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Pecado e remissão

De acordo com o cada vez mais inimitável diário i, João Paulo Borges Coelho, romancista e historiador, vencedor do Prémio Leya 2009 com O Olho de Hertzog, nasceu no Porto mas «confessa que optou por ser moçambicano». Vamos perdoar-lhe o pecado? Se confessa, por mim está perdoado.

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    Bibliocandonga

    Los libros

    «Doce soles», dijo. /«Diez». / «No sea codicioso. Es nuevo. Me há legado hoy». / «Yo sé que es nuevo», dije. «Lo escribí yo».

    Por escrever isto, alguns amigos desejarão comer-me vivo, assado no forno, depois de convenientemente estripado, cortado aos pedaços e deixado a marinar em vinho, vinagre e louro. No mínimo, quererão denunciar-me à polícia. Mas não posso deixar de simpatizar com uma prática relatada sábado passado numa página do El País. Em «La vida entre los piratas», o escritor peruano Daniel Alarcón fala-nos de uma realidade do seu país que pode vir a ecoar pelo planeta: no Perú, o mundo dos livros copiados movimenta já mais dinheiro do que o das obras legalmente produzidas. Mas isso não parece ser necessariamente um mal: há gosto pela leitura mas pouco dinheiro para comprar livros e os leitores recorrem à contrafacção – não falamos de fotocópias, mas sim de cópias quase perfeitas dos originais –, existindo já autores que não se importam de que tal aconteça. Uma vez que ganham pouco ou nada com o seu trabalho, preferem acima de tudo que os leiam. Sei que esta prática da bibliocandonga terá alguns inconvenientes, mas desconfio que, a generalizar-se, poderá produzir algumas situações interessantes. A baixa dos preços de capa, por exemplo, com menores custos com o trabalho das tipografias, ou um maior respeito das cadeias de livrarias e das empresas de distribuição por autores e pequenos e médios editores, ou o natural alargamento do número de pessoas que compram livros. Um cenário de utopia erguido sobre um campo de batalha, com sirenes, fugas pelos telhados e ruas esconsas pelo meio. Alguém quererá experimentar?

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      Fantasia reaccionária

      Os bons velhos tempos

      Desde que em 2006 entrou em vigor em Espanha a legislação destinada a reprimir o ancestral hábito de fumar, diminuiu o consumo do tabaco mas cresceu o número de fumadores. Em 2009, 31,5% dos nuestros hermanos afirmou fumar, no mínimo, de forma moderada, quando três anos antes a percentagem era de 29,5%. A diferença seria insignificante se não derrotasse os objectivos «profilácticos» da lei e não servisse agora de justificação para impor regras ainda mais severas e restritivas. A verdade é que ao longo destes anos elas se mantiveram razoavelmente suaves e de aplicação bem mais flexível do que aconteceu em Portugal, como qualquer cidadão pode constatar, entre três passas e outras tantas baforadas, de cada vez que cruze a linha de fronteira e avance até à distância de um tiro de bacamarte. Porém, se tudo for agora uniformizado pelo diapasão do antitabagismo furioso, deixaremos de distinguir o «mau vento» que a nicotina insinua e sofrerá rude golpe a castiça defesa da identidade dos nossos ares. Sejamos claros: lá no fundo, os defensores espanhóis de uma lei mais severa são iberistas disfarçados ou então ressabiados de 1640. Por isso, se os de Madrid aprovarem as suas normas mais limitativas, apenas nos restará, em nome da pátria dos Pereiras, dos Albuquerques, dos Mouzinhos e dos Coutinhos, um voluntarioso regresso ao uso liberal do Provisórios e do Três Vintes.

        Apontamentos, Devaneios, Memória

        Página virada

        Ao contrário daquilo que aconteceu há dez anos, ninguém parece agora preocupar-se muito com o facto de a segunda década do século XXI se estrear esta noite. Entretanto alguma coisa mudou neste país, mas nem sempre a mudança foi para melhor. Um dado parece certo: a maioria das pessoas compreendeu já que o cômputo dos anos – como os conta-quilómetros, os cronómetros, os taxímetros, os termómetros ou os meses dos bebés – parte realmente do zero e não do um. É um progresso, e nele alguma quota-parte terá, há que reconhecê-lo, o resplendor de modernidade high-tech insuflado pela maioria absoluta dos últimos anos.

