Quando foi publicado este pequeno livro de Tony Judt, o seu último, o destaque das notícias e da crítica centrou-se nas condições dramáticas em que foi escrito. Em 2008, três anos após a publicação do aplaudido Pós-Guerra, fora-lhe diagnosticada uma doença motora neurológica, incapacitante e irreversível, que rapidamente o iria fazer perder a mobilidade, a voz e por último a vida. Este seu derradeiro esforço reflexivo foi, por isso, produzido em condições particularmente difíceis e incomuns. No segundo capítulo, «Noite», saído originalmente em janeiro de 2010 – como a maioria dos textos que integram o volume na New York Review of Books –, fala da forma como as características da doença o foram deixando livre para contemplar, com um desconforto mínimo, o desenvolvimento catastrófico da sua própria destruição. Mas é o primeiro texto, que dará o título à obra, aquele que melhor caracteriza a sua intenção. Nele o historiador explica-nos o método de que se serviu, noite após noite de solidão e imobilidade, para, recorrendo aos mesmos artifícios mnemónicos utilizados pelos primeiros pensadores e viajantes modernos, revisitar, reorganizar e expor algumas das suas mais marcantes experiências. (mais…)
Tenho amigos que quando se aproxima o Natal procuram agir como se ele não existisse. Retiram-lhe a maiúscula, desejam apenas «festas felizes», ou adiantam os votos de «bom ano», deixando às vezes cair um levemente irónico «cuidado com os doces!». Mas do Natal como festa procuram não falar, talvez para se distanciarem dos rituais da Igreja da qual um dia se afastaram. Ou por transportarem um sentimento de culpa pela sua condição de atávicos herdeiros da matriz judaico-cristã. Ou ainda porque a festa natalícia lhes recorda enfadonhas reuniões de família nas quais os ressentimentos do ano impunham longas horas de hipocrisia coletiva. Poderá até ter ocorrido no seu passado uma mal sucedida relação com o Pai Natal e as suas renas. Mas Natal é Natal, o dia escolhido pelos seguidores de Cristo para simbolizar uma ideia de fraternidade e de modéstia que é mais humana do que divina. No que me toca, sendo agnóstico – e até os ateus são agnósticos – continuo a comemorá-lo como um dia especial, acompanhado de peru e vinho tinto, bolo-rei e rabanadas, prendas e efeitos de luz, mas também pela esperança, como acontece desde que, na infância, fugia da mesa da consoada e ia olhar para o céu na procura ingénua de um movimento diferente dos astros. Assim continuará, aliás, a acontecer, ainda que num eventual caso de proibição governamental tenha de praticar a desobediência cívica. Manter-se-á uma altura do ano, talvez um pouco dolorosa por causa dos que faltam, no qual penso um pouco mais nos outros. Principalmente nos que passam frio e fome, ou são silenciados e perseguidos, ou vêm o seu futuro a andar para trás. Desejo um Bom Natal de 2011 a quem se dá ao trabalho de me acompanhar deste lado da jornada. Que apesar de tudo o gozem o melhor possível, pois se as coisas piorarem, como deverão piorar, assim escreveu Nicolau Santos no Expresso, «ainda vamos ter saudades dele».
A minha formação cristã já decorreu há muito tempo. Mas não o tempo suficiente para que eu já confunda a quadra do arrependimento e da expiação do pecado pela via dolorosa da penitência, que decorre na Quaresma, com as esperanças serenas e indulgentes que o Natal supostamente transporta consigo. Todavia, como o suceder do tempo acelera cada vez mais, existem erros e dislates cometidos pela esquerda portuguesa que quanto mais tarde começarem a ser expiados – no sentido da emenda, não da fustigação dos seus executantes – tanto mais longa será a via-sacra de penitência que irão impor.
Há que designar as realidades pelos nomes, sem qualquer intenção de abater este ou aquele mas também sem fazer de conta que está tudo bem. Ou mais ou menos bem. A desgraça pública patrocinada pelo governo da direita tem, de facto, o seu reverso na responsabilidade da esquerda pela situação criada e pela ausência de uma saída. Nesta imputação de culpa existem duas asneiras com ecos brutais na nossa vida que convém dissecar na perspetiva da reparação. Primeira asneira: ter-se considerado o PS de Sócrates, ou qualquer outro, como «rigorosamente igual» ao PSD de Coelho. Está visto que não era e, como muitas pessoas que votaram à esquerda dos socialistas logo preveniram, vê-se agora como esse erro de perspetiva nos empurrou para a queda abissal no pântano do capitalismo mais primário e bestial. Segunda asneira, consequência da primeira: que a insistência na moção de censura responsável pelo derrube do governo PS tornou essa queda inevitável.
