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Kindlemania (1)

Foi você que pediu um Kindle?

Depois de algumas incertezas, de sondar dezenas de sites e de pedir a opinião de uns quantos utilizadores com quem espero não ter de me incompatibilizar, deixei domingo passado na Amazon a nota de encomenda da última versão do Kindle, o leitor de e-books. Sou e manter-me-ei um amante crónico e um tanto depravado dos livros em papel. Tenho bem para cima de seis milhares e não há semana em que não me entrem em casa uns quantos mais. Mais até do que aqueles que consigo ler. Mas a falta de espaço, a obrigatoriedade da redução de custos, a necessidade de aceder «na hora» a determinadas obras, a hipótese de poder meter 3.500 volumes num prato da balança e 247 gramas de contrapeso no outro, fez com que me decidisse. Ao mesmo tempo, se é verdade que gosto muito de livros, é verdade também que gosto acima de tudo da leitura, e esta é uma experiência, este é um campo, que vive um tempo de rápida mutação de processos e de paradigma. Não sinto que tenha a obrigação de participar dela, mas apetece-me acompanhar o que acontece. Mantendo uma vida dupla, evidentemente.

Como sei que algumas das pessoas que se dão ao trabalho de passarem habitualmente por este blogue partilham ou podem vir a partilhar da mesma dúvida que antecedeu a minha decisão, resolvi deixar aqui algumas notas sobre as primeiras experiências que for tendo com o novo brinquedo que – recebi agora mesmo um mail de confirmação do envio – vem já a caminho. Prometo, com a mão que quiserem sobre o livro sagrado que escolherem – formatado em papiro, pergaminho, papel, bits ou e-ink – que a respeito do tema apenas direi a verdade e nada mais do que a verdade. Entretanto, enquanto vou esperando que me bata à porta o estafeta da DHL que trará a encomenda, adianto as razões que fizeram com que eu tenha escolhido esta máquina e não uma outra.

Para não me perder por atalhos escusados e em pormenores que apenas interessam a geeks, começo por responder à pergunta inevitável: porquê o Kindle e não o iPad, a máquina da Apple que aparece na capa de todas as revistas e suplementos, concorrendo com Cavaco Silva, Jon Stewart e a Lady Gaga. Directo ao essencial: 1) Um, o Kindle, destina-se apenas à leitura silenciosa, privada, que é aquela que procuro; o outro associa-lhe o e-mail, a música, o browser e milhares de aplicações que a todo o instante desviam a atenção (para isso tenho o iPod, o iPhone, o netbook e o tradicional desktop…); 2) Um tem uma tecnologia de escrita e leitura (a e-ink) que me asseguram cansar menos até do que o papel, o que não se passa com o iPad; 3) Um pode ser lido ao sol (parece que até se lê melhor com mais luz), enquanto o outro reflecte a nossa cara se lhe bate uma luz mais forte; 4) Um quase não consome energia, precisando a bateria de uma única carga mensal, o outro aguenta-se, no máximo, dois dias; 5) Um dispõe de um volume de oferta, em número e qualidade dos títulos disponíveis para compra ou descarga grátis, incomparavelmente superior ao outro; 6) Um, o Kindle topo de gama (3G e Wi-Fi), custou-me cerca de 200 Euros, incluindo os portes a partir dos Estados Unidos, o IVA, a taxa de desalfandegação (tratada pela própria Amazon) e uma capa de protecção em pele, enquanto pelo iPad, também topo de gama, pagaria no mínimo cinco vezes mais. Claro que para outras actividades ambulantes o iPad é superior: tem um ecrã maior e a cores (o do Kindle é em 16 tons de cinzento), em breve será multitarefas e nem sequer lhe falta falar. No entanto, para o que me interessa neste particular, prefiro um e-book solícito, sossegadinho e ultra-portátil.

Agora há que esperar para ver se arranjei mais uma maneira de alimentar o vício, ou, pelo contrário, se enfiei um enorme barrete. Mas depois de tanta consulta, de tanta pergunta feita e respondida, de tanta ponderação, muito mau seria para a minha auto-estima e para a minha carteira se tal acontecesse. I cross my fingers.

