O álbum mais triste do mundo

Josef Koudelka

Da autoria de Josef Koudelka e editado pela Thames & Hudson, Invasion Prague 68 deve ser o álbum de fotografia mais triste do mundo. Em 1968, com 30 anos, Koudelka nunca tinha fotografado guerras ou revoluções. Chegara da Roménia, onde andara a perambular retratando ciganos, no dia anterior à invasão, e a partir da madrugada de 20 para 21 de Agosto não parou de disparar a câmara. Muitas das fotografias que então tirou foram divulgadas pela agência Magnum, mas foi apenas em 1986, quando os laços familiares no interior da Checoslováquia desapareceram pela morte do pai, que a sua autoria foi revelada. Quarenta anos depois, 250 dessas fotografias – uma grande parte delas aqui mostrada pela primeira vez – foram seleccionadas para esta obra impressionante. ler mais deste artigo

    História, Memória, Olhares

    Por uma liga hanseática de livrarias decentes

    Originalmente em Os Livros Ardem Mal

    Um texto de Osvaldo Manuel Silvestre sobre a impossibilidade de encontrar um único título de Jorge Luis Borges nas livrarias de Coimbra, e depois dele o seu útil post-scriptum, suscitaram um comentário de João Diogo seguido de uma resposta do primeiro. Ficam os links para quem pretenda conhecer os seus argumentos – que se completam mais do que se contrariam -, pelo que me limito a abordar o problema principal que a ambos preocupou. Refiro-me à gestão dos stocks de livros na sua relação com um certo número de inquietantes alterações perceptíveis na fisionomia de boa parte das nossas livrarias e dos seus clientes. Um problema associado à crescente dificuldade que têm os grandes leitores, os verdadeiros e obstinados amantes dos livros, em encontrarem as obras que procuram ou que gostariam de poder descobrir quando deambulam pelo interior de livrarias que cada vez mais se banalizam. Confundindo-se, na disposição espacial e no modo de estar dos seus frequentadores, com os alegres e ruidosos corredores dos grandes centros comerciais e dos hipermercados. E nas quais esses leitores se não sentem bem.

    Osvaldo Silvestre fala daqueles, e eles são cada vez mais, que estão a deixar de ir às livrarias, preferindo mandar vir os livros pela Internet, e sugere, a meu ver bem, que tal se fica a dever ao facto dessas pessoas acharem cada vez mais inútil, e quase sempre pouco agradável, o tempo que despendem a deslocarem-se a espaços nos quais apenas se privilegiam as obras e os autores divulgados em campanhas promocionais na televisão ou na imprensa sensacionalista, e onde os restantes títulos são empurrados para estantes remotas ou simplesmente ignorados, ao mesmo tempo que a antiga relação de cumplicidade com os leitores habituais é abolida. Fala daqueles a quem a disposição estratégica das grandes redes de livrarias e a capacidade financeira dos conglomerados editoriais não agradam porque impõem regras que condicionam as escolhas dos leitores, forçando-os a optarem entre os livros que lhes são colocados diante dos olhos sem terem sequer, muitas das vezes, a hipótese de saberem que se escreve e se edita muito mais. Sem terem a possibilidade de perceber que é possível comprar de uma forma diferente, menos condicionada e automática, como escolha cultural e momento de descoberta.

    Já João Diogo compreende estas queixas mas fala de uma certa inevitabilidade dos processos de mudança que se relaciona com as características actuais do mercado livreiro e a necessidade deste recorrer a estratégias de venda idênticas às utilizadas para outro tipo de bens de consumo. Entende, por um lado, que o alargamento do número de títulos torna impossível, mesmo a um grande leitor e a um cliente endinheirado, a aquisição da maioria deles, revelando-se imprescindível a afluência de pessoas que, apesar de no máximo comprarem apenas dois ou três livros por ano, permitem, uma vez que são em grande número – fala-se aqui, naturalmente, de quem compra apenas os tais títulos que lhes são colocados diante dos olhos – equilibrar a contabilidade das lojas e aumentar o volume de vendas de determinados títulos. Mas anota, por outro, que o elevado número de livrarias existente na sua relação com o universo de potenciais leitores – e Coimbra é hoje, de facto, um caso típico – retira à maioria delas capacidade para poderem investir num stock muito mais alargado e diversificado de títulos, capaz de satisfazer um leque também ele muito mais amplo de leitores.

