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Imaginem lá

Lembro-me bem de todas as meias-noites da mudança de ano. Mesmo nos momentos difíceis, ou naqueles mais tristes, sem presságio de futuro ou com morte próxima, elas aconteceram em ambientes partilhados de bem-estar e de esperança. Até aquela, irrepetível, passada enregelado e à luz de uma vela, na casa clandestina, a comer fatias de um bolo-rei minorca misturadas com cerveja choca. Quando a televisão mudou os hábitos e, no tempo do regime velho, se passou a mostrar ao povo o réveillon dos ricos, de fato completo ou vestido de noite – exibindo alegria de circunstância entre cornetas de plástico, serpentinas, chapéus cónicos, pandeiretas e línguas de sogra –, havia ainda assim uns minutos para sair à rua e olhar os artifícios de fogo lá no alto, no céu. E para ouvir os cláxones dos carros, as pancadas nos tachos e nas panelas, os votos gritados de bom ano, os estampidos secos das rolhas, sob o clarão festivo da luz pública.

Este ano, porém, e pela primeira vez, fui à varanda para dar de caras com um quase silêncio, a rua quase deserta, as janelas com as cortinas corridas, uns petardos pobres, isolados e sem graça alguma, a fazer de conta que assinalavam um momento especial. Engoli então a minha dose de passas com uma sensação de perda. Aquilo que estamos a viver faz-nos assim, mais tristes e semi-mudos, menos esperançosos, mais pobres e inevitavelmente inseguros, enquanto escutamos aqueles que escolhemos para organizarem a esperança de todos a prometerem-nos o pior. Se não para todo o sempre, dizem eles de olhos no chão, seguramente até ao fim das nossas vidas. E das vidas dos que vierem depois. Expiando, porque merecemos, o pecado de termos um dia confiado em que a cada trânsito do calendário se seguia um futuro. Um futuro melhor, mais feliz, imaginem lá. Imagine-se lá.

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    Crime na estrada

    Já conheci um mecânico de automóveis, por acaso ainda um meu parente, que desmontava, reparava e lubrificava motores, testando-os depois no meio do trânsito em hora de ponta e recorrendo com insistência ao uso da buzina, sem jamais ter possuído carta de condução. Agora pude ver mais longe na lógica do empreendedorismo sem barreiras e do crime consciencioso aplicado aos assuntos do asfalto: na LER deste mês, o fazedor de livros Vítor Silva Tavares (ele não gosta que lhe chamem editor e eu faço-lhe a vontade) conta ter trabalhado em Angola como «engenheiro» examinador dos candidatos a condutores encartados… sem sequer saber guiar.

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      Distopia 1838

      No Dictionnaire des Lieux Imaginaires, Alberto Manguel recorre a uma fábula de Edgar Allan Poe publicada em 1838 para descrever a terra do Silêncio terrível e atraente, naturalmente ficcionada mas nem por isso menos temível. Muito longe ainda dos devaneios ecologistas que no Ocidente despontarão bastante mais tarde, exprime-se aqui, em plena era da afirmação do capitalismo industrial, a sensação do carácter aflitivo, constrangedor, de uma natureza estagnada. A felicidade que muitos concebiam ancorava então no triunfo da máquina, no convívio com o fumo negro das enormes chaminés, no contacto diário com o ruído e a limalha de ferro. Apesar do empolgamento de alguns românticos com a nostalgia da natureza, nada parecia mais estranho, medonho, demoníaco, do que um mundo completamente mudo e paralisado.

      SILÊNCIO. Região da Líbia, delimitada pelo rio Zaire, cujas águas, amarelentas e insalubres, jamais atingem o mar, palpitando eternamente sob o Sol, numa efervescência convulsiva. Ao longo de quilómetros o leito do rio encontra-se juncado de gigantescos nenúfares. A região sufoca debaixo de uma floresta maléfica e sombria, com flores envenenadas e uma vegetação rasteira perpetuamente agitada, apesar da ausência de vento. Na margem do rio existe um grande rochedo cinzento no qual um conjunto de caracteres gravados forma a palavra Desolação. Todo o país vive debaixo da maldição do silêncio. A lua permanece imóvel e relâmpago algum perturba o céu, no qual as nuvens permanecem sem trânsito algum. Experimenta-se ali a angustiante sensação de vivermos atacados pela surdez e reduzidos a um total mutismo.

