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Nem todos os nossos poetas são os nossos poetas

Cheguei ao caso através de um post de Francisco José Viegas. Nele se chama a atenção para uma opinião de José Eduardo Agualusa, expressa durante uma entrevista concedida ao jornal Angolense, segundo a qual Agostinho Neto, António Cardoso ou António Jacinto poderiam ser «eventualmente muito boas pessoas,(…) mas eram fracos poetas». Claro que, sobretudo por causa do primeiro, caíram o Carmo e a Trindade para os lados de Luanda, ao ponto de começarem de imediato a correr declarações tendentes, uma vez mais, a desqualificar Agualusa no plano intelectual, político e até pessoal, acusando-o, por exemplo, de ter ido «longe demais ao atacar grandes figuras emblemáticas da literatura nacional».

Sem ser crítico literário, conheço o suficiente da obra dos três autores angolanos para, neste caso, concordar genericamente e em consciência com Agualusa. O que não invalida que admita que, para muitas pessoas para as quais a grande poesia deva «conter mensagem», ou então «exprimir sentimentos» sob «belas palavras», eles mereçam todos os epítetos que lhes possam conferir a aura dos «grandes poetas». Posso dizer a mesma coisa da poesia de Miguel Torga, Eugénio de Andrade ou Manuel Alegre, que não considero grandes poetas embora deva respeitar quem ache que o são ou quem tenha gosto em lê-los. Como reconheço a honestidade e o esforço que todos eles foram, eventualmente, depositando no seu próprio labor poético. Aquilo que não é tolerável é que a obra de alguém – poeta, crítico, amola-tesouras ou qualquer outra coisa – esteja isenta de exame e origine formas de coacção sobre a opinião ou a iniciativa de quem a possa contestar. Pelo que se pode ver, na ainda débil democracia angolana, onde se mantém um regime «firme e determinado, mas não totalitário» (palavras de um editorial do sempre oficioso e oficiante Jornal de Angola), permanece com voz activa quem pense que deva estar. Concordo com FJV quando este lembra que «convém estar atento, para que não pensem que ninguém ouve».

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    O caso do holandês rastejante

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    Que fique claro que considero detestável – e particularmente perigoso – Fitna, o filme anti-islâmico de Geert Wilders, aquele deputado da extrema-direita holandesa que saiu agora da semi-obscuridade para os títulos dos media. Detestável pelo seu conteúdo racista e intolerante, que não se contradiz quando estigmatiza o racismo e a intolerância dos outros, uma vez que toma partido por um dos lados do conflito de culturas e de explicações do mundo para o qual existem apenas os inequivocamente bons (nós, sem dúvida) e os inexoravelmente maus (os outros, pois quem mais haveria de ser?). Mas o filme é perigoso também, pois serve essencialmente para excitar os ânimos dos extremistas – situados de um lado e do outro do combate sem tréguas que eles desejam – podendo servir de rastilho para uma vaga de violência e xenofobia difícil de conter e capaz de trazer ainda mais ódio, sofrimento e desejo de vingança.

    Todavia, algumas das reacções de repúdio que tenho lido por aí parecem-me algo filisteias e inapropriadas, pois tendem, uma vez mais, a desvalorizar objectivamente um elemento presente no documentário – e nele alarvemente generalizado – que é o poder crescente dos grupos islamitas sobre sectores cada vez mais amplos do mundo islâmico. Mergulhados há séculos na insciência, na miséria e na submissão – que Enzensberger considera ter sido agravada quando da recusa da revolução cultural determinada, na Europa, pela invenção da tipografia -, afastados de um debate aberto sobre o mundo contemporâneo, a sua diversidade e as suas oportunidades, dependentes de tecnologias que são forçados a comprar ao ocidente, eles têm sido presa fácil dos tiranos e dos exaltados, para os quais a missão apenas estará concluída quando a sua concepção paranóica e medieval do mundo vingar sobre o planeta.

    É certo que o radicalismo islâmico não pode ser identificado com o Islão no seu todo, e que é dirigido por minorias que apenas se representam a si mesmas. Mas é já um fenómeno de massas, e em crescimento – basta olhar para a dimensão das manifestações de rua que assumem as suas palavras de ordem – em relação ao qual é preciso definir uma intervenção que não deve apoiar-se na errada noção de que os seus responsáveis são uma ínfima minoria e que existe uma opinião moderada que acabará por isolá-los. Uma intervenção que passa pela defesa intransigente dos valores de tolerância, liberdade e laicidade que o mundo de matriz iluminista – hoje crescentemente miscigenada com diferentes influências, é certo e é bom – deve preservar e partilhar, no diálogo com o outro, enquanto conquistas que lhe permitiram um dia começar a superar o estado de barbárie. E que as populações brutalizadas pelos regimes tirânicos que vigoram na generalidade dos países islâmicos têm o direito de reconhecer como opção. Diminuir a importância desta tarefa por causa duma guerra estúpida como aquela que Bush levou ao Iraque, devido a algumas iniciativas criminosas dos falcões israelitas, ou em função de acções deploráveis e arriscadas como esta do deputado holandês, é que pode tornar-se perigoso. Ao contrário do que parece pensar gente como Wilders ou os desculpabilizadores passivos do Outro, o mundo não é, nem pode ser, a preto e branco. E menos ainda com o preto de um lado e o branco do outro.