    Mesmo sendo ainda poucos em termos europeus, dizem inquéritos recentes que os leitores que hoje temos são mais, bastantes mais, do que aqueles que possuíamos há cerca de dez anos ou quinze atrás. Porém, sendo verdade que se lê mais, também é verdade que se lê mais superficialmente, do que resulta, em parte, o impacto de um certo tipo de livros e a estagnação ou o recuo do interesse por outros, sobretudo por aqueles que requerem algum treino da técnica de leitura, algum lastro cultural e uma sensibilidade particular. Todavia, continua a existir para estes, principalmente nos principais centros urbanos, um público de leitores mais exigentes e com formação que se mantêm como grandes compradores de livros. E são estes que preferem as livrarias nas quais podem encontrar aquilo que procuram, onde podem deparar com espaços para a descoberta, onde gostam de se sentir bem, de serem reconhecidos, de saberem que não estão num lugar que vende livros tal como poderia vender sapatos, pipocas ou acessórios para computadores.

    Atendendo às dificuldades reais que todos reconhecemos, a sobrevivência das livrarias que não cedem ao processo fácil de se deixarem reduzir à condição de entrepostos para títulos empurrados para os tops de vendas deverá passar por uma colaboração entre elas. Não será possível então criar-se uma espécie de liga hanseática de livrarias decentes, em condições de se dirigir a quem gosta mesmo de livros, de gerir stocks comuns, e, um pouco como acontece já com as redes de bibliotecas, de efectuar permutas em função dos interesses dos clientes, reduzindo dessa forma os condicionamentos financeiros impostos por um armazenamento disperso? Admito que chegar a tal disposição requeira imaginação, bastante iniciativa, algum tempo e muito trabalho. Mas todos nós, aqueles que amamos a leitura, que continuamos a encher as nossas casas com livros e mais livros, e que não pertencemos ainda a uma espécie em vias de extinção, agradeceríamos o esforço. E até pagaríamos por isso.

      Olhares

      Três revistas

      Mesmo em tempo de Internet, as revistas especializadas de grande circulação publicadas em papel dão-nos imenso jeito como fontes de informação actualizada, veículos de opinião ou pontos de partida para aceder a determinados temas. As que circulam entre nós são quase exclusivamente estrangeiras, com um claro destaque, em campos como a história, a literatura, a filosofia ou as ciências sociais, para aquelas que se publicam em França. O que apenas será estranho se não considerarmos que a maioria dos seus compradores pertence a um segmento social e etário cuja formação conservou ainda o francês como segunda língua. São pois em francês os três números temáticos de revistas que aqui destaco e podem ser encontradas em alguns quiosques e livrarias.

      A Philosophie Magazine é sobre um tema – XXe siècle. Les philosophes face à l’actualité – particularmente útil numa época de desvalorização do papel interventivo do intelectual e da sua revisão como conceito operativo. Comporta largas dezenas de fragmentos de intervenções públicas de importantes filósofos, colocando-os em confronto com as suas circunstâncias. De Bergson, Berdiaev, Kraus ou Benjamin até Baudrillard, Zizek, Enzensberger e Amartya Sen, sucedem-se intervenções participativas sobre temas como a guerra, a revolução bolchevique, a ascensão dos fascismos, o Holocausto, a questão colonial, os feminismos, os acontecimentos de 1968, a conquista do espaço, a queda do Muro, o neoliberalismo, o «choque de civilizações», a globalização ou o conflito real-virtual.