Tudo isto se relaciona com uma imposição da realidade que sei levantar muitos problemas à «esquerda da esquerda» mas que se mostra incontornável. Sem hipóteses de uma alternativa autónoma, eventualmente mais profunda e radical, nesta fase, que possa transformar-se em projeto de poder, só um grande (grande mesmo) arco de unidade pode ultrapassar a lógica exclusiva do mero protesto e lançar as dinâmicas que conduzam ao derrube da direita. E este, por muito que doa a quem tenha a memória fresca – e a mim dói, acreditem – tem de incluir os socialistas. Ou melhor, não é palavrão, o Partido Socialista. Com cedências de todas as partes, claro. Procurando uma base mínima que, nesta fase, se dedique à tarefa ultra-urgente de combater o pior inimigo: o revanchismo insano da direita e a falta de visão e de coragem para defender o país e os seus por parte de quem, circunstancialmente mas com condições para determinar décadas do nosso futuro coletivo, está agora no governo. Quando o inadiável está na preservação «da paz, do pão, saúde, habitação», de que serve e a quem serve passar o tempo a projetar panoramas improváveis com rubras bandeiras a adejar?
O desnorte da governança do país, exclusivamente imersa nas soluções de curtíssimo prazo e no revanchismo de direita em detrimento da busca de um caminho e de uma esperança para o país e para os portugueses, está a atingir níveis que estão para lá da compreensão de todo o cidadão habituado, para o mal ou para o bem, a projetar a intervenção dos partidos de governo e dos seus líderes como subordinada a uma estratégia minimamente coerente. A proposta da emigração de professores e de outros quadros como solução para a situação crítica das finanças públicas e da economia do país, que de hipótese ou escolha individual passou a bandeira do governo CDS-PSD, é de uma irracionalidade e de uma ausência de perspetiva colossal. Esta apenas se tornou possível graças à chegada ao eixo do poder de uma geração de quadros partidários treinada no arrivismo e na gestão do imediato. Gente pequena, sem horizonte, com escassa ou nula experiência profissional e claramente pouco inteligente – o seu léxico e a sua retórica demonstram-no cabalmente aos mais atentos – que mostra uma espantosa incapacidade para definir um desígnio razoável para a coisa pública e para o infeliz país que lhe foi parar às mãos.
Podem enumerar-se algumas razões para abominar esta hipótese da sangria de quadros, em cuja formação Portugal foi investindo ao longo de quase quatro décadas, como forma de «despachar» uma parte do problema do desemprego. Elas têm sido referidas por muitos comentadores e não vale a pena repeti-las. Limito-me a constatar o absurdo que é afugentar justamente as pessoas que, enquadradas por políticas coerentes e positivas, estão em condições de recolocar Portugal no caminho do desenvolvimento humano e tecnológico como via para recuperar a economia e a qualidade de vida. Como pode conceber-se que será apenas com cidadãos próximos da idade da reforma, já sem condições para emigrarem e recomeçarem o seu trajeto, ou então com trabalhadores menos qualificados, que, mesmo na ótica do capitalismo selvagem, podemos inverter a queda em espiral na qual mergulhámos? Mas há pior: esta proposta, a materializar-se, imporá uma condenação ao exílio perpétuo de um número imenso de jovens. Sem que isso traga outro benefício para o governo que não seja retirá-los das ruas, nas quais podem engrossar o descontentamento e a contestação. É que, pessoas com essa formação, no mundo de cultura global no qual habitamos – que já não é o do emigrante de valise en carton, futuro torna-viagem, com as suas «remessas» de divisas –, transferirão os seus horizontes de vida e de trabalho para os países de acolhimento e, com toda a certeza, não mais regressarão. Esquecendo obrigatoriamente o passado, os lugares da infância, talvez a língua, enquanto se esforçam por ir construindo, a milhares de quilómetros da aldeia dos seus avós, novas «zonas de conforto». E nós por cá ficaremos sem dedos e sem anéis. Mais pobres ainda e sem meios humanos para podermos sair da pobreza.
