Arquivo de Categorias: Opinião

Onde estará você a 23 de Janeiro? (1)

futuro

Cada vez é pior do que a anterior. A abstenção eleitoral tem crescido. Irregularmente, é certo, mas tem crescido. Em Portugal como na maior parte dos Estados da velha Europa, incapazes de renovarem os modos de funcionamento da democracia representativa. Entregues à monótona gestão de um sistema político-partidário que não se apoia nos melhores, nos mais activos, nos mais bravos e solidários, mas antes na intervenção dos pálidos, dos palavrosos e dos espertalhaços que a cultura ultramediatizada se encarrega de impor àqueles que, por distracção ou ausência de alternativa, lhes entregam à boca das urnas o crédito de confiança. Neste cenário, estranho seria se o número de desinteressados, de abstencionistas potenciais ou efectivos, não fosse crescendo sempre. Aquilo que tantas vezes se considera o aumento do desinteresse pela política não é mais do que o resultado de uma vertigem, de uma náusea, subliminar ou declarada, que se torna inevitável quando os protagonistas a alimentam. Desinteressantes, repetitivos, desgastados por uma prática sem a dimensão da esperança, que apenas conseguem enxergar como uma luta, dotada de um código ético muito peculiar, pela tomada e pela conservação do poder. Pessoas que a maioria de nós nem sequer terá especial interesse em escutar ou conhecer, em quem até pode votar por desfastio mas cuja voz não trocará por uma ida ao futebol ou um final de tarde à volta de umas cervejas e de uns pastelinhos de bacalhau.

Neste cenário desolador, como estranhar que a maioria das pessoas com quem nos cruzamos nem sequer seja capaz de esclarecer com rigor o dia das próximas eleições. «Acho que», «não sei bem», «tenho a impressão mas não tenho a certeza», «quero lá saber», são expressões costumeiras, muitas delas significativamente emitidas por gente que jamais disse não querer saber de política. Gente a quem reconhecemos mesmo um passado de interesse ou de combate por temas e por causas com uma dimensão cívica. «Acho que será a um domingo, tal como o dia de Páscoa», disse-me uma, na tentativa atabalhoada de fazer um pouco de humor negro. As notícias, essas não anunciam nada de bom em relação a uma alteração à vista, nem que seja circunstancial, deste estado de coisas. Olhamos o panorama da campanha para as eleições presidenciais de 23 de Janeiro e não deparamos com um factor, um flash, um assomo de energia política capaz de empolgar quem se situe – e é essa a condição da generalidade dos eleitores – fora das pequenas manchas concêntricas que apoiam ou concedem crédito aos candidatos em presença. Não existe pathos, fragor, bandeiras agitadas com força, palavras gritadas com convicção, militância a sério, apostas sentidas num rosto que não ofereça a chave do Éden mas tenha alguma capacidade para dar voz a anseios, a expectativas, a projectos mobilizadores capazes de colocarem a gestão do poder como instante, como acto assumido em nome do colectivo, e não como um fim em si mesmo.

Isto não significa, no entanto, que tudo seja igual. Por entre o ruído, do «diz-se que», do «afinal o tipo», do «como seria de esperar», «ele fez», «ele disse», que padroniza os candidatos por baixo reduzindo-os à condição de supostos malfeitores, existem sentidos, expectativas, que independentemente dos rostos que os protagonizam perfilam campos muito diferentes. Por isso me parece que acima das caras se deve colocar o futuro que elas podem não pontuar mas com toda a certeza anunciam. Por isso também não possa ser indiferente, a quem não se reconheça na personalidade de qualquer dos candidatos e não acredite em seres perfeitos e providenciais, aquilo que cada uma delas representa. De acordo com a nossa Constituição, um Presidente da República não governa, pouco pode prometer e tem um papel semelhante ao do quarto árbitro de futebol: só participa no jogo quando instado pelas circunstâncias. Mas aquilo que pode simbolizar, os sinais que emite em termos de mobilização da vontade colectiva, de representação da comunidade, de capacidade para alertar, mobilizar ou resistir, pode ser muito significativo. No dia 23 votarei num candidato no qual sob múltiplos aspectos não me revejo, com quem por vezes até implico, mas que representa a família política a partir da qual – apesar das atribulações passadas, dos defeitos presentes e das incógnitas futuras, comuns aliás a todas as histórias de família – consigo vislumbrar a construção de um país mais justo e mais decente, de uma política um pouco menos conformista, da necessidade de viragem. Votarei na «Voz».

P.S. – Pois é, ando a repetir-me. Escrevi isto há um ano atrás.

    Atualidade, Olhares, Opinião

    A «geração de 60» para meninas preguiçosas

    Meninas

    Saiu há dias no Público, em mais uma daquelas declarações de ódio que invariavelmente substanciam os artigos de opinião de Helena Matos, um arrazoado sobre a herança da «geração de 60» (entretanto publicado também aqui) ao qual estive para responder de imediato. Acabei por adiar a escrita porque fiquei à espera de ter o texto disponível online, e depois, à medida que o tempo passava, fui ganhando consciência de que o artigo é tão mau, tão mau, tão mau, e tão carente de um mínimo de coerência e de substância, que não justificava um esforço de enumeração, para não dizer de contestação, do rol de confusões e deformações que adianta. Este post não vai, por isso, dialogar com a crónica de Helena Matos.

    Por múltiplos motivos, entre eles a ocorrência, não insignificante, de sendo historiador ter obrigatoriamente sentido crítico e treino analítico em relação ao reconhecimento e à interpretação do passado, não me move qualquer ideia de «defesa da honra» de uma «geração» com contornos muito mais amplos e densos do que o artigo procura fazer crer. Não gosto aliás do conceito: «geração» impõe em excesso unidade, identidade, onde existe principalmente movimento e diversidade. Mas qualquer pessoa informada e arguta sabe que todas as situações históricas são complexas e que devem ser compreendidas sob a perspectiva contextualizada dos factos e dos efeitos. Ora existe suficiente trabalho de investigação publicado – nacional e sobretudo internacionalmente, e nos mais diversos campos das humanidades e das ciências sociais  – para podermos ter hoje uma perspectiva crítica bem mais completa e ponderada do que aquela, linear e simplória, cheia de erros, apreciações subjectivas e invenções, detectável na referida crónica.

    No entanto, o facto de a perspectiva ser simplória não faz da autora uma ingénua, que obviamente não é. A ignorância e a distorção são enormes, como entretanto tem sido dito em comentários saídos na blogosfera – destaco o de Joana Lopes, onde se mostra como Helena Matos erra até o alvo em relação ao que congemina serem os «sessentistas» portugueses no activo –, mas o objectivo último, no qual aliás reincide, é claro e bem consciente: a abjuração do Estado-Providência e a defesa de que os projectos igualitaristas, que colocam a noção de felicidade e bem-estar à frente do princípio da competição de matriz neoliberal, devem ser atirados para o caixote do lixo da História. E de que as «gerações» mais recentes precisam pedir contas àqueles que, na estreita lógica da cronista, deram cabo do que restava desse «mundo ideal», supostamente perfeito e convenientemente ordenado, que os despenteados sixties vieram abalar. O que move Helena Matos é, pois, a adesão a uma agenda que, se quisermos usar a mesma bitola analítica pobre e de mão aberta da qual se serve, podemos afirmar ter sido impressa nos cinzentos anos 80.