Adenda às 18H45 do dia 9, Terça-Feira – Fiz a encomenda no domingo à noite e a DHL acaba de me telefonar para comunicar que amanhã, durante a manhã, ela me será entregue. Cincinnatti (Ohio) – Louisville (Kentucky) – Colónia – Porto – Coimbra em pouco mais de 48 horas. A Amazon não brinca em serviço. |  Adenda às 09H23 do dia 10, Quarta-Feira – Já chegou.

[continua]

    Cibercultura, Olhares

    Seinfeld e o Facebook

    Seinfeld

    No mundo antigo, organizado à volta das relações de parentesco e dos laços dinásticos, as afinidades electivas, as amizades, eram excepcionais, aparecendo muitas vezes, justamente por isso, como subversivas. O cristianismo tentará eclipsar este tipo de ligação ao colocar como modelo a relação individual com Deus. Por isso também, as comunidades monásticas afastaram a amizade das regras do seu quotidiano: as ligações privadas representavam uma ameaça para a coesão do grupo e para a fé. Os humanistas, porém, retomaram-nas, construindo a primeira rede pan-europeia assente na fidelidade pessoal e numa aproximação de valores e de sensibilidades, que mantinham recorrendo principalmente à correspondência privada. Já a Revolução Francesa emancipou o valor da aproximação pessoal ao colocar a fraternidade como uma das suas divisas nucleares. A cultura da amizade de grupo chegaria décadas mais tarde, associada em parte à extensão do sistema escolar e ao serviço militar obrigatório e universal, criadores de espaços e de tempos de aproximação. Terá atingido o seu zénite nos anos sessenta, permanecendo como um vestígio ainda atraente por volta de 1989, quando arranca a série televisiva Seinfeld. A coesão do grupo dependia aí, em primeiro lugar, das cumplicidades assentes no relacionamento diário, directo e pessoal, entre aqueles que o compunham.

    Não sei se existe ou não uma linha de continuidade, nesta narrativa flash da amizade, com o universo dos «amigos» que todos os dias fazemos entre os mais de 520 milhões de habitantes – a larga maioria composta por mulheres, vá lá o Diabo explicar o porquê – que povoam o mundo-rede do Facebook. Parece que a média por pessoa é de 130 afectuosos companheiros e amorosas parceiras, o que só por si nos remete para esse conceito de «salto qualitativo» utilizado nos catecismos do materialismo dialéctico para significar uma alteração efectiva do estado das coisas. Significará esta multiplicação de «amigos» o futuro da amizade? Por mim, admito que a maioria dos quase 500 que tenho me aparece como um vulto. Simpático muitas vezes, sobretudo quando salta da penumbra e lhe oiço a voz, mas um vulto. Isto se excluir a quantidade de voyeurs e exibicionistas que passa no horizonte, muitos deles mais empenhados em multiplicar audiências do que em agregar empatias. Mas há mesmo, por ali, pessoas que não conhecemos em pele e osso e de quem, até prova em contrário determinada pelo feitio, o penteado ou o mau hálito, gostamos ou acreditamos que gostamos. Com elas, e com algumas das outras, vamos cruzando gostos e cumplicidades, defendendo causas de outro modo perdidas, trocando informações úteis e frases calorosas que só ali nos saem do tinteiro. Será isto «amizade»? Ou apenas, nesta sociedade atomizada, com as referências vindo e partindo em perpétuo movimento, «uma tentativa de encontrar um sentimento de pertença a um colectivo», como escreve a socióloga Stéphane Hugon? Assistimos ali à construção de relações de proximidade que partem do colectivo para o indivíduo e não o contrário? Pode ser esta a chave para entender a mudança? Se for assim, não será mau de todo. Basta adaptarmo-nos. E ir aproveitando os restos do mundo arcaico feito de afectos conquistados com a epiderme. Afinal Jerry Seinfeld, George Costanza, Elaine Benes e Cosmo Kramer não se conheceram no Facebook.

    [Vem um bom dossier sobre este tema no número de Outubro da revista francesa Books.]

      Apontamentos, Cibercultura, Olhares

      notas & recados

      Correio

      #10 – Depois do passamento do Technorati, aquela ferramenta crucial que permitia aos bloggers localizar as citações ou referências que lhes eram feitas noutros blogues, eis que chegou a vez do Bloglines desaparecer. Falo do agregador de feeds, bem melhor do que o Google Reader, que nos deixava controlar a edição de posts nos blogues preferidos. Alguma coisa se está a passar e provavelmente seremos os últimos a saber do que se trata, o que é próprio do blogger traído, mas entretanto vamos ficando mais pobres. [Aos leitores que usavam o Bloglines para chegarem aqui, sugiro que guardem os seus links e migrem para outro serviço. Este fechará a 1 de Outubro.]

