Desde que começou a tocar em público e gravou o primeiro hit da história do rock ’n’ roll – «Maybellene», de 1955, ainda com um costela nos blues – Chuck Berry viu nascer, crescer, vencer, arruinar-se, trair ou morrer sucessivas gerações de rockers. Ontem, aos 84 anos, depois de uma hora de concerto em Chicago, sentiu-se mal, desmaiou e bateu com a cabeça no piano em que tocava. Assistido no local, retomou o concerto, que abreviou por se sentir «um pouco cansado». Já não se fabricam motores assim. [Aqui CB com Keith Richards em «Roll Over Beethoven»]
Em Março de 2006, dois reputados professores universitários de ciência política e de relações internacionais, John Mearsheimer, de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, publicaram na London Review of Books um artigo, intitulado «The Israel Lobby», que correspondia à versão reduzida de um outro, escrito a pedido da Atlantic Monthly mas por esta rejeitado. O carácter controverso do tema suscitou rapidamente uma enorme disputa, envolvendo sobretudo partidários inflexíveis e detractores apaixonados e levando ambos os autores a sentirem a necessidade de desenvolver os seus argumentos em livro.
De uma forma bastante simplificada, estes argumentos traduziram-se na identificação de pessoas e de organizações que se foram empenhando, ao longo de décadas, na construção de uma política externa norte-americana acentuadamente pró-Israel. Associada a este trabalho, desenvolvido de uma forma bastante exaustiva e apoiado em testemunhos, documentos e factos bem identificados – não fosse ele um trabalho de investigação académica –, adiantou-se ainda a ideia segundo a qual esta relação tem sido tão prejudicial para os interesses americanos quanto para a formulação de uma política externa israelita verdadeiramente independente e dialogante. Ao longo de mais de seiscentas páginas, sucedem-se então as informações sobre o complexo processo de constituição do lóbi, quase inexistente quando da fundação do Estado de Israel mas gradualmente erguido a partir da época da Guerra dos Seis Dias (Junho de 1967).
Numa recensão crítica a este livro publicada no diário Haaretz, tradicionalmente identificado com uma certa esquerda secular israelita, Daniel Levy, que foi conselheiro político do primeiro-ministro e integrou delegações destinadas a negociar a paz com as autoridades palestinianas, concluiu que para poder entrar numa era de maior sanidade e de revisão da política de ocupação, Israel deverá pois repensar o seu relacionamento com o lóbi americano, mas não exclusivamente judaico, que tem favorecido um intervencionismo cada vez mais agressivo. Uma posição que claramente reforça a importância desta obra, do intenso debate que suscitou, da barreira de silêncios e cumplicidades que permitiu transpor. E da mudança que poderá anunciar.
[John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt, O Lóbi de Israel e a política externa dos EUA. Tinta-da-China. Trad. de Rita Graña. 608 págs. Adaptação de um texto publicado na revista LER de Dezembro de 2010.]
É bom prevenir o leitor: apesar do aspecto sóbrio da capa e da respeitabilidade do tema, esta não é uma obra de filosofia política. Aquilo que o autor se propõe fazer a partir da sua identidade pessoal complexa – Andrew Sullivan é um inglês católico de ascendência irlandesa, americano por adopção, gay e típico membro da Geração X – consiste antes em descrever a trajectória que fez dele, neste tempo em que todos «vivemos em nichos e comunicamos no meio de ravinas», um conservador mal visto pela maioria dos que adoptam princípios e atitudes inflexíveis e manifestamente de direita. Mas este pode também ser considerado um livro contra a apostasia, no qual os apóstatas, classificados como «fundamentalistas», são os que traíram a ficção de segurança, a noção de resposta ao «colapso da esquerda», a resistência à mudança e a uma certa ideia de perda, sobre a qual Sullivan construiu o seu próprio modelo de conservadorismo.
