Arquivo de Categorias: Devaneios

♪ Last Goodbye (um post triste)

escarletxi

Miss Johansson, a moçoila trigueira que impressiona favoravelmente 90% dos homens de meia-idade (e 89% dos outros), afinal canta um bocadinho pior ainda – ah, aquele «it’s over, it’s over» em re sustenido maior! – do que cantava outrora a Dra. Marilyn. Estarei errado?
[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/02/17-scarlett_johansson-last_goodbye.mp3]

    Devaneios, Etc., Música

    De Ur a Alguidares de Baixo

    J. L. Saldanha Sanches disse a noite passada no programa de televisão da outra senhora que «não há obras públicas sem saco azul». Faz parte da ordem natural das coisas e não existe crise económica ou política antidespesista que a possa contrariar. É assim pelo menos desde o tempo dos sumérios e dos seus construtores de zigurates. Porque haveríamos nós de ser diferentes?

      Apontamentos, Devaneios

      It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World

      Mad, mad, mad, mad world

      Obama «não tem a letra M nas suas iniciais». Não tem mas deveria ter. Sim porque «M poderia ser» o de Martin Luther King, o de Mahatma Ghandi ou o de Mandela. E também porque o M de Obama é, «à escala nacional», o M do Movimento Esperança Portugal, e, claro o de Marques, o seu Meritório presidente. Porque ambos concitam «dois grandes desígnios», que são «Esperança e Mudança». E é afinal no MEP – não esqueçamos, o prometedor partido de Laurinda «M» Alves («Quisque cursus ligula ut nunc»?) – que se reúnem, em Portugal, «aqueles que em conjunto com muitos outros deram a vitória a Obama». Tudo isto (e muito mais) é-nos revelado, «como o devido respeito» (como diria Manuel Monteiro, outro Maluco da política que também abusa do M), aqui na página oficial do MEP. [sigam ambos os links que não se arrependerão]

        Apontamentos, Devaneios

        Figuras de linguagem

        Pensador

        «Alberto João Jardim vai estar no dia 23 no Clube dos Pensadores.» Não sei bem qual a figura de linguagem que poderemos aplicar a esta frase que chegou e à situação que ela indicia. Será o paradoxo? Será o eufemismo? O disfemismo? Talvez a hipálage, essa atribuição a um ser ou coisa de uma qualidade ou acção pertença de outro ser? A personificação, porventura? E a hipérbole, a sinestesia, a alegoria? Servirá alguma delas? Ou será preferível o animismo, que impõe a concessão da vida a seres inanimados? Talvez uma apenas, ou todas elas? A escolha é difícil, mas jamais servirá a ironia. Será melhor pensar com calma.

          Atualidade, Devaneios

          Footurismo

          O futuro

          Portugal associou-se hoje à Espanha para lançar uma candidatura conjunta ao Mundial de Futebol de 2018. Confesso que nesta altura tenho dificuldade em pensar em qualquer coisa projectada para um futuro tão remoto, mas talvez seja por isso que não sou presidente da Federação nem me deixam entrar no clube de bridge. Quem tenha a capacidade previdente de projectar com antecipação aquilo que os outros irão sonhar no futuro sabe muito bem que o mundo pula e avança com bolas coloridas (e operações financeiras de longa duração). Além de que nessa altura já teremos o TGV em condições de darmos um saltinho a Barcelona a ver a bola, regressando a casa a tempo de ver o Prós e Contras. Construir o futuro é isso mesmo, antever. E depois há que continuar a trabalhar, levantar a cabeça e olhar em frente. Nós, maledicentes e esquerdistas, é que não estamos a ver a coisa e só temos pensamentos negativos. Mas calar-nos-emos quando ouvirmos o ruído das obras e virmos o povo em êxtase, a saltar, a saltar, as bandeiras a abanar.

            Atualidade, Devaneios, Olhares

            Gente imensa

            Intelectuais

            Em Intellectuals – um livro já com mais de vinte anos, pronto agora a sair em edição portuguesa – o historiador e jornalista britânico conservador Paul Johnson inventaria as características recorrentes que considera próprias de quem vive aquela condição. Serão estas, aliás, que quase sempre as transformam em figuras públicas, muitas vezes singulares e admiráveis, mas que na vida privada se transmutam em seres falíveis ou execráveis. Eis algumas dessas qualidades-natas (por ordem alfabética para que ninguém se sinta prejudicado): agressividade, ambição, auto-comiseração, auto-convencimento, cobardia, credulidade, crueldade, egoísmo, falsidade, hipocrisia, indolência, ingratidão, intolerância, irascibilidade, manipulação, misantropia, oportunismo, rudeza, snobismo e vaidade. É preciso ser-se imenso, e ainda imensamente competente, para aguentar com tanto atributo em cima.

              Devaneios, Etc.

              A voz do povo

              Tintim e Haddock

              Que me perdoem os companheiros bloggers que voltam à carga, perplexos ainda, ou confiantes na singularidade da descoberta, sobre se Tintim, um dos nossos heróis do século XX, era ou não era gay. Mas qual é a dúvida se, ao digitarmos «tintin gay», o Google resolve devolver-nos 455.000 links?