        Atualidade, Cibercultura

        Um preço a pagar

        yes no

        Publicado originalmente, por convite, no Delito de Opinião

        A palavra vilipêndio quase desapareceu do nosso vocabulário. Chegou do latim vilipendĕre, composto de vilis, vil, e de pendĕre, considerar, estimar. Exprime uma atitude de menosprezo em relação a alguém. Quando tornada pública, deprecia a pessoa a quem se aplica. Não se limita a expor divergências, a contrariar opiniões: aplica-se ad hominem, contra a pessoa, servindo-se discricionariamente das palavras ou dos juízos que a possam diminuir perante os outros. Neste caminho, o vilipêndio é insulto e difamação, pois não existe qualquer intenção argumentativa. O objectivo é um só: apoucar, amesquinhar, retirar ao outro qualquer estatuto de dignidade. No limite, procurar que este perca todo o crédito, de modo a que se torne fácil isolá-lo, silenciá-lo, escondê-lo, fazendo com que muitas pessoas, honestas mas desavisadas, se recusem a lê-lo ou a ouvi-lo. «Ah, aquele tipo! Um sacana!».

        Não se trata de uma prática recente, obviamente, mas ganhou maior destaque social a partir de Oitocentos. Associada à explosão da imprensa periódica pôde então ampliar o seu efeito, servindo muitas vezes para arruinar carreiras, motivar processos judiciais, forçar duelos com um final pouco feliz. O novo meio ajudou aliás a «impessoalizar» o vilipêndio, uma vez que o seu autor passou actuar por detrás de uma cortina, ou de uma almofada, fornecida pela publicação que acolhia os ataques pessoais. Já no século XX, os servidores dos sistemas totalitários e os sectores políticos que se presumiam detentores da verdade, fosse ela «histórica» ou «científica», recorreram de um modo sistemático a este processo, apoiados na impunidade que os sistemas lhes ofereciam e na impossibilidade de exercício do contraditório.

        Na antiga União Soviética, o método foi aperfeiçoado e usado de forma contínua a partir do final da década de 1920, fundando-se nele o processo de diabolização e de apagamento de figuras que tinham sido determinantes na própria construção do poder bolchevique, como Trotsky, Radek, Zinoviev, Kamenev ou Bukarine. No Portugal de Salazar como no Chile de Pinochet, qualquer opositor era «comunista». Na Cuba do presente todo o acusado de dissídio é publicamente rotulado de «agente da CIA» ou, no mínimo, de «anti-social». E mesmo na Europa democrática o método foi recorrentemente aplicado na tentativa de isolamento e diminuição de figuras num dado momento consideradas pouco ortodoxas, como Léon Blum, George Orwell, Albert Camus, Hannah Arendt e Raymond Aron, cuja «lenda negra» ainda hoje perdura em alguns ambientes, tal o volume, a constância e o impacto das injúrias e manipulações das quais foram objecto.

        (mais…)

          Cibercultura, Democracia, Opinião

          O meu Facebook tem a mania

          Facebook

          Admito que a minha vida no Facebook está a ser um pouco difícil de gerir. Primeiro inscrevi-me por motivos profissionais, trocando raras mensagens com três ou quatro pessoas. Depois chegaram os amigos próximos e distantes. E os familiares directos ou afastados. Lá fomos convivendo todos naquele barco azul, num clima simples e descontraído. De seguida as pessoas a quem (presumo) de vez em quando interessa o que eu possa dizer. E aquelas pelas quais eu me interesso. De quem gosto ou de quem penso poder vir a gostar. Até aqui, tudo bem também: fui mandando uns bitaites num ambiente informal, trocando umas ideias, partilhando prazeres moderados e pequenos ódios, vendo e dando a ver. Sem problemas, num registo por vezes intimista, algumas vezes delirante. Mas nas últimas semanas estão a chegar às dezenas pessoas que não conheço, que não são amigas dos amigos, de quem nada parece aproximar-me – certas vezes, olhando o seu perfil, antes pelo contrário – pelo que a algumas destas, lamento, declino o pedido de «amizade». Quero continuar a passar por ali um pedaço giro do dia e da noite. Ou a queixar-me sem pensar se o devo ou não fazer. Não a aborrecer-me ou a ter de fazer de conta. Se fosse político profissional, pop star, vendedor da televisão por cabo ou o arcebispo de Cantuária, lá teria mesmo de falar com toda a gente, beijar criancinhas com xixi, convencer as sombras do meu perfil fidedigno, evitar «expor-me» em demasia, fazer «amigos» e conhecer pessoas aos magotes. Como não sou, em casos pontuais terei de reservar o direito de admissão. Claro que assim jamais chegarei a Presidente da Junta, mas a liberdade paga-se.