Sullivan expõe desde o início uma concepção bastante aberta das suas escolhas. Para Michael Oakeshott, o filósofo britânico sobre o qual escreveu uma tese em Harvard, não pode construir-se uma moral pessoal com base num livro ou numa teoria; com ele Sullivan aprendeu que «a nossa moral é como a linguagem que aprendemos e usamos a cada instante», a qual parte de uma base sólida mas deve ser constantemente adaptada à experiência. Será este, no fundo, o fundamento de um «conservadorismo dialogante», associado pelo autor ao ideal de governação proposto nos anos oitenta por Thatcher e Reagan. A valia social desta opção teria, porém, sido usurpada e arruinada na década de 1990 por um «fundamentalismo» de características religiosas. Este apoia-se em factos, não em teorias, excluindo a dúvida em nome da fé, impondo pela força «uma verdade inalterável, precisa e externa no centro da vida de cada pessoa», e exigindo a sua completa obediência. Na América, partiu de algumas margens mas cresceu rapidamente, atingindo a direcção dos republicanos e disseminando metástases por toda a sociedade. A figura e a intervenção de de George W. Bush teriam então emergido, nos planos simbólico e prático, como sinais do recuo de uma ideia de sociedade serena e equilibrada dirigida pela inteligência e pelo bom senso. Um recuo apoiado nos sectores mais retrógrados e intransigentes da sociedade americana, compostos por gente que toma a Bíblia à letra, ignorando dois mil anos de experiência e de progressos no campo da ciência e dos direitos humanos.
Sabendo-se que A Alma Conservadora foi publicado em 2006, antes ainda da rápida ascensão pública de Barak Obama, o panorama apresentado é devastador. Todavia, na segunda parte da obra, Sullivan perde o registo pessimista e retoma a voz combativa – em defesa, por exemplo, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou repudiando a tortura e a pena de morte – que o destacou, em The Daily Dish, como um dos primeiros bloggers a desempenhar um papel proeminente enquanto opinion maker. No final, o leitor reconhecerá o forte desejo, manifestado pelo autor, de depurar a «alma conservadora» dos seus desvios perigosos e infelizes. Uma atitude de proselitismo de um ideal de conservação e nostalgia, ancorado num horizonte de tolerância e de razoabilidade, que lhe parece harmonizável com os princípios elementares do jogo democrático.
[Andrew Sullivan, A Alma Conservadora. Quetzal. Trad. de Miguel de Castro Henriques. 336 págs. Adaptação de um texto publicado na revista LER de Dezembro de 2010.]
Chegamos então à época das listas. A minha não é a dos melhores nem a dos piores livros saídos ao longo do ano que agora parte. É só a daqueles dez que foram editados em português europeu, pude ler ou reler, e me (lo)comoveram um pouco mais que o habitual. A daqueles que com algum egoísmo maior prazer sinto em partilhar. Ao fechar o balanço, reparei que foram 365 dias com menos ficção (e sobretudo menos poesia) do que foi a norma noutros anos. Pode ser um sinal de condescendência para com a cultura da competição em que nos querem afogar. Na hora de substituir o tradicional calendário de pin-ups e de meter à boca as passas da praxe, um dos meus desejos será reparar este grande pecado.
A ordem é apenas alfabética. Não aparecem e-books porque os que fui lendo estão por traduzir.
Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel (Teorema) George Orwell, Livros & Cigarros(Antígona) Hans Küng, Islão. Passado, presente e futuro (Edições 70) Herta Müller, Tudo o que tenho trago comigo (Dom Quixote) John Newsinger, George Orwell. Uma biografia política (Antígona) Manuel António Pina, Por outras palavras & mais crónicas de jornal(Modo de Ler) Mario Vargas Llosa, O Sonho do Celta (Quetzal) Orlando Figes, Sussurros. A vida privada na Rússia de Estaline (Alêtheia) Tony Judt, Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos (Edições 70) Walter Benjamin, O Anjo da História (Assírio & Alvim)
Tal como aconteceu com milhões de pessoas, só em 2010 transformei realmente em hábito a experiência do Facebook. Tendo servido de batedor na utilização da Internet fora dos centros de computação, usando-a diariamente a partir de 1994, passei por diversas fases, tanto na rotina dos processos técnicos quanto nas vias e expectativas da comunicação partilhada que é a sua essência funcional. Primeiro foi o pequeno grupo de pessoas conhecidas, saído ainda das antigas redes universitárias. Depois um colectivo alargado, com uma dimensão territorialmente ampliada mas com um volume de participantes e de tráfego que assegurava um estilo próprio do grupo reservado. O grande salto veio de seguida, no período das revistas electrónicas – geri uma entre 1996 e 2002 –, com a tentativa de usar uma ferramenta barata para chegar a um grupo ampliado mas ainda identificável. A quarta etapa arrancou por volta de 2004, com a generalização do acesso à rede, a impessoalização de uma grande parte dos contactos e depois o crescimento da opinião partilhada introduzido pelos blogues. Ao longo das quatro etapas resisti sempre a participar nos modos de comunicação em tempo real, como chatrooms, o IRC, o MS Messenger ou, bem mais próximo, o Hi5. Para ser sincero, pareceram-me sempre espaços de conversa que substituíam de maneira bastante artificial a velha e calorosa prosa de café. Com a agravante, dada a ausência de rostos, de desresponsabilizarem as pessoas pelo que escreviam/diziam, dentro de um clima um tanto insalubre, pouco compatível com a reflexão, a reserva, o prazer e a disponibilidade de cada um.