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        O triunfo do oxímoro

        Depois da «abstenção violenta», a suave ameaça de António José Seguro que permanecerá durante algum tempo na nossa memória breve, António Capucho fala-nos agora de um «lapso monumental» a propósito da extinção, anunciada pelo governo liquidatário em exercício, da Fundação Paula Rego. O nosso tempo assiste ao triunfo do oxímoro.

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          A hora (Cavaco’92)

          A necessidade de neste domingo não falhar um compromisso, levou-me a ir à Internet para ter a absoluta certeza de que o fim do «horário de verão» não era já neste por estes dias. Fiquei então a saber que a ideia de reprogramar o dia foi lançada em 1784 por Benjamin Franklin, com o objetivo de diminuir o número de horas de escuridão e assim promover a poupança em cera para velas. No entanto o primeiro país a adotá-la oficialmente foi a Alemanha, e só em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, como medida para economizar carvão. Em Portugal, entre 1992 e 1996, quando Cavaco Silva foi primeiro-ministro, a mudança ocorreu de forma ainda mais profunda e a nossa hora foi fixada para ser sempre, ao segundo, idêntica à alemã.

          O objetivo da sumidade economista que presidia à iniciativa era mudar artificialmente de meridiano de modo a «facilitar as comunicações, os negócios e os transportes internacionais». Sucederam no entanto demasiadas queixas pelo facto da vida real ter ficado desfasada em relação à rota do Sol. No inverno, as pessoas saíam de casa pelas 9 horas da manhã, ainda o astro-rei despontava no horizonte. Já no pico do verão, o céu escurecia por completo apenas depois da meia-noite. Os casos de stress subiram em flecha e as crianças adormeciam durante as aulas. Além disso, provou-se que a poupança de energia que se ganhava ao final do dia se perdia depois com o aumento dos gastos matinais, pois os trabalhadores iniciavam o dia de luzes acesas e depois esqueciam-se de as apagar. Em 1996, com António Guterres, o disparate cavaquista foi corrigido e a hora voltou a adaptar-se aos hábitos e aos horários das pessoas.

          Adenda – Ah, e não, não foi nesta passagem de sábado para domingo. Será um tanto mais adiante. A 29 de outubro, pelas 2 horas da madrugada, os relógios deverão ser atrasados em uma hora. Felizmente continuaremos desfasados de Berlim.

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            Anéis de fumo

            Comecei a fumar aos dez e a sair de casa com a chave no bolso aos catorze. Nessa fase da vida, tal como acontecia com tantos rapazes de tantos lugares e com vidas tão diferentes, convivia com três problemas bastante tormentosos: a necessidade imperativa de conseguir a primeira namorada, a irritante impossibilidade de assobiar juntando dois ou três dedos, dentes e força de peito, e, last but not least, a mais completa incapacidade para obter anéis espiralados com o fumo do cigarro. Quanto ao primeiro fez-se o possível, mas os dois últimos nunca foram solucionados. E continuo a invejar quem consegue fazer tais malabarismos sem esforço aparente e com a certeza de cumprir o seu inexorável destino de macho.

              Devaneios, Memória, Olhares

              Revolução

              Para Antonio Muñoz Molina algumas das maiores revoluções da sua vida aconteceram aos outros. Em lugares onde não estava, como Lisboa, Berlim ou o Cairo. Uma experiência frustrante que pode ser partilhada. Não estar ali, naquele momento, no lugar onde tudo aconteceu. Quando a História toma o freio nos dentes e por instantes as grandes expectativas, outrora adiadas para futuros incertos, ganham forma em vidas que não são as nossas, em cidades que jamais habitámos, em línguas que não nos pertencem. Delas chegam-nos então as imagens rápidas, televisionadas, das correrias pelas ruas, dos cartazes que se agitam, dos gases irrespiráveis, das mots d’ordre na ordem do dia. Nessas alturas reconhecemos na ira dos outros, no rasgo que dela chispa, um impulso simpático que partilhamos, necessário para que as nossas vidas possa, também elas, incluir uma dimensão de esperança. Se é verdade, como escreveu Ralph Waldo Emerson, o filósofo e poeta americano de Oitocentos, que cada revolução começa por ser uma ideia na nossa própria cabeça, então vislumbrá-la nesses horizontes distantes ecoa em nós, através dos outros, noutras vozes e noutras praças, a consciência da sua possibilidade. Tudo acontece rapidamente e a festa acaba demasiado depressa, mas ficam as marcas, os despojos, insinuando que um dia pode voltar a acontecer. Algures, talvez aqui, talvez connosco.