        A passagem do ano trará consigo novas conquistas sociais imediatamente perceptíveis, como a entrada em funcionamento em Setúbal de milícias populares compostas por maiores de 65 anos pagos a 2,60 euros à hora e destinadas a perseguir os grafiteiros, ou a espectacular extensão do limite máximo para o uso do Cartão Jovem, que é transferido dos 25 para os 30 anos e «passará inclusive pela mudança do antigo logótipo para um novo». Mas é de temer que os mal-intencionados e os derrotistas atribuam fraca importância a tais medidas, preferindo insistir em temas negativos, como a corrupção, o desemprego ou a redução real dos direitos dos trabalhadores. Para estes e para outros, pessoas positivas, combativas ou cépticas que por aqui passam – aos indiferentes nada desejo, respeitando a sua indiferença –, os votos autênticos de um feliz 2010. E, se possível, sem a fantasia de antecipar desde já um duplo plano quinquenal, a vontade sentida de uma segunda década melhor do que esta. Para todos.

          Atualidade, Devaneios

          Ontem não morri

          Então a minha versão do terramoto de ontem é esta. Já ouviram com toda a certeza falar de casos, mais ou menos macabros – e não são mitos urbanos -, de pessoas que iam a atravessar uma passagem de nível a ouvirem a sua musiqueta no iPod quando repararam, tarde de mais, que um comboio lhes havia passado por cima, trucidando-lhes o físico e despachando-lhes o espírito, completo e sem espinhas, para a banda de lá. Ora eu ontem, pelas 01H37, estava despertíssimo e activo, e não dei pelo sismo – não dei mesmo – pois seguia noite fora a ouvir música de auscultadores nos ouvidos. Bem se mexeu este mundo e o outro que não dei por nada. Mas se tivesse morrido seria uma bela morte: o meu corpo entre ruínas, um cão vadio como testemunha do último estertor, chorado pelos entes queridos e com direito a obituário no Diário de Coimbra e na blogosfera. E a minha alma perfumada, enfim livre, a caminho do céu (suponho), ao som do João Sebastião, de vozes celestiais, de trompetes, de oboés e de atabales. Não hei-de ter tal sorte quando chegar a minha vez.

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            Nada é sagrado

            Jizaz

            Fiquei um pouco confuso quando soube pelos jornais que o Sport Lisboa e Benfica tinha contratado um avançado chamado Alan Kardec (de Souza Pereira Junior). Como o FC Porto possui um Hulk, pensei que se tratasse de preparar o confronto final entre a energia espírita e a força bruta. Mas soube agora que o Kardec futebolista, filho de Kardec e neto de um Pereira que era seguidor das teorias sobre mesas giratórias de Allan Kardec (pseudónimo de Monsieur Hippolyte Léon Denizard Rivail), se autoproclama agnóstico. A crise da modernidade tirou o mundo dos eixos – alguns dizem «do sério» – e deu-nos cabo das referências.

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              Falsas partidas

              O tempo passa passa

              A aceleração do tempo ateia o esquecimento. Mesmo sem o desejarmos, acabamos então por dar como perdidos alguns dos rostos que foram ficando para trás, no lado mais frágil da nossa memória. Julgamo-los apagados quando pensamos que tudo aconteceu há tantos anos, com pessoas que acreditávamos serem já tão antigas, que só poderiam mesmo morar agora nesse Império do Nenhures do qual não existe retorno. Foi pois com espanto, e medo de me estar a confrontar com alguma fraqueza do entendimento, que num número recente da revista Manière de voir dedicado à «emancipação na história» dei de caras com os rostos e as vozes de dois homens que faziam as capas dos jornais quando eu ainda me interessava mais pela lenda do Joãozinho e do Feijoeiro Mágico do que pelos caminhos tortuosos da libertação dos povos. Afinal o vietnamita Vo Nguyên Giap, vencedor dos franceses em Dien Bien Phu (1954) e dos americanos na Ofensiva do Tet (1968), nasceu apenas em 1911, permanecendo vivo e aparentemente com opiniões. E Mohamed Ahmed Ben Bella, principal líder da luta pela independência da Argélia (1954-1962) e o primeiro presidente do país, nasceu só em 1918, continuando com a cabeça a laborar. Vou ter de confirmar se Emiliano Zapata foi mesmo abatido em Chinameca pelos disparos traiçoeiros do general Guajardo.