O apelo do Facebook foi diferente. Apesar do carácter egotista e publicitário dos processos usados e de muitos dos conteúdos, apesar do apelo à atitude compulsiva que bastantes vezes projecta, apesar da capacidade para arremessar para o domínio do público aquilo que cada um até agora ciosamente guardava no campo do privado – «Facebook is watching you», avisava há tempos um título da Manière de Voir –, a diversidade de processos que combina tem permitido a construção de pequenas comunidades. Capazes, sobretudo antes de se chegar ao ponto em que o número de «amigos» ultrapassa o razoável transmutando o grupo em multidão, de partilhar experiências, prazeres, informações, ideias e causas. Philippe Rivière chamava-lhe há dias «espelho mágico», mas esta magia contém os mesmos dois flancos magnéticos de todas as magias: a manipulação e o encantamento. No entanto, não vejo no segundo nada de necessariamente negativo, desde que quem se deixe encantar o faça conscientemente e no uso da sua liberdade. Claro que já é mais perigoso e movediço esse lado obscuro dos «amigos» mirones que não escrevem mas registam o que escrevemos, que usam a plataforma como mera tribuna pessoal ou partidária, que ignoram a dimensão lúdica deste instrumento recuando diante da menor frase mais livre ou intimista. Mas nada disto é novo e onde há muita gente a complexidade humana sempre exponencia tanto as suas qualidades quanto os seus defeitos, aproximando, separando e reagrupando. No que me diz respeito, quando o registo informativo e questionador, divertido e cúmplice, deixar de ser possível, trocarei de arquipélago. Até lá, e enquanto o hábito não tolher a liberdade, acredito que me mantenho num caminho transitável. Com alguns recantos acolhedores.
Uma das definições que o Houaiss oferece de anestésico toma-o como um produto que «diminui ou elimina a sensibilidade». Ou, de uma forma mais abrangente e difusa, como algo que inevitavelmente «provoca apatia, desinteresse, impassibilidade». Por isso, neste tempo de arriscados declives, piso deslizante e precipícios à vista, se revela particularmente perigoso o forte gás anestésico que emana da quadra das festas e dos bolos. Ao som de caixas de música, flautas de Pã e toques de telemóvel, proclama-se uma suspensão fictícia do tempo e coloca-se a vida colectiva em modo de pausa e de aparente paz. Mas o vulcão não está adormecido. Irá explodir.
O Natal itinerante que escolhi este ano guardava-me duas boas surpresas. Surpresas mesmo, ocasiões raras, associadas a gestos que julgava perdidos para sempre dentro deste reduto perpendicular de 92.090 Km2. A primeira veio com o bolo-rei. Pela primeira vez em bastantes anos pude comer um com fava e brinde embrulhado em papel vegetal, como os da infância. Gozado com um deleite asininamente cavaquista, associado na sua intensidade à certeza de passar por cima de uma daquelas regras sanitaristas e lerdas emanadas da União Europeia. Mas a segunda surpresa foi ainda maior e melhor. Juro que, numa pastelaria-padaria do interior, frequentada por famílias aparentemente honestas e sem pinta de simpatia pelo Diabo, pude, na companhia de dezenas de prevaricadores, fumar um cigarro ao balcão, lançando baforadas intensas sobre os receptáculos nos quais repousavam pacíficos pães de trigo e de passas, ordeiras broas de milho, serenos cacetes integrais e, mesmo por baixo do meu nariz, um esplêndido pão-de-ló. Claro que não declaro onde aconteceu isto: não sou denunciante nem quero ficar na consciência com a responsabilidade de prejudicar algum chefe de família, funcionário da ASAE, na avaliação de competências relativa ao ano civil de 2010.