      Já o Magazine Littéraire publica um número especial que tem como assunto La Passion – théâtre de l’existence. Aqui o objectivo é coligir cerca de três dezenas de artigos publicados na revista, ao longo de mais de vinte anos, tendo sempre em conta uma dupla abordagem da paixão, seja esta afirmada por um ser amado, por uma causa, por uma actividade ou por uma ideia. A primeira abordagem é talvez a mais antiga, e é associada a um certo desregulamento da personalidade, a uma forma de exaltação ou de doença. A outra, mais recente, aproxima-a do desejo, da vertigem, da exaltação. Flutuando sempre entre a melancolia e a acção.

      Para fechar, o bimensário Manière de Voir, editado pelo Le Monde Diplomatique, preocupa-se na edição de Agosto-Setembro com De Lénine à Poutine: Un siècle russe. Esta será, sem dúvida, a mais controversa das três publicações. Por ser a única que oferece textos centrados num tema cujas ondas de choque permanecem, tanto ao nível das representações de um passado recente como no que diz respeito aos contornos do mundo contemporâneo, plenamente activas. Estes distribuem-se por três partes organizadas cronologicamente: a primeira vai da Revolução de Outubro à resistência perante os nazis, a segunda parte da Guerra Fria e fecha com o aparecimento da perestroika, e a última ocupa-se do tempo preenchido com as presidências de Yeltsin e de Putin. É na primeira parte, centrada nos fundamentos do regime soviético e na perversão do Gulag, que se torna possível detectar os textos mais polémicos. Mas os mais perturbantes são aqueles que revelam a Rússia actual como um território que se mantém perigosamente inflamável.

        História, Opinião

        Dos malefícios do esperanto

        «- Sou esperantista, compreende? Trata-se de uma linguagem universal. Para mim não é inglês básico. Foi por isso que fui condenado. Sou membro da Sociedade de Esperantistas de Moscovo.
        – Você quer com isso dizer Artigo 5, Parágrafo 6? Espião?
        – Obviamente.
        – Dez anos?
        – Quinze.»

        Varlam Shalamov, Kolyma Tales

        Em Abril de 1973 começava a cumprir o serviço militar quando fui por duas vezes interrogado por um inspector da PIDE. Tive sorte e não fui demasiado apertado: sei que a minha condição de militar no activo e o facto de os interrogatórios terem decorrido dentro do quartel e com conhecimento do comando me deram alguma protecção. O pide era do tipo paternalista, vagamente sorridente e na aparência cheio de tédio por estar a perder tempo com o que lhe parecia ser peixe miúdo. As perguntas foram vagas e nunca me pediu nomes ou moradas. Enquanto escutava aquilo que eu tinha a dizer sobre a minha própria vida – omitindo no questionário, por exemplo, quaisquer referências à organização na qual eu militava, o que confirmava uma certa dificuldade da PIDE no cruzar das informações – tomava apontamentos e ia-me dando alguns conselhos como «tenha juízo», «veja lá o que anda a fazer» ou «não estrague a sua vida». Em ambas as sessões, porém, um tema permaneceu recorrente: ele insistia em saber se eu conheceria alguém que estivesse ligado à divulgação do esperanto. Na altura não percebi muito bem os motivos da insistência, mas sei hoje algumas coisas sobre o movimento esperantista que me ajudam a entendê-la.

        O esperanto surgiu em 1887, o ano da publicação de Unua Libro – o primeiro livro sobre o assunto, da autoria do judeu russo Ludwik Lejzer Zamenhof –, como uma língua franca, muito útil em viagem, na troca de correspondência, no intercâmbio cultural ou na organização de encontros internacionais, e teve particular divulgação durante primeiras três décadas do século XX. Foi sem dúvida a sua capacidade para derrubar fronteiras e para criar um universo de comunicação paralelo que instigou a desconfiança, e depois a acção repressiva, por parte dos regimes totalitários. Sob Hitler e Estaline foi mesmo proibido e inúmeros esperantistas foram perseguidos, detidos ou mortos. Entretanto, a nova língua começara a ser divulgada entre as correntes libertárias, que procuravam um meio capaz de facilitar as ligações entre organizações de trabalhadores de vários países, o que acabaria por levar a um aumento da suspeição por parte das autoridades.