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                V. Ilitch e Fofanova

                Numa rua de Kiev. Fotografia de Pavlo

                É maior do que pensava a minha ignorância da petite histoire do socialismo e por isso estou sempre a encontrar episódios novos. Nos dias que antecederam a tomada do poder pelos bolcheviques, Lenine escondeu-se em Moscovo no número 91 da Rua Serdobolskaia, apartamento 41 (atualmente o 106 da Perspetiva Marx, apartamento 20). A proprietária era uma mulher moscovita de 34 anos, que não só alojou Vladimir Ilitch, fornecendo cama, mesa e roupa lavada, como lhe serviu de ligação com os restantes membros da direção do Partido. É legítimo supor que o relacionamento entre os dois não tenha sido apenas estritamente político, dado o bilhete, ainda hoje conservado, que Lenine lhe deixou quando abandonou o apartamento para ir mudar a história da Rússia e do mundo: «Vou agora para onde tu me pediste que não fosse. Adeus.» De onde se depreende que a camarada possuía um nome só aparentemente convincente: Margarita Vasilevna Fofanova.

                  Apontamentos, Devaneios, História

                  O meu Beat Hotel

                  As paredes sujas, a velha secretária, a máquina de escrever, as folhas de papel, os químicos, o lápis e a esferográfica, os cigarros, a caixa de fósforos, o cinzeiro cheio de beatas, os óculos. Só a lupa está ali a mais. Num devaneio da memória, diria que se trata da reconstituição museológica do meu espaço de trabalho em São Martinho do Bougado, concelho da Trofa,  na casa de piso único, térreo, sem quarto de banho ou cozinha, onde em 1974 vivi cinco meses de clandestinidade. Mais prosaicamente, é «apenas» a recordação fotográfica do habitáculo de William Burroughs no Beat Hotel de Paris. (Fotografia de Jed Birmingham)

                    Apontamentos, Devaneios, Fotografia

                    O que nos resta

                    Sagan
                    F.S. em 1954
                    Fotograma de Jacques Rouchon

                    Françoise Sagan disse um dia numa entrevista: «Aquilo que faz falta na nossa época, é o gratuito. Mas é realmente excitante fazer coisas por nada. A nossa época é demasiado materialista e demasiado exibicionista, cheia de pessoas que contam em público todos os pormenores das suas vidas e que se satisfazem com a realidade. A imaginação é a única virtude que nos resta. E talvez seja mesmo a mais importante das virtudes.». É sempre fácil – e bastante tentador – estabelecer analogias entre as palavras avisadas dos que se foram, e um dia sublinhámos, e aquelas das quais nos podemos servir para julgar a nossa própria realidade. Mas num tempo como o presente, no qual absolutamente tudo é julgado pelo valor de troca e a gratuidade é considerada um desperdício ou coisa de ingénuos, vale a pena considerar estas que nos deixou a autora de Bonjour Tristesse.

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                      Simetria semiológica

                      Reparará quem segue este blogue que em seis anos quase não se publicaram fotografias de políticos portugueses no ativo. Chegou o momento de proclamar urbi et orbi os três motivos pelos quais isso sucede. O primeiro prende-se com o mais genuíno snobismo: este blogue vive da e para a polis, mas não é um blogue de politiquinha, daqueles que se ocupam quase a full-time (e fazem bem, cumprem a sua função) dos rodriguinhos de São Bento, das fífias de Belém e atividades afins. Por isso, quando fala deles, gosta de relativizar o seu papel nas preocupações do leitor. O segundo é de natureza meramente estética: A Terceira Noite pode ter alguns posts fraquinhos (ou até o podem ser praticamente todos), mas esforça-se por ser um prazer para os olhos, um lugar visualmente incitante, ou então tão relaxante quanto uma massagem ayurvédica acompanhada pelo som de vagas marítimas. A maioria das imagens pessoais disponíveis destruiria esse equilíbrio, como um par de peúgas brancas usadas com um fato escuro. O terceiro motivo é o mais fácil de expor: o blogue preparava-se para este breve momento de simetria semiológica, esgotando de uma vez a quota para os próximos seis anos.

