Arquivo de Categorias: Devaneios

O viajante equivocado

Ao contrário dos guias turísticos oficiosos, organizados para impor, como um produto, uma leitura uniforme dos lugares e dos comportamentos daqueles que os habitam, os relatos de viagem, principalmente aqueles escritos pelos viajantes solitários, são sempre desordenados, tendenciosos, plenos de enganos. Observam apenas o que é dado a ver aos seus autores a partir de escolhas forçosamente pessoais e aleatórias, das circunstâncias móveis de uma presença que é fugaz, das trajetórias escolhidas em função daquilo que pode observar quem se desloca por sua conta e risco, sem roteiro estabelecido.

Este é o aspeto tomado pelos registos nos quais o poeta e viajante escocês Kenneth White (n. 1936) tem vindo a narrar as suas experiências de observação «geopoética» – a um tempo territorial, filosófica e poética – aplicadas aos lugares que entendeu percorrer à sua maneira. Sempre com a certeza de que «o nómada não segue para qualquer lugar», pouco lhe importa o fim, o destino, mas sim a experiência irrepetível do próprio movimento. Aquilo que apenas ele vê. Não deixa, apesar disso, de surpreender a descrição que faz de Portugal num capítulo do seu livro Across the Territories. (mais…)

    Apontamentos, Devaneios, Olhares

    Dezasseis anos depois

    Uma das amigas do Facebook que não conheço apenas da persona que sugere o seu avatar, lembrou-se de como poucos dos muitos que visitaram a Expo-98 se recordarão hoje do que lá foram fazer. E de que ninguém com menos de 20 anos saberá sequer dizer que coisa foi o evento. Ocorreu-me entretanto que em 2006, para testar a velocidade do esquecimento dos meus alunos, perguntei num curso que acontecimento tivera lugar em Portugal no ano de 1998 que, projetado também numa dimensão internacional, pela positiva ou pela negativa suscitara a atenção da generalidade do país. Nenhum foi então capaz de referir a Expo, e só depois de eu ter revelado a resposta alguns se lembraram de a ter visitado. Embora já quase o tivessem esquecido. (mais…)

      Apontamentos, Cidades, Devaneios, Olhares

      Quaresma light

      Fotograma de A Vida de Brian
      Fotograma de A Vida de Brian

      Talvez seja um sinal dos tempos, daqueles que o Criador estabeleceu para nos lembrar que tudo passa e um dia seremos – nós, as nossas referências, os nossos gostos – apenas pó. Mas a verdade é que, quando numa Sexta-Feira Santa faço uma pesquisa no Google Images, as primeiras quinhentas fotografias que surgem no ecrã são as daquele jogador de futebol de origem cigana, ou então do seu tio, que um dia também equipou de azul mas com a cruz de Cristo ao peito. No entanto, há ainda não muitas décadas, Quaresma era em primeiro lugar o período de quarentena que antecedia a ressurreição de Cristo e se caracterizava pela evocação pesarosa da Sua Paixão. Os cristãos mais rigoristas sabiam que nesse período – uma espécie de Ramadão light – deveriam evitar ingerir carne, comida que em muitos lugares é sinalizadora do excesso de riqueza e do incomedimento. Na minha infância, ainda os Monty Python não tinham filmado A Vida de Brian, a restrição mais habitual cingia-se à Sexta e ao Sábado da Paixão. Mas aquilo que realmente pesava, e tornava aquele tempo particularmente penitencial, era o impedimento, nos programas da rádio e da televisão, de passar outra coisa que não fossem quartetos de câmara, canto gregoriano ou orações, sem uma sinfonia heróica que fosse, ou sequer um episódio da série Bonanza que se visse, para animar. Daí o prazer imenso da manhã pascal, onde quem podia se empanturrava de amêndoas e ovos de chocolate. E já podia ligar a Emissora Nacional para ouvir Nat King Cole cantarolar Quizas, quizas, quizas naquele castelhano imperfeito. Ao menos sob este aspeto, estamos melhor.