        Em Portugal, terá sido sobretudo por influência do anarco-sindicalismo que o esperanto obteve alguma influência, chegando a ser acolhido pelo PCP, na sua primeira fase, como instrumento de mobilização. Talvez fosse em parte por aí que o regime, como todos os regimes que temem a circulação sem barreiras da informação e da opinião, o tenha passado a olhar com desconfiança, se bem que nos inícios da década de 1970 – e daí a minha estranheza com a insistência do pide – ele parecesse estar bastante frágil e confinado a pequenos núcleos de entusiastas mais ou menos isolados. Mas até poderia ter acontecido que tudo aquilo resultasse de uma qualquer mania do indivíduo. Um tema que não me importaria de conhecer melhor e um pequeno mistério que gostaria de desvendar. Quem sabe se por esta via lá poderei chegar?

          História, Memória

          «Já o tinha afirmado o Génesis…»

          Um artigo de opinião que saiu no Público, assinado por Pedro Vaz Patto, desenvolve mais uns quantos parágrafos em apoio da grande cruzada da direita católica contra a legitimação das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Não vale a pena perder muito tempo com o essencial da argumentação, uma vez que esta apenas retoma os conhecidos clichés a propósito da impossibilidade, em tais uniões, de se consumar uma preconceituosa «função social do casamento» assente na actividade reprodutora do par. Este raciocínio primário já o ouvimos alto e em bom som pelo menos desde os idos de 1982, dando então lugar à memorável altercação de Natália Correia(*) com o deputado centrista João Morgado.

          Mas aquilo que é particularmente grave neste artigo é que o seu autor avança numa direcção menos usual e que é inadmissível na boca de um jurista. Acontece «apenas» que ele deixa implícita, na forma ligeira como se refere ao assunto, a menoridade social e jurídica daquilo a que chama o «casamento de casais estéreis». Na sua cabeça claramente confinado a uns desventurados que devem ser olhados como pessoas incompletas. E deixa obviamente de parte a possibilidade da existência – sabe-se hoje cada vez mais presente na nossa vida colectiva – de uns quantos depravados que não têm filhos por lhes ser impossível educarem de forma estável uma criança ou simplesmente por opção de vida. A desumanidade destas pessoas de credo na boca é apenas brutal.

          (*) Lateralmente mas a propósito: que jeito nos dariam hoje uns quantos deputados menos pusilânimes, assim da têmpera da Dona Natália!

            Atualidade, Opinião

            A grande evasão

            Entre 2000 e 2007 fugiram das cadeias portuguesas 502 reclusos. Nada de grave, parece, uma vez que de acordo com a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais existe uma «taxa de recaptura» (sic) de 90,6 por cento. Calculo que as verbas e as energias despendidas na referida recaptura, e na demanda dos outros 9,4 por cento dos evadidos, devam ser um tanto superiores àquelas que seriam gastas na melhoria das piores prisões e no reforço da sua segurança. Mas perdia-se por certo uma boa oportunidade para efectuar no terreno treino de corrida e exercícios de fogo real.

              Atualidade

              Outro episódio

              De acordo com a edição electrónica do Expresso «um grupo de dança, que devia representar os 56 grupos étnicos da China, era afinal composto apenas por crianças da etnia Han.» Este é já o terceiro «momento» reconhecido como forjado na abertura dos Jogos Olímpicos. «Suponho que eles [as autoridades] pensaram que os miúdos eram mais naturais e simpáticos», notou Yuan Zhifeng, o director delegado do Grupo Artístico Infantil Galaxy, que actuou na cerimónia.