Passo estes dias frios na Beira Baixa e de manhã subi até Belmonte. Não ia há muito a esta vila de um grande interior abandonado à estagnação e ao isolamento. Parece agora um lugar que renasce devagar, apoiado em parte no interesse por uma tradição criptojudaica longamente ignorada ou omitida pela cultura cristã-velha. Afinal o antisemitismo tem por esta aba da Europa uma presença rígida e persistente que tardou em diluir-se na aparente normalidade multiétnica que agora partilhamos. Fiz a via sacra das ruas estreitas e graníticas, um tanto escorregadias também, da antiga judiaria. E estive no Museu Judaico, um dos melhores, mais bem concebidos e mais amorosamente conservados dos que conheço em Portugal. Nele revi pedaços de vidas escamoteadas, submersas gerações após gerações, roçando o fundo mais fundo do esquecimento, mas capazes ainda de nos acenarem um pouco. No fim da visita agradeci ao rapaz de kippah na cabeça o cuidado com a conservação daquela memória única. Sendo 24 de Dezembro, tive o pudor de não mencionar a um judeu as boas festas cristãs. Mas ele não se coibiu nada de me desejar um Bom Natal.
Em «La rivoluzione è finita. Inizia l’età della rivolta», publicado no La Stampa do passado dia 16, o italiano Marco Belpoliti, escritor, crítico literário e professor de sociologia da literatura, confronta-nos com uma situação que não podemos ignorar. De Clichy-sous-Bois, nos arredores de Paris, em 2005, aos motins estudantis de Londres e de Roma em 2010, passando por Atenas em 2008, a revolta pura e dura parece ter ocupado o antigo lugar da revolução. Sem um programa ou objectivos políticos claros, sem um ideal a perseguir desenhado no horizonte, ela não se projecta no futuro mas antes no imediato.
A Ocidente como a Leste, em Nova Iorque como em Xangai, o estado de revolta «suspende o tempo histórico e cria o instantâneo», assegurando a aparente vitória do presente sobre o futuro. Este vive do instante e é no instante que se constrói. Belpoliti recorre a uma evocação de Walter Benjamin a propósito da forma como durante a Comuna de Paris os communards disparavam furiosamente sobre os relógios. Queriam que o tempo parasse ali mesmo, sem remissão, numa vitória efémera que durasse para sempre e pusesse termos às cadências opressivas da vida e do trabalho. Foi assim também muito tempo antes, durante os grandes levantamentos anti-senhoriais do século XIV, ou enquanto durou a Guerra dos Camponeses na Alemanha do século XVI. Prestes a serem massacrados na batalha de Mauthausen, os sublevados recusaram-se a aceitar a superioridade militar dos poderosos, pois esperavam que Cristo em pessoa entrasse no terreno de luta para suspender os factos e consagrar a vitória definitiva dos crentes e dos espoliados.
Nada disto tem já a ver com a «guerra civil», conduzida por gangs de delinquentes ou grupos de extrema-direita, que segundo Hans Magnus Enzensberger pelos finais dos anos oitenta pareciam preparar-se para tomar para si as ruas dos «bairros problemáticos» das grandes metrópoles do mundo industrializado. Esta é uma outra forma de violência, que parece antes uma resposta estrutural à ausência de perspectivas de uma mudança revolucionária. Combate-se nas ruas como Robin Wood e os seus se batiam nos arrabaldes de Nottingham, como um Zorro ficcional lutava em nome dos fracos e dos oprimidos: procurando mitigar a injustiça e exercendo por vezes o direito de vendetta. Sigo ainda Belpoliti: «Devemos preparar-nos para viver uma época diferente daquela que marcou a vida dos nossos pais e dos nossos avós, uma época que não possui um sentido único, ou pelo menos um destino preestabelecido.» Neste tempo, o homo seditiosus, o homem sublevado, apresenta-se como o campeão de uma humanidade que desce à rua. Hoje, mas igualmente amanhã, e depois de amanhã, para realizar «uma arte sem obra» determinada pelo direito à resistência. Uma perspectiva sobre a qual vale a pena ir meditando nos intervalos da acção.
Não sei se já todos vocês passaram por uma situação análoga, mas aconteceu-me uma meia dúzia de vezes. Viver uns quantos dias, por opção mal avisada, numa cidade desinteressante, sem nada de especial para fazer, sem conhecer ninguém, sem lugares bonitos para visitar, mas, por não dispor de transporte próprio, a contar pacientemente os dias que faltam para sair dali para fora. Nessas alturas, se não queremos morrer de tédio ou que nos aconteça alguma coisa má ao cérebro, o melhor que há a fazer, para além de dormir muito, de ler todos os livros que tivermos conseguido levar e de tomar notas para o romance que vinte anos antes planeámos escrever, é procurar fazer render aquilo que se encontra à nossa mão. Esquadrinhar os recantos das praças, reparar em cada centímetro dos corredores do museu local, ponderar a dimensão dos edifícios e das estátuas, tentar perceber como comunicam os naturais, e principalmente observar o que se passa no hotel que nos coube como se de uma inesgotável aventura se tratasse.