    Adenda –  Este post contém uma percentagem de adjectivos bastante superior ao que seria estilisticamente conveniente. Mas saiu assim e os motivos serão óbvios.

      Atualidade, História, Olhares, Opinião

      Fazer acontecer

      Alain Badiou

      É um bom princípio evitar os juízos absolutos. Os factos nem sempre são aquilo que parecem, as pessoas são sempre mais complexas do que aparentam, as ideias ganham vida própria e crescem até se transformarem noutras. Mas do reconhecimento de um bom princípio não resulta necessariamente a sua aplicação: afinal enganamo-nos, precipitamo-nos, fazemos afirmações com uma dimensão de perfeição que depois revemos numa medida de incerteza. Excluindo os génios do mais extremo mal, os construtores das experiências totalitárias que não merecem perdão, a todos, mesmo àqueles de quem discordamos bastante, devemos sempre um crédito de confiança. Que merecemos também que nos concedam, como é lógico. É este, afinal, o princípio mais elementar da vida em sociedade se a não pensarmos à escala rancorosa de Maquiavel e Hobbes ou dos guias do fundamentalismo wahhabita.

      Esta arenga serve para legitimar o recurso a algumas ideias de Alain Badiou que me proponho olhar. Dele rejeito, sem dúvida, de maneira completa e liminar, a aproximação a princípios e a experiências dos quais a História comprovou já o cunho monstruoso. Adianto quatro recusas. A primeira é o elogio da Revolução russa de 1917 e da Revolução Cultural chinesa enquanto actos de violência colectiva que funcionaram como inequívocos factores de emancipação. A segunda é a censura da dimensão policroma, que o filósofo considera pobre, inútil e frouxa, da fase crítica da modernidade (ou da «pós-modernidade»). A terceira é a defesa da supremacia do «colectivo» sobre o «individual» e a negação do sufrágio universal, ao qual Badiou chama «sufrágio de egos», como prática basilar da democracia. E a quarta é a apologia de um «ideia orientadora» do processo histórico que de alguma forma possa substituir (ou prolongar) o que Lyotard designou como metanarrativas e podemos grosseiramente associar às defuntas ideologias. Estas linhas não invocam nem prometem nada que me pareça fundamentalmente bom. Pelo contrário.

      Mas a dimensão dissentista de Badiou não se fica pela tentativa de renovação destes perigosos princípios. No recente «Second Manifeste de la Philosophie», fala-nos da capacidade da filosofia para promover «a desestabilização das opiniões dominantes», impondo aquilo que designa como a «pertinência revolucionária». O filósofo vê-a, certamente, como parte de uma estratégia combativa, capaz de projectar a renascimento do ideal comunista e a recusa da democracia representativa. Mas é também aqui que adianta uma crítica a este sistema que faz sentido: ele «admite adversários, mas não inimigos», excluindo todo aquele ou tudo aquilo que possa ser «portador de uma outra visão das coisas, de uma outra regra do jogo que não seja a dominante». Rejeita pois essa luta em campo aberto que define as grandes viragens. Partidos e sindicatos, que apesar das diferenças se batem no respeito pelas regras do jogo, tornam-se então cúmplices da simples «gestão do possível», colocando num horizonte improvável a possibilidade de uma mudança radical de políticas. A hipótese mais certa de mudar de vida.

      É justamente esta crítica que retiro das posições de Alain Badiou como útil. A possibilidade de desenvolver a convicção de que o modelo de sociedade em que vivemos não é único e inevitável. Quando declara, em «The Communist Hypothesis», artigo publicado em 2008 pela New Left Review, que «o tema de uma emancipação da humanidade não perdeu nenhuma da sua força», ou então, como o fez em entrevista à Philosophie Magazine, quando diz que o ideal de comunismo que concebe «repousa sobre uma ontologia da multiplicidade», está a abrir-nos portas que apontam também para a possibilidade de demolir o capitalismo sem cair na utopia tirânica e com péssimas provas dadas do «homem novo». Termina aqui, no entanto, a simpatia que sou capaz de registar. É que, contra Badiou, não consigo ver como pode conceber-se uma sociedade renovada, mais justa e capaz de aceitar o múltiplo, quando se sugere o eclipse do individual em detrimento do colectivo e se declara a necessidade de um «projecto» (uma ideologia? um programa?) que oriente a mudança. A ideia de emancipação, encaminhada de forma centralista e apoiada na gestão da violência, não pode voltar a ter, como teve no passado, o rosto de uma nova escravidão.

      É preciso partir ainda muita pedra para se chegar a algum lado neste campo. Mas a ideia «badiouana» de um «fazer acontecer» como factor da transformação parece, essa sim, corresponder a um bom e útil princípio. A aplicar desde já.

        Atualidade, Olhares, Opinião

        Nostalgia, conservadorismo e democracia

        Andrew Sullivan

        É bom prevenir o leitor: apesar do aspecto sóbrio da capa e da respeitabilidade do tema, esta não é uma obra de filosofia política. Aquilo que o autor se propõe fazer a partir da sua identidade pessoal complexa – Andrew Sullivan é um inglês católico de ascendência irlandesa, americano por adopção, gay e típico membro da Geração X – consiste antes em descrever a trajectória que fez dele, neste tempo em que todos «vivemos em nichos e comunicamos no meio de ravinas», um conservador mal visto pela maioria dos que adoptam princípios e atitudes inflexíveis e manifestamente de direita. Mas este pode também ser considerado um livro contra a apostasia, no qual os apóstatas, classificados como «fundamentalistas», são os que traíram a ficção de segurança, a noção de resposta ao «colapso da esquerda», a resistência à mudança e a uma certa ideia de perda, sobre a qual Sullivan construiu o seu próprio modelo de conservadorismo.

