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Israel como nunca

Editado este ano pela ASA, Uma História de Amor e Trevas, de Amoz Oz, é um livro de memórias, entre a autobiografia e o romance, sobre a infância do autor em Jerusalém. A partir de um curto tempo nuclear, cerca de 120 anos de história nacional e familiar passam por um texto «impregnado de ruído e fúria, nostalgia, perda e solidão».

Começa por revelar um espaço cultural que nos é em larga medida estranho. Sobre o qual, aqui a ocidente, quase nada sabemos. Este universo radica-se numa identidade judaica que, no imenso território de diáspora que ia da Europa Central à Rússia mais profunda, permitiu o estabelecimento de uma notável cultura intelectual capaz de admitir a coabitação de ortodoxos, sionistas e simpatizantes da esquerda e do comunismo. A integração não excluía, porém, a produção de clivagens, a mais visível das quais se mostrou durante o próprio Holocausto – basta lembrar as fortes divergências dentro do ghetto de Varsóvia, entre os partidários da colaboração como mal menor e da insurreição como necessidade – e foi depois vertida para o interior de Israel, sendo particularmente sentia na década de 1950, a época à qual Oz se reporta mais directamente. Refiro-me à clara separação entre aqueles que defendiam a secular atitude de aceitação, que permitira aos judeus sobreviveram durante séculos às inúmeras perseguições, e aqueles outros que, após Auschwitz, pensavam que apenas se poderia responder violência com a violência, de modo a evitar o regresso do horror. No mundo extremamente culto e politizado que o pequeno Amos frequentara, todas as sensibilidades e nuances culturais mantinham ainda este antagonismo essencial como cenário.

Este livro proporciona também um espaço de reflexão que se projecta sobre o mundo contemporâneo. Deve relembrar-se o papel de Amoz Oz no movimento Peace Now – que defende a inevitabilidade de um acordo justo e definitivo com os palestinianos, mas não a capitulação de Israel, que as ditaduras árabes, os radicais islâmicos e os seus aliados ocidentais tão ardentemente desejam – e as suas posições públicas neste domínio, parte das quais podem ser conhecidas no pequeno volume de ensaios Sobre o Fanatismo (que há poucos meses o Público ofereceu aos seus leitores). No melhor e mais belo desses ensaios, «Da natureza do fanatismo», o escritor, que fora em tempos «um rapaz que atirava pedras, um rapaz da Intifada judaica», salienta a antiguidade da experiência desse fanatismo «mais velho do que o Islão, do que o Cristianismo, do que o Judaísmo», salientando porém que a sua própria infância em Jerusalém o havia convertido num «especialista em fanatismo comparado». É a experiência desta «especialização» que Oz nos vai revelando no seu livro de memórias, transportando-nos até um ponto no qual poderemos compreender melhor a legitimidade, e igualmente a inutilidade, do ódio instalado. Ao mesmo tempo, a extrema dureza do período de reinstalação dos judeus no território de Israel e depois da independência do Estado – bem, num movimento de fast forward, o processo de restabelecimento das fronteiras «bíblicas», ocorrido já em 1967, após a vitória «milagrosa» na guerra dos Seis Dias – permite-nos também entender as contradições, e igualmente as razões, de muitas das posições da opinião pública israelita e dos seus diferentes governos ao longo das últimas décadas. Dando-nos a ver, se não quisermos permanecer cegos, que estes jamais poderão aceitar um retorno à condição histórica de párias e errantes que, geração após geração, todos os seus antepassados viveram.

Uma História de Amor e Trevas é ainda, pela forma como revela os processos de apreensão do mundo e das suas mudanças pelo jovem Amos, um elogio da leitura e da imaginação. E também um livro de grande beleza e compaixão, que facilmente nos conduz por uma viagem de ida e volta entre o riso e as lágrimas. Afinal, aquilo que a maior parte de nós mais habitualmente procura nas leituras às quais se entrega por puro prazer. Um crítico do Guardian considerou-o «um dos mais divertidos, mais trágicos e tocantes livros» que pudera ler. Mesmo ressalvando o exagero de afirmações tão peremptórias, que mais poderemos querer?