            Cibercultura, Etc., Olhares

            Um olhar participativo

            Cultura-mundo

            Ultrapassado o tempo no qual a cultura era observada como um sistema completo e coerente de elucidação do mundo, expirada a época da separação rigorosa entre cultura popular e cultura erudita, entre uma «civilização» das elites e a «barbárie» popular, eis que mergulhámos todos numa terceira fase histórica. A cultura transformou-se agora em mundo, na cultura «do tecnocapitalismo planetário, das indústrias culturais, do consumismo total, dos media e das redes digitais». Em A Cultura-Mundo. Resposta a uma Sociedade Desorientada, Lipovetsky e Serroy observam o fim da busca do sentido último das coisas, das classificações hierarquizadas, substituídas agora pelas redes, pelos fluxos, pelo mercado sem limite ou centro de referência. Todavia, «os novos tempos hipermodernos» não são aqui enfrentados com pessimismo, sendo antes observados como um território de acção e descoberta, num mundo cuja circunferência está em toda a parte e cujo centro não se encontra em lado algum. A infindável abundância de escolhas, de possibilidades de consumo cultural, permitirá assim, a cada sujeito, a produção de um universo de opções, fazendo com que o comércio de influências convenientemente programadas possa, em determinadas circunstâncias, funcionar como um instrumento libertador. A cultura-mundo desenvolve-se agora em campo aberto, podendo «mobilizar a inteligência e a imaginação dos seres humanos» e não congregar apenas o pessimismo e o ódio dos que a observam a partir de pontos de vista que já prescreveram. É preciso participar nela desenvolvendo as suas virtualidades democráticas e emancipatórias, e não ensaiar a tarefa de a destruir na tentativa vã de ficcionar uma regressão no tempo. [Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a uma Sociedade Desorientada. Trad. de Victor Silva. Edições 70, 248 págs.]

              Atualidade, Cibercultura, Olhares

              notas & recados

              Correio

              #3 – Um blogue fantástico, construído a partir de uma ideia aparentemente simples, é O Silêncio dos Livros. Só imagens, só as imagens dos outros, omnipresentes e evocativas. Com os livros em papel e a leitura como leitmotiv. Até apetece largar o computador e desatar a ler por aí. Sem Kindle ou iPad, à velha maneira, de cigarro ao peito e boina basca até às orelhas. Tenho pena de ter demorado a chegar aqui.

              Adenda: do mesmo autor (Miguel), este O Café dos Loucos.

              Devo a pista inicial ao Bibliotecário de Babel.

                Cibercultura, Fotografia

                Mundimagens

                Barco

                Em Machine de Vision, de 1988, Paul Virilio anunciava a instauração de uma democracia-espelho capaz de fazer regredir as antigas formas de reflexão colectiva. Escrevia aí que «o exibicionismo e o voyeurismo, reforçando-se mutuamente, passaram a determinar o fetichismo da imagem opticamente correcta, na qual o padrão das aparências integra e remata a opinião pública». Baudrillard falava também da «condenação à morte» de toda a referência exterior à própria imagem, determinada pela sua exuberância e proliferação. Isto não me apavora, apesar de ser um rato dos papéis. Não encontro aqui ameaça alguma. Vejo só um imenso repto à nossa capacidade para projectar e ampliar mundos comunicantes. Não uma megacatástrofe, mas uma viagem desafiante em mar revolto.