        Sullivan expõe desde o início uma concepção bastante aberta das suas escolhas. Para Michael Oakeshott, o filósofo britânico sobre o qual escreveu uma tese em Harvard, não pode construir-se uma moral pessoal com base num livro ou numa teoria; com ele Sullivan aprendeu que «a nossa moral é como a linguagem que aprendemos e usamos a cada instante», a qual parte de uma base sólida mas deve ser constantemente adaptada à experiência. Será este, no fundo, o fundamento de um «conservadorismo dialogante», associado pelo autor ao ideal de governação proposto nos anos oitenta por Thatcher e Reagan. A valia social desta opção teria, porém, sido usurpada e arruinada na década de 1990 por um «fundamentalismo» de características religiosas. Este apoia-se em factos, não em teorias, excluindo a dúvida em nome da fé, impondo pela força «uma verdade inalterável, precisa e externa no centro da vida de cada pessoa», e exigindo a sua completa obediência. Na América, partiu de algumas margens mas cresceu rapidamente, atingindo a direcção dos republicanos e disseminando metástases por toda a sociedade. A figura e a intervenção de de George W. Bush teriam então emergido, nos planos simbólico e prático, como sinais do recuo de uma ideia de sociedade serena e equilibrada dirigida pela inteligência e pelo bom senso. Um recuo apoiado nos sectores mais retrógrados e intransigentes da sociedade americana, compostos por gente que toma a Bíblia à letra, ignorando dois mil anos de experiência e de progressos no campo da ciência e dos direitos humanos.

        Sabendo-se que A Alma Conservadora foi publicado em 2006, antes ainda da rápida ascensão pública de Barak Obama, o panorama apresentado é devastador. Todavia, na segunda parte da obra, Sullivan perde o registo pessimista e retoma a voz combativa – em defesa, por exemplo, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou repudiando a tortura e a pena de morte – que o destacou, em The Daily Dish, como um dos primeiros bloggers a desempenhar um papel proeminente enquanto opinion maker. No final, o leitor reconhecerá o forte desejo, manifestado pelo autor, de depurar a «alma conservadora» dos seus desvios perigosos e infelizes. Uma atitude de proselitismo de um ideal de conservação e nostalgia, ancorado num horizonte de tolerância e de razoabilidade, que lhe parece harmonizável com os princípios elementares do jogo democrático.

        [Andrew Sullivan, A Alma Conservadora. Quetzal. Trad. de Miguel de Castro Henriques. 336 págs. Adaptação de um texto publicado na revista LER de Dezembro de 2010.]

          Atualidade, Olhares, Opinião

          Homo Seditiosus

          Em Roma sê romano
          Em Roma sê romano.

          Em «La rivoluzione è finita. Inizia l’età della rivolta», publicado no La Stampa do passado dia 16, o italiano Marco Belpoliti, escritor, crítico literário e professor de sociologia da literatura, confronta-nos com uma situação que não podemos ignorar. De Clichy-sous-Bois, nos arredores de Paris, em 2005, aos motins estudantis de Londres e de Roma em 2010, passando por Atenas em 2008, a revolta pura e dura parece ter ocupado o antigo lugar da revolução. Sem um programa ou objectivos políticos claros, sem um ideal a perseguir desenhado no horizonte, ela não se projecta no futuro mas antes no imediato.

          A Ocidente como a Leste, em Nova Iorque como em Xangai, o estado de revolta «suspende o tempo histórico e cria o instantâneo», assegurando a aparente vitória do presente sobre o futuro. Este vive do instante e é no instante que se constrói. Belpoliti recorre a uma evocação de Walter Benjamin a propósito da forma como durante a Comuna de Paris os communards disparavam furiosamente sobre os relógios. Queriam que o tempo parasse ali mesmo, sem remissão, numa vitória efémera que durasse para sempre e pusesse termos às cadências opressivas da vida e do trabalho. Foi assim também muito tempo antes, durante os grandes levantamentos anti-senhoriais do século XIV, ou enquanto durou a Guerra dos Camponeses na Alemanha do século XVI. Prestes a serem massacrados na batalha de Mauthausen, os sublevados recusaram-se a aceitar a superioridade militar dos poderosos, pois esperavam que Cristo em pessoa entrasse no terreno de luta para suspender os factos e consagrar a vitória definitiva dos crentes e dos espoliados.

          Nada disto tem já a ver com a «guerra civil», conduzida por gangs de delinquentes ou grupos de extrema-direita, que segundo Hans Magnus Enzensberger pelos finais dos anos oitenta pareciam preparar-se para tomar para si as ruas dos «bairros problemáticos» das grandes metrópoles do mundo industrializado. Esta é uma outra forma de violência, que parece antes uma resposta estrutural à ausência de perspectivas de uma mudança revolucionária. Combate-se nas ruas como Robin Wood e os seus se batiam nos arrabaldes de Nottingham, como um Zorro ficcional lutava em nome dos fracos e dos oprimidos: procurando mitigar a injustiça e exercendo por vezes o direito de vendetta. Sigo ainda Belpoliti: «Devemos preparar-nos para viver uma época diferente daquela que marcou a vida dos nossos pais e dos nossos avós, uma época que não possui um sentido único, ou pelo menos um destino preestabelecido.» Neste tempo, o homo seditiosus, o homem sublevado, apresenta-se como o campeão de uma humanidade que desce à rua. Hoje, mas igualmente amanhã, e depois de amanhã, para realizar «uma arte sem obra» determinada pelo direito à resistência. Uma perspectiva sobre a qual vale a pena ir meditando nos intervalos da acção.

            Atualidade, Olhares, Opinião

            Para dar o exemplo

            WikiLeaks

            Já todas as perspectivas concebíveis foram enunciadas a propósito do caso WikiLeaks e dos 250.000 documentos secretos disponibilizados pela organização ao El País, ao Le Monde, à Spiegel, ao Guardian e ao New York Times – curiosamente, o que não tem sido sublinhado, todos eles situados de alguma forma à esquerda do espectro político no panorama editorial dos respectivos países –, que os tratam e vão revelando ao mundo a gonta-gotas, de acordo com critérios e objectivos que só as suas direcções conhecerão. Um dos últimos pontos de vista, e também um dos mais divertidos, é o de Fidel Castro, para quem o episódio «pôs os Estados Unidos de joelhos» mas serve também os interesses de um punhado de meios de comunicação «pró-fascistas» que recorrem a ele «para atacar os países mais revolucionários». Entretanto, as primeiras abordagens foram naturalmente bastante simples e epidérmicas, e admito que um tanto distraidamente partilhei uma delas. Não a que antecipou um certo êxtase em relação à orgia de informação que se anunciava, mas antes aquela que nos primeiros dados avançados não via nada de mais, de particularmente novo ou de excitante. É verdade que senti, e continuo a sentir, alguma desconfiança em relação ao modo demasiado simples como tudo aconteceu e em relação aos interesses das partes envolvidas (incluindo nestas o trajecto e as motivações de Assange), mas admito que talvez tenha reparado mais no fumo do carburador do que nas condições de funcionamento do motor. Regresso pois ao assunto.