                      [fotografia extorquida à página facebook de maquinistas.org]

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                        O papel higiénico e a crise

                        A analogia não é bonita mas a redução da nossa qualidade de vida tem pouco de bonito. Uma portuguesa e uma grega que conheço falavam há dias sobre as poupanças da classe média e a conversa foi dar inevitavelmente aos cortes nos consumos domésticos. E ao do papel higiénico em particular. Primeiro cortaram no perfumado, depois no colorido, a seguir reduziram as exigências em termos de maciez e depois de densidade. Ambas concordaram que mais baixo já não é possível descer.

                        Adenda: Publicado este post, mão amiga diz-me que ainda é possível descer mais baixo.

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                          Amor em tempo de revolução

                          Para Baku

                          Quem experimentou viver a um mesmo tempo o poder do amor e o da crença na ideia da revolução redentora sabe o que significa ter na mão o futuro, todo o futuro, o próprio e o da humanidade inteira, incandescente, combinado num único destino e numa só certeza. Em Baku, Olivier Rolin conta a propósito desta sorte um episódio que retirou de um texto autobiográfico de Banine, a escritora francesa de origem azeri. Quando em 1920 o poder dos sovietes chegou à região, Banine e uma prima, ambas com quinze anos, «uma tímida e a outra estouvada», as duas muçulmanas e filhas de ricaços locais, deixaram-se seduzir pelos ideais e pelas figuras esguias de dois jovens bolcheviques, revolucionários ateus, recém-chegados de longe para tratar das expropriações. Foi pois «de emblema de Lenine espetado nos vestidos de verão» que na altura aceitaram fazer parte da comissão incumbida de inventariar as vivendas da sua própria família. Não pensaram duas vezes nas consequências da sua escolha, embora depois acabassem por perder os namorados, as propriedades e a própria terra onde haviam nascido. Não podiam tê-lo pensado naquele momento das suas vidas.

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                            A contar até doze

                            Estou a ficar preocupado. Em todos os finais de ano, nas resenhas de obituários que acompanhavam os suplementos dos jornais e das revistas, encontrava sempre mortos relevantes de cujo passamento não me havia apercebido ao longo das restantes cinquenta e uma semanas. Ocupado com os ritmos ardentes, com os momentos e os pormenores, esquecera as partidas de alguns dos notáveis, ou dos notados, cuja vida pública algures havia tocado à tangente o meu modo de tomar consciência do tempo. Este ano, não, nem um só dos admiráveis recém-falecidos escapou à minha atenção. Quando começamos a olhar em excesso para as páginas das necrologias, isso quer dizer, creio, que estamos a ficar velhos ou a precisar de férias. Ou de nos sintonizarmos noutro comprimento de onda.

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                              Anjos da paz dos lares

                              anjos

                              No meio das propostas surpreendentes que todos os dias chegam à minha caixa do correio-e, uma mais recente, enviada por uma firma de detectives brasileiros, garante resolver o problema de quem se possa sentir «desconfiado que está sendo traído pelo e-mail ou bate-papos online». Nela se avisam também os potenciais clientes de que não vale a pena tentar tratar com a empresa de assuntos vulgares, de reduzida magnitude social, como fraudes financeiras ou o roubo de cartões de crédito, uma vez que só aceitam «serviços para investigação sobre adultério e infidelidade na Internet». Tratar-se-á com toda a probabilidade de um conjunto de pessoas de elevadíssimos princípios morais, profundamente zelosa da paz dos lares e da preservação compulsiva da família.

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                                Discutir o futuro

                                Marie-Anne de Roumier Robert (1705-71), referida algumas vezes como «escritora feminista francesa», inventou o Reino de Futura no «conto moral» Les Ondins, publicado três anos antes de morrer. Situado não se sabe onde, para se lá chegar tornava-se imprescindível percorrer ao acaso uma estrada longa e repleta de obstáculos. Depois era necessário cruzar oito portas metálicas, a última das quais em ouro, encontrando-se todas elas protegidas por dragões, chamas, gigantes, serpentes aladas, sereias e uma fénix. Transposta a última porta, o viajante deveria então purificar-se atravessando um pequeno lago. Só então poderia penetrar no Reino. A vida que ali encontrava parecia-lhe, num primeiro olhar, justificar todos os trabalhos e sacrifícios pelos quais passara: os habitantes de Futura experimentavam uma imensa e infinita paixão pelo futuro. Mas cedo o viajante percebia os limites daquele aparente bem-estar, pois as constantes discussões sobre as formas que tal futuro tomaria impediam-nos de viverem felizes. Todavia, não sabiam viver sem elas.

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