Uma última chamada de atenção para dois aspectos. A capa da edição portuguesa – idêntica, aliás, à da edição da Vintage, mas que não pode comparar-se com a da Chatto & Windus – é muito má, mais parecendo um daqueles cartazes new age utilizados para vender iogurtes light. Já a tradução, da responsabilidade de Lúcia Liba Mucznik, me parece soberba, mesmo sem entender eu uma palavra de hebraico. Nem por um momento o prazer da leitura tropeçou numa palavra ou numa frase, sendo, ao contrário, constantemente excitado por elas. O que é, obviamente, um óptimo sinal.

    Olhares

    Ester e Ruzya

    Masha Gessen é uma jornalista russa cuja família emigrou em 1981 para os Estados Unidos com o objectivo de escapar ao anti-semitismo latente que marcava o quotidiano da União Soviética na era de Brejnev. Dez anos depois regressou à Rússia como correspondente e aí acabou por se instalar, vivendo actualmente em Moscovo. Em 2004 publicou Ester and Ruzya: How My Grandmothers Survived Hitler’s War and Stalin’s Peace, editado há cerca de um ano pela Alêtheia com a primeira parte do título infelizmente alterada para As Duas Babushkas. Este é uma daquelas «sagas familiares» que lança um olhar sobre as vidas singulares e conturbadas das duas avós da autora. Mas não se trata propriamente de um romance «de época»: o trabalho de Masha Gessen consistiu essencialmente em transformar em relato escrito as recordações verbalizadas das suas familiares, em pesquisar pessoalmente elementos que elas deixavam em claro, em confirmar alguns dos factos aos quais elas se referiam, e, finalmente, em inserir toda a informação num discurso que deixa a obra a meio caminho entre o romance e o texto memorialista.

    Ester e Ruzya são duas mulheres russo-judias cujos destinos se viriam a cruzar, acabando por se tornarem amigas e confidentes. Uma nasceu na Polónia e escapou dos campos de concentração de Hitler por ter partido para estudar numa universidade da União Soviética, mas acompanhando também a mãe, entretanto exilada com toda a sua comunidade de judeus polacos para a Sibéria. Teve a coragem de se recusar a servir de informadora do NKVD, demitindo-se do Komsomol (a organização estatal para a juventude comunista) e vivendo na pele a obsessão antijudaica do regime, agravada nos últimos anos de vida de Estaline. A outra nasceu na Rússia, foi uma militante entusiástica do mesmo Komsomol e chegou a ser uma importante funcionária da censura literária imposta pelo Estado soviético. É muito interessante o relato da experiência diária de leituras vedadas à generalidade dos seus concidadãos. Do cruzamento destas duas vidas singulares resulta, para nós, um conhecimento quase testemunhal do quotidiano de muitos «pequenos intelectuais» nos tempos difíceis do apogeu das grandes experiências totalitárias do século passado. Leitura apaixonante e de utilidade para o aprofundamento de uma memória colectiva que transcenda a dimensão da paróquia.

      História, Olhares

      Edmund e a memória

      O Foguetão foi um semanário juvenil de grandes dimensões, impresso a cores e com o caderno exterior em papel couché, fundado e extinto em 1961. Foi a primeira publicação portuguesa a divulgar tiras do Astérix, preludiando a avalancha da BD franco-belga que chegaria a seguir. Lembro-me que tinha uma particularidade da qual gostava muito: utilizava a capacidade gráfica que o tamanho permitia para reproduzir, em dimensões colossais, factos e objectos do passado, literalmente revelados nas suas entranhas (ainda me lembro do interior do navio-almirante de Nelson), como a construção das pirâmides, a batalha de Trafalgar ou o naufrágio do Titanic. Uma dessas montagens contava a conquista do Monte Everest pelo explorador neozelandês Edmund Hillary e o seu guia sherpa Tensing Norgay (que um dia, num texto descuidado, confundi com Chang, o tibetano amigo de Tin-Tin). Hillary, de quem ouvia falar pela primeira vez, surgia ali como um herói apenas comparável aos semideuses homéricos. Talvez por isso, na memória que então comecei a construir, ele me parecesse um homem que pertencia já ao passado, com toda a certeza morto e merecidamente evocado. Foi pois com algum espanto que encontrei hoje, num jornal diário, uma referência à comemoração dos seus magníficos 88 anos. Ao contrário daquilo que muitas vezes se julga, a memória que mais partidas nos prega é a da infância. Preservada é sobretudo a recordação da infância que concebemos alguns anos mais tarde, o que não é bem a mesma coisa. Happy Birthday, Sir Edmund! E desculpe tê-lo abatido ao efectivo!

