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O Muro como metáfora

Imagem de Aprilspit
Imagem de Aprilspit

Terá sido entre as proclamações dos ativistas do Black Power e os graffiti do Maio de 68 que a ideia de que «a revolução não será televisionada» irrompeu de modo programático. Sugeria aquilo que, na época, para muitos parecia óbvio: que o fim do capitalismo e a sua substituição por um sistema reorganizado e perfeito deveria ganhar corpo no calor do combate político, na luta de ideias, na ação direta se necessário, mas jamais ser mediado pela televisão. No ano de 1989, porém, Berlim, Varsóvia, Praga ou Bucareste deram a ver ao mundo a «primeira revolução televisionada», a acontecer em simultâneo nos lares dos pacatos cidadãos. O seu episódio nuclear, pelo efeito produzido e pela dimensão simbólica, ocorreu na memorável noite de 9 de Novembro desse ano. Quem recorda o derrube do Muro seguido em direto pelo aparelho doméstico de televisão, rememora a perceção de algo até ali inconcebível: o fim de um mundo considerado sólido revelado em toda a crueza, como na sequência capital de um filme-catástrofe (mais…)

    Atualidade, História, Leituras, Memória, Olhares

    A fúria do cinzento

    Nos anos 60/70, a dinâmica do parecer servia por vezes, principalmente em ambientes urbanos, para distinguir esquerda e direita. Alguns códigos do vestuário possuíam «marca de classe», ou então enunciavam condições de pertença cultural. A qualidade da roupa, mas também o seu padrão ou o uso de determinados acessórios – como o cachimbo, o isqueiro, o lenço, a pulseira ou a esferográfica – davam-lhe forma. Claro que existiam características excessivamente tipificadas, como algumas associadas a certos mitos sobre a higiene íntima, separando uma direita que podia ter a alma negra mas supostamente se perfumava de uma esquerda cheia de boas intenções para os destinos do mundo e que no entanto se presumia tresandar. Sem entrar em detalhes sórdidos, posso confirmar que por vezes a vida copiava a caricatura. (mais…)

      Apontamentos, Democracia, História, Olhares

      Talvez Natal

      Fotografia de Zofia
      Fotografia de Zofia

      Estamos em Dezembro e por isso na época em que se abusa do Natal, tantas vezes transformado, embrulhado em insuportáveis clichés, num tempo de hipocrisia ou de um insano consumismo. Atitudes que nada têm a ver com o sentido original do instante fundador do cristianismo e da sua mensagem de paz e humildade. Devem, todavia, evitar-se as generalizações, pois são muitas as almas, crentes ou nem por isso, que nas culturas de raiz fundacional cristã procuram observar a quadra demonstrando um genuíno cuidado para com o seu semelhante próximo ou distante. Para não falar das distantes paragens, ou dos ambientes menos observáveis à luz do dia, nos quais o momento muitas vezes serve o conforto dos fracos ou de minorias silenciadas e oprimidas.

      E no entanto muitos são os adeptos de um discurso autocensurado, «correto», que evitam pronunciar sequer a palavra «Natal», substituindo-a por eufemismos como «festas», «quadra» ou outros. Parece-me um processo de automutilação cultural. Sendo homem sem fé, nada me incomoda apresentar a outro, sobretudo se presumir ser alguém crente sincero de uma qualquer religião, ou que com ela conviva numa relação tranquila, os votos de um Bom Natal. Como, noutros momentos ou lugares, apresentaria os de Feliz Hanukkah, de Tranquila Hijra, de Óptima Joya Kane, de Próspero Losar, de Reconfortante Diwali. A assertividade das convicções não reside no policiamento da língua nem se alimenta da fuga ao real social. E o respeito pelo outro passa também pelas palavras que usamos para falar com ele.

      Feliz Natal, pois, para quem o viver ou desejar.

        Apontamentos, Democracia, Olhares

        Dos desconhecidos

        Fotografia de Kris K. G.

        «Sou uma escrava das palavras… Tenho uma absoluta fé nas palavras. Presto sempre atenção às palavras que os outros pronunciam, mesmo as dos desconhecidos. Principalmente as dos desconhecidos. Dos desconhecidos podemos sempre esperar ainda alguma coisa.»