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      Ruído no anfiteatro

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      Todo o país viu as imagens e fala no caso da agressão da aluna da Carolina Michaëlis à sua professora de Francês. A atitude é de unânime condenação, embora eu desconfie que alguns estudantes da faixa etária da agressora possam considerá-la uma heroína e, em certos casos, tenha já «molhado o pão» no apetitoso lombo de outro infeliz docente (ou, pelo menos, tenha sentido uma quase-irreprimível vontade de o fazer). Têm sido distribuídas as culpas por toda a gente, colocando-se por vezes a agressora – que não deixa de o ser pelo facto de não ter batido na cara da professora – numa posição protegida de «vítima do sistema» que lamentavelmente perdeu a compostura. Sem querer insistir no que tem sido dito (um largo leque de posições pode ser encontrado na caixa de comentários de um post de Daniel Oliveira), chamo a atenção para algumas coisas que me perturbaram particularmente e que estão para além da agressão em si. São elas a cumplicidade ou a inacção do conjunto da turma, a falta de uma reacção decidida da professora, a não-apresentação imediata de queixa, a incapacidade da direcção da Escola para tomar medidas claras e prontas (e depois para esclarecer devidamente a opinião pública), a revelação de uma sucessão de casos análogos ou piores entretanto silenciados, o facto da esmagadora maioria das vítimas destes casos serem mulheres, o silêncio conivente dos pais dos jovens agressores (que terão a dizer disto as sempre tão buliçosas «comissões de pais»?). E ainda a real responsabilidade dos governos que têm vindo a retirar prestígio e autoridade aos professores.

      O caso leva-me a reflectir sobre a minha própria experiência, e a falar aqui de um assunto que permanece tabu, ainda que falado entre dentes, com sinais de vergonha, por professores, agora do ensino superior, que não sabem o que fazer e começam também a temer o pior. Dou aulas numa universidade desde 1981, e, naturalmente, ao longo de todos estes anos tenho-me confrontado, na relação mantida com dezenas de milhar de alunos, com comportamentos muito diferenciados no espaço das aulas. Apesar dessa diversidade, e tendo conservado sempre uma relação nada autoritária com a generalidade deles, jamais tive o menor problema disciplinar. Tanto quanto sei, a mesma coisa se passava com quase todos os meus colegas (as raríssimas excepções ficaram quase sempre a dever-se a atitudes de incompetência ou de arbitrariedade). Quando começaram a suceder-se os problemas disciplinares nas escolas secundárias, estes não se reflectiram logo nas universidades, presumindo-se sempre que os estudantes entretanto «cresceriam» e manteriam já comportamentos responsáveis quando chegassem aos nossos anfiteatros.

      Mas tudo mudou há cerca de dois ou três anos atrás. A verdade é que, após as sucessivas vagas de alunos com deficiente formação científica imposta por programas e métodos no mínimo discutíveis, começaram a chegar às escolas superiores estudantes com uma quase nula formação cívica e frágil capacidade de autoresponsabilização. E, pela primeira vez, eu e muitos colegas – com toda a experiência de anos de trabalho, com todo o prestígio que a maioria acreditava ter conquistado para a vida – começámos a ter problemas: alunos que conversam sistematicamente durante as aulas, que chegam atrasados todos os dias, que entram e saem sem uma palavra, que não desligam o telemóvel, que se dirigem ao professor de forma impertinente, que exigem facilidades confundidas com direitos sem cumprirem deveres, que em muitos casos nem sequer distinguem claramente as competências de quem ensina e as suas próprias obrigações. Falta o último passo que, ao que se vê, no ensino secundário há já muito tempo foi dado: transformar as aulas num campo de batalha. Este passo não é inevitável: quero acreditar que, a ser bem aplicado, o previsto sistema de tutorias possa ajudar a melhorar os processos de responsabilização e a articulação entre a vida e a escola, como quero acreditar que a ampliação dos cursos de 2º e 3º ciclo traga para a vida nas escolas superiores pessoas mais amadurecidas e tolerantes. Como acredito nos alunos interessados, empenhados e até afectuosos. Mas temo que, entretanto, algo de mau possa acontecer.

