Arquivo de Categorias: Devaneios

Riso kafkiano

Conta John Banville, no seu livro sobre Praga, que quando Kafka começou a ler excertos de O Processo a um grupo de amigos, foi acometido de um tal ataque de riso, logo à primeira página, que acabou por desistir da leitura. Algo me terá escapado na história soturna de Joseph K.

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    Cinema noir-engagé

    Film Noir

    Segundo o Correio da Manhã, João Botelho está a preparar, em conjunto com a jornalista Leonor Pinhão, um filme que será uma adaptação livre do best-seller Eu, Carolina. De acordo com o realizador, o título provisório é Corrupção, «uma homenagem a Fritz Lang, que dirigiu Big Heat», e pode definir-se desde já como «um filme negro, ao estilo dos policiais americanos dos anos 40». Pinto da Costa e Carolina Salgado estarão, como será de calcular, no epicentro da trama. Conhecendo-se o «ultra-benfiquismo» do realizador e da sua mulher, é de esperar uma obra de cinema noir-engagé.

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      O Alves

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      Era um senhor com um tom voz que vinha do passado e gravatas de nó minúsculo. Capaz de comentar um jogo declarando sem um piscar de olhos, para um país com quase quarenta por cento de analfabetos, que «os garbosos mancebos da Briosa executam com elevado pundonor, e quiçá a maior distinção, um futebol deveras estereotipado.» A frase encontrei-a ontem, copiada a lápis numa agenda de 1965.

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        Bon vieux B.

        Boris Vian

        «Dizer idiotices, por estes dias em que toda a gente reflecte profundamente, é a única forma de provar que temos um pensamento livre e independente.» Para lembrar que anda pelas livrarias Boris Vian por Boris Vian, uma compilação de aforismos – este de 1951 –, alguns deles conhecidos, outros dispersos por manuscritos avulsos, daquela pessoa que se fazia passar por um tal de Vernon Sullivan. Seleccionados por Noel Arnaud, traduzidos por Sarah Adamopoulos e editados pela senhora dona Fenda, convém que se diga. A conservar sobre a mesa de trabalho, numa prateleira acessível da despensa ou no porta-luvas do carro.

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          Rankings

          Fátima arrasa S. Bento da Porta Aberta, Sameiro e Almortão. De acordo com uma jornalista da SIC, numa peça do telejornal cujo tema era exclusivamente esse, o complexo da Cova da Iria encontra-se «em primeiro lugar no ranking dos santuários portugueses» no que respeita à afluência de peregrinos. Em contrapartida, no mês passado Maria Sharapova perdeu o lugar no ranking do ténis feminino para Justine Henin (embora eu talvez prefira Elena Dementieva, que se encontra em décimo mas possui um belíssimo nome).

            Devaneios

            Early Morning games

            Com os netos a brincar um pouco adiante, dois homens – «feitos», como se dizia antes – inventam à minha frente uma vida trepidante. Por alguns minutos não percebi bem do que falavam eles, assim com todo aquele entusiasmo. Apenas o final de uma frase me ofereceu a chave: «Vais pela estrada e paras junto à casa amarela. Sais do carro e entras na floresta. E segues por ali dentro, mas com muito cuidado, por causa dos índios. Mas atenção, que nem todos eles são de evitar! Pelas pinturas de guerra percebes logo que alguns são diferentes. São os da tribo Tanduí, dos quais te deves fazer amigo. Se conseguires, eles integram-te na tribo e, depois de alguns rituais, oferecem-te o anel Mankala. E será com esse anel no dedo que conseguirás aceder ao nível seguinte.»

              Devaneios, Etc.

              Homem-sanduíche

              Uma rapariga com um sorriso atraente olha-me e considera, talvez pelo meu aspecto aparentemente asseado e pelo telemóvel de que me sirvo enquanto caminho, que deverei possuir «um automóvel recente e em bom estado». Parece-lhe-á que também tenho ar de quem «não utiliza parques de estacionamento». Entrega-me então um panfleto com uma proposta objectiva: deixo que o meu carro seja decorado com publicidade – «a imagem de grandes marcas» – e serei remunerado por isso. Em breve, alguém me sugerirá que cole um anúncio da Sony ou da Gillette na mochila e passeie em lugares públicos com ele bem visível. Depois que tatue o logótipo da BMW na testa e sorria com ar cool a quem quer que por mim passe na rua. Serei remunerado por isso, coisa que faz sempre jeito a um funcionário público presumivelmente honesto.

                Apontamentos, Devaneios

                Que povo era esse?

