Arquivo de Categorias: História

Portugal numa biografia

Jorge Sampaio

Num tempo em que os rostos mais ativos e reconhecidos da coisa pública, em particular aqueles que integram os partidos do chamado arco da governação, pertencem já a uma geração que cresceu e se formou politicamente em democracia – não tendo vivido o risco da perseguição pessoal ou da privação da liberdade devido às suas opiniões ou escolhas políticas – é bom ter à mão uma obra como esta biografia de Jorge Sampaio, da autoria do jornalista José Pedro Castanheira. O primeiro grossíssimo volume, dos dois previstos, foi lançado em novembro passado. A justificação mais imediata do seu interesse, associada a esse défice geracional de memória, não é difícil de determinar: ecoa aqui o percurso pessoal e político de um homem independente, embora sempre alinhado à esquerda, iniciado numa altura, a da fase final do Estado Novo, na qual adotar essa escolha política requeria coragem, e prosseguido depois num tempo, imediatamente posterior à instauração do novo regime em 25 de Abril, em que a instabilidade da governação e a difícil aprendizagem da democracia exigiam uma entrega muito grande, permanente, a quem se envolvesse na luta partidária e no funcionamento das novas instituições. (mais…)

    Biografias, História, Memória

    A outra China

    Ao lado dos campos de batalha das duas Guerras Mundiais e das campanhas de extermínio levadas a cabo pelos grandes regimes totalitários, as principais mortandades do século passado já não foram determinadas por epidemias, como acontecera recorrentemente em tempos mais recuados, mas antes pela fome. O mais doloroso e inaceitável é que elas ocorreram como consequência de uma política consciente e deliberada de governos que teriam, supostamente, a obrigação de prevenir, ou no mínimo de reduzir, o seu impacto. Estima-se que o Holodomor, a fome de caráter genocidário, hoje já bem conhecida nas circunstâncias e nos números, que devastou a Ucrânia em 1932-1933, enquanto em Moscovo se proclamavam as «vitórias», quase todas fictícias, do 1º Plano Quinquenal, de acordo com as estimativas menos pessimistas terá feito entre 5 e 6 milhões de vítimas. Nada de comparável, porém, à Grande Fome, que na China sobreveio entre 1958 e 1962, durante a qual o número de pessoas mortas devido aos seus efeitos terá muito provavelmente rondado os 45 milhões. (mais…)

      História, Memória

      A vida de Ricardo

      Antes ainda de ser vertida para o inglês, Ryszard Kapuściński: A Life, a biografia do jornalista e escritor polaco nascido Pinsk, na Bielorrússia, em 1932, e falecido em Varsóvia no ano de 2007, escrita por Artur Domosławski, seu antigo colaborador e também jornalista, tinha já algum impacto mundial. Não é difícil perceber os motivos desse rápido eco. Ryszard Kapuściński foi um jornalista experiente e respeitado, conhecido por ter entrevistado centenas de atores políticos de primeira linha e calcorreado este mundo e o outro. Traduzido em muitas línguas sempre com apreciáveis tiragens, tinha e conserva a reputação de homem corajoso, aventureiro, sedutor e inteligente, e que ainda por cima escrevia muito, muito bem, de uma forma literária, assumidamente poética, rara no seu meio profissional. Mas do qual, talvez devido à nacionalidade e à língua periféricas, bem como aos longos anos de relativa discrição, pouco se sabia. Por isso, poder saber-se mais, e logo num grosso volume atulhado de episódios e de revelações, transformou-se rapidamente em fator de interesse. (mais…)

        Biografias, História, Memória

        Kapuściński e o socialismo

        Quase a concluir a leitura da biografia do jornalista e escritor polaco Ryszard Kapuściński (1932-2007), da autoria do também jornalista e seu antigo colaborador Artur Domosławski. Um livro que justifica um post autónomo, dados os problemas que expõe, as informações que faculta, as dúvidas que levanta sobre as duas faces, a mais conhecida e a obscura, de uma das mais importantes, e das mais eloquentes, testemunhas da evolução do mundo na segunda metade do século XX. O que hoje aqui fica é apenas um extrato de um texto escrito por Kapuściński quando, após longos anos de trabalho como correspondente da imprensa polaca na América Latina, regressou ao seu país. Na Polónia vivia-se na altura a fase de transição que mais tarde determinaria o fim do regime «socialista», e Kapuściński, velho militante comunista mas homem que conhecia muito bem outras realidades, questiona-se nele sobre a diferença entre o idealismo e a entrega dos combatentes socialistas que conhecera na América Latina, e o panorama de laxismo e ausência de convicção com as quais deparava agora no seu próprio país:

        «Ali: Devido à sua crença no socialismo, os jovens idealistas acabam muitas vezes na prisão, são torturados, são forçados a organizar-se na selva, e são por via de regra ignorados por aqueles que deveriam ser até os destinatários da sua luta. Aqui: Devido à sua crença no socialismo, os jovens carreiristas são os primeiros a conseguir um andar, um carro ou um lugar numa estância de férias. Ali: grandes ideais, o ruído metálico das espingardas; aqui: dinheiro fácil, viver indolentemente a ver televisão, passar a vida em bailes. Ali: rebelião, inconformismo, adrenalina; aqui: sorrisos falsos, mostrando apenas as caras que as autoridades querem ver. Se ali é o socialismo, aqui será o socialismo também?»

          Apontamentos, História, Olhares

          De um Portugal português

          Enquanto este blogue respira uns dias para ganhar outro balanço, aqui vai um post publicado há um pouco mais de quatro anos. Talvez não esteja muito desatualizado.

          Portugal Anos 50Numa tarde destas, enquanto me esforçava uma vez mais por dar algum sentido aos livros acumulados sem grande nexo, reencontrei um conjunto de postais reproduzindo fotografias de Gérard Castello Lopes tiradas ao Portugal dos anos 50. Foram editadas em 1999 na companhia de pequenos textos de dois Antónios. «Outros tempos, outros lugares», sublinhava um deles, o Tabucchi, na contracapa. O outro, o Barreto, falava de um país passado que Castello Lopes revirou e nos ofereceu contrariando uma quase crónica escassez de imagens. Mas será realmente assim? Estaremos a olhar aqui para um país inteiramente outro, mergulhado num sono coletivo e prolongado do qual só na década de 1960 teria sido possível despertar? Revejo as imagens e encontro em quase todas elas vestígios de um Portugal que me parece o de sempre, diverso daquele que hoje habitamos mas nem por isso imóvel, nem por isso falho do movimento que é parte da memória comum. Na qual continua a apoiar-se aquilo que nos aproxima, ajudando a desenhar a comunidade que imaginamos. (mais…)

            Atualidade, Fotografia, História, Memória

            O lado negro de Walt Disney

            Durante décadas, para milhões de pessoas de diferentes gerações a vida de Walt Disney foi uma história cor-de-rosa editada em capa de seda. Como se o paraíso de sonhos materializado nos vários parques temáticos da Disneylândia fosse uma extensão da personalidade dessa figura supostamente idealista, amável e criativa, impecavelmente penteada e de bigode aparado, plena de autoconfiança, que povoou as fantasias de tantas crianças dos dois hemisférios. No entanto, essa vida encantadora foi em larga medida ilusória, construída e alimentada pelo próprio e pela indústria que fundou, uma vez que a sua biografia verdadeira é bastante menos transparente, claramente menos heroica e está demasiado povoada de nódoas. Não que tal facto seja novidade para quem conheça o seu trajeto para além das linhas mais essenciais da lenda, mas a evocação do Rato Mickey e do Pato Donald, de Dumbo, Bambi e Peter Pan, da Cinderella e de Mary Poppins, ou de tantos heróis aventureiros em versão «para todas as idades», continua a ofuscar um público sedento de fantasia, humor e finais felizes que vê em Disney um seu mentor. (mais…)