                Apontamentos, Atualidade

                Nomadismo de bolso

                Escrevia Kipling, citado por Bruce Chatwin, que «se virmos bem as coisas, não existem senão duas espécies de homens, aqueles que ficam em casa e os outros.» A invenção do turismo de massas e das férias pagas, seguida da revolução dos transportes e das comunicações, atenuou essa separação entre os que partem e os que preferem a imobilidade ou não conseguem afastá-la do seu horizonte. A partir da década de 1960, com o progresso das condições de vida de parte expressiva da população dos países industrializados, e com o aparecimento de um mercado de destinos turísticos, grupos cada vez mais numerosos de pessoas passaram a deslocar-se periodicamente para longe do seu lugar de residência, procurando outros cenários para uma vida que desejavam inabitual.

                Já não se tratava apenas de soldados, de pregadores, de homens de negócios, ou de estudantes, saltimbancos e trabalhadores sazonais, que circulavam por força da sua ocupação. De repente, hotéis de preço médio e pensões de província deixaram de ser maioritariamente procurados por caixeiros-viajantes, professores deslocados ou pares ilícitos. Os parques de campismo e os albergues de juventude multiplicaram-se, proliferaram motéis e aparthotéis, as estações de caminho de ferro e as bombas de gasolina ganharam uma nova animação. Por toda a parte um novo viandante em busca de emoções ou em luta contra o tédio, que segue os guias e os desdobráveis e parece encontrar no seu trajecto uma forma de repouso ou de esquecimento das rotinas.

                Gradualmente, a viagem como estado de permanente partida e como afirmação de uma recusa, da qual falava Rimbaud, foi-se perdendo, substituída por circuitos nos quais todos sabem já aquilo que os espera e que irão fazer, sempre em condições de conforto e de segurança. E até a escalada dos Himalaias ou o mergulho de profundidade no Índico se tornaram programáveis e susceptíveis de serem executados sem grande esforço, quase ao colo dos guias, até ao local no qual a melhor fotogenia e o efeito de maravilhamento se juntam na perfeição de um cenário previsível de turismo de «aventura».

                Os próprios povos nómadas estão em vias de perder o seu lugar, uma vez que lhes estão a ser retiradas as rotas e os lugares tradicionais de repouso e de subsistência, ocupados pelas novas vias de partida e de chegada que rodeiam as cidades, por serviços de apoio aos habitantes sedentários que se deslocam de um lado para o outro, por empreendimentos turísticos que nunca bastam para as hordas de entediados cidadãos em busca de alguma coisa que não aquela que conhecem da vida de todos os dias. Mesmo a escrita daqueles que nos foram revelando a viagem como experiência estética e sensorial, capaz ao mesmo tempo de lhes permitir tresmalharem-se das suas circunstâncias, como a de V.S. Naipaul, de Paul Theroux ou do próprio Chatwin – ou ainda, recuando no tempo, a de Nerval, Flaubert, Isabelle Eberhardt e Blaise Cendrars, entre tantos outros -, foi gradualmente transformada num exercício de arqueologia, ou no mapear de mundos inconcebíveis para os novos viajantes providos de iPhone3G, sapatilhas Nike Air e jipes topo de gama, imunes a répteis, a insectos e a temperaturas extremas.

                Por aqui, poucos se interessam já pela rudeza dos cenários que eles nos desenharam, bem diferentes daqueles que mostram os folhetos das agências, os roteiros que acompanham as revistas, os livros e os documentários dessa nova espécie de jornalistas «radicais», bem vestidos e de pele tratada, pagos para construírem sucessivos cenários de desejo. Ideais para aqueles que, contrariando Kipling, vão de viagem com a casa às costas ou integram no seu quotidiano uma evocação branda e domesticada, sem fulgor ou estranheza, dos lugares e dos rostos que chegam de outras latitudes. Cada vez existe menos espaço para um nomadismo que não seja de bolso e é provável que nada possamos fazer para o evitar. E também nada nos garante que o fim desse mundo seja um mal: provavelmente será mais aborrecido, mas talvez seja também menos desigual.

