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Tudo ao monte

RSS

Como muitos sabem, a tecnologia RSS serve para agregar conteúdos originários de diversas fontes, permitindo aos utilizadores da Internet, através de programas ou de sites vocacionados para a função, reunir num único lugar informações provenientes de serviços que mudam ou se actualizam regularmente. O sistema tem já alguns anos e é extremamente útil para quem deseje estar a par das novidades associadas a sites de notícias, a blogues, etc., sem precisar de visitá-los a toda a hora e um a um. Sirvo-me dele há bastante tempo e tenho a certeza de que se não fosse dessa forma muita da informação à qual consigo aceder passar-me-ia completamente ao lado. Já nem sei, por exemplo, ler blogues de outro modo, uma vez que é impossível visitar, semanalmente sequer, muitos daqueles que me agradam ou que me podem ser úteis. Leio então os cabeçalhos e as primeiras linhas no agregador e depois, se o assunto e o tom me interessarem, viajo até à fonte.

O processo não me trazia problemas até há pouco tempo, mas agora as coisas mudaram. Explico-me: os computadores tablet permitem instalar agregadores – como o Early Edition ou o Flipboard, para falar dos que tenho no iPad – que se comportam como verdadeiros jornais em papel ou portais de notícias, com uma disposição gráfica e processos de leitura e de apreensão da informação idênticos aos tradicionais. Até aí tudo bem, não fora toda a informação, apesar de condicionada pelas nossas escolhas, surgir ali de uma forma algo aleatória. Significa isto que aparecem referências e notícias chegadas da BBC, da Reuters ou do El País, lado a lado, e sem hierarquia visível, com aquela que é fornecida por um blogueiro da Marmeleira ou um enragé de Almofarizes de Cima (sem ofensa para os enragés de Coimbra). Isto é, novidades provenientes de agências ou publicações credenciadas visualmente misturadas com aquilo que possa escrever, num repente e sem intermediação, um cidadão alfabetizado e infoincluído. Desconfio que isto ainda vai provocar transtornos em muitas cabeças.

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    Armadilhas do PowerPoint

    PowerPoint

    Fui e sou um utilizador prudente do PowerPoint. Pareceu-me desde o início um expediente útil mas potencialmente negativo, por simplificar aquilo que é complexo, por transformar com dois cliques o que é trama, o que é novelo, numa fórmula perfeita ou em rede de linhas demasiado regulares. O estilo de operação ao qual o seu utilizador recorre tem passado muitas vezes por «pedagógico» e é justamente aqui que se situa a fonte da minha desconfiança. Debati este tema há algumas semanas durante uma aula de mestrado e por um acaso – ou talvez não – dias depois encontrei na Visão uma entrevista com o jornalista francês Franck Frommer na qual este vem ao encontro das minhas dúvidas. A entrevista saiu a propósito do lançamento, pela La Découverte, de um livro de Frommer cujo título é todo um projecto: La pensée PowerPoint – Enquête sur ce logiciel qui rend stupide (O pensamento PowerPoint – Inquérito sobre este programa que estupidifica). O autor considera-o de facto um dispositivo perverso: «Dá a ilusão de criatividade, mas, ao mesmo tempo, é constrangedor. Pouco permite sair de um fio condutor linear e não favorece a interactividade. Parece muito ‘científico’ embora seja simplista. Como transforma toda a argumentação em listas de pontos, impede o debate. Inventa laços de causalidade artificiais.»

    Algumas pessoas poderão dizer que isto é verdadeiro, mas que, em contrapartida, nas actividades da sala de aula ou durante uma conferência o recurso ao programa responde também às dificuldades de percepção dos alunos ou do público, podendo ainda, como um teleponto, ajudar o orador a ser mais claro, metódico e convincente. Existirá um grau de verdade nisto, sem dúvida. Mas podemos e devemos também colocar o problema ao contrário: não convidará a simplificação induzida pelo recurso sistemático a este dispositivo à preguiça de quem comunica e à passividade de quem ouve? não fará ela com que se vá perdendo o treino na percepção de formas complexas de pensamento e no desenvolvimento de uma capacidade retórica rica e sofisticada, integrando quem assiste num plácido e silencioso rebanho de carneiros? Sei que uma resposta cabal as estas perguntas não pode inferir-se de uma mera opinião individual, mas eu penso que sim. É quase sempre assim que acontece. E por isso vou continuar a usar o PowerPoint muito moderadamente, desligando o projector logo (ou sempre) que possível.

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      Meio milhão

      500.000

      Há dois dias este blogue ultrapassou o meio milhão de visitantes. Em números mais ou menos rotundos isto significa uma média de quase 300 visitas únicas diárias ao longo de um pouco menos de cinco anos. Já a visualização total de páginas por dia, essa ronda as mil. Para um blogue a solo que quase não fala de política local, das chicanas da blogosfera, de sexo explícito ou das transferências do futebol, que mantém um registo relativamente intimista e um padrão de escrita pouco popular, não parece nada mau. Aliás, quando o número de visitantes quotidianos ultrapassa os quinhentos pigarreio um pouco e penso logo que alguma coisa não está bem. Dá portanto para as despesas. Isto é, para manter noite adentro, extorquindo horas ao sono, entre cigarros e bebidas quentes, o prazer de escrever para pessoas que se aqui entram uma vez e depois regressam é porque se sentem bem. É sobretudo para elas – algumas transformadas entretanto em amizades das verdadeiras – que segue um imenso abraço. Acompanhado de um obrigado pela companhia e pela persistência.