                | recuperado por acaso de um post publicado há seis anos

                  Artes, Cibercultura, Fotografia

                  Da importância da maçã

                  Maçã

                  Nunca me interessei muito pelos combates jurídicos entre a Microsoft e a Apple ou pela guerra de guerrilhas entre os seus adeptos. Desde os tempos do medonho MS-DOS que vinha com o meu primeiro computador, um pesado Schneider estranhamente movido a floppy-disk, sempre me servi mais de máquinas com o sistema operativo fornecido pela empresa de Gates, mas a escolha foi condicionada desde o início: os computadores da maçã eram bastante mais caros e o acesso ao software muito mais difícil. Com pouco dinheiro para investir, eu não tinha hipóteses de escolha. No entanto, sempre vi nos Mac aquilo que vêm muitos dos seus indefectíveis adeptos: computadores-objecto bonitos, quase sempre fiáveis e com um interface invariavelmente userfriendly. Nunca deixei de me servir deles ao longo dos últimos vinte anos, embora tenham sido só o iPod e o iPhone – com a revolução que introduziram na gestão diária do velho hábito de ouvir música e da nova mania de comunicar em rede – a aproximarem-me um pouco mais dos produtos da Apple. Tal como tem acontecido com tantas pessoas.

                  Hoje ao fim da tarde, Steve Jobs, o chief executive officer da empresa irá revelar o super-guardado segredo que poderá materializar, ao que consta, o arranque para a sua terceira vida: uma máquina, leve, fina e elegante, em formato tablet e a um preço razoável, que fará conjugadamente tudo aquilo que fazem agora netbooks, iPods, iPhones e sobretudo e-books, sugerindo uma nova viragem não só na utilização diária das próteses computacionais, mas principalmente na caracterização do hábito e do acto de ler. Nestas coisas, sabe-se como é difícil ser-se bruxo ou profeta, mas a cumprirem-se as previsões dos especialistas, os apóstolos da imortalidade do livro em papel e da vida eterna da galáxia de Gutenberg irão mesmo confrontar-se, talvez como nunca antes ocorreu, com a necessidade de reverem a sua visão dos mundos comunicantes. A sua forma, irrevogavelmente datada e condenada, de taparem o sol com a peneira perante as práticas e as expectativas adoptadas com entusiasmo pelas gerações mais recentes. Quem vo-lo diz vive os seus dias entre milhares de livros, de revistas, de jornais em cartão, cola e papel. Vive deles, precisa deles, snifa-os glosando muitos e até escrevendo alguns. Mas nem por isso aceita fazer de cego ou de avestruz.

                  Depois da coisa – Consumada a saída do iPad, no essencial as expectativas criadas parecem manter-se, com algumas objecções e outros tantos factores de entusiasmo. Leia-se a propósito o que escreveu Paulo Querido.

                    Atualidade, Cibercultura

                    Google China, Inc.

                    Google China
                    Imagem: Reuters

                    A Google, Inc. não é propriamente uma corporação de anjos. Passaram já os tempos juvenis e idealistas de Larry Paige e Sergey Brin, os dois ex-estudantes de doutoramento da Stanford University que em 1996 arrancaram com o inovador e eficaz serviço de pesquisa, e nos últimos anos, para crescer e se afirmar no universo empresarial, a companhia precisou estabelecer acordos com grupos económicos e com governos nem sempre interessados na livre circulação da informação. Mas paradoxalmente esta escolha acabou por aproximar um perigo que a pode aniquilar, e por isso há que agir com algum cuidado. Acontece que, dadas as suas características, os serviços da Google requerem uma relação de confiança, um compromisso, com a liberdade fruída pelo utilizador comum, sem a qual este deixará de confiar nos serviços que utiliza, acabando por trocá-los por outros. Não quero ser cínico – nem sou capaz, obviamente, de adivinhar aquilo que passa pela cabeça dos administradores da empresa sediada em Mountain View, Califórnia –, mas estou em crer que a constatação deste perigo terá pesado na atitude adoptada pelos seus responsáveis no conflito que mantêm agora com o governo chinês. A censura sofisticada e implacável da Internet em curso na China – cujo governo continua empenhado em combinar a face mais execrável do capitalismo selvagem, que inclui até a espionagem industrial por via informática, com a vertigem repressiva que traduz o lado mais negro do «socialismo de Estado» – preocupará os responsáveis da Google na medida em que, se estes fazem cedências excessivas ao limitar da liberdade de circulação da informação dentro do imenso território chinês, irão, muito provavelmente, perder a confiança dos utilizadores e clientes no resto do mundo. E não convém arriscar.