                  Atualidade, Olhares

                  Odobenus rosmarus

                  Eu cá não tenho inveja alguma de Michael «billion dollar baby» Phelps. O que pode parecer uma atitude um pouco estúpida, pois deveria cobiçar-lhe a juventude, a ausência de dores nas cruzes, o número de flexões que consegue fazer, a destreza na água, as medalhas, a fama e o dinheiro. Mas aquela cabeça marcada pelo prognatismo, as pernas assim curtas e sapudas, a propulsão de animal aquático, os músculos de Exterminador, o grito vitorioso à odobenídeo (odobenus rosmarus) de morsa satisfeita, remetem-no para uma espécie diferente, vinda do Waterworld e apenas semi-humana, à qual não desejo pertencer. Talvez seja essa, aliás, a causa profunda da admiração por Phelps manifestada por George W. Bush. Deve ser isso.

                  P.S. – Este post partiu da leitura de um artigo sobre o carácter anómalo de algumas das características físicas de Phelps e a sua relação com a capacidade atlética fora do comum do nadador (mais dados aqui). E pretendeu ironizar um pouco em volta do processo mediático de construção do novo mito. Mas admito que a referência a uma determinada patologia possa ser interpretada de forma diferente. Peço desculpa aos leitores que eventualmente se sintam incomodados. Mas mantenho o texto por este incluir já alguns comentários, por entretanto ter sido citado e sobretudo por saber que muitos outros o não entenderam dessa forma.

                    Atualidade, Devaneios

                    Biblioteconomia

                    António Sousa Homem, um portuense de 87 anos que vive actualmente em Moledo, no Minho, é heterónimo de um conhecido escritor e crítico português. O Dr. Homem lançou em Junho Os Males da Existência, o seu segundo livro, que se apresenta aos leitores como um conjunto de «crónicas de um reaccionário minhoto». Talvez por culpa do subtítulo, fui encontrá-lo numa loja da FNAC na secção de política. Bem perto de um volume de J. C. Espada.

                      Olhares

                      O sorriso dos espoliados

                      O jornal Público não é a folha informativa de um sindicato. Nem um boletim partidário. Por isso apresenta a informação, e em muitos casos também a opinião, de uma forma que se pretende aberta a diferentes sensibilidades e interesses sociais. Mas ainda assim foi uma escolha infeliz a fotografia que preenche metade da primeira página da edição de hoje. Nesta, um grupo de trabalhadoras da Têxtil do Mindelo, todas elas com um sorriso aberto, mostra à câmara do fotógrafo os cheques referentes às indemnizações por despedimento que lhes eram devidas há 14 anos. Tanto tempo depois, que outra coisa poderiam fazer senão sorrir? A vida continuou e, afinal, tristezas não pagam dívidas.

                      Mas a notícia no interior do diário mostra um cenário bem diferente. Aqui as imagens são outras: um autocarro ocupado com pessoas em silêncio e em traje de domingo, mulheres de negro com um aspecto resignado, muita tristeza e muito cansaço. Pessoas a quem a vida tirou muito, outras descendentes daquelas que entretanto faleceram ou já se não podem deslocar, muitas ainda num total que foi de 417, e que agora vieram receber uns trocos. Sem juros, como seria de esperar. Com «rateamento de verbas», como se contava que fosse. «Era 200 contos. Agora tenho um papel que diz 307,69 euros». O Sr. Abel já tem destino a dar ao seu dinheiro: arranjará o telhado, dará «uma pintadela», comprará um esquentador. Nunca saberemos se quando olhar para eles se lembrará dos anos que passou na Têxtil do Mindelo. Que foi de um senhor que tem agora, diz alguém, «uma quinta muito grande».