                Democracia, Devaneios, Etc.

                Proletas

                O Proletário

                N’A Bola de ontem: «[O goleador Liedson] atingiu a marca de Yazalde, homem que nasceu num bairro pobre da Argentina, vendeu jornais, depois bananas e mais tarde ganhava a vida a picar gelo. Até nisso há algo de semelhante entre ambos: não há muito era Liedson repositor de armazém…»

                  Devaneios, Etc., Recortes

                  A FNAC não tem cheiro

                  O Leitor

                  Bem sei que a imagem está corroída até à carcaça, mas a vida nunca é feita de experiências únicas. Sempre tive uma espécie de fixação lasciva no papel impresso. Mantinha estimulantes experiências olfactivas quando na camioneta das seis da tarde chegavam à loja, atados com um cordel de sisal e de rótulo fixado com uma cola escura, feita à mão, os rolos de jornais impressos em Lisboa na madrugada anterior. Outra, mais preciosa, encontrava-a nos fundos de uma casa de ferragens que vendia também artigos de papelaria, quando lá ia dar cabo das economias da semana em revistas de quadradinhos e carteiras de cromos. Logo que comecei a frequentar livrarias e bibliotecas que não conheciam ainda o vício da limpeza a aspirador de alta voltagem e a modernice da desinfestação química, passou a dar-me um prazer particular sentir aquele cheiro único a folhas novas e usadas, cobertas de imagens e sinais, capas coladas ou cosidas, mapas e cadernos, dedadas das pessoas, aparas de lápis e marcas de insectos. Elas transformaram-se então em alcovas peculiares, lugares para a consumação do vício solitário da leitura, da contemplação orgástica das pilhas dos livros, da apalpação das lombadas. Ainda me entrego silenciosamente a tais práticas, admito, em certos alfarrabistas, em velhas livrarias de província, e noutras, raras, que vou encontrando fora de portas. Existe por isso qualquer coisa de estranho, de enfadonho, insípido e incolor, nas estantes dos hipermercados de livros: elas já não têm sovacos, não cheiram, e, por isso, não dão gozo. Vício antigo e que vai desaparecer, o papel impresso é como aquelas meias de vidro com forte percentagem de fibra e costura na parte de trás, que fazem um ruído peculiar quando roçagam uma na outra: estão fora de moda mas não deixam de abrasar. Ou estarão de novo na moda e eu, demasiado concentrado na leitura, ainda não dei por isso.

                    Devaneios, Memória

                    ♪ É ou não é?

                    Rui Reininho

                    O Rui Reininho é, admito, um rapaz da minha geração. Ou é um rapaz, ponto – . –, pois sou ligeiramente mais velho e, posso apostar duas minis, enquanto ele aprendia a soletrar já eu multiplicava as dezenas. Talvez por isso me amolece ouvi-lo agora, do lado de cá do milénio, com rugas, cabelos brancos e a voz completamente fanada. A arfar quase tanto quanto eu quando subo três lanços de escadas. Transmutando uma cantiga parvinha e preguiçosa (as Doce, lembram-se?), numa canção pop triste e enorme. E 100% nocturna. É ou não é?

                    Música: Rui Reininho – Bem Bom [Companhia das Índias]
                    [audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/12/04-rui_reininho-bem_bom.mp3]

                      Apontamentos, Devaneios, Música

                      Silly season II

                      Silly

                      Toda a gente lembra na altura o impacto da silly season, mas são menos os que dão o devido valor à sua sequela natalícia. Nesta época do ano multiplicam-se de novo as trivialidades, os desejos de «muita paz no mundo», as receitas de cozinha que zombam do controlo do colesterol e as reportagens sobre personalidades que supostamente devemos admirar por dedicarem parte da sua vida a tarefas caritativas e a eventos de sociedade.

                      Um bom exemplo encontra-se no número de Dezembro da revista Homem Magazine, em larga medida dedicado à figura mortalmente enfadonha e desengraçada de Carlos de Inglaterra. Leio a secção de «perguntas indiscretas» e sinto-me de novo em Agosto:

                      Pergunta: Conhecido ambientalista, por que razão o Príncipe de Gales conduz um Bentley e é proprietário de um Aston Martin?

                      Resposta: Não é escolha do Príncipe deslocar-se num Bentley. O automóvel é necessário para alguns compromissos por razões de segurança (…). Normalmente o Príncipe e a Duquesa da Cornualha deslocam-se num carro oficial, um Jaguar XJ Diesel. Também se desloca em carros diesel quando está no campo.

                      Pergunta: É verdade que o Príncipe de Gales tem sete ovos cozidos à mesa do pequeno-almoço, embora coma apenas um?

                      Resposta: Não é verdade agora, nem nunca foi.