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        É só fazer as contas

        ipadnews

        Se mais razões não existissem para a compra de um iPad – e existem, como já escrevi noutro post – descobri uma há cerca de oito dias. Esta definitiva para um viciado em jornais como eu. Admito que não serei um leitor vulgar: aprendi a ler pelo velho Diário de Notícias e talvez por isso não mais fui capaz de passar um único dia sem diários, semanários, quinzenários, mensários ou similares. Raramente apenas um, em muitas alturas dois, três ou bem mais. Bastantes vezes, fiz quilómetros a pé ou de bicicleta para descobrir quiosque, livraria, café, mercearia ou barbearia que fizesse o favor de me vender um exemplar. Não se tratando de uma mania universal, não é no entanto uma extravagância, pois muitas outras pessoas partilham este género de dependência. A leitura de jornais através do computador pessoal não veio alterar substancialmente este estado de coisas, uma vez que a leitura é ali algo incómoda e parcial. Além disso, para termos acesso às edições completas precisamos quase sempre de pagar sucessivas assinaturas, que muitas vezes nem temos sequer a possibilidade de aproveitar pois não é a toda a hora ou em qualquer espaço que podemos ler o jornal naquele formato.

        O iPad veio alterar esta situação, colocando-nos em cima dos joelhos, quando e onde quisermos, o jornal ou a revista que pretendemos. Mas por-se-ia ainda assim o problema dos custos, não é verdade? Pois não é não senhora. Para além de assinaturas de publicações autónomas a um preço módico – por exemplo, pago 7 euros mensais por 4 números da edição francesa do Courrier International e acesso total ao arquivo da revista – existe um programa e um serviço para iPad (também existe para smartphones, mas aqui não se lê tão bem) que descobri há pouco e me deixou rendido. O programa chama-se PressReader e permite-nos aceder, por uma assinatura que custa 25 euros mensais, à edição completa, igual à edição em papel e com a possibilidade de copiar, guardar, imprimir ou partilhar qualquer artigo, de cerca de 1.700 publicações de todo o mundo. Como dizia alguém, é só fazer as contas: subscrevo neste momento o Público, o DN, o JN, o Expresso, a Folha de S. Paulo, o Guardian, o Irish Times, o Le Monde (o El País e o NYT ainda não aderiram, mas têm aplicações grátis próprias) por um total de 25 euros. Ora só o Público em papel, comprado no quiosque, ficava-me antes por cerca de 35. Chega para testemunhar a alegria de um viciado, a quem, além do mais, acabam de cortar 10% do ordenado? Resta ter tempo e disposição para esta orgia de informação, mas esse é um outro assunto.

        [demonstração aqui]

          Atualidade, Cibercultura, Novidades

          No olho do vulcão

          Túnis

          Nawaat – a palavra significa «núcleo» em árabe – autodefine-se como «um blogue colectivo independente animado por tunisinos que dá a palavra a todos aqueles que pelo seu combate cívico a tomam, proferem e difundem». Tem publicado centenas de textos, fotografias e principalmente vídeos sobre o movimento popular de protesto que desde meados de Dezembro tem percorrido a Tunísia. É independente, não aceitando qualquer subvenção partidária. No ar desde 2004, foi desenvolvendo ao longo destes últimos seis anos a dose de engenho e de arte bastante para contornar a censura imposta pela ditadura de Ben Ali. E foi agora instrumental no lançamento e na organização dos protestos. Editado em inglês, francês e árabe, pode ser visitado aqui.

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            Kindlemania (o epílogo)

            ipadkindle

            Ficou prometido há semanas um último post sobre a minha experiência com o Kindle. Para além das voltas da vida que se dão bem longe dos computadores e da Internet, as razões da demora são duas. A primeira: estava mesmo decidido a escrever o derradeiro comentário apenas quando a minha experiência com o leitor de livros da Amazon estivesse consolidada. Creio que agora já está. A segunda: depois de algumas dúvidas, acabei por comprar também um iPad, que, tal como tinha dito e agora confirmo, não concorre com o Kindle mas disputa um campeonato diferente. Queria ter alguma experiência com a máquina da Apple que me deixasse formular uma comparação minimamente justa. Acho que já a posso fazer.

            Estava então a preparar-me para escrever este post quando chegou uma notícia perfeita para ilustrar aquilo que pretendia dizer. Segundo um estudo realizado nos EUA pela JP Morgan, 40% dos possuidores de um iPad têm também um Kindle, enquanto outros 23% contam adquirir um durante os próximos 12 meses. Apesar de separado pelas profundezas do Mar Oceano, estou assim próximo dessa massa anónima de aparentes ou reais geeks. As razões invocadas pela maioria explicam o desperdício que esta duplicação parece representar. O preço comparativamente bastante baixo do Kindle é uma delas, sem dúvida, mas ainda assim não será suficiente para explicar os números apresentados. No entanto, as coisas mudam de figura quando os utilizadores de ambos os aparelhos falam das vantagens deste último como leitor de e-books: muito mais leve, bastante mais pequeno, com uma autonomia de bateria soberba, com uma superior legibilidade de texto devida à tecnologia e-ink e sobretudo com vocação para a leitura solitária e silenciosa, sem e-mails que chegam, feeds que apitam, música que toca, imagens para ver ou retocar, documentos para escrever, revistas para ler ou sinais de vida das redes sociais que se agitam. Como acontece a quem tenha um iPad ligado entre as mãos.

            A máquina da Apple é de uma utilidade extrema – nada do simples brinquedo para adultos do qual fala quem fala de cor ou viu só por alto – e devo admitir, sabendo que não sou o primeiro a quem isso aconteceu, que a partir do dia em que a adquiri não mais saiu de casa o meu pobre e provavelmente abandonado netbook. Mas a confiança, e até a cumplicidade, que sentia – e continuo a sentir, se é que é preciso dizê-lo – pelo velho livro em papel que me preenche a vida e recheia as paredes, essa cedi-a ao Kindle, não ao iPad. Pelo menos por enquanto, pois nestas coisas das tecnologias de ponta (e mola) diz a experiência que é sempre bom acrescentar um «sei lá» a qualquer afirmação categórica.