                    ||| Publicado também no Arrastão

                      Cibercultura, Democracia, Opinião

                      «Espalhafato tecnológico»

                      Tecnologia

                      «Portugal é o segundo país entre os estados europeus da OCDE mais bem classificados no que diz respeito à sofisticação e ao acesso online a serviços públicos», escreve o diário Público. À frente de nós fica apenas a Áustria e situamo-nos acima do Reino Unido, da Noruega e da Suécia, países que habitualmente encabeçam os rankings relacionados com as tecnologias da informação. Só que em 2008 apenas 18 por cento dos cidadãos portugueses usavam serviços públicos em linha, o que coloca o nosso país em 17.º lugar numa lista de 22 países. Qualquer pessoa que não se deixe impressionar pela política do «espalhafato tecnológico», feito em larga medida de aparências, percebe que a disponibilização dos meios não tem acompanhado o seu uso regular e eficiente. No meio universitário, por exemplo – que julgo conhecer razoavelmente –, na maioria das áreas o aproveitamento dos computadores raramente ultrapassa o processamento de texto, a utilização irregular do e-mail e uma navegação muitas vezes errática. Basta observar-se como a generalidade das máquinas conserva inalterável, anos a fio, a configuração com a qual foram originalmente instaladas, sem esforço algum de personalização e de desenvolvimento. Porque não parar então com o show-off centrando-nos na formação? É muito mais útil, embora se revele menos espectacular e proporcione menores margens de lucro para os sempre prestimosos fornecedores de máquinas e serviços.

                        Atualidade, Cibercultura, Opinião

                        Guerra dos mundos

                        Guerra dos mundos

                        Acabo de instalar o Windows 7 no portátil e no computador de secretária. A tarefa foi rápida, correu muito bem, e, para já, a impressão é de que a Microsoft produziu finalmente um sistema operativo ao mesmo tempo fiável, intuitivo e atraente. O que não significa perfeito. Aliás, trabalho há anos com diversos SO em simultâneo e não conheço um sem defeitos. Talvez por isto me pareçam absurdas as sucessivas guerras travadas entre a Apple e a Microsoft a respeito da perfeição imaculada dos seus produtos. Reconheço a transparência e a beleza do interface dos produtos da maçã (sou, aliás, feliz proprietário de um iPhone e de um iPod), mas aprecio também a versatilidade e o custo mais baixo das criações da empresa fundada por Mr. Gates. Que cada uma das marcas diversifique a oferta, baixe os preços e se torne cada vez mais próxima dos consumidores, parece-me do interesse de todos (e delas próprias também, naturalmente). Por isso considero um pouco idiotas e desnecessariamente agressivos vídeos como este da Apple ou este da Microsoft destinados a ridicularizar a concorrência ofendendo ao mesmo tempo os consumidores. Tal como me parece sem sentido o sorriso de cumplicidade que diante deles os facciosos emitem.

                          Atualidade, Cibercultura

                          Woofer

                          Woofer

                          Admito que não mantenho a melhor das relações com o Twitter. Sei que pode ser uma arma estupenda, particularmente em regiões do planeta – como o Irão, a China, Cuba ou a Bielorrússia – nas quais o controlo da informação exige a quem procura fazer correr uma informação livre que se sirva de meios menos convencionais. Pode também ser útil ou até divertido na partilha diária de informação específica ou mesmo para a conversa informal. Mas não vou muito à bola com o dito.

                          As razões da minha desconfiança têm uma origem dupla. Desde logo porque o padrão das intervenções obriga a que só possa manter uma conversa com algum nexo quem disponha de muito tempo para estar ligado, o que não é manifestamente o meu caso. Este condicionamento prende-se com o número de pessoas que é capaz de escrever diariamente 30, 50, 100 mensagens sucessivas, tornando quase instantaneamente invisíveis os outros «seguidores» de quem os segue. E depois porque ocorre neste território um tipo de intervenção que sinceramente me aborrece: o das pessoas que dizem qualquer coisa para encherem os 140 caracteres e fazerem um, mais um e outro «update». Ainda que essa «qualquer coisa» seja recomendarem diariamente dezenas de livros, filmes, sites, discos, que obviamente jamais leram, viram, seguiram ou ouviram com um mínimo de atenção. Ou escreverem a alguém, em canal aberto, o mesmo que escreveriam num mail ou numa vulgar sessão de chat.

