O PS tem um problema para resolver. Por um lado, os seus deputados vão votar contra os projectos do Bloco de Esquerda e dos Verdes sobre os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, ao que dizem alguns por tal matéria «não constar do programa eleitoral do partido». Sem que se permita sequer a opção pelo voto de consciência, precisamente num dos temas no qual este mais sentido faria. Por outro, sabendo-se que a oposição mais conservadora se servirá sempre do assunto para, com o acordo tácito das maiorias silenciosas e homofóbicas, retirar muitos votos ao PS, os seus responsáveis jamais inserirão tal matéria no próximo programa, ou fá-lo-ão sempre de forma ambígua e semi-invisível. Como resolver então o imbróglio? Surpreendendo com uma atitude de arrojo político, um forte sentido de equidade e empenho na mobilização cívica. Precisamente aquilo que não se espera da actual maioria no poder e da generalidade dos membros do seu cordato grupo parlamentar.
«Favores insignes» a baixo custo

Recebi na caixa do correio electrónico uma mensagem de publicidade que me deixou perplexo mas também, de alguma forma, repleto de confiança num amanhã promissor. Fazia até agora parte daquele conjunto de portugueses e portuguesas que vivia mais ou menos à deriva. Optimista céptico, ateu moderado e descrente do Portugal satisfeitinho que se mete em camionetas para ir aos comícios nacionais do PS, julgava viver já em estado de imunidade perante os grandes desígnios nacionais, órfão de exemplos e limitado a aguardar, sem réstia de esperança, pelo cumprimento do ciclo da vida, rumo à inexorável morte, ao pó e ao nada.
Eis senão quando me é proposta a aquisição de um exemplar de O Santo Condestável, contendo o fiel relato da vida de D. Nuno Álvares Pereira, esse antigo agente repressor dos camponeses alentejanos e extremenhos sublevados, e vitorioso chefe das agrestes contendas dos Atoleiros e de Aljubarrota, que um certo dia claro, à vista da luz divina, passou a ser «o Homem, o Herói e o Santo que estamos agora a ver elevado às honras dos altares por Sua Santidade Bento XVI, neste ano da Graça de 2008». Leio e releio a mensagem recebida, visito a página da Webboom que se refere a este livro da editora Planeta, e escuto os ecos de um apelo («Que o seu exemplo de Santidade nos leve a imitá-lo»), bem como os de uma promessa («Todos os seus devotos obterão, pela sua intercessão, favores insignes, de ordem espiritual e de ordem temporal»).
Na verdade, «na nossa época tão conturbada, quantos não são os que necessitam do seu socorro?». Inúmeros, sem dúvida: desde logo todos «aqueles que perderam a situação abastada e fácil em que viviam, os inebriados por êxitos inesperados», e depois «os que perderam o senso da medida e das elegâncias morais», o que julgo dizer-me directamente respeito. O apelo final dirige-se directamente ao mais inflexível ex-incréu, agora converso já às delícias do contacto espiritual com o «11º santo português»: «Faça, o meu caro leitor, uma boa leitura, bem como uma ainda melhor meditação ao ler esta breve biografia, e que as bênçãos de Deus, por intercessão do Santo Condestável, sejam derramadas em abundância no seu coração». Diante de tal proposta, como não desembolsar o putativo leitor os 12,60€ que lhe são solicitados como modesto óbolo destinado a custear uma tão promissora e edificante chave para a sua salvação material e espiritual? Como bónus, acrescente-se, recebe também o texto das Orações Marianas da devoção do Sto. Condestável e uma História do Carmo. Ainda há esperança para os Portugueses.
Road Movie [6]