              Artes, Cinema, História, Olhares

              Uma outra Segunda Guerra Mundial

              Antony Beevor
              Antony Beevor

              O coreano Yang Kyoungjong saiu do esquecimento durante o trabalho de arquivo. Tratava-se de um pobre homem de origem rural, recrutado à força sucessivamente pelo Exército Imperial Japonês, pelo Exército Vermelho e pela Wehrmacht, que foi feito prisioneiro pelos americanos na Normandia em junho de 1944. O seu trágico destino, com toda a probabilidade partilhado com muitos outros, funciona como um bom indicador da primeira intenção de Antony Beevor ao propor-se escrever aquela que poderia ter sido apenas mais uma entre centenas de sínteses sobre o conflito que identificou como «o maior desastre da História produzido pelo próprio homem». Neste A Segunda Guerra Mundial, editado já em 2012, Beevor procurou de facto ultrapassar os relatos que a espartilham com base numa separação rigorosa dos diferentes espaços envolvidos – a Europa a leste dos Pirinéus, o norte de África até à Abissínia, a imensa região do Pacífico, o Extremo-Oriente –, contornando o ponto de vista eurocêntrico e estabelecendo uma linha de continuidade entre as campanhas ocorridas nos múltiplos teatros de operações. Aliás, não é por casualidade que, como numa viagem de circum-navegação, o relato começa em agosto de 1939, com a vitória dos soviéticos sobre os japoneses em Khalkin-Gol, entre a Mongólia e a Manchúria, e encerra seis anos mais tarde, em agosto de 1945, precisamente na mesma região, com a invasão do norte da China pelo Exército Vermelho. (mais…)

                Democracia, História

                Memória da esquerda da esquerda

                Mao e o Lótus Azul
                Mao e o Lótus Azul

                Nos últimos anos tem vindo a crescer o  volume de estudos e de testemunhos de caráter autobiográfico sobre os trajetos da «extrema-esquerda» em Portugal nos tempos que precederam ou se seguiram à Revolução dos Cravos. Esta tendência tem ajudado a superar dois equívocos que durante algum tempo integraram a «lenda» pública construída a propósito desse setor da oposição ao antigo regime. Um deles, talvez o mais conhecido, é o proposto de um modo quase sempre ligeiro e sensacionalista por alguma comunicação social, mais interessada em explorar os «pecadilhos» juvenis desta ou daquela figura pública cujo trajeto de vida passou por ali do que em compreender historicamente o seu compromisso. O outro, mais profundo, assenta na perspetiva divulgada pelos setores que os militantes dessa área consideravam então reformistas, ou «revisionistas», e que ainda hoje não convivem bem com o facto de, apesar da sua «doença infantil» (seguindo o diagnóstico de Lenine) ou do seu «radicalismo pequeno-burguês», as organizações «esquerdistas» terem crescido e protagonizado sob o marcelismo importantes lutas contra o regime e a Guerra Colonial. Desempenhando também, apesar de confinadas aos meios estudantis e intelectuais, e ainda a estreitas franjas da juventude operária, um manifesto papel de catalisador no teatro político do imediato pós-25 de Abril. (mais…)

                  Biografias, História, Memória

                  Mudança em Israel?

                  Existe um equívoco, partilhado por muitas pessoas que têm o cuidado de separar o antissemitismo do antissionismo, fundado na ideia errada de acordo com a qual o sionismo foi e é, da base ao topo, sempre agressivo, expansionista e basicamente de direita. Como se sabe, a explicação mais simples aponta o antissemitismo como preconceito ou hostilidade contra os judeus, fundado no ódio contra a sua identidade histórica, étnica, cultural e religiosa. Esta é uma tendência que uma grande parte da esquerda sempre recusou ou continua a recusar, ainda que, na prática, a sua vertente mais dogmática com ela tenha pactuado ou continue muitas vezes a pactuar. Por sua vez, o antissionismo prevê uma oposição frontal ao direito do povo judeu à autodeterminação e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano. Simplificando: um grande número de bons cidadãos e de consciências democráticas admite que os judeus não devem ser perseguidos pelo facto de o serem, mas, sendo-o e vivendo no único estado judaico existente, devem tratar de empacotar os haveres e tornar à errância, devolvendo a integralidade do território àqueles, palestinianos principalmente, que dele foram espoliados quando do processo que conduziu à independência e depois, pela via da guerra e dos colonatos, à expansão territorial de Israel. O antissionismo alimenta assim o antissemitismo. (mais…)