A morte de Kim Jong-il está a servir ao governo norte-coreano para intensificar uma das características mais brutais do seu «socialismo dinástico»: o drama da escravidão dos corpos e das consciências imposto à generalidade dos cidadãos, sob o efeito da repressão, do treino, da propaganda, do preconceito e da ignorância de realidades alternativas. Do livro de Barbara Demick, A Longa Noite de um Povo (ed. Temas e Debates), que venceu em 2010 o Prémio Samuel Johnson e compila diversos testemunhos de cidadãos da Coreia do Norte que puderam passar a fronteira e escapar ao regime concentracionário de Pyongyang, retiro uma descrição de momentos que se seguiram, em 8 de julho de 1994, ao desaparecimento de Kim Il-sung, fundador do regime. O paralelismo com as cenas públicas de hoje é inevitável.
– Abogi, Abogi! – gemiam as velhas, empregando o título honorífico usado para uma pessoa se dirigir ao seu pai ou a Deus.
– Como pudeste deixar-nos assim de repente? – gritavam os homens por sua vez.
Os que esperavam na fila saltavam para cima e para baixo, batiam na cabeça, caíam em desfalecimentos teatrais, rasgavam as roupas e davam murros no ar, numa raiva inútil. Os homens choravam tão copiosamente como as mulheres.
A teatralidade da dor assumia um aspeto competitivo. Quem conseguia chorar mais alto? Quem estava mais perturbado? Os que prestavam o seu tributo eram incitados pelos noticiários televisivos, que transmitiam horas e horas de pessoas a prantear, homens adultos com lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, a baterem com a cabeça nas árvores, marinheiros a baterem com a cabeça nos mastros dos navios, pilotos a chorarem na cabina de pilotagem, e assim sucessivamente. Estas cenas eram intercaladas com imagens da trovoada e dos copiosos aguaceiros. Parecia o dia do Juízo Final. (mais…)
No meio das propostas surpreendentes que todos os dias chegam à minha caixa do correio-e, uma mais recente, enviada por uma firma de detectives brasileiros, garante resolver o problema de quem se possa sentir «desconfiado que está sendo traído pelo e-mail ou bate-papos online». Nela se avisam também os potenciais clientes de que não vale a pena tentar tratar com a empresa de assuntos vulgares, de reduzida magnitude social, como fraudes financeiras ou o roubo de cartões de crédito, uma vez que só aceitam «serviços para investigação sobre adultério e infidelidade na Internet». Tratar-se-á com toda a probabilidade de um conjunto de pessoas de elevadíssimos princípios morais, profundamente zelosa da paz dos lares e da preservação compulsiva da família.
Marie-Anne de Roumier Robert (1705-71), referida algumas vezes como «escritora feminista francesa», inventou o Reino de Futura no «conto moral» Les Ondins, publicado três anos antes de morrer. Situado não se sabe onde, para se lá chegar tornava-se imprescindível percorrer ao acaso uma estrada longa e repleta de obstáculos. Depois era necessário cruzar oito portas metálicas, a última das quais em ouro, encontrando-se todas elas protegidas por dragões, chamas, gigantes, serpentes aladas, sereias e uma fénix. Transposta a última porta, o viajante deveria então purificar-se atravessando um pequeno lago. Só então poderia penetrar no Reino. A vida que ali encontrava parecia-lhe, num primeiro olhar, justificar todos os trabalhos e sacrifícios pelos quais passara: os habitantes de Futura experimentavam uma imensa e infinita paixão pelo futuro. Mas cedo o viajante percebia os limites daquele aparente bem-estar, pois as constantes discussões sobre as formas que tal futuro tomaria impediam-nos de viverem felizes. Todavia, não sabiam viver sem elas.
«Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet?» («Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Até quando teremos nós de suportar o teu escárnio?») Lembrei-me hoje, por via de uma daquelas figurinhas que nos cabem na administração paroquial ou continental da coisa pública, do velho professor de latim e do seu Cícero. Abria muito os braços, e mais ainda as mãos, e recitava de cor parágrafos completos da agastada e furiosa Oratio in Catilinam. Com tal ênfase que fechava sempre a última frase num violento ataque de tosse. A seguir acendia um cigarro Porto, produzia sucessivos anéis de fumo, e calava-se durante dois ou três minutos enquanto nos recompúnhamos dos efeitos da onda de choque verbal e do mais puro terror. Pensando no prazer que daria responder-lhe na mesma moeda.