        Apontamentos, Devaneios, Olhares

        Um Natal pesado

        O Natal fez sempre parte dos meus calendários. Embora, como acontece com a maioria das famílias portuguesas, a minha não levasse as datas e as práticas do seu catolicismo muito a peito. Talvez por isso a dimensão de sagrado da quadra sempre me tenha sido em boa medida estranha. Nunca assisti a uma «Missa do Galo» e durante anos mantive a convicção que nela se degolava, de facto, um pobre e indefeso galináceo. O meu Natal era feito só de doces muito doces, da ceia noturna, do horror de comer bacalhau (as voltas que a vida dá: agora um prazer), e principalmente dos presentes mais ou menos acompanhados de uns quantos desapontamentos. (mais…)

          Atualidade, Devaneios, Olhares, Opinião

          Os nossos interesses

          De acordo com a lista anual na qual, como vem sendo habitual, a Google anuncia as palavras mais pesquisadas na Internet portuguesa, a atriz pornográfica Érica Fontes bate aos pontos Cristiano Ronaldo, tendo o cantor Tony Carreira ficado em terceiro lugar na classificação das «celebridades». Particularmente interessantes são os filmes mais pesquisados, liderados pelo seminal Velocidade Furiosa 6, logo seguido de Spring Breakers – Viagem de Finalistas. No top da comida e bebida, e contrariando a premiada dieta mediterrânica, ganha o bolo de chocolate, relegando para segundo plano o bolo de iogurte e uma vaga entidade designada «petiscos». Na classificação das marcas de automóvel, a tendência é mais para a mania das grandezas: o primeiro lugar é da Mercedes, seguida da BMW. Não admira pois que um grande número de portugueses – principalmente menores de 25 anos, aqueles que mais utilizam os motores de busca da Internet – se interesse tão pouco pelo seu próprio destino. Ou então, como a aplicação informática mais procurada é o Google Maps, estará já de malas aviadas, à procura de outra pátria.

            Apontamentos, Devaneios, Olhares

            Ser ou não ser

            Um post com quatro anos recuperado do baú das futilidades.

            Quando falamos de nós próprios é difícil esquivar a insolência. Se somos demasiado benévolos parecemos arrogantes, se nos fazemos de humildes ou despretensiosos tudo soa a contrafeito. E se procuramos parecer imparciais fazemos com que a nossa vida pareça um pântano de apatia e displicência. Mas vou correr o risco de desempenhar um desses papéis dizendo que gosto de me ver como um tipo da província. A figura faz-me uns anos mais novo e deixa que me sejam perdoados erros e omissões, bem como uma ou outra quebra das regras de etiqueta. Gosto dela porque me serve de máscara e às vezes de álibi. É pois como provinciano que me repugna um tanto o jogo social que passa pela ostentação da própria singularidade. Naquela atitude a que os decadentistas franceses da segunda metade do século XIX chamavam, à época com relativa propriedade, «épater la bourgeoisie». Ora é esta rejeição visceral do poseur que me fez gostar de ter conhecido um episódio como o relatado por Enrique Vila-Matas no Diário Volúvel. (mais…)

              Apontamentos, Devaneios, Olhares

              Ruído de fundo

              Começou nos estádios de futebol. Depois foram os elevadores. A seguir chegou às lojas de «roupa jovem» e aos autocarros pullman de longo curso. Mais tarde aos hipermercados e aos centros comerciais. Até aí, ainda vá: aceitámos ser constrangidos a ouvir insistentemente, naqueles espaços, música de gosto duvidoso, reproduzida aos berros em lastimáveis sistemas de som. Mas se a ideia inicial era apenas «animar» os cidadãos ou embriagá-los para comprarem mais, o horror ao silêncio – tomado como expressão de um sombrio vazio que é forçoso preencher – tornou-se no presente a causa essencial do constante e frenético ruído de fundo, das vagas de alarido supostamente ritmado, intragável para quem gosta de sossego, de conversar ou apenas de ouvir música com qualidade estética, equilíbrio acústico e adequada às circunstâncias.

              Agora entramos em cafetarias de museu, galerias de arte ou livrarias, espaços tradicionalmente reservados – mas a tradição já não é o que era, bem sei – à reflexão e ao alimento do espírito, e temos de ouvir «Apache», o velho tema dos Shadows, em versão-sucedâneo de Waldo De Los Rios ou de Ray Conniff & His Orchestra and Chorus. Ou então antigas canções dos Creedence Claearwater Revival passadas de forma aleatória. Ou ainda decrépitas antologias de b-sides da Tamla Motown e temas esquecidos do Top of the Pops. É demais. Apetece perguntar: para quando drum’n’bass nas repartições de finanças? E quando teremos techno ou trance com a amplificação no máximo nos cemitérios? Para animar os cidadãos mais sorumbáticos e introspetivos, claro. Os utentes sempre poderão seguir o ritmo e esquecer-se de que estão a matá-los. Ou mesmo de que já estão mortos.