                    Atualidade, História, Olhares, Opinião

                    A História e as escolhas de Israel

                    Tony Judt

                    Quem se interessa um pouco pela história recente, ou por aquela que com esta se relaciona, conhecerá provavelmente, pelo menos de ler alguns comentários a propósito do tema, as teses revisionistas, inevitavelmente polémicas, do historiador Shlomo Sand, um descendente de judeus polacos sobreviventes de Auschwitz que é, entre outros empregos académicos, professor na Universidade de Tel Aviv. O seu Como o Povo Judeu foi inventado, acaba de ser publicado em Portugal, numa edição da Figueirinhas, e traz-nos de volta ao essencial da tese que defendeu e o título desta obra limpidamente revela. Sand procura aí provar que o povo judeu jamais existiu como «raça-nação» com uma origem comum, resultando antes de uma mistura de grupos muito diferentes que, em diversos momentos da história foram aderindo à religião judaica. O que, a ser aceite, pode reduzir parte da legitimidade histórica que fundamenta a existência de Israel. Por vezes o seu trabalho – discutível, sem dúvida, mas não negligenciável – tem sido aproximado daquele produzido pelos «historiadores» que desenvolveram teorias negacionistas a respeito do Holocausto, considerando-o essencialmente uma «invenção dos judeus», mas essa é uma ideia de modo algum partilhada por Sand. (mais…)

                      Atualidade, Democracia, História

                      Ainda Hobsbawm

                      Eric Hobsbawm

                      O desaparecimento no passado outubro do historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) teve uma repercussão mediática à escala do impacto do seu trabalho. O longo e ativo trajeto profissional contribuiu em larga medida para o quinhão de reconhecimento que determinou esse eco, mas o que ampliou o reconhecimento público que obteve foi principalmente o facto de, como poucos na sua área, ter contribuído para levar o interesse pela dimensão explicativa da História até um conjunto amplo de colegas de outras áreas de saber, de estudantes de diferentes gerações e de leitores ávidos, que sem a sua ajuda mais dificilmente teriam voltado para aí os seus horizontes. Conseguiu-o através de dois aspetos particulares do seu trabalho: o primeiro foi a multiplicidade dos temas pelos quais se interessou, trazendo para a academia, sem descuidar outros mais canónicos, assuntos até então proscritos, como o papel criador dos bandidos e dos rebeldes, a vida verdadeira «dos de baixo», a formação do universo do jazz, o retorno dos nacionalismos ou os modos de «invenção da tradição»; o segundo aspeto prende-se com o facto de, em A Era dos Extremos, uma das obras mais lidas e recomendadas sobre a história humana recente, ter defrontado as cronologias tradicionais definindo um «breve século XX» balizado, entre 1917 e 1991, pelo impacto mundial da Revolução Soviética, do seu apogeu, estabilização e queda. Ao mesmo tempo, a elevada qualidade da sua capacidade narrativa permitiu-lhe ir conquistando para o território do conhecimento histórico um público não-especializado, motivado acima de tudo pelo prazer da leitura. (mais…)

                        Biografias, História

                        O ódio

                        Fragmento de uma das novelas-testemunho mais terríveis que alguma vez li: O Tchekista, de Vladimir Zazúbrin, editado pela Antígona com tradução de António Pescada. O livro, depois de cortado e emendado por imposições do censor, foi originalmente publicado em 1923. Acompanhado de um prefácio saído da pena de um tal Valerian Pravdúkhin, no qual se declarava que a obra «ajudará os verdadeiros revolucionários a cauterizarem definitivamente em si mesmo os “espinhos” herdados do passado histórico, para se tornarem intrépidos engenheiros da transformação inevitável do seu ser». Enquanto «os pequenos-burgueses se assustarão» inevitavelmente «diante deste desenho de traços carregados», pois «não foi para eles que a revolução abriu as suas amplas estradas verdes para os longes radiosos, para o oceano da sociedade sem classes». Zazúbrin, nasceu em Pensa, a sudeste de Moscovo, no ano de 1895, ajudou a preparar a revolução bolchevique, foi o primeiro presidente da União Siberiana de Escritores e, apesar dos elogios que no início da carreira literária o próprio Lenine lhe fizera como escritor «de um novo tipo», terminou fuzilado em 6 de Dezembro de 1938, no auge do Grande Terror estalinista.