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                Cidade ideal

                Da malha urbana destacam-se as vias, os espaços de passagem, e não tanto os edifícios, que fixam e constrangem. Estes são apenas abrigos, indispensáveis a todos os nómadas, dos quais será sempre possível escapar. Áreas inteiras feitas de corredores e de passagens, de luz e de sombras, de silêncios colossais entrecruzados de estrépitos, como nos jogos de computador. De arquitecturas em camadas num tempo suspenso, que impelem ao movimento como nas obscuras cidades de Schuiten e Peeters. Ruas labirínticas e entrecruzadas, vastas praças-circulares, avenidas infinitas que sobem até às nuvens, mergulhando depois em vales sombrios e pacíficos, rios e canais que são sobretudo linhas de vaivém. Bairros por explorar, sem mapas compreensíveis, com placas toponímicas indecifráveis, pontes enigmáticas, escadas vertiginosas que conduzem a precipícios, desvãos absolutamente inúteis e enganadores. Onde é mais fácil perder-se que encontrar.

                [Publicado em Janeiro de 2006 no desaparecido blogue A Estrada]

                  Devaneios, Olhares

                  Sol, cuecas e sutiãs

                  Secar ao sol

                  A Câmara de Mantes-la-Jolie, nos arredores de Paris, considera que pendurar roupa à janela é «poluição estética» e deve ser proibido. A multa aplicada aos prevaricadores é de 38 euros. Parece que são mesmo alguns dos moradores de classe média da arrumada e linda Mantes que se encarregam de denunciar os seus vizinhos, chegando a remeter fotografias das farpelas delinquentes para as autoridades. O «higienismo paisagista» deixado à solta conduz a alarvidades desta natureza. Esperemos que a Junta de Freguesia de Alfama não se ponha com ideias e deixe as cuecas e os sutiãs do povo na paz das manhãs solarengas.

                    Atualidade, Devaneios

                    A Porta

                    Porta de Brandeburgo

                    Admito que possa ser um sujeito um pouco sensível – e certas vezes irascível, já agora – mas escutar Nicolas Sarkozy a perorar com um ar grave sobre a liberdade dos povos e o derrube dos muros que os separam junto à Porta de Brandeburgo é coisa que me provoca urticária. Aliás a Porta de Brandeburgo, com a sua quadriga rebocando a deusa da Vitória, é  já de si um cenário que incomoda um pouco. Transporta consigo maus presságios. Deviam implodi-la de uma vez por todas e fazer ali uma coisa catita. Um Luna Parque ou assim.

                      Atualidade, Devaneios

                      A verdade deles

                      Pravda

                      Não há volta a dar-lhe: a redacção do Avante! atesta pendularmente a sua visão bicromática do mundo. É-lhe insuportável uma realidade intrincada que escape à cartilha amarelecida e maniqueísta da «luta de classes». É verdade que a Queda do Muro de Berlim e o fim das «democracias populares» não trouxeram a felicidade à maioria daqueles que sob elas viveram. É verdade que muitos dos antigos cidadãos dos países que as experimentaram recordam com ostalgie, perante o desenvolvimento descontrolado de um capitalismo selvagem e agressivo imposto de cima para baixo, a antiga segurança de uma aparente paz pública (apesar de assente na repressão da liberdade e na agressão militar), de um sistema de saúde em regra gratuito (embora antiquado e com escolhas trágicas), de uma educação organizada e exigente (se bem que sectária e confundida com a propaganda), de um emprego garantido (muitas vezes associado a trabalho improdutivo e tecnologicamente obsoleto), de uma autoproclamada grandeza nacional (apoiada em manifestações de força e completamente invisível de fora para dentro). Mas torna-se profundamente patético invocar este descontentamento efectivo e legítimo para defender, uma vez mais sem qualquer exercício crítico, práticas de governação absurdas e regimes despóticos que a história felizmente enterrou. Todavia, é precisamente isso que o jornal do PCP acaba de fazer num artigo, com direito a longa citação do falecido «camarada» Erich Honecker, destinado a denegrir o resultado prático e o valor simbólico da Queda do Muro e a defender a caricatura do socialismo que este supostamente defendia. Ler aqui para crer.