      Claro que a maioria dos estudantes universitários – sei-o por tentar andar de olhos abertos e graças a uma sucessão de óptimas experiências pessoais – não se enquadra neste cenário de catástrofe anunciada. A maioria dos alunos do secundário, acredito, também não se adequará a ele. Só que aos outros, aos elementos de uma minoria a quem é permitido protagonismo, o sistema educativo em vigor e as políticas que estão a ser aplicadas, minando a centralidade do professor na escola como na sociedade, conferem um grau de manobra cada vez mais perigoso. Que o meio social envolvente observa demasiadas vezes com um encolher de ombros.

      P.S. – Pouco deve interessar, em casos como aquele que desencadeou o actual debate, o desculpabilizador discurso pedopsi sobre o telemóvel enquanto prótese. A admissibilidade do seu uso imoderado começa quase sempre em casa e apenas é possível porque, daí até à escola, tem sido mantida toda uma rede de permissibilidade que não deixa muitos jovens perceberem (ou não os obriga a perceberem) que existe uma dimensão de sociabilidade moderadora da utilização lúdica ou produtiva da máquina, de qualquer máquina. Que há vida para além dela.

        Olhares, Opinião

        30 anos

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        Pedagógico e demolidor o suplemento P2 do Público de hoje sobre os «Trinta anos que mudaram uma ilha». Trinta anos da Madeira de A. J. Jardim, evidentemente. O mesmo que dizer trinta anos de regionalização intensa e de muitas obras, de alguma ou de bastante utilidade, mas também trinta anos de corrupção, arbitrariedade, clientelismo king size e total descontrolo da despesa pública. Um bom exemplo na página 12: à melhor rede regional de edifícios escolares corresponde a maior taxa de analfabetismo do território nacional, o pior índice de aproveitamento, uma das mais elevadas percentagens de abandono e quase sempre os últimos lugares no ranking das escolas. Acrescento outro: uma rede de serviços de saúde megalómana e desproporcionada acompanha aquela que é de longe a maior taxa de alcoolismo do país. Dados que já não surpreendem, mas não deixam de chocar pela impunidade que suscitam. O mesmo no que concerne ao funcionamento obscuro da administração pública, à conivência da hierarquia católica com o poder, à tutela sem princípios da comunicação social, ao emaranhado reticular dos favores, à ausência de transparência nos concursos públicos, à inexistência do regime de incompatibilidades aplicado aos titulares dos cargos regionais, à política do betão que está a destruir a ilha diminuindo a qualidade ambiental e o nível da procura turística, ao endividamento constante e sem controlo. Trinta anos também da maior agressividade sobre quem se limite a denunciar esta vergonha. Tudo sob o olhar indulgente dos sucessivos governos da República. Sempre com um sorriso de circunstância guardado para o actor principal deste longo drama com ares de comédia.

        Adenda – Já que falo do Público, uma nota negativa para um aspecto da nova colecção – para já, aparentemente útil e de fácil consulta – sobre a vida e a obra de alguns dos «Grandes Pensadores» da cultura do Ocidente-Norte: como é possível avançar com uma iniciativa destas, e divulgá-la profusamente, sem identificar a autoria dos volumes? Sinal positivo: disse-me hoje a senhora do quiosque onde levantei o meu exemplar que todos os clientes interessados se queixaram do mesmo.

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          Profissão de fé

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          O Partido Comunista Português manifestou-se colectivamente na rua, esvaziando os «centros de trabalho» e trazendo até à capital muitas pessoas que se identificam com a sua linha política e sobretudo com a sua bandeira. Fazê-lo numa «Marcha Liberdade e Democracia» permite relembrar a história dramática do seu combate contra a ditadura, mas repugna hoje a muitos cidadãos, para os quais a noção de liberdade não se adjectiva nem se relativiza, e deveria valer – aspecto ao qual o PCP não atribui um valor por aí além – a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo. A manifestação teve na sua origem o protesto, justo ainda que provavelmente extemporâneo, contra uma nova lei dos partidos que reduzirá a capacidade de intervenção das forças políticas situadas fora do eixo PS-PSD e promoverá uma espécie de retorno serôdio ao modelo arcaico do «rotativismo». Uma boa prova do amor pela liberdade e pela democracia deveria, assim, ter passado por um diálogo franco, e marcado pelo mútuo respeito, com pelo menos uma parte das forças e correntes de opinião que tal lei irá minimizar ou tornar residuais. Ou mesmo com sectores dos grandes partidos do centro que não concordam com o projecto. Mas fazê-lo seria pedir demais à comprovadamente nula capacidade de diálogo dos comunistas portugueses, sempre pouco interessados em participar naquilo que não podem ou não conseguem controlar. E retiraria também ao desfile essa dimensão ritual de autocelebração e profissão de fé da qual o PCP carece cada vez mais. Nenhuma surpresa, pois.