                          Apontamentos, Democracia, História

                          A capital e o país nos anos 60

                          A historiografia que se ocupa da fase final do Estado Novo tem enfatizado, entre as condições que conduziram à queda do regime, os fatores políticos, militares, diplomáticos, económicos e sociológicos que foram limitando a sua capacidade para se renovar ou mesmo para se manter de pé. Tem sido destacado, com toda a justeza, o papel das oposições organizadas na construção do espaço de resistência e favorável à sublevação que tornou possível, ou inevitável, o 25 de Abril. O que raras vezes tem sido mostrado é que essa dinâmica de mudança teve uma outra componente, ao mesmo tempo subterrânea e aparatosa, traduzida na importação de valores e de hábitos internacionais, já em curso nos países industrializados, na afirmação da uma nova cultura juvenil e na introdução de práticas de consumo capazes de abalar a fortaleza política e moral que, desde a sua já distante génese, o salazarismo e a propaganda do regime tinha procurado defender e apresentar como modelar. (mais…)

                            História, Memória, Olhares

                            Reabilitar Orwell sacudindo-lhe o pó

                            Christopher Hitchens
                            Hitchens sobre Orwell

                            Mais de setenta anos após a sua morte, o percurso pessoal, político e intelectual de George Orwell permanece objeto de um escrutínio atravessado ao mesmo tempo pelo aplauso e pelo ódio. No entanto, se o primeiro, associado à sua denúncia militante da desigualdade social, do imperialismo e do totalitarismo como os males capitais do seu tempo, encontrou sempre momentos de reconhecimento público e outros nos quais pareceu confinado apenas a uns quantos admiradores, o segundo estabeleceu-se como uma constante, com uma intensidade que parece até, apesar dos múltiplos esforços de impugnação, ter-se inflamado mais após a morte do escritor. Aquilo que Christopher Hitchens (1949-2011) se propôs fazer neste A vitória de Orwell, escrito há já cerca de uma década mas tão brilhante que resistiu a esta frágil tradução portuguesa, foi olhar para a avalanche de rancor e, de forma sustentada e sagaz, desmontar os mais insistentes argumentos adversos ao escritor, desancando alguns dos seus intérpretes. O que não é de admirar vindo de quem, como aconteceu com Hitchens, foi objeto de comparáveis vilipêndios e incompreensões. (mais…)

                              Biografias, Democracia, História

                              Admirável mundo velho

                              Num comentário a esta imagem:«Saudades de uma linha reta!»
                              Num comentário a esta imagem:
                              «Que saudades de uma linha reta!»

                              A palavra Ostalgie emergiu há alguns anos, na Alemanha, como expressão de uma tendência para reavaliação benévola do passado da antiga República Democrática Alemã. Esta «nostalgia do leste» surgiu, de início, como expressão da dificuldade de alguns setores sociais, particularmente os ligados às gerações mais velhas de «alemães de Leste», para lidarem com as transformações da sua vida pessoal e da sua História coletiva. Mas rapidamente expandiu a sua influência, absorvendo grupos descontentes com a realidade e as desigualdades do capitalismo, chegado de rompante e deixado à solta depois de 1989, ou então incapazes de se adaptarem a novos estilos de vida e a diferentes processos de trabalho. Enquanto os mais velhos passaram a exprimir nostalgia por um passado, o da sua idealizada juventude, no qual, apesar da ausência de liberdade e da penúria generalizada, tinham vivido uma certa experiência de segurança no emprego e de igualdade formal no quotidiano, muitos dos mais jovens começaram antes a idealizar um passado que não viveram, olhando-o como expressão do paraíso perdido ao qual seria bom poder alguma vez regressar. (mais…)

                                Atualidade, Cibercultura, História

                                Distopia 1838

                                No Dictionnaire des Lieux Imaginaires, Alberto Manguel recorre a uma fábula de Edgar Allan Poe publicada em 1838 para descrever a terra do Silêncio terrível e atraente, naturalmente ficcionada mas nem por isso menos temível. Muito longe ainda dos devaneios ecologistas que no Ocidente despontarão bastante mais tarde, exprime-se aqui, em plena era da afirmação do capitalismo industrial, a sensação do carácter aflitivo, constrangedor, de uma natureza estagnada. A felicidade que muitos concebiam ancorava então no triunfo da máquina, no convívio com o fumo negro das enormes chaminés, no contacto diário com o ruído e a limalha de ferro. Apesar do empolgamento de alguns românticos com a nostalgia da natureza, nada parecia mais estranho, medonho, demoníaco, do que um mundo completamente mudo e paralisado.