Pois foi precisamente isto que fez Guy Delisle, o canadiano autor de livros de banda desenhada que em 2003 publicou Pyongyang. A Journey in North Korea, relato visual de uma sua estadia de trabalho, como supervisor de um estudo asiático de cinema de animação, na cidade capital do império norte-coreano da dinastia Kim. Só que, neste caso, à situação do viajante aborrecido de morte associou-se a consciência de um universo regulado pela vigilância paranóica e pela repressão. A sua forma de sobreviver no mundo sombrio ao qual se viu confinado, e que procurou descrever neste livro, colocando-o ao dispor da compreensão do leitor, foi então olhá-lo de uma forma aparentemente ingénua, fazendo com que o seu modo de observação fosse filtrado pelo relato de episódios nos quais o absurdo e a comicidade insinuam um devastador efeito crítico. Insistindo na arma do humor, que mesmo na sociedade mais repressiva do mundo serve, como em toda a parte, de factor de resistência. Segundo Delisle, uma piada com bastante êxito em Pyongyang é aquela que procura explicar por que motivo os velhos autocarros que circulam na capital, todos eles montados na distante década de 1950 por operários dos arredores de Budapeste, têm invariavelmente entre uma e cinco estrelas de cinco pontas pintadas na carroçaria: é uma por cada 5000 quilómetros percorridos sem acidentes.
Tal como outros livros de Guy Delisle, este está à venda nas lojas da rede FNAC.
Nos meses longos e intensos que se seguiram à Revolução dos Cravos, a publicidade paga dos jornais encontrou uma invulgar fonte de receita. Muitos portugueses que por um qualquer motivo se viram acusados de terem sido agentes ou informadores da PIDE resolveram declarar em público a sua putativa boa-fé, atestando perante Deus e a Nação que jamais haviam pertencido à famigerada corporação. Um dos casos com mais impacto na época foi o do «Inspector Varatojo», que por se ter servido deste pseudónimo num programa da RTP sobre literatura policial e criminologia se tornou suspeito, como aconteceu aliás com alguns inspectores, estes dos verdadeiros, da Polícia Judiciária, das Finanças ou do Ministério da Educação, de ser agente da PIDE.
Evoco este episódio por me ver envolvido numa situação relacionada com a nomeação para «blogger do ano» numa votação promovida pelo programa de televisão Combate de Blogs. Já aqui disse que distingo os presentes dos prémios e que me parece fazerem os segundos algum sentido quando se apoiam num colectivo e exprimem reconhecimento. Como me pareceu ser o caso, não me mexi e até estava a achar alguma piada ao lado puramente lúdico da iniciativa. Não me afligiu sequer a possibilidade longínqua de poder vir a ganhar o referido prémio. A Terceira Noite é um blogue individual, sem comentários – a média de acessos únicos diários desceu aliás quando por motivos de higiene mental acabei com eles –, escrito sem a intenção de falar para toda a gente e mais interessado em estabelecer laços com uma pequena comunidade do que em fazer doutrina e pôr os contadores a girar. Convenci-me por isso de que o número de pessoas que votariam em mim seria sempre residual. Limitei-me a tomar nota e a dormir sobre o assunto, visitando o site uma ou outra vez para acompanhar o jogo para o qual tinha sido convocado.
Ora acontece que estando de início num honroso mas modesto lugar a meio da tabela, saltei de repente para um destacado primeiro lugar. Não pulei de alegria pois sabia que ninguém me iria dar um cheque com muitos zeros em caso de vitória. Bem pelo contrário, fiquei ligeiramente preocupado quando constatei que a esmagadora maioria dos votos tinha entrado de forma maciça algures entre as 4 e as 7 da manhã, hora na qual todos os gatos são pardos e, em Portugal, a maioria das pessoas sã de corpo e de espírito se dedica a pôr o seu sono em dia. Daí a correrem suspeitas públicas de se terem instalado «rotativas de IPs» (é quase certo, aliás) ou de eu me dedicar a pressionar cidadãos eleitores maiores e vacinados, foi um passo. Claro que tudo isto vale dois caracóis, mas admito que não gosto de ver-me envolvido em eventuais fraudes para alcançar um qualquer galardão.
Como é evidente, as pessoas que estão na origem da votação nada têm a ver com os contornos deste episódio lamentável. Acredito por isso que compreendam ser legítimo que eu mantenha algumas suspeitas – se elas forem infundadas, tanto melhor, mas estou convencido de que o não são – e não goste de me ver atascado em terrenos pantanosos dos quais quero distância. Como diria o Almirante Pinheiro de Azevedo, nosso Capitão Haddock de carne e osso: «É uma coisa que me chateia, pá!»