        História, Memória, Olhares

        Mais distante que a Índia

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        O programa de rádio Antena Aberta, de Eduarda Maia (Antena 1), resolveu esta manhã colocar em debate as recentes declarações públicas de Saramago propósito da utopia, ciclicamente retomada por uns quantos quixotes, de uma Ibéria una e plural. Para que não existam dúvidas, declaro que, nas suas linhas mais gerais, a ideia do escritor colhe a minha simpatia. E a de um ou outro ouvinte também. Todavia, a larga maioria dos participantes interveio, de uma forma excessiva e exaltada, em sentido contrário. A culpa do tom, claro, é deste tipo de programas, que dá voz a qualquer huno e nem sempre introduz na conversa alguma pedagogia da tolerância. Por isso, não estranhei ouvir um cozinheiro do Porto bradar que «não podemos ofender a gesta dos nossos maiores», nem «afrontar os mártires que permitiram dignificar o solo pátrio» (não estou a inventar!). Imagino o senhor – pela conversa, um homem dado aos clássicos – de panela inox na cabeça e com o garfo dos fritos em riste, «dando a vida, se preciso for», rua a rua, copa a copa, sob a inspiração da padeira Brites, na guerra de guerrilhas contra os malditos castelhanos.

        Mas estou convencido, ao conviver habitualmente com gerações mais recentes e razoavelmente cosmopolitas, que são cada vez menos os portugueses que olham o país do lado como aquele território inóspito, selvagem, Arizona fronteiriço a cruzar a galope até se começar a ouvir distintamente alguém que se expresse em francês. Quando conto aos meus alunos espanhóis sobre o ditado «vindo de Espanha, nem bom vento nem bom casamento», ficam espantados, uma vez que se habituaram – eles, os pais e os avós deles – a ignorar Portugal, ou, como lembra Buñuel na autobiografia, a considerá-lo país «mais distante de nós que a Índia». Por sua vez, muitos jovens portugueses desconhecem já a simples existência da referida sentença, o que não deixa de ser bastante saudável.

        Para os mais velhos, no entanto, não era assim. Desde 1640 que os espanhóis – não diferenciando galegos de aragoneses, ou andaluzes de naturais de Castilla-La Mancha – são inimigos potenciais, seres diferentes, excessivos e um tanto conspícuos. E o Estado Novo apenas acirrou os ânimos. Em 1960, Francisco da Cunha Leão, na obra O Enigma Português, trata-os mesmo, depreciativamente, como gente «indiferente à natureza cósmica», e «extremada nas práticas do amor e da sexualidade». Talvez por isso, sei de várias raparigas a quem foi recusado alojamento depois das honestas senhorias dos quartos que elas pretendiam arrendar as terem ouvido comunicar naquela língua cantada e sobrecarregada de guturais.

        A Ibéria será pois uma nova ilha inalcançável nos tempos mais próximos. Jamais a península que habitamos. Da minha parte, confesso aqui que faço sempre por me livrar primeiro das moedas de um e de dois Euros com a efígie do rei Juan Carlos no verso. Mas isto nada tem de antiespanholismo atávico. Bem pelo contrário! Simplesmente o Bourbon tem aquela cara de toureiro, o que, falando numa dimensão meramente ética e artística, me repugna um pouco, pois tendo a simpatizar muito mais com o toiro. E além disso sou republicano.

          Apontamentos, Olhares

          Caramel, bonbon et chocolat

          O Eduardo Pitta desafiou-me para esta espécie de corrente em formato de book crossing. Cinco livros recomendáveis para ler agora, o mais tardar para a semana.

          1. Um pequeno ensaio de George Steiner, O Silêncio dos Livros, publicado originalmente na Esprit, que a Gradiva acaba de editar acompanhado do comentário Esse Vício Ainda Impune (a frase faz lembrar outra coisa, eu sei), de Michel Crépu. Sobre a ligação entre o anunciado fim do livro e a fragilidade, incontornável e eterna, da escrita.

          2. A recente edição portuguesa, feita pela Antígona, da História das Utopias, escrita em 1922 por Lewis Mumford. Porque permite recordar que o seu horizonte não se limita à paisagem insuportável das sociedades harmoniosas. E porque nos sugere, ainda e outra vez, que «a nossa mais importante tarefa, no presente, é construir castelos no ar».