Sinto algumas vezes pelos piratas informáticos uma simpatia idêntica àquela que tenho pelos ladrões do mar. Imagino-os sempre a navegarem num oceano sem lei, procurando, pela via insidiosa do ataque inesperado, bárbaro mas de peito aberto, regado a rum ou cerveja, noitadas e desespero, a vingança frente aos poderosos que os condenaram à errância, à margem e à solidão. Vejo-os pois, no fundo, como depositários de uma certa nobreza, pilhando o oiro dos galeões porque os seus proprietários o roubaram primeiro, impondo, sobre o destino das ondas (ou do éter), um padrão moral que faz deles arautos desafinados, mas arautos, de uma certa justiça poética. Custa-me por isso vê-los rasteiros, velhacos, quando descem ao nível dos que desejam combater. Foi o que me pareceu encontrar na iniciativa dos hackers que há dois dias piratearam a página oficial do Partido Socialista, servindo-se do ato para um ataque vil, grosseiro, pessoal, e não para o combate ilegal mas frontal e com um objetivo percetível. Darem-se a tanto trabalho, a tão arriscada abordagem, para mostrarem «o extrato de uma conta ligada à família de José Sócrates» é como tentar matar alguém pelas costas com um tiro de pólvora seca. Sem honra ou sentido. Tal inépcia não se pode perdoar. Nem mesmo aos piratas.
Agora que os destinos do Egito retornam à encruzilhada, com os militares ainda no poder, os muçulmanos moderados a ganharem as eleições e os radicais salafistas a obterem 30% dos votos expressos, reivindicando as regras medievais da sharia como fundamento da nova Constituição, vale a pena lembrar o nascimento da Praça Tahrir como território simbólico e elemento orgânico do encontro de credos e do combate pela liberdade.
Em 25 de janeiro de 2011, o dentista e escritor egípcio Alaa Al Aswany, fundador do movimento oposicionista Kefaya que havia anos preparava a mudança no Egito, chegou atrasado à manifestação da Praça Tahrir que iria marcar o fim do regime despótico de Hosni Mubarak. Quando foi avisado do que estava a acontecer, vestiu-se à pressa e correu para se juntar ao milhão de compatriotas que haviam saído à rua para exigir a queda do regime. Ali permaneceu dezoito dias, vivendo os acontecimentos revolucionários e assistindo ao renascimento de um país que em todo o mundo muitos olhavam como destinado a viver na indolência, na estagnação e sob o jugo da bota militar.
Este O Estado do Egito recua um pouco no tempo e reproduz mais de quatro dezenas de crónicas publicadas em jornais entre 2008 e 2010. Nelas se abordam temas tão diversos, que a revolução iria rapidamente passar para o centro das atenções, como o autoritarismo e a corrupção do regime, a estagnação económica, a brutalidade da polícia, a pobreza endémica, a repressão das mulheres, o cerco vivido pelas minorias cristãs, o lugar do fanatismo ou a construção da democracia. Em todos esses artigos se pode entretanto detetar uma leitura comum, ajustada a duas linhas coincidentes e complementares que o movimento revolucionário irá adotar. A primeira aponta para aquilo a que o escritor discutivelmente chama o «caráter especial» da generalidade dos egípcios, que os terá tornado «menos propensos ao conflito e mais inclinados ao compromisso», à recusa maioritária da violência e da tentação do extremismo político e religioso. A segunda, decisiva nos acontecimentos de janeiro, leva-o a considerar que os seus compatriotas «como camelos», suportando a repressão, as humilhações e a fome por muito tempo, mas com uma enorme capacidade, quando finalmente se revoltam, de o fazerem «subitamente e com um ímpeto que é impossível controlar».
Este livro ajuda-nos a mitigar a surpresa causada na maior parte do mundo pelo eclodir da aparentemente inexplicável revolução egípcia, e a compreender o impulso de esperança e de mudança que esta suscitou. Mas também a vislumbrar, por vezes mascarados, alguns dos seus piores inimigos.
