Redes sociais e democracia em risco

Nos anos noventa, quando a expansão da Internet a fez transitar do mundo restrito dos departamentos de informática das universidades e dos centros de pesquisa para o domínio público, foi grande o entusiasmo entre quem antevia algumas das suas potencialidades fora dos terrenos mais exclusivos da ciência. Comecei a utilizá-la, ainda em terminais Unix, no ano de 1992, e participei em muitas experiências de comunicação por essa via que nessa altura transpiravam otimismo. Este encontrava-se sobretudo associado à perceção de que cada utilizador, em breve cada cidadão, poderia contactar muito mais pessoas, poderia aceder a uma quantidade muito maior de informação, permutando conteúdos de um modo prático, barato e veloz até aí impraticável.

Quando ainda não existiam as redes sociais ou os blogues, e a World Wide Web dava ainda os primeiros passos, recordo uma lista de distribuição de correio eletrónico chamada pt.net. Nela se procurava incluir, repare-se na estreita dimensão então possível, todos os falantes do português que a nível mundial usassem a Internet. De início éramos pouco mais de cem, conhecíamo-nos razoavelmente e trocávamos mensagens sobre interesses comuns: conhecimento especializado, livros ou autores que nos captavam, alguma política, com muito de pessoal também à mistura. Sempre num registo de cordialidade e reconhecimento, ainda que não de unanimidade, que durante anos enriqueceu aquele espaço e as vidas de quem nele se movia.

Pelo final dessa década, o entusiasmo foi alargado à hipótese da «ciberdemocracia». Tratava-se de usar os meios informáticos públicos em rede para democratizar ainda mais o debate político e facilitar o exercício do direito de voto, particularmente em países ou regiões nos quais fosse difícil a sua materialização. Planeava-se desenvolver mecanismos de discussão pública através dos computadores, ampliando um diálogo Cidadão-Estado que conduzisse a uma política de decisões onde a participação dos governados se tornasse mais efetiva. No ensaio de filosofia política Cyberdémocratie, Pierre Lévy considerava-a em 2002 um instrumento fundamental da democracia participativa.

A ideia parecia excelente, mas não previa as rápidas transformações de natureza tecnológica e política que viriam em breve a esvaziá-la. No plano tecnológico, o embaratecimento e o alargamento dos suportes de acesso à Internet, associado à propagação das redes sociais, tornando cada utilizador, praticamente sem intermediação crítica, um potencial autor. No plano político, a expansão dos populismos, cujos intérpretes encontraram nestes instrumentos o caminho ideal para intervir de forma direta e sem contraditório junto de todos os cidadãos. As «fake news» nascem neste contexto, transbordado das redes sociais para uma comunicação social sedenta de sensacionalismo e de audiências.

Apesar de não as ter rejeitado, Umberto Eco declarou, numa das últimas entrevistas, que «as redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis». Queria com isto significar que elas estavam a aniquilar o trabalho de intermediação cultural que pelo menos desde o Iluminismo havia imposto critérios de moderação à atuação livre de quem possuía voz pública. Agora qualquer um podia escrever, dizer o que quisesse, mentir ou caluniar, sem que existisse uma intervenção mediadora do conhecimento crítico, chegando essa voz a legiões de pessoas incapazes de separar o trigo do joio. Foi este caos comunicacional, nivelado por baixo, que condicionou o referendo do Brexit, determinou a vitória de Trump e agora ditou a eleição de Jair Bolsonaro.

Que fazer então com a Internet como veículo pensado para favorecer a democracia, mas a virar-se contra ela? Não é aceitável proibi-la ou condicioná-la em sociedades abertas. Isso ocorre na Coreia do Norte, na China ou na Turquia, mas a escolha transporta consigo a ameaça da ditadura e da repressão. Por outro lado, esperar que todos os cidadãos adquiram rapidamente lucidez suficiente para separar verdade e impostura é tarefa impossível. Porém, ao contrário do que alguns sugerem, a solução não está em virar as costas, deixando a rede nas mãos dos predadores da democracia, mas em intervir nela com critério e persistência, apoiando ao mesmo tempo a criação de mecanismos jurídicos de responsabilização. Que não censurem, mas deixem claro que a rede não é uma Babel de impunidade. Como acontece em qualquer outro território da vida social.

Publicado originalmente no Diário As Beiras de 3/11/2018

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