                Apontamentos, Devaneios, Olhares

                Santos e a modernidade

                Joyce em 1915, pouco depois de começar «Ulisses»

                Numa entrevista assombrosa que concedeu ao diário i – assombrosa pelo vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil que exibe, mas também pelo caráter desestruturado e algo rústico do próprio discurso – o jornalista, professor e so-called escritor José Rodrigues dos Santos saiu-se com esta: «Ah, uma pintura de Picasso é bonita? Não, não é bonita. Nem Picasso queria que fosse. Ele está a cultivar o feio. Stravinsky faz música que são guinchos. O truque está justamente aí. Isto contagia a literatura. Ler o Ulisses do Joyce é um exercício de masoquismo. Ele leva duas páginas a descrever um armário.» Não estão em causa os interesses de Santos ou os gostos das muitas pessoas que apreciam os seus romances, muitas vezes a única escrita que reconhecem como literatura. Mas já é inaceitável, para alguém que tem um perfil público e, além disso, é docente universitário, a apresentação de uma crítica da estética do modernismo tão primária e, ademais, superada há já perto de um século. Desvalorizando, como se nada se tivesse entretanto passado na história da cultura, a dimensão positiva da subjetividade nos processos de produção e de consumo da obra artística ou literária. Mostrando-se indiferente, com a ligeireza do ignaro, aos criadores e aos públicos que a recolheram, viveram ou vivem como uma dádiva. Uma observação projetada, afinal, na dimensão do que era ainda o senso comum e do que definia a estética dominante no tempo dos nossos bisavós. Já quanto à obra de Joyce que menciona, talvez pela complexidade monumental da teia de palavras, referências e jogos que ela oferece, por certo areia em demasia para a camioneta que conduz, mais valeria a Santos manter-se em silêncio.

                  Artes, Atualidade, Devaneios, Olhares

                  Humor e resistência

                  Conta o ator e apresentador australiano Ben Lewis que uma das fontes das quais se serviu para escrever «Foice e Martelo», um divertidíssimo livro sobre o manancial de piadas que circularam à socapa por todo o leste europeu antes da queda do Muro de Berlim (edição portuguesa da Guerra & Paz), foi «1001 Anedotas», volume da autoria do professor eslovaco Jan Kalina publicado em 1969 na cidade de Bratislava. Nele se compilavam pequenas histórias que corriam nos países do «socialismo realmente existente» satirizando os vícios dos regimes de partido único e dos seus burocratas. Vale a pena retomar a pequena história desta obra e dos efeitos que ela teve na vida do seu autor. (mais…)

                    Apontamentos, Democracia, Devaneios, História, Leituras

                    Carros franceses

                    Numa das conversas de teor autobiográfico com Timothy Snyder que fazem parte de Pensar o Século XX, um dos seus últimos livros, Tony Judt, educado principalmente em Londres, falou a dado momento da sua relação familiar com a França e com os carros franceses. O seu pai era um grande apreciador da marca Citroën, por motivos que só mais tarde compreendeu: os fundadores da marca eram, como os pais do historiador, de origem judia. Por outro lado, o velho Joe Judt não se inibia de dizer que jamais conduziria um Renault, uma vez que Louis Renault fora um colaboracionista, simpatizante confesso do regime de Vichy, tendo por isso visto a firma ser nacionalizada quando da Libertação. Quanto aos Peugeot, eram olhados com alguma indiferença mas sem animosidade, uma vez que eram de linhagem protestante e não estavam por esse motivo implicados no antissemitismo católico da França de Pétain. O que Tony Judt nunca terá sabido foi da influência de um veículo Citroën – o nefando BX com o qual em 1985 chegou ao Congresso do PSD na Figueira da Foz – na desastrosa ascensão ao poder, em Portugal, de Aníbal Cavaco Silva. Homem inteligente e de esquerda como era, se o soubesse talvez aceitasse contrariar o gosto paterno.

                      Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Olhares

                      «Per’aí!»

                      Estamos já, aqui no retângulo, bem entrados no âmago da fase «Per’aí!». Depois de duas horas passadas a ver na televisão debates sobre a atual situação política, pode concluir-se que, independentemente do quadrante a que pertencem, todos os comentadores seguem a mesma linha de raciocínio. Dispõe-se ela por sete etapas, sucessivas e muito rápidas, que passo a enumerar.