                          Por isto me parece interessante o aparecimento de uma nova rede social, o Woofer, que exige mensagens com um mínimo de 1.400 caracteres, não aceita operações de copy-paste consecutivas, e requer assim, pelo menos em princípio, uma conversa muito mais pausada e substantiva. A página principal do Woofer diz-nos aquilo que poderemos então fazer com os 1.260 caracteres mínimos que podemos agora somar aos indigentes 140 que o Twitter nos permite digitar: «evitar abreviaturas», «usar advérbios», e sobretudo ter condições para «ser eloquente». Talvez valha a pena ficarmos atentos a esta experiência, apenas a começar.

                            Apontamentos, Cibercultura, Oficina

                            Espécie de geek

                            O iPhone e eu

                            Ao usar hoje o meu caderno Sapiens, vendido como «uma réplica fiel» dos livros para notas e esboços utilizados por Rafael, Galileu e Leonardo, reparei em como o tenho desprezado nas últimas semanas. A culpa é do iPhone. Há mais de dez anos que me sirvo apenas de agendas electrónicas, e tinha até comprado há pouco tempo um utilíssimo HTC, mas as novidades do novo iPhone 3GS resolveram quase todos os defeitos da versão anterior e converteram-me. Trespassei a máquina com menos de um ano de uso, comprei o novo aparelhómetro e procurei aplicações das quais precisava, entre elas uma versão de bolso do Office que permite modificar documentos, um editor de imagem, outro para os blogues, um dicionário, uma enciclopédia, um leitor de e-books. A seguir actualizei o livro de endereços para poder usar o correio electrónico, atulhei a máquina de música, e fiquei pronto para andar com um completo computador (telefone, máquina fotográfica, câmara de vídeo e agenda também, naturalmente) no bolso das calças.

                            Só posso dizer que o acessório é mesmo magnífico, de uma utilidade imensa para quem precisa a qualquer hora, para trabalho ou lazer, de um computador eficaz e de uma ligação rápida à Internet. Desde que não se importe de mudar radicalmente determinados hábitos e de transmitir, a quem observe de fora, a impressão de passar tempos infinitos a escrever SMS. É pena o preço bastante elevado (nos EUA custa menos de metade) e as limitações da bateria (o paralelepípedo faz tanta coisa que precisa ser carregado todos os dias). Apresento a prova final de que falo verdade e de que não sou um mero mercenário da Apple: este post foi integralmente escrito, a fotografia editada, e o conjunto publicado neste blogue, sem outra intervenção que não a do iPhone.

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                              A nuvem

                              A nuvem

                              Acabo de descobrir que a Microsoft deixou de produzir e comercializar a Encarta, a primeira enciclopédia em versão unicamente electrónica. Entre 1993 e 2009, ela determinou um padrão de recolha, arquivamento e disponibilização popular dos saberes, servindo de modelo à transferência para o suporte digital de outras enciclopédias, como as consagradas Britannica e Universalis. Apesar do êxito que manteve por mais de uma década, a Encarta foi incapaz de resistir comercialmente ao efeito demolidor de uma «enciclopédia social», gratuita e colaborativa, como a Wikipedia. Esta conta hoje, e apenas na versão em inglês, com perto de 3 milhões de artigos, um número perfeitamente gigantesco quando comparado com os 42.000 artigos que podem ser encontrados na derradeira versão da Encarta. Não tem comparação com qualquer outra enciclopédia o ritmo de crescimento e o fluxo de consultas processados diariamente, minuto a minuto, pela Wikipedia, mas não deixa de ser preocupante que a fonte principal de conhecimento manipulada pela esmagadora maioria dos utilizadores da Internet seja um repositório sem autoria reconhecida e desprovido de processos de aferição da informação que recolhe e oferece. Sob a forma de nuvem, paira sobre as nossas cabeças um saber flutuante, por vezes equívoco e sujeito a constantes revisões, com a vida determinada pelo vento, cuja sombra pode ser tão estimulante quanto ameaçadora.

                                Cibercultura, Etc.