Banda sonora: Hector Zazou – Sahara Blue
Passado que não foi passado

Já se sabia há algum tempo que Julius Rosenberg, executado em Junho de 1953 na prisão de Sing-Sing em conjunto com a mulher, Ethel, ambos sob a acusação de conspiração e espionagem científica a favor da União Soviética, fora realmente um agente infiltrado. Após décadas de trabalhos e canseiras durante as quais procuraram provar a inocência dos pais, Michael e Robert, os órfãos do casal Rosenberg, aceitaram a nova versão do co-arguido Morton Sobell e acabam de reconhecer a verdade. O singular é que foram precisamente a presunção da sua inocência e a campanha pela sua ilibação que fundaram, na época de arranque da Guerra Fria, o reconhecimento de uma espécie de maldade natural do sistema penal americano junto da opinião pública dita «progressista». Este reconhecimento vem pois suscitar uma reescrita do lugar do episódio na memória profunda do antiamericanismo ocidental.
Quarta-feira em Macau
Se existe coisa que escapa facilmente ao autor é o destino dos textos públicos que este escreve. Cada leitor recorta o que lhe apetece recortar e tanto o pode afixar num placard de escola como passá-lo a um amigo ou transcrevê-lo num blogue. Refiro-me principalmente a fragmentos, que facilmente se emancipam dos textos originais.
Já me parece menos transparente o que acaba de fazer o diário Hoje Macau a alguns posts dispersos d’A Terceira Noite (e não só, ao que sei). Preenchendo com eles uma página inteira do jornal, e conferindo-lhes uma unidade que não tinham, deu a entender ao leitor comum que se trataria de uma colaboração formal do seu autor, o que não é verdade. Não é prática que ofenda por aí além e compreendo as aflições de quem com relativamente poucos colaboradores tenha de produzir diariamente um jornal, mas parece-me que teria sido correcto enviar por e-mail um pedido de autorização. Como teria sido igualmente avisado não abusar da obra alheia dando-lhe um formato que na origem esta não tinha. Divulgo o episódio por razões profilácticas, para prevenir eventuais recaídas. Ao Hoje Macau vou enviar, cordialmente, o link para este post.
Michelangelo, Jane e o trotskismo

Da primeira vez, vi magnetizado Blow-Up. Não sei quando estreou em Portugal, rebaptizado História de um Fotógrafo e com alguns cortes, o filme de Michelangelo Antonioni baseado num conto de Julio Cortázar, mas julgo que não foi logo em 1966, pois nessa altura o contacto dos corpos e a nudez frontal de Jane Birkin, a anglo-francesa que um dia atirou um futuro ministro do Governo para os braços do trotskismo, eram mais-que-improváveis nas salas portuguesas. Devo-o ter visto uns quatro anos mais tarde, durante a frágil e fértil abertura marcelista. Na altura, ainda não demasiado impressionado pelas fixidez realista que o marxismo de seguida me iria impor – aliás, o filme interroga justamente a definição/indefinição do conceito de real –, senti-me perturbado com o jogo de luzes, de lentes, de vidros e espelhos, e pelo fortíssimo erotismo, que cercava os gestos um tanto nervosos e desajeitados de Thomas/David Hemmings. Falo disto porque me passou agora pelas mãos a banda sonora do filme, em parte da responsabilidade de um então muito jovem Herbie Hancock. Aqui fica, com as «vassouras» inconfundíveis de Jack DeJohnette, mais o contrabaixo de Ron Carter e a guitarra de Jim Hall, o deslizante Jane’s Theme. Esta Jane, já agora, era Vanessa Redgrave, também ela uma futura militante trotskista. O mundo é pequeno.
10:37 AM

Are the times a-changin’?