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            Votado e lavrado em acta

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            O caso do docente de Braga, a quem terá sido dito que «um professor universitário não pode ser criativo nem humorista» e foi determinado que tivesse tento na língua, circula por aí, entalado entre jornais e monitores. Eduardo Pitta e Manuel António Pina dedicaram-lhe textos de sinal diverso. Muitos outros se lhes seguiram. Entretanto o móbil do «crime», o blogue do referido professor, de gosto duvidoso e humor que não fará propriamente rir multidões, não abona muito em favor do lançamento de uma efectiva vaga de indignação. Já um tal «Voto de Repúdio aprovado pelo Conselho do Departamento de Sociologia da Educação e Administração Educacional, em 27 de Fevereiro de 2008», no qual publicamente se declara que «o docente Daniel Luís é o único responsável pelo encerramento dos seus blogues, a que procedeu de livre vontade na sequência de um apelo do seu Departamento, votado e lavrado em acta», merece, pelo menos, a preocupação de qualquer cidadão capaz de reconhecer os valores essenciais do discernimento e da tolerância democrática. Seja ele universitário ou não. Tenha ou não sentido de humor.

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              Dr. Jekyll, Mr. Hyde e os outros

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              Reza assim:

              «A esquerda não pode sacrificar a sua perspectiva própria a uma visão tecnocrática, alheia aos seus valores políticos, culturais, ambientais, etc. Isso vale para todas as áreas, mesmo aparentemente as mais ‘neutras’. Por exemplo, a modernização das infra-estruturas não pode dar-se contra a defesa do ambiente e a coesão territorial, antes promovendo-as. A modernização da economia não pode visar somente aumentar a produtividade e competitividade internacional, não podendo deixar de ser caracterizada pela luta pelo emprego e pela sua qualidade, pela justiça nas relações laborais, pela garantia das ‘obrigações de serviços público’ nos ‘serviços de interesse económico geral’. A modernização da administração pública não pode ter como objectivo somente a eficiência administrativa e o rigor das finanças públicas, mas também e sobretudo melhores serviços públicos para toda a gente. A modernização do sistema político não pode consistir somente em eliminar as suas disfunções, não podendo perder de vista a renovação da democracia, o incentivo a uma maior participação, o aumento da transparência e da responsabilidade política, e a descentralização territorial.»

              A longa citação foi retirada do artigo de Vital Moreira que saiu ontem no jornal Público. No entanto, foi o mesmo VM quem, no recente Fórum Novas Fronteiras, afirmou estar «satisfeito com o que vejo hoje no país; quando começámos ninguém pensaria que chegaríamos tão longe». Presumindo que VM não usou o plural majestático, e prestando atenção a outras intervenções, quer-me parecer que temos aqui um excelente exemplo do estado de ligação com o real a que chegaram o responsáveis do PS e os seus companheiros de ocasião. Criticando práticas pelas quais são os primeiros responsáveis e associando-as a «alguém» ou a «qualquer coisa» que parece acreditarem nada ter a ver com eles, enunciam uma perigosa atitude de esquizofrenia política. Em nome do tal realismo, pois com certeza.

              A partir da crónica de Manuel António Pina publicada hoje no Jornal de Notícias.

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                O patético Fórum Novas Fronteiras, que reuniu no sábado uns quantos apaniguados e fellow-travellers do governo do PS para um elogio público e litúrgico das suas políticas, revelou-se ainda pior do que se esperava. O autoproclamado «espaço de diálogo, de avaliação e de discussão» não foi mais que um encontro de pré-campanha, conscienciosamente mediatizado e convenientemente desprovido de vozes dissonantes, e no qual José Sócrates nem sequer disfarçou o tom comicieiro – aliás, já não parece possuir outro – entrando no pavilhão em passo enérgico, a acenar às hostes entre palmas, vivas e ai-jesus. Só faltou mesmo a musiquinha de Vangelis. Inebriada pelo poder, fascinada pela lógica prática do realismo político, encerrada em sedes e gabinetes, e deixada sem rédea por uma oposição sem força ou credibilidade, esta gente não pára de ficcionar sobre as medidas administrativas que confunde com «êxitos». Esses que um país acabrunhado e sem desígnio não consegue enxergar, mas que ela «vê» muito, muitíssimo bem. Quem pensará que realmente mobiliza?

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                  Não foi a intervenção em si, mas sim aquilo que ela indicia. Na SIC, ontem à hora do jantar, as palavras de Ricardo Costa, director-geral adjunto da estação, a propósito da mudança de titular no Ministério da Cultura, tornaram muito evidente a promiscuidade instalada entre uma forma particular de «comentar» mediaticamente a actualidade política e um determinado modo de «fazer» a política à qual se refere essa mesma actualidade. Que primam pela superficialidade, cada vez mais submersos, uma e outro, no imediatismo dos raciocínios e na vulgar contabilidade dos votos e das influências.