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              O espelho mágico

              Facebook for two

              Tal como aconteceu com milhões de pessoas, só em 2010 transformei realmente em hábito a experiência do Facebook. Tendo servido de batedor na utilização da Internet fora dos centros de computação, usando-a diariamente a partir de 1994, passei por diversas fases, tanto na rotina dos processos técnicos quanto nas vias e expectativas da comunicação partilhada que é a sua essência funcional. Primeiro foi o pequeno grupo de pessoas conhecidas, saído ainda das antigas redes universitárias. Depois um colectivo alargado, com uma dimensão territorialmente ampliada mas com um volume de participantes e de tráfego que assegurava um estilo próprio do grupo reservado. O grande salto veio de seguida, no período das revistas electrónicas – geri uma entre 1996 e 2002 –, com a tentativa de usar uma ferramenta barata para chegar a um grupo ampliado mas ainda identificável. A quarta etapa arrancou por volta de 2004, com a generalização do acesso à rede, a impessoalização de uma grande parte dos contactos e depois o crescimento da opinião partilhada introduzido pelos blogues. Ao longo das quatro etapas resisti sempre a participar nos modos de comunicação em tempo real, como chatrooms, o IRC, o MS Messenger ou, bem mais próximo, o Hi5. Para ser sincero, pareceram-me sempre espaços de conversa que substituíam de maneira bastante artificial a velha e calorosa prosa de café. Com a agravante, dada a ausência de rostos, de desresponsabilizarem as pessoas pelo que escreviam/diziam, dentro de um clima um tanto insalubre, pouco compatível com a reflexão, a reserva, o prazer e a disponibilidade de cada um.

              O apelo do Facebook foi diferente. Apesar do carácter egotista e publicitário dos processos usados e de muitos dos conteúdos, apesar do apelo à atitude compulsiva que bastantes vezes projecta, apesar da capacidade para arremessar para o domínio do público aquilo que cada um até agora ciosamente guardava no campo do privado – «Facebook is watching you», avisava há tempos um título da Manière de Voir –, a diversidade de processos que combina tem permitido a construção de pequenas comunidades. Capazes, sobretudo antes de se chegar ao ponto em que o número de «amigos» ultrapassa o razoável transmutando o grupo em multidão, de partilhar experiências, prazeres, informações, ideias e causas. Philippe Rivière chamava-lhe há dias «espelho mágico», mas esta magia contém os mesmos dois flancos magnéticos de todas as magias: a manipulação e o encantamento. No entanto, não vejo no segundo nada de necessariamente negativo, desde que quem se deixe encantar o faça conscientemente e no uso da sua liberdade. Claro que já é mais perigoso e movediço esse lado obscuro dos «amigos» mirones que não escrevem mas registam o que escrevemos, que usam a plataforma como mera tribuna pessoal ou partidária, que ignoram a dimensão lúdica deste instrumento recuando diante da menor frase mais livre ou intimista. Mas nada disto é novo e onde há muita gente a complexidade humana sempre exponencia tanto as suas qualidades quanto os seus defeitos, aproximando, separando e reagrupando. No que me diz respeito, quando o registo informativo e questionador, divertido e cúmplice, deixar de ser possível, trocarei de arquipélago. Até lá, e enquanto o hábito não tolher a liberdade, acredito que me mantenho num caminho transitável. Com alguns recantos acolhedores.

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                Para dar o exemplo

                WikiLeaks

                Já todas as perspectivas concebíveis foram enunciadas a propósito do caso WikiLeaks e dos 250.000 documentos secretos disponibilizados pela organização ao El País, ao Le Monde, à Spiegel, ao Guardian e ao New York Times – curiosamente, o que não tem sido sublinhado, todos eles situados de alguma forma à esquerda do espectro político no panorama editorial dos respectivos países –, que os tratam e vão revelando ao mundo a gonta-gotas, de acordo com critérios e objectivos que só as suas direcções conhecerão. Um dos últimos pontos de vista, e também um dos mais divertidos, é o de Fidel Castro, para quem o episódio «pôs os Estados Unidos de joelhos» mas serve também os interesses de um punhado de meios de comunicação «pró-fascistas» que recorrem a ele «para atacar os países mais revolucionários». Entretanto, as primeiras abordagens foram naturalmente bastante simples e epidérmicas, e admito que um tanto distraidamente partilhei uma delas. Não a que antecipou um certo êxtase em relação à orgia de informação que se anunciava, mas antes aquela que nos primeiros dados avançados não via nada de mais, de particularmente novo ou de excitante. É verdade que senti, e continuo a sentir, alguma desconfiança em relação ao modo demasiado simples como tudo aconteceu e em relação aos interesses das partes envolvidas (incluindo nestas o trajecto e as motivações de Assange), mas admito que talvez tenha reparado mais no fumo do carburador do que nas condições de funcionamento do motor. Regresso pois ao assunto.

                A maioria dos artigos de jornal e dos posts surgidos em blogues distribui-se simplisticamente por dois grandes campos. O daqueles que vêm no vivaço trintão australiano um novo Che, talvez menos fisicamente atraente mas não menos bravo, e entendem que tudo deve ser dito a toda a gente. Embora alguns dos que defendem este ponto de vista ressalvem a existência de Estados com governantes gloriosamente antiamericanos onde o controlo da informação possa ser legítimo. E, do outro lado, o campo dos que entendem que os governos têm todo o direito de escolher o que é informação sensível e de a furtar aos olhares públicos, punindo quem se arrogue a dar com a língua nos dentes. Contra ambos, vejo antes o que alguns comentaristas avisados também já viram: uma coisa é o direito ao secretismo, que é uma prerrogativa de todos os detentores de alguma forma de poder e que nas questões de política internacional pode em muitos casos tornar-se inevitável, mas outra é o dever de os órgãos de comunicação livre darem a conhecer aos cidadãos as informações que lhes dizem respeito e às quais têm acesso. Por outras palavras: os diplomatas e os espiões devem ter cuidado na transmissão da informação sensível com a qual trabalham, mas se o não tiverem ninguém terá de fazer o seu trabalho por eles. Salvo, naturalmente, em situações extremas, quando a circulação de informação crucial pode colocar vidas em jogo. Não é este no entanto, visivelmente, o caso da larga maioria dos telegramas já conhecidos.