          3. As Notas de Andar e Ver. Viagens, gentes, países, uma colectânea de artigos e intervenções escritos entre 1904 e 1937 por José Ortega y Gasset, lançada agora pela Fim de Século. Um livro que funciona como uma poderosa chamada de atenção para a viagem atenta enquanto «metáfora substancial da vida inteira».

          4. Teenage. The Creation of Youth. 1875-1945, de Jon Savage (conhecido por uma história dos Sex Pistols e do movimento punk), publicado pela Chatto & Windus. A «condição juvenil» entre a literatura, a rua e a caserna, antes ainda dos anos cinquenta. Segundo a Rolling Stone, «the definitive history of youth in revolt, from the gaslight age to the dawn of rock».

          5. Um relato familiar, em forma de álbum de fotografias, da autoria de Daniel Blaufuks. Sob Céus Estranhos, uma história de exílio é uma «meditação evocativa e poética sobre a experiência dos refugiados da Europa Central e sobre um sentimento de dispersão em trânsito na cidade de Lisboa e nos seus arredores». Da Tinta da China.

          Chamo, mesmo sabendo que alguns não gostam muito de cadeias, a Ana de Amsterdam, o Eduardo Brito, o Luís Januário, o Lutz Brückelmann e, internacionalizando a coisa, o Marcos A. Felipe. Escuto.

            Etc., Olhares

            Oskar


            Werner em 1966 com Julie Christie, «a mulher que tinha uma sósia em Lisboa»

            Revi ontem Oskar Werner na RTP2. Como Fiedler, o judeu agente da STASI, ao mesmo tempo repugnante e idealista, que em O Espião Que Veio do Frio, o filme de Martin Ritt baseado no primeiro romance mundialmente conhecido de John Le Carré, tenta contrariar as manobras ardilosas de George Smiley e do MI6. É estranho como a presença cinematográfica deste austríaco, desaparecido em 1984, sempre me pareceu um tanto perturbante, provocatória mesmo. Tinha tudo para me desagradar: o olhar vítreo, a voz nasalada e metálica, um inglês incomodativo com uma vaga acentuação germânica, um aspecto de roedor que me provocava pele de galinha. E, no entanto, algo deste actor, hoje semi-esquecido, perdura como único na memória que preservo do cinema do século passado.

              Cinema, Olhares

              Sansão pode dormir descansado

              Não tenho na certeza de ser dos carecas «que elas gostam mais», como afirmava uma popular marchinha do Carnaval carioca. Ou, pelo contrário, de acordo com o velho anúncio de um restaurador capilar, se afinal já não é deles «que elas gostam mais». Ou mesmo se «elas» serão «eles», ou se «eles» serão «elas». Sabe-se hoje que a calvície de padrão masculino afecta cerca da metade da população dos homens maduros, e, para além disso, que determinadas máquinas eléctricas muito fáceis de utilizar e de manter podem agora transformar qualquer cabeça numa versão hermafrodita de Yul Brynner, o actor conhecido por, entre as décadas de 1950 e 1970, encarnar personagens cujo exotismo requeria uma cabeça inteiramente calva. Assim aparece Brynner numa fotografia, por sua vez retirada do filme homónimo, reproduzida na capa da edição que tenho de Tarass Bulba, a história ficcionada do herói dos cossacos do Don, que Nokolai Gogol escreveu, Mário Braga traduziu e a Portugália editou no distante ano de 1964.

              A ausência de cabelo já não pode agora ser associada à perda de poder e à submissão, ocorridas com os idosos, os prisioneiros e os soldados. Pode até ser instrumento de afirmação de um erotismo raro e energético. O novo Sansão deve temer a sua Dalila por outro motivo que não o inesperado corte cerce da sua indispensável guedelha. Mais do que nunca, o uso notório de cabeleira postiça passa por factor anti-higiénico de incómodo e de mau-gosto, que ridiculariza e marginaliza quem dele se serve. Inexplicavelmente, porém, um grande número de humanos continua a utilizá-las como recurso para esconder uma calvície que imagina incompatível com a imagem de eterna juventude ou de suposta virilidade que deseja preservar. Hoje, no ecrã de LED que preenchia quase por inteiro uma das paredes do restaurante onde almoçava sozinho, fez-me pena ver o aspecto patético de Burt Reynolds – já sem o vigor dos tempos em que era Caine no filme Shark!, de Sam Fuller – exibindo em público um capachinho feiíssimo e, como todos eles, completamente fora do tempo.