                  Ao considerar irrelevante o papel do Ministério da Cultura («que até foi, durante bastante tempo, uma simples secretaria de Estado»), por este não contar «em termos de votos», achando até desproporcionada a projecção mediática que os seus actos normalmente têm, Costa não evidenciou apenas uma notória estreiteza de visão, parecendo não perceber o valor estruturante e simbólico das políticas culturais. Demonstrou também alguma falta de perspectiva, traduzida no esquecimento do impacto a médio prazo, repercutido nas mais diversas áreas, que têm as iniciativas governamentais neste domínio. Aqui como «lá fora»: afinal, ainda hoje se recorda a obra (discutível, mas obra de impacto) do ministro francês Lang.

                  Triste exemplo o de um «comentador político» que centra os seus comentários apenas nos resultados eleitorais, nas sondagens, nos títulos da imprensa, nas tricas de antecâmara. O drama é que não se trata apenas de um caso individual ou de um momento de dislate, mas antes de uma escola instalada, transversal a um certo jornalismo e a uma determinada forma de fazer política, que todos os dias nos zumbe aos ouvidos. E que por vezes atordoa.

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                    Ópio para o povo

                    O Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações declarou à Visão que uma das mais importantes tarefas da referida aliança consiste em fomentar a «integração da história das religiões» no ensino e em promover o «diálogo inter-religioso». Quis com isto dizer o «laico» Jorge Sampaio que apoia um reforço do papel das religiões na formação cultural e ética das novas gerações. Tenderia a concordar se, como um outro dever da mesma aliança, idêntico destaque fosse dado à sua crítica e à enunciação do papel central que elas historicamente têm cumprido como entraves da mudança, factores de desigualdade social e agentes da guerra. O que não deixaria de ser uma forma de aproximação entre os povos (a «aliança das civilizações» da qual fala o novo jargão) e de melhoria da sua qualidade de vida.

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                      Agrião obrigatório

                      O meu último post de 2007 era previsível e contém, digamos, uma espécie de declaração de derrota.

                      Desde que o proibicionismo antitabagista se preparou para substituir as campanhas contra os malefícios do tabaco, insisti na ligação entre o gozo de fumar e práticas culturais tão válidas quanto o são aquelas que associamos ao consumo do álcool e do café. Serão males que, para muitas pessoas, se foram traduzindo num bem maior: o acesso a um padrão de vida que têm todo o direito de escolher. Em seu nome – e apesar de quase não fumar ou consumir bebidas alcoólicas – fui tomando aqui e ali a defesa de uma política equilibrada, capaz de combinar os interesses de todas as partes.

                      Em vão, pois no final ganhou uma delas. Aquela que foi capaz de associar uma maioria de políticos e legisladores profissionais – que procuram mostrar um «ar de modernidade» empurrando, hipocritamente, concidadãos para um gueto – à minoria de fanáticos e exaltados que entende ser a sua maneira de viver a única irrepreensível e aquela que merece todos os direitos de cidadania.

                      Por isso deixarei praticamente de fumar, uma vez que apenas o fazia em sociedade e não aceito passar a ser tratado a partir de agora como um pária. Confinado a expelir baforadas furtivas em pátios e portarias, exposto à chuva, ao vento e ao opróbrio dos higienistas triunfantes. Mas vou vingar-me nas carnes verdes, pois a minha esperança de vida ainda integra a possibilidade de me ver um dia reduzido ao consumo obrigatório do agrião, do nabo e da cenoura. Não posso perder tempo.

                        Atualidade, Opinião

                        Frei Bento

                        Tenho muito respeito pelo trajecto pessoal e pelo trabalho do teólogo dominicano e colunista Frei Bento Domingues. Ele é desde há muito, e começou a sê-lo numa época em que geralmente se pagava caro pela ousadia, uma das raras figuras da Igreja católica portuguesa que tem procurado levar o cidadão comum, crente ou laico, a pensar Deus e as religiões. A pensá-los, sublinho. E foi também um daqueles que, desde muito cedo, procurou mostrar-nos que a atitude religiosa apenas faz sentido como prática libertadora, não dogmática e eminentemente social. Principalmente quando a fé de quem a pratica se mantém numa dimensão necessariamente individual.

                        É por isso que tenho lido com certa mágoa algumas das suas crónicas recentes. Nas quais, de uma forma cada vez mais incisiva, procura explicar certas posições da Igreja romana e do actual papa, ou se dedica a demonstrar a fragilidade das razões daqueles que recusam Deus e a própria religião. Os que, segundo ele, «têm medo que Deus exista» e, na afirmação de um cepticismo extremo, «comeram a razão toda». Uma atitude como esta, mesmo quando envolta em belas palavras e, admito, em excelentes sentimentos, tende sempre a solicitar uma rejeição da liberdade do outro. Dessa liberdade total, sem condições, fundada numa convicção tão forte e tão legítima quanto aquela que alguns, como Frei Bento, bebem principalmente na fé.