        Do testemunho de Maria Voïtechonok, 57, em La Fin de l’Homme Rouge (Actes Sud, 2013), uma impressiva e plural coletânea de testemunhos sobre os anos finais da União Soviética e os tempos conturbados que se lhe seguiram, da autoria da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexievitch.

          Apontamentos, Olhares, Recortes

          Nos 90 anos de Soares

          Na história política do século XX português há as figuras, as figurinhas e os figurões. Das de segundo e terceiro tipo geralmente não reza a História. Chegam, tomam a palavra, e logo partem para ser esquecidas. De entre as primeiras existe, porém, uma linha da frente que perdurará para além das representações de natureza benévola ou negativa que sobre elas e a sua obra possam ser feitas: Afonso Costa, António O. Salazar, Álvaro Cunhal e Mário Soares. A característica comum aos quatro reside no facto de jamais alguém lhes ter sido ou permanecer indiferente. Todos carregaram e continuam a carregar paixões e ódios. E todos souberam, cada um à sua medida, mobilizar vontades e deixar lastro.

          Concorde-se ou não com ele, goste-se ou não das suas escolhas, apreciem-se apenas algumas (é o meu caso) ou todas as decisões que tomou, louve-se ou não o seu intenso hedonismo (deste, tão raro nos profissionais da política, eu gosto mesmo), Mário Soares, que perfaz hoje 90 anos de vida continuando nas bocas do mundo, está aí, felizmente, para mostrar a falta que fazem políticos com coragem e um selo próprio. Que saibam pôr no lugar as caixas de repetição e se tornem inesquecíveis. A vida das repúblicas, e em particular a das democracias, não pode depender apenas das personalidades fortes, raras e imprevisíveis, mas não se constrói sem elas. Sem elas desfalece de tédio.

            Apontamentos, Biografias, Democracia, Olhares

            Do jornalismo como missão

            Podemos sempre encontrar, num momento recuado das nossas vidas, a projeção de uma profissão a exercer naquele futuro distante ao qual chegaríamos invencíveis e adultos. Dessa fase dos destinos improváveis lembro-me apenas de querer imitar David Crockett, o explorador do Tennessee, insuperável no manejamento do rifle e na caça ao urso. Mas recordo também o desejo de um dia me tornar jornalista. Em parte por causa dos meus heróis da banda desenhada que o eram também, como Luís Euripo ou Tintim. Mas sobretudo devido à influência dos jornais com os quais apreendi a ler: o Diário de Notícias, do qual o meu avô era «agente e correspondente», e O Primeiro de Janeiro, que ele comprava aos domingos e lia de uma ponta à outra totalmente alheado das rotinas da casa. Imerso nas suas páginas sempre renovadas, na aparência infinitas, passei a associar o trabalho daqueles que os faziam a um imaginário de viagem que me atraía e a uma vida que julgava isenta de rotinas. (mais…)

              Atualidade, Jornalismo, Olhares, Opinião

              Não há um «leninismo amável»

              Juan Carlos Monedero

              Juan Carlos Monedero, politólogo da Universidade Complutense e número dois do Podemos, declarou em entrevista publicada recentemente pelo Jornal de Notícias que vivemos tempos «em que precisamos de um leninismo amável». Como parte de um estrito exercício de retórica política este conceito – parcialmente devedor de uma reatualização da «herança de Lenine» projetada à margem da sagrada cartilha do marxismo-leninismo saído dos anos trinta – pode ter algum impacto. Todavia, tanto no domínio da teoria como num plano mais estritamente prático, ele traduz sensivelmente o mesmo que falar de «islamismo ateu». É pois a expressão perfeita do oximoro. Monedero tem-se servido noutros lugares desse conceito, embora lhe dê um sentido amplo: define-o como o recurso transitório a um assumido populismo, e não à intervenção decisiva do partido de vanguarda previsto por Lenine, como forma de mobilizar a maioria dos cidadãos para desinstitucionalizar a ordem política vigente e lançar as bases de uma outra, inteiramente nova, direta, e por isso revolucionária e integralmente substituta. (mais…)