                O problema central, aquele que mais nos deve inquietar, bate justamente nesta tecla. Num artigo do último número da Wired escreve-se que «uma imprensa autenticamente livre, liberta de toda a consideração nacionalista, constitui manifestamente um problema aterrorizador, tanto para os governos eleitos quanto para os tiranos.» Uns e outros, distanciados das sociedades que governam e cada vez mais habituados a mandar por decreto, pouco ou nada atendendo ao valor da opinião pública, dão de barato que a boa governação e a boa diplomacia se fazem nas antecâmaras e nos corredores, não na praça pública, destinada apenas, idealmente, ao circo das grandes consagrações. E por isso tanto os incomoda, como incomoda os seus escribas e porta-vozes, que chegue «à cozinha» uma conversa que deveria ter sido mantida na discrição dos gabinetes. Claro que a WikiLeaks não é sinónimo de transparência, nem o seu rosto mais conhecido é propriamente um mártir da liberdade e da democracia radical, mas o que nos deve inquietar não são os resultados e as ondas de choque das suas iniciativas, para as quais quem tem nas mãos o poder dispõe sempre de boas almofadas. O que preocupa é que exista quem queira silenciá-las. Para que os vulgares cidadãos não se arroguem a meter o nariz onde não são chamados. Para que estes percebam que a liberdade de expressão tem limites, fronteiras determinadas por quem pode fazê-lo que «não devem ser ultrapassadas». E para dar o exemplo.

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                  O prémio

                  Capitão Haddock

                  Nos meses longos e intensos que se seguiram à Revolução dos Cravos, a publicidade paga dos jornais encontrou uma invulgar fonte de receita. Muitos portugueses que por um qualquer motivo se viram acusados de terem sido agentes ou informadores da PIDE resolveram declarar em público a sua putativa boa-fé, atestando perante Deus e a Nação que jamais haviam pertencido à famigerada corporação. Um dos casos com mais impacto na época foi o do «Inspector Varatojo», que por se ter servido deste pseudónimo num programa da RTP sobre literatura policial e criminologia se tornou suspeito, como aconteceu aliás com alguns inspectores, estes dos verdadeiros, da Polícia Judiciária, das Finanças ou do Ministério da Educação, de ser agente da PIDE.

                  Evoco este episódio por me ver envolvido numa situação relacionada com a nomeação para «blogger do ano» numa votação promovida pelo programa de televisão Combate de Blogs. Já aqui disse que distingo os presentes dos prémios e que me parece fazerem os segundos algum sentido quando se apoiam num colectivo e exprimem reconhecimento. Como me pareceu ser o caso, não me mexi e até estava a achar alguma piada ao lado puramente lúdico da iniciativa. Não me afligiu sequer a possibilidade longínqua de poder vir a ganhar o referido prémio. A Terceira Noite é um blogue individual, sem comentários – a média de acessos únicos diários desceu aliás quando por motivos de higiene mental acabei com eles –, escrito sem a intenção de falar para toda a gente e mais interessado em estabelecer laços com uma pequena comunidade do que em fazer doutrina e pôr os contadores a girar. Convenci-me por isso de que o número de pessoas que votariam em mim seria sempre residual. Limitei-me a tomar nota e a dormir sobre o assunto, visitando o site uma ou outra vez para acompanhar o jogo para o qual tinha sido convocado.

                  Ora acontece que estando de início num honroso mas modesto lugar a meio da tabela, saltei de repente para um destacado primeiro lugar. Não pulei de alegria pois sabia que ninguém me iria dar um cheque com muitos zeros em caso de vitória. Bem pelo contrário, fiquei ligeiramente preocupado quando constatei que a esmagadora maioria dos votos tinha entrado de forma maciça algures entre as 4 e as 7 da manhã, hora na qual todos os gatos são pardos e, em Portugal, a maioria das pessoas sã de corpo e de espírito se dedica a pôr o seu sono em dia. Daí a correrem suspeitas públicas de se terem instalado «rotativas de IPs» (é quase certo, aliás) ou de eu me dedicar a pressionar cidadãos eleitores maiores e vacinados, foi um passo. Claro que tudo isto vale dois caracóis, mas admito que não gosto de ver-me envolvido em eventuais fraudes para alcançar um qualquer galardão.

                  Como é evidente, as pessoas que estão na origem da votação nada têm a ver com os contornos deste episódio lamentável. Acredito por isso que compreendam ser legítimo que eu mantenha algumas suspeitas – se elas forem infundadas, tanto melhor, mas estou convencido de que o não são – e não goste de me ver atascado em terrenos pantanosos dos quais quero distância. Como diria o Almirante Pinheiro de Azevedo, nosso Capitão Haddock de carne e osso: «É uma coisa que me chateia, pá!»

                  Adenda em 1/1/2011 – Espero não ter de voltar a escrever sobre este assunto (triste, embora não insignificante, dada a sua relativa visibilidade). Relato apenas um episódio que deixo à consideração de quem aqui chegar por causa dos ecos. Nas últimas horas da votação choveram mais umas chapeladas, tendo a última decorrido a segundos da meia-noite, quando seria suposto estar toda a gente a festejar a passagem do ano: nessa altura entraram mais de 200 votos, fazendo com que o meu nome cortasse a meta em primeiro e ao sprint. Como qualquer pessoa inteligente entenderá, só alguém completamente estúpido cometeria uma falcatrua tão óbvia em causa própria. Quanto aos objectivos de outrem, desconheço-os.