            A maioria dos artigos de jornal e dos posts surgidos em blogues distribui-se simplisticamente por dois grandes campos. O daqueles que vêm no vivaço trintão australiano um novo Che, talvez menos fisicamente atraente mas não menos bravo, e entendem que tudo deve ser dito a toda a gente. Embora alguns dos que defendem este ponto de vista ressalvem a existência de Estados com governantes gloriosamente antiamericanos onde o controlo da informação possa ser legítimo. E, do outro lado, o campo dos que entendem que os governos têm todo o direito de escolher o que é informação sensível e de a furtar aos olhares públicos, punindo quem se arrogue a dar com a língua nos dentes. Contra ambos, vejo antes o que alguns comentaristas avisados também já viram: uma coisa é o direito ao secretismo, que é uma prerrogativa de todos os detentores de alguma forma de poder e que nas questões de política internacional pode em muitos casos tornar-se inevitável, mas outra é o dever de os órgãos de comunicação livre darem a conhecer aos cidadãos as informações que lhes dizem respeito e às quais têm acesso. Por outras palavras: os diplomatas e os espiões devem ter cuidado na transmissão da informação sensível com a qual trabalham, mas se o não tiverem ninguém terá de fazer o seu trabalho por eles. Salvo, naturalmente, em situações extremas, quando a circulação de informação crucial pode colocar vidas em jogo. Não é este no entanto, visivelmente, o caso da larga maioria dos telegramas já conhecidos.

            O problema central, aquele que mais nos deve inquietar, bate justamente nesta tecla. Num artigo do último número da Wired escreve-se que «uma imprensa autenticamente livre, liberta de toda a consideração nacionalista, constitui manifestamente um problema aterrorizador, tanto para os governos eleitos quanto para os tiranos.» Uns e outros, distanciados das sociedades que governam e cada vez mais habituados a mandar por decreto, pouco ou nada atendendo ao valor da opinião pública, dão de barato que a boa governação e a boa diplomacia se fazem nas antecâmaras e nos corredores, não na praça pública, destinada apenas, idealmente, ao circo das grandes consagrações. E por isso tanto os incomoda, como incomoda os seus escribas e porta-vozes, que chegue «à cozinha» uma conversa que deveria ter sido mantida na discrição dos gabinetes. Claro que a WikiLeaks não é sinónimo de transparência, nem o seu rosto mais conhecido é propriamente um mártir da liberdade e da democracia radical, mas o que nos deve inquietar não são os resultados e as ondas de choque das suas iniciativas, para as quais quem tem nas mãos o poder dispõe sempre de boas almofadas. O que preocupa é que exista quem queira silenciá-las. Para que os vulgares cidadãos não se arroguem a meter o nariz onde não são chamados. Para que estes percebam que a liberdade de expressão tem limites, fronteiras determinadas por quem pode fazê-lo que «não devem ser ultrapassadas». E para dar o exemplo.

              Atualidade, Cibercultura, Opinião

              Liberdade a sério

              liberdade

              É sabido desde James Fenimore Cooper que a espionagem é uma das belas-artes. Muito mais criativa e inesperada – Robert Littell ou John Le Carré sabem bem do que falam nos seus romances – do que anuncia todas as manhãs o aborrecido «mundo real». Mas mais silenciosa também: o seu universo é da cor da penumbra e os personagens que o cruzam existem principalmente nos relatórios classificados como confidenciais, nas pequenas notícias saídas nas páginas pares dos jornais, ocasionalmente num obituário rebuscado. Na verdade, a maior parte das figuras que circulam por estes subúrbios da vida não se revê no agente 007. Não dá muito nas vistas, mantém uma vida aparentemente sossegada, sem o glamour do smoking ou o olhar vítreo de Madame M, sem o roçagar de lindíssimas mulheres ou perseguições em automóveis desportivos. De facto, a vida do espião típico, infatigável e eficaz não se distingue da vida do funcionário anónimo, cansado, de uma companhia de seguros com falta de clientela. Afinal este é um indicador de uma realidade maior que qualquer pessoa avisada deveria conhecer: a vida diplomática e a espionagem são irmãs gémeas apenas com cargos diferentes, ambas feitas de aparências, de enganos e de muitas máscaras. Mas jamais de distracções.

              Por isso se torna perigoso que nos deixemos arrebatar pela actividade frenética da WikiLeaks. Não, não me parece que Julian Assange seja um Robin dos Bosques, muito menos um Jean Valjean, e não me espantaria que fosse até mais um Julien Sorel. Um tipo arrivista que passa aos olhos de meio mundo por cândido, honesto e imprescindível. Esta é a minha suspeita – não provada, admito – e por isso não embandeiro em arco com elogios descomedidos ao homem. Só que uma eventual desconfiança não pode ignorar uma certeza que estes dias têm provado: a de que a repressão da actividade da organização está a a servir de pretexto para um ataque generalizado contra a liberdade de expressão e de informação através da Internet. E isto de modo algum pode aceitar-se. Devemos pois enfrentar a arbitrariedade dos poderes que visam abafar vozes em condições de questionar a fiabilidade dos poderosos, por muito que o seu combate possa ter propósitos e se sirva de meios um tanto enigmáticos. Afinal a WikiLeaks não tem qualquer programa claro, mais parecendo um megafone de feira do que uma voz afirmativa em prol de uma causa com objectivos. O que não significa que deva ser calada e que a informação que entretanto vai passando não possa servir para questionar o comportamento arrogante e bem pouco transparente de numerosas figuras do topo da política internacional.

              Por isso também é importante apoiar as acções destinadas a impedir por todos os meios que tirem a voz a Assange. Sem esquecer, todavia, que um combate ainda mais difícil e necessário travam aqueles que em países como a China, Cuba ou a Coreia do Norte, como o Irão, a Líbia ou mesmo Angola, se batem também pela liberdade de opinião como valor absoluto. Sem esquecer que sobre estes incorrem perigos perto dos quais aquilo que pode acontecer aos activistas do WikiLeaks não passa de cócegas. No domínio do exemplo dado e de um ponto de vista bem objectivo – o da defesa intransigente de uma liberdade sem adjectivos, independente daquilo que possa fazer-se com ela – não vejo em que devam distinguir-se substancialmente os riscos assumidos, devido à actividade que mantêm ou desenvolveram em rede, pelo australiano Assange, pela cubana Yoani Sánchez ou pelo Nobel chinês da Paz Liu Xiaobo. Nestas matérias é preciso manter todos os piscas ligados.

                Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                Ontem soube a pouco

                Povo unido

                Uma vez mais os números resvalam. Centrais sindicais e governo avançam com dados completamente divergentes sobre a adesão à Greve Geral, deixando no ar a impressão de esta ter valido mais por aquilo que representou para cada um dos lados do que por aquilo que inequivocamente deveria ter mostrado à opinião pública nacional e internacional.