                      É verdade que a caixa que acompanha a fotografia da capa começa por referir que «a alegria dos rostos esconde a demora da justiça portuguesa». Mas para maioria das pessoas, que compra o 24 Horas ou nem sequer se interessa pelas notícias, e que passa na rua mesmo ao lado dos exemplares do Público espalhados na banca dos jornais, a mensagem errada ficou dada. O jornalismo, pelo menos o de referência, tem também uma função cívica. Ou, pelo menos, deveria tê-la.

                      Citações e informações retiradas da notícia do Público

                        Olhares, Opinião

                        A troca do «patinho feio»

                        Ainda em relação à manipulação política dos Jogos pelo governo chinês, são um tanto chocantes as sucessivas revelações sobre o embuste tecnológico praticado na cerimónia de abertura. A cosmética visual seria legítima no campo da encenação do espectáculo televisivo, naturalmente, mas já o não foi procurar enganar o mundo inteiro, omitindo a informação e fornecendo depois desculpas esfarrapadas. Verdadeiramente indesculpável foi, porém, a ocultação de Yang Peiyi, a menina cantora «patinho feio», e a sua troca pelo «anjo sorridente» Lin Miaoke, apenas porque a primeira não tinha um aspecto conveniente e a organização sentiu que deveria «projectar a imagem certa e pensar no que era melhor para a nação». Da forma como tudo foi feito não se tratou apenas de dobragem – que se pratica em toda a parte –, mas de fraude e de rejeição de alguém, «por acaso» uma criança. A verdade é que pouco adiantará o sentimento de repugnância que este gesto tem merecido, pois, como bem explicou à BBC o dissidente Xiao Qiang, as autoridades chinesas «nem sequer têm noção da falta de ética que isto demonstra». A manipulação e a duplicidade estão-lhes na massa do sangue.

                          Apontamentos, Atualidade

                          O «barulho das luzes»

                          De férias e por isso com um horário menos pendular, não vi a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Mas chegam-me de todo o lado notícias e impressões sobre a dimensão magnífica e aparatosa do acontecimento. Acredito que sim, que assim foi. O governo chinês investiu muito neste momento e detém, como todos sabemos, condições e instrumentos para fazer um trabalho bem feito, varrendo as queixas sobre vozes silenciadas, populações deslocadas, trabalho semi-escravo e direitos humanos espezinhados. Obviamente questões menores diante da «grandeza» do momento, da «capacidade de afirmação» da maquinaria chinesa, da concentração imposta dos meios existentes e da conjugação de interesses de dimensão planetária que suporta o evento.

                          Salvaguardando a diferença imposta pelas tecnologias hoje disponíveis, recordo-me bem, apesar da sombra deixada pelo boicote de 65 países, do espanto do mundo diante da gigantesca coreografia que em 1980 abriu os Jogos de Moscovo. E, via YouTube, já assisti também a cerimónias de enorme «grandeza» e «capacidade de afirmação» em estádios da Coreia do Norte. Em todas essas «grandiosas» manifestações, e apesar da diferença formal que as separa, sempre a mão de uma organização sem falhas, orientada para a consumação da vontade una e a exibição interna e externa dos Estados «dos trabalhadores». Uma capacidade que os Estados democráticos jamais conseguiram igualar, uma vez que não dispõem, felizmente, das mesmas condições para treinarem e para imporem o unânime e o irrefutável.

                          No Público, Inês de Medeiros esqueceu por momentos estes problemas e concentrou-se na disposição cinematográfica concebida em Pequim por Zhang Yimou, o talentoso realizador que trocou as incertezas da ex-condição de rebelde por um cartão de militante do PCC e pela confiança das autoridades. Já Ruben de Carvalho exultou com a forma como, através do espectáculo de projecção global posto em marcha, a China «procurou transmitir valores de inteligência, do valor do saber, da comunicação e do entendimento entre os homens». Fazendo questão de frisar, com indisfarçável satisfação, que «falharam completamente as “previsões” que, por um lado, anunciavam uma liturgia totalitária e, por outro, uma expressão de agressivo nacionalismo». Chama-se a isto ampliar o «barulho das luzes».

                            Atualidade, Opinião