Adenda em 1/1/2011 – Espero não ter de voltar a escrever sobre este assunto (triste, embora não insignificante, dada a sua relativa visibilidade). Relato apenas um episódio que deixo à consideração de quem aqui chegar por causa dos ecos. Nas últimas horas da votação choveram mais umas chapeladas, tendo a última decorrido a segundos da meia-noite, quando seria suposto estar toda a gente a festejar a passagem do ano: nessa altura entraram mais de 200 votos, fazendo com que o meu nome cortasse a meta em primeiro e ao sprint. Como qualquer pessoa inteligente entenderá, só alguém completamente estúpido cometeria uma falcatrua tão óbvia em causa própria. Quanto aos objectivos de outrem, desconheço-os.
É sabido desde James Fenimore Cooper que a espionagem é uma das belas-artes. Muito mais criativa e inesperada – Robert Littell ou John Le Carré sabem bem do que falam nos seus romances – do que anuncia todas as manhãs o aborrecido «mundo real». Mas mais silenciosa também: o seu universo é da cor da penumbra e os personagens que o cruzam existem principalmente nos relatórios classificados como confidenciais, nas pequenas notícias saídas nas páginas pares dos jornais, ocasionalmente num obituário rebuscado. Na verdade, a maior parte das figuras que circulam por estes subúrbios da vida não se revê no agente 007. Não dá muito nas vistas, mantém uma vida aparentemente sossegada, sem o glamour do smoking ou o olhar vítreo de Madame M, sem o roçagar de lindíssimas mulheres ou perseguições em automóveis desportivos. De facto, a vida do espião típico, infatigável e eficaz não se distingue da vida do funcionário anónimo, cansado, de uma companhia de seguros com falta de clientela. Afinal este é um indicador de uma realidade maior que qualquer pessoa avisada deveria conhecer: a vida diplomática e a espionagem são irmãs gémeas apenas com cargos diferentes, ambas feitas de aparências, de enganos e de muitas máscaras. Mas jamais de distracções.
Por isso se torna perigoso que nos deixemos arrebatar pela actividade frenética da WikiLeaks. Não, não me parece que Julian Assange seja um Robin dos Bosques, muito menos um Jean Valjean, e não me espantaria que fosse até mais um Julien Sorel. Um tipo arrivista que passa aos olhos de meio mundo por cândido, honesto e imprescindível. Esta é a minha suspeita – não provada, admito – e por isso não embandeiro em arco com elogios descomedidos ao homem. Só que uma eventual desconfiança não pode ignorar uma certeza que estes dias têm provado: a de que a repressão da actividade da organização está a a servir de pretexto para um ataque generalizado contra a liberdade de expressão e de informação através da Internet. E isto de modo algum pode aceitar-se. Devemos pois enfrentar a arbitrariedade dos poderes que visam abafar vozes em condições de questionar a fiabilidade dos poderosos, por muito que o seu combate possa ter propósitos e se sirva de meios um tanto enigmáticos. Afinal a WikiLeaks não tem qualquer programa claro, mais parecendo um megafone de feira do que uma voz afirmativa em prol de uma causa com objectivos. O que não significa que deva ser calada e que a informação que entretanto vai passando não possa servir para questionar o comportamento arrogante e bem pouco transparente de numerosas figuras do topo da política internacional.
Por isso também é importante apoiar as acções destinadas a impedir por todos os meios que tirem a voz a Assange. Sem esquecer, todavia, que um combate ainda mais difícil e necessário travam aqueles que em países como a China, Cuba ou a Coreia do Norte, como o Irão, a Líbia ou mesmo Angola, se batem também pela liberdade de opinião como valor absoluto. Sem esquecer que sobre estes incorrem perigos perto dos quais aquilo que pode acontecer aos activistas do WikiLeaks não passa de cócegas. No domínio do exemplo dado e de um ponto de vista bem objectivo – o da defesa intransigente de uma liberdade sem adjectivos, independente daquilo que possa fazer-se com ela – não vejo em que devam distinguir-se substancialmente os riscos assumidos, devido à actividade que mantêm ou desenvolveram em rede, pelo australiano Assange, pela cubana Yoani Sánchez ou pelo Nobel chinês da Paz Liu Xiaobo. Nestas matérias é preciso manter todos os piscas ligados.