                Uma greve desta natureza só teria um real impacto e forçaria o governo a repensar políticas e decisões se fosse acompanhada de campanhas de mobilização intensas, massivas e bem sonoras. Mais voltadas para os espaços públicos (ruas, bairros, mercados, estádios, centros comerciais, redes sociais) do que para as conferências de imprensa e os placards dos sindicatos. Mais dirigidas ao cidadão comum do que aos núcleos activos na administração pública e nas empresas, que apesar de um trabalho apreciável muitas vezes se remetem a uma actuação corporativa. Só teria verdadeiro efeito se tivesse sido acompanhada de demonstrações públicas unitárias e ousadas (desfiles, buzinões, meetings, campanhas de desobediência cívica), mais apontadas às lógicas do sistema do que aos seus efeitos perversos, momentaneamente insuperáveis. Só teria vencido se tivesse sido capaz de uma dinâmica transnacional, partilhada com organizações sindicais e políticas de outros países, já que aquilo que está a acontecer tem também uma dimensão que ultrapassa todas as fronteiras. O combate contra a selvajaria dos mercados financeiros, contra o alargamento das desigualdades e pela recuperação do Estado social não é apenas nosso; procurando parecê-lo acaba por dar o flanco.

                No entanto, para que tudo isto seja possível são precisos movimentos sociais dinâmicos e organizações de trabalhadores mais abertas e desburocratizadas, atentas à mudança do mundo e à passagem das gerações. Não organizações dirigistas e entrincheiradas, de natureza algo proteccionista, com estratégias «de classe» bem definidas ou que actuam como prolongamento de agendas políticas partidárias. Para lá chegarmos existe, claro, um longo caminho a percorrer, não sendo líquido que ele não venha a conter recuos. Entretanto vai-se fazendo o que é possível fazer. A Greve Geral devia ter sido convocada e foi importante, mas que não se venha agora com a lengalenga da «grande vitória» se o outro lado não recuou nem vai recuar um milímetro. Porque não se sentiu realmente abalado.

                  Atualidade, Opinião

                  Maremoto

                  Maremoto

                  A Greve Geral não é uma greve qualquer. Não representa a mera reivindicação pontual, o protesto isolado, apenas a jornada de luta de um grupo social por melhores salários e condições de trabalho, por direitos mais justos e uma vida melhor. Tem antes uma dimensão superior, uma vez que comporta uma carga assumidamente política. Porque contesta sem rodeios um governo, um regime, um sistema. Nesta Quarta-Feira e em Portugal, como noutros momentos e em outros lugares, será este, uma vez mais, o sentido da Greve Geral que as duas centrais sindicais convocaram e prepararam.

                  É verdade que os muitos trabalhadores que a ela aderirem apontam a objectivos concretos. Vão erguer-se contra as medidas de austeridade, contra a redução do poder de compra e dos salários, contra a ofensiva apontada aos direitos conquistados a pulso, contra o bloqueio das negociações colectivas, o congelamento das pensões e a eliminação dos abonos de família, contra o empobrecimento da população e aumento das desigualdades. Irão bater-se pelo investimento no sector produtivo, pela criação de emprego e pelo combate à precariedade, pelo aumento dos salários e uma distribuição mais equitativa da riqueza, pela melhoria da protecção social, por serviços públicos de qualidade e uma garantia do cumprimento das funções sociais do Estado. Mas a afirmação de objectivos tão claros e tão justos deve obrigatoriamente passar pelo crivo da realidade: no contexto actual, todos sabemos que a sua materialização no curto prazo não só é improvável como é impossível. Tal não significa, porém, que a greve apenas sirva para «marcar uma posição dos sindicatos», como já li por aí. Pelo contrário, ela pode servir para afirmar dois objectivos que ultrapassam o imediato.

                  Servirá, por um lado, para mostrar que o mundo do trabalho não se transformou numa força passiva, que aceita sem grandes lamentos ser transformada em bombo da festa ou em batuque de funeral. Que a gestão das sociedades tem obrigatoriamente uma componente social e humana não convertível à lógica fatalista da religião dos mercados financeiros. Servirá, por outro, para proclamar que não existe uma única via para a definição política da governabilidade. Em Portugal, como em muitas outras partes, este é um problema delicado, uma vez que o impasse e o recuo das esquerdas, divididas entre a administração de um imaginário «capitalismo de rosto humano» ou a mera gestão do protesto social, as conduziu a uma real impotência para apresentarem soluções alternativas. Porém, actos como este podem ajudar a alargar o processo de consciencialização e de amadurecimento político e orgânico que um dia – esperemos, sem ser de forma passiva, que ele não tarde muito – conduzirá a formas mais justas e solidárias de governar o social. Sem qualquer sentido messiânico e meta-histórico, como aconteceu num passado recente, mas como uma força tendencialmente optimista e afirmativa. É à espera deste salto em frente que adiro a esta greve. As reivindicações não vingarão de um dia para o outro, mas do remoinho poderá nascer o maremoto.

                    Atualidade, Olhares, Opinião

                    Ficaram os ecos

                    NATO Lisboa

                    Não é que não tenha alguma coisa mais a dizer sobre a manifestação anti-NATO Lisbon Summit de ontem. Sobre os seus objectivos, circunstâncias e ramificações. Limito-me no entanto a uns quantos tópicos. 1) É necessária uma censura atenta e audível da NATO e das suas políticas, muitas vezes perigosas e falhadas, mas é preciso também considerar o papel que uma organização armada de Estados legitimados pelo voto pode ter como força dissuasora da violência de matriz política, religiosa ou étnica. 2) Podemos em muitos casos ser «contra a NATO»; agora ser pelo seu «fim» ou pela sua «dissolução» é quase tão absurdo, inútil e perigoso como ser pela «extinção da França» ou exigir nas ruas e nas praças a «dissolução da China, já!». 3) Pior do que ser acrítico em relação ao papel da NATO, cujos responsáveis podem responder publicamente pelos seus actos, é ser, como dúzia e meia de espalhafatosos de keffieh a tiracolo, a favor dos grupos de radicais islamitas que lhe alimentam a razão de ser. 4) Concordo com o carácter absoluto do direito de manifestação, salvo se os manifestantes atentarem contra os direitos e as liberdades do outros, mas alguns dos sectores que participaram no desfile entenderam que só seria legítimo protestar sob as palavras de ordem e as bandeiras que consideram sãs e escorreitas. 5) Presumo que a mistura de pessoas de diferentes motivações e feitios, genérica e erradamente designada pela comunicação social como «anarquistas», mais não fez do que exibir, com uma natural teatralidade, posições legítimas. 6) A obsessão securitária da polícia portuguesa foi essencialmente motivada pela vontade saloia dos nossos governantes de mostrar «aos grandes» que não ficam atrás «do melhor que se faz lá fora» e merecem pelo menos uma menção honrosa. No final desmontou-se o palco, a poeira assentou e ficaram os ecos.