                                A leitura ameaçada

                                Leituras

                                Nicholas G. Carr, o autor de The Big Switch, aponta para uma viragem que não é ilusória: «A Internet diminui aparentemente a minha capacidade de concentração e de reflexão. O meu espírito reconhece agora as informações de acordo com a forma como a Internet as distribui: como um fluxo de partículas que escorre rapidamente. Antes eu era um mergulhador num mar de palavras; agora rasgo a superfície como um piloto de jet-ski.» Carr serve-se dos avanços das neurociências relacionados com a plasticidade do sistema nervoso para sustentar que os circuitos neuronais se adaptam facilmente a uma leitura rápida, sublinhando como este aumento de velocidade está a reprogramar biologicamente o nosso cérebro. Quando, ainda nos anos 60, Marshall McLuhan anunciou o fim da «galáxia de Gutenberg», da preponderância do paradigma tipográfico, o cenário era já previsível para os mais sagazes.

                                Mas foi a criação e sobretudo a generalização da Internet que suscitou um confronto inevitável entre o antigo modelo da leitura lenta – silenciosa, reflexiva, essencialmente individual –, e um outro, fundado agora na velocidade, no ruído, no movimento e na partilha. E também na simbiose com outros processos de comunicação. Os resultados de um inquérito recente reportaram que cerca de 80% dos adolescentes americanos são incapazes de se concentrarem na leitura sem a presença de música ou de um qualquer ruído de fundo, ou sem imagens a dançarem num ecrã, algures debaixo do seu ângulo de visão.

                                Um dos problemas que a situação transporta consigo não está no reconhecimento de uma mudança radical nas formas de percepção e nos estilos de vida, uma vez que esta é incontornável e de certa forma inevitável. Está antes nos sectores que ainda têm peso no controlo do saber e da comunicação, e a observam «entendendo» que o processo é passageiro e esperando, quixotescamente, que ele possa um dia recuar. O resultado é uma clivagem brutal entre universos e linguagens que em breve os tornarão incompatíveis, projectando cenários para um novo estado de barbárie.

                                A realidade é particularmente dramática no campo do ensino superior, em particular no das humanidades, no qual o paradigma gutenberguiano, essencialmente livresco e baseado ainda, demasiadas vezes, no arquétipo do sábio humanista encerrado no seu gabinete, permanece dominante, tanto ao nível pedagógico como nos critérios de aferição científica, em termos de orientação e de reconhecimento dos trabalhos académicos, privilegiando-se claramente nas avaliações curriculares o modelo anterior. Continua a considerar-se, em muitas ocasiões, que existe uma «leitura de distracção», decididamente inferior, a qual pode de facto transcender a comunicação em papel, e uma «leitura de informação», sem dúvida superior, que dos livros, ou pelo menos dos escritos em formato tradicional, se serve como suporte praticamente exclusivo.

                                Existe porém um outro modelo de leitura. Este implica uma hibridez de instrumentos cognitivos, de formas de saber e até de códigos de validação. E a construção sistemática de pontes entre processos e atitudes. Ele não supõe a diluição do conhecimento superior no saber comum, mas tão só o reconhecimento de que existe também um património de experiências, de dados e de saberes em relação ao qual as estratégias da investigação, da partilha e da comunicação terão de ser mais abertas. Estas devem em larga medida ser reinventadas, para que os vestígios do anterior paradigma possam sobreviver e não sejam apagados pelas gerações que estão a chegar – apetrechadas já das grandes alterações ao nível dos mecanismos de percepção – e o olham como qualquer coisa de caduco ou mesmo de incompreensível. No diálogo homónimo atribuído a Platão, Fedro, o jovem interlocutor de Sócrates, percorre distraído um texto em papiro no preciso momento em que o filósofo disserta, amargurado, acerca dos inconvenientes e dos perigos da escrita. É este corte entre dois mundos, tão absoluto quanto absurdo, que seria bom conseguirmos evitar.

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                                  Esse composto de mudança

                                  Banda Larga

                                  Em Castanheira do Vouga, no concelho de Águeda, o povo boicotou as eleições durante mais de três horas porque a banda larga não chega à localidade. O presidente da Junta, justamente indignado com a discriminação, afirmou que a Internet é hoje «tão indispensáel como eram há anos o lápis e a borracha.» As reivindicações dos povos já nada têm a ver com o ódio às máquinas manifestado no ímpeto destruidor dos antigos operários ludistas. Será, pois, bom para o PS que as baterias dos Magalhães durem até Outubro com razoável autonomia.

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