Kim Jong-Il «é um gajo com aspecto flácido» e «com traumas físicos e psíquicos». Silvio Berlusconi «é irresponsável, vaidoso e ineficaz como um líder europeu moderno», mostrando «um gosto pronunciado pelas festas». Dmitri Medvedev «serve de Robin ao Batman Putin», sendo este «o macho dominante». Nicolas Sarkozy «tem a pele fina» e «um estilo pessoal muito susceptível e autoritário». Muamar Kadafi «usa botox e é um verdadeiro hipocondríaco», trazendo sempre consigo «uma enfermeira ucraniana de peito bastante avantajado». Angela Merkel é uma pessoa que «evita correr riscos», a quem «falta muitas vezes a imaginação». E Robert Mugabe «um homem maluco». Mais: Condoleeza Rice e Hilary Clinton reforçaram as iniciativas de espionagem da Casa Branca, os sunitas sauditas odeiam os xiitas iranianos, o primeiro-ministro turco tem uma agenda islamista escondida e a China andou a sabotar o Google e várias redes de computadores. A sério? Não me digam!
Pouco mais parece ser do que conversa para consumidores de headlines e de notícias sensacionalistas, ou então de tema a explorar por bloggers com falta de assunto, a informação que a WikiLeaks acaba de libertar baseada em informações trocadas entre 2006 e 2009 pelos serviços diplomáticos e militares americanos espalhados pelo planeta. Os jornais rejubilam com as «grandes notícias», anunciando que «EUA espiam líderes estrangeiros» ou que os seus serviços secretos os «ridicularizam» comentando de forma demasiada directa, por vezes chistosa ou brutal, o perfil pessoal e político deste ou daquele. Perante tanta banalidade, vista e revista por quem conheça uma ponta da história da espionagem e da actividade diplomática que decorre longe dos microfones e das objectivas, podem fazer-se umas quantas perguntas tolas. Por exemplo: seria então suposto os EUA não possuírem um serviço de informações activo e diligente associado à actividade diplomática? não deveria este fazer relatórios sobre as personalidades e os comportamentos das pessoas que tomam as decisões centrais em cada país? encontra-se por ali informação que espante alguém atento à política internacional e às suas figuras mais destacadas? Tente-se perceber os motivos de uma admiração tão deslocada seguindo, por exemplo, os dossiês editados no El País, no Le Monde e no New York Times. Por mim, que já andei por lá a esquadrinhar, ainda não deparei com uma só informação completamente nova, um dado realmente perturbante ou sequer uma fofoquice verdadeiramente decente. A quem servirá então (ou para que servirá) todo este festival de fogo-de-artifício com alguns pormenores cómicos?
Na crónica de hoje da Babelia, Antonio Muñoz Molina evoca as excursões provincianas a Madrid que sempre reservavam um dia para visitar o Escorial e o Vale dos Caídos. Lembra que fez essa peregrinação quando tinha 14 anos, ido do sul andaluz na companhia dos avós, comentando que, à excepção dos franquistas exaltados, então as pessoas já só cumpriam o ritual «porque era o que todos faziam quando iam a Madrid, e porque uma parte da vida consistia misteriosamente em cansar-se calcorreando espaços monumentais que pertenciam ao vago mundo do histórico». Muitos portugueses de passagem por terras de Castela faziam o mesmo – não sei se ainda o fazem – e, sim, eu fui também um deles. Mantenho na memória a percepção que tive daqueles espaços e as impressões que troquei, porque já tinha idade para isso, com outros romeiros portugueses, partilhando a convicção de que aquela monstruosidade arquitectónica separava com clareza a brutalidade asfixiante da monarquia filipina e do franquismo da mesquinhez sórdida do salazarismo, sem rasgo para erguer um santuário ao seu próprio destino. Por isso os nossos vizinhos podem perpetuar naquelas horríveis proclamações em pedra, pedagogicamente, a memória de um passado de ódio e de força bruta do qual a democracia os libertou. E por isso elas devem ser preservadas. No que nos diz respeito, quase nada temos para convencer as gerações mais recentes de que o «salazarismo real» existiu e que podemos tocá-lo com as mãos para garantir que existiu mesmo. Se não contarmos, claro, com as paredes de reboco da Capelinha das Aparições ou do Portugal dos Pequenitos, já que até as prisões do regime permanecem esquecidas e maltratadas. É bem mais difícil garantir que o demónio passou por aqui se dele não pudermos exibir a pata cascuda ou os pontiagudos cornos.