Alaa Al Aswany, O Estado do Egito. Trad. de Lucília Filipe. Quetzal. 296 págs. Versão revista de uma nota publicada na LER de Novembro de 2011.
Percebi hoje como carrego comigo qualquer coisa de excessivamente antigo ao receber, através da crónica mensal que Pedro Mexia escreve para a revista Ler, a informação de que a empresa Godrej & Boyce, de Bombaim, última fabricante em atividade de máquinas de escrever, resolveu «descontinuar» o produto. Apesar de já terem passado duas décadas e meia, ainda recordo o tormento que foi passar a limpo na minha Olivetti portátil azul, para entregar na manhã seguinte, as duzentas e tal folhas da tese de mestrado – ou melhor, do seu equivalente – sobre as práticas ostentatórias do poder absoluto no tempo do rei João V. Particularmente daqueles momentos, ao chegar ao fim da página, em que verificava não caberem já as notas de rodapé e tinha de começar tudo de novo. Antes disso, muito antes, na poderosa Underwood do meu avô (ou seria uma Royal?), a escrita «a limpo» em teclado HCESAR dos primeiros textos públicos destinados ao pequeno jornal local. E antes ainda, no mesmo engenho, o preenchimento, por encomenda do meu pai que mantinha um biscate suplementar como correspondente bancário, dos avisos destinados aos clientes devedores nos quais se comunicava a proximidade do vencimento dos títulos de crédito enviados pelo sacador. É estranho mas até dessa tarefa monótona sinto, agora que desapareceu para sempre a possibilidade de a repetir, uma certa falta. Daquele barulho tac-tac tac-tac, sim, e do caráter tátil da ação. Mas, mais ainda, do aroma único, para mim aroma a infância, do óleo que lubrificava a engrenagem e do rolo da fita que sujava os dedos e marcava o papel a vermelho e a negro.
Só esta semana vi as três horas ininterruptas da Autobiografia de Nicolae Ceaucescu, o filme de Andrei Ujică, realizado em 2010, que explora a imagem do ditador romeno numa montagem que recorreu a mais de mil horas de películas, em grande parte não utilizadas pela propaganda, existentes nos depósitos da Televisão Nacional Romena e do Arquivo Nacional de Bucareste. A expectativa de assistir a um desfile documentado de crimes de Estado e de maquiavelismo prático frustrou-se em poucos minutos. Mas aquilo a que pude assistir não foi menos violento e de certa maneira penoso. Seguindo a voz e o olhar que são os do próprio Conducator, os da construção do seu universo pessoal ao longo de duas décadas e meia de autoridade incontestada, percebemos como é fácil fabricar uma versão completamente distorcida da realidade quando o poder absoluto, a interminável bajulação, a fantasmagoria de uma conceção unilateral do mundo e da história, afastam da realidade o dirigente que vive exclusivamente dentro das suas margens, projetando-o num abismo dourado do qual já não pode sair. E percebemos também a lógica ilógica da construção de um discurso dogmático e previsível, projetado como voz do povo e em nome do povo, ao mesmo tempo que o transforma numa amálgama de escravos empobrecidos e mudos. Um documentário que assusta e no entanto elucida.
Diz-se que fado vem de fatu, a palavra latina para destino. E que é fado dos portugueses cantar o fado. Fado é assim aquilo que é fatal, o que necessariamente tem de acontecer. A índole plangente e fatalista da canção de Lisboa não pode assim ser outra, porque, com ou sem faina de renovação, fado será sempre fado. O resto, bem, o resto é invenção de escriturários, engomadinhos, temerosos de sangue, lágrimas e cheiro a vinho tinto. O que cantaram em tempos certos estudantes de Coimbra – e que uns quantos repetem, até à náusea, sem ousadia ou inventiva – não era fado mas balada, tristonha e lamecha, chansonette de quem não sabia muito bem que coisa seria espetar, apenas por paixão ou desfastio, uma faca nas tripas de alguém. E meter toda a raiva, todo o sofrimento e danação, numa só cantiga.