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                        Uma canção de Natal

                        Bing Crosby

                        Uma das mais enfadonhas canções de Natal – que escuto sempre com uma certa sensação de entorpecimento físico e mental – é também uma daquelas que mais continua a ouvir-se como fundo sonoro dos corredores dos pequenos, médios e grandes centros comerciais para o mês de Dezembro. Tanto tempo depois de surgir, em 1942, no musical Holiday Inn (um filme só com brancos que a televisão portuguesa de canal único passou dezenas de vezes), White Christmas, de Irving Berlin, permanece, na voz branda e xaroposa de Bing Crosby – ou em outras mil versões –, como «sinónimo de Natal» e um dos temas fora do tempo que, a par da Silent Night ou de Let It Snow, somos forçados a ouvir até à náusea nas voltas consumistas que a quadra nos obriga a dar. Nada tenho contra o Natal e o seu «espírito», mas, honestamente, preferia vivê-los ao som de Paranoid.

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                          Pronúncia do norte

                          A mais extrema miscigenação cultural já chegou aos nossos call-centers. Hoje atendeu-me uma menina da «assistência ao cliente» da Zon que combinava claramente, e com toda a tranquilidade, a fala da zona sul da cidade de Dnipropetrovsk com o mais lídimo sotaque tripeiro da freguesia de Santo Ildefonso. Para além de me ter falado umas vinte vezes da necessidade de «restauracionar» o software.

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                            Não há país como o meu

                            Mercedes-Benz

                            Hoje não fui «para Tábua», mas parei à beira da estrada para almoçar num daqueles restaurantes onde é sempre possível encontrar um certo e determinado padrão de português: aquele para quem os prazeres da vida não mudaram muito desde os tempos do Doutor Oliveira do Vimieiro. O bacalhau com todos continua a ser o bacalhau com todos, a Água das Pedras a Água das Pedras, o Benfica o Benfica, e o leitão da Bairrada o leitão da Bairrada. Parei pois a pileca num daqueles comedouros nos quais, logo à entrada, percebemos não estar na Finlândia ou em Singapura: homens morenos, de bigode farto e fato domingueiro, em idade de pré-reforma, as esposas com aspecto de esposas a quem o caro-metade apresenta sempre como «a minha senhora» (para não a confundirem com «a outra»), nem um único jovem à vista e meia dúzia de crianças com ar de quem espera desesperadamente por crescer para se livrarem daquela chatice domingueira.

                            Claro que eu ia também à procura do meu pleonástico lacãozinho, mais a sua pele crocante, mas tive um mau pressentimento quando vi à entrada um grande pano anunciar o «Convívio de Natal dos Amigos dos Mercedes». E mal entrei no estacionamento reparei no contraste entre a minha viatura utilitária amolgada do lado direito e a enorme quantidade de automóveis orgulhosamente reluzentes – prateados, brancos, pretos, grenás – da mesma marca da qual a Janis Joplin pedia ao Senhor um só para si («Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz? / My friends all drive Porsches, I must make amends»). Mas sou um bocado distraído e não liguei. Lá dentro, contudo, percebi logo que a fauna era outra que não a costumeira: homens morenos, de bigode farto e fato domingueiro, em idade de pré-reforma, mas todos com os sapatos convenientemente limpos e reluzentes, as esposas com aspecto de esposas a quem o caro-metade apresenta sempre como «a minha senhora» (para não a confundirem com «a outra») ostentando vistosos colares de pérolas, nem um único jovem à vista e meia dúzia de crianças com ar de quem espera desesperadamente por crescer para se livrarem daquela chatice domingueira. O ruído era enorme, o cheiro a perfume era intenso, a única mesa livre ficava junto aos lavabos, e não tive outro remédio senão dar meia volta e partir à procura de outro poiso. Trauteando mentalmente: «Worked hard all my lifetime, no help from my friends, / So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?». Não há nada como um domingo de chuva na estrada. E não há país como o meu.

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                              Laika

                              Laika

                              O partido-da-língua-de-pau não muda. Enquanto os outros apoiam ou aplaudem, ele «saúda» sempre. E se os cumprimentados o merecerem, «saúda calorosamente». Quando os restantes definem metas, ele possui «objectivos claros». Se os mais falam da experiência que vão ganhando, ele diz «a vida ensina». Quando os outros apresentam ideias ele «reafirma a sua base ideológica». Se falam de discussão, ele prefere «um amplo e profundo debate». Se organizam encontros, ele prepara as coisas em «1600 reuniões ou plenários, nos quais participaram mais de 26000 militantes». Enquanto se esgrimem posições, ele dá logo «uma resposta inequívoca». Quando os outros reestruturam, ele promove um «reforço da organização». Chama os fascistas de «fâchistas». Creio mesmo que prefere ainda designar o espaço de «cosmos». E os mais indefectíveis militantes continuarão por certo a relembrar como Лайка a saudosa cadela Laika.

                              Adenda: A Gestapo encorajava alguns prisioneiros que suspeitava de serem comunistas a escreverem pequenos artigos. O objectivo era confirmarem a sua filiação pela análise da linguagem. Uma tarefa fácil, diziam os agentes.

                                Devaneios, Etc.