                Apontamentos, Olhares

                Sobre os monumentos (6)

                Stalin na Estonia
                Cartaz estónio pré-1953

                Svetlana Boym tem estudado a dimensão energética da nostalgia, ajudando-nos a entender melhor os processos de manipulação política da arte monumental. Em The Future of Nostalgia, distingue claramente a forma como o senso-comum encara aquela que chama de «nostalgia passiva» – marcada pela melancolia, observando o presente pela negativa e o passado como uma dimensão na qual é possível encontrar os melhores modelos – de uma «nostalgia dinâmica», capaz de olhar este mesmo passado «em tensão» e servindo-se dele para carregar sinais que alimentam as representações e as causas do presente. Num tempo em que o conhecimento histórico tem vindo a recuar ao mesmo tempo que cresce o interesse pelo passado, é cada vez mais fácil detectar momentos nos quais esta dimensão dinâmica da nostalgia emerge, armando muitos movimentos e correntes de opinião interessados em manipularem o passado para alcançarem alguns dos seus objectivos programáticos. E reparar na forma como uma parte importante da comunicação social morde o isco sem grandes problemas de consciência.

                  História, Olhares

                  Wikipédia – modo de usar

                  O suplemento Digital do Público divulgou um conjunto de artigos sobre o processo de construção e a forma de funcionamento da Wikipédia. Assim mesmo, com acento agudo, pois foi principalmente a versão em português da enciclopédia online que foi referida. Aspectos como a credibilidade, a originalidade ou a relevância dos contributos foram ali abordados e devem, sem dúvida, suscitar algum exame crítico. Mas prefiro falar do assunto a partir de uma outra perspectiva.

                  A experiência como professor tem-me permitido observar, a propósito do funcionamento da Wikipédia, três comportamentos que me parecem preocupantes: 1) um número crescente de alunos utiliza-a como fonte praticamente única de conhecimento em relação a determinados temas leccionados, situação que é agravada pela impreparação da maioria dos docentes para se aperceberem desta realidade; 2) são poucos os alunos que têm consciência do carácter incompleto, por vezes falacioso ou mesmo erróneo, de muitos dos artigos; 3) para piorar as coisas, a esmagadora maioria destes utilizadores serve-se apenas da versão em português, quase sempre incomparavelmente mais pobre do que as versões em inglês, em francês ou em castelhano (para referir apenas aquelas que consulto mais vezes).

                  Incentivo os alunos a utilizarem a Wikipédia. É um óptimo ponto de partida para o estudo e para a preparação de aulas ou de trabalhos, uma vez que se trata de um processo acessível, barato e que pode abrir inúmeras pistas em hipertexto a aprofundar posteriormente (os links oferecidos, por exemplo, são muitas vezes bastante mais interessantes e úteis do que o são as próprias entradas). Mas apenas como muleta, para se guiarem, ou para encontrarem referências que se cruzam com a informação que recolhem em sites mais fiáveis ou noutros suportes. E aviso sempre que, na correcção dos trabalhos ou das provas, estarei atento ao copy-paste desonesto que a curto ou a médio prazo se volta sempre contra quem dele se serve (não garantindo apanhá-los todos, naturalmente, mas isso eu não devo dizer). Tento desta forma evitar que este instrumento se transforme num factor de desastre, valorizando-o ao mesmo tempo, como ele efectivamente merece. Ignorar o assunto, ou fazer de contas que ele é irrelevante, é que me parece perigoso.

                    Atualidade, Cibercultura, Olhares

                    Al Berto e a outra Coimbra

                    «Vocês são mesmo ordinários, foda-se!». Foram as palavras de um Al Berto em «fúria controlada», quando, em 1992, foi vaiado por um grupo de estudantes universitários, soi-disant irreverentes e mais ou menos etilizados, durante uma sessão de leitura de poesia que decorria em Coimbra. A mesma Coimbra onde o poeta, morto há dez anos, nascera em 1948, e cuja Câmara Municipal proclama agora o «Museu da Irmã Lúcia» e o concurso local de Misses como parte integrante do seu roteiro cultural. A minha cidade tem também destas tonterias, mas o problema não é com ela, garanto. É (tem sido) apenas com alguns dos seus habitantes (verdadeiros ou putativos).

                    O lamentável episódio foi gravado e pode ouvir-se aqui (16m08s):

                    A recordação do momento e esta gravação chegaram-me através d’A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas, e foram inicialmente colocadas em linha, no blogue Frenesi – Livros, por Paulo da Costa Domingos.