Do Público online
É o capitalismo, seus distraídos
O Estado é bom quando protege as empresas e pérfido quando ampara as pessoas que precisam de amparo. Essa é a velha lógica do capitalismo e tem séculos de existência. A retórica neoliberal sobre a autonomia do mercado é apenas isso, retórica: só vale quando se teoriza em abstracto sobre a maldade do proteccionismo económico e a interferência nefasta dos movimentos sociais na construção de uma «prosperidade» selectiva. Não percebo em que é que a ajuda do governo federal ao até hoje quase falido American Internacional Group pode agora causar tanto espanto a certos analistas.
Interacção [1]

Sem guia

O escândalo partiu de onde menos se esperava. Thomas Kohnstamm, autor de diversos volumes da Lonely Planet, a colecção de guias de viagem utilizada durante muito tempo por quem pretendesse libertar-se da ditadura francófila e dispendiosa dos Guias Michelin, resolveu contar – e fazer dinheiro com isso, publicando e vendendo às centenas de milhar Do Travel Writers Go To Hell? – de que forma redigiu os seus textos sem ir a muitos dos lugares dos quais falava. Ou passando por lá mas viajando, comendo e dormindo de uma forma bem diferente daquela que depois relatava aos seus leitores. Algumas vezes aceitando luvas para recomendar determinados hotéis, sugerir certos restaurantes, ou para fazer passar baiucas por bares imperdíveis. Fazendo-o, pois era bom nisso, de uma forma inteiramente convincente. Uma ou outra discrepância entre a realidade e o vertido no papel que alguns dos seus leitores iam notando passava sempre por excepcional, ou por azar do viajante. Foi preciso Kohnstamm escrever este livro para o embuste ser revelado.
A verdade, para que não me acusem de algo parecido, é que não li Do Travel Writers Go To Hell? – até uma excelente narrativa de viagem, dizem-me, e por isso vou ver se o arranjo – mas apenas as quatro páginas, escritas por Luís Maio, que sobre ele saíram ontem no suplemento «Fugas» do Público. O suficiente, porém, para ficar na dúvida sobre até que ponto muitos outros autores de guias disponíveis fizeram ou fazem a mesma coisa. E para perceber melhor de que forma muitos deles deixaram, ao contrário do que ocorreu num passado ainda recente com viajantes por sua conta e risco como Bruce Chatwin, Bill Bryson, Tony Horwitz ou Jeffrey Tayler, de seguir as suas próprias escolhas e de construir uma leitura crítica dos locais e regiões visitados, para vender ao leitor uma imagem apenas divertida, excitante ou serena de sítios nos quais este pode afinal ser explorado, passar um mau bocado ou conviver com todos os perigos. Se já olhava um tanto de lado os guias demasiado ilustrados que costumam inundar as livrarias a partir de Março e os textos xaroposos e superficiais com fotografias do autor-viajante enquanto poseur que passam por literatura de viagens (ou são-no a uma escala menor), agora mais desconfiado fiquei.
Anche noi

Apesar de tantos e tão justificados rumores em redor do centenário do poeta, romancista, crítico literário e tradutor Cesare Pavese (1908-1950), chegados durante esta última semana de todas as partes, quase ia passando em claro este pedaço de noite.
Anche noi ci fermiamo a sentire la notte
nell’instante che il vento è piú nudo: le vie
sono fredde di vento, ogni odore è caduto;
le narici si levano verso le luci oscillanto.
Também nós paramos para sentir a noite
no instante em que o vento é mais nu: as ruas
estão frias de vento, todos os odores caíram;
as narinas erguem-se para as luzes que tremem.
Fragmento de «Piaceri Notturni»
(Trad. de Carlos Leite in Trabalhar Cansa, Ed. Cotovia)
O pesado fardo