                Povo-MFA

                O velho cartaz de um tempo raro, criador, agora antigo e quase proscrito, desperta uma incógnita. Que povo era esse que se nos apresentava na figura de um lavrador oitocentista arruinado pelo jogo, de um Zé do Telhado em dia de festa, de um jagunço sertanejo, de um Sandokan fora-de-horas viajando incógnito pela margem esquerda da Europa? O imaginário do 25 de Abril e do PREC tem ainda pistas por achar, expectativas por revelar, caminhos (se calhar, um dia talvez calhe) por retomar.

                  Devaneios, História

                  Homem-borboleta

                  a rapariga da lagarta

                  Chamei alguém de caterpillar. Acontece que o alvejado, para além de ser de vez em quando uma pessoa um pouco agreste, é também um erudito. E explicou-me com toda a calma que aquilo que eu lhe queria chamar não resultava bem, como até aquele momento eu pensara, da sinédoque que em inglês aproxima a lagarta do tractor. Entre os aborígenes australianos – ou, pelo menos entre os que ainda confiam nos seus mitos mais ancestrais – caterpillars, disse, são aqueles que voluntariamente voam até aos céus para descobrirem o que existe para além da morte, regressando depois à Terra sob a forma de borboletas.

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                    A barba de Harry Potter

                    Os deuses vivem uma vida muito deles, com a qual nós, comuns mortais, nada temos a ver. Importam-nos sempre as suas intervenções pontuais, coléricas ou benfazejas. Fora desses momentos, porém, nada queremos saber sobre a forma como trabalham, comem e ocupam os tempos livres. Aliás, estão tão distantes que seja o que for que possam fazer apenas podemos aceitá-lo. Mesmo quando se trata de actos da maior brutalidade ou despudor. Mas tal já não acontece com os semideuses. Poucos admitirão, sem se mostrarem contrariados, que um sátiro, protector dos pastores e dos rebanhos, se passe a comportar como um lobo. Ou que uma ninfa estabeleça a sua residência num bairro movimentado e passeie entre nós de headphones nos ouvidos (eu já vi uma, mas deveria tratar-se de uma alucinação). Semideuses, porém, são também aqueles seres extraordinários, homens ou mulheres, que pelos seus feitos, ou pelo seu talento, se destacam do comum dos mortais. E então com estes somos particularmente severos.

                    Não me surpreende, por isso, que pais dos fãs de Daniel Radcliffe, o actor que interpreta no cinema a personagem de Harry Potter, se mostrem agora publicamente escandalizados com o facto deste ter aparecido, na fotografia de promoção de uma peça de teatro na qual participa, abraçado a uma outra actriz, ambos sem roupa da cintura para cima. Daniel é um semideus, e os semideuses não podem anular os traços que os definiram como tal. Deveria, pois, na opinião dos progenitores dos pequenos cinéfilos, permanecer para sempre criança e assexuado. Há uns bons vinte anos atrás, algo de idêntico se passou, quando Julie Andrews, a noviça Maria do patético The Sound of Music (Música no Coração), mostrou os seios a todo o universo no filme S.O.B., deixando prostrados de pasmo e dor aqueles que a viam como preceptora exemplar – e irrepreensível – dos sete filhos do capitão Von Trapp. É sempre difícil aceitar que as figuras que endeusamos são, em larga medida, um produto da nossa imaginação e das nossas egoístas expectativas. E que seguirão o seu próprio caminho enquanto nós permanecemos naquele que escolhemos. Demasiado humanos para deixarmos de precisar do divino.

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                      Da resistência das mulheres-leitoras

                      leitora

                      A deixa de Alberto Manguel tomada aqui como «frase do mês» («Ler será, no futuro, um acto de rebeldia») serviu de mote para um post do Rui Ângelo Araújo que me agrada desde logo pelo título. «Literatura, mamas e rabos» é assunto que me levanta sempre a moral, e verificar que não me encontro sozinho nos gostos mais profundos – a inveja será mesmo o único dos sete pecados mortais que não pratico – é coisa que sinceramente me apraz.

                      Comentar a frase de Manguel pode ser um exercício complicado. Até porque – não está ali mas está em tudo aquilo que o argentino diz ou escreve (e também na entrevista ao El País de sábado da qual a retirei) – ele se reporta a um tipo de leitura considerada pelo ex-guru do digital Nicholas Negroponte, há mais ou menos uma década atrás, como exercida no domínio dos «átomos». Em papel. Na forma de livro, de revista ou jornal. Será pois no território de sobrevivência deste género tendencialmente minoritário de leitura que Manguel parece conceber a constituição gradual de ilhotas de resistentes. Sobranceiros, eventualmente conservadores, estranhíssimos sem dúvida alguma, mas resistentes.