A Greve Geral não é uma greve qualquer. Não representa a mera reivindicação pontual, o protesto isolado, apenas a jornada de luta de um grupo social por melhores salários e condições de trabalho, por direitos mais justos e uma vida melhor. Tem antes uma dimensão superior, uma vez que comporta uma carga assumidamente política. Porque contesta sem rodeios um governo, um regime, um sistema. Nesta Quarta-Feira e em Portugal, como noutros momentos e em outros lugares, será este, uma vez mais, o sentido da Greve Geral que as duas centrais sindicais convocaram e prepararam.
É verdade que os muitos trabalhadores que a ela aderirem apontam a objectivos concretos. Vão erguer-se contra as medidas de austeridade, contra a redução do poder de compra e dos salários, contra a ofensiva apontada aos direitos conquistados a pulso, contra o bloqueio das negociações colectivas, o congelamento das pensões e a eliminação dos abonos de família, contra o empobrecimento da população e aumento das desigualdades. Irão bater-se pelo investimento no sector produtivo, pela criação de emprego e pelo combate à precariedade, pelo aumento dos salários e uma distribuição mais equitativa da riqueza, pela melhoria da protecção social, por serviços públicos de qualidade e uma garantia do cumprimento das funções sociais do Estado. Mas a afirmação de objectivos tão claros e tão justos deve obrigatoriamente passar pelo crivo da realidade: no contexto actual, todos sabemos que a sua materialização no curto prazo não só é improvável como é impossível. Tal não significa, porém, que a greve apenas sirva para «marcar uma posição dos sindicatos», como já li por aí. Pelo contrário, ela pode servir para afirmar dois objectivos que ultrapassam o imediato.
Servirá, por um lado, para mostrar que o mundo do trabalho não se transformou numa força passiva, que aceita sem grandes lamentos ser transformada em bombo da festa ou em batuque de funeral. Que a gestão das sociedades tem obrigatoriamente uma componente social e humana não convertível à lógica fatalista da religião dos mercados financeiros. Servirá, por outro, para proclamar que não existe uma única via para a definição política da governabilidade. Em Portugal, como em muitas outras partes, este é um problema delicado, uma vez que o impasse e o recuo das esquerdas, divididas entre a administração de um imaginário «capitalismo de rosto humano» ou a mera gestão do protesto social, as conduziu a uma real impotência para apresentarem soluções alternativas. Porém, actos como este podem ajudar a alargar o processo de consciencialização e de amadurecimento político e orgânico que um dia – esperemos, sem ser de forma passiva, que ele não tarde muito – conduzirá a formas mais justas e solidárias de governar o social. Sem qualquer sentido messiânico e meta-histórico, como aconteceu num passado recente, mas como uma força tendencialmente optimista e afirmativa. É à espera deste salto em frente que adiro a esta greve. As reivindicações não vingarão de um dia para o outro, mas do remoinho poderá nascer o maremoto.
Não encontrei grandes ecos do texto do provedor do leitor do Público, José Queirós, editado no passado sábado e intitulado «Contar Cabeças». Nele se refere o facto de, pela primeira vez em Portugal, um estudo levado a cabo por uma equipa de investigadores, dirigida no caso por Steve Doig, professor da Universidade do Arizona, ter contado o número de participantes na manifestação convocada no passado dia 6 pela Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, e que desfilou em Lisboa entre o Marquês de Pombal e os Restauradores. Os organizadores apontaram para 100.000 pessoas presentes, mas a equipa do professor Doig fez contas, fotografou a manifestação, mediu o espaço, e provou que não tinha sido bem assim. «Resultado: uma estimativa de 8000 a 10.000 participantes no desfile, e cerca de 5000 concentrados nos Restauradores.» Acrescentando José Queirós o seguinte: «Não creio que seja possível, depois desta experiência, que um jornal independente continue a ignorar as suas responsabilidades informativas e se limite a servir de eco preguiçoso aos números avançados por organizadores de manifestações ou por fontes oficiais.» Inteiramente de acordo com a conclusão; todavia, este episódio pode levar-nos ainda mais longe. (mais…)
Em tempo de guerra – leia-se, de crise económica grave, profunda e imprevisível, embora, como tudo na vida, sempre reversível – não se limpam armas. O proscrito da esquerda reemerge como salvador do Estado social e de um sistema «sabiamente gerido». Mr. John Maynard Keynes, o defensor, contra as teorias da «ordem espontânea» de Herr Friedrich Hayek, da intervenção económica contracíclica, renasce das cinzas nas maiores livrarias, nos seminários académicos, nos suplementos dos jornais, nos blogues que falam de economia política. Um sinal da viragem dos tempos? Apesar de tudo, gostava de acreditar que sim.