A Amália que tantos lembram não era bem fado, pois cantava com uma elevação, olhar altivo e queixo levantado que não eram próprios do fado. Talvez fosse mais canto lírico. Fado-fado era a Severa, a desgraçada, ou o Marceneiro, com a voz a precisar de uma colher de mel coado, talvez a Hermínia quando estava com os copos, talvez Maria da Visitação, Zé Porfírio, Ginginhas, e outros malandros igualmente desconhecidos do excelentíssimo público. Fado era assim, e assim continua, o que fazia quem puxava pela voz quando tinha ganas de puxar da pistola. Ou quem só queria carpir a infelicidade sobre o ombro de alguém. Por isso pode servir, agora que nos empurram para uma nova vida de condenados, como choro e maldição face ao destino que não conseguimos fintar. Ou então, de faca na mão (ou na liga), como canção de combate. «Imaterial», o tanas.
Variação (em ré menor) sobre dois fragmentos de um artigo que publiquei em 1996.
Mantenho quase sempre um grande arco de acolhimento em relação à diversidade das opiniões e das escolhas dos outros. Partilho com Camus a decisão de, se um dia for criado o partido dos que não sabem se têm razão, poder ser o primeiro a inscrever-me. Mas essa capacidade de aceitação não chega ao ponto – salvo nos casos, cada vez em maior número, em que as condições de sobrevivência do posto de trabalho e a coação patronal o exijam – de pactuar sem alguma mágoa ou ressentimento com quem não adere a uma greve como esta. Por isso, neste dia de Greve Geral, e uma vez que no meu local de trabalho não se organizam piquetes, evitarei passar por espaços nos quais laboram pessoas com quem mantenho uma relação diária próxima e afável. Acontece que, nas atuais circunstâncias, se as descubro de espinha curvada, «amarelas», aceitando sem resistir a queda coletiva no abismo que leva ao abismo, jamais voltarão para mim a ser rigorosamente as mesmas. Por isso, para ser franco, prefiro não saber da sua escolha. Desta maneira, e até prova em contrário, continuarei a confiar na sua sageza, coragem e sentido de justiça.
Em grande parte da Europa, mas com uma incidência prática em Portugal que pode reconhecer-se com grande facilidade, a crise atual contém em si um forte dramatismo instigado por dois fatores que são muito mais complementares, ou contíguos, do que antagónicos.
De um lado a desregulação total do capitalismo e a incapacidade dos seus próprios gestores para encontrarem uma solução que reponha a atividade produtiva a funcionar e o mercado a rodar normalmente sobre os eixos, estabilizando o sistema. Apenas a direita mais extrema, com a sua roupagem populista e propostas miríficas de salvação eminente, parece capaz de controlar a sua própria intervenção, não perdendo terreno e ganhando até, aqui e além, alguns adeptos. Os partidos e movimentos do arco do centro, dos liberais mais clássicos aos social-democratas da ninhada de Giddens e Blair, circulam perdidos, envolvidos numa ação meramente gestionária que há muito se esqueceu da política maiúscula. Embora façam passar a navegação à vista que praticam por uma afirmação de convicções.
Do outro lado uma esquerda hesitante ou autoproclamada «consequente», que desde há várias décadas, enredada nos velhos mitos de uma Revolução salvífica que cairá do céu ou resultará da iniciativa de profissionais, se esqueceu de elaborar um modelo alternativo e mobilizador de sociedade e de militância cívica, de direção da coisa pública, de equilíbrio do Estado social, recuando para um combate essencialmente defensivo e reivindicativo. Útil em alguns momentos para debelar as injustiças mais brutais ou a rapina mais flagrante, mas incapaz de ajudar a obter uma resposta quando, como agora acontece, se torna necessário ascender a um estado politicamente mais evoluído e oferecer aos cidadãos algum entusiasmo para a conquista de uma outra via e de uma outra vida.
Em síntese: a direita gestionária não é capaz de manter o capitalismo a funcionar e de saber para onde vai, a esquerda outrora revolucionária não é capaz de tecer horizontes plausíveis e de mobilizar a maioria da sociedade para os alcançar. Entre uns e outros, os reformistas, que andaram décadas a dar uma no cravo e a outra na ferradura, perderam o norte e tentam reinventar a originalidade que perderam. O pior do drama que estamos a viver é que, neste cenário, não parece existir um desígnio coletivo capaz de projetar no horizonte um final feliz. Só a superação do sectarismo e a construção de confluências, capaz de rasgar alamedas, poderá salvar-nos.