                          Olhares, Opinião

                          Os mal-amados

                          Um dos grandes vícios de uma boa parte dos colunistas «de esquerda» – em alguns dos quais encontro também, para que conste, muitas e boas qualidades – consiste em perderem mais tempo a etiquetar certas pessoas que não partilham dos seus pontos de vista, em metê-las em gavetas, gavetinhas e gavetões, do que a discutir as suas ideias ou a partilhar aquilo que elas (também) fazem de bom, útil ou interessante. Sob este aspecto, lamento ter de reconhecer que uma parte dos fazedores de opinião da «direita» que não é trauliteira tem vindo a comportar-se bastante melhor do que os seus semelhantes do outro lado da avenida.

                          Isto é particularmente detectável numa parte do universo dos blogues portugueses, dentro da qual absolutamente tudo aquilo que escrevam, digam ou façam pessoas por certo insuspeitas de serem ferozes inimigos do pluralismo como Vasco Pulido Valente, José Pacheco Pereira ou mesmo Pedro Mexia – para não citar mais – é logo reputado como algo que não merece um minuto de atenção, ou que traz com toda a certeza água no bico. Podem oferecer pérolas – e certas vezes oferecem – mas que importa isso? O sectarismo mais anacrónico e o preconceito travestido de uma qualquer «posição de princípio» tendem a eternizar-se. A tacanhez disfarçada de indiferença também. É a vida, dir-se-á. Mas esta vida poderia ser bem melhor. «Mais civilizada», diria, se a expressão não tivesse caído em desuso como sendo… «de direita».

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                            Abuso

                            Admito sem problemas que Sócrates receba o fanfarrão Hugo Chávez e lhe dê uma palmada nas costas. Afinal temos muitos compatriotas amedrontados na Venezuela e o gás natural que tem chegado da Nigéria poderá não ser da melhor qualidade. Já me parece patético, e também algo abusivo, que cerca de duas centenas de portugueses ligados principalmente à União de Resistentes Antifascistas Portugueses, à Associação de Amizade Portugal-Cuba, a um certo Comité de Solidariedade com a Venezuela, a alguns sectores da CGTP e por supuesto ao PCP, dêem as boas-vindas ao «revolucionário bolivariano» com palmas, vivas e, imagine-se, canções de José Afonso.

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                              Problema de sintaxe

                              Ando há semanas a tentar ler Descascando a Cebola, o livro autobiográfico de Günter Grass sobre o período que vai de 1939 a 1959. Não é autor que me encha as medidas, já aqui o disse. E, como também já escrevi, não me agrada que ele, a «consciência do povo alemão», tenha demorado tanto tempo a reconhecer em público que pertenceu a um destacamento das SS. Mas a dificuldade da minha leitura – que antevia como a de um testemunho – deve-se sobretudo à óbvia ausência de empatia com a tradução da obra. António Guerreiro já tinha chamado, no Expresso, a atenção para, entre outras falhas, «frases sintacticamente incorrectas ou demasiado próximas da sintaxe alemã», o que a tradutora e a editora procuraram refutar dois números do mesmo semanário depois. Não sou capaz de julgar com rigor de que lado está a razão, ou se todos a têm. Estudei alemão durante dois anos mas já quase esqueci o pouco que aprendi. Avalio a tradução, por isso, apenas através do gosto e da sensibilidade. Do ouvido também. E estes não me deixam um impressão positiva, tendendo a simpatizar com a opinião do crítico do Expresso. Assim, soam-me mal, muito mal, frases como «demo-nos com vontade à boa disposição», «abasteciam-nos com o jargão tradicional, excedendo-se a eles próprios na descoberta de chicanas subtis», «não seria mais premente falar actualmente» ou «repetidamente se atiçavam fogos de esperança que convidavam a aquecer na sua proximidade o ânimo enregelado», entre muitas outras, largas centenas delas, de idêntico recorte. Será por isto que continuo a andar para a frente e para trás com o livro. Sem avançar grande coisa, fazendo ainda o possível por não desistir.

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                                Um caso à beira-serra

                                Ao falar do comportamento dos dois senhores agentes da PSP que entraram armados em bufos dentro da sede sindical na Covilhã, Ângelo Correia, na televisão, colocou, em forma de boutade, o dedo na ferida: «No tempo do Dr. Mário Soares como primeiro-ministro isto nunca aconteceria.» Quando a cultura da liberdade passa a ser apenas uma florzinha rubra na lapela no dia vinte e cinco do quatro, e todos os atropelos se desculpam em nome da eficácia ou da autoridade do Estado, coisas destas acontecem. E eu até nem sou soarista. Nem ele, o Dr. Ângelo.