                      1º) Faz-se a arqueologia da crise, que remonta aos tempos remotos (há 17 dias já, repare-se bem!) em que Vitor Gaspar escreveu uma carta de demissão; 2º) Resume-se o último discurso de Aníbal António Cavaco Silva; 3º) Colocam-se os diversos cenários plausíveis para uma solução minimamente racional do imbróglio causado pelo mesmo Aníbal António; 4º) Conclui-se rapidamente que nenhum desses cenários é certo e seguro («salvo seja»); 5º) Diz-se porém «a não ser que…» e avança-se com uma ideia mais ou  menos estapafúrdia; 6º) Breves instantes de risota geral e vários encolher de ombros; 7º) Finalmente, alguém ergue um dedo e diz «Per’aí!», concluindo, com o aplauso geral, que a tal ideia estapafúrdia até pode vingar. «A não ser que…», naturalmente. E tudo recomeça no debate seguinte.

                      Uma conversa de manicómio ao pé disto será sempre qualquer coisa de tremendamente enfadonho e carente de uma dose razoável de imaginação delirante.

                        Apontamentos, Atualidade, Devaneios

                        Fases

                        Nessa época era muito magro, naturalmente tímido e vagamente taciturno, e só lhe apetecia ver filmes franceses a preto e branco. De preferência com sequências filmadas em manhãs de inverno (chuvosas) e actores de estatura mediana que usassem camisolas de gola alta.

                        Originalmente publicado em Julho de 2007.

                          Apontamentos, Cinema, Devaneios, Ficção

                          Alien e Toninho

                          Estão a ver aquela criatura alienígena, altamente agressiva, que persegue e mata a tripulação de uma nave espacial no filme Alien, o 8º Passageiro, dirigido em 1979 por Ridley Scott? No enredo, a única forma de lhe sobreviver é destruí-la, já que na sua matriz estão uma agressividade congénita e uma vontade de morder, de matar, impossíveis de controlar, só saciadas do sangue e da carne de um ser humano se encontrarem outro a quem decepar, trucidar, mastigar e sorver. Agora imaginem que o realizador do citado filme de ficção científica era português e chamara Toninho ao monstro intergaláctico. Seria inevitável que em relação a um eventual desejo de vingança pelos crimes que este cometera se contrapusesse, entre os espetadores, um sentimento de culpa por num certo momento lhe quererem mal. Para mais sabendo-se, como se sabe, como quase todos os rapazes maus homónimos, os Toninhos humanos deste mundo, são recuperáveis, desde que se lhes dê, independentemente de serem ou não psicopatas, a dose certa de carinho e mais uma oportunidade. (mais…)

                            Apontamentos, Devaneios, Opinião

                            A responsabilidade da Samsung

                            Volto ao caso público do vídeo da Samsung que se tornou viral e inflamou uma parte do país nas últimas 24 horas. Em verdade digo, a quem nunca teve desejos fúteis e fetiches por objetos, que atire a primeira pedra à jovem Filipa «Pépa» Xavier por esta ter revelado como maior desejo para 2013 a aquisição de uma mala. Não uma mala qualquer, claro, mas uma daquelas pretas da Chanel, modelo Timeless Classic, que, para além de medonha (gostos não se discutem) e pouco prática, ascende a um custo, consoante o tamanho, que ronda entre os 2990 e os 3750 euros. Se volto a este episódio completamente banal é por me parecer terem os jornalistas e comentadores que o abordaram interpretado a partir do lado errado a onda de gozo e indignação que rapidamente o envolveu. Não, estão enganados, aquilo que caiu mal a muitas pessoas não foi o facto de a moça ter uma certa «gana de mala», que a própria, aliás, reconheceu logo como algo consumista. Nem sequer o ter proclamado publicamente tal raça de apetite num tempo em que a maioria dos portugueses faz contas, ou começa a fazê-las, ao dinheiro para pagar as necessidades mais elementares. Caiu mal e tornou-se confrangedor, sem dúvida, aquela exibição obscena, pretensamente estilosa, de tolice e de falsa politesse, mas o que aconteceu de realmente grave tem passado ao lado dos comentários. Apesar de ser tão simples detetá-lo. Grave e inaceitável foi antes, foi mesmo, o facto de uma empresa como a Samsung apresentar como modelo de um certo charme e como instrumento de apelo à compra dos seus produtos a exibição despudorada de uma total ausência de sensibilidade social.

                              Apontamentos, Devaneios, Etc.