                                SILÊNCIO. Região da Líbia, delimitada pelo rio Zaire, cujas águas, amarelentas e insalubres, jamais atingem o mar, palpitando eternamente sob o Sol, numa efervescência convulsiva. Ao longo de quilómetros o leito do rio encontra-se juncado de gigantescos nenúfares. A região sufoca debaixo de uma floresta maléfica e sombria, com flores envenenadas e uma vegetação rasteira perpetuamente agitada, apesar da ausência de vento. Na margem do rio existe um grande rochedo cinzento no qual um conjunto de caracteres gravados forma a palavra Desolação. Todo o país vive debaixo da maldição do silêncio. A lua permanece imóvel e relâmpago algum perturba o céu, no qual as nuvens permanecem sem trânsito algum. Experimenta-se ali a angustiante sensação de vivermos atacados pela surdez e reduzidos a um total mutismo.

                                  Devaneios, História, Olhares

                                  A noite berlinense

                                  Sob a pressão dos muitos milhares de manifestantes da antiga RDA que exigiam nas ruas e praças do país democracia, liberdade e pares de jeans, o Muro de Berlim caiu na noite de 9 de novembro de 1989. O episódio representa, a par das passadas de Neil Armstrong na Lua e do derrube das Torres Gémeas, um dos três acontecimentos a que assisti e de que tenho memória nos quais tive a imediata perceção de viver em direto um «momento histórico». A Queda do Muro teve aliás um impacto brutal em quem, por essa época, tinha passado alguns anos no clima pantanoso e sombrio da Guerra Fria. No que me diz respeito, a intervenção da propaganda – associada a um visionamento talvez demasiado precoce de Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcok – levara-me em criança a imaginar que a Cortina de Ferro era mesmo uma pesada rede metálica, eletrificada, impenetrável e letal, separando para sempre o Bem do Mal em dois mundos antagónicos. E ainda em 1975, no contacto breve mantido por motivos fortuitos com dois cidadãos soviéticos, tive a estranha sensação de lidar na Quinta Dimensão com uma parelha de perigosos alienígenas. Mais do que uma alteração do equilíbrio do mundo, da qual continuamos a sofrer as fortes e imprevisíveis ondas de choque, foi pois uma mudança radical na perceção que então era possível ter desse mundo que a Queda do Muro começou por impor. E é principalmente a memória desse espanto de ver a vida toda a mudar em poucas horas que permanece em quem passou, incrédulo e sem conseguir dormir, essa intensa noite berlinense pregado ao televisor. Foi há 23 anos.

                                    Acontecimentos, Democracia, História, Memória

                                    Alemanha’45. Coreografia da queda

                                    O trabalho do britânico Ian Kershaw tem sido ocupado principalmente com a história alemã do Terceiro Reich e o trajeto pessoal e político de Adolf Hitler. Em Até ao Fim aborda os últimos dez meses da existência do regime nazi, aqueles que vão da tentativa de assassinato do Führer, em 20 de julho de 1944, até à rendição do regime, ocorrida em maio do ano seguinte. Fá-lo procurando obter uma resposta para uma pergunta posta logo no início do livro: o que terá feito com que a Alemanha, cuja derrota já então se mostrava inevitável, optasse por combater até ao fim? Afinal, mesmo nas guerras mais mortíferas do passado, sempre ocorrera um momento no qual os comandantes vencidos reconheciam a derrota e chegavam a um compromisso com os vencedores, na tentativa de evitar males maiores ou de salvar a própria pele. Todavia, com a Alemanha de Hitler nada disto aconteceu, tendo o território germânico de ser conquistado aldeia a aldeia, rua a rua, cidade a cidade, numa espiral de violência que fez com que na classificação macabra das baixas civis e militares da Segunda Guerra Mundial os alemães tenham ficado num macabro segundo lugar, logo após os soviéticos. A larga maioria das vítimas, incluindo cerca de metade dos soldados alemães mortos na guerra, pereceu no entanto, justamente, nesses derradeiros meses, sobretudo como consequência dos bombardeamentos maciços dos Aliados e do avassalador avanço do Exército Vermelho. (mais…)

                                      História, Memória