                      Atualidade, Coimbra, História, Olhares

                      Sobre os monumentos (5)

                      Bratislava

                      Nos países sob regimes democráticos, onde se verifica algum respeito pela diferença de opiniões e pela transitoriedade dos valores, o mobiliário monumental tem começado a atenuar a expressividade simbólica que sempre incorpora. Os edifícios construídos são mais funcionais e voltados para um diálogo com as populações envolventes, a agressividade figurativa das estátuas é reduzida, ocorre uma maior preocupação com o reconhecimento social e com o confronto com a paisagem. Isto atenua o carácter demasiado afirmativo e panfletário, acentuadamente polémico, que estas construções assumem noutras circunstâncias. Porém, a suavização da mensagem dilui ao mesmo tempo o impacto do objecto, convocando um mais rápido esquecimento.

                        História, Olhares

                        Sobre os monumentos (4)

                        Salazar
                        Salazar em Santa Comba nos idos de 70, decapitado e florido

                        Se a valorização positiva de determinados sinais é transitória, é-o também a sua negação. Muitas das vezes, a destruição dos velhos símbolos é posta em causa por sectores da sociedade a quem um determinado passado suscita um efeito de sedução. Pode então acontecer que determinados grupos – menos conformados com a ordem vigente, mais identificados com algumas causas – evidenciem uma vontade de recuperação dos monumentos destruídos. São formas de pensamento nostálgico que suscitam esse tipo de retorno, e a nostalgia pode afectar tanto as pessoas que viveram um dado passado como aquelas que o não viveram mas que aceitam, muitas das vezes sem qualquer intervenção da crítica, as imagens que dele lhes são oferecidas. O combate pela afirmação identitária – política, cultural, religiosa, étnica, geracional – determina então a vontade, mediada pela intervenção do simbólico, de um «regresso ao passado».

                          História, Olhares

                          Ver para respirar

                          Kapuscinski

                          Quando, em nome de uma «objectividade» asséptica ou de uma lógica de amanuense, a escrita jornalística foge a alta velocidade do compromisso e da emoção – esquecendo, ou ignorando, legados como os de Reed ou de Orwell – apetece-me recomendar, e sem reservas, a leitura de um livro de Ryszard Kapuscinski editado há cerca de dois anos pela Campo das Letras. O volume possui um título, O Império, que o aproxima das estantes áridas da ciência política, e foi precisamente numa delas que o encontrei.

                          Entre 1989 e 1991, o jornalista polaco-bielorusso fez uma série de viagens por uma União Soviética já moribunda. Recuperando a sua própria memória de textos mais antigos, e associando-lhe a observação arguta e sensível de um mundo a mover-se à sua frente em rápida espiral, Kapuscinski deambulou por territórios muito diversos, cuja efervescência a acção uniformizadora soviética apenas escondera. O resultado final foi uma obra próxima do soberbo, sobre um mundo imenso que desaba, por entre tremores de cólera e vestígios de esperança. Poucos jornalistas são capazes de captar, e de descrevê-lo com arte como Kapuscinski o faz, tantos e tão sucessivos instantes de um realismo intenso e de pura poesia. Como neste instante arménio: «Volto para o hotel. É uma tarde suave e cálida dos princípios de Outono. Multidões de pessoas passeiam. Estas ruas, esta cidade, exalam um ar benévolo. Num dos recantos, na maior escuridão, brilham umas brasas incandescentes. Junto a um forno de ferro está sentado um rapazinho. Prepara shashlik, o churrasco de carneiro. Os seus grandes olhos negros olham fixamente o fogo. O seu olhar fascinado, quase ausente, como que longe do lugar e do tempo.»

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                            Música nocturna

                            Radio Head

                            Na década passada fiz muitas e longas viagens de condução nocturna tendo como banda sonora a música encantatória da Íntima Fracção e a voz poética, ocasional, do seu autor, Francisco Amaral. O programa, no ar desde 1984, andou pela Antena 1 e pela TSF, recebeu diversos prémios, perdeu o sinal nacional quando passou para a Rádio Universidade de Coimbra e a ESEC Rádio online, e regressa agora a todo o país na grelha de um renovado Rádio Clube Português. Mantém um blogue próprio, através do qual é possível fazer-se o download integral dos programas em formato mp3. Com esta versão podemos, aliás, viver a experiência rara de mergulhar na noite à luz do dia. Em directo, a Íntima Fracção passa todas as semanas de domingo para segunda-feira, entre a meia-noite e as duas da madrugada. Nem se pergunta se recomendo.