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                    Kindlemania (5)

                    ebooks/books

                    Agora que pude usar durante umas quantas horas um iPad passei a tomar como certas algumas das diferenças que já me constava separarem as máquinas da Apple e da Amazon. Não creio, no entanto, que faça muito sentido procurar definir qual o melhor, se o iPad ou o Kindle, uma vez que se trata de aparelhos muito diferentes, com capacidades e objectivos inteiramente diversos. Aliás, fiquei seguro de que poderei vir a servir-me de ambos sem que a dupla escolha venha a impor qualquer tipo de sobreposição ou forma de ansiedade.

                    O iPad oferece mil possibilidades, sendo a leitura de livros e jornais apenas uma delas. Para este efeito, existem numerosas aplicações, uma das quais é até nativa da Amazon, permitindo esta a qualquer leitor começar a ler um livro no Kindle, continuar num computador desktop, prosseguir num netbook e encerrá-lo no iPhone ou no iPad. As marcas deixadas num suporte serão automaticamente reconhecidas no outro. O monitor do iPad é maior e mais brilhante do que o do Kinde, sendo mais fácil, graças ao ecrã táctil, marcar as páginas, virá-las ou fazer anotações. Mas cansa mais os olhos. E dilui a atenção, tantas são as possibilidades ao alcance dos dedos. Além disso, a máquina da Apple é maior e bastante mais pesada do que o Kindle, sendo praticamente impossível segurá-la como a um livro se não a tivermos assente sobre uma mesa ou recostada num tripé adquirido como acessório. Ler na praia ou numa esplanada torna-se pois um tanto penoso, piorando a experiência se existir demasiada luminosidade exterior: o tão falado «efeito de reflexo» existe mesmo no iPad mas é, é mesmo, absolutamente inexistente no Kindle.

                    Insisto pois: o leitor de e-books Kindle aproxima-nos do livro tradicional, cuja abordagem facilita bastante ao libertar-nos de algumas das suas limitações; já o tablet iPad leva-nos para uma dimensão diferente, na qual a cor, o movimento, o hipertexto e o hipermédia, a comunicação com o exterior em tempo real, implicam outra forma de ler, de ver e de interagir.

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                      Kindlemania (4)

                      Kindle

                      O meu «Livro da 1ª Classe» chegou antes de entrar na escola primária e foi na verdade o Diário de Notícias e O Primeiro de Janeiro. Desde que me habituei a eles, e o vício pegou rapidamente, não mais passei um único dia sem a companhia amiga de um ou de vários jornais. Mesmo em viagem ou em férias, mesmo a viver em sítios isolados, mesmo sobrecarregado de trabalho, doente ou em teatro de guerra, sempre arranjei forma, nem que para tal precisasse de andar léguas ou de pedir a ajuda de alguém, de alimentar a mania da informação em papel. Neste caso, a rádio, a televisão ou a Internet nem por um segundo me fizeram mudar de hábitos, sendo o resultado prático da combinação de uns e de outros uma sobredose de informação da qual não me queixo. No entanto, acreditem ou não, o uso do leitor de e-books da Amazon está a fazer-me mudar.

                      Resolvi assinar a versão para o Kindle do Público e do El País, cuja versão em papel conto limitar, a partir de agora, aos dias em que num e noutro se publicam o Ípsilon e a Babelia, suplementos não disponibilizados na versão em tinta electrónica, ou quando saia alguma matéria especial. A decisão resulta de dez dias consecutivos de experiência, durante os quais percebi que a leitura no ecrã de 6 polegadas se adapta muito bem a um padrão que me agrada. Perde-se, é verdade, a leitura panorâmica e o impacto da cor e da imagem, mas ganha-se imenso em capacidade de concentração no próprio texto: não mais perdi uma notícia devido à dispersão dos títulos, as palavras ficam mais próximas dos olhos como as da página de um livro ficam mais próximas de nós do que as de uma folha de jornal impresso, e, sem esforço algum, às 7 da manhã, chova ou faça sol, tenho ambos os jornais automaticamente despejados dentro do leitor, por um preço conjunto que não ultrapassa os 20 Euros ao mês (comprando os dois diários em papel gasto quase quatro vezes mais). Quanto ao «cheiro das notícias», o problema não existe mais, pois de há muito que os jornais em papel deixaram de o ter. Garanto que estou bastante contente com a troca e que, até agora, nem por um minuto tive um acesso de delirium tremens ou me bateu a nostalgia. Vamos ver se não mudo de ideias.

                      P.S. – Um aspecto importante: estas edições dos dois diários não comportam publicidade.

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                      [continua]

                        Atualidade, Cibercultura

                        Kindlemania (3)

                        Ainda o Kindle

                        Mais cedo do que contava, mas em parte porque me têm chegado algumas perguntas de pessoas que estão a ponderar comprar também o Kindle 3, aqui ficam algumas notas práticas sobre o funcionamento do aparelho e a experiência que nestes curtos quatro dias fui acumulando. Relembro que se encontram outras informações no primeiro e no segundo dos posts que já escrevi sobre o assunto.

                        # Insisto num aspecto no qual a Amazon também insiste. Na mensagem que acompanha a própria máquina, lembra Jeff Bezos, o CEO da empresa, que o objectivo é fazer com que o Kindle «desapareça nas nossas mãos», melhorando a velocidade de acesso, a facilidade de aquisição e a capacidade de armazenamento fruídas pelo leitor, mas sem quebrar a «capacidade de dissolver a relação ruidosa com o mundo exterior» que é própria da concepção de leitura que a empresa privilegia. Logo, não se trata de um computador com «bells and whistles», mas sim de uma espécie de gabinete de leitura. A ausência de cor leva também, falo por mim, a um aumento da capacidade de concentração.