                      Atualidade, Opinião

                      Efeitos especiais

                      manif

                      Não encontrei grandes ecos do texto do provedor do leitor do Público, José Queirós, editado no passado sábado e intitulado «Contar Cabeças». Nele se refere o facto de, pela primeira vez em Portugal, um estudo levado a cabo por uma equipa de investigadores, dirigida no caso por Steve Doig, professor da Universidade do Arizona, ter contado o número de participantes na manifestação convocada no passado dia 6 pela Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, e que desfilou em Lisboa entre o Marquês de Pombal e os Restauradores. Os organizadores apontaram para 100.000 pessoas presentes, mas a equipa do professor Doig fez contas, fotografou a manifestação, mediu o espaço, e provou que não tinha sido bem assim. «Resultado: uma estimativa de 8000 a 10.000 participantes no desfile, e cerca de 5000 concentrados nos Restauradores.» Acrescentando José Queirós o seguinte: «Não creio que seja possível, depois desta experiência, que um jornal independente continue a ignorar as suas responsabilidades informativas e se limite a servir de eco preguiçoso aos números avançados por organizadores de manifestações ou por fontes oficiais.» Inteiramente de acordo com a conclusão; todavia, este episódio pode levar-nos ainda mais longe. (mais…)

                        Atualidade, Olhares, Opinião

                        Ler é lutar

                        ler de cabeça

                        Acabo de assinar uma «petição» online com a qual não concordo inteiramente. Neste como noutros casos, porém, parece-me que uma certa noção de consenso, imprescindível para o impacto público de determinada posição, nos dispensa de transformar em questão de princípio aquilo que em dado momento é acessório. E por isso assinei esta «petição» destinada a exprimir a solidariedade dos signatários para com a greve geral de protesto do próximo dia 24 de Novembro. É muito mais importante o gesto colectivo de apoio do que questionar agora o significado de petição (a «petição» pede, solicita, e o texto proposto declara, manifesta). É também muito mais importante assinar do que colocar em causa que se proponha como forma de luta «fechar os livros no dia 24». Isso eu não faço, porque a noção de trabalho associada à leitura e ao estudo só em parte tem a ver com a gestão capitalista da actividade intelectual. E ler, estudar, é também uma forma de luta pela apropriação social do quotidiano. Prioritária até, na minha opinião. Sem horários, férias, feriados ou greves de braços caídos. Sem esquecer este aspecto, se quiserem assinar – em princípio, só se forem ou tiverem sido bolseiros, investigadores, professores e estudantes – podem ir aqui.

                          Apontamentos, Olhares, Opinião

                          O Avante!, a China e outras coisas

                          As botas de Estaline

                          Não sou leitor habitual do Avante! Salvo quando o meu trabalho o requer, leio apenas artigos do jornal para os quais me chamam a atenção. Isto nada tem a ver com a concordância ou a discordância em relação à linha política partidária que veiculam. Todos os dias oiço ou leio posições políticas muito diferentes, das quais me aproximo ou discordo, por vezes radicalmente, e não é por isso que me recuso a lê-las ou a dar-lhes a atenção crítica que merecem. Quanto muito, se não me interessam desligo e passo ao lado. Democracia é acima de tudo combate e diálogo, falar e saber ouvir, argumentar e respeitar, ser arrojado mas procurar consensos. É escolha. Mas é também expor razões sem debitar juízos de valor de natureza casuística sobre as pessoas das quais discordamos, é não insinuar frases retiradas do contexto mas procurar compreendê-las de forma integrada, é mostrar paixão sem destilar constantemente o ódio. A negação de tudo isto, está nos livros, é própria do pensamento único, que aduba o terreno para a vertigem totalitária, começando por desqualificar toda a diferença que a sua lógica cheia de certezas seja incapaz de integrar. E é esta a atitude que o Avante! constantemente propaga.

                          Mas não é apenas por isso que não leio o jornal. Nem é sequer porque não tenho tempo para tudo ler, o que, infelizmente, até é verdade. É também porque gosto de textos arrebatadores que ali é impossível encontrar, é porque me aborrece mortalmente a linguagem previsível e repetitiva que o percorre de uma ponta à outra, é porque rejeito a inaptidão que demonstra para debater com a verdadeira diferença, é porque não gosto de omissões escolhidas a dedo, é porque me incomoda o tom agressivo, crispado e repetidamente insultuoso de quase todos os articulistas. Um tique leninista que tem o seu livro sagrado no opúsculo miserável sobre A Revolução Proletária e o Renegado Kaustky, uma autêntica cartilha sobre a arte de bem caluniar.

                          Um bom exemplo no qual todas estas características se encontram juntas pode ser dado pelo artigo «Duas sílabas apenas», de Jorge Cordeiro, no qual se retoma a tendência relativamente nova do PCP para elogiar a China contra aqueles que criticam a forma como ali o direito à expressão do pensamento livre e ao pluralismo político é brutalmente espezinhado. Para além da lengalenga sobre o «preconceito anticomunista» – equiparado na verborreia a qualquer forma de combate pelos direitos humanos, o que é logo bastante significativo –, veja-se a forma ali tomada pelo ataque pessoal (pessoal, sublinho, pois nada tem de crítica de ideias) a Ana Gomes e a Francisco Louçã. A defesa abstracta da política nacionalista – que a par do obreirismo é um dos actuais esteios ideológicos e orgânicos do partido –, conduz à afirmação do mais completo desdém pelo «federalismo» de Ana Gomes, «para quem o valor da soberania nacional é como água em deserto». Uma vende-pátrias, pois. Ao mesmo tempo, remói-se o suposto passado de Francisco Louçã, «para quem só o soletrar do par de sílabas daquele país lhe aviva irresolúveis problemas de consciência que acompanham o seu percurso político», seguindo-se uma tentativa de desqualificação pessoal. Isto tão-só e apenas a propósito da crítica que a eurodeputada socialista e o dirigente bloquista fizeram às escolhas políticas da China e à intervenção das suas opções económicas no contexto da actual crise mundial. Repare-se bem que o articulista, um importante membro de penúltima geração da Comissão Política do Comité Central, se refere precisamente a dois responsáveis dos únicos sectores (a mítica «Esquerda do PS» e o famigerado Bloco de Esquerda) com os quais o PCP poderia, por um passe que desta forma só poderá mesmo ser de mágica, ensaiar a construção de uma alternativa política para o país. A não ser que conte fazê-lo com os «amigos» do Partido Ecologista Os Verdes, os veneráveis e semiclandestinos senhores da «Intervenção Democrática» e uns quanto distraídos que aparecem sempre no horário de expediente.

                          Claro que o facto de eu não gostar de ler o Avante!, e de não recomendar a outros que o leiam, não significa que aquilo que escrevo neste blogue e que refira de algum modo o PCP não seja imediatamente objecto de escrutínio e, como não poderia deixar de ser pois essa é «a escola», de pequenas campanhas difamatórias por parte de alguns dos seus leitores mais fiéis e mais nervosos. O mesmo acontecerá eventualmente com este post. A verdade é que até posso escrever 324 que falem do tempo que tem feito na ilha de Páscoa, do campeonato de críquete no Paquistão, da descoberta de um filme inédito com o Buster Keaton e dos chilreios dos passarinhos, mas se ao tricentésimo vigésimo quinto escrever a palavra PCP toca algures uma sirene de aviso e os bombeiros-incendiários de serviço descem pelo varão para se meterem no carro e saírem a alta velocidade pelas ruas mal iluminadas da blogosfera. Vida difícil a deles. Mas foram eles quem a escolheu.