                      Mas o post dos Canhões de Navarone parte daqui para um outro assunto que fez soar em mim uma campainha. Para o poder referir, vou-me travestir por brevíssimos instantes de um daqueles simpáticos jovens que, a troco de alguns euros, efectua inquéritos para sondagens públicas. Pela parte do mundo que vou cruzando, e da qual vou mentalmente procurando anotar as práticas e costumes, sou levado também a concluir que as mulheres lêem mais que os homens. Ou melhor, lêem muito mais que os homens. Não sei se será por uma questão de sensibilidade, de distribuição mais racional dos horários, de inteligência, de concentração nas coisas essenciais, mas parece-me ser assim. E assim sendo, se o cenário se não alterar, um papel decisivo na condução da futura resistência dos humanos-leitores estará necessariamente nas mãos delas. Parece-me um belíssimo cenário e, se puder, cá estarei, junto com as minhas dioptrias, para nele partilhar a resistente existência.

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                        Nostalgia de um tempo por vir

                        Nostalgia
                        As canções de vinte e dois minutos
                        não existem mais. As saias-calça de bratzuanza
                        desapareceram. Os sabonetes Ipogorum
                        não se encontram. Os pneus das naves não são mais
                        feitos de carbo-chips. Ninguém usa ventosas
                        na roupa para andar de rodaloz. Os painéis
                        de leitura já não abrem com o clique de voltagírio.
                        E as casas ai as casas deixaram de cheirar
                        a mengapuzes assados.

                        Originalmente em Sous les Pavés, la Plage!

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                          Inacção

                          O lugar-comum sugere a repetição, o movimento que se ausenta. «A ideia de se instalar nos lugares, lugares tranquilos», escreveu uma vez Olivier Rolin. Vales sombrios de longo cativeiro e de torpor. Distantes de outros vales, de margens nunca vistas, de hábitos ignorados, de horizontes que permanecerão por descobrir.

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                            A luz da noite

                            Quase deixámos de usar a expressão «triste como a noite», confinada à métrica das chulas e dos fados vadios que resistem. Longe das aldeias despovoadas, fora das vielas onde já só dormem mendigos, bêbedos e drogados, a noite deixou de ser apenas silêncio, breu, território de caça para imitadores de Bela Lugosi e de Christopher Lee. Como um tempo para a melancolia e para a depressão. É o dia que agora nos atemoriza e entristece.

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                              O enermúgno

                              Uma das minhas fantasias inaugurais – viver em ambiente rústico dentro da cidade – jamais a preencherei. Despertar pela manhã com as galinhas da quinta. Adormecer com o ladrar distante de um rafeiro. Sentir, como o ultra-romântico, os ramos da nespereira roçando a vidraça, «empurrados pelo vento». Mas também caminhar quinhentos metros, passar o portão de ferro, e, quase anónimo, poder comprar o diário, a eau de toilette preferida, o livro que saiu ontem, uns sapatos de camurça. Infelizmente terei de me conformar a viver no apartamento periférico, eternamente cúmplice das embraiagens dos automóveis a tentarem estacionar e da gritaria dos desvairados nocturnos. Esta madrugada foi assim que acordei: dois sujeitos que discutiam na rua sob o efeito do sono, do álcool, talvez do ciúme, ou de qualquer outra causa ou sentimento. O mais afirmativo gritava alto, exaltado, repetindo o impropério: «És um enermúgno, tás a ouvir! Um enermúgno, pá! Não passas dum enermúgno, seu enermúgno!» O insultado mantinha-se em silêncio e remoía, com os olhos no chão e incapaz de argumentar. Admitindo o tom de voz do companheiro ou a grandeza do neologismo.

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                                O amor em fascículos (4)

                                o verdadeiro libertino
                                O século de Setecentos descobre o amor libertino (do latin libertinus, liberto). Em Les Liaisons Dangereuses (1782), de Choderlos de Laclos, o visconde de Valmont e a marquesa de Merteuil, os dois personagens centrais, haviam sido amantes. Após a separação, permanem cúmplices e rivais, divertindo-se a contarem ao outro as aventuras de alcova, dando-se conselhos, sugerindo-se conquistas. Aqui, os «grandes sentimentos» cedem o lugar aos jogos do poder pessoal, às estratégias de sedução, à centralidade e à fugacidade da volúpia. O fictício Don Juan, como o vero Casanova, são as figuras arquetípicas desta forma de amor que se não detém na contemplação ou na entrega incondicional. Fruindo as suas obsessões num jogo do qual detêm, na perfeição, os códigos e as argúcias. Permanecendo como modelos de uma sensualidade extrema e teatral, que se crê sem entraves e que, no limite, não reconhece o afecto ou mesmo o crime.

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