                        # É verdade que senti rapidamente a falta da possibilidade de copiar texto e de o enviar por mail para alguém (ou para mim próprio), mas a ideia é mesmo essa. Estão a ver: ninguém manda mails através de um livro em papel ou de um jornal. Uns amarão, outros odiarão. Estou tentado a inclinar-me mais para o campo dos primeiros.

                        # Sim, podemos ler textos em formato PDF, DOC, HTML e outros. No entanto resulta melhor se usarmos um programa de conversão para o formato Kindle, como o Calibre ou mais uns quantos. Este é gratuito e funciona de forma eficaz e transparente. Mas alguns repositórios de textos, como o do Projecto Gutenberg, têm já versões formatadas directamente para serem lidas nesta máquina.

                        # Estou a gostar imenso de ter todas as manhãs no Kindle, por volta das 7 horas e sem mexer uma palha, a edição do El País (sem a maior parte das imagens e sem os suplementos semanais). Fica em cerca de 11 Euros mensais, o que não é nada caro. A New York Review of Books custa 4. Mas podemos sempre testar 14 dias antes de fechar o contrato. E anulá-lo a qualquer momento.

                        # A duração da bateria depende do uso, naturalmente. Estou a usá-la de maneira intensa desde há perto de 80 horas, sempre com o Wi-Fi ligado, e tenho ainda uns 60 por cento da energia disponível. Se se mantiver o ritmo, uma utilização intensa e constante dará para trabalhar uns 10 dias sucessivos sem carga. De acordo com as notícias que chegam, se desligarmos o mesmo Wi-Fi e usarmos tudo de forma moderada este prazo dilatará até às três semanas ou mesmo a um mês. Além disso, a bateria não reproduz o conhecido efeito de «viciamento», tão comum nos computadores portáteis e nos telemóveis.

                        # Se comprarem, não esqueçam a capa. A da própria Amazon, em pele, é perfeita pois protege, quase não aumenta o volume (é como ter um caderno Moleskine clássico na mão) e amplia a sensação de «leitura física».

                        Espero poder fazer um último post sobre o assunto quando tiver um grau de utilização já razoavelmente consolidado. Para já, e sem favor, 4 estrelas em 5.

                        [continua]

                          Atualidade, Cibercultura

                          Kindlemania (2)

                          O Kindle e o amigo

                          Cumprindo o prometido, passo a relatar as primeiras impressões do meu contacto com a máquina-Kindle e com aquilo que com ela é possível maquinar.

                          Começo pela maneira como tudo aconteceu. Fiz a encomenda à Amazon americana por volta das três da manhã desta Segunda-Feira e às nove e meia de Quarta já a campainha tocava para o estafeta da DHL fazer a entrega. Tudo rápido e transparente – pude seguir o trajecto do volume a partir de Cincinnati, Ohio, através do Atlântico e meia Europa fora – superando em eficiência o melhor que poderia esperar. A abertura da caixa fez crescer a boa impressão: o aparelho é ainda mais bonito e leve do que a propaganda anunciava, e a capa em pele, vendida pela própria Amazon, adapta-se perfeitamente, quase sem aumentar o volume do aparelho. Ajuda aliás a criar a sensação de se ter nas mãos uma coisa viva, que se nos cola à pele como o velho livro em papel, e que não é bem aquele tipo de objecto cheio de tecnologia capaz de se descontrolar. Os comandos são simples, intuitivos, fáceis de utilizar e fui capaz de automatizar a maioria dos passos fundamentais em pouco mais de 24 horas de utilização.

                          É preciso entretanto notar duas coisas importantes. Em primeiro lugar, que o Kindle não é um computador. Serve apenas para ler, encomendar livros electrónicos e tomar notas sobre os mesmos. Não é retro-iluminado e não tem reflexo (quanto mais luz sobre o ecrã incidir melhor se lê), não faz qualquer ruído em stand by ou a trabalhar, salvo um pequeníssimo clique que assinala o virar de página, quase não precisa de energia (parece que um utilizador intensivo pode passar três semanas sem ter de o ligar à corrente). Em segundo lugar, que o Kindle não é uma imitação do livro em papel. A relação física é bastante diferente, o processo de habituação demorará inevitavelmente algumas semanas, e, evidentemente, existem coisas que fazemos com os livros em papel desde os meados do século XV e que aqui não são nem serão possíveis. Ou pelo menos não podem fazer-se da mesma maneira. Nomeadamente os processos de anotação e consulta – mais até do que de leitura – que precisam ser reaprendidos ou reinventados em termos de técnica e de rotinas.

                          Para já, o mais complicado é mesmo resistir à possibilidade de, com um só clique, comprar livros, jornais e revistas atrás de livros, jornais e revistas. Sob este aspecto, e para além do domínio do inglês – é provável que a explosão da oferta de conteúdos nas outras línguas mais faladas ainda demore dois ou três anos a acontecer –, o limite é a conta bancária. Por isso há que ter juizinho e ver bem onde é que metemos os dedos para não nos entalarmos. Daqui por umas semanas ainda voltarei ao tema, nessa altura com mais alguma experiência acumulada.

                          [continua]

                            Cibercultura, Etc.

                            Kindlemania (1)

                            Foi você que pediu um Kindle?