                Ensaio, Olhares, Opinião

                Dezasseis anos depois

                Uma das amigas do Facebook que não conheço apenas da persona que sugere o seu avatar, lembrou-se de como poucos dos muitos que visitaram a Expo-98 se recordarão hoje do que lá foram fazer. E de que ninguém com menos de 20 anos saberá sequer dizer que coisa foi o evento. Ocorreu-me entretanto que em 2006, para testar a velocidade do esquecimento dos meus alunos, perguntei num curso que acontecimento tivera lugar em Portugal no ano de 1998 que, projetado também numa dimensão internacional, pela positiva ou pela negativa suscitara a atenção da generalidade do país. Nenhum foi então capaz de referir a Expo, e só depois de eu ter revelado a resposta alguns se lembraram de a ter visitado. Embora já quase o tivessem esquecido. (mais…)

                  Apontamentos, Cidades, Devaneios, Olhares

                  O medo que nos tolhe

                  Os medos cuja origem sabemos identificar podem perturbar-nos e geralmente conseguem-no, mas transportam consigo o seu próprio antídoto. Conhecendo as suas causas, identificando o seu rosto, podemos então aprender a resistir-lhes, suavizando o seu embate ou, pelo menos, estabelecendo com eles um pacto de reconhecimento e alguns momentos de tréguas. No final dos anos 70, o historiador Jean Delumeau mostrou como é possível compreender a vida coletiva de um longo período do passado apenas pela observação do modo como aqueles que o habitaram souberam lidar com os seus temores, convivendo com eles mas fazendo por enfrentá-los. A opressão, a fome, a doença, os desastres naturais, a insegurança, a guerra, aterravam os humanos, mas geralmente tinham um rosto reconhecível, anunciavam a sua chegada e sabia-se como atuavam. Por isso podiam ser, se não enfrentados, pelo menos aceites.

                  Os piores medos, porém, não têm rosto. Aparecem associados a esse sentimento difuso, pouco claro, ambíguo e desarmante, que experimentamos sempre que somos confrontados com algo que não sabemos identificar, ver ou prever, reduzindo por isso a margem de manobra diante do perigo que se pressente. É esta espécie de medo que nos acompanha poderosamente por estes dias, quando somos forçados a conviver com uma imprevisibilidade que começa nas palavras e nos atos desencontrados daqueles que agora nos governam e que ousam falar em nosso nome. Como poderemos dormir descansados, como podemos não experimentar o medo, quando os primeiros a ameaçar-nos, a escalar as paredes das nossas casas e a entrar sem aviso são justamente aqueles que foram por nós eleitos para cuidar da nossa existência e gerir a paz das nossas noites? Já não os reconhecemos e por isso os tememos tanto.

                  Crónica publicada no Diário As Beiras

                    Apontamentos, Olhares, Opinião

                    Shakespeare e a tábua das emoções

                    shakespeare2

                    A contemporaneidade de William Shakespeare tem sido particularmente destacada na altura em que se evoca o 450º aniversário do seu nascimento. No início deste ano, em Berlim, um colóquio promovido pelo British Council que envolveu diversos especialistas teve justamente como pressuposto que dentro e fora do universo académico o seu legado «se mantém vivo sob múltiplos aspetos». Todavia a ideia não é nova, pois já em 1961 o encenador Jan Kott publicara em Varsóvia um livro, rapidamente traduzido em diversas línguas, sobre a força dessa ligação. Kott traçava ali uma série de analogias entre as situações dramáticas criadas pelo mais conhecido dos naturais de Stratford-upon-Avon e as cambiantes infernais da vida pública, duplamente subjugada ao impacto do nazismo e do estalinismo, presentes na Polónia do seu tempo. (mais…)

                      Ensaio, História, Leituras, Olhares

                      Carpe diem

                      Boa parte do que muitas pessoas de diferentes gerações, a minha incluída, aprenderam ao longo da vida, ficou a dever-se, pelo menos na génese, à leitura de revistas e jornais. Não apenas por causa dos acontecimentos noticiados ou de artigos sobre este ou aquele assunto, mas pela própria riqueza dos textos recolhidos. Muitos jornalistas, ou pessoas que colaboravam com as publicações, sabiam fazê-lo com mestria, suscitando sempre o conhecimento ou a curiosidade. Mesmo num pequeno apontamento, numa entrevista, num comentário, sabiam juntar sempre uma nota de saber que assim era transmitida e recolhida de uma forma natural, sem esforço e sem prejudicar a clareza, ajudando a alargar o universo de conhecimento e de interesses do leitor. Faz-nos muita falta agora – porque agora rara, muito rara – essa forma, simples mas eficaz, de passar o saber acumulado.