                              Imaginem lá

                              Lembro-me bem de todas as meias-noites da mudança de ano. Mesmo nos momentos difíceis, ou naqueles mais tristes, sem presságio de futuro ou com morte próxima, elas aconteceram em ambientes partilhados de bem-estar e de esperança. Até aquela, irrepetível, passada enregelado e à luz de uma vela, na casa clandestina, a comer fatias de um bolo-rei minorca misturadas com cerveja choca. Quando a televisão mudou os hábitos e, no tempo do regime velho, se passou a mostrar ao povo o réveillon dos ricos, de fato completo ou vestido de noite – exibindo alegria de circunstância entre cornetas de plástico, serpentinas, chapéus cónicos, pandeiretas e línguas de sogra –, havia ainda assim uns minutos para sair à rua e olhar os artifícios de fogo lá no alto, no céu. E para ouvir os cláxones dos carros, as pancadas nos tachos e nas panelas, os votos gritados de bom ano, os estampidos secos das rolhas, sob o clarão festivo da luz pública.

                              Este ano, porém, e pela primeira vez, fui à varanda para dar de caras com um quase silêncio, a rua quase deserta, as janelas com as cortinas corridas, uns petardos pobres, isolados e sem graça alguma, a fazer de conta que assinalavam um momento especial. Engoli então a minha dose de passas com uma sensação de perda. Aquilo que estamos a viver faz-nos assim, mais tristes e semi-mudos, menos esperançosos, mais pobres e inevitavelmente inseguros, enquanto escutamos aqueles que escolhemos para organizarem a esperança de todos a prometerem-nos o pior. Se não para todo o sempre, dizem eles de olhos no chão, seguramente até ao fim das nossas vidas. E das vidas dos que vierem depois. Expiando, porque merecemos, o pecado de termos um dia confiado em que a cada trânsito do calendário se seguia um futuro. Um futuro melhor, mais feliz, imaginem lá. Imagine-se lá.

                                Apontamentos, Democracia, Devaneios, Olhares

                                Crime na estrada

                                Já conheci um mecânico de automóveis, por acaso ainda um meu parente, que desmontava, reparava e lubrificava motores, testando-os depois no meio do trânsito em hora de ponta e recorrendo com insistência ao uso da buzina, sem jamais ter possuído carta de condução. Agora pude ver mais longe na lógica do empreendedorismo sem barreiras e do crime consciencioso aplicado aos assuntos do asfalto: na LER deste mês, o fazedor de livros Vítor Silva Tavares (ele não gosta que lhe chamem editor e eu faço-lhe a vontade) conta ter trabalhado em Angola como «engenheiro» examinador dos candidatos a condutores encartados… sem sequer saber guiar.

                                  Apontamentos, Devaneios, Olhares

                                  Distopia 1838

                                  No Dictionnaire des Lieux Imaginaires, Alberto Manguel recorre a uma fábula de Edgar Allan Poe publicada em 1838 para descrever a terra do Silêncio terrível e atraente, naturalmente ficcionada mas nem por isso menos temível. Muito longe ainda dos devaneios ecologistas que no Ocidente despontarão bastante mais tarde, exprime-se aqui, em plena era da afirmação do capitalismo industrial, a sensação do carácter aflitivo, constrangedor, de uma natureza estagnada. A felicidade que muitos concebiam ancorava então no triunfo da máquina, no convívio com o fumo negro das enormes chaminés, no contacto diário com o ruído e a limalha de ferro. Apesar do empolgamento de alguns românticos com a nostalgia da natureza, nada parecia mais estranho, medonho, demoníaco, do que um mundo completamente mudo e paralisado.

                                  SILÊNCIO. Região da Líbia, delimitada pelo rio Zaire, cujas águas, amarelentas e insalubres, jamais atingem o mar, palpitando eternamente sob o Sol, numa efervescência convulsiva. Ao longo de quilómetros o leito do rio encontra-se juncado de gigantescos nenúfares. A região sufoca debaixo de uma floresta maléfica e sombria, com flores envenenadas e uma vegetação rasteira perpetuamente agitada, apesar da ausência de vento. Na margem do rio existe um grande rochedo cinzento no qual um conjunto de caracteres gravados forma a palavra Desolação. Todo o país vive debaixo da maldição do silêncio. A lua permanece imóvel e relâmpago algum perturba o céu, no qual as nuvens permanecem sem trânsito algum. Experimenta-se ali a angustiante sensação de vivermos atacados pela surdez e reduzidos a um total mutismo.

                                    Devaneios, História, Olhares

                                    O triunfo do oxímoro

                                    Depois da «abstenção violenta», a suave ameaça de António José Seguro que permanecerá durante algum tempo na nossa memória breve, António Capucho fala-nos agora de um «lapso monumental» a propósito da extinção, anunciada pelo governo liquidatário em exercício, da Fundação Paula Rego. O nosso tempo assiste ao triunfo do oxímoro.

                                      Devaneios, Etc., Olhares