrizes. «Repetidas pelo discurso político, reproduzidas nas conversas de autocarro, reforçadas pelas histórias de alguma comunicação social», estas ideias são, na sua opinião, «essenciais no jogo de representações» que tem transformado o evitável em inevitável e tendido a qualificar como luxos um conjunto de direitos sociais e de fatores de qualidade de vida conquistados ao longo de décadas. (mais…)

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    História a debate

    diogorc

    Nos últimos vinte anos teve lugar em Portugal uma nítida ampliação do conhecimento histórico, tanto ao nível do volume, da qualidade e da diversidade temática dos trabalhos académicos, quanto nos domínios da atividade editorial, da repercussão pública de determinados temas e da produção jornalística a eles associada. No entanto, tal alargamento não tem sido acompanhado por uma reflexão sistemática e convenientemente aprofundada sobre os sentidos da história como saber e sobre a dimensão do historiador como agente produtor e reprodutor de cultura. Investiga-se e escreve-se mais, sem dúvida, mas não se pensa de forma sistemática aquilo que vai sendo produzido. Existem todavia exceções e uma delas está associada à intervenção de Diogo Ramada Curto. Este Para que serve a história?, composto por vinte e quatro reflexões da sua autoria, editadas maioritariamente no diário Público, parte justamente da constatação dessa ausência. Não é por acaso que, no sentido de a contrariar, toma Marc Bloch – o pioneiro da renovação historiográfica dos Annales e o defensor do compromisso do historiador com a cidadania que os nazis assassinaram – como uma referência primordial. (mais…)

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