Encontrei por acaso e estou a ler mais devagar do que gostaria um pequeno livro de Tony Judt já com dez anos. Em The Burden of Responsability, o historiador e director do Erich Maria Remarque Institute aborda os trajectos de Léon Blum, Albert Camus e Raymond Aron. Três intelectuais franceses do século XX – intelectuais naquele sentido zoliano fora de moda – que partilhando a atitude de empenhamento na vida pública conservaram sempre uma certa condição de outsiders. Em tempos duros para quem o fazia, quando a pertença a famílias políticas de contornos bem nítidos determinava rapidamente convenientes apoios ou exclusões sem apelo. Quando seguir um caminho autónomo representava um fardo pesado e inevitável para quem se atrevia a fazê-lo. Todos eles pagaram de alguma forma por isso, e, no entanto, talvez também por isso a evocação dos seus percursos lhes devolva hoje parte de uma integridade roubada. Mesmo quando se não aceitam – comigo isso passa-se principalmente com Aron, muito menos com Camus – algumas das suas escolhas.
Este blogue apoia / This blog supports Palin
Michael, Michael Palin.
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Before and After

«In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?»
–William Blake, The Tyger
Awakened from her slumber
she knew something had gone–
a drowsy innocence,
a complacent naitivity…
suddenly, in rude simplicity,
gone.
Shut against the world,
thousands of deaths evade her eyes;
their blood her own
spilled by her own–
an indifference.
Their blood her own,
in thousands (neither more nor less)
suddenly, in rude simplicity,
gone–
And now,
some how,
a difference.
Um poema de Julie Craig
Ou vai ou racha
A gigantesca «Máquina do Génesis» entrou hoje em funcionamento no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), tentando recriar a paisagem do Big Bang que teve lugar há cerca de 13,7 mil milhões de anos. Mas como a primeira colisão frontal de protões apenas está prevista para daqui a alguns meses, ainda não será desta que se dará o esperado Estoiro-Mestre. Todos contamos que os milhares de cientistas que andam há vinte anos a gastar rios de dinheiro para conseguirem simular os primeiros milésimos de segundo do Universo saibam mesmo aquilo que estão a fazer. Embora os mais avisados de nós saibam também que jamais existirá ciência certa.
[Adenda] A acompanhar aqui.
Através da noite

Ela está exposta na sua frágil frescura
e um pouco mais longínqua e despojada.
Ele procura-a no cimo da montanha
ou numa vertente vertical. A noite é calma,
um barco atravessa o mundo. Junto de um rio
brilham chamas sem rumor. Dispersas
são as imagens e as vozes, mas reunidas
num outro mundo mais sereno e vagaroso.
Ele soletra a pedra nupcial e misteriosa.
Um grito rápido de pássaro atravessa a clareira.
Entre duas árvores cintila a Cassiopeia.
Passam esquivas sombras sob os ramos das árvores.
António Ramos Rosa
Banda sonora: Bouzou Bajou – Second to None
Castelhanos de visita

É triste reconhecê-lo, mas todos nós padecemos de momentos de fraqueza que nos transformam de repente em seres inanimados. Ou melhor, talvez eles não constituam algo de triste e apenas façam parte da natureza humana. Acredito que mesmo «o homem mais inteligente do mundo» terá os seus instantes de astenia, nos quais permanece imóvel estirado no sofá, de olhos em alvo pregados no tecto, escutando um daqueles cêdês que simula durante 72’56” o ruído repousante de um regato a correr por entre passarinhos e madressilvas.
O meu momento espiritual é bastante mais ruidoso e ocorre por volta da hora de jantar, quando ligo o televisor para mudar de canal até ao infinito. Foi mais ou menos por essa altura – aceito que perdi a noção exacta do tempo – que passei por dois concursos populares. Num deles, uma jovem com um aspecto conveniente admitia que jamais tinha ouvido falar da Padeira de Aljubarrota (calculo que a temática da panificação lhe passe um tanto ao lado). Noutro, cinco participantes (num total de cinco) no programa de cultura geral «do Malato» concediam não fazerem a mínima ideia da razão obscura pela qual todos os anos, em Portugal, o dia 1 de Dezembro é feriado. Posso reconhecer que o meu estado de consciência não seria o melhor, mas fiquei com a impressão de que os castelhanos já podem avançar, pois muitos portugueses achariam a iniciativa uma experiência curiosa, rara e nunca vista.