                      Lembro isto ao ler num jornal, a propósito da morte de Robin Williams, uma referência ao facto deste ter «celebrizado a expressão ‘carpe diem’». Referia-se a jornalista ao papel de Williams no filme O Clube dos Poetas Mortos, dirigido por Peter Weir e estreado em 1989. Só que o personagem John Keating, o inesquecível professor de literatura que tão bem sabia motivar os seus alunos, citava ali um verso retirado de uma ode de Horácio, o poeta romano do século I a.C., profusamente utilizado no trajeto intelectual do ocidente. Afinal, a ideia de aproveitar o dia, de fruir o momento que passa, não foi «celebrizada» por uma «celebridade», mas retirada de uma tradição com já mais de dois mil anos. Lá escrevia Horácio, «dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero». Como quem diz, traduzindo muito, muito livremente, «enquanto falamos, já terá fugido o invejoso tempo: colhe o dia que passa, confiando menos no de amanhã». As pobres «celebridades» voam depressa e desaparecem no horizonte; o conhecimento, esse fica.

                        Apontamentos, Cinema, Jornalismo, Olhares

                        Quem tem razão vs. Quem tem razão

                        O conflito israelo-palestiniano é talvez o tema de política internacional que maiores clivagens cria na opinião pública. Ao ponto de toldar pessoas habitualmente razoáveis ou de incompatibilizar outras que pouco antes partilhavam opiniões próximas sobre numerosos assuntos. E isto acontece há décadas. Pelo menos desde as rápidas mas brutais guerras dos Seis Dias (1967) e do Yom Kippur (1973), quando os mais duros dos duros militares israelitas, comandados no terreno por homens como Moshe Dayan ou Ariel Sharon, tomaram conta de Israel, ampliando a ocupação sionista do território da Palestina e deitando por terra qualquer possibilidade de um entendimento com a antiga OLP. A sua atitude de impiedade e conquista favoreceu, ao mesmo tempo, o crescimento de setores palestinianos radicalizados que excluíam qualquer acordo, presente ou futuro, com Tel Aviv. A partir dessa altura, a paz transformou-se numa miragem. E o sofrimento, sobretudo o dos mais fracos e desprotegidos, não mais parou, regressando periodicamente aos paroxismos de violência e assassinato em massa como aqueles a que estamos a assistir. (mais…)

                          Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                          Problemas à esquerda (2)

                          A primeira parte deste artigo pode ser encontrada aqui.

                          A crise do Bloco de Esquerda existe. Mas é bastante mais saudável dá-la como certa e funda, olhá-la de frente, do que fugir a debatê-la publicamente, fazendo de conta que é irrelevante e momentânea, resultado fortuito de desfigurações impostas pelos seus adversários políticos naturais ou de erradas escolhas pessoais nascidas no seu interior. Na verdade, a origem desta bem visível crise é complexa e prende-se com circunstâncias tão diferentes como a continuada ambivalência do projeto inicial do Bloco, uma prolongada indefinição programática e uma notória dificuldade de adaptação a alguns dos desafios impostos pelas transformações políticas e sociais despoletadas pela crise financeira de 2010. O pior que os seus dirigentes podem fazer – a si próprios e aos cidadãos que nele têm depositado uma parte das suas esperanças – é negar esta situação diante dos microfones, ensaiando uma fuga para a frente e apontando o dedo em riste a quem diverge. (mais…)

                            Democracia, Olhares, Opinião

                            Problemas à esquerda (1)

                            Naquele inverno de 1999-2000 participei em algumas das primeiras iniciativas do Bloco de Esquerda. Numa delas tive uma experiência singular: um almoço, entre duas sessões de trabalho, partilhado por largas dezenas de pessoas, ativistas de diversas origens, muitos deles a viver ali reencontros tantas vezes adiados, que durante a refeição se esforçaram visivelmente, algumas com aparente êxito, outras de maneira desajeitada, por contornar tudo aquilo que pudesse recordar as antigas desavenças e as clivagens um dia consideradas insanáveis. Sensivelmente as mesmas, vindas ainda das querelas dos anos 60 e 70, que durante décadas haviam azedado relações pessoais e políticas, fixando-se nas posições irredutíveis, presas a princípios e idiossincrasias mas quase sempre com zero em sentido prático, que tinham condenado a «esquerda da esquerda» à irrelevância. Agora, no entanto, tudo era possível: o luto da revolução falhada parecia feito e aquele tempo configurava-se como de viragem e superação, voltado para a criação de uma experiência realmente nova. (mais…)