                            Depois de algumas incertezas, de sondar dezenas de sites e de pedir a opinião de uns quantos utilizadores com quem espero não ter de me incompatibilizar, deixei domingo passado na Amazon a nota de encomenda da última versão do Kindle, o leitor de e-books. Sou e manter-me-ei um amante crónico e um tanto depravado dos livros em papel. Tenho bem para cima de seis milhares e não há semana em que não me entrem em casa uns quantos mais. Mais até do que aqueles que consigo ler. Mas a falta de espaço, a obrigatoriedade da redução de custos, a necessidade de aceder «na hora» a determinadas obras, a hipótese de poder meter 3.500 volumes num prato da balança e 247 gramas de contrapeso no outro, fez com que me decidisse. Ao mesmo tempo, se é verdade que gosto muito de livros, é verdade também que gosto acima de tudo da leitura, e esta é uma experiência, este é um campo, que vive um tempo de rápida mutação de processos e de paradigma. Não sinto que tenha a obrigação de participar dela, mas apetece-me acompanhar o que acontece. Mantendo uma vida dupla, evidentemente.

                            Como sei que algumas das pessoas que se dão ao trabalho de passarem habitualmente por este blogue partilham ou podem vir a partilhar da mesma dúvida que antecedeu a minha decisão, resolvi deixar aqui algumas notas sobre as primeiras experiências que for tendo com o novo brinquedo que – recebi agora mesmo um mail de confirmação do envio – vem já a caminho. Prometo, com a mão que quiserem sobre o livro sagrado que escolherem – formatado em papiro, pergaminho, papel, bits ou e-ink – que a respeito do tema apenas direi a verdade e nada mais do que a verdade. Entretanto, enquanto vou esperando que me bata à porta o estafeta da DHL que trará a encomenda, adianto as razões que fizeram com que eu tenha escolhido esta máquina e não uma outra.

                            Para não me perder por atalhos escusados e em pormenores que apenas interessam a geeks, começo por responder à pergunta inevitável: porquê o Kindle e não o iPad, a máquina da Apple que aparece na capa de todas as revistas e suplementos, concorrendo com Cavaco Silva, Jon Stewart e a Lady Gaga. Directo ao essencial: 1) Um, o Kindle, destina-se apenas à leitura silenciosa, privada, que é aquela que procuro; o outro associa-lhe o e-mail, a música, o browser e milhares de aplicações que a todo o instante desviam a atenção (para isso tenho o iPod, o iPhone, o netbook e o tradicional desktop…); 2) Um tem uma tecnologia de escrita e leitura (a e-ink) que me asseguram cansar menos até do que o papel, o que não se passa com o iPad; 3) Um pode ser lido ao sol (parece que até se lê melhor com mais luz), enquanto o outro reflecte a nossa cara se lhe bate uma luz mais forte; 4) Um quase não consome energia, precisando a bateria de uma única carga mensal, o outro aguenta-se, no máximo, dois dias; 5) Um dispõe de um volume de oferta, em número e qualidade dos títulos disponíveis para compra ou descarga grátis, incomparavelmente superior ao outro; 6) Um, o Kindle topo de gama (3G e Wi-Fi), custou-me cerca de 200 Euros, incluindo os portes a partir dos Estados Unidos, o IVA, a taxa de desalfandegação (tratada pela própria Amazon) e uma capa de protecção em pele, enquanto pelo iPad, também topo de gama, pagaria no mínimo cinco vezes mais. Claro que para outras actividades ambulantes o iPad é superior: tem um ecrã maior e a cores (o do Kindle é em 16 tons de cinzento), em breve será multitarefas e nem sequer lhe falta falar. No entanto, para o que me interessa neste particular, prefiro um e-book solícito, sossegadinho e ultra-portátil.

                            Agora há que esperar para ver se arranjei mais uma maneira de alimentar o vício, ou, pelo contrário, se enfiei um enorme barrete. Mas depois de tanta consulta, de tanta pergunta feita e respondida, de tanta ponderação, muito mau seria para a minha auto-estima e para a minha carteira se tal acontecesse. I cross my fingers.

                            Adenda às 18H45 do dia 9, Terça-Feira – Fiz a encomenda no domingo à noite e a DHL acaba de me telefonar para comunicar que amanhã, durante a manhã, ela me será entregue. Cincinnatti (Ohio) – Louisville (Kentucky) – Colónia – Porto – Coimbra em pouco mais de 48 horas. A Amazon não brinca em serviço. |  Adenda às 09H23 do dia 10, Quarta-Feira – Já chegou.

                            [continua]

                              Cibercultura, Olhares

                              Seinfeld e o Facebook

                              Seinfeld

                              No mundo antigo, organizado à volta das relações de parentesco e dos laços dinásticos, as afinidades electivas, as amizades, eram excepcionais, aparecendo muitas vezes, justamente por isso, como subversivas. O cristianismo tentará eclipsar este tipo de ligação ao colocar como modelo a relação individual com Deus. Por isso também, as comunidades monásticas afastaram a amizade das regras do seu quotidiano: as ligações privadas representavam uma ameaça para a coesão do grupo e para a fé. Os humanistas, porém, retomaram-nas, construindo a primeira rede pan-europeia assente na fidelidade pessoal e numa aproximação de valores e de sensibilidades, que mantinham recorrendo principalmente à correspondência privada. Já a Revolução Francesa emancipou o valor da aproximação pessoal ao colocar a fraternidade como uma das suas divisas nucleares. A cultura da amizade de grupo chegaria décadas mais tarde, associada em parte à extensão do sistema escolar e ao serviço militar obrigatório e universal, criadores de espaços e de tempos de aproximação. Terá atingido o seu zénite nos anos sessenta, permanecendo como um vestígio ainda atraente por volta de 1989, quando arranca a série televisiva Seinfeld. A coesão do grupo dependia aí, em primeiro lugar, das cumplicidades assentes no relacionamento diário, directo e pessoal, entre aqueles que o compunham.