                                Adenda: «O ministro da Administração Interna considera que, com base no relatório preliminar divulgado hoje pelo inspector-geral da Administração Interna sobre a visita da PSP às instalações do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) na Covilhã, segundo o qual a polícia não cometeu qualquer infracção, que ‘não há lugar à instrução de processo de inquérito ou processo disciplinar’.» [Público online]
                                Tudo bem, portanto. E assim fica aquela gente a saber que pode agir impunemente. Que o poder político a protege e compreende. Afinal, atemorizar cidadãos não é, só por isso, crime previsto no código penal. Como o bicho-papão, o polícia mau faz parte do nosso imaginário colectivo e é conveniente que nele permaneça.

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                                  A Birmânia não é aqui

                                  Este post foi originalmente publicado há seis dias. Pela actualidade que mantém, é de novo chamado à primeira linha. Com algumas pequenas alterações.

                                  O desinteresse dos principais partidos da esquerda portuguesa pelas frentes do combate democrático que vão sendo sucessivamente abertas pelo mundo surge-nos como uma triste constante. Exceptuando-se, naturalmente, as «solidariedades» ocasionais escolhidas caso a caso. Mesmo quando os sinais evidentes da repressão e da revolta, ou os primeiros indícios de novos genocídios, nos entram em imagens brutais pelas casas adentro. Para o PCP e para o Bloco de Esquerda, o drama birmanês permanece distante, quase como se nada tivesse a ver connosco, como se não justificasse um estremecimento de emoção, uma palavra de protesto, uma clara reprovação. Que importa afinal o ruído que chega da rua distante quando mantemos o nariz mergulhado no prato da sopa e nas tristes agendas eleitorais? A despolitização da política e o sectarismo, cara e coroa da mesma moeda, castram e desumanizam a experiência da cidadania, questionando o próprio conceito de democracia de quem os pratica.

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                                    Ernesto no aniversário da sua morte

                                    A imagem pública de Ernesto Guevara de la Serna manteve, praticamente desde a sua integração na guerrilha cubana, um grande destaque mediático. Parte importante da auréola de romantismo revolucionário que acompanhou a tomada do poder pelos barbudos da Sierra Maestra, deveu-se à forma como Fidel, Camilo Cienfuegos ou Guevara projectaram, para um público mundial, a representação de uma causa que se mostrava radicalmente jovem, igualitária e justiceira. Assim, pelos inícios da década de 1960, o argentino era já uma lenda viva, cuja importância simbólica transcendia até os sectores da esquerda que viam no regime cubano a materialização das suas utopias e a superação do já decaído modelo soviético do socialismo. Ainda que acidental, a fotografia de Alberto Korda, projectando uma imagem heróica e poética do Che, foi obtida em 1960, quando este ocupava já um lugar de destaque como protagonista da Revolución.

                                    Este realce ampliou-se logo após o seu desaparecimento físico, transformando-lhe o rosto – o do combatente vivo e o do mártir morto – em símbolo maior de uma rebeldia com causa que uma parte da intelectualidade da esquerda mais heterodoxa olhava então com simpatia, e que a juventude dos sixties politicamente mais activa reconhecia como sua. Em Portugal, ainda durante o período marcelista, textos seus foram publicados e o seu estilo pessoal glosado, enquanto posters com a reprodução da célebre fotografia rivalizavam nos escaparates com os aforismos sentimentais de Júlio Roberto, e decoravam instalações associativas e quartos de estudantes.

                                    Antes ainda da canonização, hoje reconhecível em Cuba e que omite as divergências que foi tendo com Fidel e o levaram a deixar Havana e a partir para o Congo e para a Bolívia – «a minha casa ambulante continua a ter duas pernas e os meus sonhos não conhecerão fronteiras» –, a universalização do Che começara já, impulsionada pelo próprio sentido internacionalista da sua concepção de socialismo, sinalizada com clareza na estrela de cinco pontas que usava na inconfundível boina. «Criar um, dois, três, muitos Vietnames» não era simples palavra de ordem, um mero slogan, mas todo um programa de enfrentamento do imperialismo americano que, como sistema mundial, deveria também ser combatido a essa escala, recorrendo-se para o efeito a uma guerra de guerrilha, descentrada em múltiplos focos rurais, que deveria tornar inoperacionais os regimes que colaboravam com o poder ianque, derrubando-os de seguida. E arrastando consigo as injustiças do próprio capitalismo.

                                    Esse percurso original do guevarismo, partilhado, apesar de algumas divergências tácticas, pelos grupos e grupúsculos partidários da guerrilha urbana da década de 1970, terminou com o recuo global do socialismo de Estado enquanto modelo. Na «era do vazio» dos anos 80, viu-se então confinado a núcleos de nostálgicos, de activistas ultra-radicalizados ou de militantes dos velhos partidos comunistas, carentes de símbolos atraentes e que não hesitaram em transformar num dos (agora) seus aquele que antes haviam tantas vezes reprovado (os textos que o comprovam existem, e as memórias também, por muito que o tentem camuflar as posteriores operações de cosmética).