                            Atualidade, Olhares, Opinião

                            Imaginar não custa

                            Greve Geral

                            Aproxima-se o dia 24 de Novembro e com ele virá a Greve Geral destinada a protestar, em primeiro lugar nos locais de trabalho mas também nas ruas, contra as pesadas medidas de austeridade que para centenas de milhares de pessoas serão também de penúria. É impossível deixar de acompanhar a CGTP e a UGT nesta jornada de combate para retirar do silêncio o protesto daqueles que de uma forma ou de outra irão certamente sofrer. E não se pense que estes serão apenas os sectores sociais que já vivem na pobreza ou para ela caminham. Muitas pessoas que até agora mantinham uma vida digna, que não precisavam de cortar a direito na alimentação, na saúde, na educação, no vestuário, na habitação, vão ter de o fazer. Pior: vão ter de o fazer na perspectiva deste não ser ainda o fim da linha e sem uma previsão de melhoria para a próxima década. Protestar é por isso importante. Não porque o protesto ou «a luta» – esse conceito abstracto que algum tentam manter invocando a utopia do governo perfeito «dos trabalhadores» que sucederá à «queda do capitalismo» – leve os actuais governantes a mudarem de posição, mas para que, quem decide colocando os outros apenas como figurantes e não como protagonistas, entenda que é preciso pensar, procurar e promover uma alternativa.

                            Só que existe um problema que limita sempre o alcance deste combate. É verdade que as dificuldades são reais e não melhoram, antes pelo contrário, fazendo um apelo a que se conservem sem reequilíbrios, dentro do actual sistema, todos os direitos e regalias dos trabalhadores. Não se pode voltar ao velho slogan do final da década de 1970 bradando apenas «os ricos que paguem a crise». O Estado social não vive do ar e as coisas chegaram a um ponto tal que nem todo o dinheiro dos nossos ricos dará para fazer com que a economia passe a rolar de maneira equilibrada e sem problemas. Não se pode viver do dinheiro que não há e os sacrifícios serão, sem dúvida, inevitáveis. Mas é preciso evitar que eles penalizem sobretudo o elo mais fraco. A alternativa passaria necessariamente por uma política económica e social radicalmente diferente, capaz de alterar as suas prioridades em função de um conceito não meramente gestionário do serviço público. Capaz de combinar a dinâmica internacional do mercado com uma gestão segura mas corajosa e imaginativa dos recursos. Que não se aplique a nivelar por baixo mas aproveite as capacidades humanas e materiais do país para o tornar mais competitivo e próspero. Não sendo economista ou político profissional, não posso passar, como o cidadão, desta declaração de princípios utópicos que apontam para a compatibilização do desenvolvimento com uma política social justa.

                            Só que nada disto se pode fazer sem vontade política e o drama, o nosso drama, consiste em ser necessária uma política alternativa, solidária, democrática e de esquerda que não tem quem a prepare, debata, demonstre e aplique. Há cerca de duas semanas, num curto texto de opinião saído no Público, o politólogo André Freire queixava-se de que, em Portugal «a direita (PSD vs CDS) é capaz de cooperar; a esquerda (PS vs BE e PCP) não, nunca o foi, excepto em questões marginais de luta política», deixando implícita a necessidade desta cooperação «à esquerda». A verdade, porém, é que ela não é possível, uma vez que a linha dominante do PS apoia uma versão light das políticas neoliberais que subjugam o país e o mundo desde os anos oitenta, o PCP não sai da sua posição obreirista, mostrando-se incapaz de se comprometer com soluções democráticas de governo e limitando-se a uma posição de natureza protestativa, e o BE não tem ainda dimensão, maturidade política e apoio público para se apresentar como alternativa de poder. Diante desta situação, só resta a quem trabalha uma posição de protesto e defensiva. Preparando a resistência aos golpes ainda mais brutais que esse governo de direita que se anuncia inevitavelmente trará. A Greve Geral do dia 24 será um passo nesta direcção. Quem sabe se ela servirá para abalar consciências e lançar os fundamentos «subjectivos e objectivos» que permitam avançar gradualmente, com metas, numa outra direcção. Imaginar não custa dinheiro. Por enquanto.

                              Atualidade, Democracia, Opinião

                              O medo (Hobbes vs. Rousseau)

                              Medo

                              Uma nota no Facebook chamou-me a atenção para um artigo de Viriato Soromenho Marques publicado no Diário de Notícias da última Terça-Feira. Este retomou ali a conhecida opinião de Thomas Hobbes acerca do papel do medo como factor capital para a instauração da ordem pública e do bom governo. De caminho, distanciou-se de uma opinião do filósofo José Gil a propósito do lugar do mesmo medo no actual alastramento, pelas ruas, moradias e locais de trabalho, de um clima de intimidação imposto pela fragmentação do social. No essencial, Soromenho Marques pretende dizer que esta situação não é um mal em si, podendo até, muito pelo contrário, funcionar como instrumento para a construção de um bem maior. Usando as suas próprias palavras: «O medo combate a desmesura, estimula a inteligência, promove o raciocínio estratégico, incentiva a disciplina, ajuda-nos a conhecer os nossos limites, e a respeitar os limites dos outros.» Sob diferentes rostos, esta posição tem fundamentado todas as formas de exercício discricionário da autoridade, justificando-as em nome de um arbítrio imposto por «o homem ser o lobo do homem» e necessitar de trela para não despedaçar o seu semelhante.

                              Este género de opinião deriva de uma filosofia social, de uma consideração do humano e até de uma uma concepção de vida na cidade que contém uma dimensão particularmente deprimente e perigosa. Ela implica a aceitação absoluta da desigualdade, já que o medo se apoia sempre numa relação de poder que subordina, sem remissão, o amedrontado a quem o amedronta. Supõe uma maldade intrínseca à essência do humano que bloqueia a construção de uma ideia de justiça que não seja a justiça do carcereiro. E ataca uma das bases fundamentais da democracia que é a expressão de uma opinião informada, fundamentalmente livre e não sujeita a coacções de toda a ordem. Regresso, para usar idênticas armas, às palavras de Jean-Jacques Rousseau, a velha bête noire de Hobbes no campo da filosofia política, retiradas do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, escrito em 1754 para a Academia de Dijon:

                              «Eu teria escolhido aquela [República] na qual os particulares, contentando-se em dar sanção às leis e em decidir pessoalmente, com o testemunho dos chefes, os mais importantes negócios públicos, estabelecessem tribunais respeitados, distinguissem cuidadosamente os seus diversos departamentos, elegessem todos os anos os mais capazes e os mais íntegros dentre os seus concidadãos para administrar a justiça e governar o Estado, e na qual, sendo a virtude dos magistrados testemunho da sabedoria do povo, uns e outros se honrassem mutuamente. De sorte que, se jamais funestos mal entendidos viessem perturbar a concórdia pública, até tempos de cegueira e de erros fossem marcados por testemunhos de moderação, de estima recíproca e de comum respeito às leis, presságios e garantias de reconciliação sincera e perpétua.»