                              Democracia, Olhares, Opinião

                              A Carta

                              Depois de dois textos sucessivos (aqui e aqui) escritos a propósito do desaire eleitoral do Bloco de Esquerda, escolhi mudar de agulha. Afinal, tudo o mais que pudesse escrever sobre o tema parecia-me uma reiteração do que já tinha escrito, produzida no desconhecimento do que pudesse estar a acontecer num debate interno forçosamente intenso. Poderia além disso mostrar-me injusto ou precipitado, coisa que desde a primeira hora escolhi evitar sempre que falo do Bloco. Todavia os acontecimentos acabaram por sobrepor-se a essa lógica de contenção e, perante a «Carta às esquerdas», assinada pelos dois coordenadores do BE e tornada pública no último domingo, concluí que algumas escolhas, a meu ver insuficientes e infelizes, foram já projetadas para o exterior, sugerindo uma lógica de continuidade, repleta de maus augúrios, que se faz à revelia de muitos dos potenciais eleitores e condicionará qualquer tentativa de inflexão. Por isso retorno ao tema. (mais…)

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                                Dizer não

                                Reprodução parcial da crónica «El que dice no», de An­to­nio Mu­ñoz Mo­li­na, publicada na Babelia de 17 de Maio de 2014.

                                Há uma beleza própria no gesto daquele que diz não, com calma e firmeza, por vezes com fúria, ou que diz não ao inimigo ou ao déspota que deseja subjugá-lo. E também no que diz não aos que esperavam e confiavam em que dissesse sim, aos próximos, aos seus, aos que se sentirão magoados, quando não traídos, pela sua inesperada negativa. Aos que, talvez depois de o haverem nomeado filho dileto, decidem rebaixá-lo a filho pródigo. Há um não heroico que conduz com toda a certeza ao cativeiro e à morte, e esse é um não que não pode exigir-se a ninguém, porque ninguém está em condições de exigir o que não sabe se ele próprio faria, ainda que existam seres humanos suficientemente mesquinhos para julgar com dureza aqueles que sofreram muito mais que eles. (mais…)

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                                  O não-ficcionista

                                  Em «Dificultad de la Ficción», um artigo publicado há alguns meses no diário El País, Antonio Muñoz Molina, andaluz de Jaén e autor de romances notáveis como O Inverno em Lisboa, Beltenebros e A Noite dos Tempos, também ensaísta de mérito e cronista obstinado, lembrou a dada altura, ao falar do exercício da sua principal arte, aquilo que poderá parecer óbvio: «O romancista é livre: ele próprio determina a mistura de ingredientes reais e inventados que dão corpo à sua matéria narrativa. Mentir é a sua forma de chegar a uma certa verdade.» (mais…)

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                                    O tamanho de uma cidade

                                    Gosto muito de biografias de cidades. Sempre que encontro alguma e me parecem seguros a competência da escrita e o certeza da informação – mesmo quando esta incorpora, e isso acontece quase sempre, uma dimensão ficcionada –, não descanso até a ler. Só nos últimos anos, recordo a leitura compulsiva de obras que traçam o percurso histórico de algumas delas, distribuídas por diferentes mapas, como Istambul (Orham Pamuk), Salónica (Mark Mazower), Jerusalém (Simon Montefiore), Praga (John Banville), Rio de Janeiro (Ruy Castro), Paris (Julien Green), Nova Iorque (Patrick McGrath) ou Odessa (Charles King). De cada uma, no correr das páginas, emergiu sempre um corpo vivo, dinâmico, capaz de ultrapassar a transitoriedade dos percursos pessoais ou das gerações associados ao emaranhado das ruas e ruelas, das casas, das praças ou dos seus lugares mais recônditos. (mais…)

                                      Atualidade, Cidades, Coimbra, Olhares