                                    A última década do século passado reconheceu, no entanto, um manifesto «regresso do Che», reunindo simpatizantes e activistas de diferentes causas que, enquanto ícone e fonte de inspiração, transportaram para um novo quotidiano a sua imagem. A resistência ao unilateralismo e os movimentos antiglobalização recuperam então, reconstruindo-a, a dimensão rebelde e planetária de Guevara, não hesitando em ignorar ou em justificar o seu papel, comprovadamente marcado pela intolerância e pela defesa de actos de extrema «violência revolucionária» pelos quais foi responsável na fase de lançamento do regime cubano, e que foram recentemente lembrados num livro de Alvaro Vargas Llosa (Che Guevara Myth and the Future of Liberty).

                                    Ao mesmo tempo, a revolução da informação e do consumo de massas, passaram também a aproveitar a sua imagem como produto de compra e venda, fazendo-a transportar na rua, por muitos daqueles que o Che sem dúvida desprezaria ou combateria, em t-shirts e pins, como gadgets e em tatuagens, como Homer Simpson ou Cristo. Numa mesma capa de revista, ao lado de Maradona ou Paris Hilton, o seu rosto passou a anunciar paraísos tropicais ou uma «revolução» transformada, ela própria, como produto de moda, em agente dinamizador do mercado de vestuário e bebidas. Em Che: Market and Revolution, a crítica inglesa Trisha Ziff reconhece mesmo, em cerca de trezentas peças assinadas ou anónimas, o aproveitamento comercial – se quisermos, a corrupção – da velha imagem obtida por Korda.

                                    É esta «domesticação» do Che que Rui Ramos glosa no artigo da revista Atlântico («O desprezo de Che Guevara»), mas pegando-lhe, a meu ver, de uma forma equívoca. Ou antes, fazendo-o através de uma leitura que tende a depreciar o papel histórico de Guevara e a ridicularizar, de uma forma parcial, politicamente comprometida e a-histórica, as leituras contemporâneas que atribuem um valor positivo e dinâmico ao seu legado. Efeito do qual a própria revista se serviu, reproduzindo na capa um desenho que o assemelha a Adolf Hitler. Se, como estratégia de marketing, pode ser uma boa ideia, este expediente tende a acentuar uma distorção essencial que o artigo promove, através de um processo de «descontextualização» da actividade e da influência do Che, de incompreensão perante as metamorfoses da sua figura, e de impaciência em face da sobrevivência visível dos ecos do seu legado.

                                    Dois aspectos, que materializam duas divergências, separam aquela que me parece ser uma abordagem objectiva do tema na relação com aquela que é a leitura do autor do artigo.

                                    A primeira tem a ver com a inscrição da acção de Guevara na história do seu tempo. Neste sentido, avaliar o Che como um falhado ou um oportunista, quase um louco, para quem «os males do mundo não o levavam a compadecer-se pelos outros, mas a desprezá-los», como o faz Rui Ramos, é tão pouco rigoroso como entendê-lo, à maneira das hagiografias, como ser perfeito ou semideus. No seu tempo, foi sim um agente transformador, integrado no fluxo mundial de expectativa de mudança vivido no decurso dos «longos anos 60», e, ao mesmo tempo, integrador de solidariedades e de projectos de emancipação que cumpriram o seu papel histórico. Incluindo-se neste, para além da sobrevivência do castrismo, a própria transformação do funcionamento dos regimes democráticos do ocidente e a valorização política e moral dos movimentos de emancipação do então chamado «terceiro mundo».

                                    A segunda discordância tem a ver com a desvalorização da sobrevivência – naturalmente adaptada a diferentes circunstâncias – do legado simbólico do argentino. Em artigo aparecido há dias no El Pais, Iván de la Nuez, o ensaísta cubano que vive em Barcelona, autor de Fantasia Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana, coloca a questão em termos que me parecem correctos, ao considerar que, se para a direita o «fetiche do Che» é «uma derrota cultural após uma vitória política», ao invés, para a esquerda, sobretudo para a actual esquerda radical, a manipulação desse fetiche significa «uma vitória cultural depois de uma derrota política». Quer se queira ou não, quer se goste ou não – e independentemente da imputação fundamentada de actos de barbárie que tem vindo a ser feita ao Che-homem de Estado – a verdade é que a sua auréola de idealista e de herói, a capacidade de sedução de alguns dos valores que orientaram a sua intervenção, a própria noção da violência revolucionária como necessidade, permanecem activas no imaginário de uma parte substancial das gerações mais recentes. Ainda que, muitas vezes, sob a capa de um ícone pop. Sobreviveram aos quarenta anos que, no próximo dia 9, se perfazem sobre a data da sua morte. E sobreviveram à própria decadência e anunciada morte dessa crença marxista e leninista que, muito antes de Fidel, o próprio Che assumiu como sua.

                                    Artigo escrito a 6 de Outubro de 2007

                                      História, Opinião