                              Eis a essência desejável da democracia, seja ela representativa ou participativa, que o artigo sinistro de Soromenho Marques revela desprezar em absoluto, ao propor uma harmonia assente não no justo consenso e na dádiva mas sim na pura coerção. Talvez este exprima uma tendência que emerge do lado mais sombrio da História e que de vez em quando sai do caixão e regressa para nos atormentar, criando a ficção de que a paz dos escravos alicerça o melhor dos mundos, uma vez que nos afasta do território tumultuoso, «decaído», onde se constrói com dor a emancipação, a liberdade e o bem-estar. Talvez este seja um sinal de perigo ao qual devamos prestar atenção.

                                Atualidade, Olhares, Opinião

                                Um ataque injusto e gratuito

                                O escrevedor

                                O último número, o de Novembro, da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, globalmente excelente como sempre – destaca-se desta vez um dossiê sobre a recusa da «ordem insustentável» na qual somos forçados a sobreviver –, contém um artigo lamentável assinado por Ignacio Ramonet. Não se trata de uma raridade na intervenção do autor, pois desde há muito que Ramonet vem, repetidamente, mesclando posições justas de crítica e de combate no campo da esquerda com profissões de fé contra ideias e experiências que perturbam o núcleo idiossincrático no qual fixou a sua concepção do que é ou não é esquerda. Ou, mais abrangentemente, do que é ou não é democrático, de acordo com a noção de democracia que o seu conceito de esquerda recolhe. Não esqueço, por exemplo, a série de conferências que proferiu (estive pelo menos em duas), de artigos e livros que escreveu (alguns deles foram editados em Portugal), dedicados, há cerca de uma década atrás, ao combate contra alguns dos inúmeros «malefícios da Internet» que depois foram instrumentais no levantamento de novas formas de sociabilidade e de determinados movimentos sociais.

                                Desta vez Ramonet atira-se, em «Os dois Mario Vargas Llosa», ao mais recente «escrevedor» laureado com o Nobel da Literatura. Começa por confirmar enfaticamente a sua valia como escritor, reconhecendo-o como «extraordinário na capacidade de misturar as técnicas de romance social, histórico e realista, ou mesmo do romance policial», tendo-o, aliás, mostrado «brilhantemente». Mas logo de seguida, e é esse o objectivo central do artigo, volta-se contra o que considera ser a deriva de direita do escritor. Está, naturalmente, no uso do seu mais do que legítimo direito à crítica. Aliás, partilho de algumas das suas perplexidades em relação a determinadas posições tomadas no passado, no plano político, por Vargas Llosa. Mas o jornalista vai muito para além da discordância, insinuando mesmo questões de carácter cuja invocação, para além de incorrecta, é até profundamente injusta. Ouçamo-lo: (mais…)

                                  Atualidade, Olhares, Opinião

                                  Mercado chinês

                                  Chinese market

                                  A visita de Hun Jintao a Portugal é como a visita de Hun Jintao a qualquer lugar do mundo. Segundo os jornais, são mais de trinta as entidades e empresas chinesas que acompanham o Presidente chinês e uma das cartas na manga e na mesa consiste na compra do BCP – não confundir, por favor, com o PCP (camaradas, sim, ma non troppo!) – pelo ICBC, o poderoso Industrial and Commercial Bank of China. Jintao vem pois, basicamente, tratar de negócios. Em algum momento, porém, dirá umas quantas palavras de circunstância sobre uma certa «fraternidade entre os povos», materializável na caritativa generosidade de Pequim para com os países-pobrezinhos da Europa. Esses que bem precisam do investimento chinês para desatascarem a carroça da estrada esburacada para a qual inadvertidamente se deixaram empurrar. E para continuarem a assegurar o seu papel de compradores.

                                  Neste contexto, pouco importarão princípios reclamados por uns quantos extravagantes que não sabem permanecer sabiamente calados. Princípios vagos, traduzíveis em palavras como «democracia», «liberdade de expressão», «direitos humanos», «direitos dos trabalhadores» ou «sindicatos livres». Temas incómodos que apenas servem de embaraço à imposição, nos convénios laboriosamente preparados, de umas rápidas rubricas capazes de satisfazer os mercados e «estimular as respectivas economias». Ou, mais propriamente, que enriquecerão uns quantos, concedendo-lhes, ao mesmo tempo, a boa consciência de prestarem um serviço público, uma vez que «riqueza atrai riqueza». Por isso nada há a esperar para além da deferência dos partidos do poder, traduzida num silêncio cobarde perante o imperador chinês e as iniquidades em vigor no Estado «dos dois sistemas». Aquele no qual combinam harmoniosamente o capitalismo mais selvagem e a repressão «socialista» dos direitos e da voz de quem dá o corpo ao manifesto. Tudo se compra, tudo se vende no mercado chinês. Mas quem manda é o mercador, não o cliente.

                                    Atualidade, Democracia, Opinião

                                    A lista de Lopes

                                    A parede

                                    No filme A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, a frase é de Bruno Hempf, o ficcionado ministro da Cultura da RDA, e destina-se a servir o elogio público de Georg Dreyman, um escritor que ele crê, apesar das suspeitas da Stasi, ser fiel ao regime: «Como disse um grande filósofo marxista cujo nome neste momento me escapa, os escritores são os engenheiros das almas.» O «esquecimento» pretendia ser irónico, uma vez que essa frase foi repetidamente atribuída a José Estaline, que aliás a teria aplicado para se referir aos intelectuais no seu conjunto. Nela, a perversão encontra-se num entendimento puramente instrumental do papel do escritor ou do artista, apenas toleráveis enquanto intelectuais se aplicados sem hesitações numa «causa do socialismo» orientada por quem se arrogava dirigi-la num sentido unívoco e historicamente irrevogável. Materializado na União Soviética de forma crescentemente inflexível a partir de Junho de 1925, quando se adoptou uma resolução «Sobre a política do Partido no domínio da literatura artística» assinada por Nikolai Bukharine, o princípio passou posteriormente a ser aplicado na generalidade dos Estados do chamado «socialismo real». Aí determinando privilégios e exclusões, o direito à voz ou a obrigação do silêncio, por vezes a linha entre a vida e a morte.

                                    (mais…)

                                      Atualidade, Olhares, Opinião