                              Não sei se existe ou não uma linha de continuidade, nesta narrativa flash da amizade, com o universo dos «amigos» que todos os dias fazemos entre os mais de 520 milhões de habitantes – a larga maioria composta por mulheres, vá lá o Diabo explicar o porquê – que povoam o mundo-rede do Facebook. Parece que a média por pessoa é de 130 afectuosos companheiros e amorosas parceiras, o que só por si nos remete para esse conceito de «salto qualitativo» utilizado nos catecismos do materialismo dialéctico para significar uma alteração efectiva do estado das coisas. Significará esta multiplicação de «amigos» o futuro da amizade? Por mim, admito que a maioria dos quase 500 que tenho me aparece como um vulto. Simpático muitas vezes, sobretudo quando salta da penumbra e lhe oiço a voz, mas um vulto. Isto se excluir a quantidade de voyeurs e exibicionistas que passa no horizonte, muitos deles mais empenhados em multiplicar audiências do que em agregar empatias. Mas há mesmo, por ali, pessoas que não conhecemos em pele e osso e de quem, até prova em contrário determinada pelo feitio, o penteado ou o mau hálito, gostamos ou acreditamos que gostamos. Com elas, e com algumas das outras, vamos cruzando gostos e cumplicidades, defendendo causas de outro modo perdidas, trocando informações úteis e frases calorosas que só ali nos saem do tinteiro. Será isto «amizade»? Ou apenas, nesta sociedade atomizada, com as referências vindo e partindo em perpétuo movimento, «uma tentativa de encontrar um sentimento de pertença a um colectivo», como escreve a socióloga Stéphane Hugon? Assistimos ali à construção de relações de proximidade que partem do colectivo para o indivíduo e não o contrário? Pode ser esta a chave para entender a mudança? Se for assim, não será mau de todo. Basta adaptarmo-nos. E ir aproveitando os restos do mundo arcaico feito de afectos conquistados com a epiderme. Afinal Jerry Seinfeld, George Costanza, Elaine Benes e Cosmo Kramer não se conheceram no Facebook.

                              [Vem um bom dossier sobre este tema no número de Outubro da revista francesa Books.]

                                Apontamentos, Cibercultura, Olhares

                                notas & recados

                                Correio

                                #10 – Depois do passamento do Technorati, aquela ferramenta crucial que permitia aos bloggers localizar as citações ou referências que lhes eram feitas noutros blogues, eis que chegou a vez do Bloglines desaparecer. Falo do agregador de feeds, bem melhor do que o Google Reader, que nos deixava controlar a edição de posts nos blogues preferidos. Alguma coisa se está a passar e provavelmente seremos os últimos a saber do que se trata, o que é próprio do blogger traído, mas entretanto vamos ficando mais pobres. [Aos leitores que usavam o Bloglines para chegarem aqui, sugiro que guardem os seus links e migrem para outro serviço. Este fechará a 1 de Outubro.]

                                  Atualidade, Cibercultura

                                  Um preço a pagar

                                  yes no

                                  Publicado originalmente, por convite, no Delito de Opinião

                                  A palavra vilipêndio quase desapareceu do nosso vocabulário. Chegou do latim vilipendĕre, composto de vilis, vil, e de pendĕre, considerar, estimar. Exprime uma atitude de menosprezo em relação a alguém. Quando tornada pública, deprecia a pessoa a quem se aplica. Não se limita a expor divergências, a contrariar opiniões: aplica-se ad hominem, contra a pessoa, servindo-se discricionariamente das palavras ou dos juízos que a possam diminuir perante os outros. Neste caminho, o vilipêndio é insulto e difamação, pois não existe qualquer intenção argumentativa. O objectivo é um só: apoucar, amesquinhar, retirar ao outro qualquer estatuto de dignidade. No limite, procurar que este perca todo o crédito, de modo a que se torne fácil isolá-lo, silenciá-lo, escondê-lo, fazendo com que muitas pessoas, honestas mas desavisadas, se recusem a lê-lo ou a ouvi-lo. «Ah, aquele tipo! Um sacana!».

                                  Não se trata de uma prática recente, obviamente, mas ganhou maior destaque social a partir de Oitocentos. Associada à explosão da imprensa periódica pôde então ampliar o seu efeito, servindo muitas vezes para arruinar carreiras, motivar processos judiciais, forçar duelos com um final pouco feliz. O novo meio ajudou aliás a «impessoalizar» o vilipêndio, uma vez que o seu autor passou actuar por detrás de uma cortina, ou de uma almofada, fornecida pela publicação que acolhia os ataques pessoais. Já no século XX, os servidores dos sistemas totalitários e os sectores políticos que se presumiam detentores da verdade, fosse ela «histórica» ou «científica», recorreram de um modo sistemático a este processo, apoiados na impunidade que os sistemas lhes ofereciam e na impossibilidade de exercício do contraditório.

                                  Na antiga União Soviética, o método foi aperfeiçoado e usado de forma contínua a partir do final da década de 1920, fundando-se nele o processo de diabolização e de apagamento de figuras que tinham sido determinantes na própria construção do poder bolchevique, como Trotsky, Radek, Zinoviev, Kamenev ou Bukarine. No Portugal de Salazar como no Chile de Pinochet, qualquer opositor era «comunista». Na Cuba do presente todo o acusado de dissídio é publicamente rotulado de «agente da CIA» ou, no mínimo, de «anti-social». E mesmo na Europa democrática o método foi recorrentemente aplicado na tentativa de isolamento e diminuição de figuras num dado momento consideradas pouco ortodoxas, como Léon Blum, George Orwell, Albert Camus, Hannah Arendt e Raymond Aron, cuja «lenda negra» ainda hoje perdura em alguns ambientes, tal o volume, a constância e o impacto das injúrias e manipulações das quais foram objecto.

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                                    Cibercultura, Democracia, Opinião