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                        Olá/Hola Ibéria/Iberia!

                        Iberia

                        Aquilo que os esforçados iberistas de Oitocentos não conseguiram através do publicismo, nem Franco obteve por se haver gorado o projecto de invasão de Portugal, está o futebol em vias de materializar. Segundo o jornal A Bola o primeiro passo está dado com a candidatura luso-espanhola à realização do Mundial de Futebol de 2018 (ou de 2022) e agora com a apresentação do logótipo da mesma, «inspirado na obra de um artista luso e outro castelhano (no caso, José Guimarães e Miró)» (sic). Gilbero Madaíl diz ao Record que este «transmite a ideia de união e vontade entre dois países que estão entrelaçados.» Sugere-se assim, graficamente, a hipótese de uma fusão que não deixaria de comover Seribaldo de Mas e Latino Coelho, de exaltar Xisto Camara e Henriques Nogueira, de deixar optimistas Pi i Margall e Oliveira Martins. A Señora Del Pilar e a Virgem de Fátima coligadas nos defendam do que aí vem.

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                          Apaches e franciscanos

                          Apaches

                          Virada então a página, percebo como estas semanas correram rápidas e um pouco estranhas. Vi-me a tomar partido em público, fui a um comício, e acabei até por me deixar envolver ligeiramente na crispação que atinge inevitavelmente as campanhas. Entusiasmei-me moderadamente, indignei-me um pouco, procurando, no entanto, não fazer o pino ou trepar paredes para fazer valer as verdades vacilantes e as convictas dúvidas que vou partilhando. Tal não aconteceu, no entanto, com gente estimável, atulhada de qualidades, inteligentíssima, com trabalho reconhecido, quiçá premiado, que se encheu de certezas e perdeu as estribeiras, tentando levar a montanha a Maomé e quase transformando a luta política, que em democracia apenas deve opor razões, numa carga da cavalaria apache. Influência perniciosa, presumo, do Lado Negro da Força. Ou então do vento suão, que como se sabe nos torna febris e imprevisíveis. Mas como sou admirador moderado de Ghandi, de São Francisco de Assis e da Madre Teresa de Calcutá – embora jamais perca um filme do Exterminador Implacável – estou sempre disposto a rir-me um pouco e a passar à frente. Sem transigir com as minhas óptimas e duvidosas razões, como é bom de ver.

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                            Que mil Cíceros floresçam

                            Cícero

                            Durante a entrevista concedida ao semanário Expresso deste sábado, Judite de Sousa considera que «se recuássemos dois ou três mil anos Francisco Louçã era o Cícero da Grécia Antiga». Sim, falamos de Marcus Tullius Cicero, o versátil romano que foi um grande orador, filósofo, escritor, jurisconsulto e político lá pelo século I a.C. Segundo Judite, Marco Túlio terá também viajado no tempo (aliás, não é preciso ser-se grande erudito para saber que mil anos de décalage para ele eram ginjas). Diz ainda que Obama é «o Cícero contemporâneo». É cada vez mais perturbante a forma como certos pivôs e jornalistas considerados de topo – que deveriam, ao menos estes, possuir uma formação sólida e não se verem como vedetas a quem é permitido dizer qualquer coisinha – ostentam ignorância e proclamam banalidades em estado gasoso como se fossem  pensamentos lapidares. Já quase me esquecia: Judite declara na mesma entrevista ser levada a crer que «José Sócrates emprenha pelos ouvidos». O que não fará dele propriamente um grande Cícero. Nem dela uma especialista em freaks.

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