                            As frequências: Aveiro 94.4 – Beja 106.4 – Braga 92.9 – Coimbra 98.4 – Faro 106.1 – Leiria 96.4 – Lisboa 104.3 – Portalegre 106.7 – Portimão 107.1 – Porto 90.0 – Sabugal 94.8 – Santiago do Cacém 107.5 – Vila Real 97.4

                              Música, Novidades, Olhares

                              Sobre os monumentos (3)

                              Lenine caido

                              Tal como todas as formas de poder são transitórias também o são o sistema de valores e o conjunto de códigos estéticos que as suportam. A prevista «imortalidade» das estátuas – talvez menos a dos edifícios, sempre recuperáveis com outras funcionalidades – acabará por defrontar um futuro que a irá contestar. O seu derrube consagra então, simbolicamente, os tempos da mudança. A Alemanha e a Itália do pós-guerra, o Portugal revolucionário, a Angola e o Moçambique da descolonização, os países do Leste europeu do período pós-queda do Muro, o Iraque after-Saddam, constituem, com as suas construções descaracterizadas pelos novos regimes e as suas estátuas apeadas e atiradas para lixeiras ou para museus privados, exemplos desse processo que permanecem razoavelmente nítidos na nossa memória. Aspecto igualmente acessório destes momentos de inversão são as mudanças bruscas, por vezes espectaculares, na toponímia local ou nas designações de países, cidades e regiões.

                                História, Olhares

                                Cinco blogues que fazem pensar

                                Thinking_B

                                Seguindo a iniciativa Thinking Blogger Awards, Pedro Correia, do Corta-Fitas, elegeu A Terceira Noite entre um dos cinco blogues que o fazem pensar. Agora é a minha vez, se bem que, provavelmente, tenha de insistir em blogues que outros já apontaram. (Bom) sinal de que não fazem pensar apenas a mim. Como têm mesmo de ser apenas cinco, aqueles que neste momento mais me provocam são…

                                O Água Lisa, de João Tunes – a mostrar como é possível ser-se ser militantemente de esquerda sem se ser estrábico (muitas orelhas a arderem)
                                O Ana de Amsterdam, da Ana (simplesmente) – vá-se lá perceber porque me tenho amarrado a este blogue (e até refere ainda menos livros que o Ípsilon)
                                O Legendas & Etcaetera, de Carlos Sousa Almeida – desconcertante e jamais conformista (apesar do fundo de página em tom brouillard)*
                                O Da Literatura, de Eduardo Pitta (ocasionalmente com João Paulo Sousa) – escrito sempre com atenção, sem emendas, como se fosse para o papel
                                A Natureza do Mal, de Luís Januário e André Bonirre – um pouco anárquico, desalinhado e nada distraído (com saudades da voz desaparecida da Sofia do Mal)

                                * Entretanto, o L&E migrou e ganhou um aspecto renovado. Menos brouillard portanto. [3/6/2007]

                                  Etc., Olhares

                                  Sobre os monumentos (2)

                                  Stalin

                                  Dotadas de traços figurativos mais explícitos, as estátuas são monumentos que possuem uma dimensão simbólica vigorosa, podendo facilmente funcionar como «lição». Aí, é o grande vulto (o rei, o chefe militar, o político, o intelectual), ou então o operário em luta, o soldado desconhecido, a mulher heróica, a agregar um conjunto de sentidos propostos sob a forma de mensagens a reter.

                                  Os imperadores romanos e os monarcas absolutos utilizaram o processo, mas foi o romantismo, ao valorizar o papel histórico da nação e do indivíduo, a criar as condições para um recurso sistemático a essa estratégia. Estimulando a criação dos museus e dos memoriais urbanos, tornou igualmente possível a recuperação da dimensão exemplar de determinados momentos do passado, colocando a nostalgia ao serviço da política.

                                  Os regimes totalitários do século passado levaram muito longe esse esforço, utilizando o monumento na tentativa de propagar as metas e as imaginárias conquistas dos seus programas políticos, de traçar o perfil físico e comportamental do «homem novo», de reescrever de cima para baixo a própria história. As artes monumentais fascista e socialista definiram a sua centralidade pedagógica, tornando-a uma prioridade da iniciativa política.

                                    História, Olhares